"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Este tipo vai longe

Não sei se estão recordados do episódio não muito distante no qual Paulo Rangel se insurgia contra o facto do primeiro-ministro não querer debates quinzenais durante a campanha para as europeias. Curiosamente, a decisão havia sido tomada em conferência de líderes e por unanimidade. O que faz todo o sentido, aliás, tendo em conta que estava a decorrer uma campanha eleitoral, provavelmente nem deveriam existir sessões plenárias. Pois, para o que importa, o Dr. Rangel é líder de um grupo parlamentar e o seu grupo parlamentar havia concordado com a decisão que, passado uns dias, daria o direito ao Dr. Rangel de se indignar. Ontem voltou à carga. A propósito da lamentável lei do financiamento partidário, que em boa hora o Presidente vetou, o Dr. Rangel vem agora dizer que, no fundo, sempre foi contra a lei em questão - “O PSD nunca pretendeu que estas alterações que motivaram o veto do senhor Presidente da República fossem avante”. Elucidativo, votou a favor, mas era contra. Durante algum tempo, quando ouvia o Dr. Rangel, ficava sempre com uma dúvida: como é que tinha feito parte do Governo de Santana Lopes? Começa a perceber-se melhor e há uma coisa que fica claro: estamos perante alguém que vai longe. Não tenham dúvidas.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Em busca de um novo Obama



Esta não descobri nem na Stereogum, nem na Pitchfork. Foi mesmo o Luciano Amaral.

Rupturas à esquerda

O resultado das europeias criou uma grande responsabilidade aos partidos de esquerda: criar condições de governabilidade a partir de uma maioria eleitoral. Não é fácil e implica várias rupturas.
O PS, depois de ter tido um resultado que é, em votos expressos, o mais baixo de sempre e em percentagem só ultrapassado pelos seus mínimos históricos de 1985 e 1987, precisa de reflectir sobre a narrativa política que desenvolveu nesta legislatura e sobre o modo como olha para esta crise.
Esta dupla reflexão implica que o PS não se limite a manter o rumo seguido, numa estratégia cega perante o que os portugueses pensam e insensível à dimensão da crise internacional.
Durante muito tempo, o sucesso do actual Governo foi atribuído ao modo como combatia os interesses corporativos. Os resultados eleitorais vêm revelar que, em democracia, não é possível reformar eficazmente sem estabelecer coligações sociais. Por exemplo, tomar o movimento sindical como adversário é impensável para um partido de centro-esquerda. Por outro lado, esta crise requer soluções que não sejam repetições do passado e obriga a que o centro-esquerda reflicta, de facto, sobre o seu papel na construção dos modelos de regulação que nos trouxeram até aqui.
Os partidos de extrema esquerda têm uma responsabilidade não menor. Com um resultado que supera os pontos mais altos do PC (em 1979), contraíram a obrigação de transformar voto de protesto em mudança efectiva. Para tal, precisam, antes de tudo, de abandonar a tradição de escolher o PS como adversário preferencial e recentrar as suas reivindicações programáticas (por exemplo, o absurdo de exigir a saída de Portugal da NATO).
Serão capazes? Acho muito difícil, como prova a experiência autárquica em Lisboa. Mas uma coisa é certa, os eleitores não perdoarão que o esforço não seja feito.
versão integral de um texto publicado hoje no Diário de Notícias.

O espectro da ingovernabilidade

Não sabemos se com as europeias o que esteve em causa foi essencialmente a mobilização de voto de protesto face a um Governo que construiu a sua imagem com um discurso de confronto às corporações e que se revelou impotente para contrariar a crise económica e o crescimento do desemprego - e que com isso desbaratou o seu capital junto da esquerda sociológica - ou se, pelo contrário, estamos perante um novo ciclo político, em que o centro-direita inverte a tendência eleitoral recente. Mas uma coisa sabemos, a pulverização partidária, a somar à crise económica e social, e, em particular, o facto de PS e PSD terem resultados conjugados particularmente baixos - só superiores à percentagem alcançada em 1985, com o PRD - é um passo para a reconfiguração do espectro partidário português. Não vejo como essa reconfiguração possa ocorrer sem pôr em causa a governabilidade do país e sem contribuir para o aprofundamento da crise que vivemos.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

Eleições de primeira ordem

Está na hora do Vieira ir embora.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Assino por baixo

A principal preocupação que me acompanha, agora como antes, é a da governabilidade. Portugal é um país pobre, com falta de qualificação das pessoas e das organizações, com um Estado fraco e insuficiente, em que a falta de sentido da responsabilidade é larvar - e não sairemos desse estado se cedermos por sistema a toda a colecção de egoísmos de grupo que continuam a ser a matriz básica da nossa vida colectiva. E há uma fatia grande do “povo de esquerda” que não compreende isso. E não será possível dar uma resposta política a essa situação se não se compreender o fenómeno de fragmentação da esquerda que levou ao estado lastimoso (por exemplo) da esquerda francesa. Aqueles que pensam que sairão vencedores desta situação varrendo os socialistas da cena - serão os arquitectos de uma paisagem política à francesa, com uma direita instalada e sem verdadeiro contraponto.
Porfírio Silva, no Outubro.

Andam a tomar-nos por parvos

esta notícia.

Do baú

A confrontação com os actores sectoriais tem sido uma forma eficaz para que aos olhos do “interesse comum” as mudanças sejam percepcionadas como legítimas. Mas não deixa de ser verdade que numa democracia ainda longe da institucionalização, esta estratégia produz danos colaterais. Portugal precisa de mais e não de menos factores de intermediação entre a sociedade e a esfera política e a valorização da negociação é uma das poucas formas conhecidas de tornar orgânica a representação da sociedade. Com uma crescente pulverização dos interesses organizados, a ancoragem política dos blocos sociais fica ainda mais frágil e a estabilidade do sistema partidário será, no médio prazo, afectada. Também aqui, o eleitorado tenderá a fugir e, no que é grave, quando o fizer, fá-lo-á sem rumo.
daqui.

O fim de qualquer coisa

Alguns factos: o PS teve o seu pior resultado de sempre em número de votos e em percentagem só melhor do que 1985 e 1987.
Ao contrário do que aconteceu quando o PS se aproximou dos seus mínimos, o PSD cresceu muito pouco (teve 28.77% com Santana e agora 31.6% com Ferreira Leite e Rangel).
BE e PCP juntos ultrapassam largamente os melhores resultados do PCP, em redor dos 18% em 1979 e 1983.
Ao mesmo tempo, votou mais gente do que nas últimas europeias.
Para já, ainda não sabemos se os eleitores expressaram, de modo racional, o seu protesto com poucos custos para a governabilidade (a propósito, a moção de censura de Portas e a afirmação de Rangel de que a legitimidade para governar está diminuída, devem ter sido as únicas coisas positivas para José Sócrates ontem à noite) e, quando estiver em causa, de facto, a governação do país, a tendência para a bipartidarização regressará ou se, pelo contrário, os três blocos (PSD+CDS; PS; e BE+PCP), que vivem de costas voltadas, são uma realidade que veio para ficar? Se a segunda hipótese for a verdadeira, temo que o que se inaugurou ontem não signifique o início de nada, mas represente apenas o fim de qualquer coisa.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Oh, Paris

O empate técnico

O João Pinto e Castro chamou a atenção aqui para mais um exemplo do falhanço da escola pública. O Pedro Magalhães espanta-se com os títulos das notícias. Mas na verdade, é sempre possível ir mais longe. O Público hoje anuncia uma profunda ruptura paradigmática nas eleições de Domingo: o empate técnico como resultado eleitoral ("as vantagens obtidas em relação ao PSD não são, no entanto, significativas e, tendo em conta as margens de erro, o empate técnico é um dos resultados mais previsíveis").

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Eu vi o futuro do rock'n'roll


dois putos a solarem no concerto dos Wilco (se a memória não me atraiçoa, durante o Spiders (kidsmoke))

His goal in life was to be an echo



não deixa de ser espantoso que quem escreveu isto tenha passado por isto (cheguei a este texto através do Luís Azevedo Rodrigues).(Já agora, mais uma prova de como os espanhóis são imbatíveis no inglês)

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Eu e a minha senhora

O dr. Cavaco – político profissional aí há uns trinta anos – continua a ter um problema quando está sob pressão (legítima ou ilegitimamente, pouco importa). Hoje, mais uma vez, se calhar porque Fernando Lima não estava por perto, para dar uma mão, não se saiu bem.
Neste história das acções da SLN não há, na verdade, nenhum problema em si. Há apenas (o que em política não é pouco) um problema de gestão do assunto. Bem pode o Dr. Cavaco indignar-se, mas não vejo porque razão a sua “seriedade” deva estar imune ao escrutínio político e mediático. Ele é um político, exactamente igual aos outros políticos, pelo que tem de responder às questões incómodas, pertinentes, mas também às questões estúpidas e impertinentes que os jornalistas (com demasiada frequência, é verdade) colocam. Ora hoje, após ter manifestamente omitido um facto aquando do comunicado sobre o BPN, não deu um bom contributo para encerrar o assunto.
Antes de mais, o tom de vítima: “Eu e a minha mulher, antes de eu estar nesta posição, quando éramos apenas professores, não tínhamos as nossas poupanças debaixo do colchão, nem tão pouco no estrangeiro”. Na verdade, haverá muitos professores que têm tido perdas com a bolsa nos últimos meses e que viram as suas poupanças "desaparecidas". Mas a SLN, ao contrário do que Cavaco sugere quando nomeia outras empresas das quais detém acções, não está cotada em bolsa, pelo que não estou a ver que fosse fácil a um casal qualquer de professores adquirir acções desta empresa, como poderia adquirir da EDP, SONAE ou Brisa. Além de que não vejo como seria possível a um gestor de conta adquirir acções de uma empresa não cotada, ainda mais sem envolver o detentor das poupanças nesse processo. Depois, neste caso concreto, Cavaco e a sua mulher não perderam dinheiro, fizeram uma mais valia, se não estou em erro, de 140%. Claro que o lote de acções era reduzido e não estamos a falar, nem de longe, nem de perto, de um accionista de referência. Ou seja, estamos, de facto, perante uma mão cheia de nada, pelo que custa a perceber porque razão Cavaco não matou o assunto à nascença, deixou-o crescer e, hoje, como se não bastasse, veio ainda introduzir mais ruído. Deve ser porque não é um político profissional. Apesar de andar há trinta anos a fazer política.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Um referendo nacional

Contudo, a partir de certa altura, o PS abandonou a sua linha inicial e passou ele próprio a querer fazer das europeias um referendo ao Governo e às oposições. Por estranho que possa parecer, a ideia aparenta não ter sido má. Se acreditarmos nos resultados das sondagens, pese embora a distância significativa face à maioria absoluta, esta mudança, consubstanciada na entrada de José Sócrates na campanha, coincide com uma recuperação das intenções de voto no PS. O que parece reflectir uma variável chave para o sucesso dos partidos de Governo neste tipo de eleições: a capacidade de mobilização do seu núcleo duro de eleitores.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A abstenção e a inveja


Ando muito preocupado com a abstenção. Oferecem-nos coisas e depois não conseguimos valorizá-las de modo adequado. Ontem os Wilco estiveram no Coliseu e o cenário era deprimente: 1/3 da sala ocupada, na visão benévola de quem ocupava um lugar da segunda fila. Que país é este que toma como adquiridos bens que são de facto frágeis? Depois, o concerto começou morno, até que os rapazes se foram soltando. A certa altura, já depois de umas dez músicas e talvez o dobro de trocas de guitarras (se somarmos as do Nels Cline às do Jeff Tweedy), o público juntou-se todo à frente, em pé como mandam estas coisas, e o que era morno tornou-se, subitamente, num dos melhores concertos de que me recordo. Dificilmente se encontra outra banda capaz de um som a um tempo tão poderoso e tão conseguido e com uma capacidade única de olhar para as raízes do folk rock norte-americano. Três guitarras que soavam na perfeição e que por vezes se transformavam em duas mais dois teclistas, mas sem que no virtuosismo se perdesse a intensidade. Tudo com um Jeff Tweedy bem disposto e com uma banda que manifestamente tem prazer a tocar. Pelo meio, quase não houve nada que ficasse por ouvir (pronto, não tocaram o Via Chicago, que aparentemente tocaram em Braga, mas em Lx tocaram o War on War, que não terão tocado na véspera). Mas, no fim, no meio de um longo encore (terão sido umas oito músicas?), e quando se ouviu uma versão do Hate it here a soar a Beatles por todos os lados e quando a faceta Neil Young veio mais ao de cima, chegou o momento da noite: dois miúdos, ela com uns oito anos, ele com seis, tiveram direito a solar na guitarra do Jeff Tweedy. Ali bem em frente ao palco e ao meu lado. A inveja é uma coisa muito feita. Mas foi o que eu senti. Ah, o Radio Cure e o Hummingbird tiveram versões assim como que superlativas.

E daqui a um ano?

A crer nos dados hoje divulgados, os portugueses mantém-se bastante pessimistas. Ainda assim, o pessimismo é significativamente maior quando questionados sobre como estará a economia daqui a um ano do que em relação ao seu próprio agregado familiar. Provavelmente não é uma percepção muito realista. A dimensão e a profundidade desta crise é tal que poucas famílias escaparão de modo directo ou indirecto ao seu impacto.
Contudo, estes dados entram em contradição com a tendência revelada pelo indicador de clima económico do INE, publicado na semana passada, que revela um interrupção do movimento descendente que se verificava há um ano e que tinha atingido um pico no mês de Abril. Tanto mais que esta inversão foi acompanhada por uma variação positiva dos indicadores de confiança em todo os sectores económicos.
Mas, provavelmente, o aspecto mais paradoxal destes resultados é o seu cruzamento com as intenções de voto apuradas na mesma sondagem. Perante uma crise desta dimensão o que se esperaria seria, por um lado, uma reprovação do partido que está no Governo e, por outro, uma desafectação geral face aos partidos políticos, na medida que se têm revelado incapazes de contrariar a depressão económica e social. Curiosamente, nenhuma destas tendências se está a verificar, o que sugere que os portugueses continuam a ver no executivo e nos partidos do sistema capacidade para responder à crise. Resta saber até quando resiste essa avaliação positiva.
Se daqui a um ano a resposta à mesma pergunta continuar a mostrar indicadores tão negativos, o problema continuará a ser económico e social, mas assumirá contornos políticos com os quais será difícil de lidar.
texto publicado no Diário Económico como comentário a estes resultados da sondagem da Marktest.

Da justiça terrena


Boy chosen by Dalai Lama turns back on Buddhist order. Afinal há esperança nas coisas da Terra.

Guitar Hero


os factos (a partir do minuto 2.45)

Guitar Hero


Nels Cline