para quem investiu numa licenciatura, o desemprego ou um emprego desajustado às suas qualificações gere um sério problema de gestão de expectativas. Ainda assim, por muito que isso frustre as expectativas dos próprios, colectivamente temos a ganhar se mesmo profissões que tradicionalmente não requerem licenciaturas forem desempenhadas por licenciados. É uma situação difícil de gerir para quem a vive, mas, por exemplo, um taxista licenciado em direito desempenhará melhor a sua profissão do que um taxista com problemas de literacia ou incapacidade de falar línguas estrangeiras e ter uma licenciatura ajudará, certamente, a que tenha expectativas realistas de mobilidade profissional. O problema não é haver muitos juristas, é continuarmos a pensar que todos os juristas vão ser advogados ou juízes.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
terça-feira, 14 de julho de 2009
segunda-feira, 13 de julho de 2009
O exemplo da Fiorentina

Há uns anos, assisti ao que pensava ser um processo improvável. A Fiorentina acabou como clube de futebol, entrou em insolvência e foi afastada dos campeonatos profissionais. Ao mesmo tempo, era criado um novo clube, com outro nome, mas que começava a competir desde as primeiras divisões regionais. Uns anos passados, a Fiorentina refundada está de regresso à série A e voltou a ser uma das “sette sorelle” que dominam o futebol italiano. Ou seja, há certas alturas em que o melhor que as instituições podem fazer mesmo é refundarem-se. Começarem tudo de novo. Quando leio notícias sobre o triângulo entre o PS nacional, o PS Porto e a candidata Elisa Ferreira, fico sempre com a sensação que o melhor que havia a fazer era reconhecer a situação de insolvência e começar de novo. Todos, militantes e independentes.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Prioridades
Ricardo, falar com o Amarante? Para cumprir a profecia do poeta que citas, não teria sido mais compreensível se tivesses ido ter com esta rapariga?
terça-feira, 7 de julho de 2009
A telescola ao contrário
Hoje o i tem uma entrevista onde Filomena Mónica revela as preciosidades do costume. A Ler deste mês tem uma excelente entrevista a Vasco Pulido Valente, que está naturalmente a anos luz da de Filomena Mónica. Contudo, ficamos a saber que ambos partilham uma característica: não saem de casa e não escondem a misantropia, que só pode coexistir com um desconhecimento profundo da vida das pessoas que existem mesmo, fora do saber livresco. Para quem gosta tanto de glosar, de modo aparentemente sofisticado, a expressão “isto só em Portugal”, é caso para dizer mesmo: só em Portugal é que é possível fazer carreira académica e, mais relevante, surgir como eminência intelectual, ao mesmo tempo que se faz gala em afirmar que se desconhece a realidade. Não há mal nenhum na misantropia, e até há boas razões para a atitude, mas a misantropia limita também a possibilidade de falar com propriedade do que de facto se passa e existe “à volta”. Depois, fico sempre com uma dúvida: não é no mínimo estranho que quem tem responsabilidades académicas em instituições públicas se vanglorie de estar sempre em casa? Estamos perante uma telescola ao contrário, onde são os alunos que estão na escola e os professores em casa? Ou contactar com alunos, orientá-los e dar aulas deixou de fazer parte das exigências de uma carreira académica, mesmo que de investigador emérito?
Aumentar impostos
Em Portugal, estamos abaixo da média europeia em carga fiscal, no entanto, temos um nível de desigualdades que nos envergonha colectivamente. E a verdade é que são os países com uma maior carga fiscal, mas, também, com maior progressividade nos seus sistemas fiscais, aqueles onde as desigualdades são menores. Seremos capazes de romper este bloqueio? Aparentemente não, já que vivemos armadilhados numa teia onde os políticos temem falar dos impostos como instrumento de promoção de justiça social. Ora, conjuntamente com as políticas de mínimos sociais, a utilização do sistema fiscal é uma das formas mais eficazes de compensar desigualdades de rendimentos excessivas, formadas no mercado.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
I've a dream
Tenho uma secreta esperança que esta malta do Crawdaddy reúna todos estes vídeos do concerto dos Mountain Goats e os edite num DVD que depois encimará as tabelas de vendas da Amazon.
O calendário
Com eleições separadas apenas por duas semanas, seria difícil de compreender que os partidos apresentassem o mesmo candidato a dois cargos. Se assim acontecesse, seria a própria possibilidade de vitória dos “candidatos-duplos” que estaria posta em causa. Mas esta decisão do PS é duplamente tardia: em primeiro lugar porque, efectivamente, muda as regras a meio do jogo (apesar de a nova regra fazer todo o sentido); depois porque revela, mais uma vez, que os partidos ou desconheciam os calendários eleitorais ou não são capazes de antecipar problemas. Este episódio das duplas candidaturas é apenas mais um, a somar por exemplo ao facto de se prepararem para apresentar os programas eleitorais no final de Julho (neste aspecto o caso do PSD é manifestamente mais gritante, pois nada se sabe quanto ao programa, o que não sucede no do PS – onde pelo menos desde o último congresso são conhecidas algumas prioridades programáticas).
O provedor
"O provedor interroga-se sobre se a falha relatada por José Manuel Fernandes não terá sido potenciada por falta de “vontade política”, isto é, aconteceu com o manifesto dos 51 mas nunca aconteceria com o dos 28. E isso diz do grau de empenho do jornal numa notícia e na outra, ou seja, da opinião que, sem o declarar, o PÚBLICO expressa sobre os manifestos."
vale mesmo a pena ler o texto de Joaquim Vieira, provedor do Público.
vale mesmo a pena ler o texto de Joaquim Vieira, provedor do Público.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
dying is fine, but Death o baby.
No campeonato de bandas de betos com inclinação freak do estado de Nova Iorque, os Ra Ra Riot não perdem por muito para os seus primos chegados Vampire Weekend (aliás, se pensarmos na importância do violoncelo, até ficam manifestamente a ganhar). Aliás, uma das coisas que me ultrapassou no ano passado, foi o hype em torno dos segundos quando comparado com a clandestinidade em que viveu Rhumb Line, dos primeiros. Este Dying is fine - que parte de um poema do e.e. cummings - é uma música do caraças, boa para ouvir no Ipod em viagens de metro.
quinta-feira, 2 de julho de 2009

A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.
Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.
Sophia de Mello Breyner Andersen (6 de Novembro de 1919 — Lisboa, 2 de Julho de 2004)
terça-feira, 30 de junho de 2009
Famílias Sanduíche
o estudo da TESE serve para revelar aquele que é, hoje, o principal estrangulamento da sociedade portuguesa: há um conjunto de famílias que beneficiando de recursos materiais que são suficientes para as excluírem do acesso às prestações sociais de combate à pobreza, têm contudo recursos insuficientes para fazer face às suas despesas e cumprir expectativas e aspirações naturais de vida. Essas famílias são adequadamente descritas como "famílias sanduíche": estão fora da rede de apoios sociais de combate à pobreza, mas não deixam por isso de ser pobres. Esta asfixia das classes médias baixas tem várias consequências. Com os fracos rendimentos não são só as famílias portuguesas que estão ensanduichadas, é a própria democracia. Sem classes médias cooptadas para o sistema, a democracia vive uma permanente crise de legitimidade. E não há cooptação possível quando as classes médias vivem maioritariamente com menos de 900 euros por mês e, não menos grave, com a percepção que as trajectórias de mobilidade social ascendente que, ainda assim, tiveram, não se reproduzirão nos seus filhos. Não por acaso, o estudo revela que 70% dos portugueses não confia nas instituições que nos governam.
Romper este ciclo de precariedade consolidada, ao qual se tem juntado um conjunto de rupturas recentes (desde logo o crescimento do desemprego), e com isso aliviar as classes médias baixas tem de ser o desafio do próximo ciclo político. O objectivo não pode apenas passar por continuar a responder às formas mais severas de pobreza, como revela este estudo, é urgente encontrar soluções para os que estando acima da linha de pobreza, não deixam por isso de ser pobres.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
Romper este ciclo de precariedade consolidada, ao qual se tem juntado um conjunto de rupturas recentes (desde logo o crescimento do desemprego), e com isso aliviar as classes médias baixas tem de ser o desafio do próximo ciclo político. O objectivo não pode apenas passar por continuar a responder às formas mais severas de pobreza, como revela este estudo, é urgente encontrar soluções para os que estando acima da linha de pobreza, não deixam por isso de ser pobres.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Falar verdade
A drª Ferreira Leite afirmou no final da semana, com uma veemência que se lhe desconhecia, que ia rasgar todos as políticas do actual executivo (com excepção da reforma da segurança social). Ora uma das coisas que o País não precisa mesmo é de sistemáticas rupturas profundas nas políticas depois de cada ciclo eleitoral. De facto, é aliás muito pouco provável que se Ferreira Leite vier a ser Primeira-Ministra rasgue mesmo todas as políticas anteriores. Logo, das duas uma: ou Ferreira Leite é politicamente irresponsável ou não está a falar verdade. Eu prefiro que a segunda hipótese seja a verdadeira.
Noutro mundo
O disco dos Wilco está finalmente acessível legalmente ao público. No meio de boas canções, está lá uma balada a vozes meias entre o Jeff Tweedy e a Leslie Feist. Se isto fosse um mundo normal, esta canção seria um hit incontornável do Verão. É preciso ter tido uma vida fodida, como o Tweedy teve, para depois se conseguir fazer uma coisa assim meia sentimentalona sem soar lamechas. Depois, claro, há a Feist. (já agora gostava que me explicassem qual a razão para raparigas como a Feist, quando abraçam ou beijam com carinho, levantarem uma das pernas).
quarta-feira, 24 de junho de 2009
O nosso esqui
O surf está um pouco por todo o lado. Hoje, quer seja numa praia, quer num anúncio televisivo, é difícil não nos cruzarmos quotidianamente com uma prancha, que sugere invariavelmente uma ideia de liberdade.
Esta presença quase hegemónica do surf coexiste com uma desvalorização do papel económico do desporto. Apesar de não haver quem não valorize o papel do mar como alavanca de um novo modelo de desenvolvimento para o país, estamos muito longe de concretizar esse objectivo e de fazer do surf um aspecto central da associação entre ‘mar’ e a ‘marca Portugal’. O que é tanto mais estranho quanto o surf poderia estar para o turismo português como os desportos de neve estão para os Alpes suíços. O turismo de surf não é um turismo de massas, é sustentável e continuado, e um nicho de mercado sólido e em crescimento. E abundam pela Europa casos de desenvolvimento virtuoso de regiões inteiras, literalmente “puxadas” pelo esqui. Portugal tem um clima temperado, ondas de qualidade, surfáveis durante todo o ano, centralidade (quando comparado com outros destinos de surf) combinada com baixa ocupação das praias na época alta do surf (fora do Verão). O surf poderia ser o nosso esqui, mas, também, o novo golf.
Para que isso acontecesse era preciso que o surf fosse olhado não apenas como uma modalidade desportiva ou um estilo de vida, mas, também, como um bem económico com enorme potencial de expansão, de que o conjunto da sociedade beneficiaria. O que está longe de acontecer.
Publicado no i (que hoje dedica duas páginas ao surf)
Esta presença quase hegemónica do surf coexiste com uma desvalorização do papel económico do desporto. Apesar de não haver quem não valorize o papel do mar como alavanca de um novo modelo de desenvolvimento para o país, estamos muito longe de concretizar esse objectivo e de fazer do surf um aspecto central da associação entre ‘mar’ e a ‘marca Portugal’. O que é tanto mais estranho quanto o surf poderia estar para o turismo português como os desportos de neve estão para os Alpes suíços. O turismo de surf não é um turismo de massas, é sustentável e continuado, e um nicho de mercado sólido e em crescimento. E abundam pela Europa casos de desenvolvimento virtuoso de regiões inteiras, literalmente “puxadas” pelo esqui. Portugal tem um clima temperado, ondas de qualidade, surfáveis durante todo o ano, centralidade (quando comparado com outros destinos de surf) combinada com baixa ocupação das praias na época alta do surf (fora do Verão). O surf poderia ser o nosso esqui, mas, também, o novo golf.
Para que isso acontecesse era preciso que o surf fosse olhado não apenas como uma modalidade desportiva ou um estilo de vida, mas, também, como um bem económico com enorme potencial de expansão, de que o conjunto da sociedade beneficiaria. O que está longe de acontecer.
Publicado no i (que hoje dedica duas páginas ao surf)
terça-feira, 23 de junho de 2009
Um Presidente da República
A crer na TSF, Cavaco Silva terá afirmado conhecer sondagens favoráveis à realização de eleições em simultâneo. Ora aqui está um tema que deve ser mesmo sondado e cuja decisão deve ser tomada com base no que as sondagens dizem. Imaginem por um momento que a mesma sondagem que Cavaco conhece (já agora, feita por quem? paga por quem?) revelava que os portugueses eram favoráveis a que não se realizassem eleições de todo ou que o nosso sistema evoluísse para o presidencialismo. O que é que o Presidente da República fazia?
Estes economistas

Há vários meses que na faculdade onde dou aulas está pintado numa parede uma inscrição que pergunta, “estes economistas, para quê?”.
Quando li o manifesto dos 28 foi essa a questão que me veio à cabeça. Na verdade, há um manifesto que eu, enquanto não-economista, esperava ver escrito. Um manifesto que reflectisse sobre o falhanço do mesmo saber técnico que agora é invocado para intervir politicamente na previsão do que aconteceu à economia mundial ou sobre a incapacidade de construir respostas políticas que prevenissem o descalabro. Por exemplo, não seria de esperar que se assistisse a um questionamento crítico do Pacto de Estabilidade que tantos entraves criou ao crescimento económico no espaço europeu?
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Provar do próprio veneno
O jornal A Bola publica hoje um artigo que se baseia no mesmíssimo tipo de critérios jornalísticos que a TVI costuma usar. Basicamente, a candidatura de Moniz à presidência do Benfica faria parte de um grande complot espanhol para comprar o Benfica. Provas e evidências eram naturalmente poucas, o que sobrava eram suspeições e uns quantos nexos causais frágeis. Imaginem só o que Moniz decidiu fazer: vai processar o director da bola e o autor da peça. Curioso, não é. Não há nada como provar do próprio veneno para aprender. Resta saber se aprende.
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