quarta-feira, 13 de maio de 2009
Um camelo numa varanda
Uma das coisas boas da idade adulta é poder-se comprar bilhetes decentes para concertos. Daqui a um par de semanas, o tipo na segunda fila que se vê neste video vou ser eu. Entretanto, enquanto vou vendo o DVD do Ashes of American Flags (ainda não houve ninguém que fizesse o obséquio de democratizar a coisa no youtube), os próprios Wilco têm para audição integral o novo álbum (que tem o magnífico nome de Wilco) no site da banda. A propósito, o álbum vem acompanhado de uma grande capa e não desilude. Aliás, o dueto com a senhora Feist é como se esperava.
terça-feira, 12 de maio de 2009
Já desistiu
O que a declaração de Ferreira Leite esconde é que o PSD incorporou a ideia de que não pode vencer e desistiu de lutar pela maioria absoluta. O problema é que essa desistência diminui a propensão para a bipolarização e, logo, as condições de governabilidade futuras do país. A percepção de que o PSD não pode ganhar tem ajudado à dispersão de voto à esquerda e à criação de um terceiro bloco, com cerca de 20% das intenções de voto, mas que se exclui de qualquer solução de governabilidade. Se o PSD não compete, de facto, pela vitória com o PS, os custos de votar à esquerda como forma de protesto são aparentemente baixos.Tendo em conta que o país vai precisar de um Governo que dure uma legislatura e que PS e PSD estão relativamente próximos em questões centrais, o melhor cenário é um Governo de maioria absoluta do PS ou do PSD, até porque a alternativa é uma pulverização eleitoral, que só produzirá instabilidade política. Que Ferreira Leite já tenha desistido deste objectivo é, por isso, incompreensível para o PSD e prejudicial para o país.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Este gajo levava o meu voto
O Pete Seeger fez noventa anos e ainda há uns meses o vimos a cantar ao frio, na tomada de posse de Obama, acompanhado pelo Springsteen. Há uma semana, no Madison Square Garden, em vez dos Knicks, jogou uma rapaziada para o homenagear. Não se encontram as músicas com um mínimo de qualidade (pensando bem, talvez valha a pena ver este video), mas esta discursata do Boss é do caraças e vale a pena, independentemente das músicas. Ainda a propósito da versão integral do 'this land is your land', cantada na tomada de posse: "that’s what Pete’s done is all life. He sings all the verses all time. Especially the ones we would like to leave out of our history as a people."
(e claro, esqueçam a pivot)
É reconfortante ler isto
"(...) To be sure, all Presidents want to be seen as political centrists. They dare not proclaim themselves "Right" or "Left," or even "conservative" or "liberal," on an ideological spectrum that’s become ever more highly polarized. It is politically safer – yes, even pragmatic – to describe one’s values as "commonsensical" or "middle of the road." But even this description minimizes and distorts a president’s capacity for leadership. A true leader does not take the public to where the public happens to be, because the public is already there. A leader takes the public to where the public should be, according to that leader’s view of the society’s highest ideals – ideals that the public shares but which have not yet been realized.
Obama did this several times during the presidential campaign, most notably in his courageous speech on race. He took America to a higher place by explaining what we all knew and felt but giving it a larger and nobler frame. He educated us in the best sense of the word. Doing so may have been politically pragmatic but his goal was not solely to get elected. Nor was it simply to demonstrate to us the leadership of which he is capable, although the speech did that. His goal was also to make us more aware about how race is used divisively. In doing so he drew on what in retrospect seem "commonsensical" positions and "middle of the road" values. But that’s not how the speech struck most of us then. We were transformed by the power of his thinking and the values that underlay it – values that we share but had not thought through.
President Obama can afford to do the same with regard to the overriding issue of widening inequality in American society. He can connect the dots for us, allowing us to understand why inequality is widening without deriding the rich or castigating the fortunate. Doing so would allow us to understand what he is seeking to do and why, and empower us to seek and do the same."
Robert Reich
Obama did this several times during the presidential campaign, most notably in his courageous speech on race. He took America to a higher place by explaining what we all knew and felt but giving it a larger and nobler frame. He educated us in the best sense of the word. Doing so may have been politically pragmatic but his goal was not solely to get elected. Nor was it simply to demonstrate to us the leadership of which he is capable, although the speech did that. His goal was also to make us more aware about how race is used divisively. In doing so he drew on what in retrospect seem "commonsensical" positions and "middle of the road" values. But that’s not how the speech struck most of us then. We were transformed by the power of his thinking and the values that underlay it – values that we share but had not thought through.
President Obama can afford to do the same with regard to the overriding issue of widening inequality in American society. He can connect the dots for us, allowing us to understand why inequality is widening without deriding the rich or castigating the fortunate. Doing so would allow us to understand what he is seeking to do and why, and empower us to seek and do the same."
Robert Reich
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Há, de facto, muita tolerância com o PC
Um amigo chamou-me a atenção para as declarações de hoje no parlamento do deputado comunista Bernardino Soares, onde este qualificou as palavras do deputado socialista Mota Andrade como estando “ao nível das de um destacado militante do PS, [que,] na pele de comentador, até se atreveu a dizer que tem havido demasiada tolerância com o PCP na sociedade portuguesa”. Tendo depois acrescentado que “se vivêssemos no tempo do fascismo, eram uma boa carta de recomendação para integrar os quadros da PIDE”. As citações são da Lusa e tomo-as por verdadeiras.
O comentador sou eu e de facto na sexta-feira na RTP-N disse que há muita tolerância na sociedade portuguesa com o PC. A frase foi dita perante a a recusa que o PC demonstrou ao longo do dia em se distanciar dos agitadores (que se combinou com as twittadas do deputado Miguel Tiago, que, entre outras pérolas, escreveu que “Vital Moreira é que agride os trabalhadores portugueses há muito tempo!” (sic)). Em momento algum esteve em causa outra responsabilidade do PC que não a de, ao contrário dos outros partidos, não ter criticado o que aconteceu. Mas se fossem necessárias mais provas da tolerância que se tem com o PC, aí estão as declarações de Bernardino Soares hoje.
Vamos ver se nos entendemos: as democracias pluralistas assentam num chão comum, que tem necessariamente de ser partilhado por todos. O problema do PC é mesmo esse: divide-se entre a hesitação na defesa e a secundarização de princípios basilares da democracia, à cabeça o pluralismo, o respeito pelos direitos humanos e pela liberdade de expressão. Basta ter lido as teses ao último congresso onde o PCP defendia o “papel de resistência à “nova ordem” imperialista” dos países que definem como “orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista – Cuba, China, Vietname, Laos e R.D.P. da Coreia” e onde revelava uma nostalgia despudorada da U.R.S.S – “a contribuição da URSS e, posteriormente, do campo dos países socialistas, para os grandes avanços de civilização verificados no século XX foi gigantesca” para se perceber a consideração que o PC tem por esse chão comum. Sobre votos de fé na democracia, estamos, por isso, conversados. Façamos um paralelismo com o que aconteceria se um qualquer partido de direita português se lembrasse de tecer um elogio equivalente a qualquer regime autoritário. Suspeito que ninguém, e a meu ver bem, toleraria. Pois ao PC tudo é permitido, desde logo a escalada de crescente ortodoxia em que se tem embrenhado e que é tomada como uma idiossincrasia nacional, meio patusca. De facto, é preciso ter muita tolerância com os intolerantes.
Há uma fonte de legitimação democrática à qual o PC recorre sempre que se vê em apuros – o anti-fascismo e a corajosa resistência de muitos comunistas ao regime de Salazar. 35 anos depois, aí reside o capital democrático dos comunistas portugueses. É isso, aliás, que permite, por exemplo, que o PC se ache dono e senhor do 25 de Abril e do 1º de Maio, momentos em que outros democratas são autorizados a juntarem-se aos comunistas. Nada disto é novidade, mas é uma tendência que se tem acentuado nos últimos tempos. Nem sequer é preciso voltar ao “caso Vital Moreira”. Basta recordar como José Neves – a quem todos os que em Portugal defendem uma sociedade pluralista devem de facto muito – foi também apupado este ano nas comemorações do 25 de Abril.
Bernardino Soares, que há uns tempos tinha “dúvidas que a Coreia do Norte não fosse uma democracia”, resolveu hoje dizer que as minhas declarações “eram uma boa carta de recomendação para integrar os quadros da PIDE”. De facto, há muita tolerância com o PC, desde logo, porque a afirmação é de tal modo insultuosa que só é tolerável porque vivemos numa democracia, onde temos de tolerar principalmente os intolerantes.
O comentador sou eu e de facto na sexta-feira na RTP-N disse que há muita tolerância na sociedade portuguesa com o PC. A frase foi dita perante a a recusa que o PC demonstrou ao longo do dia em se distanciar dos agitadores (que se combinou com as twittadas do deputado Miguel Tiago, que, entre outras pérolas, escreveu que “Vital Moreira é que agride os trabalhadores portugueses há muito tempo!” (sic)). Em momento algum esteve em causa outra responsabilidade do PC que não a de, ao contrário dos outros partidos, não ter criticado o que aconteceu. Mas se fossem necessárias mais provas da tolerância que se tem com o PC, aí estão as declarações de Bernardino Soares hoje.
Vamos ver se nos entendemos: as democracias pluralistas assentam num chão comum, que tem necessariamente de ser partilhado por todos. O problema do PC é mesmo esse: divide-se entre a hesitação na defesa e a secundarização de princípios basilares da democracia, à cabeça o pluralismo, o respeito pelos direitos humanos e pela liberdade de expressão. Basta ter lido as teses ao último congresso onde o PCP defendia o “papel de resistência à “nova ordem” imperialista” dos países que definem como “orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista – Cuba, China, Vietname, Laos e R.D.P. da Coreia” e onde revelava uma nostalgia despudorada da U.R.S.S – “a contribuição da URSS e, posteriormente, do campo dos países socialistas, para os grandes avanços de civilização verificados no século XX foi gigantesca” para se perceber a consideração que o PC tem por esse chão comum. Sobre votos de fé na democracia, estamos, por isso, conversados. Façamos um paralelismo com o que aconteceria se um qualquer partido de direita português se lembrasse de tecer um elogio equivalente a qualquer regime autoritário. Suspeito que ninguém, e a meu ver bem, toleraria. Pois ao PC tudo é permitido, desde logo a escalada de crescente ortodoxia em que se tem embrenhado e que é tomada como uma idiossincrasia nacional, meio patusca. De facto, é preciso ter muita tolerância com os intolerantes.
Há uma fonte de legitimação democrática à qual o PC recorre sempre que se vê em apuros – o anti-fascismo e a corajosa resistência de muitos comunistas ao regime de Salazar. 35 anos depois, aí reside o capital democrático dos comunistas portugueses. É isso, aliás, que permite, por exemplo, que o PC se ache dono e senhor do 25 de Abril e do 1º de Maio, momentos em que outros democratas são autorizados a juntarem-se aos comunistas. Nada disto é novidade, mas é uma tendência que se tem acentuado nos últimos tempos. Nem sequer é preciso voltar ao “caso Vital Moreira”. Basta recordar como José Neves – a quem todos os que em Portugal defendem uma sociedade pluralista devem de facto muito – foi também apupado este ano nas comemorações do 25 de Abril.
Bernardino Soares, que há uns tempos tinha “dúvidas que a Coreia do Norte não fosse uma democracia”, resolveu hoje dizer que as minhas declarações “eram uma boa carta de recomendação para integrar os quadros da PIDE”. De facto, há muita tolerância com o PC, desde logo, porque a afirmação é de tal modo insultuosa que só é tolerável porque vivemos numa democracia, onde temos de tolerar principalmente os intolerantes.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Até tu, Stringer Bell

"They're so removed from what I do and at the same time they're very protective of me, because I'm their only child. I tell them that Obsessed is breaking box-office records and that I'm going to be interviewed on the Paul O'Grady Show, and my mum says, 'Oh, that's good. Did you eat today?' I need that stuff more than ever" ·
Idris Elba, mais conhecido como Stringer Bell, no Guardian.
E que tal arranjarem um argumento?
João Cravinho tem inteira razão na indignação quanto ao que foi aprovado no Parlamento a semana passada. Sobre isso, escrevi o que penso aqui. Mas não me deixa de espantar que, quase uma semana passada, ainda não se tenha conseguido ver ou ouvir um único argumento a explicar a razão da alteração do tecto para as contribuições em dinheiro vivo. Foi alterado e pronto. E não esqueçamos, os partidos andam todos muito preocupados com a abstenção, com a corrupção. Nota-se.
terça-feira, 5 de maio de 2009
O Pai Natal dos partidos
a semana passada, os deputados reuniram-se para, de surpresa e após todas as audições públicas, darem um passo ao arrepio do que havia sido feito nos últimos anos: aprovaram um aumento em mais de um milhão de euros do limite das entradas em dinheiro vivo nas contas dos partidos, sem necessidade de prestar contas. Ou seja, o que era um limite razoável para acomodar algumas contribuições de militantes e angariações de fundos pagas em numerário, subiu de um tecto de 22 mil euros para mais de 1 milhão de euros. Ao mesmo tempo que a subvenção pública se manteve inalterada, tendo inclusivamente sido aprovada uma derrogação da indexação ao IAS. Mais, ficámos a saber que os orçamentos para campanhas eleitorais vão também subir. O que os deputados todos, com uma excepção, nos quiseram dizer, em memória do mártir, doador anónimo do CDS/PP, é claro: "que mil Jacintos Capelo Rego floresçam". Doravante, os partidos voltam a poder ficcionar uma angariação de fundos como forma de dividir montantes não enquadráveis pela lei. Que a necessidade de regularizar as contas da Festa do Avante! - esse momento em que um número de beneméritos da área metropolitana de Lisboa se junta para celebrar a Revolução de Outubro fazendo oferendas em dinheiro vivo - seja invocada é, aliás, do domínio do anedotário nacional.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
O maravilhoso mundo da PT
De repente, e já não é a primeira nem a segunda vez, fico sem o meu serviço ‘triple-play’ (nada como nomes em estrangeiro). Ao longo de mais de 24 horas, ligo para o número de telefone que está num cartão que, de modo prestável, um técnico da MEO deixou numa das passagens por minha casa. Ligo e do 808 mandam-me ligar para o 707; depois de premir várias teclas, chego finalmente à fala com alguém. Como sempre, em lugar de me darem respostas, fazem-me perguntas. Pergunto se estou a pagar a chamada, dizem-me que sim. Ou seja, pago um balúrdio todos os meses pelo serviço, fico sem telefone fixo para comunicar uma avaria pela qual não sou responsável e, no fim, ainda tenho de pagar uma chamada de telemóvel para o número de “apoio” ao “cliente”. Se estas chamadas já são invariavelmente longas, que dizer da tentativa de apresentar uma queixa. Há uns tempos, mudei da Netcabo para a MEO por estas e por outras. Agora, a pergunta que faço é: mudar para quê?
(umas tentativas depois, nem sequer há “atendimento” ao “cliente”. Desligaram. No fim do ano, já se sabe, os gestores da PT devem receber uns prémios de produtividade. Não é certamente pelo serviço que prestam. Entretanto, telefonou-me o Jacques, dizendo que já sabia que eu estava com um “probleminha” (sic). Diz que aparece daqui a umas horas).
(umas tentativas depois, nem sequer há “atendimento” ao “cliente”. Desligaram. No fim do ano, já se sabe, os gestores da PT devem receber uns prémios de produtividade. Não é certamente pelo serviço que prestam. Entretanto, telefonou-me o Jacques, dizendo que já sabia que eu estava com um “probleminha” (sic). Diz que aparece daqui a umas horas).
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Movimento apaguem a memória
Aparentemente, e a crer nas imagens da RTP, um dos ânimos mais exaltados no passado 1º de Maio é um militante do BE, candidato pelo partido nas legislativas de 2005. Surpreendentemente, hoje, o link que remetia para uma página da campanha do BE de Coimbra e onde aparecia uma foto que identificava o camarada agitador, que surgia ao lado de, entre outros, Boaventura de Sousa Santos, passou a estar indisponível.
(mais desenvolvimentos aqui.)
(mais desenvolvimentos aqui.)
Um curriculum apresentável

conversas do gmail:
me: não viste o Barça? não sei o que é que vais contar aos teus filhos.
manel: 6-3, 4-4, 2-1 (parma e juve), 1-0 marselha, 7-0 Honved, 0-6 hamrum spartans (poker do yuran), 3-1 cska sofia golaço do schawrtz, 5-2 final da taça contra o boavista, 3-2 bessa sousa à baliza e o golo do luisao ao ricardo.
Séries da minha vida

A Charlotte envolveu-me numa corrente (acho que nunca tinha sido envolvido numa destas coisas) para escolher as quinze séries que deram consistência (bolas!) à minha vida. Acho que quinze é um número excessivo. Aqui vão algumas.
Primeiro, as dos anos de formação: a Galáctica, a Balada de Hill Street e os Três Duques. Depois, a única que segui sem interrupções, bem antes das caixas integrais: Twin Peaks (que podia também chamar-se, com propriedade, E Deus criou a mulher). Pelo meio, o Reviver o Passado em Brideshead, que vi parcialmente talvez na segunda emissão na RTP e depois integralmente em 1994, na primeira caixa que tive com uma série, em VHS, e já depois de devidamente inspirado pelo Evelyn Waugh (salvo seja). Nos últimos tempos, quatro séries que entram directamente para o top-10. O Roma do John Millius que, ainda não sei como, conseguiu não introduzir nenhuma metáfora sobre surf na série; o Deadwood, que bate todas as outras pelo realismo e pelos actores (estou há dois anos para arranjar a última temporada com legendas); o West Wing (a mais entusiasmante de todas as que vi, o que não deve abonar muito a meu favor); e ainda o The Wire, talvez a melhor de todas na construção das personagens e que imagino seja uma abordagem realista de uma realidade que, na verdade, desconheço se existe de facto assim.
Para que isto não morra aqui, passo a corrente ao Tiago Tibúrcio, ao Pedro Marques Lopes, ao Miguel Marujo, ao Lourenço Cordeiro e ao Pedro Arruda.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Working class hero
Isto passou-se anteontem em Philadelphia e tenho a certeza que o Joe Strummer deve ter ficado contente.
Assim se vê a força do PC
São 18.15 e, até agora, as únicas declarações de repúdio que se conseguem encontrar a propósito dos incidentes com Vital Moreira vindas de um dirigente da CGTP, foram as de Carlos Trindade, que é militante do PS. Já Carvalho da Silva, sempre tão prolixo, deve estar neste momento a convencer os camaradas do comité central de que é mesmo melhor dizer qualquer coisa. Ainda não é o momento de passar para formas mais avançadas de luta.
(esperem lá, acabo de descobrir pelo Paulo que o camarada Jerónimo afinal já falou, para dizer: "Não assisti aos factos, não tenho informações suficientes". E que dizer das palavras da jovem guarda?. Carvalho da Silva entretanto já tem informações: quem reagiu assim foram trabalhadores desempregados ou em desespero. Pelos vistos não foi autorizado a pedir desculpas.)
(esperem lá, acabo de descobrir pelo Paulo que o camarada Jerónimo afinal já falou, para dizer: "Não assisti aos factos, não tenho informações suficientes". E que dizer das palavras da jovem guarda?. Carvalho da Silva entretanto já tem informações: quem reagiu assim foram trabalhadores desempregados ou em desespero. Pelos vistos não foi autorizado a pedir desculpas.)
A vida corre inteira pelas nossas mãos
Hoje à noite, no Santiago Alquimista, directamente do Jardim da Estrela, Os Golpes apresentam o seu disco de estreia. Foi preciso esperar uns quanto anos para que voltasse a valer a pena ouvir rock em português. Como escreve o Samuel Múria, "o fervilhar do rock português de tempos idos está lá todo. Mas desenganem-se os profetas da desgraça, do terrorismo-revivalismo, do rebanho de antanho: Os Golpes não são do passado. A grande ironia geográfica deste país hipnotiza-nos com a sua cauda. Os Golpes estão noutra ponta: a garraiar os cornos do porvir."
quinta-feira, 30 de abril de 2009
A festa do Avante e o Pai Natal
Quando devíamos estar a caminhar para o financiamento exclusivamente público e das quotas dos militantes, para a economia nos gastos de campanhas e para a fiscalização e consolidação das contas partidárias, o Parlamento deu hoje, numa pouco habitual unanimidade (com a notável excepção do António José Seguro), um passo no sentido contrário: abriu a porta para que todos os partidos possam, à vontade, encontrar os seus Jacintos Capelo Rego. Ficcionar angariações de fundos e depois introduzir, em suaves fracções, o dinheiro através dessas portas. Ah, claro, tudo isto foi feito para regularizar as contas da Festa do Avante. Exacto, esse momento em que um número de cidadãos, imbuídos de um espirito natalício, oferece generosas quantias ao PCP. Eu também acredito no Pai Natal.
Um País
Conheço a história suficientemente bem para saber que este episódio é só parte da farsa em que se transformou a tragédia. Agora foi a vez do tribunal da relação dar razão ao ex-aluno da Casa Pia acusado por Jaime Gama de difamação. O motivo é simples: os juízes consideram que seria um «absurdo» tentar impor ao jovem que provasse a veracidade das afirmações, algo que «a investigação penal não conseguiu». Imagino que isto seja considerado "liberdade de expressão". A liberdade de caluniar.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
terça-feira, 28 de abril de 2009
Há trinta anos a levar a novilíngua ao mundo (hoje, é a vez de Lisboa)

Gadji beri bimba clandridi
Lauli lonni cadori gadjam
A bim beri glassala glandride
E glassala tuffm I zimbra
(ainda sobre o reencontro)
Uma revolução tranquila
Numa sociedade com défices de qualificação assentes num pesado lastro geracional, a generalização da escolaridade só é exequível se assentar em importante medida nas vias profissionalizantes. Ora também neste aspecto Portugal tem um défice crónico: enquanto, entre nós, a percentagem de alunos do secundário que, em 2001, frequentava as vias vocacionais se situava em redor dos 23%, na média da OCDE essa mesma percentagem era de 47,5% e na média da UE, de 60%. É por isso que a aposta nas vias profissionalizantes enquanto instrumento central para a promoção da qualificação foi não só o mais importante dos passos prévios que torna hoje possível o alargamento da escolaridade obrigatória, como tem sido uma autêntica revolução tranquila, um processo reformista silencioso, mas que vai à raiz dos nossos défices estruturais.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
O jornalista e o polícia
No "Visto da Economia", Helena Garrido escreve que "ser jornalista não é ser polícia nem juiz exactamente porque a aproximação aos factos jornalísticos - ou verdade jornalística - é muito diferente da aproximação à verdade da investigação policial e do julgamento. Mas tal como a polícia e o juiz, também nós jornalistas temos regras. E uma delas é a validação da informação que transmitimos confrontando fontes independentes e informação adicional que nos dê garantias de que a informação que estamos a transmitir é o mais próxima possível da verdade jornalística - não policial nem jurídica." Eu não poderia estar mais de acordo - também, com tudo o resto que está escrito no post -, mas o que me preocupa é que isto precise de ser escrito e defendido por uma jornalista, não sendo tratado como o que de facto deveria ser, um adquirido.
O efeito Alegre
De há uns tempos para cá tem havido muita especulação sobre o efeito da formação de um partido por Manuel Alegre no voto no PS. Se bem me parece, o que de mais próximo existe desse cenário é a candidatura independente de Helena Roseta em Lisboa. A crer na sondagem para as autárquicas na capital, divulgada esta semana, podemos de algum modo antecipar os efeitos de uma eventual candidatura de Alegre às legislativas, fora do PS. A surpresa, ou talvez não, é que quem mais sofre com o "efeito Alegre" não é o PS, mas, sim, o Bloco de Esquerda. O mesmo BE que numa sondagem nacional este fim-de-semana surgia com 13.6, em Lisboa, um concelho onde tende a ter bons resultados, aparece com 3.8%, um valor que nem sequer permite eleger um vereador. Já Roseta tem 7.1%.
sábado, 25 de abril de 2009
sexta-feira, 24 de abril de 2009
A festa
Há mais de vinte anos que os Flaming Lips andam por aí com uma carreira, no dizer dos próprios, acidental e que tem no documentário "Fearless Freaks" um excelente retrato. Agora, numa votação popular, 'do you realize?' de Yoshimi Battles the Pink Robots foi escolhido como o hino rock do Estado de Oklahoma, de onde Wayne Coyne e os seus companheiros são originários. Entretanto, a Câmara de representantes estadual não formou uma maioria suficiente à aprovação da escolha popular (assim mais ou menos como está a acontecer cá com o substituto do Provedor de Justiça). Pouco importa, hoje o Governador aprovou a escolha, independentemente da votação na Câmara. O que aqui se vê é a versão ao vivo que está no DVD de UFO's At The Zoo, gravado em Oklahoma. O que se vê é a festa e casais que se abraçam. Tudo terno e sereno como não se esperaria vinte anos antes. Que bom deve ser ser de Oklahoma.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Recato
Hoje, num mesmo telejornal, vi sucessivamente declarações de João Palma (o novo presidente do sindicato dos magistrados do Ministério Público), Cândida Almeida e Maria José Morgado. Não sei se é uma manifestação do "poder feudal de condes, viscondes, marqueses e duques" que, pouco tempo após a sua tomada de posse, Pinto Monteiro reconheceu existir no Ministério Público. Mas, quando o que se esperava era recato e celeridade nas investigações, o que recebemos de figuras relevantes do Ministério Público é uma propensão para a presença no espaço mediático no mínimo desajustada. Não sei porquê, mas isto tem todo o ar de que não vai acabar nada bem.
Grandes ciclistas

Para além de Bartali, Paolo Conte escreveu uma outra canção sobre ciclistas. Diavolo Rosso, dedicada a Giovanni Gerbi, um ciclista do início do século XX. Mas, na verdade, o ciclismo aqui é um pretexto para o astigiano falar do seu mundo, a "pianura padana" e Monferrato - a terra quer de Conte, quer do Diavolo Rosso.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Grandes ciclistas

A propósito de metáforas de ciclistas e bicicletas, vale a pena recordar Gino Bartali – do tempo em que o ciclismo era o desporto do povo. Conta a lenda que, no pós-guerra, e no dia em que Togliatti – que era secretário-geral do PCI – foi atingido a tiro, empurrando a Itália para o que parecia ser uma Guerra Civil inevitável, as vitórias sucessivas de Bartali no Tour foram decisivas para transformar a conflitualidade nas ruas em celebrações populares. Um ciclista que tinha colaborado com a resistência à ocupação, fazendo de estafeta, passando os pontos de controlo com a desculpa que estava a treinar, mas acima de tudo, o Gino que, com “aquele nariz triste de italiano alegre”, era a Itália. Nesse dia, Bartali não pedalou apenas a sua bicicleta.
(na verdade, houve vários outros dias em que Bartali não se limitou a pedalar a sua bicicleta. Como na mítica subida ao Col d'Izoard, quando ofereceu água ao seu arqui-rival, e símbolo de uma Itália moderna, Fausto Coppi, ajudando-o a vencer o Tour desse ano.)

Uma bicicleta para cada um
José Sócrates chegou a esta entrevista durante uma tempestade perfeita: uma crise económica e social sem paralelo na história recente e que vem agravar os défices estruturais do país; conflitualidade institucional com a Presidência da República e, claro, o caso FreePort.
A entrevista – um formato com escassa intermediação e no qual Sócrates se sente particularmente à vontade – revelou um primeiro-ministro determinado (reconhecendo que carrega uma cruz com o caso Freeport, mas que “não é desta forma que o vencem”); a negar o arrefecimento das relações institucionais com Belém (o que só é explicável por avisada prudência política) e a revelar mais uma medida para diminuir o impacto da crise (o alargamento do acesso ao subsídio social de desemprego).
Sem grandes novidades nos argumentos, houve, contudo, uma metáfora usada por Sócrates que sintetiza bem o que será este ano político: “cada um tem de puxar a sua bicicleta”. Um recado que pareceu ser também destinado a Cavaco Silva.
Por relação aos seus competidores directos, o “ciclista” Sócrates tem, contudo, manifestas vantagens (à cabeça o facto de ser o único candidato à “camisola amarela”, a primeiro-ministro), mas resta saber se a determinação será suficiente. Uma das consequências de uma tempestade perfeita é deixar as “bicicletas” em bastante mau estado. Com o desemprego a crescer, com a economia em recessão e com o caso Freeport a “envenenar” o debate político, não basta a Sócrates puxar a sua bicicleta para renovar a maioria absoluta. É esse o drama político desta crise.
comentário à entrevista de José Sócrates, publicado hoje no DN.
A entrevista – um formato com escassa intermediação e no qual Sócrates se sente particularmente à vontade – revelou um primeiro-ministro determinado (reconhecendo que carrega uma cruz com o caso Freeport, mas que “não é desta forma que o vencem”); a negar o arrefecimento das relações institucionais com Belém (o que só é explicável por avisada prudência política) e a revelar mais uma medida para diminuir o impacto da crise (o alargamento do acesso ao subsídio social de desemprego).
Sem grandes novidades nos argumentos, houve, contudo, uma metáfora usada por Sócrates que sintetiza bem o que será este ano político: “cada um tem de puxar a sua bicicleta”. Um recado que pareceu ser também destinado a Cavaco Silva.
Por relação aos seus competidores directos, o “ciclista” Sócrates tem, contudo, manifestas vantagens (à cabeça o facto de ser o único candidato à “camisola amarela”, a primeiro-ministro), mas resta saber se a determinação será suficiente. Uma das consequências de uma tempestade perfeita é deixar as “bicicletas” em bastante mau estado. Com o desemprego a crescer, com a economia em recessão e com o caso Freeport a “envenenar” o debate político, não basta a Sócrates puxar a sua bicicleta para renovar a maioria absoluta. É esse o drama político desta crise.
comentário à entrevista de José Sócrates, publicado hoje no DN.
terça-feira, 21 de abril de 2009
A indignação selectiva
Permitir que um director-geral tenha acesso às contas bancárias dos contribuintes é um acto que carece de fundamentação precisa (e, na verdade, não se ficou a perceber os contornos do que foi aprovado na semana passada), mas convenhamos que este é um país com uma escala de prioridades estranha. Enquanto assistimos a uma grande indignação perante a compressão de direitos dos que, ganhando muito, fogem ao fisco, quando se trata de pobres, a única indignação é com a fraude no benefício de prestações. A lição a tirar é por isso só uma: se fores pobre e fingires que és muito pobre, já sabes, vamos estar de olho em ti; se fores muito rico e te fizeres passar por rico, já sabes, estaremos cá para proteger os teus direitos.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Quem se mete com as ordens, leva
Nos últimos tempos, um dos momentos altos do “jornalismo” de “investigação” foi quando, logo pela manhã, o Correio da Manhã publicou uma notícia sobre a compra de uma casa pela mãe de Sócrates, para, depois, à noite, o noticiário da SIC compôr a notícia, acrescentando mais qualquer coisa. Na altura achei uma estranha coincidência. A menos que dois jornalistas se tivessem lembrado de ir ao encalço de uma notícia semelhante e lhes tivesse ocorrido torná-la pública no mesmo dia, havia qualquer coisa que não batia certo. Era um Sábado, os notários deveriam estar fechados, pelo que dificilmente um jornalista da SIC poderia “investigar” a deixa do colega do CM. Hoje, o Público revela-nos como foi feita a investigação: “a Ordem dos Notários (ON) enviou no início do ano uma mensagem de correio electrónico aos profissionais responsáveis pelos mais de 400 cartórios notariais do país a pedir informações sobre as escrituras públicas em que intervieram o primeiro-ministro, José Sócrates, e a sua mãe”.
Não há grande volta a dar. Trata-se da Ordem que representa uma classe profissional que detinha um monopólio e que deixou de o deter. Aliás, a Senhora Bastonária não esconde ao que vem: “as pessoas não se podem esquecer que os notários possuem arquivos públicos e o primeiro-ministro é um cidadão como outro qualquer. A partir de agora, com a possibilidade de os advogados fazerem muitos actos que antes exigiam escritura pública por documento particular autenticado, os papéis não vão estar tão acessíveis. É que os arquivos dos senhores advogados não são públicos". Moral da história: metam-se com as ordens e já sabem, levam. Para pressões, não estamos mal.
Não há grande volta a dar. Trata-se da Ordem que representa uma classe profissional que detinha um monopólio e que deixou de o deter. Aliás, a Senhora Bastonária não esconde ao que vem: “as pessoas não se podem esquecer que os notários possuem arquivos públicos e o primeiro-ministro é um cidadão como outro qualquer. A partir de agora, com a possibilidade de os advogados fazerem muitos actos que antes exigiam escritura pública por documento particular autenticado, os papéis não vão estar tão acessíveis. É que os arquivos dos senhores advogados não são públicos". Moral da história: metam-se com as ordens e já sabem, levam. Para pressões, não estamos mal.
domingo, 19 de abril de 2009
Claramente o melhor gajo do mundo (do momento)
And alone in my room,
I am the last of a lost civilization
De Sunset Tree, provavelmente o melhor disco dos Mountain Goats, talvez inclusivamente para mim, "Hast Thou Considered the Tetrapod?"
(para browsers com manias, aqui fica o link)
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Record Store Day

Amanhã é a festa da música para quem cresceu a juntar todos os escudos para estoirar em discos na discoteca mais perto de casa. Um mundo já distante, agora que os downloads (i)legais vieram para ficar. Alguns desses maluquinhos que vivem a nostalgia do passado, vão estar por aqui amanhã. Há boas razões para isso, até porque juntar todos os euros e estoirar em discos continua a ser das melhores coisas que se pode fazer.
(quem por ócio estiver interessado em saber o que eu penso sobre algumas questões verdadeiramente importantes, pode seguir este link).
(Record Store Day é um dia assinalado desde 2007 com o intuito de celebrar a existência de lojas físicas que vendem predominantemente discos mas, sobretudo, para celebrar toda a cultura associada a esses espaços onde se vive, respira, troca, vende e compra música e experiências a ela associadas. A Flur, em Santa Apolónia, junto ao Lux e Bica do Sapato, vai celebrar).
quinta-feira, 16 de abril de 2009
A falsa consciência de Zé Pedro
Sobre a música dos Xutos de que se fala, o texto mais conseguido que li foi o editorial de hoje do Público, de Nuno Pacheco. O argumento é simples e parece-me encerra a discussão: o grupo já veio dizer que a música não visava em concreto este primeiro-ministro, mas, a crer no Público, isso pouco importa, pois o que conta é a apropriação social que, em cada momento, é feita das músicas ("na relação das canções com o meio social, é sempre este último que dita a palavra definitiva"). Daqui decorre um corolário: mesmo canções que não foram concebidas com um determinado objectivo, podem adquiri-lo se o "meio social" assim o entender. As tais canções que "acabam por se tornar veículos de coisas com que os seus autores nem sequer sonharam". Este é, para Nuno Pacheco, o caso da canção dos Xutos, "pensem os Xutos o que pensarem" (sic).
Se bem estou recordado do Marx que aprendi na faculdade e está claramente muito enferrujado, uma determinada posição de classe decorre das condições materiais de existência, mas como as visões dominantes (a ideologia, que tem uma conotação pejorativa) são as da classe dominante, a um determinado lugar de classe podem corresponder visões que configuram uma falsa consciência. Daí que a única acção política consequente seja a que rompe com a infra-estrutura (i.e. as condições materiais), levando a que a um lugar de classe corresponda à consciência de classe adequada.
É tal e qual isto que se está a passar com o Zé Pedro. Ele bem que pode vir negar o sentido da música e até vir dizer que, com naturais reservas, apoia José Sócrates. Mas que não restem dúvidas. A Voz do Povo reconstruída é que sabe: a falsa consciência de classe do Zé Pedro justifica as declarações que tem procurado fazer nos últimos dias; mas as condições materiais de existência é que explicam, de facto, a música. Aliás, suspeito mesmo que o Zé Pedro é portador da transformação social, mesmo que não tenha consciência. Vai-se a ver, ele próprio é dispensável.
Se bem estou recordado do Marx que aprendi na faculdade e está claramente muito enferrujado, uma determinada posição de classe decorre das condições materiais de existência, mas como as visões dominantes (a ideologia, que tem uma conotação pejorativa) são as da classe dominante, a um determinado lugar de classe podem corresponder visões que configuram uma falsa consciência. Daí que a única acção política consequente seja a que rompe com a infra-estrutura (i.e. as condições materiais), levando a que a um lugar de classe corresponda à consciência de classe adequada.
É tal e qual isto que se está a passar com o Zé Pedro. Ele bem que pode vir negar o sentido da música e até vir dizer que, com naturais reservas, apoia José Sócrates. Mas que não restem dúvidas. A Voz do Povo reconstruída é que sabe: a falsa consciência de classe do Zé Pedro justifica as declarações que tem procurado fazer nos últimos dias; mas as condições materiais de existência é que explicam, de facto, a música. Aliás, suspeito mesmo que o Zé Pedro é portador da transformação social, mesmo que não tenha consciência. Vai-se a ver, ele próprio é dispensável.
While my guitar gently weeps

Depois de uns tempos como música de palco do Sufjan Stevens e da Polyphonic Spree, e abandonado o nome de Annie Clark, St. Vincent mostrou como era possível cruzar Jimi Hendrix com Kate Bush e fazer um grande disco. O nome era no mínimo provocatório: marry me. Como se houvesse falta de pretendentes. Isso foi há dois anos. Agora que há disco novo para breve, em Maio, os sinais de que a faceta Jimi Hendrix ganhará peso são muitos. Raparigas que dão tratamentos destes às guitarras têm muito que se lhe diga.
(aqui um cover hendrixiano de dig a pony; teledisco do novo single; e marry me ao vivo).

terça-feira, 14 de abril de 2009
Uma questão de sombras
Há naturalmente aspectos positivos na escolha de Paulo Rangel para cabeça de lista do PSD ao Parlamento Europeu. Desde logo, assegura que na campanha para as europeias se projecta a disputa política doméstica, na qual Rangel tem sido a face visível do combate parlamentar com o primeiro-ministro. Para quem está na oposição, não há volta a dar, eleições de segunda ordem, como as europeias, são, no essencial, momentos para discutir política nacional. É mau que assim seja, mas é da vida. Depois, a partir do momento que o PS apresentou Vital Moreira, o PSD precisava de um candidato com densidade política para lhe fazer frente. Pese embora o estilo desajustado que frequentemente adopta no Parlamento, Rangel não é um político do “circuito da carne assada”.
O problema da escolha de Rangel é que esta perpetua o principal problema da liderança de Ferreira Leite.
Convém não esquecer, Ferreira Leite foi eleita com pouco mais de um terço dos votos dos militantes do PSD e, depois de um congresso completamente falhado, nunca foi capaz de fazer o que uma líder nas suas circunstâncias precisa. Afirmar-se, também unindo o partido. O que temos sistematicamente assistido é um processo contrário. Por um lado, com a excepção de Rangel, Ferreira Leite não tem conseguido promover novos protagonistas e, por outro, tem sido invariavelmente incapaz de alargar a sua base de apoio interna.
A escolha de Rangel, ao mesmo tempo que desloca de um palco relevante o único novo protagonista que se conseguiu afirmar, entrincheira Ferreira Leite no seu núcleo duro de apoiantes. Se ao medo das sombras – característica dos líderes fracos – somarmos todos os outros problemas que Ferreira Leite tem revelado (a gestão do timing de escolha do cabeça de lista ao PE foi o último de um longo rol de exemplos. É espantoso escolher o exacto dia em que foram conhecidas as estimativas de primavera do banco de portugal), talvez se perceba melhor as razões porque, mesmo num contexto de crise económica e social e de descontentamento com o governo, o PSD não consegue capitalizar eleitoralmente.
O problema da escolha de Rangel é que esta perpetua o principal problema da liderança de Ferreira Leite.
Convém não esquecer, Ferreira Leite foi eleita com pouco mais de um terço dos votos dos militantes do PSD e, depois de um congresso completamente falhado, nunca foi capaz de fazer o que uma líder nas suas circunstâncias precisa. Afirmar-se, também unindo o partido. O que temos sistematicamente assistido é um processo contrário. Por um lado, com a excepção de Rangel, Ferreira Leite não tem conseguido promover novos protagonistas e, por outro, tem sido invariavelmente incapaz de alargar a sua base de apoio interna.
A escolha de Rangel, ao mesmo tempo que desloca de um palco relevante o único novo protagonista que se conseguiu afirmar, entrincheira Ferreira Leite no seu núcleo duro de apoiantes. Se ao medo das sombras – característica dos líderes fracos – somarmos todos os outros problemas que Ferreira Leite tem revelado (a gestão do timing de escolha do cabeça de lista ao PE foi o último de um longo rol de exemplos. É espantoso escolher o exacto dia em que foram conhecidas as estimativas de primavera do banco de portugal), talvez se perceba melhor as razões porque, mesmo num contexto de crise económica e social e de descontentamento com o governo, o PSD não consegue capitalizar eleitoralmente.
A corrupção e a corrosão
"Há uma afirmação que se tornou uma verdade quase insofismável: a corrupção está a corroer os alicerces da nossa democracia. Peço desculpa, mas o que está a corroer a democracia são os casos em que foi criada a percepção no espaço público de que alguém era corrupto sem que depois seja produzida prova necessária a uma condenação.
Ou seja, regressamos ao problema de sempre: as debilidades da investigação em Portugal e o modo como as suas insuficiências tendem a ser colmatadas com informação passada a conta-gotas para a comunicação social. Pelo caminho, enquanto os verdadeiros culpados de ilícitos têm boas razões para se sentirem confortáveis, um inocente deve ficar muito preocupado. Um culpado sabe que tem poucas probabilidades de ser condenado e um inocente pode ter a certeza que, no mínimo, a dúvida sobre a sua culpabilidade ficará a pairar."
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
Ou seja, regressamos ao problema de sempre: as debilidades da investigação em Portugal e o modo como as suas insuficiências tendem a ser colmatadas com informação passada a conta-gotas para a comunicação social. Pelo caminho, enquanto os verdadeiros culpados de ilícitos têm boas razões para se sentirem confortáveis, um inocente deve ficar muito preocupado. Um culpado sabe que tem poucas probabilidades de ser condenado e um inocente pode ter a certeza que, no mínimo, a dúvida sobre a sua culpabilidade ficará a pairar."
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
20 anos de Merge
A Merge Records de Mac McCaughan, o líder dos Superchunk, mas, também, dos Portastatic faz por estes dias 20 anos. Para celebrar editou um disco onde bandas de outras editoras regravam temas editados na Merge. Aqui os National juntam-se à Annie Clark (aka St. Vincent, que tem disco novo para muito breve) e fazem isto a sleep all summer dos Crooked Fingers.
Sleep All Summer - St. Vincent And The National
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Coisas verdadeiramente importantes

Para além da emissão em streaming, já é possível ouvir também em podcast as emissões do Quase Famosos, o programa que faço com o Nuno Costa Santos no Rádio Clube.
Eastwood faz filme sobre Santana Lopes
Mais um bom filme de Clint Eastwood. Gran Torino é mais um passo no trajecto que o transformou num "Monstro" do Cinema. Enorme, na Direcção e na interpretação. Vale a pena ver como nos transmite a vivência de alguém amargurado, Pai, Avô, capaz de dar e de receber afecto a outras famílias que não a sua, com atenção especial às comunidades da realidade social dos bairros multiétnicos do Mundo de hoje.
Pedro Santana Lopes, naquele que é provavelmente o melhor blog em português (à atenção do Nuno Artur Silva)
Pedro Santana Lopes, naquele que é provavelmente o melhor blog em português (à atenção do Nuno Artur Silva)
Há muita falta de memória na política
Por esta altura, todos os anos, é notícia o apelo à participação no desfile do 25 de Abril. Por esta altura, todos os anos, ficamos a saber que alguns dirigentes do PS e outros democratas subscrevem um texto com criticas ao Governo, que, de vez em quando, dá-se a coincidência de ser do PS. Pois bem, pelo segundo ano consecutivo tentei encontrar o tal apelo na net e estranhamente nunca se encontra, para além de ficarmos a saber que a LUSA teve acesso ao mesmo. Na página da Associação 25 de Abril, nada e por mais que se procure, nada. Claro está que o facto de serem 600 subscritores dá que pensar. Foram os subscritores todos contactados para saber se se reviam no texto deste ano ou, pelo contrário, quem tiver sido subscritor uma vez, sê-lo-á para sempre?
(como se usa dizer agora, devo fazer uma declaração de interesses: tento ir sempre aos desfiles e levo o assunto a sério)
(como se usa dizer agora, devo fazer uma declaração de interesses: tento ir sempre aos desfiles e levo o assunto a sério)
quinta-feira, 9 de abril de 2009
O Estado de direito tem dias
Não sei se estão recordados, mas aqui há uns tempos andou por aí uma grande indignação com a introdução dos chips nos automóveis – em mais um exemplo típico do funcionamento em ondas da blogosfera, com os seus incansáveis amplificadores selectivos. Estou à vontade, pois sobre isso, na altura, escrevi isto. Mas confesso a minha surpresa quando os mesmíssimos que batiam então com a mão no peito em defesa do Estado de direito, não se importam agora de o suspender momentaneamente para criminalizar o enriquecimento ilícito. É que convém não esquecer, a presunção de inocência e a não inversão do ónus da prova são o que ainda vai restando para os inocentes se defenderem da inclinação para a prepotência da acusação pública, desde logo do Ministério Público português, mas, também, da comunicação social.
A corrupção e a incapacidade de produzir prova que a confirme estão a minar a democracia portuguesa, mas, não menos do que as suspensões quotidianas do Estado de direito. Como lembra o Tomás Vasques, o combate contra a prepotência do Estado sobre o indivíduo é o principal combate pela democracia. Em Portugal, esse combate parece ter dias.
A corrupção e a incapacidade de produzir prova que a confirme estão a minar a democracia portuguesa, mas, não menos do que as suspensões quotidianas do Estado de direito. Como lembra o Tomás Vasques, o combate contra a prepotência do Estado sobre o indivíduo é o principal combate pela democracia. Em Portugal, esse combate parece ter dias.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Digest
I do not suggest that capitalism will disappear any more than war has. Complex, interconnected market economies will continue to generate huge surpluses, fuelled by the continuing flow of new scientific knowledge. But just as monarchy moved from centre stage to become more peripheral, so capitalism will no longer dominate society and culture as much as it does today. Capitalism may, in short, become a servant rather than a master, and the slump will accelerate this change. Past depressions were cruel but they also hurled ideas from the margins up into the mainstream, speeding their motion through the three stages that Schopenhauer described happening to all new truths, being first ridiculed, then violently opposed, then treated as self-evident.
(...)
The result is that a large political space is opening up. In the short run it is being filled with anger, fear and confusion. In the longer run it may be filled with a new vision of capitalism, and its relationship to both society and ecology, a vision that will be clearer about what we want to grow and what we don’t. Democracies have in the past repeatedly tamed, guided and revived capitalism. They have prevented the sale of people, of votes, public offices, children’s labour and body organs, and they have enforced rights and rules, while also pouring resources in to meet capitalism’s need for science and skills, and it has been out of this mix of conflict and co-operation that the world has achieved the extraordinary progress of the last century.
Geoff Mulgan, After Capitalism, na Prospect de Abril (um artigo com uma componente não despicienda de wishful thinking, mas que vale bem a leitura)
(...)
The result is that a large political space is opening up. In the short run it is being filled with anger, fear and confusion. In the longer run it may be filled with a new vision of capitalism, and its relationship to both society and ecology, a vision that will be clearer about what we want to grow and what we don’t. Democracies have in the past repeatedly tamed, guided and revived capitalism. They have prevented the sale of people, of votes, public offices, children’s labour and body organs, and they have enforced rights and rules, while also pouring resources in to meet capitalism’s need for science and skills, and it has been out of this mix of conflict and co-operation that the world has achieved the extraordinary progress of the last century.
Geoff Mulgan, After Capitalism, na Prospect de Abril (um artigo com uma componente não despicienda de wishful thinking, mas que vale bem a leitura)
Eppur parenti siamo un po´di quella gente che c'e' li'
Eppur parenti siamo un po'
di quella gente che c'e' li'
che in fondo in fondo e' come noi, selvatica,
ma che paura ci fa quel mare scuro
che si muove anche di notte e non sta fermo mai.
terça-feira, 7 de abril de 2009
O curto-circuito do europeísmo
Se mais evidência fosse necessária, os últimos meses têm servido para revelar a crescente importância para a política doméstica da política europeia. Esta asserção, se bem percebo, tem sido o núcleo duro do discurso para as eleições Europeias do PS: a singularidade do PS em torno do europeísmo é não apenas uma questão supranacional, mas, também, uma marca distintiva da política nacional do partido. Se assim é, as “regras” e as clivagens típicas da política doméstica são transferíveis para a disputa europeia e vice-versa. Desde logo porque esquerda e direita, centro-esquerda e esquerda têm visões bem diferentes sobre o papel das políticas públicas europeias, por exemplo, na resposta à crise. Ora é por isso que a defesa da eleição de Durão Barroso para mais um mandato a presidir à Comissão Europeia produz um autêntico curto-circuito na linha argumentativa do PS para as europeias. Por um lado, sugere que talvez seja boa ideia que o PPE vença as eleições, pois essa vitória garante a continuidade de Barroso; por outro, indicia que afinal o argumento político de base pode ser suspenso e/ou secundarizado face a uma outra clivagem mais relevante: a nacionalidade.
Digest
A propósito da visita de Obama à Europa, este editorial do LA Times coloca o dedo na ferida ao sublinhar que a responsabilidade está agora do lado da Europa (e há boas razões para cepticismo em relação à capacidade europeia de responder à altura): "words matter, and the respect that Obama engendered on this trip is key to reclaiming U.S. global leadership. Obama even exercised that leadership when he gently scolded Europeans for espousing what he called casual but insidious anti-Americanism. He urged them to acknowledge "the fundamental truth that America cannot confront the challenges of this century alone, but that Europe cannot confront them without America." Obama's challenge is to transform that partnership into concrete support from the Europeans, who must rise to the occasion and no longer blame President Bush's unilateralism for their unwillingness to help."
Sobre a visita à Turquia vale a pena ler este artigo no NYTimes, de um antigo correspondente de um jornal turco nos EUA, chamando a atenção para o modo como Obama soube ultrapassar visões simplificadoras da realidade turca que dominaram o modo como os EUA e, por arrasto, o Ocidente olharam para a Turquia nos últimos anos: "In our eternal identity crisis, we Turks have lately been thinking only in opposites — that you are either secular or religious, Kurd or Turk, European or Middle Eastern. It took a young foreign leader on his first visit here to remind us that we are all of those things, and much more."
Sobre a visita à Turquia vale a pena ler este artigo no NYTimes, de um antigo correspondente de um jornal turco nos EUA, chamando a atenção para o modo como Obama soube ultrapassar visões simplificadoras da realidade turca que dominaram o modo como os EUA e, por arrasto, o Ocidente olharam para a Turquia nos últimos anos: "In our eternal identity crisis, we Turks have lately been thinking only in opposites — that you are either secular or religious, Kurd or Turk, European or Middle Eastern. It took a young foreign leader on his first visit here to remind us that we are all of those things, and much more."
O resto da agenda
"Mesmo que se avançasse muito na institucionalização da regulação global, que os estímulos à procura fossem bem mais significativos e que os recursos financeiros do FMI fossem ainda maiores, não seria nem suficiente para ultrapassar a situação em que nos encontramos, nem serviria para garantir que os desequilíbrios sistémicos não regressariam com igual vigor, passado pouco tempo. Há, na verdade, um tema que, sendo uma causa determinante da actual crise, tem, contudo, ocupado um papel marginal na agenda política."
para saber qual o tema que tem sido marginal nas discussões recentes, aqui fica o link para o meu artigo de hoje no Diário Económico.
para saber qual o tema que tem sido marginal nas discussões recentes, aqui fica o link para o meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
O estado da cooperação estratégica
Não há volta a dar, a cooperação estratégica entrou em estado pré-comatoso. Basta ler o prefácio aos Roteiros do Presidente. Logo no início, Cavaco Silva afirma que “todos os esforços devem estar centrados na recuperação do atraso económico” e que “é de todo incompreensível que a agenda política seja desviada para temas que provocam fracturas na sociedade portuguesa, que dividem os Portugueses e distraem a sua atenção da resolução dos problemas nacionais”. Imagino que esteja a falar do casamento entre pessoas do mesmo sexo (esse horror civilizacional) e do estatuto político administrativo dos Açores. Mas tirando o facto de os exemplos serem retirados do último ano, trata-se do mesmo apelo de sempre à despolitização da, passe o pleonasmo, disputa política. Nisso Cavaco Silva nunca surpreende: o que é mesmo necessário é que nos entendamos todos. De preferência em torno daquilo que o Presidente acha que são as prioridades para o país.
Senão veja-se: na semana passada, o Ministro das Finanças disse com clareza que a prioridade era o combate ao desemprego, Cavaco Silva valoriza a dívida pública – não há outra leitura possível da frase: “É importante que os poderes públicos tenham presente a situação em que se pretende que o País se encontre quando a crise financeira internacional estiver ultrapassada, de modo a que as possibilidades de desenvolvimento futuro não fiquem comprometidas”.
São naturalmente duas opções divergentes e politicamente legítimas, mas que sugerem que a cooperação é virtuosa desde que seja em torno da agenda do Presidente. Além de que Cavaco Silva faz lembrar a Senhora Merkel, mais preocupada com a crise que se pode seguir a esta, do que em responder aos problemas que enfrentamos, de facto, hoje.
No fim fica a promessa: “Na situação que o País atravessa, o Presidente da República não pode limitar-se ao diagnóstico, havendo que ter presente, no entanto, que não lhe cabe legislar ou governar. Nesse sentido, tenho procurado apontar o caminho que Portugal deve seguir para ultrapassar a quase estagnação em que tem vivido”.
Como os caminhos apontados começam a ser suficientemente diferentes dos do Governo, podemos esperar dois efeitos: o fim da cooperação estratégica com o Governo; e a subalternização da oposição partidária, que tenderá a viver cada vez mais debaixo do chapéu presidencial. Ou seja, dois efeitos indesejáveis que, em ano de várias eleições, não auguram nada de bom.
Senão veja-se: na semana passada, o Ministro das Finanças disse com clareza que a prioridade era o combate ao desemprego, Cavaco Silva valoriza a dívida pública – não há outra leitura possível da frase: “É importante que os poderes públicos tenham presente a situação em que se pretende que o País se encontre quando a crise financeira internacional estiver ultrapassada, de modo a que as possibilidades de desenvolvimento futuro não fiquem comprometidas”.
São naturalmente duas opções divergentes e politicamente legítimas, mas que sugerem que a cooperação é virtuosa desde que seja em torno da agenda do Presidente. Além de que Cavaco Silva faz lembrar a Senhora Merkel, mais preocupada com a crise que se pode seguir a esta, do que em responder aos problemas que enfrentamos, de facto, hoje.
No fim fica a promessa: “Na situação que o País atravessa, o Presidente da República não pode limitar-se ao diagnóstico, havendo que ter presente, no entanto, que não lhe cabe legislar ou governar. Nesse sentido, tenho procurado apontar o caminho que Portugal deve seguir para ultrapassar a quase estagnação em que tem vivido”.
Como os caminhos apontados começam a ser suficientemente diferentes dos do Governo, podemos esperar dois efeitos: o fim da cooperação estratégica com o Governo; e a subalternização da oposição partidária, que tenderá a viver cada vez mais debaixo do chapéu presidencial. Ou seja, dois efeitos indesejáveis que, em ano de várias eleições, não auguram nada de bom.
Juntaram os trapos
Os meus amigos Pedro Marques Lopes e Bernardo Pires de Lima vivem em união de facto. Nada que me espante. Agora é que se vai perceber que, no fundo, no fundo, e por mais que disfarcem, são dois bons rapazes de esquerda.
Momentum
Os Grizzly Bear não começaram ontem. Mas, vá lá perceber-se porquê, há alturas em que as circunstâncias se tornam mais propícias para certas bandas. Depois do sucesso dos Fleet Foxes, deve estar tudo pronto para que 2009 seja o ano dos Grizzly Bear. O álbum novo chama-se Veckatimest e, apesar de só sair no final de Maio, já “anda” por aí. Talvez o “leak” tenha ocorrido demasiadamente cedo e o disco não se aguente até à altura que pode ser divulgado (a própria banda queixa-se), mas posso garantir, é um disco feito para os dias que correm: procura inspiração na música tradicional americana, ao mesmo tempo que, nas margens de cada canção, vai tentando subvertê-la. A fórmula tem garantido sucesso nos últimos tempos. E ainda bem.
(Este Two Weeks, que já estava num EP, tem na versão em disco a vantagem de ser acompanhado pela voz de Victoria Legrand, dos Beach House. No SXSW tocaram juntos).
sexta-feira, 3 de abril de 2009
A merda está imparável

Alguém resolveu explorar os recursos disponibilizados pela nova plataforma do Guardian online e testou até que ponto o emporcalhamento da língua inglesa chegou a um jornal de referência. Os resultados são relativamente surpreendentes - tem havido uma notável resistência à contaminação da seriedade pela obscenidade. Olhando para uma série dos últimos dez anos:
a) a utilização dos palavrões tem crescido lentamente, todos os anos;
b) em 2001 houve uma estabilização do uso de impropérios, sendo que a utilização de "bastard" desceu após 2001 - provavelmente um efeito do 11 de Setembro - momento após o qual se assistiu a um aumento do uso de todos os outros impropérios.
c) "wank" tem apresentado uma performance medíocre na última década, e "cock" tem tido um comportamento "flat".
d) a merda cresceu de modo desproporcionado e consistente dede 2005, enquanto "fuck" foi tão longe quanto lhe é possível.
Conclusão: desconheço as margens de erro, mas lá como cá, a merda parece estar a crescer a um ritmo imparável.
Digest
"For more than 30 years in economic journalism I have written about many summits. Their job has been to rubber stump the Washington consensus, and offer an illusory picture of collective action and grip – when the truth has been "market states" running up the white flag before the ever advancing battalions of global finance. This summit is decisively different – the most substantive of its type since 1944. It offers a break with the Washington consensus, free market ideology and financial turbo capitalism – and is assembling the world around a new order and set of ideas."
Will Hutton, "G20: Best summit since 1944" (uma leitura bastante optimista dos resultados da Cimeira de ontem)
" In the early years of this decade, China began running large trade surpluses and also began attracting substantial inflows of foreign capital. If China had had a floating exchange rate — like, say, Canada — this would have led to a rise in the value of its currency, which, in turn, would have slowed the growth of China’s exports. But China chose instead to keep the value of the yuan in terms of the dollar more or less fixed. To do this, it had to buy up dollars as they came flooding in. As the years went by, those trade surpluses just kept growing — and so did China’s hoard of foreign assets."
Paul Krugman, "China's dollar trap" (que apesar de reconhecer que a Cimeira superou as expectativas - "realistically, most big-time international meetings produce nothing; this did something significant." - continua a colocar o dedo na ferida: as relações económicas entre uma China com super-avit comercial e com uma moeda desvalorizada e uns EUA com défices comerciais "crónicos")
Will Hutton, "G20: Best summit since 1944" (uma leitura bastante optimista dos resultados da Cimeira de ontem)
" In the early years of this decade, China began running large trade surpluses and also began attracting substantial inflows of foreign capital. If China had had a floating exchange rate — like, say, Canada — this would have led to a rise in the value of its currency, which, in turn, would have slowed the growth of China’s exports. But China chose instead to keep the value of the yuan in terms of the dollar more or less fixed. To do this, it had to buy up dollars as they came flooding in. As the years went by, those trade surpluses just kept growing — and so did China’s hoard of foreign assets."
Paul Krugman, "China's dollar trap" (que apesar de reconhecer que a Cimeira superou as expectativas - "realistically, most big-time international meetings produce nothing; this did something significant." - continua a colocar o dedo na ferida: as relações económicas entre uma China com super-avit comercial e com uma moeda desvalorizada e uns EUA com défices comerciais "crónicos")
God help the girl
O side-project de Stuart Murdoch, um álbum conceptual, escrito enquanto ouvia vozes de raparigas. Nas palavras do próprio: "I was out for a run and I got this tune in my head and it occurred to me that it wasn't a Belle & Sebastian song. I could hear female voices and strings, I could hear the whole thing, but I just couldn’t envisage myself singing it with the group.” Este video mostra o making of da coisa e ou sou eu que estou enganado ou o Neil Hannon dos Divine Comedy aparece no fim do video.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
A justiça subjectiva
Nas últimas 48 horas percebeu-se onde tudo isto ia afinal dar. A Lopes da Mota, que está no Eurojust mas, veja-se lá, foi membro do Governo de António Guterres. Há desde logo aqui uma singularidade nacional: os comportamentos de hoje são invariavelmente avaliados com base no passado. Em Portugal ninguém “é”, toda a gente “foi” e o que se faz ou diz em cada momento é resultado do “foi” e não do “é”. Bem, Lopes da Mota está, de facto, envolvido com a equipa que “investiga” o processo Freeport e terá sugerido – já nem sequer encontro a notícia onde li isto – um arquivamento do mesmo. Uma mera sugestão processual, com base legal. O problema é que para pressão, e na fase em que estamos, não é propriamente uma grande ajuda para José Sócrates. Um arquivamento por motivos formais, não é a melhor das saídas. Para que o ar se torne minimamente respirável, é necessário que seja apurada toda a verdade dos factos. Mas, e tendo em conta que já vi este filme a passar numa sala de cinema mesmo ao lado desta, não há motivos para estarmos optimistas. Como lembra o Tomás Vasques, “os mestres pensadores já fizeram a investigação, a acusação, a produção de prova, o julgamento e a condenação ou a absolvição. E, assim sendo, a justiça tem de acompanhar o que lhes parece evidente.” No fim de tudo, resta o PS, que sempre que é confrontado com dificuldades sérias, revela-se uma espécie de partido. Em lugar de produzir um argumento e de dizer algo de substantivo sobre os procedimentos da justiça em Portugal, o que tem para oferecer é uma defesa da pessoa de José Sócrates (de acordo com Alberto Martins, uma “pessoa de bem e corajosa"). A consequência é que estamos condenados a uma competição entre avaliações subjectivas de caracteres e a decretar a inocência ou culpabilidade nessa base, quando o que precisamos é de um Estado de direito que funcione e que seja capaz de investigar com celeridade e apurar a verdade com recato e não ao sabor das campanhas mediáticas. Aliás, a continuarmos como até aqui, em Portugal não serve de nada ser uma pessoa de bem e corajosa, pelo que serve de muito pouco que isso seja afirmado em defesa de alguém.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Digest
"This is not a path towards a durable exit from the crisis. It is a path on which the fiscal deficits needed to offset persistent current account deficits, and collapsing private spending in external deficit countries, continue indefinitely. Unless and until surplus countries recognise that this cannot continue, no durable escape from the crisis will be achieved. Understandably, but foolishly, they are unwilling to do so.
So what is to be done? That must be a central agenda item of the next G20 summit. The world economy cannot be safely balanced by encouraging a relatively small number of countries to spend themselves into bankruptcy. The answer lies partly in changing the policies of surplus countries. But it lies as much in rethinking the international monetary system. The case for sizeable and ongoing allocations of special drawing rights – the IMF’s reserve asset – is powerful, as, among others, Zhou Xiaochuan, governor of the People’s Bank of China, has argued in a fascinating recent paper*. I hope soon to return to this huge challenge and opportunity. In the meantime, the G20 summit is largely dealing with the immediate symptoms of the illness. Finding a longer-term cure for chronic global excess supply still lies ahead."
Martin Wolf, Why G20 leaders will fail to deal with the big challenge (um artigo céptico em relação aos resultados da reunião do G20 de amanhã, que podem não passar de uma receita que prolonga os desequilíbrios globais de hoje).
"Some Americans are afraid that the government might temporarily “nationalize” the banks, but that option would be preferable to the Geithner plan. After all, the F.D.I.C. has taken control of failing banks before, and done it well. It has even nationalized large institutions like Continental Illinois (taken over in 1984, back in private hands a few years later), and Washington Mutual (seized last September, and immediately resold).
What the Obama administration is doing is far worse than nationalization: it is ersatz capitalism, the privatizing of gains and the socializing of losses. It is a “partnership” in which one partner robs the other. And such partnerships — with the private sector in control — have perverse incentives, worse even than the ones that got us into the mess."
Joseph E. Stiglitz, Obama’s Ersatz Capitalism (uma defesa da nacionalização da banca norte-americana como meio mais eficaz - também na repartição de custos - para revigorar o sistema financeiro e ressuscitar a economia).
So what is to be done? That must be a central agenda item of the next G20 summit. The world economy cannot be safely balanced by encouraging a relatively small number of countries to spend themselves into bankruptcy. The answer lies partly in changing the policies of surplus countries. But it lies as much in rethinking the international monetary system. The case for sizeable and ongoing allocations of special drawing rights – the IMF’s reserve asset – is powerful, as, among others, Zhou Xiaochuan, governor of the People’s Bank of China, has argued in a fascinating recent paper*. I hope soon to return to this huge challenge and opportunity. In the meantime, the G20 summit is largely dealing with the immediate symptoms of the illness. Finding a longer-term cure for chronic global excess supply still lies ahead."
Martin Wolf, Why G20 leaders will fail to deal with the big challenge (um artigo céptico em relação aos resultados da reunião do G20 de amanhã, que podem não passar de uma receita que prolonga os desequilíbrios globais de hoje).
"Some Americans are afraid that the government might temporarily “nationalize” the banks, but that option would be preferable to the Geithner plan. After all, the F.D.I.C. has taken control of failing banks before, and done it well. It has even nationalized large institutions like Continental Illinois (taken over in 1984, back in private hands a few years later), and Washington Mutual (seized last September, and immediately resold).
What the Obama administration is doing is far worse than nationalization: it is ersatz capitalism, the privatizing of gains and the socializing of losses. It is a “partnership” in which one partner robs the other. And such partnerships — with the private sector in control — have perverse incentives, worse even than the ones that got us into the mess."
Joseph E. Stiglitz, Obama’s Ersatz Capitalism (uma defesa da nacionalização da banca norte-americana como meio mais eficaz - também na repartição de custos - para revigorar o sistema financeiro e ressuscitar a economia).
Há muito tempo que nesta latrina

O sr. Domingos Névoa - o tal para quem corromper compensou – foi nomeado para a presidência da Braval (uma empresa intermunicipal que trata os resíduos sólidos de seis concelhos e cuja presidência cabe ao sócio maioritário, a Agere - a empresa municipal de água e saneamento de Braga). Destes seis concelhos: Braga e Amares são liderados por autarcas socialistas, Póvoa de Lanhoso, Terras do Bouro e Póvoa de Lanhoso têm maioria PSD enquanto Vieira do Minho é dirigido por uma coligação PSD/CDS-PP. Pelos vistos, a reunião que nomeou Névoa foi pacífica. A ninguém ocorreu que escolher o Sr. Domingos Névoa para gerir a coisa pública fosse um problema. A lei não inibe quem foi condenado por corrupção a ser nomeado para cargos públicos. E muito provavelmente nem era necessário que o fizesse. Bastaria um módico de bom senso e uma réstia de ética republicana. Dois bens escassos.
Ver o mar

Na verdade, eu já tinha visto esse mesmo rapaz a fugir para o mar. Chamava-se Antoine Doinel (o alter-ego que o realizador François Truffaut (1932-1984) imaginou para rescrever a sua vida) e protagonizava os “400 golpes”. Na cena final do filme (que foi também o marco fundador da Nouvelle Vague), Doinel caminha num passo apressado numa estrada no meio do campo. Foge, nessa altura já o sabemos, do desinteresse dos pais e da incompreensão dos professores, mas o que ainda não sabemos é para onde caminha. Para isso basta o último minuto do filme. O passo desacelera e a fuga, no que é também uma demonstração de auto-afirmação, encontra o seu ponto de chegada. Uma praia deserta, um arregaçar das calças e os pés molhados pela maré, que logo apaga as marcas dos passos. Depois, vira-se para nos lançar, através da câmara que enfrenta de frente, o mais destemido dos olhares. Eu sei o que senti quando pela primeira vez Doinel olhou para mim através do zoom da câmara de Truffaut: inveja. O olhar de desafio era também uma amostra da liberdade concreta de que ele gozava e que a nós, adultos, fica de repente interditada. Aquele jovem, em permanente flirt com a marginalidade, cristalizava a clivagem entre o mundo exíguo dos adultos e as possibilidades infinitas que se abrem na juventude. A praia era a fronteira, mas, também, o espaço para o escapismo em direcção a uma independência essencial, sem qualquer tipo de mediação.
Acho improvável que o miúdo romano que fugiu para Óstia tenha visto os “400 Golpes”, mas parece-me bastante provável que Truffaut tenha lido as “Férias de Agosto”, a colecção de pequenas narrativas que o escritor italiano Cesare Pavese (1908-1950) escreveu sobre o mar, as férias e as amizades livres da infância. Também nesses textos, agora reeditados em português, numa tradução de Ana Hatherly, se relata a história de um rapaz que acreditava que encontraria o mar se caminhasse sem parar na planície. O episódio é exemplar de um tema dominante em Pavese: o carácter mitológico da juventude, um passado ao qual não podemos voltar, feito de mar, de campos abertos e de férias grandes, mas de cujas recordações depende a nossa maturidade. São, afinal, essas primeiras imagens irrepetíveis de independência e de liberdade que permanecem intocáveis ao longo das nossas vidas. E é também a esse lugar que regressamos para nos libertarmos do quotidiano e para nos reconciliarmos com o resto da vida.
Há um ajuste de contas que fazemos diariamente com a nossa desconfiança perante os outros e perante o mundo. O que faz com que, como o rapaz romano, precisemos de concretizar a nossa vontade de ver o mar. De regressar a uma etapa inicial de despojamento e independência. Se chegaram até este ponto do texto terão reparado que nem uma vez falei de surf. Não era preciso: todos nós, que beneficiamos do prazer supremo de deslizar com uma prancha debaixo dos pés, estamos conscientes da graça de ter, nas ondas que surfamos, o nosso “Mar”.
publicado na coluna Sal na Terra da SurfPortugal.
Food for thought
O Robert Skidelsky escrevia há uns meses, num excelente artigo na Prospect, que esta crise era também uma crise intelectual e que, como todos os grandes falhanços, devia obrigar-nos a parar para pensar. Vale a pena, a este propósito, ler algumas das respostas ao desafio lançado pela Policy Network a um conjunto de intelectuais para que, em 700 palavras, definissem 5 ou 6 prioridades para responder à crise económica e financeira. As ideias estão aqui.
Em 2009, ler o Avante é aprender
"O presidente Hu Jintao reiterou recentemente que a liderança do Partido, as vantagens do sistema socialista e os esforços do povo serão determinantes para vencer as dificuldades. O êxito de um processo tão complexo e não linear como é a modernização chinesa, com a incorporação da mais alta capacidade tecnológica e o desenvolvimento da produtividade, possui um significado transcendente para as forças do socialismo.
Convém lembrar que a essência do keynesianismo, de que fazem eco as milionárias medidas de salvamento do grande Capital, foi a (II) Guerra. São amplas e reais as ameaças da recessão que se anuncia longa. Perante a barbárie, a luta dos trabalhadores e dos povos e a afirmação do projecto revolucionário do socialismo são hoje uma tábua de salvação para a Humanidade."
Luís Carapinha, o triunfo do socialismo.
Convém lembrar que a essência do keynesianismo, de que fazem eco as milionárias medidas de salvamento do grande Capital, foi a (II) Guerra. São amplas e reais as ameaças da recessão que se anuncia longa. Perante a barbárie, a luta dos trabalhadores e dos povos e a afirmação do projecto revolucionário do socialismo são hoje uma tábua de salvação para a Humanidade."
Luís Carapinha, o triunfo do socialismo.
terça-feira, 31 de março de 2009
A bad trip de Brian Wilson
Há uma lenda que diz que o álbum da banana dos Velvet Underground terá inicialmente vendido apenas umas centenas de cópias, mas que cada uma delas terá levado à criação de uma banda. Os Animal Collective vendem hoje um número bem mais significativo de discos, mas ameaçam competir com os Velvet em capacidade de influenciar. Dos últimos Radiohead aos Sigur Rós, passando pelos Dodos, ouve-se a música que os Animal Collective fazem um pouco por todo o lado. Merryweather Post Pavilion é, como os discos anteriores, um álbum de canções iluminadas e, acima de tudo, mostra o que poderiam ter sido os Beach Boys se Brian Wilson não tivesse tido uma bad trip no final dos anos sessenta da qual, na verdade, nunca se recompôs.
(publicado na SurfPortugal e republicado aqui para "pressionar" quem tiver uma hora e tal a assistir ao integral deste concerto da banda na Holanda. Tem som e imagem - nos tempos que correm, esta informação é relevante.)
Um falhanço intelectual
"Não estamos perante mais uma crise cíclica, solucionável por um conjunto de ajustamentos tradicionais. Nem perante um incidente particular e irrepetível. Como recordava John Kay, esta crise foi provocada pelo ‘sub-prime' na mesma medida que a Primeira Guerra Mundial foi causada pelo assassinato de Francisco Fernando. A crise tem razões estruturais e revelou vários falhanços: da incapacidade dos mercados para se autocorrigirem (uma premissa em que assentava a sua eficiência), até ao carácter opaco, nuns casos, inexistente noutros, dos mecanismos de regulação do sistema financeiro, passando pela inexistência de uma entidade financeira com recursos suficientes para estabilizar os preços numa economia global bem mais aberta. Uma crise desta dimensão assenta num falhanço intelectual e requer novas ideias."
do meu artigo de hoje no Diário Económico, a propósito da Cimeira de Londres do G20.
do meu artigo de hoje no Diário Económico, a propósito da Cimeira de Londres do G20.
Da justiça revolucionária
O Nuno Ramos de Almeida manifestamente não quis ler o que aqui escrevi. Como o tenho em consideração e não tenho motivos para colocar em causa as suas capacidades cognitivas, alguma coisa se deve ter passado. Talvez uma de três hipóteses: está influenciado pelo seu novo contexto laboral, a preparação dos “noticiários” de sexta-feira da TVI; contaminado pelo blog humorístico onde escreve; ou, hipótese mais plausível, o post foi erradamente assinado por ele, quando se tratava de mais um dos textos do gerador automático de posts que assume o nome de Carlos Vidal.
segunda-feira, 30 de março de 2009
A pescadinha de rabo na boca
Mudou a presidência do sindicato dos magistrados do ministério público e a conversa mantém-se. João Palma, assim que tomou posse, logo repetiu a ladainha de que os magistrados sofrem pressões: “há pressões, umas conhecidas e outras não, e se for necessário, se não acabarem, direi quais são e quem as faz”.
A história, aliás, não é nova. Primeiro, aparecem nos jornais – sempre nos mesmos, sempre nos mesmos – umas notícias que falam da existência de pressões, logo a seguir vem o sindicato referir sem concretizar as mesmas pressões que os jornais noticiaram sem concretizar. Depois, claro, chega o “agarrem-me se não eu denuncio”. Tendo em conta que são magistrados, talvez não fosse má ideia denunciarem mesmo, em lugar de ameaçar em abstracto e concretizar invariavelmente através de uma mão-cheia de nada. O assunto é sério de mais para que possa pairar a suspeição generalizada combinada com uma “revolta na bounty”, sob a forma de sublevação contra a “hierarquia”. A menos que o essencial do problema seja mesmo não haver uma hierarquia. Afinal, como lembrava Pinto Monteiro há uns tempos: “o MP é um poder feudal de condes, viscondes, marqueses e duques”. Faltou acrescentar o sindicato dos magistrados do ministério público.
A história, aliás, não é nova. Primeiro, aparecem nos jornais – sempre nos mesmos, sempre nos mesmos – umas notícias que falam da existência de pressões, logo a seguir vem o sindicato referir sem concretizar as mesmas pressões que os jornais noticiaram sem concretizar. Depois, claro, chega o “agarrem-me se não eu denuncio”. Tendo em conta que são magistrados, talvez não fosse má ideia denunciarem mesmo, em lugar de ameaçar em abstracto e concretizar invariavelmente através de uma mão-cheia de nada. O assunto é sério de mais para que possa pairar a suspeição generalizada combinada com uma “revolta na bounty”, sob a forma de sublevação contra a “hierarquia”. A menos que o essencial do problema seja mesmo não haver uma hierarquia. Afinal, como lembrava Pinto Monteiro há uns tempos: “o MP é um poder feudal de condes, viscondes, marqueses e duques”. Faltou acrescentar o sindicato dos magistrados do ministério público.
sábado, 28 de março de 2009
Ópera bufa

Não frequento a TVI e pouco sei sobre o que lá se passa. Julgo aliás que devo ter um problema com o meu televisor, quando salto entre a posição 3 e a 5, fico sempre com a impressão que por momentos imagem e som ficam desconfigurados. Mas, hoje, sabendo da “bomba”, não resisti a ver. Tive várias surpresas. A primeira é que não sabia que a dona Ana Leal ainda por lá andava. A última vez que tinha tido notícias da senhora, parece que andava em histeria na biblioteca de uma universidade, em busca de uma tese inexistente. Mas isso são contas de outro rosário e a histeria – sempre acompanhada de comportamentos persecutórios e de violação grosseira de princípios basilares do Estado de direito –, já se percebeu, é uma nota dominante por ali. Bem, mas lá vi o dvd sem imagem (sic). E confesso o meu divertimento. Não percebo a indignação de José Sócrates. Aquela converseta é talvez o melhor elemento em sua defesa: chega a ser caricato o modo como Charles Smith procura sacar umas massas a uns compatriotas. Lembrei-me logo de uma história que me contaram há uns tempos sobre um advogado, “especialista” em assuntos fiscais, que recebia uns dinheiros todos os meses de umas quantas empresas para pagar a uns funcionários das finanças. Mais tarde, descobriu-se, os funcionários não existiam e o que existia era uma avença sob a forma de extorsão. O advogado foi condenado.
Condenados a entenderem-se?
A sondagem hoje publicada revela uma erosão da imagem do primeiro-ministro e do Governo, combinada com uma incapacidade do maior partido da oposição para capitalizar o descontentamento, ao mesmo tempo que os partidos dos extremos continuam com votações acima das últimas legislativas. Curiosamente, este padrão coloca-nos numa situação em quase tudo idêntica à do mês de Setembro, quando os reflexos nacionais da crise internacional se faziam ainda sentir escassamente. Desse ponto de vista, a crise internacional está a ter efeitos políticos domésticos semelhantes um pouco por toda a Europa.
Se numa primeira fase, em que havia uma percepção da extensão da crise, mas as suas manifestações económicas e sociais ainda não se faziam sentir de modo intenso, os partidos que se encontravam no poder viram o seu apoio aumentar, no último par de meses, acompanhando o aumento do desemprego e o arrefecimento do produto, tem-se assistido a uma erosão da popularidade dos diversos primeiros-ministros europeus, ao mesmo tempo que se verifica uma pulverização do voto e um crescimento dos partidos à esquerda.
Assim, Portugal caminha para um contexto de dificuldades económicas e sociais sem paralelo na história recente, ao qual aparentemente se soma uma dispersão de votos que nos coloca demasiadamente longe de um cenário desejável de maioria absoluta. Se as eleições fossem hoje (e, sublinhe-se, não são), a ingovernabilidade estaria, por isso, ao virar da esquina. Que fazer perante um cenário destes?
Olhar para o passado talvez não seja má ideia. O cenário futuro pode vir a ter demasiadas semelhanças com a primeira metade da década de oitenta: desequilíbrios financeiros, arrefecimento económico e crescimento do desemprego, combinados com dificuldades políticas. Tal como então, a soma dos votos no PS e no PSD é comparativamente baixa (nesta sondagem estão nos 65%, ligeiramente abaixo da maioria qualificada e bem abaixo dos 74% das últimas legislativas.). Perante um cenário semelhante, o que aconteceu foi a formação de uma coligação de “strange bedfellows”, o bloco central. É naturalmente uma solução indesejável, pois dilui a diferenciação política e tende a reproduzir um outro bloco central, o dos interesses.
É verdade que a intenção de voto somada no PS, BE e PCP é de cerca de 60%, o que poderia levar à formação de uma frente de esquerda. Mas, entre nós, as condições de governabilidade à esquerda são praticamente inexistentes – a menos que se assistisse a uma insólita capitulação do programa político do PS perante o caderno reivindicativo maximalista do BE e do PCP – partidos que com intenções de voto em redor dos 20%, ainda assim se colocam irresponsável e ostensivamente fora da governabilidade.
Há uma frase muito repetida que nos diz que a política é a arte do possível. Se os portugueses não virem na instabilidade política a ameaça real que de facto representa e se o padrão desta sondagem se consolidar, Portugal vai estar confrontado com uma única possibilidade, aliás bem indesejável: o entendimento entre PS e PSD em acordos parlamentares com o patrocínio do Presidente da República (que, em final de mandato, verá o poder de dissolução condicionado pelos prazos constitucionais). Mas tendo em conta que nem para a escolha de um Provedor de Justiça existem hoje canais de diálogo entre os partidos, há boas razões para estarmos colectivamente muito preocupados.
comentário à sondagem da Marktest, publicado no Semanário Económico
Se numa primeira fase, em que havia uma percepção da extensão da crise, mas as suas manifestações económicas e sociais ainda não se faziam sentir de modo intenso, os partidos que se encontravam no poder viram o seu apoio aumentar, no último par de meses, acompanhando o aumento do desemprego e o arrefecimento do produto, tem-se assistido a uma erosão da popularidade dos diversos primeiros-ministros europeus, ao mesmo tempo que se verifica uma pulverização do voto e um crescimento dos partidos à esquerda.
Assim, Portugal caminha para um contexto de dificuldades económicas e sociais sem paralelo na história recente, ao qual aparentemente se soma uma dispersão de votos que nos coloca demasiadamente longe de um cenário desejável de maioria absoluta. Se as eleições fossem hoje (e, sublinhe-se, não são), a ingovernabilidade estaria, por isso, ao virar da esquina. Que fazer perante um cenário destes?
Olhar para o passado talvez não seja má ideia. O cenário futuro pode vir a ter demasiadas semelhanças com a primeira metade da década de oitenta: desequilíbrios financeiros, arrefecimento económico e crescimento do desemprego, combinados com dificuldades políticas. Tal como então, a soma dos votos no PS e no PSD é comparativamente baixa (nesta sondagem estão nos 65%, ligeiramente abaixo da maioria qualificada e bem abaixo dos 74% das últimas legislativas.). Perante um cenário semelhante, o que aconteceu foi a formação de uma coligação de “strange bedfellows”, o bloco central. É naturalmente uma solução indesejável, pois dilui a diferenciação política e tende a reproduzir um outro bloco central, o dos interesses.
É verdade que a intenção de voto somada no PS, BE e PCP é de cerca de 60%, o que poderia levar à formação de uma frente de esquerda. Mas, entre nós, as condições de governabilidade à esquerda são praticamente inexistentes – a menos que se assistisse a uma insólita capitulação do programa político do PS perante o caderno reivindicativo maximalista do BE e do PCP – partidos que com intenções de voto em redor dos 20%, ainda assim se colocam irresponsável e ostensivamente fora da governabilidade.
Há uma frase muito repetida que nos diz que a política é a arte do possível. Se os portugueses não virem na instabilidade política a ameaça real que de facto representa e se o padrão desta sondagem se consolidar, Portugal vai estar confrontado com uma única possibilidade, aliás bem indesejável: o entendimento entre PS e PSD em acordos parlamentares com o patrocínio do Presidente da República (que, em final de mandato, verá o poder de dissolução condicionado pelos prazos constitucionais). Mas tendo em conta que nem para a escolha de um Provedor de Justiça existem hoje canais de diálogo entre os partidos, há boas razões para estarmos colectivamente muito preocupados.
comentário à sondagem da Marktest, publicado no Semanário Económico
sexta-feira, 27 de março de 2009
Playboy à portuguesa
Mónica Sofia (a crer na capa, fotografada numa produção low cost numa gruta na reboleira), Pacman, Costinha, Rute Penedo, Nuno Saraiva, Pedro Paixão, Ana Anes, Nuno Markl ou de como cada país tem o Norman Mailer que merece.
"Sure, the reason most of us started reading Playboy was for the girls. But when the history of American magazines is written, people who said "I read it for the articles" will have the last laugh. As will Hugh Hefner, who told a reunion of Playmates in 1979, "Without you, I'd be the publisher of a literary magazine." With new editor James Kaminsky starting this week, and even Hefner saying the magazine needs to recapture its distinction, Playboy has the opportunity to be a catalyst for change in the magazine world. It can do what it did in the '60s and be a magazine with balls (and boobs), leading the moribund magazine world into a new era of editorial rebirth. A pipe dream, I know, but not a complete fantasy." da Saloon.
O impasse europeu
"Também nos estímulos orçamentais grassa uma enorme confusão. A América já aprovou 2% do PIB para este ano, deverá juntar-lhe outro tanto em 2010 e gostaria que a Europa fizesse o mesmo. A Europa limitou-se a 1% do PIB, rejeita a "interferência" americana e ninguém sabe exactamente o que quer. Há quem estranhe a discrepância, porque defende uma política comum. Eu também defendo o mesmo, mas não estranho nada: de um lado está 1 cabeça e do outro estão 27 - a confusão é normal."
Daniel Amaral, no Diário Económico. E quanto a Portugal, como é sugerido, talvez o melhor seja mesmo respirar fundo.
Daniel Amaral, no Diário Económico. E quanto a Portugal, como é sugerido, talvez o melhor seja mesmo respirar fundo.
quinta-feira, 26 de março de 2009
Maluquinho me confesso
O Pedro Magalhães alerta para o mecanismo de ponderação que é utilizado pela Marktest para projectar os resultados brutos das suas sondagens. Basicamente, para garantir que a amostra é representativa do eleitorado, a Marktest questiona sempre em que partido o inquirido votou nas últimas eleições legislativas. Resta saber o que é que nesta ponderação tem mais força: a mentira ou a excepcionalidade das últimas legislativas? Enquanto a mentira em relação ao voto nas últimas legislativas pode tender a prejudicar o PS (estou convencido que hoje haverá menos gente a declarar ter votado PS do que os votos efectivamente expressos), as circunstâncias excepcionais em que ocorreram as legislativas de 2005 (primeira maioria absoluta do PS, com mobilização quase no pleno, arrisco dizer, do campo socialista, combinada com voto contra Santana) beneficia, hoje, o PS na ponderação. Será que os dois factores se compensam?
quarta-feira, 25 de março de 2009
The greatest rock'n'roll swindle

De há uns tempos para cá, o mundo do rock tem sido assolado pela praga das reuniões de banda. Entre as que se concretizaram, as que foram anunciadas e aquelas sobre as quais se especula, não sobram muitas bandas. Os resultados têm sido invariavelmente um desastre – com a notável excepção dos Go-Betweens. Os Velvet reuniram-se para uns quantos concertos mornos, na ressaca do funeral de Andy Warhol, onde Reed e Cale se terão reencontrado, para logo regressarem ao registo de antagonismo de sempre; os Pixies arrastam-se há uns anos numas tournées deprimentes; e que dizer dos Jesus & the Mary Chain que deram um concerto entediante em Lisboa há um par de anos? Vamos ver o que nos reservam os Blur. Nisto há também os anúncios ainda por concretizar (fala-se dos Pavement há uns tempos) e os falsos alarmes (os Smiths). Mas, no meio de tudo, sobram as boas respostas às propostas de reunião: a dos Stone Roses chegou através da “arte” de John “Pollock” Squire, mas David Byrne rejeitou a reunião dos Talking Heads falando do que está de facto em jogo: "I don't need the money badly enough.".
Pior a emenda
No BE há uma sólida linhagem de engraçadinhos. Ao longo dos tempos, a mania de se armarem em engraçadinhos encontrou um contexto favorável nos media. Mas o passar do tempo foi produzindo desgaste. Ainda assim, insistem. A última gracinha é uma versão alterada do lamentável anúncio da RDP. Imagino que andem muito contentes com a graçola. Acontece que politicamente é igualmente infeliz. O argumento das deslocalizações é, em si, mau. Não sei bem o que o BE tem para oferecer como resistência às deslocalizações no espaço da UE. Além de que o exemplo da Eslováquia é particularmente grave. Nem sequer se trata da China, que não ratifica o acervo essencial de convenções da OIT, ou outro regime autoritário, que oprima politicamente trabalhadores. Aliás, a Eslováquia de hoje é Portugal de há vinte anos: um país que tem beneficiado muito com a adesão e que muito provavelmente terá problemas semelhantes aos nossos dentro de uma década. E, quem foi infundadamente acusado de dumping social durante um largo período (sendo que a evidência empírica nunca o provou), deveria ter, no mínimo, algum pudor na devolução da acusação. No fundo, o anúncio é apenas uma versão aparentemente mais sofisticada do “argumento Ferreira Leite” do investimento público desde que feito com mão-de-obra nacional. Argumento que tanto indignou os bloquistas. Isto do proteccionismo tem dias, como se vê. E também já passou algum tempo. Foi na semana passada.
Estabilizadores automáticos

Têm-se ouvido alguns apelos para que se deixe os estabilizadores automáticos funcionar. Parte da resposta à crise passará por aí. Mas, ainda assim, há dois “estabilizadores automáticos” com notável capacidade e cujo utilização exaustiva ainda não foi experimentada. Um é a mobilização popular, uma dose justa de populismo: como recordava Robert Reich a propósito da aprovação de uma taxa de imposto retroactiva para as empresas que distribuíram bónus aos seus quadros, após terem recebido avultados apoios públicos, “it's nice to see that when the public gets sufficiently angry about something, Congress responds.”; outro, é mesmo o voto. Desconfio que é a melhor garantia de que não se repetirá uma parte importante do que aconteceu e nos trouxe até aqui. Há quem ache que, perante uma crise desta dimensão, o voto é um empecilho que empurrará os decisores para soluções ilusórias, guiadas pelo imediatismo. O ideal seria uma moratória na democracia e um conselho de “homens bons” para tomar decisões difíceis. Desconfio que precisamos exactamente do contrário.
terça-feira, 24 de março de 2009
Let's sing another song, boys

Soube-se hoje que L. Cohen regressa a 30 de Julho para um concerto no pavilhão atlântico e, entretanto, o site da NPR disponibliza o integral do live in London - que sai dia 31 de Março em cd e dvd - para escuta.
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