"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Há muita falta de memória na política

Por esta altura, todos os anos, é notícia o apelo à participação no desfile do 25 de Abril. Por esta altura, todos os anos, ficamos a saber que alguns dirigentes do PS e outros democratas subscrevem um texto com criticas ao Governo, que, de vez em quando, dá-se a coincidência de ser do PS. Pois bem, pelo segundo ano consecutivo tentei encontrar o tal apelo na net e estranhamente nunca se encontra, para além de ficarmos a saber que a LUSA teve acesso ao mesmo. Na página da Associação 25 de Abril, nada e por mais que se procure, nada. Claro está que o facto de serem 600 subscritores dá que pensar. Foram os subscritores todos contactados para saber se se reviam no texto deste ano ou, pelo contrário, quem tiver sido subscritor uma vez, sê-lo-á para sempre?
(como se usa dizer agora, devo fazer uma declaração de interesses: tento ir sempre aos desfiles e levo o assunto a sério)

quinta-feira, 9 de abril de 2009


“It is not down in any map; true places never are.”
Herman Melville

O Estado de direito tem dias

Não sei se estão recordados, mas aqui há uns tempos andou por aí uma grande indignação com a introdução dos chips nos automóveis – em mais um exemplo típico do funcionamento em ondas da blogosfera, com os seus incansáveis amplificadores selectivos. Estou à vontade, pois sobre isso, na altura, escrevi isto. Mas confesso a minha surpresa quando os mesmíssimos que batiam então com a mão no peito em defesa do Estado de direito, não se importam agora de o suspender momentaneamente para criminalizar o enriquecimento ilícito. É que convém não esquecer, a presunção de inocência e a não inversão do ónus da prova são o que ainda vai restando para os inocentes se defenderem da inclinação para a prepotência da acusação pública, desde logo do Ministério Público português, mas, também, da comunicação social.
A corrupção e a incapacidade de produzir prova que a confirme estão a minar a democracia portuguesa, mas, não menos do que as suspensões quotidianas do Estado de direito. Como lembra o Tomás Vasques, o combate contra a prepotência do Estado sobre o indivíduo é o principal combate pela democracia. Em Portugal, esse combate parece ter dias.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Digest

I do not suggest that capitalism will disappear any more than war has. Complex, interconnected market economies will continue to generate huge surpluses, fuelled by the continuing flow of new scientific knowledge. But just as monarchy moved from centre stage to become more peripheral, so capitalism will no longer dominate society and culture as much as it does today. Capitalism may, in short, become a servant rather than a master, and the slump will accelerate this change. Past depressions were cruel but they also hurled ideas from the margins up into the mainstream, speeding their motion through the three stages that Schopenhauer described happening to all new truths, being first ridiculed, then violently opposed, then treated as self-evident.
(...)
The result is that a large political space is opening up. In the short run it is being filled with anger, fear and confusion. In the longer run it may be filled with a new vision of capitalism, and its relationship to both society and ecology, a vision that will be clearer about what we want to grow and what we don’t. Democracies have in the past repeatedly tamed, guided and revived capitalism. They have prevented the sale of people, of votes, public offices, children’s labour and body organs, and they have enforced rights and rules, while also pouring resources in to meet capitalism’s need for science and skills, and it has been out of this mix of conflict and co-operation that the world has achieved the extraordinary progress of the last century.

Geoff Mulgan, After Capitalism, na Prospect de Abril (um artigo com uma componente não despicienda de wishful thinking, mas que vale bem a leitura)

Eppur parenti siamo un po´di quella gente che c'e' li'



Eppur parenti siamo un po'
di quella gente che c'e' li'
che in fondo in fondo e' come noi, selvatica,
ma che paura ci fa quel mare scuro
che si muove anche di notte e non sta fermo mai.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O curto-circuito do europeísmo

Se mais evidência fosse necessária, os últimos meses têm servido para revelar a crescente importância para a política doméstica da política europeia. Esta asserção, se bem percebo, tem sido o núcleo duro do discurso para as eleições Europeias do PS: a singularidade do PS em torno do europeísmo é não apenas uma questão supranacional, mas, também, uma marca distintiva da política nacional do partido. Se assim é, as “regras” e as clivagens típicas da política doméstica são transferíveis para a disputa europeia e vice-versa. Desde logo porque esquerda e direita, centro-esquerda e esquerda têm visões bem diferentes sobre o papel das políticas públicas europeias, por exemplo, na resposta à crise. Ora é por isso que a defesa da eleição de Durão Barroso para mais um mandato a presidir à Comissão Europeia produz um autêntico curto-circuito na linha argumentativa do PS para as europeias. Por um lado, sugere que talvez seja boa ideia que o PPE vença as eleições, pois essa vitória garante a continuidade de Barroso; por outro, indicia que afinal o argumento político de base pode ser suspenso e/ou secundarizado face a uma outra clivagem mais relevante: a nacionalidade.

Digest

A propósito da visita de Obama à Europa, este editorial do LA Times coloca o dedo na ferida ao sublinhar que a responsabilidade está agora do lado da Europa (e há boas razões para cepticismo em relação à capacidade europeia de responder à altura): "words matter, and the respect that Obama engendered on this trip is key to reclaiming U.S. global leadership. Obama even exercised that leadership when he gently scolded Europeans for espousing what he called casual but insidious anti-Americanism. He urged them to acknowledge "the fundamental truth that America cannot confront the challenges of this century alone, but that Europe cannot confront them without America." Obama's challenge is to transform that partnership into concrete support from the Europeans, who must rise to the occasion and no longer blame President Bush's unilateralism for their unwillingness to help."

Sobre a visita à Turquia vale a pena ler este artigo no NYTimes, de um antigo correspondente de um jornal turco nos EUA, chamando a atenção para o modo como Obama soube ultrapassar visões simplificadoras da realidade turca que dominaram o modo como os EUA e, por arrasto, o Ocidente olharam para a Turquia nos últimos anos: "In our eternal identity crisis, we Turks have lately been thinking only in opposites — that you are either secular or religious, Kurd or Turk, European or Middle Eastern. It took a young foreign leader on his first visit here to remind us that we are all of those things, and much more."

O resto da agenda

"Mesmo que se avançasse muito na institucionalização da regulação global, que os estímulos à procura fossem bem mais significativos e que os recursos financeiros do FMI fossem ainda maiores, não seria nem suficiente para ultrapassar a situação em que nos encontramos, nem serviria para garantir que os desequilíbrios sistémicos não regressariam com igual vigor, passado pouco tempo. Há, na verdade, um tema que, sendo uma causa determinante da actual crise, tem, contudo, ocupado um papel marginal na agenda política."

para saber qual o tema que tem sido marginal nas discussões recentes, aqui fica o link para o meu artigo de hoje no Diário Económico.

Viva l'Italia



l'Italia con gli occhi aperti nella notte triste,
viva l'Italia, l'Italia che resiste.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

O estado da cooperação estratégica

Não há volta a dar, a cooperação estratégica entrou em estado pré-comatoso. Basta ler o prefácio aos Roteiros do Presidente. Logo no início, Cavaco Silva afirma que “todos os esforços devem estar centrados na recuperação do atraso económico” e que “é de todo incompreensível que a agenda política seja desviada para temas que provocam fracturas na sociedade portuguesa, que dividem os Portugueses e distraem a sua atenção da resolução dos problemas nacionais”. Imagino que esteja a falar do casamento entre pessoas do mesmo sexo (esse horror civilizacional) e do estatuto político administrativo dos Açores. Mas tirando o facto de os exemplos serem retirados do último ano, trata-se do mesmo apelo de sempre à despolitização da, passe o pleonasmo, disputa política. Nisso Cavaco Silva nunca surpreende: o que é mesmo necessário é que nos entendamos todos. De preferência em torno daquilo que o Presidente acha que são as prioridades para o país.
Senão veja-se: na semana passada, o Ministro das Finanças disse com clareza que a prioridade era o combate ao desemprego, Cavaco Silva valoriza a dívida pública – não há outra leitura possível da frase: “É importante que os poderes públicos tenham presente a situação em que se pretende que o País se encontre quando a crise financeira internacional estiver ultrapassada, de modo a que as possibilidades de desenvolvimento futuro não fiquem comprometidas”.
São naturalmente duas opções divergentes e politicamente legítimas, mas que sugerem que a cooperação é virtuosa desde que seja em torno da agenda do Presidente. Além de que Cavaco Silva faz lembrar a Senhora Merkel, mais preocupada com a crise que se pode seguir a esta, do que em responder aos problemas que enfrentamos, de facto, hoje.
No fim fica a promessa: “Na situação que o País atravessa, o Presidente da República não pode limitar-se ao diagnóstico, havendo que ter presente, no entanto, que não lhe cabe legislar ou governar. Nesse sentido, tenho procurado apontar o caminho que Portugal deve seguir para ultrapassar a quase estagnação em que tem vivido”.
Como os caminhos apontados começam a ser suficientemente diferentes dos do Governo, podemos esperar dois efeitos: o fim da cooperação estratégica com o Governo; e a subalternização da oposição partidária, que tenderá a viver cada vez mais debaixo do chapéu presidencial. Ou seja, dois efeitos indesejáveis que, em ano de várias eleições, não auguram nada de bom.

Juntaram os trapos

Os meus amigos Pedro Marques Lopes e Bernardo Pires de Lima vivem em união de facto. Nada que me espante. Agora é que se vai perceber que, no fundo, no fundo, e por mais que disfarcem, são dois bons rapazes de esquerda.

Momentum


Os Grizzly Bear não começaram ontem. Mas, vá lá perceber-se porquê, há alturas em que as circunstâncias se tornam mais propícias para certas bandas. Depois do sucesso dos Fleet Foxes, deve estar tudo pronto para que 2009 seja o ano dos Grizzly Bear. O álbum novo chama-se Veckatimest e, apesar de só sair no final de Maio, já “anda” por aí. Talvez o “leak” tenha ocorrido demasiadamente cedo e o disco não se aguente até à altura que pode ser divulgado (a própria banda queixa-se), mas posso garantir, é um disco feito para os dias que correm: procura inspiração na música tradicional americana, ao mesmo tempo que, nas margens de cada canção, vai tentando subvertê-la. A fórmula tem garantido sucesso nos últimos tempos. E ainda bem.
(Este Two Weeks, que já estava num EP, tem na versão em disco a vantagem de ser acompanhado pela voz de Victoria Legrand, dos Beach House. No SXSW tocaram juntos).

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A merda está imparável


Alguém resolveu explorar os recursos disponibilizados pela nova plataforma do Guardian online e testou até que ponto o emporcalhamento da língua inglesa chegou a um jornal de referência. Os resultados são relativamente surpreendentes - tem havido uma notável resistência à contaminação da seriedade pela obscenidade. Olhando para uma série dos últimos dez anos:
a) a utilização dos palavrões tem crescido lentamente, todos os anos;
b) em 2001 houve uma estabilização do uso de impropérios, sendo que a utilização de "bastard" desceu após 2001 - provavelmente um efeito do 11 de Setembro - momento após o qual se assistiu a um aumento do uso de todos os outros impropérios.
c) "wank" tem apresentado uma performance medíocre na última década, e "cock" tem tido um comportamento "flat".
d) a merda cresceu de modo desproporcionado e consistente dede 2005, enquanto "fuck" foi tão longe quanto lhe é possível.
Conclusão: desconheço as margens de erro, mas lá como cá, a merda parece estar a crescer a um ritmo imparável.

Digest

"For more than 30 years in economic journalism I have written about many summits. Their job has been to rubber stump the Washington consensus, and offer an illusory picture of collective action and grip – when the truth has been "market states" running up the white flag before the ever advancing battalions of global finance. This summit is decisively different – the most substantive of its type since 1944. It offers a break with the Washington consensus, free market ideology and financial turbo capitalism – and is assembling the world around a new order and set of ideas."

Will Hutton, "G20: Best summit since 1944" (uma leitura bastante optimista dos resultados da Cimeira de ontem)

" In the early years of this decade, China began running large trade surpluses and also began attracting substantial inflows of foreign capital. If China had had a floating exchange rate — like, say, Canada — this would have led to a rise in the value of its currency, which, in turn, would have slowed the growth of China’s exports. But China chose instead to keep the value of the yuan in terms of the dollar more or less fixed. To do this, it had to buy up dollars as they came flooding in. As the years went by, those trade surpluses just kept growing — and so did China’s hoard of foreign assets."

Paul Krugman, "China's dollar trap" (que apesar de reconhecer que a Cimeira superou as expectativas - "realistically, most big-time international meetings produce nothing; this did something significant." - continua a colocar o dedo na ferida: as relações económicas entre uma China com super-avit comercial e com uma moeda desvalorizada e uns EUA com défices comerciais "crónicos")

God help the girl



O side-project de Stuart Murdoch, um álbum conceptual, escrito enquanto ouvia vozes de raparigas. Nas palavras do próprio: "I was out for a run and I got this tune in my head and it occurred to me that it wasn't a Belle & Sebastian song. I could hear female voices and strings, I could hear the whole thing, but I just couldn’t envisage myself singing it with the group.” Este video mostra o making of da coisa e ou sou eu que estou enganado ou o Neil Hannon dos Divine Comedy aparece no fim do video.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A justiça subjectiva

Nas últimas 48 horas percebeu-se onde tudo isto ia afinal dar. A Lopes da Mota, que está no Eurojust mas, veja-se lá, foi membro do Governo de António Guterres. Há desde logo aqui uma singularidade nacional: os comportamentos de hoje são invariavelmente avaliados com base no passado. Em Portugal ninguém “é”, toda a gente “foi” e o que se faz ou diz em cada momento é resultado do “foi” e não do “é”. Bem, Lopes da Mota está, de facto, envolvido com a equipa que “investiga” o processo Freeport e terá sugerido – já nem sequer encontro a notícia onde li isto – um arquivamento do mesmo. Uma mera sugestão processual, com base legal. O problema é que para pressão, e na fase em que estamos, não é propriamente uma grande ajuda para José Sócrates. Um arquivamento por motivos formais, não é a melhor das saídas. Para que o ar se torne minimamente respirável, é necessário que seja apurada toda a verdade dos factos. Mas, e tendo em conta que já vi este filme a passar numa sala de cinema mesmo ao lado desta, não há motivos para estarmos optimistas. Como lembra o Tomás Vasques, “os mestres pensadores já fizeram a investigação, a acusação, a produção de prova, o julgamento e a condenação ou a absolvição. E, assim sendo, a justiça tem de acompanhar o que lhes parece evidente.” No fim de tudo, resta o PS, que sempre que é confrontado com dificuldades sérias, revela-se uma espécie de partido. Em lugar de produzir um argumento e de dizer algo de substantivo sobre os procedimentos da justiça em Portugal, o que tem para oferecer é uma defesa da pessoa de José Sócrates (de acordo com Alberto Martins, uma “pessoa de bem e corajosa"). A consequência é que estamos condenados a uma competição entre avaliações subjectivas de caracteres e a decretar a inocência ou culpabilidade nessa base, quando o que precisamos é de um Estado de direito que funcione e que seja capaz de investigar com celeridade e apurar a verdade com recato e não ao sabor das campanhas mediáticas. Aliás, a continuarmos como até aqui, em Portugal não serve de nada ser uma pessoa de bem e corajosa, pelo que serve de muito pouco que isso seja afirmado em defesa de alguém.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Digest

"This is not a path towards a durable exit from the crisis. It is a path on which the fiscal deficits needed to offset persistent current account deficits, and collapsing private spending in external deficit countries, continue indefinitely. Unless and until surplus countries recognise that this cannot continue, no durable escape from the crisis will be achieved. Understandably, but foolishly, they are unwilling to do so.
So what is to be done? That must be a central agenda item of the next G20 summit. The world economy cannot be safely balanced by encouraging a relatively small number of countries to spend themselves into bankruptcy. The answer lies partly in changing the policies of surplus countries. But it lies as much in rethinking the international monetary system. The case for sizeable and ongoing allocations of special drawing rights – the IMF’s reserve asset – is powerful, as, among others, Zhou Xiaochuan, governor of the People’s Bank of China, has argued in a fascinating recent paper*. I hope soon to return to this huge challenge and opportunity. In the meantime, the G20 summit is largely dealing with the immediate symptoms of the illness. Finding a longer-term cure for chronic global excess supply still lies ahead."

Martin Wolf, Why G20 leaders will fail to deal with the big challenge (um artigo céptico em relação aos resultados da reunião do G20 de amanhã, que podem não passar de uma receita que prolonga os desequilíbrios globais de hoje).


"Some Americans are afraid that the government might temporarily “nationalize” the banks, but that option would be preferable to the Geithner plan. After all, the F.D.I.C. has taken control of failing banks before, and done it well. It has even nationalized large institutions like Continental Illinois (taken over in 1984, back in private hands a few years later), and Washington Mutual (seized last September, and immediately resold).
What the Obama administration is doing is far worse than nationalization: it is ersatz capitalism, the privatizing of gains and the socializing of losses. It is a “partnership” in which one partner robs the other. And such partnerships — with the private sector in control — have perverse incentives, worse even than the ones that got us into the mess."

Joseph E. Stiglitz, Obama’s Ersatz Capitalism (uma defesa da nacionalização da banca norte-americana como meio mais eficaz - também na repartição de custos - para revigorar o sistema financeiro e ressuscitar a economia).

Há muito tempo que nesta latrina


O sr. Domingos Névoa - o tal para quem corromper compensou – foi nomeado para a presidência da Braval (uma empresa intermunicipal que trata os resíduos sólidos de seis concelhos e cuja presidência cabe ao sócio maioritário, a Agere - a empresa municipal de água e saneamento de Braga). Destes seis concelhos: Braga e Amares são liderados por autarcas socialistas, Póvoa de Lanhoso, Terras do Bouro e Póvoa de Lanhoso têm maioria PSD enquanto Vieira do Minho é dirigido por uma coligação PSD/CDS-PP. Pelos vistos, a reunião que nomeou Névoa foi pacífica. A ninguém ocorreu que escolher o Sr. Domingos Névoa para gerir a coisa pública fosse um problema. A lei não inibe quem foi condenado por corrupção a ser nomeado para cargos públicos. E muito provavelmente nem era necessário que o fizesse. Bastaria um módico de bom senso e uma réstia de ética republicana. Dois bens escassos.

Ver o mar

Um rapaz de 11 anos deixou a sua escola em Roma para desaparecer durante várias horas. Alarme lançado por pais e professores, a polícia acabaria por encontrá-lo na marginal de Óstia, são e salvo. “Tinha vontade de ver o mar”, explicou o miúdo às autoridades. Guardo esta notícia que li no La Repubblica há uns quantos anos como dupla evidência empírica: prova de que a realidade imita a ficção, mas, também, que o mar é o destino indicado para a fuga.
Na verdade, eu já tinha visto esse mesmo rapaz a fugir para o mar. Chamava-se Antoine Doinel (o alter-ego que o realizador François Truffaut (1932-1984) imaginou para rescrever a sua vida) e protagonizava os “400 golpes”. Na cena final do filme (que foi também o marco fundador da Nouvelle Vague), Doinel caminha num passo apressado numa estrada no meio do campo. Foge, nessa altura já o sabemos, do desinteresse dos pais e da incompreensão dos professores, mas o que ainda não sabemos é para onde caminha. Para isso basta o último minuto do filme. O passo desacelera e a fuga, no que é também uma demonstração de auto-afirmação, encontra o seu ponto de chegada. Uma praia deserta, um arregaçar das calças e os pés molhados pela maré, que logo apaga as marcas dos passos. Depois, vira-se para nos lançar, através da câmara que enfrenta de frente, o mais destemido dos olhares. Eu sei o que senti quando pela primeira vez Doinel olhou para mim através do zoom da câmara de Truffaut: inveja. O olhar de desafio era também uma amostra da liberdade concreta de que ele gozava e que a nós, adultos, fica de repente interditada. Aquele jovem, em permanente flirt com a marginalidade, cristalizava a clivagem entre o mundo exíguo dos adultos e as possibilidades infinitas que se abrem na juventude. A praia era a fronteira, mas, também, o espaço para o escapismo em direcção a uma independência essencial, sem qualquer tipo de mediação.

Acho improvável que o miúdo romano que fugiu para Óstia tenha visto os “400 Golpes”, mas parece-me bastante provável que Truffaut tenha lido as “Férias de Agosto”, a colecção de pequenas narrativas que o escritor italiano Cesare Pavese (1908-1950) escreveu sobre o mar, as férias e as amizades livres da infância. Também nesses textos, agora reeditados em português, numa tradução de Ana Hatherly, se relata a história de um rapaz que acreditava que encontraria o mar se caminhasse sem parar na planície. O episódio é exemplar de um tema dominante em Pavese: o carácter mitológico da juventude, um passado ao qual não podemos voltar, feito de mar, de campos abertos e de férias grandes, mas de cujas recordações depende a nossa maturidade. São, afinal, essas primeiras imagens irrepetíveis de independência e de liberdade que permanecem intocáveis ao longo das nossas vidas. E é também a esse lugar que regressamos para nos libertarmos do quotidiano e para nos reconciliarmos com o resto da vida.
Há um ajuste de contas que fazemos diariamente com a nossa desconfiança perante os outros e perante o mundo. O que faz com que, como o rapaz romano, precisemos de concretizar a nossa vontade de ver o mar. De regressar a uma etapa inicial de despojamento e independência. Se chegaram até este ponto do texto terão reparado que nem uma vez falei de surf. Não era preciso: todos nós, que beneficiamos do prazer supremo de deslizar com uma prancha debaixo dos pés, estamos conscientes da graça de ter, nas ondas que surfamos, o nosso “Mar”.
publicado na coluna Sal na Terra da SurfPortugal.

Food for thought

O Robert Skidelsky escrevia há uns meses, num excelente artigo na Prospect, que esta crise era também uma crise intelectual e que, como todos os grandes falhanços, devia obrigar-nos a parar para pensar. Vale a pena, a este propósito, ler algumas das respostas ao desafio lançado pela Policy Network a um conjunto de intelectuais para que, em 700 palavras, definissem 5 ou 6 prioridades para responder à crise económica e financeira. As ideias estão aqui.

Em 2009, ler o Avante é aprender

"O presidente Hu Jintao reiterou recentemente que a liderança do Partido, as vantagens do sistema socialista e os esforços do povo serão determinantes para vencer as dificuldades. O êxito de um processo tão complexo e não linear como é a modernização chinesa, com a incorporação da mais alta capacidade tecnológica e o desenvolvimento da produtividade, possui um significado transcendente para as forças do socialismo.
Convém lembrar que a essência do keynesianismo, de que fazem eco as milionárias medidas de salvamento do grande Capital, foi a (II) Guerra. São amplas e reais as ameaças da recessão que se anuncia longa. Perante a barbárie, a luta dos trabalhadores e dos povos e a afirmação do projecto revolucionário do socialismo são hoje uma tábua de salvação para a Humanidade."
Luís Carapinha, o triunfo do socialismo.

terça-feira, 31 de março de 2009

A bad trip de Brian Wilson


Há uma lenda que diz que o álbum da banana dos Velvet Underground terá inicialmente vendido apenas umas centenas de cópias, mas que cada uma delas terá levado à criação de uma banda. Os Animal Collective vendem hoje um número bem mais significativo de discos, mas ameaçam competir com os Velvet em capacidade de influenciar. Dos últimos Radiohead aos Sigur Rós, passando pelos Dodos, ouve-se a música que os Animal Collective fazem um pouco por todo o lado. Merryweather Post Pavilion é, como os discos anteriores, um álbum de canções iluminadas e, acima de tudo, mostra o que poderiam ter sido os Beach Boys se Brian Wilson não tivesse tido uma bad trip no final dos anos sessenta da qual, na verdade, nunca se recompôs.
(publicado na SurfPortugal e republicado aqui para "pressionar" quem tiver uma hora e tal a assistir ao integral deste concerto da banda na Holanda. Tem som e imagem - nos tempos que correm, esta informação é relevante.)

Um falhanço intelectual

"Não estamos perante mais uma crise cíclica, solucionável por um conjunto de ajustamentos tradicionais. Nem perante um incidente particular e irrepetível. Como recordava John Kay, esta crise foi provocada pelo ‘sub-prime' na mesma medida que a Primeira Guerra Mundial foi causada pelo assassinato de Francisco Fernando. A crise tem razões estruturais e revelou vários falhanços: da incapacidade dos mercados para se autocorrigirem (uma premissa em que assentava a sua eficiência), até ao carácter opaco, nuns casos, inexistente noutros, dos mecanismos de regulação do sistema financeiro, passando pela inexistência de uma entidade financeira com recursos suficientes para estabilizar os preços numa economia global bem mais aberta. Uma crise desta dimensão assenta num falhanço intelectual e requer novas ideias."
do meu artigo de hoje no Diário Económico, a propósito da Cimeira de Londres do G20.

Da justiça revolucionária

O Nuno Ramos de Almeida manifestamente não quis ler o que aqui escrevi. Como o tenho em consideração e não tenho motivos para colocar em causa as suas capacidades cognitivas, alguma coisa se deve ter passado. Talvez uma de três hipóteses: está influenciado pelo seu novo contexto laboral, a preparação dos “noticiários” de sexta-feira da TVI; contaminado pelo blog humorístico onde escreve; ou, hipótese mais plausível, o post foi erradamente assinado por ele, quando se tratava de mais um dos textos do gerador automático de posts que assume o nome de Carlos Vidal.

segunda-feira, 30 de março de 2009

A pescadinha de rabo na boca

Mudou a presidência do sindicato dos magistrados do ministério público e a conversa mantém-se. João Palma, assim que tomou posse, logo repetiu a ladainha de que os magistrados sofrem pressões: “há pressões, umas conhecidas e outras não, e se for necessário, se não acabarem, direi quais são e quem as faz”.
A história, aliás, não é nova. Primeiro, aparecem nos jornais – sempre nos mesmos, sempre nos mesmos – umas notícias que falam da existência de pressões, logo a seguir vem o sindicato referir sem concretizar as mesmas pressões que os jornais noticiaram sem concretizar. Depois, claro, chega o “agarrem-me se não eu denuncio”. Tendo em conta que são magistrados, talvez não fosse má ideia denunciarem mesmo, em lugar de ameaçar em abstracto e concretizar invariavelmente através de uma mão-cheia de nada. O assunto é sério de mais para que possa pairar a suspeição generalizada combinada com uma “revolta na bounty”, sob a forma de sublevação contra a “hierarquia”. A menos que o essencial do problema seja mesmo não haver uma hierarquia. Afinal, como lembrava Pinto Monteiro há uns tempos: “o MP é um poder feudal de condes, viscondes, marqueses e duques”. Faltou acrescentar o sindicato dos magistrados do ministério público.

Imagens que impõem respeito


o meu sub-prime.

sábado, 28 de março de 2009

Ópera bufa


Não frequento a TVI e pouco sei sobre o que lá se passa. Julgo aliás que devo ter um problema com o meu televisor, quando salto entre a posição 3 e a 5, fico sempre com a impressão que por momentos imagem e som ficam desconfigurados. Mas, hoje, sabendo da “bomba”, não resisti a ver. Tive várias surpresas. A primeira é que não sabia que a dona Ana Leal ainda por lá andava. A última vez que tinha tido notícias da senhora, parece que andava em histeria na biblioteca de uma universidade, em busca de uma tese inexistente. Mas isso são contas de outro rosário e a histeria – sempre acompanhada de comportamentos persecutórios e de violação grosseira de princípios basilares do Estado de direito –, já se percebeu, é uma nota dominante por ali. Bem, mas lá vi o dvd sem imagem (sic). E confesso o meu divertimento. Não percebo a indignação de José Sócrates. Aquela converseta é talvez o melhor elemento em sua defesa: chega a ser caricato o modo como Charles Smith procura sacar umas massas a uns compatriotas. Lembrei-me logo de uma história que me contaram há uns tempos sobre um advogado, “especialista” em assuntos fiscais, que recebia uns dinheiros todos os meses de umas quantas empresas para pagar a uns funcionários das finanças. Mais tarde, descobriu-se, os funcionários não existiam e o que existia era uma avença sob a forma de extorsão. O advogado foi condenado.

Condenados a entenderem-se?

A sondagem hoje publicada revela uma erosão da imagem do primeiro-ministro e do Governo, combinada com uma incapacidade do maior partido da oposição para capitalizar o descontentamento, ao mesmo tempo que os partidos dos extremos continuam com votações acima das últimas legislativas. Curiosamente, este padrão coloca-nos numa situação em quase tudo idêntica à do mês de Setembro, quando os reflexos nacionais da crise internacional se faziam ainda sentir escassamente. Desse ponto de vista, a crise internacional está a ter efeitos políticos domésticos semelhantes um pouco por toda a Europa.
Se numa primeira fase, em que havia uma percepção da extensão da crise, mas as suas manifestações económicas e sociais ainda não se faziam sentir de modo intenso, os partidos que se encontravam no poder viram o seu apoio aumentar, no último par de meses, acompanhando o aumento do desemprego e o arrefecimento do produto, tem-se assistido a uma erosão da popularidade dos diversos primeiros-ministros europeus, ao mesmo tempo que se verifica uma pulverização do voto e um crescimento dos partidos à esquerda.
Assim, Portugal caminha para um contexto de dificuldades económicas e sociais sem paralelo na história recente, ao qual aparentemente se soma uma dispersão de votos que nos coloca demasiadamente longe de um cenário desejável de maioria absoluta. Se as eleições fossem hoje (e, sublinhe-se, não são), a ingovernabilidade estaria, por isso, ao virar da esquina. Que fazer perante um cenário destes?
Olhar para o passado talvez não seja má ideia. O cenário futuro pode vir a ter demasiadas semelhanças com a primeira metade da década de oitenta: desequilíbrios financeiros, arrefecimento económico e crescimento do desemprego, combinados com dificuldades políticas. Tal como então, a soma dos votos no PS e no PSD é comparativamente baixa (nesta sondagem estão nos 65%, ligeiramente abaixo da maioria qualificada e bem abaixo dos 74% das últimas legislativas.). Perante um cenário semelhante, o que aconteceu foi a formação de uma coligação de “strange bedfellows”, o bloco central. É naturalmente uma solução indesejável, pois dilui a diferenciação política e tende a reproduzir um outro bloco central, o dos interesses.
É verdade que a intenção de voto somada no PS, BE e PCP é de cerca de 60%, o que poderia levar à formação de uma frente de esquerda. Mas, entre nós, as condições de governabilidade à esquerda são praticamente inexistentes – a menos que se assistisse a uma insólita capitulação do programa político do PS perante o caderno reivindicativo maximalista do BE e do PCP – partidos que com intenções de voto em redor dos 20%, ainda assim se colocam irresponsável e ostensivamente fora da governabilidade.
Há uma frase muito repetida que nos diz que a política é a arte do possível. Se os portugueses não virem na instabilidade política a ameaça real que de facto representa e se o padrão desta sondagem se consolidar, Portugal vai estar confrontado com uma única possibilidade, aliás bem indesejável: o entendimento entre PS e PSD em acordos parlamentares com o patrocínio do Presidente da República (que, em final de mandato, verá o poder de dissolução condicionado pelos prazos constitucionais). Mas tendo em conta que nem para a escolha de um Provedor de Justiça existem hoje canais de diálogo entre os partidos, há boas razões para estarmos colectivamente muito preocupados.
comentário à sondagem da Marktest, publicado no Semanário Económico

sexta-feira, 27 de março de 2009

Playboy à portuguesa


Mónica Sofia (a crer na capa, fotografada numa produção low cost numa gruta na reboleira), Pacman, Costinha, Rute Penedo, Nuno Saraiva, Pedro Paixão, Ana Anes, Nuno Markl ou de como cada país tem o Norman Mailer que merece.
"Sure, the reason most of us started reading Playboy was for the girls. But when the history of American magazines is written, people who said "I read it for the articles" will have the last laugh. As will Hugh Hefner, who told a reunion of Playmates in 1979, "Without you, I'd be the publisher of a literary magazine." With new editor James Kaminsky starting this week, and even Hefner saying the magazine needs to recapture its distinction, Playboy has the opportunity to be a catalyst for change in the magazine world. It can do what it did in the '60s and be a magazine with balls (and boobs), leading the moribund magazine world into a new era of editorial rebirth. A pipe dream, I know, but not a complete fantasy." da Saloon.

O impasse europeu

"Também nos estímulos orçamentais grassa uma enorme confusão. A América já aprovou 2% do PIB para este ano, deverá juntar-lhe outro tanto em 2010 e gostaria que a Europa fizesse o mesmo. A Europa limitou-se a 1% do PIB, rejeita a "interferência" americana e ninguém sabe exactamente o que quer. Há quem estranhe a discrepância, porque defende uma política comum. Eu também defendo o mesmo, mas não estranho nada: de um lado está 1 cabeça e do outro estão 27 - a confusão é normal."
Daniel Amaral, no Diário Económico. E quanto a Portugal, como é sugerido, talvez o melhor seja mesmo respirar fundo.

Twilight zone



quando o absolutamente improvável acontece.


"Well now, chains on the oasis that leads a man to drink
Drunk on the kind of applause that gets louder the lower you sink"

quinta-feira, 26 de março de 2009

Maluquinho me confesso

O Pedro Magalhães alerta para o mecanismo de ponderação que é utilizado pela Marktest para projectar os resultados brutos das suas sondagens. Basicamente, para garantir que a amostra é representativa do eleitorado, a Marktest questiona sempre em que partido o inquirido votou nas últimas eleições legislativas. Resta saber o que é que nesta ponderação tem mais força: a mentira ou a excepcionalidade das últimas legislativas? Enquanto a mentira em relação ao voto nas últimas legislativas pode tender a prejudicar o PS (estou convencido que hoje haverá menos gente a declarar ter votado PS do que os votos efectivamente expressos), as circunstâncias excepcionais em que ocorreram as legislativas de 2005 (primeira maioria absoluta do PS, com mobilização quase no pleno, arrisco dizer, do campo socialista, combinada com voto contra Santana) beneficia, hoje, o PS na ponderação. Será que os dois factores se compensam?

Confiança

Em Salónica conheço alguém que me lê.
E em Bad Nauheim.
Já são dois.

Gunter Eich (tradução João Barrento)

quarta-feira, 25 de março de 2009

The greatest rock'n'roll swindle


De há uns tempos para cá, o mundo do rock tem sido assolado pela praga das reuniões de banda. Entre as que se concretizaram, as que foram anunciadas e aquelas sobre as quais se especula, não sobram muitas bandas. Os resultados têm sido invariavelmente um desastre – com a notável excepção dos Go-Betweens. Os Velvet reuniram-se para uns quantos concertos mornos, na ressaca do funeral de Andy Warhol, onde Reed e Cale se terão reencontrado, para logo regressarem ao registo de antagonismo de sempre; os Pixies arrastam-se há uns anos numas tournées deprimentes; e que dizer dos Jesus & the Mary Chain que deram um concerto entediante em Lisboa há um par de anos? Vamos ver o que nos reservam os Blur. Nisto há também os anúncios ainda por concretizar (fala-se dos Pavement há uns tempos) e os falsos alarmes (os Smiths). Mas, no meio de tudo, sobram as boas respostas às propostas de reunião: a dos Stone Roses chegou através da “arte” de John “Pollock” Squire, mas David Byrne rejeitou a reunião dos Talking Heads falando do que está de facto em jogo: "I don't need the money badly enough.".

Pior a emenda

No BE há uma sólida linhagem de engraçadinhos. Ao longo dos tempos, a mania de se armarem em engraçadinhos encontrou um contexto favorável nos media. Mas o passar do tempo foi produzindo desgaste. Ainda assim, insistem. A última gracinha é uma versão alterada do lamentável anúncio da RDP. Imagino que andem muito contentes com a graçola. Acontece que politicamente é igualmente infeliz. O argumento das deslocalizações é, em si, mau. Não sei bem o que o BE tem para oferecer como resistência às deslocalizações no espaço da UE. Além de que o exemplo da Eslováquia é particularmente grave. Nem sequer se trata da China, que não ratifica o acervo essencial de convenções da OIT, ou outro regime autoritário, que oprima politicamente trabalhadores. Aliás, a Eslováquia de hoje é Portugal de há vinte anos: um país que tem beneficiado muito com a adesão e que muito provavelmente terá problemas semelhantes aos nossos dentro de uma década. E, quem foi infundadamente acusado de dumping social durante um largo período (sendo que a evidência empírica nunca o provou), deveria ter, no mínimo, algum pudor na devolução da acusação. No fundo, o anúncio é apenas uma versão aparentemente mais sofisticada do “argumento Ferreira Leite” do investimento público desde que feito com mão-de-obra nacional. Argumento que tanto indignou os bloquistas. Isto do proteccionismo tem dias, como se vê. E também já passou algum tempo. Foi na semana passada.

Estabilizadores automáticos


Têm-se ouvido alguns apelos para que se deixe os estabilizadores automáticos funcionar. Parte da resposta à crise passará por aí. Mas, ainda assim, há dois “estabilizadores automáticos” com notável capacidade e cujo utilização exaustiva ainda não foi experimentada. Um é a mobilização popular, uma dose justa de populismo: como recordava Robert Reich a propósito da aprovação de uma taxa de imposto retroactiva para as empresas que distribuíram bónus aos seus quadros, após terem recebido avultados apoios públicos, “it's nice to see that when the public gets sufficiently angry about something, Congress responds.”; outro, é mesmo o voto. Desconfio que é a melhor garantia de que não se repetirá uma parte importante do que aconteceu e nos trouxe até aqui. Há quem ache que, perante uma crise desta dimensão, o voto é um empecilho que empurrará os decisores para soluções ilusórias, guiadas pelo imediatismo. O ideal seria uma moratória na democracia e um conselho de “homens bons” para tomar decisões difíceis. Desconfio que precisamos exactamente do contrário.

Eles com o mal-estar e eu com a Taça

terça-feira, 24 de março de 2009

Let's sing another song, boys


Soube-se hoje que L. Cohen regressa a 30 de Julho para um concerto no pavilhão atlântico e, entretanto, o site da NPR disponibliza o integral do live in London - que sai dia 31 de Março em cd e dvd - para escuta.

Autoritarismo de vão-de-escada

O que estes casos sugerem é que, enquanto se democratizaram as relações de poder ao nível macro, em Portugal há uma espécie de autoritarismo de vão-de-escada, baseado em micropoderes que beneficiam do lastro de autoritarismo que persiste na sociedade portuguesa. Na verdade, não é necessário incitamento activo vindo de cima (leia-se, do poder político), para que nas mais diversas esferas se assista ao exercício de autoridade com escassa cultura democrática. Há uma rede de micropoderes, que se encontra difundida na nossa sociedade e que não nasce necessariamente do centro. Além do mais, em democracia, o autoritarismo é como o tango, precisa de pelo menos dois para existir. Ou seja, o exercício autoritário do poder requer que uma das partes exerça um constrangimento activo, mas necessita também que haja uma predisposição social e individual para aceitá-lo.
do meu artigo de hoje no diário económico.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Skinny love



Come on skinny love just last the year
Pour a little salt we were never here
My, my, my, my, my, my, my, my
Staring at the sink of blood and crushed veneer

I tell my love to wreck it all
Cut out all the ropes and let me fall


Bon Iver

In the twittersphere




Who are they talking to? No one and everyone.

sábado, 21 de março de 2009

Obsessões familiares

Rock-band worship is nothing new, of course, but the relationship between Darnielle and his fans has its own special hue. This is not the mass, global adulation of arena bands like U2. Nor is it fandom as lifestyle as practiced by Dead Heads. It’s the confessional-indie-troubador-and-his-flock-of-disciples model of Nick Drake, the Smiths, and Rufus Wainwright. Like those musicians and their tribes, Darnielle and his acolytes share an unusually intimate, and often pained, bond. Mountain Goats fans tend to have an air of sadness about them, and because Darnielle sings so openly and candidly about his own difficulties, he connects with his audience on a level that few artists are able to reach (the band is called the Mountain Goats, plural, but the group—and the fuss over them—is entirely about Darnielle). Darnielle sings about what his fans feel but can’t articulate. He’s their hero, but he’s also their soulmate, the one person in the world who understands them. That’s why Stephen Wesley and the legions of fans like him can’t get enough of the Mountain Goats. And that burden is crushing Darnielle.
De um artigo que conta, entre o cândido e o divertido, o dia em que um jovem fã (um bible freak) conhece John Darnielle. Para ler aqui.


(link do video para browsers manientos).

sexta-feira, 20 de março de 2009

Coisas que me espantam

Que, pelo menos, uma equipa de “criativos”, um actor, uma jornalista, um director criativo numa agência, responsáveis numa agência de meios, chefias intermédias e administradores de uma empresa pública tenham participado no processo que produziu o vídeo de que se fala e que ninguém tenha tido um – ainda que ligeiro – assomo de indignação democrática. Mostra bem como o que nos separa da cultura anti-democrática é uma pequena película. Tão pequena que temos dificuldade em vê-la.

imagens que impõem respeito



hoje num almoço promovido pelo embaixador alex ellis (cujo bife mal passado deve ser lido aqui), a propósito do london summit, carlos tavares mostrou este gráfico. se acharmos que deve haver algum tipo de relação entre cotação das acções e resultados das empresas, vejam bem o que ainda há para ajustar.

clima anti-sindical


o modo como se tem instalado um clima anti-sindical na sociedade portuguesa é mais um passo para a degradação da democracia portuguesa. é também mais um daqueles casos em que ninguém está isento de culpas: os sindicatos que se foram acantonando numa mobilização política, o governo que se colocou na situação paradoxal de ter assinado alguns dos acordos de concertação mais importantes desde que há concertação institucionalizada (à cabeça o sobre o s.m.n), ao mesmo tempo que foi ajudando, com uma retórica desajustada, a dar poder a quem nos sindicatos desvaloriza a negociação e prefere a confrontação política. mas que dizer quando uma rádio pública se lembra de fazer este anúncio?
(gosto de defender o serviço público de rádio e televisão, mas convém que o serviço público ajude os seus defensores. fazer desaparecer este triste anúncio talvez fosse um bom contributo)

quinta-feira, 19 de março de 2009

summer of love na finlândia


a crer no youtube, este vídeo é de 1981 e não há dúvida que é no verão. fazia pouco tempo que o ian curtis havia morrido (e esta música é para ele) e talvez ainda menos desde que o bruce mitchell havia passado a somar ao vini reilly, alargando para dois a formação dos durutti. não menos importante, o lc tinha acabado de ser lançado. há aquela velha pergunta, bem liceal, sobre quem é o melhor guitarrista do mundo: a resposta está neste vídeo, que serve também para lembrar que “baterista também é músico”. basta, aliás, ver o bruce mitchell possuído para também sobre isso não ficarem dúvidas. tudo o que se passa a partir do minuto cinco talvez só seja ultrapassado pelo espanto dos finlandeses com a luz que por lá escasseia.

Watch with obsession
Some accident of beauty
Try to capture
As the light begins to fail
Shapes to compose
Shadows of frailty
The dream is better
Dissolves into softness
But the end
The end is always the same

quarta-feira, 18 de março de 2009

a devida vénia



a quem anunciou este blog: o miguel marujo, o bernardo pires de lima, o paulo pinto mascarenhas, o joão morgado fernandes, o miguel abrantes (que, posso garantir, existe mesmo e que me colocou um peso sobre os ombros ao falar da natalia ginzburg, a quem roubei o título do blog), a mariana trigo pereira, o pedro marques lopes, o francisco mendes da silva, que eu já suspeitava iria reagir ao ataque aos oasis, o josé reis santos, o carlos teixeira, o pedro soares lourenço, o nuno ramos de almeida, o nuno miguel guedes, o vitor reis m., o bloom, a charlotte, o nuno costa santos, o francisco josé viegas, o pedro correia, o filipe nunes vicente, a ana matos pires, o tiago moreira ramalho, o paulo pedroso, o joão severino, luís serpa, o paulo amaral, a marina costa lobo, o osvaldo castro e, claro, o pedro arruda, amigo de sempre (acho que já podemos dizer isto) e de outras ondas, e a quem devo este template.

ainda as desigualdades

partilho com o Rui Tavares, como ele escreve hoje no Público, a ideia de que “a desigualdade não é apenas um efeito, mas uma causa do nosso atraso, e vai ser preciso repeti-lo enquanto formos desiguais e atrasados. Que no nosso caso vai dar ao mesmo.” O problema é que de cada vez que se traz o tema para o topo da agenda política e ao mesmo tempo não se valoriza a dinâmica dos indicadores, está-se a desvalorizar o papel das políticas públicas no combate às desigualdades e, não menos importante, a secundarizar o que ainda assim já mudou em Portugal nos últimos anos. Que as nossas desigualdades são muito elevadas é sabido e deve ser motivo de prioridade política, mas, ainda que sendo tentador, é errado dizer que têm aumentado (o que se ouve sistematicamente por aí) e factualmente falso que, como escreve o Rui, os 20% mais ricos em Portugal tenham 8 vezes o rendimento dos 20% mais pobres. O último valor conhecido é de 6.5 para rendimentos de 2006, o que aliás revela uma ligeira redução por relação aos 6.8 de 2005. Não vejo como será possível criar uma coligação política e social robusta em torno desta questão enquanto se continuar a tratar mal os dados e a desvalorizar as políticas que já existem. Duas coisas que tendem a andar de mão dada.

terça-feira, 17 de março de 2009

1,2,3,1,2,3 (revisited)



recebi várias queixas de que o video dos Mountain Goats com que começava este blog não era visível com alguns browsers. foi por causa desta música que comecei este blog, sigam por isso o link.

de uma casa de banho de Brooklyn



estes rapazes não fazem nada de particularmente inovador. Eu sei bem onde ouvi tudo isto aí há uns 15 anos, talvez um pouco mais. Mas quando o Kevin Shields anda há demasiado tempo em busca do microfone perfeito ou da conjugação de pedais para fazer o wall of sound que ninguém mais conseguirá repetir, quando o Neil Halstead escolheu a via fácil (e justa) das baladas e do surf e quando o Mark Gardener está desaparecido em parte incerta e o Andy Bell se arrasta como baixista de uma banda de covers de si mesma, é entusiasmante voltar a ouvir shoe-gazing como o que se fazia antigamente. Chamam-se The Pains of Being Pure at Heart.

Portugal para os portugueses

A drª Ferreira Leite queixou-se que ninguém lhe dá ouvidos. Convenhamos que é verdade, o problema é que isso tem trazido vantagens ao PSD. Foi assim no pós-congresso, quando imperava a estratégia do silêncio e quando, ainda assim, o pouco que era dito era levado a sério. O problema agora é outro: já não há silêncio, mas este foi compensado pela irrelevância da palavra. Não fora este o caso, o “País” tinha passado o dia a discutir o investimento público como saída para a crise, “desde que feito com mão de obra nacional” (sic).

paradoxos sindicais

(...) convém perceber que a contestação a que assistimos, sendo resultado imediato da crise económica e social, tem raízes bem mais profundas. Entre estas, a convergência entre o acantonamento de tutela política da CGTP e o desenvolvimento de um clima anti-sindical, em parte fruto de uma confrangedora ausência de estratégia sobre o papel dos sindicatos em Portugal da parte do PS. Na verdade, nada de significativo está a mudar no mundo sindical português. Estão sim a cristalizar-se tendências de trinta anos que limitam a busca de soluções negociadas para a regulação da economia política portuguesa.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Quando a realidade do cinema ultrapassa o cinema

Na realidade sabia que o que acontece nestes primeiros 30 segundos não era possível, mas pensei que nem no cinema iria acontecer.

a política da verdade

Aqui há umas semanas, a Susana contava como as flores que haviam sido oferecidas diligentemente a José Sócrates no encerramento do Congresso do PS logo tinham sido recolhidas depois de devidamente acenadas. Será que o soutien que John Darnielle apanha enquanto vocifera aqui em baixo é também um momento encenado? Não sabemos, mas a espontaneidade precisa de uma boa dosagem de profissionalismo e, acima de tudo, convém garantir que nunca fica ninguém para observar o que se passa enquanto se desmonta o palco. As histórias não serão as mais edificantes. O soutien terá sido devolvido ou nem sequer tinha legítima proprietária?

1,2,3,1,2,3


(assinaláveis vantagens quando visto em modo ecrã inteiro)