"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

quinta-feira, 16 de abril de 2009

While my guitar gently weeps


Depois de uns tempos como música de palco do Sufjan Stevens e da Polyphonic Spree, e abandonado o nome de Annie Clark, St. Vincent mostrou como era possível cruzar Jimi Hendrix com Kate Bush e fazer um grande disco. O nome era no mínimo provocatório: marry me. Como se houvesse falta de pretendentes. Isso foi há dois anos. Agora que há disco novo para breve, em Maio, os sinais de que a faceta Jimi Hendrix ganhará peso são muitos. Raparigas que dão tratamentos destes às guitarras têm muito que se lhe diga.
(aqui um cover hendrixiano de dig a pony; teledisco do novo single; e marry me ao vivo).

terça-feira, 14 de abril de 2009

Uma questão de sombras

Há naturalmente aspectos positivos na escolha de Paulo Rangel para cabeça de lista do PSD ao Parlamento Europeu. Desde logo, assegura que na campanha para as europeias se projecta a disputa política doméstica, na qual Rangel tem sido a face visível do combate parlamentar com o primeiro-ministro. Para quem está na oposição, não há volta a dar, eleições de segunda ordem, como as europeias, são, no essencial, momentos para discutir política nacional. É mau que assim seja, mas é da vida. Depois, a partir do momento que o PS apresentou Vital Moreira, o PSD precisava de um candidato com densidade política para lhe fazer frente. Pese embora o estilo desajustado que frequentemente adopta no Parlamento, Rangel não é um político do “circuito da carne assada”.
O problema da escolha de Rangel é que esta perpetua o principal problema da liderança de Ferreira Leite.
Convém não esquecer, Ferreira Leite foi eleita com pouco mais de um terço dos votos dos militantes do PSD e, depois de um congresso completamente falhado, nunca foi capaz de fazer o que uma líder nas suas circunstâncias precisa. Afirmar-se, também unindo o partido. O que temos sistematicamente assistido é um processo contrário. Por um lado, com a excepção de Rangel, Ferreira Leite não tem conseguido promover novos protagonistas e, por outro, tem sido invariavelmente incapaz de alargar a sua base de apoio interna.
A escolha de Rangel, ao mesmo tempo que desloca de um palco relevante o único novo protagonista que se conseguiu afirmar, entrincheira Ferreira Leite no seu núcleo duro de apoiantes. Se ao medo das sombras – característica dos líderes fracos – somarmos todos os outros problemas que Ferreira Leite tem revelado (a gestão do timing de escolha do cabeça de lista ao PE foi o último de um longo rol de exemplos. É espantoso escolher o exacto dia em que foram conhecidas as estimativas de primavera do banco de portugal), talvez se perceba melhor as razões porque, mesmo num contexto de crise económica e social e de descontentamento com o governo, o PSD não consegue capitalizar eleitoralmente.

A corrupção e a corrosão

"Há uma afirmação que se tornou uma verdade quase insofismável: a corrupção está a corroer os alicerces da nossa democracia. Peço desculpa, mas o que está a corroer a democracia são os casos em que foi criada a percepção no espaço público de que alguém era corrupto sem que depois seja produzida prova necessária a uma condenação.
Ou seja, regressamos ao problema de sempre: as debilidades da investigação em Portugal e o modo como as suas insuficiências tendem a ser colmatadas com informação passada a conta-gotas para a comunicação social. Pelo caminho, enquanto os verdadeiros culpados de ilícitos têm boas razões para se sentirem confortáveis, um inocente deve ficar muito preocupado. Um culpado sabe que tem poucas probabilidades de ser condenado e um inocente pode ter a certeza que, no mínimo, a dúvida sobre a sua culpabilidade ficará a pairar."

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

20 anos de Merge


A Merge Records de Mac McCaughan, o líder dos Superchunk, mas, também, dos Portastatic faz por estes dias 20 anos. Para celebrar editou um disco onde bandas de outras editoras regravam temas editados na Merge. Aqui os National juntam-se à Annie Clark (aka St. Vincent, que tem disco novo para muito breve) e fazem isto a sleep all summer dos Crooked Fingers.

Sleep All Summer - St. Vincent And The National

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Coisas verdadeiramente importantes


Para além da emissão em streaming, já é possível ouvir também em podcast as emissões do Quase Famosos, o programa que faço com o Nuno Costa Santos no Rádio Clube.

Eastwood faz filme sobre Santana Lopes

Mais um bom filme de Clint Eastwood. Gran Torino é mais um passo no trajecto que o transformou num "Monstro" do Cinema. Enorme, na Direcção e na interpretação. Vale a pena ver como nos transmite a vivência de alguém amargurado, Pai, Avô, capaz de dar e de receber afecto a outras famílias que não a sua, com atenção especial às comunidades da realidade social dos bairros multiétnicos do Mundo de hoje.
Pedro Santana Lopes, naquele que é provavelmente o melhor blog em português (à atenção do Nuno Artur Silva)

Há muita falta de memória na política

Por esta altura, todos os anos, é notícia o apelo à participação no desfile do 25 de Abril. Por esta altura, todos os anos, ficamos a saber que alguns dirigentes do PS e outros democratas subscrevem um texto com criticas ao Governo, que, de vez em quando, dá-se a coincidência de ser do PS. Pois bem, pelo segundo ano consecutivo tentei encontrar o tal apelo na net e estranhamente nunca se encontra, para além de ficarmos a saber que a LUSA teve acesso ao mesmo. Na página da Associação 25 de Abril, nada e por mais que se procure, nada. Claro está que o facto de serem 600 subscritores dá que pensar. Foram os subscritores todos contactados para saber se se reviam no texto deste ano ou, pelo contrário, quem tiver sido subscritor uma vez, sê-lo-á para sempre?
(como se usa dizer agora, devo fazer uma declaração de interesses: tento ir sempre aos desfiles e levo o assunto a sério)

quinta-feira, 9 de abril de 2009


“It is not down in any map; true places never are.”
Herman Melville

O Estado de direito tem dias

Não sei se estão recordados, mas aqui há uns tempos andou por aí uma grande indignação com a introdução dos chips nos automóveis – em mais um exemplo típico do funcionamento em ondas da blogosfera, com os seus incansáveis amplificadores selectivos. Estou à vontade, pois sobre isso, na altura, escrevi isto. Mas confesso a minha surpresa quando os mesmíssimos que batiam então com a mão no peito em defesa do Estado de direito, não se importam agora de o suspender momentaneamente para criminalizar o enriquecimento ilícito. É que convém não esquecer, a presunção de inocência e a não inversão do ónus da prova são o que ainda vai restando para os inocentes se defenderem da inclinação para a prepotência da acusação pública, desde logo do Ministério Público português, mas, também, da comunicação social.
A corrupção e a incapacidade de produzir prova que a confirme estão a minar a democracia portuguesa, mas, não menos do que as suspensões quotidianas do Estado de direito. Como lembra o Tomás Vasques, o combate contra a prepotência do Estado sobre o indivíduo é o principal combate pela democracia. Em Portugal, esse combate parece ter dias.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Digest

I do not suggest that capitalism will disappear any more than war has. Complex, interconnected market economies will continue to generate huge surpluses, fuelled by the continuing flow of new scientific knowledge. But just as monarchy moved from centre stage to become more peripheral, so capitalism will no longer dominate society and culture as much as it does today. Capitalism may, in short, become a servant rather than a master, and the slump will accelerate this change. Past depressions were cruel but they also hurled ideas from the margins up into the mainstream, speeding their motion through the three stages that Schopenhauer described happening to all new truths, being first ridiculed, then violently opposed, then treated as self-evident.
(...)
The result is that a large political space is opening up. In the short run it is being filled with anger, fear and confusion. In the longer run it may be filled with a new vision of capitalism, and its relationship to both society and ecology, a vision that will be clearer about what we want to grow and what we don’t. Democracies have in the past repeatedly tamed, guided and revived capitalism. They have prevented the sale of people, of votes, public offices, children’s labour and body organs, and they have enforced rights and rules, while also pouring resources in to meet capitalism’s need for science and skills, and it has been out of this mix of conflict and co-operation that the world has achieved the extraordinary progress of the last century.

Geoff Mulgan, After Capitalism, na Prospect de Abril (um artigo com uma componente não despicienda de wishful thinking, mas que vale bem a leitura)

Eppur parenti siamo un po´di quella gente che c'e' li'



Eppur parenti siamo un po'
di quella gente che c'e' li'
che in fondo in fondo e' come noi, selvatica,
ma che paura ci fa quel mare scuro
che si muove anche di notte e non sta fermo mai.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O curto-circuito do europeísmo

Se mais evidência fosse necessária, os últimos meses têm servido para revelar a crescente importância para a política doméstica da política europeia. Esta asserção, se bem percebo, tem sido o núcleo duro do discurso para as eleições Europeias do PS: a singularidade do PS em torno do europeísmo é não apenas uma questão supranacional, mas, também, uma marca distintiva da política nacional do partido. Se assim é, as “regras” e as clivagens típicas da política doméstica são transferíveis para a disputa europeia e vice-versa. Desde logo porque esquerda e direita, centro-esquerda e esquerda têm visões bem diferentes sobre o papel das políticas públicas europeias, por exemplo, na resposta à crise. Ora é por isso que a defesa da eleição de Durão Barroso para mais um mandato a presidir à Comissão Europeia produz um autêntico curto-circuito na linha argumentativa do PS para as europeias. Por um lado, sugere que talvez seja boa ideia que o PPE vença as eleições, pois essa vitória garante a continuidade de Barroso; por outro, indicia que afinal o argumento político de base pode ser suspenso e/ou secundarizado face a uma outra clivagem mais relevante: a nacionalidade.

Digest

A propósito da visita de Obama à Europa, este editorial do LA Times coloca o dedo na ferida ao sublinhar que a responsabilidade está agora do lado da Europa (e há boas razões para cepticismo em relação à capacidade europeia de responder à altura): "words matter, and the respect that Obama engendered on this trip is key to reclaiming U.S. global leadership. Obama even exercised that leadership when he gently scolded Europeans for espousing what he called casual but insidious anti-Americanism. He urged them to acknowledge "the fundamental truth that America cannot confront the challenges of this century alone, but that Europe cannot confront them without America." Obama's challenge is to transform that partnership into concrete support from the Europeans, who must rise to the occasion and no longer blame President Bush's unilateralism for their unwillingness to help."

Sobre a visita à Turquia vale a pena ler este artigo no NYTimes, de um antigo correspondente de um jornal turco nos EUA, chamando a atenção para o modo como Obama soube ultrapassar visões simplificadoras da realidade turca que dominaram o modo como os EUA e, por arrasto, o Ocidente olharam para a Turquia nos últimos anos: "In our eternal identity crisis, we Turks have lately been thinking only in opposites — that you are either secular or religious, Kurd or Turk, European or Middle Eastern. It took a young foreign leader on his first visit here to remind us that we are all of those things, and much more."

O resto da agenda

"Mesmo que se avançasse muito na institucionalização da regulação global, que os estímulos à procura fossem bem mais significativos e que os recursos financeiros do FMI fossem ainda maiores, não seria nem suficiente para ultrapassar a situação em que nos encontramos, nem serviria para garantir que os desequilíbrios sistémicos não regressariam com igual vigor, passado pouco tempo. Há, na verdade, um tema que, sendo uma causa determinante da actual crise, tem, contudo, ocupado um papel marginal na agenda política."

para saber qual o tema que tem sido marginal nas discussões recentes, aqui fica o link para o meu artigo de hoje no Diário Económico.

Viva l'Italia



l'Italia con gli occhi aperti nella notte triste,
viva l'Italia, l'Italia che resiste.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

O estado da cooperação estratégica

Não há volta a dar, a cooperação estratégica entrou em estado pré-comatoso. Basta ler o prefácio aos Roteiros do Presidente. Logo no início, Cavaco Silva afirma que “todos os esforços devem estar centrados na recuperação do atraso económico” e que “é de todo incompreensível que a agenda política seja desviada para temas que provocam fracturas na sociedade portuguesa, que dividem os Portugueses e distraem a sua atenção da resolução dos problemas nacionais”. Imagino que esteja a falar do casamento entre pessoas do mesmo sexo (esse horror civilizacional) e do estatuto político administrativo dos Açores. Mas tirando o facto de os exemplos serem retirados do último ano, trata-se do mesmo apelo de sempre à despolitização da, passe o pleonasmo, disputa política. Nisso Cavaco Silva nunca surpreende: o que é mesmo necessário é que nos entendamos todos. De preferência em torno daquilo que o Presidente acha que são as prioridades para o país.
Senão veja-se: na semana passada, o Ministro das Finanças disse com clareza que a prioridade era o combate ao desemprego, Cavaco Silva valoriza a dívida pública – não há outra leitura possível da frase: “É importante que os poderes públicos tenham presente a situação em que se pretende que o País se encontre quando a crise financeira internacional estiver ultrapassada, de modo a que as possibilidades de desenvolvimento futuro não fiquem comprometidas”.
São naturalmente duas opções divergentes e politicamente legítimas, mas que sugerem que a cooperação é virtuosa desde que seja em torno da agenda do Presidente. Além de que Cavaco Silva faz lembrar a Senhora Merkel, mais preocupada com a crise que se pode seguir a esta, do que em responder aos problemas que enfrentamos, de facto, hoje.
No fim fica a promessa: “Na situação que o País atravessa, o Presidente da República não pode limitar-se ao diagnóstico, havendo que ter presente, no entanto, que não lhe cabe legislar ou governar. Nesse sentido, tenho procurado apontar o caminho que Portugal deve seguir para ultrapassar a quase estagnação em que tem vivido”.
Como os caminhos apontados começam a ser suficientemente diferentes dos do Governo, podemos esperar dois efeitos: o fim da cooperação estratégica com o Governo; e a subalternização da oposição partidária, que tenderá a viver cada vez mais debaixo do chapéu presidencial. Ou seja, dois efeitos indesejáveis que, em ano de várias eleições, não auguram nada de bom.

Juntaram os trapos

Os meus amigos Pedro Marques Lopes e Bernardo Pires de Lima vivem em união de facto. Nada que me espante. Agora é que se vai perceber que, no fundo, no fundo, e por mais que disfarcem, são dois bons rapazes de esquerda.

Momentum


Os Grizzly Bear não começaram ontem. Mas, vá lá perceber-se porquê, há alturas em que as circunstâncias se tornam mais propícias para certas bandas. Depois do sucesso dos Fleet Foxes, deve estar tudo pronto para que 2009 seja o ano dos Grizzly Bear. O álbum novo chama-se Veckatimest e, apesar de só sair no final de Maio, já “anda” por aí. Talvez o “leak” tenha ocorrido demasiadamente cedo e o disco não se aguente até à altura que pode ser divulgado (a própria banda queixa-se), mas posso garantir, é um disco feito para os dias que correm: procura inspiração na música tradicional americana, ao mesmo tempo que, nas margens de cada canção, vai tentando subvertê-la. A fórmula tem garantido sucesso nos últimos tempos. E ainda bem.
(Este Two Weeks, que já estava num EP, tem na versão em disco a vantagem de ser acompanhado pela voz de Victoria Legrand, dos Beach House. No SXSW tocaram juntos).

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A merda está imparável


Alguém resolveu explorar os recursos disponibilizados pela nova plataforma do Guardian online e testou até que ponto o emporcalhamento da língua inglesa chegou a um jornal de referência. Os resultados são relativamente surpreendentes - tem havido uma notável resistência à contaminação da seriedade pela obscenidade. Olhando para uma série dos últimos dez anos:
a) a utilização dos palavrões tem crescido lentamente, todos os anos;
b) em 2001 houve uma estabilização do uso de impropérios, sendo que a utilização de "bastard" desceu após 2001 - provavelmente um efeito do 11 de Setembro - momento após o qual se assistiu a um aumento do uso de todos os outros impropérios.
c) "wank" tem apresentado uma performance medíocre na última década, e "cock" tem tido um comportamento "flat".
d) a merda cresceu de modo desproporcionado e consistente dede 2005, enquanto "fuck" foi tão longe quanto lhe é possível.
Conclusão: desconheço as margens de erro, mas lá como cá, a merda parece estar a crescer a um ritmo imparável.

Digest

"For more than 30 years in economic journalism I have written about many summits. Their job has been to rubber stump the Washington consensus, and offer an illusory picture of collective action and grip – when the truth has been "market states" running up the white flag before the ever advancing battalions of global finance. This summit is decisively different – the most substantive of its type since 1944. It offers a break with the Washington consensus, free market ideology and financial turbo capitalism – and is assembling the world around a new order and set of ideas."

Will Hutton, "G20: Best summit since 1944" (uma leitura bastante optimista dos resultados da Cimeira de ontem)

" In the early years of this decade, China began running large trade surpluses and also began attracting substantial inflows of foreign capital. If China had had a floating exchange rate — like, say, Canada — this would have led to a rise in the value of its currency, which, in turn, would have slowed the growth of China’s exports. But China chose instead to keep the value of the yuan in terms of the dollar more or less fixed. To do this, it had to buy up dollars as they came flooding in. As the years went by, those trade surpluses just kept growing — and so did China’s hoard of foreign assets."

Paul Krugman, "China's dollar trap" (que apesar de reconhecer que a Cimeira superou as expectativas - "realistically, most big-time international meetings produce nothing; this did something significant." - continua a colocar o dedo na ferida: as relações económicas entre uma China com super-avit comercial e com uma moeda desvalorizada e uns EUA com défices comerciais "crónicos")