"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

terça-feira, 23 de junho de 2009

Estes economistas


Há vários meses que na faculdade onde dou aulas está pintado numa parede uma inscrição que pergunta, “estes economistas, para quê?”.
Quando li o manifesto dos 28 foi essa a questão que me veio à cabeça. Na verdade, há um manifesto que eu, enquanto não-economista, esperava ver escrito. Um manifesto que reflectisse sobre o falhanço do mesmo saber técnico que agora é invocado para intervir politicamente na previsão do que aconteceu à economia mundial ou sobre a incapacidade de construir respostas políticas que prevenissem o descalabro. Por exemplo, não seria de esperar que se assistisse a um questionamento crítico do Pacto de Estabilidade que tantos entraves criou ao crescimento económico no espaço europeu?
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Provar do próprio veneno

O jornal A Bola publica hoje um artigo que se baseia no mesmíssimo tipo de critérios jornalísticos que a TVI costuma usar. Basicamente, a candidatura de Moniz à presidência do Benfica faria parte de um grande complot espanhol para comprar o Benfica. Provas e evidências eram naturalmente poucas, o que sobrava eram suspeições e uns quantos nexos causais frágeis. Imaginem só o que Moniz decidiu fazer: vai processar o director da bola e o autor da peça. Curioso, não é. Não há nada como provar do próprio veneno para aprender. Resta saber se aprende.

Sintam-se convidados



mapa aqui.

sábado, 20 de junho de 2009

Do amiguismo

Escrever sobre o mar e as ondas não é tarefa fácil. Isto é tanto mais verdade quanto melhor for a escrita, maior a sua depuração, e mais interessantes os pontos de contacto existentes entre o lirismo da paixão pelo mar e a vida passada em terra. É por tudo isto que as crónicas do Pedro Adão e Silva são, há já alguns anos, uma referência incontornável do surf escrito em língua portuguesa. Daí que só os distraídos se permitam surpreender por estas crónicas passarem agora a livro.

Assim, é com o mais supremo prazer (fazendo nossas as palavras do James Cook quando viu um gajo em cima de uma tábua há uma porrada de anos atrás, e que o Pedro tão bem cita na epígrafe do livro) que anunciamos o lançamento de "Sal na Terra", pela editora Bertrand, a partir de hoje nas livrarias de todo o país. O livro reúne crónicas do Pedro publicadas na SURFPortugal durante os últimos anos, recuperando oportunamente o título do seu espaço na revista. Para além das crónicas arrumadas em livro, há ainda as fotografias. Destas podemos dizer que foram captadas pelo Ricardo Bravo e complementam na perfeição uma série de textos singulares capazes de percorrer a distância entre Kelly Slater e Cesare Pavese, passando por Zico ou Tiago Pires.

O volume agora editado, a que o poeta José Tolentino Mendonça se refere no prefácio como "um dos mais belos livros da poesia portuguesa", será apresentado por Francisco José Viegas no próximo dia 23 de Junho, às 18:30, na livraria Ler Devagar, agora na LX Factory. Considerem-se convidados.

Vasco Mendonça, no site da SurfPortugal.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Em Nashville também está muito calor

St. Vincent "Actor Out Of Work" from Lake Fever Sessions on Vimeo.


"I don't even think I own an acoustic guitar" (e há mais aqui)

quarta-feira, 17 de junho de 2009

A capa



nas livrarias a partir de amanhã.

Low Cost

o ataque do Benfica para 2009 vai ser formado por Marcel e Weldon.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Da importância de manter o rumo



What's it like to be a girl in a band?

6ª feira, todos ao Frágil


Os 20 anos do disco dos Stone Roses são um pretexto como outro qualquer para uma boa festa.

Um país paralisado

a moção de censura que amanhã o CDS apresentará, e que terá o apoio do PSD, sendo uma versão extrema da acusação de falta de legitimidade política do executivo para Governar que surgiu na sequência das europeias, funciona como antevisão do país que poderemos ter daqui a um ano. E a última coisa que nos faltava acrescentar à crise era um país paralisado por uma crise de legitimidade política do Governo. Que seja sugerido que o país pare já, em Junho, quando não haverá novo executivo até Novembro, tem apenas uma virtude: antecipa o que pode ser a paisagem política no próximo ano.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Saber envelhecer



Há uns tempos li que o John Peel teria dito que um sintoma da sanidade da sua família era o facto de, trinta anos depois, gostarem de ir juntos - filhos incluídos - a concertos dos The Fall. Os Sonic Youth têm um disco novo. Na verdade, é igual a quase todos os outros: uma lição sobre o que fazer com as guitarras, onde aproveitam para mostrar como como se pode manter a energia pop adolescente e combiná-la com a maturidade de quem já abriu todos os caminhos no rock. A Kim Gordon continua com as melhores pernas do Rock e o Thurston Moore parece estar sempre mais novo, para compensar o cabelo do Lee Ranaldo e os kilos a mais do Steve Shelley. Isto tudo porque eu hei um dia de ir a um concerto dos Sonic Youth com os meus filhos.
(devo confessar que só tive a certeza que Nova Iorque existia como de facto se diz que ela é quando um dia me virei e atrás do meu ombro estava o Lee Ranaldo com a mulher e os filhos)

Retratos de um País


Comendador Moita Flores (Alexandre Herculano está claramente abalado pela notícia).

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Um esboço para o Verão

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Este tipo vai longe

Não sei se estão recordados do episódio não muito distante no qual Paulo Rangel se insurgia contra o facto do primeiro-ministro não querer debates quinzenais durante a campanha para as europeias. Curiosamente, a decisão havia sido tomada em conferência de líderes e por unanimidade. O que faz todo o sentido, aliás, tendo em conta que estava a decorrer uma campanha eleitoral, provavelmente nem deveriam existir sessões plenárias. Pois, para o que importa, o Dr. Rangel é líder de um grupo parlamentar e o seu grupo parlamentar havia concordado com a decisão que, passado uns dias, daria o direito ao Dr. Rangel de se indignar. Ontem voltou à carga. A propósito da lamentável lei do financiamento partidário, que em boa hora o Presidente vetou, o Dr. Rangel vem agora dizer que, no fundo, sempre foi contra a lei em questão - “O PSD nunca pretendeu que estas alterações que motivaram o veto do senhor Presidente da República fossem avante”. Elucidativo, votou a favor, mas era contra. Durante algum tempo, quando ouvia o Dr. Rangel, ficava sempre com uma dúvida: como é que tinha feito parte do Governo de Santana Lopes? Começa a perceber-se melhor e há uma coisa que fica claro: estamos perante alguém que vai longe. Não tenham dúvidas.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Em busca de um novo Obama



Esta não descobri nem na Stereogum, nem na Pitchfork. Foi mesmo o Luciano Amaral.

Rupturas à esquerda

O resultado das europeias criou uma grande responsabilidade aos partidos de esquerda: criar condições de governabilidade a partir de uma maioria eleitoral. Não é fácil e implica várias rupturas.
O PS, depois de ter tido um resultado que é, em votos expressos, o mais baixo de sempre e em percentagem só ultrapassado pelos seus mínimos históricos de 1985 e 1987, precisa de reflectir sobre a narrativa política que desenvolveu nesta legislatura e sobre o modo como olha para esta crise.
Esta dupla reflexão implica que o PS não se limite a manter o rumo seguido, numa estratégia cega perante o que os portugueses pensam e insensível à dimensão da crise internacional.
Durante muito tempo, o sucesso do actual Governo foi atribuído ao modo como combatia os interesses corporativos. Os resultados eleitorais vêm revelar que, em democracia, não é possível reformar eficazmente sem estabelecer coligações sociais. Por exemplo, tomar o movimento sindical como adversário é impensável para um partido de centro-esquerda. Por outro lado, esta crise requer soluções que não sejam repetições do passado e obriga a que o centro-esquerda reflicta, de facto, sobre o seu papel na construção dos modelos de regulação que nos trouxeram até aqui.
Os partidos de extrema esquerda têm uma responsabilidade não menor. Com um resultado que supera os pontos mais altos do PC (em 1979), contraíram a obrigação de transformar voto de protesto em mudança efectiva. Para tal, precisam, antes de tudo, de abandonar a tradição de escolher o PS como adversário preferencial e recentrar as suas reivindicações programáticas (por exemplo, o absurdo de exigir a saída de Portugal da NATO).
Serão capazes? Acho muito difícil, como prova a experiência autárquica em Lisboa. Mas uma coisa é certa, os eleitores não perdoarão que o esforço não seja feito.
versão integral de um texto publicado hoje no Diário de Notícias.

O espectro da ingovernabilidade

Não sabemos se com as europeias o que esteve em causa foi essencialmente a mobilização de voto de protesto face a um Governo que construiu a sua imagem com um discurso de confronto às corporações e que se revelou impotente para contrariar a crise económica e o crescimento do desemprego - e que com isso desbaratou o seu capital junto da esquerda sociológica - ou se, pelo contrário, estamos perante um novo ciclo político, em que o centro-direita inverte a tendência eleitoral recente. Mas uma coisa sabemos, a pulverização partidária, a somar à crise económica e social, e, em particular, o facto de PS e PSD terem resultados conjugados particularmente baixos - só superiores à percentagem alcançada em 1985, com o PRD - é um passo para a reconfiguração do espectro partidário português. Não vejo como essa reconfiguração possa ocorrer sem pôr em causa a governabilidade do país e sem contribuir para o aprofundamento da crise que vivemos.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

Eleições de primeira ordem

Está na hora do Vieira ir embora.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Assino por baixo

A principal preocupação que me acompanha, agora como antes, é a da governabilidade. Portugal é um país pobre, com falta de qualificação das pessoas e das organizações, com um Estado fraco e insuficiente, em que a falta de sentido da responsabilidade é larvar - e não sairemos desse estado se cedermos por sistema a toda a colecção de egoísmos de grupo que continuam a ser a matriz básica da nossa vida colectiva. E há uma fatia grande do “povo de esquerda” que não compreende isso. E não será possível dar uma resposta política a essa situação se não se compreender o fenómeno de fragmentação da esquerda que levou ao estado lastimoso (por exemplo) da esquerda francesa. Aqueles que pensam que sairão vencedores desta situação varrendo os socialistas da cena - serão os arquitectos de uma paisagem política à francesa, com uma direita instalada e sem verdadeiro contraponto.
Porfírio Silva, no Outubro.

Andam a tomar-nos por parvos

esta notícia.

Do baú

A confrontação com os actores sectoriais tem sido uma forma eficaz para que aos olhos do “interesse comum” as mudanças sejam percepcionadas como legítimas. Mas não deixa de ser verdade que numa democracia ainda longe da institucionalização, esta estratégia produz danos colaterais. Portugal precisa de mais e não de menos factores de intermediação entre a sociedade e a esfera política e a valorização da negociação é uma das poucas formas conhecidas de tornar orgânica a representação da sociedade. Com uma crescente pulverização dos interesses organizados, a ancoragem política dos blocos sociais fica ainda mais frágil e a estabilidade do sistema partidário será, no médio prazo, afectada. Também aqui, o eleitorado tenderá a fugir e, no que é grave, quando o fizer, fá-lo-á sem rumo.
daqui.

O fim de qualquer coisa

Alguns factos: o PS teve o seu pior resultado de sempre em número de votos e em percentagem só melhor do que 1985 e 1987.
Ao contrário do que aconteceu quando o PS se aproximou dos seus mínimos, o PSD cresceu muito pouco (teve 28.77% com Santana e agora 31.6% com Ferreira Leite e Rangel).
BE e PCP juntos ultrapassam largamente os melhores resultados do PCP, em redor dos 18% em 1979 e 1983.
Ao mesmo tempo, votou mais gente do que nas últimas europeias.
Para já, ainda não sabemos se os eleitores expressaram, de modo racional, o seu protesto com poucos custos para a governabilidade (a propósito, a moção de censura de Portas e a afirmação de Rangel de que a legitimidade para governar está diminuída, devem ter sido as únicas coisas positivas para José Sócrates ontem à noite) e, quando estiver em causa, de facto, a governação do país, a tendência para a bipartidarização regressará ou se, pelo contrário, os três blocos (PSD+CDS; PS; e BE+PCP), que vivem de costas voltadas, são uma realidade que veio para ficar? Se a segunda hipótese for a verdadeira, temo que o que se inaugurou ontem não signifique o início de nada, mas represente apenas o fim de qualquer coisa.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Oh, Paris

O empate técnico

O João Pinto e Castro chamou a atenção aqui para mais um exemplo do falhanço da escola pública. O Pedro Magalhães espanta-se com os títulos das notícias. Mas na verdade, é sempre possível ir mais longe. O Público hoje anuncia uma profunda ruptura paradigmática nas eleições de Domingo: o empate técnico como resultado eleitoral ("as vantagens obtidas em relação ao PSD não são, no entanto, significativas e, tendo em conta as margens de erro, o empate técnico é um dos resultados mais previsíveis").

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Eu vi o futuro do rock'n'roll


dois putos a solarem no concerto dos Wilco (se a memória não me atraiçoa, durante o Spiders (kidsmoke))

His goal in life was to be an echo



não deixa de ser espantoso que quem escreveu isto tenha passado por isto (cheguei a este texto através do Luís Azevedo Rodrigues).(Já agora, mais uma prova de como os espanhóis são imbatíveis no inglês)

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Eu e a minha senhora

O dr. Cavaco – político profissional aí há uns trinta anos – continua a ter um problema quando está sob pressão (legítima ou ilegitimamente, pouco importa). Hoje, mais uma vez, se calhar porque Fernando Lima não estava por perto, para dar uma mão, não se saiu bem.
Neste história das acções da SLN não há, na verdade, nenhum problema em si. Há apenas (o que em política não é pouco) um problema de gestão do assunto. Bem pode o Dr. Cavaco indignar-se, mas não vejo porque razão a sua “seriedade” deva estar imune ao escrutínio político e mediático. Ele é um político, exactamente igual aos outros políticos, pelo que tem de responder às questões incómodas, pertinentes, mas também às questões estúpidas e impertinentes que os jornalistas (com demasiada frequência, é verdade) colocam. Ora hoje, após ter manifestamente omitido um facto aquando do comunicado sobre o BPN, não deu um bom contributo para encerrar o assunto.
Antes de mais, o tom de vítima: “Eu e a minha mulher, antes de eu estar nesta posição, quando éramos apenas professores, não tínhamos as nossas poupanças debaixo do colchão, nem tão pouco no estrangeiro”. Na verdade, haverá muitos professores que têm tido perdas com a bolsa nos últimos meses e que viram as suas poupanças "desaparecidas". Mas a SLN, ao contrário do que Cavaco sugere quando nomeia outras empresas das quais detém acções, não está cotada em bolsa, pelo que não estou a ver que fosse fácil a um casal qualquer de professores adquirir acções desta empresa, como poderia adquirir da EDP, SONAE ou Brisa. Além de que não vejo como seria possível a um gestor de conta adquirir acções de uma empresa não cotada, ainda mais sem envolver o detentor das poupanças nesse processo. Depois, neste caso concreto, Cavaco e a sua mulher não perderam dinheiro, fizeram uma mais valia, se não estou em erro, de 140%. Claro que o lote de acções era reduzido e não estamos a falar, nem de longe, nem de perto, de um accionista de referência. Ou seja, estamos, de facto, perante uma mão cheia de nada, pelo que custa a perceber porque razão Cavaco não matou o assunto à nascença, deixou-o crescer e, hoje, como se não bastasse, veio ainda introduzir mais ruído. Deve ser porque não é um político profissional. Apesar de andar há trinta anos a fazer política.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Um referendo nacional

Contudo, a partir de certa altura, o PS abandonou a sua linha inicial e passou ele próprio a querer fazer das europeias um referendo ao Governo e às oposições. Por estranho que possa parecer, a ideia aparenta não ter sido má. Se acreditarmos nos resultados das sondagens, pese embora a distância significativa face à maioria absoluta, esta mudança, consubstanciada na entrada de José Sócrates na campanha, coincide com uma recuperação das intenções de voto no PS. O que parece reflectir uma variável chave para o sucesso dos partidos de Governo neste tipo de eleições: a capacidade de mobilização do seu núcleo duro de eleitores.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A abstenção e a inveja


Ando muito preocupado com a abstenção. Oferecem-nos coisas e depois não conseguimos valorizá-las de modo adequado. Ontem os Wilco estiveram no Coliseu e o cenário era deprimente: 1/3 da sala ocupada, na visão benévola de quem ocupava um lugar da segunda fila. Que país é este que toma como adquiridos bens que são de facto frágeis? Depois, o concerto começou morno, até que os rapazes se foram soltando. A certa altura, já depois de umas dez músicas e talvez o dobro de trocas de guitarras (se somarmos as do Nels Cline às do Jeff Tweedy), o público juntou-se todo à frente, em pé como mandam estas coisas, e o que era morno tornou-se, subitamente, num dos melhores concertos de que me recordo. Dificilmente se encontra outra banda capaz de um som a um tempo tão poderoso e tão conseguido e com uma capacidade única de olhar para as raízes do folk rock norte-americano. Três guitarras que soavam na perfeição e que por vezes se transformavam em duas mais dois teclistas, mas sem que no virtuosismo se perdesse a intensidade. Tudo com um Jeff Tweedy bem disposto e com uma banda que manifestamente tem prazer a tocar. Pelo meio, quase não houve nada que ficasse por ouvir (pronto, não tocaram o Via Chicago, que aparentemente tocaram em Braga, mas em Lx tocaram o War on War, que não terão tocado na véspera). Mas, no fim, no meio de um longo encore (terão sido umas oito músicas?), e quando se ouviu uma versão do Hate it here a soar a Beatles por todos os lados e quando a faceta Neil Young veio mais ao de cima, chegou o momento da noite: dois miúdos, ela com uns oito anos, ele com seis, tiveram direito a solar na guitarra do Jeff Tweedy. Ali bem em frente ao palco e ao meu lado. A inveja é uma coisa muito feita. Mas foi o que eu senti. Ah, o Radio Cure e o Hummingbird tiveram versões assim como que superlativas.

E daqui a um ano?

A crer nos dados hoje divulgados, os portugueses mantém-se bastante pessimistas. Ainda assim, o pessimismo é significativamente maior quando questionados sobre como estará a economia daqui a um ano do que em relação ao seu próprio agregado familiar. Provavelmente não é uma percepção muito realista. A dimensão e a profundidade desta crise é tal que poucas famílias escaparão de modo directo ou indirecto ao seu impacto.
Contudo, estes dados entram em contradição com a tendência revelada pelo indicador de clima económico do INE, publicado na semana passada, que revela um interrupção do movimento descendente que se verificava há um ano e que tinha atingido um pico no mês de Abril. Tanto mais que esta inversão foi acompanhada por uma variação positiva dos indicadores de confiança em todo os sectores económicos.
Mas, provavelmente, o aspecto mais paradoxal destes resultados é o seu cruzamento com as intenções de voto apuradas na mesma sondagem. Perante uma crise desta dimensão o que se esperaria seria, por um lado, uma reprovação do partido que está no Governo e, por outro, uma desafectação geral face aos partidos políticos, na medida que se têm revelado incapazes de contrariar a depressão económica e social. Curiosamente, nenhuma destas tendências se está a verificar, o que sugere que os portugueses continuam a ver no executivo e nos partidos do sistema capacidade para responder à crise. Resta saber até quando resiste essa avaliação positiva.
Se daqui a um ano a resposta à mesma pergunta continuar a mostrar indicadores tão negativos, o problema continuará a ser económico e social, mas assumirá contornos políticos com os quais será difícil de lidar.
texto publicado no Diário Económico como comentário a estes resultados da sondagem da Marktest.

Da justiça terrena


Boy chosen by Dalai Lama turns back on Buddhist order. Afinal há esperança nas coisas da Terra.

Guitar Hero


os factos (a partir do minuto 2.45)

Guitar Hero


Nels Cline

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Da grandeza do glorioso


O Benfica é tão grande, tão grande que até tem uma dinamarquesa fanática pelo clube.

Somos todos da América profunda



Seja lá o que isso for, quem usa casaquinhos destes deve ter andado por lá muito tempo. Não sei se já repararam, mas os Wilco tocam Domingo no Coliseu e se o disco novo é muito bom, ao vivo é que esta rapaziada de facto se revela. Reparem no solo de fazer inveja ao Neil Young (ou será ao Slash?) neste one wing que tem uma versão de estúdio bem mais contida.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Jesus suspende acções do Benfica

Claramente o maior clube deste mundo e do outro.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

A minha estação preferida



"Mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar / caminha para o mar pelo Verão"
Ruy Belo

Agora que é Inverno, recupero a memória fotográfica do último dia de férias de Verão. Uma memória que se repete: todos os anos, no dia em que volto as costas às férias, após subir a duna íngreme que me afasta do mar, olho fixamente para trás, como se aquele fosse o derradeiro dia de praia.
Na verdade, regresso muitas vezes àquela mesma praia, mas de facto só um ano depois, quando volta o Verão, é que ela me é devolvida. Só então volto a tomar a praia como minha, reacendendo-se inesperadamente, como num turbilhão, um sopro de felicidade absoluta. É paradoxal que assim seja. É agora no Inverno que as ondas nos chegam mais espaçadas, movendo mais água e com menos vento. É agora o tempo do mar dos surfistas.
“É triste no Outono concluir/ que era o Verão a única estação”, escreveu Ruy Belo em ‘A Mão no Arado’, um dos seus mais espantosos poemas. Naturalmente que o Verão sobre o qual escrevia não era o dos surfistas em dias de ondas quentes. Mas ainda assim, no dilema entre Verão e as outras estações, há invariavelmente alguma coisa que, para quem olha o mar com os nossos olhos, remete para o surf.
O surf dos verdadeiros surfistas é o de Inverno, habituamo-nos a ouvir dizer. É aí que se separam as águas: entre os fortuitos e os que enfrentam as manhãs frias e as ondas com consequências. Eu, pelo contrário, preciso de chegar ao Inverno para sentir saudades do “suave tempo” que tantas vezes desdigo enquanto o vivo. É agora Inverno e olho com um contentamento redobrado para o que ficou para trás: já não tenho presentes os dias e dias de flat em Agosto, ou as sucessivas nortadas que nos atormentam, e satisfaço-me com a recordação de duas ou três ondas quentes e perfeitas. Hoje tenho o Inverno e a certeza de um mar melhor. Mas, tenho também o Verão como única estação. O “Verão sem limites” onde num breve momento podemos encontrar a onda que fixamos na memória. Ainda que fugazmente, só no Verão podemos ambicionar um mundo perfeito para o qual convergem as ondas, o calor na água e a areia soalheira, pronta a retemperar as nossas forças e, acima de tudo, a ausência de sombras.
É por isso que olho para trás no fim de Agosto quando deixo as férias e a praia. Eu sei que vou regressar umas semanas depois àquele mesmo lugar. Mas quando volto, nem me atrevo a olhar com os mesmos olhos. Falta-me o torpor do vento tépido, mas, acima, de tudo, a ausência de sombras que confere uma cor única. Com o sol a pique, não há imagens projectadas e vemos tudo com uma lucidez que não se volta a repetir ao longo do ano.
Se olho uma última vez para a praia, é porque sei que vislumbro ali um tempo parado, batido pelo sol. É um fugaz momento, mas que trago no regresso à cidade. Depois, basta-me fechar os olhos e ficar com a certeza que na memória tenho tudo. O calor, o vento e um mundo de ondas perfeitas. Muitas delas imaginadas.
Estou convencido que a nostalgia de um lugar é mais rica se conservada como nostalgia, como se a sua recuperação significasse a morte da ideia que fazemos desse mesmo lugar. Agora que se passam semanas sem ver mar, vai-me bastando esse pulsar sereno que guardo do dia em que virei as costas ao Verão. Eu, por mim, estou convencido da superioridade daquele último olhar furtivo.

Publicado na coluna Sal na Terra da Surf Portugal.

terça-feira, 26 de maio de 2009

O espelho do BPN

Seis meses passados, é evidente que os trabalhos da comissão se têm centrado na gestão do BPN e têm servido para revelar que a realidade do funcionamento do banco ultrapassava as mais delirantes suposições. Contabilidade paralela, balcões virtuais, ilegalidade puras, negócios ruinosos, desconhecimento pelos accionistas do que era feito na gestão, temos ouvido descrições de tudo. Essencialmente, tem sido espantosa a candura com que alguns dos depoentes descrevem o seu papel em todo o processo. Sobre muitos dos que têm ido depor, fica, até agora, uma dúvida: ou estamos perante campeões da ingenuidade ou vigaristas encartados. Ao contrário do que eu esperava, se bem que se tenha desviado do que era o seu propósito inicial, a comissão de inquérito tem sido muito útil na revelação do caos que imperava no BPN. No entanto, o sucesso da comissão de inquérito ao BPN, apesar de exemplar das virtudes do parlamentarismo, não é motivo para satisfação. Pelo contrário, ele revela, uma vez mais, o falhanço do sistema de Justiça em Portugal.

A menos que algo de surpreendente se esteja a passar na discrição da investigação (algo improvável tendo em conta o tratamento de que é alvo o segredo de justiça entre nós), há sinais de que, em seis meses, se progrediu mais numa comissão de inquérito do que no processo que decorre na Justiça. Agora, o mínimo que se pode esperar é que a Justiça seja capaz de aproveitar o trabalho parlamentar e produzir prova a partir dos factos relatados na comissão.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Os covers como indicadores


"you cannot tell a book by its cover, but you can tell a band by its covers."
Nic Ratner, a propósito da vida pós-Birthday Party de Nick Cave se ter iniciado com um cover de Avalanche, de L. Cohen. Mas o melhor mesmo é aproveitar o facto do "documentário" lançado com a edição remasterizada dos álbuns iniciais dos Bad Seeds estar hoje e amanhã disponível aqui. O melhor que podem fazer é ouvir tudo.
entretanto, a parte 2 já pode ser vista aqui.

Liderança ou caos

"o que mais tem descredibilizado a Justiça é o comportamento de alguns dos agentes da investigação criminal, que se mostram incapazes de impedir a prática diária do crime de violação do segredo de justiça, revelam cumplicidades vergonhosas com os media em julgamentos sumários nos meios de comunicação social, discutem permanentemente na praça pública as leis a que deviam obedecer e agem na mais absoluta irresponsabilidade. O sindicato do MP comporta-se como dono da Instituição e não mero representante sindical dos seus membros.
A única forma de pôr termo a este descalabro é conferir ao Procurador-Geral - única entidade com legitimidade democrática dentro do MP - a responsabilidade e o poder de pôr ordem na casa e garantir o seu bom funcionamento."
Daniel Proença de Carvalho no Semanário Económico.

sábado, 23 de maio de 2009

Quique fica

Quique falhou este ano. Falhou nas hesitações constantes quanto às posições de vários jogadores, na incapacidade de encontrar uma forma de conciliar Suazo e Cardoso, nas sugestões para contratações (Balboa foi uma invenção sua), mas, acima de tudo, na definição de um modelo táctico que apostava na contenção, num meio-campo consistente, mas pouco ou nada dinâmico, e que parecia pensado para o contra-ataque. Não por acaso, o Benfica não perdeu com o Porto, ganhou duas vezes ao Sporting e outras duas ao Braga. O problema foram mesmo os jogos com as equipas do fundo da tabela. Não é possível ter uma boa classificação com o Benfica e perder sete pontos com os dois últimos classificados. O afastamento de Diamantino e Chalana não foi certamente um bom contributo para ajudar o espanhol a conhecer melhor as equipas portuguesas e a perceber que o contra-ataque não serve para o Benfica para além de dois ou três jogos por temporada. Mas, este ano, como nos anteriores, o treinador foi o menor dos problemas do Benfica. Com uma gestão desportiva adequada, o mais provável era que Quique Flores tivesse tido outra sorte. A sorte que teve, por exemplo, Trap.
Mas como no Benfica é difícil aprender, está em curso uma tentativa de repetir os erros no passado. Criar a ilusão de que se resolve tudo com uma substituição de treinador. Quando o que era preciso era estabilidade no plantel (contrariando a sangria anual, que, no defeso, leva todos os anos os dois melhores da época anterior) e na equipa técnica, o Benfica vai substituir Quique, tudo aponta, pelo "mestre da táctica" Jorge Jesus.
Deixemos de lado a fama que acompanha Jesus no submundo das contratações ou a relação muito peculiar que o técnico bracarense tem com a expressão oral em português (o que convenhamos não é uma qualidade irrelevante para quem treina o Benfica), basta recordarmos o seu curriculum (do Felgueiras ao Moreirense, passando pelo Setúbal). Nem é preciso olhar muito para trás, veja-se o que se passou com o Braga esta temporada. Com um plantel que, no mínimo, compete com o do Sporting, o Braga prepara-se para ficar atrás do Nacional da Madeira e, durante grande parte da temporada, os arsenalistas perderam sistematicamente pontos com equipas com muito menos condições. Enquanto uma nova temporada de Quique seria um sinal de que o Benfica, por uma vez, valorizava a estabilidade e a capacidade de aprender com os erros, com Jesus, volta a aposta numa incógnita, que tem tudo para correr mal, e será certamente acompanhada de duas mãos cheias de contratações, feitas ao gosto do novo treinador. A coisa é de tal modo, que já se fala de um regresso do marcante Tixier ao futebol português para acompanhar Jesus.
Na verdade, talvez seja altura do Benfica, em lugar de mudar de treinador, mudar de Presidente. Até porque há um candidato natural ao lugar: Rui Costa que poderia ser bem acompanhado por José Veiga.

How do you feel today?



H.P. Lovecraft

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O vigilante do amor



O Sam Beam, escondido nos Iron & Wine, anda por aí há uns tempos a cantar baixinho mas com uma força que pode levar à conversão. Agora, tem um disco que arruma as versões e os out-takes. Não ouvi. Mas, pela amostra, não foram muitas as vezes em que os New Order soaram assim.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

It’s very natural to me to be agressive with the guitar



"It’s very natural to me to be agressive with the guitar, violent with the guitar. I’m such a big fan of guitar that is really disgusting, gnarly. No other word for it, just gnarly."
St. Vincent

O João Lisboa tem estado envolvido num campeonato de escolha de fotos da St. Vincent. Não é por nada, pese embora alguns exemplares competitivos, este blog leva vantagem (apenas porque encontrou isto).
(ah, esta frase que impõe todo o respeito do mundo, foi tirada deste video que, por sua vez, tirei das provas de contacto).

Se Portugal fosse um país a sério

A polémica a propósito do “apagão” no IEFP ameaça tornar-se num ‘case study’ do estado delirante a que chegou a disputa política em Portugal. Uma visão mais benévola poderá justificar toda esta discussão com o aproximar de três actos eleitorais, que encontraram na subida do desemprego um contexto adequado. Não me parece razão suficiente. As razões são outras e o episódio serve para demonstrar que a política portuguesa deixou de ser discutida assentando em critérios mínimos de racionalidade.
Tudo terá começado com uma notícia no DN. O que se escrevia era que teria havido um corte de 15 mil desempregados nos ficheiros do IEFP. Depois, e se bem me recordo, no corpo da mesma notícia, acrescentava-se que esse corte resultava de um erro de cruzamento entre os registos de contribuições para a segurança social (que se reportavam a Fevereiro de 2008) e o desemprego registado (que se reportava a Fevereiro de 2009). Ou seja, um cruzamento positivo, que não tem muitos anos e permite que alguém que está a trabalhar e não comunique ao IEFP, deixe de contar como desempregado, teria sido feito indevidamente. Acontece que, e pasme-se, esse erro foi detectado e os dados do desemprego registado foram corrigidos antes da sua publicação. Ou seja, a notícia é que houve um erro e ele foi corrigido internamente, antes de os dados serem públicos.
Eu sei que era preciso fazer um esforço de leitura, mas ler é uma coisa que dá trabalho e como o desemprego está a crescer, o melhor é não deixar que a verdade dos factos estrague uma boa história. A boa história é comentar uma notícia inicial sem demonstrar qualquer preocupação em lê-la e percebê-la. Depois, como o delírio não tem paragem, os partidos rapidamente se apressaram a pedir auditorias externas (certamente para tentar perceber como é que uma instituição pública consegue detectar internamente um erro antes que ele fosse público) e pedidos de demissão do presidente do IEFP (aliás, gostava de saber se o pedido feito pelo PSD é subscrito pela Drª Ferreira Leite ou se foi um entusiasmo parlamentar).
De facto, se Portugal fosse um país a sério.

O contributo da bipolarização

A diferença entre as intenções de voto no BE nas sondagens e o resultado das últimas legislativas é, hoje, suficiente para impedir o PS de repetir a maioria absoluta. Contudo, bastaria que aqueles que votaram no PS e que agora se mostram inclinados a votar BE, repetissem o voto, para que o PS voltasse a ter uma maioria absoluta. O objectivo não é tão difícil de concretizar como parece.
Antes de mais, porque o eleitorado do BE é o menos consolidado de todos os partidos. Não apenas porque tradicionalmente os potenciais eleitores bloquistas revelam grande propensão para a abstenção, mas, também, porque são eleitores que nunca votaram BE.
Este facto, aliás, serve para consolidar um paradoxo. Enquanto entre a direcção do PS e do BE há, relativamente a políticas centrais, diferenças inegociáveis, as diferenças de posicionamento político entre os eleitores flutuantes dos dois partidos são bem menores.
Face a este cenário, o BE escolheu o Governo como principal (e único) adversário político e o PS tem apontado artilharia pesada ao BE. O problema é que este jogo de ataques mútuos tem tido como consequência empurrar para o BE os eleitores oscilantes entre os dois partidos.
Mas, por si só, a aproximação das eleições contraria qualquer estratégia política. O inevitável crescimento do PSD – feito no essencial à custa da descida do CDS – traz de novo uma questão que pairará como um espectro sobre os eleitores de esquerda: preferem um Governo de Ferreira Leite ou um novo Governo de Sócrates? Como o BE não tem resposta para esta questão e mostra-se indisponível para fazer parte da solução de governabilidade após as legislativas, é natural que muitos dos que hoje manifestam o seu protesto através do BE, se mostrem de novo disponíveis para votar, de modo útil, a favor da governabilidade à esquerda.

comentário à relação entre PS e BE quando se aproximam as eleições, publicado hoje no Diário Económico.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Sair, ficando

É preciso que os portugueses, e nomeadamente os que votaram PS mas que agora se sentem menos ou nada inclinados para voltar a fazê-lo, por um lado, sintam que o regresso do PSD ao poder é um mal maior do que um novo Governo PS e, por outro, que os socialistas se revelem capazes de apresentar um programa de resposta à crise económica e social, para além das soluções de emergência que têm dominado a agenda. Manuel Alegre, simpatizemos ou não com o seu percurso político e com as suas opções recentes, pode ser determinante para o PS concretizar este duplo objectivo. O que só serve para provar que, por vezes, estar fora acaba mesmo por ser a melhor forma de ter mais peso interno.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Não te salves

Não fiques imóvel
À beira do caminho
Não congeles o júbilo
Não ames com desprendimento
Não te salves nem agora
Nem nunca
Não te salves

Não te enchas de calma
Não reserves do mundo
Apenas um canto tranquilo
Não deixes cair as pálpebras
pesadas como julgamentos
não fiques sem lábios
não adormeças sem sono
não te penses sem sangue
não te julgues sem tempo

Mas se
Ainda assim
Não o puderes evitar
E congelas o júbilo
E amas com desprendimento
E te salvas agora
E te enches de calma
E reservas do mundo
Apenas um canto tranquilo
E deixas cair as pálpebras
Pesadas como julgamentos
E ficas sem lábios
E adormeces sem sono
E te pensas sem sangue
E te julgas sem tempo
E ficas imóvel
À beira do caminho
E te salvas
Então
Não fiques comigo.

Morreu Mario Benedetti

Cavaco da Capadócia

O Presidente da República não se dá bem com saídas do Palácio de Belém, para além do território continental. A gestão dos microfones passa a ser menos apertada e, é sabido, Cavaco nunca foi dado ao humorismo e ainda menos a liberdades com a imprensa. Esta viagem à Turquia vai entrar para o podium dos "tesourinhos deprimentes": dos turcos que, convém lembrar, não são árabes, aos números do PIB no bolso do casaco, passando por não ser "just" falar do eurojust, culminando na confissão que a mulher tinha há muito o sonho de visitar a Capadócia e, já se sabe, as viagens fazem-se para concretizarmos os sonhos das nossas senhoras (que assim também podem ir fazer compras para os netinhos). Como bem escreve Ferreira Fernandes, imaginemos que tinha sido o primeiro-ministro a dizer ""Vim à Capadócia porque era há muito um sonho da minha namorada vir à Capadócia." A esta hora, grassava por aí uma grande indignação por os telejornais não continuarem a abrir com o tema e os índices de situacionismo batiam todos os recordes. Mas, claro, Cavaco não é um político, é qualquer coisa de intermédio.

Geni e o Zepelim

A Segurança Social vai sair desta crise com um elevadíssimo défice, que pode ser ainda mais expressivo caso sejam aprovadas as medidas aventureiras que alguns reclamam. Curiosamente, os mesmos que dentro de alguns anos voltarão à carga com o discurso da insustentabilidade do sistema e a defesa da sua privatização. É como na canção "Geni e o Zepelim, de Chico Buarque: a Geni, a quem todos queriam "jogar pedra", torna-se, nos momentos de aflição, naquela que "nos pode salvar". Mas no fundo ela "é feita para apanhar".
Manuel Esteve no Diário Económico.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Yes, week-end



E que tal isto? com o público na mão e o Marcelo Camelo entre o público.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Um camelo numa varanda



Uma das coisas boas da idade adulta é poder-se comprar bilhetes decentes para concertos. Daqui a um par de semanas, o tipo na segunda fila que se vê neste video vou ser eu. Entretanto, enquanto vou vendo o DVD do Ashes of American Flags (ainda não houve ninguém que fizesse o obséquio de democratizar a coisa no youtube), os próprios Wilco têm para audição integral o novo álbum (que tem o magnífico nome de Wilco) no site da banda. A propósito, o álbum vem acompanhado de uma grande capa e não desilude. Aliás, o dueto com a senhora Feist é como se esperava.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Este ano


(ou o Cavaco que se cuide)

Já desistiu

O que a declaração de Ferreira Leite esconde é que o PSD incorporou a ideia de que não pode vencer e desistiu de lutar pela maioria absoluta. O problema é que essa desistência diminui a propensão para a bipolarização e, logo, as condições de governabilidade futuras do país. A percepção de que o PSD não pode ganhar tem ajudado à dispersão de voto à esquerda e à criação de um terceiro bloco, com cerca de 20% das intenções de voto, mas que se exclui de qualquer solução de governabilidade. Se o PSD não compete, de facto, pela vitória com o PS, os custos de votar à esquerda como forma de protesto são aparentemente baixos.Tendo em conta que o país vai precisar de um Governo que dure uma legislatura e que PS e PSD estão relativamente próximos em questões centrais, o melhor cenário é um Governo de maioria absoluta do PS ou do PSD, até porque a alternativa é uma pulverização eleitoral, que só produzirá instabilidade política. Que Ferreira Leite já tenha desistido deste objectivo é, por isso, incompreensível para o PSD e prejudicial para o país.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Este gajo levava o meu voto



O Pete Seeger fez noventa anos e ainda há uns meses o vimos a cantar ao frio, na tomada de posse de Obama, acompanhado pelo Springsteen. Há uma semana, no Madison Square Garden, em vez dos Knicks, jogou uma rapaziada para o homenagear. Não se encontram as músicas com um mínimo de qualidade (pensando bem, talvez valha a pena ver este video), mas esta discursata do Boss é do caraças e vale a pena, independentemente das músicas. Ainda a propósito da versão integral do 'this land is your land', cantada na tomada de posse: "that’s what Pete’s done is all life. He sings all the verses all time. Especially the ones we would like to leave out of our history as a people."
(e claro, esqueçam a pivot)

É reconfortante ler isto

"(...) To be sure, all Presidents want to be seen as political centrists. They dare not proclaim themselves "Right" or "Left," or even "conservative" or "liberal," on an ideological spectrum that’s become ever more highly polarized. It is politically safer – yes, even pragmatic – to describe one’s values as "commonsensical" or "middle of the road." But even this description minimizes and distorts a president’s capacity for leadership. A true leader does not take the public to where the public happens to be, because the public is already there. A leader takes the public to where the public should be, according to that leader’s view of the society’s highest ideals – ideals that the public shares but which have not yet been realized.

Obama did this several times during the presidential campaign, most notably in his courageous speech on race. He took America to a higher place by explaining what we all knew and felt but giving it a larger and nobler frame. He educated us in the best sense of the word. Doing so may have been politically pragmatic but his goal was not solely to get elected. Nor was it simply to demonstrate to us the leadership of which he is capable, although the speech did that. His goal was also to make us more aware about how race is used divisively. In doing so he drew on what in retrospect seem "commonsensical" positions and "middle of the road" values. But that’s not how the speech struck most of us then. We were transformed by the power of his thinking and the values that underlay it – values that we share but had not thought through.

President Obama can afford to do the same with regard to the overriding issue of widening inequality in American society. He can connect the dots for us, allowing us to understand why inequality is widening without deriding the rich or castigating the fortunate. Doing so would allow us to understand what he is seeking to do and why, and empower us to seek and do the same."

Robert Reich

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Há, de facto, muita tolerância com o PC

Um amigo chamou-me a atenção para as declarações de hoje no parlamento do deputado comunista Bernardino Soares, onde este qualificou as palavras do deputado socialista Mota Andrade como estando “ao nível das de um destacado militante do PS, [que,] na pele de comentador, até se atreveu a dizer que tem havido demasiada tolerância com o PCP na sociedade portuguesa”. Tendo depois acrescentado que “se vivêssemos no tempo do fascismo, eram uma boa carta de recomendação para integrar os quadros da PIDE”. As citações são da Lusa e tomo-as por verdadeiras.
O comentador sou eu e de facto na sexta-feira na RTP-N disse que há muita tolerância na sociedade portuguesa com o PC. A frase foi dita perante a a recusa que o PC demonstrou ao longo do dia em se distanciar dos agitadores (que se combinou com as twittadas do deputado Miguel Tiago, que, entre outras pérolas, escreveu que “Vital Moreira é que agride os trabalhadores portugueses há muito tempo!” (sic)). Em momento algum esteve em causa outra responsabilidade do PC que não a de, ao contrário dos outros partidos, não ter criticado o que aconteceu. Mas se fossem necessárias mais provas da tolerância que se tem com o PC, aí estão as declarações de Bernardino Soares hoje.
Vamos ver se nos entendemos: as democracias pluralistas assentam num chão comum, que tem necessariamente de ser partilhado por todos. O problema do PC é mesmo esse: divide-se entre a hesitação na defesa e a secundarização de princípios basilares da democracia, à cabeça o pluralismo, o respeito pelos direitos humanos e pela liberdade de expressão. Basta ter lido as teses ao último congresso onde o PCP defendia o “papel de resistência à “nova ordem” imperialista” dos países que definem como “orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista – Cuba, China, Vietname, Laos e R.D.P. da Coreia” e onde revelava uma nostalgia despudorada da U.R.S.S – “a contribuição da URSS e, posteriormente, do campo dos países socialistas, para os grandes avanços de civilização verificados no século XX foi gigantesca” para se perceber a consideração que o PC tem por esse chão comum. Sobre votos de fé na democracia, estamos, por isso, conversados. Façamos um paralelismo com o que aconteceria se um qualquer partido de direita português se lembrasse de tecer um elogio equivalente a qualquer regime autoritário. Suspeito que ninguém, e a meu ver bem, toleraria. Pois ao PC tudo é permitido, desde logo a escalada de crescente ortodoxia em que se tem embrenhado e que é tomada como uma idiossincrasia nacional, meio patusca. De facto, é preciso ter muita tolerância com os intolerantes.
Há uma fonte de legitimação democrática à qual o PC recorre sempre que se vê em apuros – o anti-fascismo e a corajosa resistência de muitos comunistas ao regime de Salazar. 35 anos depois, aí reside o capital democrático dos comunistas portugueses. É isso, aliás, que permite, por exemplo, que o PC se ache dono e senhor do 25 de Abril e do 1º de Maio, momentos em que outros democratas são autorizados a juntarem-se aos comunistas. Nada disto é novidade, mas é uma tendência que se tem acentuado nos últimos tempos. Nem sequer é preciso voltar ao “caso Vital Moreira”. Basta recordar como José Neves – a quem todos os que em Portugal defendem uma sociedade pluralista devem de facto muito – foi também apupado este ano nas comemorações do 25 de Abril.
Bernardino Soares, que há uns tempos tinha “dúvidas que a Coreia do Norte não fosse uma democracia”, resolveu hoje dizer que as minhas declarações “eram uma boa carta de recomendação para integrar os quadros da PIDE”. De facto, há muita tolerância com o PC, desde logo, porque a afirmação é de tal modo insultuosa que só é tolerável porque vivemos numa democracia, onde temos de tolerar principalmente os intolerantes.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Até tu, Stringer Bell


"They're so removed from what I do and at the same time they're very protective of me, because I'm their only child. I tell them that Obsessed is breaking box-office records and that I'm going to be interviewed on the Paul O'Grady Show, and my mum says, 'Oh, that's good. Did you eat today?' I need that stuff more than ever" ·
Idris Elba, mais conhecido como Stringer Bell, no Guardian.

E que tal arranjarem um argumento?

João Cravinho tem inteira razão na indignação quanto ao que foi aprovado no Parlamento a semana passada. Sobre isso, escrevi o que penso aqui. Mas não me deixa de espantar que, quase uma semana passada, ainda não se tenha conseguido ver ou ouvir um único argumento a explicar a razão da alteração do tecto para as contribuições em dinheiro vivo. Foi alterado e pronto. E não esqueçamos, os partidos andam todos muito preocupados com a abstenção, com a corrupção. Nota-se.

terça-feira, 5 de maio de 2009

O Pai Natal dos partidos

a semana passada, os deputados reuniram-se para, de surpresa e após todas as audições públicas, darem um passo ao arrepio do que havia sido feito nos últimos anos: aprovaram um aumento em mais de um milhão de euros do limite das entradas em dinheiro vivo nas contas dos partidos, sem necessidade de prestar contas. Ou seja, o que era um limite razoável para acomodar algumas contribuições de militantes e angariações de fundos pagas em numerário, subiu de um tecto de 22 mil euros para mais de 1 milhão de euros. Ao mesmo tempo que a subvenção pública se manteve inalterada, tendo inclusivamente sido aprovada uma derrogação da indexação ao IAS. Mais, ficámos a saber que os orçamentos para campanhas eleitorais vão também subir. O que os deputados todos, com uma excepção, nos quiseram dizer, em memória do mártir, doador anónimo do CDS/PP, é claro: "que mil Jacintos Capelo Rego floresçam". Doravante, os partidos voltam a poder ficcionar uma angariação de fundos como forma de dividir montantes não enquadráveis pela lei. Que a necessidade de regularizar as contas da Festa do Avante! - esse momento em que um número de beneméritos da área metropolitana de Lisboa se junta para celebrar a Revolução de Outubro fazendo oferendas em dinheiro vivo - seja invocada é, aliás, do domínio do anedotário nacional.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

O maravilhoso mundo da PT

De repente, e já não é a primeira nem a segunda vez, fico sem o meu serviço ‘triple-play’ (nada como nomes em estrangeiro). Ao longo de mais de 24 horas, ligo para o número de telefone que está num cartão que, de modo prestável, um técnico da MEO deixou numa das passagens por minha casa. Ligo e do 808 mandam-me ligar para o 707; depois de premir várias teclas, chego finalmente à fala com alguém. Como sempre, em lugar de me darem respostas, fazem-me perguntas. Pergunto se estou a pagar a chamada, dizem-me que sim. Ou seja, pago um balúrdio todos os meses pelo serviço, fico sem telefone fixo para comunicar uma avaria pela qual não sou responsável e, no fim, ainda tenho de pagar uma chamada de telemóvel para o número de “apoio” ao “cliente”. Se estas chamadas já são invariavelmente longas, que dizer da tentativa de apresentar uma queixa. Há uns tempos, mudei da Netcabo para a MEO por estas e por outras. Agora, a pergunta que faço é: mudar para quê?
(umas tentativas depois, nem sequer há “atendimento” ao “cliente”. Desligaram. No fim do ano, já se sabe, os gestores da PT devem receber uns prémios de produtividade. Não é certamente pelo serviço que prestam. Entretanto, telefonou-me o Jacques, dizendo que já sabia que eu estava com um “probleminha” (sic). Diz que aparece daqui a umas horas).

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Movimento apaguem a memória

Aparentemente, e a crer nas imagens da RTP, um dos ânimos mais exaltados no passado 1º de Maio é um militante do BE, candidato pelo partido nas legislativas de 2005. Surpreendentemente, hoje, o link que remetia para uma página da campanha do BE de Coimbra e onde aparecia uma foto que identificava o camarada agitador, que surgia ao lado de, entre outros, Boaventura de Sousa Santos, passou a estar indisponível.
(mais desenvolvimentos aqui.)

Um curriculum apresentável


conversas do gmail:
me: não viste o Barça? não sei o que é que vais contar aos teus filhos.
manel: 6-3, 4-4, 2-1 (parma e juve), 1-0 marselha, 7-0 Honved, 0-6 hamrum spartans (poker do yuran), 3-1 cska sofia golaço do schawrtz, 5-2 final da taça contra o boavista, 3-2 bessa sousa à baliza e o golo do luisao ao ricardo.

Séries da minha vida


A Charlotte envolveu-me numa corrente (acho que nunca tinha sido envolvido numa destas coisas) para escolher as quinze séries que deram consistência (bolas!) à minha vida. Acho que quinze é um número excessivo. Aqui vão algumas.
Primeiro, as dos anos de formação: a Galáctica, a Balada de Hill Street e os Três Duques. Depois, a única que segui sem interrupções, bem antes das caixas integrais: Twin Peaks (que podia também chamar-se, com propriedade, E Deus criou a mulher). Pelo meio, o Reviver o Passado em Brideshead, que vi parcialmente talvez na segunda emissão na RTP e depois integralmente em 1994, na primeira caixa que tive com uma série, em VHS, e já depois de devidamente inspirado pelo Evelyn Waugh (salvo seja). Nos últimos tempos, quatro séries que entram directamente para o top-10. O Roma do John Millius que, ainda não sei como, conseguiu não introduzir nenhuma metáfora sobre surf na série; o Deadwood, que bate todas as outras pelo realismo e pelos actores (estou há dois anos para arranjar a última temporada com legendas); o West Wing (a mais entusiasmante de todas as que vi, o que não deve abonar muito a meu favor); e ainda o The Wire, talvez a melhor de todas na construção das personagens e que imagino seja uma abordagem realista de uma realidade que, na verdade, desconheço se existe de facto assim.
Para que isto não morra aqui, passo a corrente ao Tiago Tibúrcio, ao Pedro Marques Lopes, ao Miguel Marujo, ao Lourenço Cordeiro e ao Pedro Arruda.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Working class hero


Isto passou-se anteontem em Philadelphia e tenho a certeza que o Joe Strummer deve ter ficado contente.

Assim se vê a força do PC

São 18.15 e, até agora, as únicas declarações de repúdio que se conseguem encontrar a propósito dos incidentes com Vital Moreira vindas de um dirigente da CGTP, foram as de Carlos Trindade, que é militante do PS. Já Carvalho da Silva, sempre tão prolixo, deve estar neste momento a convencer os camaradas do comité central de que é mesmo melhor dizer qualquer coisa. Ainda não é o momento de passar para formas mais avançadas de luta.
(esperem lá, acabo de descobrir pelo Paulo que o camarada Jerónimo afinal já falou, para dizer: "Não assisti aos factos, não tenho informações suficientes". E que dizer das palavras da jovem guarda?. Carvalho da Silva entretanto já tem informações: quem reagiu assim foram trabalhadores desempregados ou em desespero. Pelos vistos não foi autorizado a pedir desculpas.)

A vida corre inteira pelas nossas mãos


Hoje à noite, no Santiago Alquimista, directamente do Jardim da Estrela, Os Golpes apresentam o seu disco de estreia. Foi preciso esperar uns quanto anos para que voltasse a valer a pena ouvir rock em português. Como escreve o Samuel Múria, "o fervilhar do rock português de tempos idos está lá todo. Mas desenganem-se os profetas da desgraça, do terrorismo-revivalismo, do rebanho de antanho: Os Golpes não são do passado. A grande ironia geográfica deste país hipnotiza-nos com a sua cauda. Os Golpes estão noutra ponta: a garraiar os cornos do porvir."

quinta-feira, 30 de abril de 2009

A festa do Avante e o Pai Natal

Quando devíamos estar a caminhar para o financiamento exclusivamente público e das quotas dos militantes, para a economia nos gastos de campanhas e para a fiscalização e consolidação das contas partidárias, o Parlamento deu hoje, numa pouco habitual unanimidade (com a notável excepção do António José Seguro), um passo no sentido contrário: abriu a porta para que todos os partidos possam, à vontade, encontrar os seus Jacintos Capelo Rego. Ficcionar angariações de fundos e depois introduzir, em suaves fracções, o dinheiro através dessas portas. Ah, claro, tudo isto foi feito para regularizar as contas da Festa do Avante. Exacto, esse momento em que um número de cidadãos, imbuídos de um espirito natalício, oferece generosas quantias ao PCP. Eu também acredito no Pai Natal.

Um País

Conheço a história suficientemente bem para saber que este episódio é só parte da farsa em que se transformou a tragédia. Agora foi a vez do tribunal da relação dar razão ao ex-aluno da Casa Pia acusado por Jaime Gama de difamação. O motivo é simples: os juízes consideram que seria um «absurdo» tentar impor ao jovem que provasse a veracidade das afirmações, algo que «a investigação penal não conseguiu». Imagino que isto seja considerado "liberdade de expressão". A liberdade de caluniar.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

"if you dance, you'll understand the music better"

terça-feira, 28 de abril de 2009

Há trinta anos a levar a novilíngua ao mundo (hoje, é a vez de Lisboa)


Gadji beri bimba clandridi
Lauli lonni cadori gadjam
A bim beri glassala glandride
E glassala tuffm I zimbra




(ainda sobre o reencontro)

Uma revolução tranquila

Numa sociedade com défices de qualificação assentes num pesado lastro geracional, a generalização da escolaridade só é exequível se assentar em importante medida nas vias profissionalizantes. Ora também neste aspecto Portugal tem um défice crónico: enquanto, entre nós, a percentagem de alunos do secundário que, em 2001, frequentava as vias vocacionais se situava em redor dos 23%, na média da OCDE essa mesma percentagem era de 47,5% e na média da UE, de 60%. É por isso que a aposta nas vias profissionalizantes enquanto instrumento central para a promoção da qualificação foi não só o mais importante dos passos prévios que torna hoje possível o alargamento da escolaridade obrigatória, como tem sido uma autêntica revolução tranquila, um processo reformista silencioso, mas que vai à raiz dos nossos défices estruturais.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O jornalista e o polícia

No "Visto da Economia", Helena Garrido escreve que "ser jornalista não é ser polícia nem juiz exactamente porque a aproximação aos factos jornalísticos - ou verdade jornalística - é muito diferente da aproximação à verdade da investigação policial e do julgamento. Mas tal como a polícia e o juiz, também nós jornalistas temos regras. E uma delas é a validação da informação que transmitimos confrontando fontes independentes e informação adicional que nos dê garantias de que a informação que estamos a transmitir é o mais próxima possível da verdade jornalística - não policial nem jurídica." Eu não poderia estar mais de acordo - também, com tudo o resto que está escrito no post -, mas o que me preocupa é que isto precise de ser escrito e defendido por uma jornalista, não sendo tratado como o que de facto deveria ser, um adquirido.

O efeito Alegre

De há uns tempos para cá tem havido muita especulação sobre o efeito da formação de um partido por Manuel Alegre no voto no PS. Se bem me parece, o que de mais próximo existe desse cenário é a candidatura independente de Helena Roseta em Lisboa. A crer na sondagem para as autárquicas na capital, divulgada esta semana, podemos de algum modo antecipar os efeitos de uma eventual candidatura de Alegre às legislativas, fora do PS. A surpresa, ou talvez não, é que quem mais sofre com o "efeito Alegre" não é o PS, mas, sim, o Bloco de Esquerda. O mesmo BE que numa sondagem nacional este fim-de-semana surgia com 13.6, em Lisboa, um concelho onde tende a ter bons resultados, aparece com 3.8%, um valor que nem sequer permite eleger um vereador. Já Roseta tem 7.1%.

sábado, 25 de abril de 2009


Venha a maré cheia
Duma ideia
P'ra nos empurrar

Só um pensamento
No momento
P'ra nos despertar
(...)
Ergue-te ó Sol de Verão
Somos nós os teus cantores
Da matinal canção


José Afonso, Coro da Primavera

sexta-feira, 24 de abril de 2009

A festa



Há mais de vinte anos que os Flaming Lips andam por aí com uma carreira, no dizer dos próprios, acidental e que tem no documentário "Fearless Freaks" um excelente retrato. Agora, numa votação popular, 'do you realize?' de Yoshimi Battles the Pink Robots foi escolhido como o hino rock do Estado de Oklahoma, de onde Wayne Coyne e os seus companheiros são originários. Entretanto, a Câmara de representantes estadual não formou uma maioria suficiente à aprovação da escolha popular (assim mais ou menos como está a acontecer cá com o substituto do Provedor de Justiça). Pouco importa, hoje o Governador aprovou a escolha, independentemente da votação na Câmara. O que aqui se vê é a versão ao vivo que está no DVD de UFO's At The Zoo, gravado em Oklahoma. O que se vê é a festa e casais que se abraçam. Tudo terno e sereno como não se esperaria vinte anos antes. Que bom deve ser ser de Oklahoma.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Recato

Hoje, num mesmo telejornal, vi sucessivamente declarações de João Palma (o novo presidente do sindicato dos magistrados do Ministério Público), Cândida Almeida e Maria José Morgado. Não sei se é uma manifestação do "poder feudal de condes, viscondes, marqueses e duques" que, pouco tempo após a sua tomada de posse, Pinto Monteiro reconheceu existir no Ministério Público. Mas, quando o que se esperava era recato e celeridade nas investigações, o que recebemos de figuras relevantes do Ministério Público é uma propensão para a presença no espaço mediático no mínimo desajustada. Não sei porquê, mas isto tem todo o ar de que não vai acabar nada bem.

Grandes ciclistas


Para além de Bartali, Paolo Conte escreveu uma outra canção sobre ciclistas. Diavolo Rosso, dedicada a Giovanni Gerbi, um ciclista do início do século XX. Mas, na verdade, o ciclismo aqui é um pretexto para o astigiano falar do seu mundo, a "pianura padana" e Monferrato - a terra quer de Conte, quer do Diavolo Rosso.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Grandes ciclistas


A propósito de metáforas de ciclistas e bicicletas, vale a pena recordar Gino Bartali – do tempo em que o ciclismo era o desporto do povo. Conta a lenda que, no pós-guerra, e no dia em que Togliatti – que era secretário-geral do PCI – foi atingido a tiro, empurrando a Itália para o que parecia ser uma Guerra Civil inevitável, as vitórias sucessivas de Bartali no Tour foram decisivas para transformar a conflitualidade nas ruas em celebrações populares. Um ciclista que tinha colaborado com a resistência à ocupação, fazendo de estafeta, passando os pontos de controlo com a desculpa que estava a treinar, mas acima de tudo, o Gino que, com “aquele nariz triste de italiano alegre”, era a Itália. Nesse dia, Bartali não pedalou apenas a sua bicicleta.



(na verdade, houve vários outros dias em que Bartali não se limitou a pedalar a sua bicicleta. Como na mítica subida ao Col d'Izoard, quando ofereceu água ao seu arqui-rival, e símbolo de uma Itália moderna, Fausto Coppi, ajudando-o a vencer o Tour desse ano.)

Uma bicicleta para cada um

José Sócrates chegou a esta entrevista durante uma tempestade perfeita: uma crise económica e social sem paralelo na história recente e que vem agravar os défices estruturais do país; conflitualidade institucional com a Presidência da República e, claro, o caso FreePort.
A entrevista – um formato com escassa intermediação e no qual Sócrates se sente particularmente à vontade – revelou um primeiro-ministro determinado (reconhecendo que carrega uma cruz com o caso Freeport, mas que “não é desta forma que o vencem”); a negar o arrefecimento das relações institucionais com Belém (o que só é explicável por avisada prudência política) e a revelar mais uma medida para diminuir o impacto da crise (o alargamento do acesso ao subsídio social de desemprego).
Sem grandes novidades nos argumentos, houve, contudo, uma metáfora usada por Sócrates que sintetiza bem o que será este ano político: “cada um tem de puxar a sua bicicleta”. Um recado que pareceu ser também destinado a Cavaco Silva.
Por relação aos seus competidores directos, o “ciclista” Sócrates tem, contudo, manifestas vantagens (à cabeça o facto de ser o único candidato à “camisola amarela”, a primeiro-ministro), mas resta saber se a determinação será suficiente. Uma das consequências de uma tempestade perfeita é deixar as “bicicletas” em bastante mau estado. Com o desemprego a crescer, com a economia em recessão e com o caso Freeport a “envenenar” o debate político, não basta a Sócrates puxar a sua bicicleta para renovar a maioria absoluta. É esse o drama político desta crise.

comentário à entrevista de José Sócrates, publicado hoje no DN.

terça-feira, 21 de abril de 2009

A indignação selectiva

Permitir que um director-geral tenha acesso às contas bancárias dos contribuintes é um acto que carece de fundamentação precisa (e, na verdade, não se ficou a perceber os contornos do que foi aprovado na semana passada), mas convenhamos que este é um país com uma escala de prioridades estranha. Enquanto assistimos a uma grande indignação perante a compressão de direitos dos que, ganhando muito, fogem ao fisco, quando se trata de pobres, a única indignação é com a fraude no benefício de prestações. A lição a tirar é por isso só uma: se fores pobre e fingires que és muito pobre, já sabes, vamos estar de olho em ti; se fores muito rico e te fizeres passar por rico, já sabes, estaremos cá para proteger os teus direitos.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Quem se mete com as ordens, leva

Nos últimos tempos, um dos momentos altos do “jornalismo” de “investigação” foi quando, logo pela manhã, o Correio da Manhã publicou uma notícia sobre a compra de uma casa pela mãe de Sócrates, para, depois, à noite, o noticiário da SIC compôr a notícia, acrescentando mais qualquer coisa. Na altura achei uma estranha coincidência. A menos que dois jornalistas se tivessem lembrado de ir ao encalço de uma notícia semelhante e lhes tivesse ocorrido torná-la pública no mesmo dia, havia qualquer coisa que não batia certo. Era um Sábado, os notários deveriam estar fechados, pelo que dificilmente um jornalista da SIC poderia “investigar” a deixa do colega do CM. Hoje, o Público revela-nos como foi feita a investigação: “a Ordem dos Notários (ON) enviou no início do ano uma mensagem de correio electrónico aos profissionais responsáveis pelos mais de 400 cartórios notariais do país a pedir informações sobre as escrituras públicas em que intervieram o primeiro-ministro, José Sócrates, e a sua mãe”.
Não há grande volta a dar. Trata-se da Ordem que representa uma classe profissional que detinha um monopólio e que deixou de o deter. Aliás, a Senhora Bastonária não esconde ao que vem: “as pessoas não se podem esquecer que os notários possuem arquivos públicos e o primeiro-ministro é um cidadão como outro qualquer. A partir de agora, com a possibilidade de os advogados fazerem muitos actos que antes exigiam escritura pública por documento particular autenticado, os papéis não vão estar tão acessíveis. É que os arquivos dos senhores advogados não são públicos". Moral da história: metam-se com as ordens e já sabem, levam. Para pressões, não estamos mal.

domingo, 19 de abril de 2009

Claramente o melhor gajo do mundo (do momento)


And alone in my room,
I am the last of a lost civilization


De Sunset Tree, provavelmente o melhor disco dos Mountain Goats, talvez inclusivamente para mim, "Hast Thou Considered the Tetrapod?"
(para browsers com manias, aqui fica o link)

A working class hero is something to be


Frank Sobotka, The Wire

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Record Store Day


Amanhã é a festa da música para quem cresceu a juntar todos os escudos para estoirar em discos na discoteca mais perto de casa. Um mundo já distante, agora que os downloads (i)legais vieram para ficar. Alguns desses maluquinhos que vivem a nostalgia do passado, vão estar por aqui amanhã. Há boas razões para isso, até porque juntar todos os euros e estoirar em discos continua a ser das melhores coisas que se pode fazer.
(quem por ócio estiver interessado em saber o que eu penso sobre algumas questões verdadeiramente importantes, pode seguir este link).

(Record Store Day é um dia assinalado desde 2007 com o intuito de celebrar a existência de lojas físicas que vendem predominantemente discos mas, sobretudo, para celebrar toda a cultura associada a esses espaços onde se vive, respira, troca, vende e compra música e experiências a ela associadas. A Flur, em Santa Apolónia, junto ao Lux e Bica do Sapato, vai celebrar).

Três guitarras à la Sonic Youth ó'carálho



Os
Isabelle Chase Otelo. Para protest song, bem melhor do que os Xutos.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

A falsa consciência de Zé Pedro

Sobre a música dos Xutos de que se fala, o texto mais conseguido que li foi o editorial de hoje do Público, de Nuno Pacheco. O argumento é simples e parece-me encerra a discussão: o grupo já veio dizer que a música não visava em concreto este primeiro-ministro, mas, a crer no Público, isso pouco importa, pois o que conta é a apropriação social que, em cada momento, é feita das músicas ("na relação das canções com o meio social, é sempre este último que dita a palavra definitiva"). Daqui decorre um corolário: mesmo canções que não foram concebidas com um determinado objectivo, podem adquiri-lo se o "meio social" assim o entender. As tais canções que "acabam por se tornar veículos de coisas com que os seus autores nem sequer sonharam". Este é, para Nuno Pacheco, o caso da canção dos Xutos, "pensem os Xutos o que pensarem" (sic).
Se bem estou recordado do Marx que aprendi na faculdade e está claramente muito enferrujado, uma determinada posição de classe decorre das condições materiais de existência, mas como as visões dominantes (a ideologia, que tem uma conotação pejorativa) são as da classe dominante, a um determinado lugar de classe podem corresponder visões que configuram uma falsa consciência. Daí que a única acção política consequente seja a que rompe com a infra-estrutura (i.e. as condições materiais), levando a que a um lugar de classe corresponda à consciência de classe adequada.
É tal e qual isto que se está a passar com o Zé Pedro. Ele bem que pode vir negar o sentido da música e até vir dizer que, com naturais reservas, apoia José Sócrates. Mas que não restem dúvidas. A Voz do Povo reconstruída é que sabe: a falsa consciência de classe do Zé Pedro justifica as declarações que tem procurado fazer nos últimos dias; mas as condições materiais de existência é que explicam, de facto, a música. Aliás, suspeito mesmo que o Zé Pedro é portador da transformação social, mesmo que não tenha consciência. Vai-se a ver, ele próprio é dispensável.

While my guitar gently weeps


Depois de uns tempos como música de palco do Sufjan Stevens e da Polyphonic Spree, e abandonado o nome de Annie Clark, St. Vincent mostrou como era possível cruzar Jimi Hendrix com Kate Bush e fazer um grande disco. O nome era no mínimo provocatório: marry me. Como se houvesse falta de pretendentes. Isso foi há dois anos. Agora que há disco novo para breve, em Maio, os sinais de que a faceta Jimi Hendrix ganhará peso são muitos. Raparigas que dão tratamentos destes às guitarras têm muito que se lhe diga.
(aqui um cover hendrixiano de dig a pony; teledisco do novo single; e marry me ao vivo).

terça-feira, 14 de abril de 2009

Uma questão de sombras

Há naturalmente aspectos positivos na escolha de Paulo Rangel para cabeça de lista do PSD ao Parlamento Europeu. Desde logo, assegura que na campanha para as europeias se projecta a disputa política doméstica, na qual Rangel tem sido a face visível do combate parlamentar com o primeiro-ministro. Para quem está na oposição, não há volta a dar, eleições de segunda ordem, como as europeias, são, no essencial, momentos para discutir política nacional. É mau que assim seja, mas é da vida. Depois, a partir do momento que o PS apresentou Vital Moreira, o PSD precisava de um candidato com densidade política para lhe fazer frente. Pese embora o estilo desajustado que frequentemente adopta no Parlamento, Rangel não é um político do “circuito da carne assada”.
O problema da escolha de Rangel é que esta perpetua o principal problema da liderança de Ferreira Leite.
Convém não esquecer, Ferreira Leite foi eleita com pouco mais de um terço dos votos dos militantes do PSD e, depois de um congresso completamente falhado, nunca foi capaz de fazer o que uma líder nas suas circunstâncias precisa. Afirmar-se, também unindo o partido. O que temos sistematicamente assistido é um processo contrário. Por um lado, com a excepção de Rangel, Ferreira Leite não tem conseguido promover novos protagonistas e, por outro, tem sido invariavelmente incapaz de alargar a sua base de apoio interna.
A escolha de Rangel, ao mesmo tempo que desloca de um palco relevante o único novo protagonista que se conseguiu afirmar, entrincheira Ferreira Leite no seu núcleo duro de apoiantes. Se ao medo das sombras – característica dos líderes fracos – somarmos todos os outros problemas que Ferreira Leite tem revelado (a gestão do timing de escolha do cabeça de lista ao PE foi o último de um longo rol de exemplos. É espantoso escolher o exacto dia em que foram conhecidas as estimativas de primavera do banco de portugal), talvez se perceba melhor as razões porque, mesmo num contexto de crise económica e social e de descontentamento com o governo, o PSD não consegue capitalizar eleitoralmente.

A corrupção e a corrosão

"Há uma afirmação que se tornou uma verdade quase insofismável: a corrupção está a corroer os alicerces da nossa democracia. Peço desculpa, mas o que está a corroer a democracia são os casos em que foi criada a percepção no espaço público de que alguém era corrupto sem que depois seja produzida prova necessária a uma condenação.
Ou seja, regressamos ao problema de sempre: as debilidades da investigação em Portugal e o modo como as suas insuficiências tendem a ser colmatadas com informação passada a conta-gotas para a comunicação social. Pelo caminho, enquanto os verdadeiros culpados de ilícitos têm boas razões para se sentirem confortáveis, um inocente deve ficar muito preocupado. Um culpado sabe que tem poucas probabilidades de ser condenado e um inocente pode ter a certeza que, no mínimo, a dúvida sobre a sua culpabilidade ficará a pairar."

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

20 anos de Merge


A Merge Records de Mac McCaughan, o líder dos Superchunk, mas, também, dos Portastatic faz por estes dias 20 anos. Para celebrar editou um disco onde bandas de outras editoras regravam temas editados na Merge. Aqui os National juntam-se à Annie Clark (aka St. Vincent, que tem disco novo para muito breve) e fazem isto a sleep all summer dos Crooked Fingers.

Sleep All Summer - St. Vincent And The National

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Coisas verdadeiramente importantes


Para além da emissão em streaming, já é possível ouvir também em podcast as emissões do Quase Famosos, o programa que faço com o Nuno Costa Santos no Rádio Clube.

Eastwood faz filme sobre Santana Lopes

Mais um bom filme de Clint Eastwood. Gran Torino é mais um passo no trajecto que o transformou num "Monstro" do Cinema. Enorme, na Direcção e na interpretação. Vale a pena ver como nos transmite a vivência de alguém amargurado, Pai, Avô, capaz de dar e de receber afecto a outras famílias que não a sua, com atenção especial às comunidades da realidade social dos bairros multiétnicos do Mundo de hoje.
Pedro Santana Lopes, naquele que é provavelmente o melhor blog em português (à atenção do Nuno Artur Silva)