"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

terça-feira, 30 de junho de 2009

Famílias Sanduíche

o estudo da TESE serve para revelar aquele que é, hoje, o principal estrangulamento da sociedade portuguesa: há um conjunto de famílias que beneficiando de recursos materiais que são suficientes para as excluírem do acesso às prestações sociais de combate à pobreza, têm contudo recursos insuficientes para fazer face às suas despesas e cumprir expectativas e aspirações naturais de vida. Essas famílias são adequadamente descritas como "famílias sanduíche": estão fora da rede de apoios sociais de combate à pobreza, mas não deixam por isso de ser pobres. Esta asfixia das classes médias baixas tem várias consequências. Com os fracos rendimentos não são só as famílias portuguesas que estão ensanduichadas, é a própria democracia. Sem classes médias cooptadas para o sistema, a democracia vive uma permanente crise de legitimidade. E não há cooptação possível quando as classes médias vivem maioritariamente com menos de 900 euros por mês e, não menos grave, com a percepção que as trajectórias de mobilidade social ascendente que, ainda assim, tiveram, não se reproduzirão nos seus filhos. Não por acaso, o estudo revela que 70% dos portugueses não confia nas instituições que nos governam.

Romper este ciclo de precariedade consolidada, ao qual se tem juntado um conjunto de rupturas recentes (desde logo o crescimento do desemprego), e com isso aliviar as classes médias baixas tem de ser o desafio do próximo ciclo político. O objectivo não pode apenas passar por continuar a responder às formas mais severas de pobreza, como revela este estudo, é urgente encontrar soluções para os que estando acima da linha de pobreza, não deixam por isso de ser pobres.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Surfer Rosa

Falar verdade

A drª Ferreira Leite afirmou no final da semana, com uma veemência que se lhe desconhecia, que ia rasgar todos as políticas do actual executivo (com excepção da reforma da segurança social). Ora uma das coisas que o País não precisa mesmo é de sistemáticas rupturas profundas nas políticas depois de cada ciclo eleitoral. De facto, é aliás muito pouco provável que se Ferreira Leite vier a ser Primeira-Ministra rasgue mesmo todas as políticas anteriores. Logo, das duas uma: ou Ferreira Leite é politicamente irresponsável ou não está a falar verdade. Eu prefiro que a segunda hipótese seja a verdadeira.

Noutro mundo



O disco dos Wilco está finalmente acessível legalmente ao público. No meio de boas canções, está lá uma balada a vozes meias entre o Jeff Tweedy e a Leslie Feist. Se isto fosse um mundo normal, esta canção seria um hit incontornável do Verão. É preciso ter tido uma vida fodida, como o Tweedy teve, para depois se conseguir fazer uma coisa assim meia sentimentalona sem soar lamechas. Depois, claro, há a Feist. (já agora gostava que me explicassem qual a razão para raparigas como a Feist, quando abraçam ou beijam com carinho, levantarem uma das pernas).

quarta-feira, 24 de junho de 2009

O nosso esqui

O surf está um pouco por todo o lado. Hoje, quer seja numa praia, quer num anúncio televisivo, é difícil não nos cruzarmos quotidianamente com uma prancha, que sugere invariavelmente uma ideia de liberdade.
Esta presença quase hegemónica do surf coexiste com uma desvalorização do papel económico do desporto. Apesar de não haver quem não valorize o papel do mar como alavanca de um novo modelo de desenvolvimento para o país, estamos muito longe de concretizar esse objectivo e de fazer do surf um aspecto central da associação entre ‘mar’ e a ‘marca Portugal’. O que é tanto mais estranho quanto o surf poderia estar para o turismo português como os desportos de neve estão para os Alpes suíços. O turismo de surf não é um turismo de massas, é sustentável e continuado, e um nicho de mercado sólido e em crescimento. E abundam pela Europa casos de desenvolvimento virtuoso de regiões inteiras, literalmente “puxadas” pelo esqui. Portugal tem um clima temperado, ondas de qualidade, surfáveis durante todo o ano, centralidade (quando comparado com outros destinos de surf) combinada com baixa ocupação das praias na época alta do surf (fora do Verão). O surf poderia ser o nosso esqui, mas, também, o novo golf.
Para que isso acontecesse era preciso que o surf fosse olhado não apenas como uma modalidade desportiva ou um estilo de vida, mas, também, como um bem económico com enorme potencial de expansão, de que o conjunto da sociedade beneficiaria. O que está longe de acontecer.
Publicado no i (que hoje dedica duas páginas ao surf)

terça-feira, 23 de junho de 2009

Um Presidente da República

A crer na TSF, Cavaco Silva terá afirmado conhecer sondagens favoráveis à realização de eleições em simultâneo. Ora aqui está um tema que deve ser mesmo sondado e cuja decisão deve ser tomada com base no que as sondagens dizem. Imaginem por um momento que a mesma sondagem que Cavaco conhece (já agora, feita por quem? paga por quem?) revelava que os portugueses eram favoráveis a que não se realizassem eleições de todo ou que o nosso sistema evoluísse para o presidencialismo. O que é que o Presidente da República fazia?

Estes economistas


Há vários meses que na faculdade onde dou aulas está pintado numa parede uma inscrição que pergunta, “estes economistas, para quê?”.
Quando li o manifesto dos 28 foi essa a questão que me veio à cabeça. Na verdade, há um manifesto que eu, enquanto não-economista, esperava ver escrito. Um manifesto que reflectisse sobre o falhanço do mesmo saber técnico que agora é invocado para intervir politicamente na previsão do que aconteceu à economia mundial ou sobre a incapacidade de construir respostas políticas que prevenissem o descalabro. Por exemplo, não seria de esperar que se assistisse a um questionamento crítico do Pacto de Estabilidade que tantos entraves criou ao crescimento económico no espaço europeu?
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Provar do próprio veneno

O jornal A Bola publica hoje um artigo que se baseia no mesmíssimo tipo de critérios jornalísticos que a TVI costuma usar. Basicamente, a candidatura de Moniz à presidência do Benfica faria parte de um grande complot espanhol para comprar o Benfica. Provas e evidências eram naturalmente poucas, o que sobrava eram suspeições e uns quantos nexos causais frágeis. Imaginem só o que Moniz decidiu fazer: vai processar o director da bola e o autor da peça. Curioso, não é. Não há nada como provar do próprio veneno para aprender. Resta saber se aprende.

Sintam-se convidados



mapa aqui.

sábado, 20 de junho de 2009

Do amiguismo

Escrever sobre o mar e as ondas não é tarefa fácil. Isto é tanto mais verdade quanto melhor for a escrita, maior a sua depuração, e mais interessantes os pontos de contacto existentes entre o lirismo da paixão pelo mar e a vida passada em terra. É por tudo isto que as crónicas do Pedro Adão e Silva são, há já alguns anos, uma referência incontornável do surf escrito em língua portuguesa. Daí que só os distraídos se permitam surpreender por estas crónicas passarem agora a livro.

Assim, é com o mais supremo prazer (fazendo nossas as palavras do James Cook quando viu um gajo em cima de uma tábua há uma porrada de anos atrás, e que o Pedro tão bem cita na epígrafe do livro) que anunciamos o lançamento de "Sal na Terra", pela editora Bertrand, a partir de hoje nas livrarias de todo o país. O livro reúne crónicas do Pedro publicadas na SURFPortugal durante os últimos anos, recuperando oportunamente o título do seu espaço na revista. Para além das crónicas arrumadas em livro, há ainda as fotografias. Destas podemos dizer que foram captadas pelo Ricardo Bravo e complementam na perfeição uma série de textos singulares capazes de percorrer a distância entre Kelly Slater e Cesare Pavese, passando por Zico ou Tiago Pires.

O volume agora editado, a que o poeta José Tolentino Mendonça se refere no prefácio como "um dos mais belos livros da poesia portuguesa", será apresentado por Francisco José Viegas no próximo dia 23 de Junho, às 18:30, na livraria Ler Devagar, agora na LX Factory. Considerem-se convidados.

Vasco Mendonça, no site da SurfPortugal.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Em Nashville também está muito calor

St. Vincent "Actor Out Of Work" from Lake Fever Sessions on Vimeo.


"I don't even think I own an acoustic guitar" (e há mais aqui)

quarta-feira, 17 de junho de 2009

A capa



nas livrarias a partir de amanhã.

Low Cost

o ataque do Benfica para 2009 vai ser formado por Marcel e Weldon.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Da importância de manter o rumo



What's it like to be a girl in a band?

6ª feira, todos ao Frágil


Os 20 anos do disco dos Stone Roses são um pretexto como outro qualquer para uma boa festa.

Um país paralisado

a moção de censura que amanhã o CDS apresentará, e que terá o apoio do PSD, sendo uma versão extrema da acusação de falta de legitimidade política do executivo para Governar que surgiu na sequência das europeias, funciona como antevisão do país que poderemos ter daqui a um ano. E a última coisa que nos faltava acrescentar à crise era um país paralisado por uma crise de legitimidade política do Governo. Que seja sugerido que o país pare já, em Junho, quando não haverá novo executivo até Novembro, tem apenas uma virtude: antecipa o que pode ser a paisagem política no próximo ano.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Saber envelhecer



Há uns tempos li que o John Peel teria dito que um sintoma da sanidade da sua família era o facto de, trinta anos depois, gostarem de ir juntos - filhos incluídos - a concertos dos The Fall. Os Sonic Youth têm um disco novo. Na verdade, é igual a quase todos os outros: uma lição sobre o que fazer com as guitarras, onde aproveitam para mostrar como como se pode manter a energia pop adolescente e combiná-la com a maturidade de quem já abriu todos os caminhos no rock. A Kim Gordon continua com as melhores pernas do Rock e o Thurston Moore parece estar sempre mais novo, para compensar o cabelo do Lee Ranaldo e os kilos a mais do Steve Shelley. Isto tudo porque eu hei um dia de ir a um concerto dos Sonic Youth com os meus filhos.
(devo confessar que só tive a certeza que Nova Iorque existia como de facto se diz que ela é quando um dia me virei e atrás do meu ombro estava o Lee Ranaldo com a mulher e os filhos)

Retratos de um País


Comendador Moita Flores (Alexandre Herculano está claramente abalado pela notícia).

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Um esboço para o Verão

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Este tipo vai longe

Não sei se estão recordados do episódio não muito distante no qual Paulo Rangel se insurgia contra o facto do primeiro-ministro não querer debates quinzenais durante a campanha para as europeias. Curiosamente, a decisão havia sido tomada em conferência de líderes e por unanimidade. O que faz todo o sentido, aliás, tendo em conta que estava a decorrer uma campanha eleitoral, provavelmente nem deveriam existir sessões plenárias. Pois, para o que importa, o Dr. Rangel é líder de um grupo parlamentar e o seu grupo parlamentar havia concordado com a decisão que, passado uns dias, daria o direito ao Dr. Rangel de se indignar. Ontem voltou à carga. A propósito da lamentável lei do financiamento partidário, que em boa hora o Presidente vetou, o Dr. Rangel vem agora dizer que, no fundo, sempre foi contra a lei em questão - “O PSD nunca pretendeu que estas alterações que motivaram o veto do senhor Presidente da República fossem avante”. Elucidativo, votou a favor, mas era contra. Durante algum tempo, quando ouvia o Dr. Rangel, ficava sempre com uma dúvida: como é que tinha feito parte do Governo de Santana Lopes? Começa a perceber-se melhor e há uma coisa que fica claro: estamos perante alguém que vai longe. Não tenham dúvidas.