"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

terça-feira, 12 de maio de 2009

Este ano


(ou o Cavaco que se cuide)

Já desistiu

O que a declaração de Ferreira Leite esconde é que o PSD incorporou a ideia de que não pode vencer e desistiu de lutar pela maioria absoluta. O problema é que essa desistência diminui a propensão para a bipolarização e, logo, as condições de governabilidade futuras do país. A percepção de que o PSD não pode ganhar tem ajudado à dispersão de voto à esquerda e à criação de um terceiro bloco, com cerca de 20% das intenções de voto, mas que se exclui de qualquer solução de governabilidade. Se o PSD não compete, de facto, pela vitória com o PS, os custos de votar à esquerda como forma de protesto são aparentemente baixos.Tendo em conta que o país vai precisar de um Governo que dure uma legislatura e que PS e PSD estão relativamente próximos em questões centrais, o melhor cenário é um Governo de maioria absoluta do PS ou do PSD, até porque a alternativa é uma pulverização eleitoral, que só produzirá instabilidade política. Que Ferreira Leite já tenha desistido deste objectivo é, por isso, incompreensível para o PSD e prejudicial para o país.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Este gajo levava o meu voto



O Pete Seeger fez noventa anos e ainda há uns meses o vimos a cantar ao frio, na tomada de posse de Obama, acompanhado pelo Springsteen. Há uma semana, no Madison Square Garden, em vez dos Knicks, jogou uma rapaziada para o homenagear. Não se encontram as músicas com um mínimo de qualidade (pensando bem, talvez valha a pena ver este video), mas esta discursata do Boss é do caraças e vale a pena, independentemente das músicas. Ainda a propósito da versão integral do 'this land is your land', cantada na tomada de posse: "that’s what Pete’s done is all life. He sings all the verses all time. Especially the ones we would like to leave out of our history as a people."
(e claro, esqueçam a pivot)

É reconfortante ler isto

"(...) To be sure, all Presidents want to be seen as political centrists. They dare not proclaim themselves "Right" or "Left," or even "conservative" or "liberal," on an ideological spectrum that’s become ever more highly polarized. It is politically safer – yes, even pragmatic – to describe one’s values as "commonsensical" or "middle of the road." But even this description minimizes and distorts a president’s capacity for leadership. A true leader does not take the public to where the public happens to be, because the public is already there. A leader takes the public to where the public should be, according to that leader’s view of the society’s highest ideals – ideals that the public shares but which have not yet been realized.

Obama did this several times during the presidential campaign, most notably in his courageous speech on race. He took America to a higher place by explaining what we all knew and felt but giving it a larger and nobler frame. He educated us in the best sense of the word. Doing so may have been politically pragmatic but his goal was not solely to get elected. Nor was it simply to demonstrate to us the leadership of which he is capable, although the speech did that. His goal was also to make us more aware about how race is used divisively. In doing so he drew on what in retrospect seem "commonsensical" positions and "middle of the road" values. But that’s not how the speech struck most of us then. We were transformed by the power of his thinking and the values that underlay it – values that we share but had not thought through.

President Obama can afford to do the same with regard to the overriding issue of widening inequality in American society. He can connect the dots for us, allowing us to understand why inequality is widening without deriding the rich or castigating the fortunate. Doing so would allow us to understand what he is seeking to do and why, and empower us to seek and do the same."

Robert Reich

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Há, de facto, muita tolerância com o PC

Um amigo chamou-me a atenção para as declarações de hoje no parlamento do deputado comunista Bernardino Soares, onde este qualificou as palavras do deputado socialista Mota Andrade como estando “ao nível das de um destacado militante do PS, [que,] na pele de comentador, até se atreveu a dizer que tem havido demasiada tolerância com o PCP na sociedade portuguesa”. Tendo depois acrescentado que “se vivêssemos no tempo do fascismo, eram uma boa carta de recomendação para integrar os quadros da PIDE”. As citações são da Lusa e tomo-as por verdadeiras.
O comentador sou eu e de facto na sexta-feira na RTP-N disse que há muita tolerância na sociedade portuguesa com o PC. A frase foi dita perante a a recusa que o PC demonstrou ao longo do dia em se distanciar dos agitadores (que se combinou com as twittadas do deputado Miguel Tiago, que, entre outras pérolas, escreveu que “Vital Moreira é que agride os trabalhadores portugueses há muito tempo!” (sic)). Em momento algum esteve em causa outra responsabilidade do PC que não a de, ao contrário dos outros partidos, não ter criticado o que aconteceu. Mas se fossem necessárias mais provas da tolerância que se tem com o PC, aí estão as declarações de Bernardino Soares hoje.
Vamos ver se nos entendemos: as democracias pluralistas assentam num chão comum, que tem necessariamente de ser partilhado por todos. O problema do PC é mesmo esse: divide-se entre a hesitação na defesa e a secundarização de princípios basilares da democracia, à cabeça o pluralismo, o respeito pelos direitos humanos e pela liberdade de expressão. Basta ter lido as teses ao último congresso onde o PCP defendia o “papel de resistência à “nova ordem” imperialista” dos países que definem como “orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista – Cuba, China, Vietname, Laos e R.D.P. da Coreia” e onde revelava uma nostalgia despudorada da U.R.S.S – “a contribuição da URSS e, posteriormente, do campo dos países socialistas, para os grandes avanços de civilização verificados no século XX foi gigantesca” para se perceber a consideração que o PC tem por esse chão comum. Sobre votos de fé na democracia, estamos, por isso, conversados. Façamos um paralelismo com o que aconteceria se um qualquer partido de direita português se lembrasse de tecer um elogio equivalente a qualquer regime autoritário. Suspeito que ninguém, e a meu ver bem, toleraria. Pois ao PC tudo é permitido, desde logo a escalada de crescente ortodoxia em que se tem embrenhado e que é tomada como uma idiossincrasia nacional, meio patusca. De facto, é preciso ter muita tolerância com os intolerantes.
Há uma fonte de legitimação democrática à qual o PC recorre sempre que se vê em apuros – o anti-fascismo e a corajosa resistência de muitos comunistas ao regime de Salazar. 35 anos depois, aí reside o capital democrático dos comunistas portugueses. É isso, aliás, que permite, por exemplo, que o PC se ache dono e senhor do 25 de Abril e do 1º de Maio, momentos em que outros democratas são autorizados a juntarem-se aos comunistas. Nada disto é novidade, mas é uma tendência que se tem acentuado nos últimos tempos. Nem sequer é preciso voltar ao “caso Vital Moreira”. Basta recordar como José Neves – a quem todos os que em Portugal defendem uma sociedade pluralista devem de facto muito – foi também apupado este ano nas comemorações do 25 de Abril.
Bernardino Soares, que há uns tempos tinha “dúvidas que a Coreia do Norte não fosse uma democracia”, resolveu hoje dizer que as minhas declarações “eram uma boa carta de recomendação para integrar os quadros da PIDE”. De facto, há muita tolerância com o PC, desde logo, porque a afirmação é de tal modo insultuosa que só é tolerável porque vivemos numa democracia, onde temos de tolerar principalmente os intolerantes.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Até tu, Stringer Bell


"They're so removed from what I do and at the same time they're very protective of me, because I'm their only child. I tell them that Obsessed is breaking box-office records and that I'm going to be interviewed on the Paul O'Grady Show, and my mum says, 'Oh, that's good. Did you eat today?' I need that stuff more than ever" ·
Idris Elba, mais conhecido como Stringer Bell, no Guardian.

E que tal arranjarem um argumento?

João Cravinho tem inteira razão na indignação quanto ao que foi aprovado no Parlamento a semana passada. Sobre isso, escrevi o que penso aqui. Mas não me deixa de espantar que, quase uma semana passada, ainda não se tenha conseguido ver ou ouvir um único argumento a explicar a razão da alteração do tecto para as contribuições em dinheiro vivo. Foi alterado e pronto. E não esqueçamos, os partidos andam todos muito preocupados com a abstenção, com a corrupção. Nota-se.

terça-feira, 5 de maio de 2009

O Pai Natal dos partidos

a semana passada, os deputados reuniram-se para, de surpresa e após todas as audições públicas, darem um passo ao arrepio do que havia sido feito nos últimos anos: aprovaram um aumento em mais de um milhão de euros do limite das entradas em dinheiro vivo nas contas dos partidos, sem necessidade de prestar contas. Ou seja, o que era um limite razoável para acomodar algumas contribuições de militantes e angariações de fundos pagas em numerário, subiu de um tecto de 22 mil euros para mais de 1 milhão de euros. Ao mesmo tempo que a subvenção pública se manteve inalterada, tendo inclusivamente sido aprovada uma derrogação da indexação ao IAS. Mais, ficámos a saber que os orçamentos para campanhas eleitorais vão também subir. O que os deputados todos, com uma excepção, nos quiseram dizer, em memória do mártir, doador anónimo do CDS/PP, é claro: "que mil Jacintos Capelo Rego floresçam". Doravante, os partidos voltam a poder ficcionar uma angariação de fundos como forma de dividir montantes não enquadráveis pela lei. Que a necessidade de regularizar as contas da Festa do Avante! - esse momento em que um número de beneméritos da área metropolitana de Lisboa se junta para celebrar a Revolução de Outubro fazendo oferendas em dinheiro vivo - seja invocada é, aliás, do domínio do anedotário nacional.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

O maravilhoso mundo da PT

De repente, e já não é a primeira nem a segunda vez, fico sem o meu serviço ‘triple-play’ (nada como nomes em estrangeiro). Ao longo de mais de 24 horas, ligo para o número de telefone que está num cartão que, de modo prestável, um técnico da MEO deixou numa das passagens por minha casa. Ligo e do 808 mandam-me ligar para o 707; depois de premir várias teclas, chego finalmente à fala com alguém. Como sempre, em lugar de me darem respostas, fazem-me perguntas. Pergunto se estou a pagar a chamada, dizem-me que sim. Ou seja, pago um balúrdio todos os meses pelo serviço, fico sem telefone fixo para comunicar uma avaria pela qual não sou responsável e, no fim, ainda tenho de pagar uma chamada de telemóvel para o número de “apoio” ao “cliente”. Se estas chamadas já são invariavelmente longas, que dizer da tentativa de apresentar uma queixa. Há uns tempos, mudei da Netcabo para a MEO por estas e por outras. Agora, a pergunta que faço é: mudar para quê?
(umas tentativas depois, nem sequer há “atendimento” ao “cliente”. Desligaram. No fim do ano, já se sabe, os gestores da PT devem receber uns prémios de produtividade. Não é certamente pelo serviço que prestam. Entretanto, telefonou-me o Jacques, dizendo que já sabia que eu estava com um “probleminha” (sic). Diz que aparece daqui a umas horas).

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Movimento apaguem a memória

Aparentemente, e a crer nas imagens da RTP, um dos ânimos mais exaltados no passado 1º de Maio é um militante do BE, candidato pelo partido nas legislativas de 2005. Surpreendentemente, hoje, o link que remetia para uma página da campanha do BE de Coimbra e onde aparecia uma foto que identificava o camarada agitador, que surgia ao lado de, entre outros, Boaventura de Sousa Santos, passou a estar indisponível.
(mais desenvolvimentos aqui.)

Um curriculum apresentável


conversas do gmail:
me: não viste o Barça? não sei o que é que vais contar aos teus filhos.
manel: 6-3, 4-4, 2-1 (parma e juve), 1-0 marselha, 7-0 Honved, 0-6 hamrum spartans (poker do yuran), 3-1 cska sofia golaço do schawrtz, 5-2 final da taça contra o boavista, 3-2 bessa sousa à baliza e o golo do luisao ao ricardo.

Séries da minha vida


A Charlotte envolveu-me numa corrente (acho que nunca tinha sido envolvido numa destas coisas) para escolher as quinze séries que deram consistência (bolas!) à minha vida. Acho que quinze é um número excessivo. Aqui vão algumas.
Primeiro, as dos anos de formação: a Galáctica, a Balada de Hill Street e os Três Duques. Depois, a única que segui sem interrupções, bem antes das caixas integrais: Twin Peaks (que podia também chamar-se, com propriedade, E Deus criou a mulher). Pelo meio, o Reviver o Passado em Brideshead, que vi parcialmente talvez na segunda emissão na RTP e depois integralmente em 1994, na primeira caixa que tive com uma série, em VHS, e já depois de devidamente inspirado pelo Evelyn Waugh (salvo seja). Nos últimos tempos, quatro séries que entram directamente para o top-10. O Roma do John Millius que, ainda não sei como, conseguiu não introduzir nenhuma metáfora sobre surf na série; o Deadwood, que bate todas as outras pelo realismo e pelos actores (estou há dois anos para arranjar a última temporada com legendas); o West Wing (a mais entusiasmante de todas as que vi, o que não deve abonar muito a meu favor); e ainda o The Wire, talvez a melhor de todas na construção das personagens e que imagino seja uma abordagem realista de uma realidade que, na verdade, desconheço se existe de facto assim.
Para que isto não morra aqui, passo a corrente ao Tiago Tibúrcio, ao Pedro Marques Lopes, ao Miguel Marujo, ao Lourenço Cordeiro e ao Pedro Arruda.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Working class hero


Isto passou-se anteontem em Philadelphia e tenho a certeza que o Joe Strummer deve ter ficado contente.

Assim se vê a força do PC

São 18.15 e, até agora, as únicas declarações de repúdio que se conseguem encontrar a propósito dos incidentes com Vital Moreira vindas de um dirigente da CGTP, foram as de Carlos Trindade, que é militante do PS. Já Carvalho da Silva, sempre tão prolixo, deve estar neste momento a convencer os camaradas do comité central de que é mesmo melhor dizer qualquer coisa. Ainda não é o momento de passar para formas mais avançadas de luta.
(esperem lá, acabo de descobrir pelo Paulo que o camarada Jerónimo afinal já falou, para dizer: "Não assisti aos factos, não tenho informações suficientes". E que dizer das palavras da jovem guarda?. Carvalho da Silva entretanto já tem informações: quem reagiu assim foram trabalhadores desempregados ou em desespero. Pelos vistos não foi autorizado a pedir desculpas.)

A vida corre inteira pelas nossas mãos


Hoje à noite, no Santiago Alquimista, directamente do Jardim da Estrela, Os Golpes apresentam o seu disco de estreia. Foi preciso esperar uns quanto anos para que voltasse a valer a pena ouvir rock em português. Como escreve o Samuel Múria, "o fervilhar do rock português de tempos idos está lá todo. Mas desenganem-se os profetas da desgraça, do terrorismo-revivalismo, do rebanho de antanho: Os Golpes não são do passado. A grande ironia geográfica deste país hipnotiza-nos com a sua cauda. Os Golpes estão noutra ponta: a garraiar os cornos do porvir."

quinta-feira, 30 de abril de 2009

A festa do Avante e o Pai Natal

Quando devíamos estar a caminhar para o financiamento exclusivamente público e das quotas dos militantes, para a economia nos gastos de campanhas e para a fiscalização e consolidação das contas partidárias, o Parlamento deu hoje, numa pouco habitual unanimidade (com a notável excepção do António José Seguro), um passo no sentido contrário: abriu a porta para que todos os partidos possam, à vontade, encontrar os seus Jacintos Capelo Rego. Ficcionar angariações de fundos e depois introduzir, em suaves fracções, o dinheiro através dessas portas. Ah, claro, tudo isto foi feito para regularizar as contas da Festa do Avante. Exacto, esse momento em que um número de cidadãos, imbuídos de um espirito natalício, oferece generosas quantias ao PCP. Eu também acredito no Pai Natal.

Um País

Conheço a história suficientemente bem para saber que este episódio é só parte da farsa em que se transformou a tragédia. Agora foi a vez do tribunal da relação dar razão ao ex-aluno da Casa Pia acusado por Jaime Gama de difamação. O motivo é simples: os juízes consideram que seria um «absurdo» tentar impor ao jovem que provasse a veracidade das afirmações, algo que «a investigação penal não conseguiu». Imagino que isto seja considerado "liberdade de expressão". A liberdade de caluniar.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

"if you dance, you'll understand the music better"

terça-feira, 28 de abril de 2009

Há trinta anos a levar a novilíngua ao mundo (hoje, é a vez de Lisboa)


Gadji beri bimba clandridi
Lauli lonni cadori gadjam
A bim beri glassala glandride
E glassala tuffm I zimbra




(ainda sobre o reencontro)

Uma revolução tranquila

Numa sociedade com défices de qualificação assentes num pesado lastro geracional, a generalização da escolaridade só é exequível se assentar em importante medida nas vias profissionalizantes. Ora também neste aspecto Portugal tem um défice crónico: enquanto, entre nós, a percentagem de alunos do secundário que, em 2001, frequentava as vias vocacionais se situava em redor dos 23%, na média da OCDE essa mesma percentagem era de 47,5% e na média da UE, de 60%. É por isso que a aposta nas vias profissionalizantes enquanto instrumento central para a promoção da qualificação foi não só o mais importante dos passos prévios que torna hoje possível o alargamento da escolaridade obrigatória, como tem sido uma autêntica revolução tranquila, um processo reformista silencioso, mas que vai à raiz dos nossos défices estruturais.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.