"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O jornalista e o polícia

No "Visto da Economia", Helena Garrido escreve que "ser jornalista não é ser polícia nem juiz exactamente porque a aproximação aos factos jornalísticos - ou verdade jornalística - é muito diferente da aproximação à verdade da investigação policial e do julgamento. Mas tal como a polícia e o juiz, também nós jornalistas temos regras. E uma delas é a validação da informação que transmitimos confrontando fontes independentes e informação adicional que nos dê garantias de que a informação que estamos a transmitir é o mais próxima possível da verdade jornalística - não policial nem jurídica." Eu não poderia estar mais de acordo - também, com tudo o resto que está escrito no post -, mas o que me preocupa é que isto precise de ser escrito e defendido por uma jornalista, não sendo tratado como o que de facto deveria ser, um adquirido.

O efeito Alegre

De há uns tempos para cá tem havido muita especulação sobre o efeito da formação de um partido por Manuel Alegre no voto no PS. Se bem me parece, o que de mais próximo existe desse cenário é a candidatura independente de Helena Roseta em Lisboa. A crer na sondagem para as autárquicas na capital, divulgada esta semana, podemos de algum modo antecipar os efeitos de uma eventual candidatura de Alegre às legislativas, fora do PS. A surpresa, ou talvez não, é que quem mais sofre com o "efeito Alegre" não é o PS, mas, sim, o Bloco de Esquerda. O mesmo BE que numa sondagem nacional este fim-de-semana surgia com 13.6, em Lisboa, um concelho onde tende a ter bons resultados, aparece com 3.8%, um valor que nem sequer permite eleger um vereador. Já Roseta tem 7.1%.

sábado, 25 de abril de 2009


Venha a maré cheia
Duma ideia
P'ra nos empurrar

Só um pensamento
No momento
P'ra nos despertar
(...)
Ergue-te ó Sol de Verão
Somos nós os teus cantores
Da matinal canção


José Afonso, Coro da Primavera

sexta-feira, 24 de abril de 2009

A festa



Há mais de vinte anos que os Flaming Lips andam por aí com uma carreira, no dizer dos próprios, acidental e que tem no documentário "Fearless Freaks" um excelente retrato. Agora, numa votação popular, 'do you realize?' de Yoshimi Battles the Pink Robots foi escolhido como o hino rock do Estado de Oklahoma, de onde Wayne Coyne e os seus companheiros são originários. Entretanto, a Câmara de representantes estadual não formou uma maioria suficiente à aprovação da escolha popular (assim mais ou menos como está a acontecer cá com o substituto do Provedor de Justiça). Pouco importa, hoje o Governador aprovou a escolha, independentemente da votação na Câmara. O que aqui se vê é a versão ao vivo que está no DVD de UFO's At The Zoo, gravado em Oklahoma. O que se vê é a festa e casais que se abraçam. Tudo terno e sereno como não se esperaria vinte anos antes. Que bom deve ser ser de Oklahoma.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Recato

Hoje, num mesmo telejornal, vi sucessivamente declarações de João Palma (o novo presidente do sindicato dos magistrados do Ministério Público), Cândida Almeida e Maria José Morgado. Não sei se é uma manifestação do "poder feudal de condes, viscondes, marqueses e duques" que, pouco tempo após a sua tomada de posse, Pinto Monteiro reconheceu existir no Ministério Público. Mas, quando o que se esperava era recato e celeridade nas investigações, o que recebemos de figuras relevantes do Ministério Público é uma propensão para a presença no espaço mediático no mínimo desajustada. Não sei porquê, mas isto tem todo o ar de que não vai acabar nada bem.

Grandes ciclistas


Para além de Bartali, Paolo Conte escreveu uma outra canção sobre ciclistas. Diavolo Rosso, dedicada a Giovanni Gerbi, um ciclista do início do século XX. Mas, na verdade, o ciclismo aqui é um pretexto para o astigiano falar do seu mundo, a "pianura padana" e Monferrato - a terra quer de Conte, quer do Diavolo Rosso.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Grandes ciclistas


A propósito de metáforas de ciclistas e bicicletas, vale a pena recordar Gino Bartali – do tempo em que o ciclismo era o desporto do povo. Conta a lenda que, no pós-guerra, e no dia em que Togliatti – que era secretário-geral do PCI – foi atingido a tiro, empurrando a Itália para o que parecia ser uma Guerra Civil inevitável, as vitórias sucessivas de Bartali no Tour foram decisivas para transformar a conflitualidade nas ruas em celebrações populares. Um ciclista que tinha colaborado com a resistência à ocupação, fazendo de estafeta, passando os pontos de controlo com a desculpa que estava a treinar, mas acima de tudo, o Gino que, com “aquele nariz triste de italiano alegre”, era a Itália. Nesse dia, Bartali não pedalou apenas a sua bicicleta.



(na verdade, houve vários outros dias em que Bartali não se limitou a pedalar a sua bicicleta. Como na mítica subida ao Col d'Izoard, quando ofereceu água ao seu arqui-rival, e símbolo de uma Itália moderna, Fausto Coppi, ajudando-o a vencer o Tour desse ano.)

Uma bicicleta para cada um

José Sócrates chegou a esta entrevista durante uma tempestade perfeita: uma crise económica e social sem paralelo na história recente e que vem agravar os défices estruturais do país; conflitualidade institucional com a Presidência da República e, claro, o caso FreePort.
A entrevista – um formato com escassa intermediação e no qual Sócrates se sente particularmente à vontade – revelou um primeiro-ministro determinado (reconhecendo que carrega uma cruz com o caso Freeport, mas que “não é desta forma que o vencem”); a negar o arrefecimento das relações institucionais com Belém (o que só é explicável por avisada prudência política) e a revelar mais uma medida para diminuir o impacto da crise (o alargamento do acesso ao subsídio social de desemprego).
Sem grandes novidades nos argumentos, houve, contudo, uma metáfora usada por Sócrates que sintetiza bem o que será este ano político: “cada um tem de puxar a sua bicicleta”. Um recado que pareceu ser também destinado a Cavaco Silva.
Por relação aos seus competidores directos, o “ciclista” Sócrates tem, contudo, manifestas vantagens (à cabeça o facto de ser o único candidato à “camisola amarela”, a primeiro-ministro), mas resta saber se a determinação será suficiente. Uma das consequências de uma tempestade perfeita é deixar as “bicicletas” em bastante mau estado. Com o desemprego a crescer, com a economia em recessão e com o caso Freeport a “envenenar” o debate político, não basta a Sócrates puxar a sua bicicleta para renovar a maioria absoluta. É esse o drama político desta crise.

comentário à entrevista de José Sócrates, publicado hoje no DN.

terça-feira, 21 de abril de 2009

A indignação selectiva

Permitir que um director-geral tenha acesso às contas bancárias dos contribuintes é um acto que carece de fundamentação precisa (e, na verdade, não se ficou a perceber os contornos do que foi aprovado na semana passada), mas convenhamos que este é um país com uma escala de prioridades estranha. Enquanto assistimos a uma grande indignação perante a compressão de direitos dos que, ganhando muito, fogem ao fisco, quando se trata de pobres, a única indignação é com a fraude no benefício de prestações. A lição a tirar é por isso só uma: se fores pobre e fingires que és muito pobre, já sabes, vamos estar de olho em ti; se fores muito rico e te fizeres passar por rico, já sabes, estaremos cá para proteger os teus direitos.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Quem se mete com as ordens, leva

Nos últimos tempos, um dos momentos altos do “jornalismo” de “investigação” foi quando, logo pela manhã, o Correio da Manhã publicou uma notícia sobre a compra de uma casa pela mãe de Sócrates, para, depois, à noite, o noticiário da SIC compôr a notícia, acrescentando mais qualquer coisa. Na altura achei uma estranha coincidência. A menos que dois jornalistas se tivessem lembrado de ir ao encalço de uma notícia semelhante e lhes tivesse ocorrido torná-la pública no mesmo dia, havia qualquer coisa que não batia certo. Era um Sábado, os notários deveriam estar fechados, pelo que dificilmente um jornalista da SIC poderia “investigar” a deixa do colega do CM. Hoje, o Público revela-nos como foi feita a investigação: “a Ordem dos Notários (ON) enviou no início do ano uma mensagem de correio electrónico aos profissionais responsáveis pelos mais de 400 cartórios notariais do país a pedir informações sobre as escrituras públicas em que intervieram o primeiro-ministro, José Sócrates, e a sua mãe”.
Não há grande volta a dar. Trata-se da Ordem que representa uma classe profissional que detinha um monopólio e que deixou de o deter. Aliás, a Senhora Bastonária não esconde ao que vem: “as pessoas não se podem esquecer que os notários possuem arquivos públicos e o primeiro-ministro é um cidadão como outro qualquer. A partir de agora, com a possibilidade de os advogados fazerem muitos actos que antes exigiam escritura pública por documento particular autenticado, os papéis não vão estar tão acessíveis. É que os arquivos dos senhores advogados não são públicos". Moral da história: metam-se com as ordens e já sabem, levam. Para pressões, não estamos mal.

domingo, 19 de abril de 2009

Claramente o melhor gajo do mundo (do momento)


And alone in my room,
I am the last of a lost civilization


De Sunset Tree, provavelmente o melhor disco dos Mountain Goats, talvez inclusivamente para mim, "Hast Thou Considered the Tetrapod?"
(para browsers com manias, aqui fica o link)

A working class hero is something to be


Frank Sobotka, The Wire

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Record Store Day


Amanhã é a festa da música para quem cresceu a juntar todos os escudos para estoirar em discos na discoteca mais perto de casa. Um mundo já distante, agora que os downloads (i)legais vieram para ficar. Alguns desses maluquinhos que vivem a nostalgia do passado, vão estar por aqui amanhã. Há boas razões para isso, até porque juntar todos os euros e estoirar em discos continua a ser das melhores coisas que se pode fazer.
(quem por ócio estiver interessado em saber o que eu penso sobre algumas questões verdadeiramente importantes, pode seguir este link).

(Record Store Day é um dia assinalado desde 2007 com o intuito de celebrar a existência de lojas físicas que vendem predominantemente discos mas, sobretudo, para celebrar toda a cultura associada a esses espaços onde se vive, respira, troca, vende e compra música e experiências a ela associadas. A Flur, em Santa Apolónia, junto ao Lux e Bica do Sapato, vai celebrar).

Três guitarras à la Sonic Youth ó'carálho



Os
Isabelle Chase Otelo. Para protest song, bem melhor do que os Xutos.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

A falsa consciência de Zé Pedro

Sobre a música dos Xutos de que se fala, o texto mais conseguido que li foi o editorial de hoje do Público, de Nuno Pacheco. O argumento é simples e parece-me encerra a discussão: o grupo já veio dizer que a música não visava em concreto este primeiro-ministro, mas, a crer no Público, isso pouco importa, pois o que conta é a apropriação social que, em cada momento, é feita das músicas ("na relação das canções com o meio social, é sempre este último que dita a palavra definitiva"). Daqui decorre um corolário: mesmo canções que não foram concebidas com um determinado objectivo, podem adquiri-lo se o "meio social" assim o entender. As tais canções que "acabam por se tornar veículos de coisas com que os seus autores nem sequer sonharam". Este é, para Nuno Pacheco, o caso da canção dos Xutos, "pensem os Xutos o que pensarem" (sic).
Se bem estou recordado do Marx que aprendi na faculdade e está claramente muito enferrujado, uma determinada posição de classe decorre das condições materiais de existência, mas como as visões dominantes (a ideologia, que tem uma conotação pejorativa) são as da classe dominante, a um determinado lugar de classe podem corresponder visões que configuram uma falsa consciência. Daí que a única acção política consequente seja a que rompe com a infra-estrutura (i.e. as condições materiais), levando a que a um lugar de classe corresponda à consciência de classe adequada.
É tal e qual isto que se está a passar com o Zé Pedro. Ele bem que pode vir negar o sentido da música e até vir dizer que, com naturais reservas, apoia José Sócrates. Mas que não restem dúvidas. A Voz do Povo reconstruída é que sabe: a falsa consciência de classe do Zé Pedro justifica as declarações que tem procurado fazer nos últimos dias; mas as condições materiais de existência é que explicam, de facto, a música. Aliás, suspeito mesmo que o Zé Pedro é portador da transformação social, mesmo que não tenha consciência. Vai-se a ver, ele próprio é dispensável.

While my guitar gently weeps


Depois de uns tempos como música de palco do Sufjan Stevens e da Polyphonic Spree, e abandonado o nome de Annie Clark, St. Vincent mostrou como era possível cruzar Jimi Hendrix com Kate Bush e fazer um grande disco. O nome era no mínimo provocatório: marry me. Como se houvesse falta de pretendentes. Isso foi há dois anos. Agora que há disco novo para breve, em Maio, os sinais de que a faceta Jimi Hendrix ganhará peso são muitos. Raparigas que dão tratamentos destes às guitarras têm muito que se lhe diga.
(aqui um cover hendrixiano de dig a pony; teledisco do novo single; e marry me ao vivo).

terça-feira, 14 de abril de 2009

Uma questão de sombras

Há naturalmente aspectos positivos na escolha de Paulo Rangel para cabeça de lista do PSD ao Parlamento Europeu. Desde logo, assegura que na campanha para as europeias se projecta a disputa política doméstica, na qual Rangel tem sido a face visível do combate parlamentar com o primeiro-ministro. Para quem está na oposição, não há volta a dar, eleições de segunda ordem, como as europeias, são, no essencial, momentos para discutir política nacional. É mau que assim seja, mas é da vida. Depois, a partir do momento que o PS apresentou Vital Moreira, o PSD precisava de um candidato com densidade política para lhe fazer frente. Pese embora o estilo desajustado que frequentemente adopta no Parlamento, Rangel não é um político do “circuito da carne assada”.
O problema da escolha de Rangel é que esta perpetua o principal problema da liderança de Ferreira Leite.
Convém não esquecer, Ferreira Leite foi eleita com pouco mais de um terço dos votos dos militantes do PSD e, depois de um congresso completamente falhado, nunca foi capaz de fazer o que uma líder nas suas circunstâncias precisa. Afirmar-se, também unindo o partido. O que temos sistematicamente assistido é um processo contrário. Por um lado, com a excepção de Rangel, Ferreira Leite não tem conseguido promover novos protagonistas e, por outro, tem sido invariavelmente incapaz de alargar a sua base de apoio interna.
A escolha de Rangel, ao mesmo tempo que desloca de um palco relevante o único novo protagonista que se conseguiu afirmar, entrincheira Ferreira Leite no seu núcleo duro de apoiantes. Se ao medo das sombras – característica dos líderes fracos – somarmos todos os outros problemas que Ferreira Leite tem revelado (a gestão do timing de escolha do cabeça de lista ao PE foi o último de um longo rol de exemplos. É espantoso escolher o exacto dia em que foram conhecidas as estimativas de primavera do banco de portugal), talvez se perceba melhor as razões porque, mesmo num contexto de crise económica e social e de descontentamento com o governo, o PSD não consegue capitalizar eleitoralmente.

A corrupção e a corrosão

"Há uma afirmação que se tornou uma verdade quase insofismável: a corrupção está a corroer os alicerces da nossa democracia. Peço desculpa, mas o que está a corroer a democracia são os casos em que foi criada a percepção no espaço público de que alguém era corrupto sem que depois seja produzida prova necessária a uma condenação.
Ou seja, regressamos ao problema de sempre: as debilidades da investigação em Portugal e o modo como as suas insuficiências tendem a ser colmatadas com informação passada a conta-gotas para a comunicação social. Pelo caminho, enquanto os verdadeiros culpados de ilícitos têm boas razões para se sentirem confortáveis, um inocente deve ficar muito preocupado. Um culpado sabe que tem poucas probabilidades de ser condenado e um inocente pode ter a certeza que, no mínimo, a dúvida sobre a sua culpabilidade ficará a pairar."

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

20 anos de Merge


A Merge Records de Mac McCaughan, o líder dos Superchunk, mas, também, dos Portastatic faz por estes dias 20 anos. Para celebrar editou um disco onde bandas de outras editoras regravam temas editados na Merge. Aqui os National juntam-se à Annie Clark (aka St. Vincent, que tem disco novo para muito breve) e fazem isto a sleep all summer dos Crooked Fingers.

Sleep All Summer - St. Vincent And The National

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Coisas verdadeiramente importantes


Para além da emissão em streaming, já é possível ouvir também em podcast as emissões do Quase Famosos, o programa que faço com o Nuno Costa Santos no Rádio Clube.