Nos últimos anos, Portugal desenvolveu uma rede de mínimos sociais à imagem dos Estados Providência consolidados. Ainda que a pobreza continue a ser a questão social predominante, o caminho passa agora por aumentar a eficácia e a eficiência das políticas existentes. Mas este sucesso relativo aumenta a visibilidade de problemas sociais persistentes. À cabeça a pobreza entre os trabalhadores. Com uma mediana salarial que pouco ultrapassa os 700 euros, há uma classe média literalmente ensanduichada entre as famílias que beneficiam de mínimos sociais e aquelas que têm recursos suficientes. Responder a este grupo é a prioridade do próximo ciclo político.
Acontece que esta resposta já não pode ser dada apenas através da protecção social. Assenta num esforço de densificação dos serviços de apoio às famílias, adequando-os às necessidades de quem está no mercado de trabalho, mas implica, essencialmente, que a política fiscal e a política de emprego assumam maiores responsabilidade sociais. Este movimento requer uma ruptura, desde logo com o património político do PS: a política fiscal não pode continuar acantonada, assumindo escassamente o seu papel redistributivo e solidário. É preciso redistribuir mais e redistribuir mais a favor dos que estão no mercado de trabalho mas vivem uma dupla precariedade: de rendimentos e contratual. Portugal precisa, naturalmente, de modernizar o seu padrão de especialização económico, mas não o pode fazer se não for capaz de fazê-lo solidariamente. Espero por isso que, no programa eleitoral do PS, a política fiscal seja também um instrumento de política social.
publicado no i, como resposta à pergunta: "o que deveria ser o programa de governo?"
quinta-feira, 30 de julho de 2009
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Da onda que se vê no mar

“Um surfista olhando o mar...está vendo ou está sendo?”, pergunta o Pepê César. Raro é o dia que não me cruzo com esta citação, que encabeça a Goiabada do Júlio Adler. Quando a leio, quase fico com a certeza que o modo como se olha o mar é indicador absoluto do nosso temperamento. O surf enviesa esta minha percepção, mas o meu “léxico familiar” é também decisivo.
Contam as “lendas familiares” que o meu Avô paterno tinha por hábito perguntar aos jovens que se apresentavam, se gostavam de pescar. Perante a surpresa e as frequentes respostas negativas, o meu Avô logo atirava, de modo directo: “não é, portanto, dado à contemplação”. O meu Avô nunca pescou, pese embora tentativas frustradas de aprender a arte, nos Verões dos anos cinquenta, com os pescadores de uma Ericeira de praias desertas e de ondas sem surfistas. Mas, sendo ele próprio um contemplativo, sabia que o mar encerrava o espaço adequado para o espírito se absorver. A pesca era um pretexto – como o surf? – para virar as costas ao mundo e fixar-se na natureza essencial das coisas. Olhando. Pescar ou não, seria, para ele, certamente uma irrelevância. O que importava era a disponibilidade para a ideia de pescar.
O escritor italiano Italo Calvino nunca surfou e não sei se alguma vez se dedicou à pesca. Mas Palomar, o seu último livro, publicado um par de anos antes da sua morte (1985), começa com uma leitura de uma onda. Não se trata, é verdade, de uma leitura contemplativa. Afinal, lembra Calvino, para a contemplação é necessário um temperamento, um estado de espírito e um conjunto de circunstâncias externas adequadas e no Senhor Palomar nenhuma destas três condições se verificava. Não por acaso, Palomar enfrenta dificuldades para ler a onda, para a interpretar: “isolar uma onda, separando-a da onda que imediatamente se lhe segue e que parece empurrá-la, e que por vezes a alcança e a arrasta consigo, é muito difícil; assim como separá-la da onda que a precede e que parece arrastá-la atrás de si em direcção à costa, salvo quando depois, eventualmente, se volta contra ela, como que para a deter.”
Ao longo de cinco páginas, a descrição detalhada de Calvino serve para revelar um paradoxo: enquanto ao Senhor Palomar faltavam as competências para ler a onda, o que lhe provocava tensão, para nós, surfistas, é fácil descodificá-la e ao olharmos para uma onda somos apenas envolvidos por um desejo intenso, ainda que de calmaria.
Enquanto o Senhor Palomar sofria com a identificação do percurso visual adequado para seguir uma onda, os surfistas partilham um olhar sequencial quando olham o mar. Contemplamos todos do mesmo modo as ondas: primeiro, as linhas que se aproximam, logo depois o sítio onde a onda começa a quebrar, formando as primeiras espumas; seguimos então o pocket, tentando perceber onde a onda se reforma e abre espaço para reganharmos velocidade através das várias junções, até ao momento em que a onda se desvanece por ter encontrado um excesso de água ou, pelo contrário, fecha, fazendo-nos voltar ao início. Por mais ondas que se ergam no mar, é este invariavelmente o caminho mental que percorremos quando as vemos.
O que para os outros se afigura difícil de “ler” é, para os surfistas, natural, surge com facilidade e quase parece ser parte de nós. O surf provoca um desejo de acção, de remar para as ondas e deslizar na sua superfície. Mas, mesmo que não sejamos dados a pescarias, dá-nos também um entendimento do mar que é feito de uma inescapável inclinação contemplativa. É por isso que, depois de embrenhados no surf, quando olhamos para o mar já não estamos apenas a ver. Estamos também a aproximar-mo-nos de nós mesmos. A ser.
publicado no Sal na Terra e um pretexto para anunciar que o Senhor Palomar anda pela blogosfera.
(tal como no livro, a foto é do Ricardo Bravo)
terça-feira, 28 de julho de 2009
Prometer Empregos
Para quem está no poder, um novo ciclo assenta na avaliação combinada do que foi feito com o que de novo se propõe.
Não por acaso, o PSD, assim que o PS apresentou as suas linha programáticas, veio chamar a atenção para as promessas não cumpridas nos últimos cinco anos. E, nesta legislatura, promessas não cumpridas é sinónimo de 150 mil postos de trabalho.
Sejamos claros: não fazem sentido promessas quantificadas em torno de objectivos cuja concretização não depende exclusivamente da acção governativa. Este é o caso da criação de emprego. Estando descartada a possibilidade de criar emprego público, o mais que o Estado pode fazer - e está longe de ser pouco - é criar condições que estimulem o emprego privado e intervir nos factores que alteram o padrão de especialização da nossa economia. Ora esta intervenção pública só produz efeitos no médio prazo e a sua avaliação não é compaginável com metas quantificadas.
Dito isto, o que é que aconteceu, de facto, aos 150 mil postos de trabalho?
a resposta está no meu artigo de hoje no Diário Económico.
Não por acaso, o PSD, assim que o PS apresentou as suas linha programáticas, veio chamar a atenção para as promessas não cumpridas nos últimos cinco anos. E, nesta legislatura, promessas não cumpridas é sinónimo de 150 mil postos de trabalho.
Sejamos claros: não fazem sentido promessas quantificadas em torno de objectivos cuja concretização não depende exclusivamente da acção governativa. Este é o caso da criação de emprego. Estando descartada a possibilidade de criar emprego público, o mais que o Estado pode fazer - e está longe de ser pouco - é criar condições que estimulem o emprego privado e intervir nos factores que alteram o padrão de especialização da nossa economia. Ora esta intervenção pública só produz efeitos no médio prazo e a sua avaliação não é compaginável com metas quantificadas.
Dito isto, o que é que aconteceu, de facto, aos 150 mil postos de trabalho?
a resposta está no meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Não peço desculpa, vou votar PS
Durante muito tempo, o “não merece, mas vote PS” do O’Neill foi a melhor forma de explicar os sucessos eleitorais relativos (literalmente) do PS. Agora já não o é. Depois de uma primeira maioria absoluta, o PS deixou de ser um partido que ocupava uma posição relativamente central e que por isso causava poucos anti-corpos da esquerda à direita para passar a ser um partido que governou, de facto, e com isso passou a centrar todos os descontentamentos. A experiência foi tão intensa que, hoje, sinal dos tempos, a “nacional situacionista” criou uma barragem tal que alguém que diga que vai votar PS tem antes de pedir desculpa. Não me é difícil fazer uma longa lista de coisas que gostava que este Governo tivesse feito diferente. Mas, eu, de facto, não peço desculpa: vou votar PS porque, ao contrário do que pensa o condutor moral Louçã, a política é mesmo uma negociação e só o PS é capaz de negociar um País onde modernização se combine com solidariedade. Ao mesmo tempo, só o PS o pode fazer ancorado na esquerda e envolvendo gente politicamente variada, que vai, a título de exemplo, do Miguel Vale de Almeida ao Luís Amado. Ora se calhar é mesmo isso que deve ser feito nos próximos anos: negociar mais e fazê-lo com gente mais variada.
também publicado no SIMplex.
também publicado no SIMplex.
Uma história de sucesso
As nossas sociedades vivem sob o espectro do envelhecimento.
Não deixa de ser paradoxal que o que durante muito tempo foi uma ambição quase utópica, uma vez concretizado, se tenha transformado na questão social dominante.
O efeito conjugado da melhoria dos cuidados de saúde, do ‘baby-boom' do pós-guerra e da actual baixa da natalidade, criou um mundo em que, pela primeira vez, o número de pessoas com mais de 65 anos superará o de crianças com menos de cinco. Esta é uma história de sucesso, mas torná-la sustentável passou a ser um desafio difícil de enfrentar.
Portugal encontra-se, a este como a muitos outros respeitos, numa situação particularmente preocupante: combina traços de modernidade (é um dos países mais envelhecidos) com marcas do passado persistentes. O que faz com que estejamos a envelhecer mais depressa do que a enriquecer, muito por força de taxas de emprego elevadas, mas assentes em baixos salários, o que tem levado a um declínio da fertilidade. Precisamos, por isso, de continuar a aumentar a qualidade de vida dos nossos idosos - libertando-os da pobreza e garantindo melhores cuidados de saúde - mas temos de criar condições para que seja possível compatibilizar trabalho com a possibilidade de ter filhos. A escola a tempo inteiro e a universalização da rede de pré-escolar foram passos decisivos nesse sentido. O desafio agora é, por exemplo, aumentar a taxa de cobertura de creches, dos actuais 30% para um valor que permita de facto compensar o envelhecimento da população com o nascimento de mais crianças.
texto publicado no Diário Económico como comentário a este estudo.
Não deixa de ser paradoxal que o que durante muito tempo foi uma ambição quase utópica, uma vez concretizado, se tenha transformado na questão social dominante.
O efeito conjugado da melhoria dos cuidados de saúde, do ‘baby-boom' do pós-guerra e da actual baixa da natalidade, criou um mundo em que, pela primeira vez, o número de pessoas com mais de 65 anos superará o de crianças com menos de cinco. Esta é uma história de sucesso, mas torná-la sustentável passou a ser um desafio difícil de enfrentar.
Portugal encontra-se, a este como a muitos outros respeitos, numa situação particularmente preocupante: combina traços de modernidade (é um dos países mais envelhecidos) com marcas do passado persistentes. O que faz com que estejamos a envelhecer mais depressa do que a enriquecer, muito por força de taxas de emprego elevadas, mas assentes em baixos salários, o que tem levado a um declínio da fertilidade. Precisamos, por isso, de continuar a aumentar a qualidade de vida dos nossos idosos - libertando-os da pobreza e garantindo melhores cuidados de saúde - mas temos de criar condições para que seja possível compatibilizar trabalho com a possibilidade de ter filhos. A escola a tempo inteiro e a universalização da rede de pré-escolar foram passos decisivos nesse sentido. O desafio agora é, por exemplo, aumentar a taxa de cobertura de creches, dos actuais 30% para um valor que permita de facto compensar o envelhecimento da população com o nascimento de mais crianças.
texto publicado no Diário Económico como comentário a este estudo.
sábado, 25 de julho de 2009
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Os problemas da visibilidade
Uma das reformas eternamente reclamadas pelos partidos na oposição, mas logo abandonada uma vez chegados ao poder, é a do Parlamento. Esta verdade com lastro foi colocada em causa nesta legislatura. Foi aprovado um novo regimento, por vontade de uma maioria absoluta, e São Bento ganhou uma nova centralidade no debate político. Nada disto aconteceu sem que velhos problemas se tornassem mais visíveis e que novos fossem revelados.
Apesar de, por força da maioria absoluta, os equilíbrios parlamentares não terem sido determinantes para a governabilidade, a disputa política no Parlamento foi muito visível. Este contexto expôs o primeiro-ministro a um nível de sindicância que não encontra paralelo na democracia portuguesa, mas revelou que a nossa cultura política não está ainda preparada para debates sistemáticos que vão para além de velhos vícios. Para que os debates plenários combinem visibilidade com eficácia têm de se centrar mais nas políticas e menos na política, o que implicará uma participação mais activa dos ministros.
Mas esta legislatura fica também marcada por um nível de conflitualidade inédito entre Belém e Parlamento. Os 11 vetos de Cavaco Silva – que comparam com 5 de Soares e 4 de Sampaio – foram todos a Leis da Assembleia, muitas delas assentes em maiorias mais amplas do que a governamental. Nunca saberemos se a escolha do Parlamento como objecto de dissensão foi uma forma de enfrentar a maioria governamental através de um elo com pior imagem pública (o Parlamento), ou se foi apenas acaso. Mas em política não costuma haver coincidências.
artigo publicado no DN a propósito dos trabalhos parlamentares durante esta legislatura.
Apesar de, por força da maioria absoluta, os equilíbrios parlamentares não terem sido determinantes para a governabilidade, a disputa política no Parlamento foi muito visível. Este contexto expôs o primeiro-ministro a um nível de sindicância que não encontra paralelo na democracia portuguesa, mas revelou que a nossa cultura política não está ainda preparada para debates sistemáticos que vão para além de velhos vícios. Para que os debates plenários combinem visibilidade com eficácia têm de se centrar mais nas políticas e menos na política, o que implicará uma participação mais activa dos ministros.
Mas esta legislatura fica também marcada por um nível de conflitualidade inédito entre Belém e Parlamento. Os 11 vetos de Cavaco Silva – que comparam com 5 de Soares e 4 de Sampaio – foram todos a Leis da Assembleia, muitas delas assentes em maiorias mais amplas do que a governamental. Nunca saberemos se a escolha do Parlamento como objecto de dissensão foi uma forma de enfrentar a maioria governamental através de um elo com pior imagem pública (o Parlamento), ou se foi apenas acaso. Mas em política não costuma haver coincidências.
artigo publicado no DN a propósito dos trabalhos parlamentares durante esta legislatura.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
A alegria do povo
Quem não se emociona com isto, não anda cá a fazer muita coisa.
(roubado ao Manel)
p.s.
espero muito do fruto da jovem rapariga que por ali se vê com o Kun Aguero.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Bons tempos para se estar vivo
"I used to be darker, then I got lighter, then I got dark again
Something to be seen was passing over and over me
Well it seemed like the routine case at first
With the death of the shadow came a lightness of verse
But the darkest of nights, in truth, still dazzles
And I wore myself until I'm frazzled"
Há desejos que não precisam de ser concretizados. Ao contrário do que sugere o título - Sometimes I wish we were an eagle -, o novo álbum de Bill Callahan é mesmo feito por uma águia (se bem que fique a dúvida sobre até onde se estende o plural). A música que nele se ouve paira alta, é contida e, olhando para as coisas à distância, confere-lhes perspectiva. À voz grave e às guitarras no sítio certo, junta-se desta vez o mais coerente conjunto de canções que Callahan alguma vez fez. Canções que ganham uma textura mais rica, agora que definitivamente o ex-Smog optou por arranjos com mais orquestrações e com um naipe de instrumentos mais diverso. John Darnielle, o líder dos Mountain Goats, escreveu no seu blog, a propósito deste disco, que "someday you will brag that you were around when stuff this good was being written". Convém não deixarmos passar muito tempo até esse momento, acrescentaria eu.
terça-feira, 21 de julho de 2009
A classe média portuguesa
Frequentemente, quando se fala de classes médias em Portugal julgamos estar a falar de agregados com rendimentos em redor dos 2 mil euros mensais. Convém, no entanto, ter presente que a mediana salarial no sector privado encontra-se em redor dos 700 euros, ou seja, 50% da população portuguesa ganha até 700 euros (valor que aumenta se considerarmos o emprego no sector público). Ora são estas famílias que compõem o grosso da classe média. Para aliviar a sua situação material não podemos recorrer às políticas de protecção social, ao mesmo tempo que não podemos ficar à espera que o padrão de especialização da economia portuguesa se modernize o suficiente para permitir ganhos salariais significativos. Qual é o caminho que resta? Recorrer a instrumentos fiscais que redistribuam a favor das "famílias sanduíche", naturalmente retirando benefícios a quem tem rendimentos bem acima da mediana. Pode ser impopular dizê-lo, mas se nada for feito, estamos condenados a ter um conjunto crescente de famílias para as quais a ausência de expectativas sociais se transformará inevitavelmente numa desafectação face ao sistema político.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
sábado, 18 de julho de 2009
É fazer as contas
Os 14 redactores do documento provêem de diversas áreas (economia, universidade e cultura) e assumem-se como independentes. São eles: Ana Luísa Amaral, Ana Maria Pereirinha, António Pinto Ribeiro, Clara Macedo Cabral, Isabel Allegro de Magalhães, Isabel Hub Faria, Jean Barrocas, Joana Rigatto, João Ferreira do Amaral, João Sedas Nunes, Laura Ferreira dos Santos, Luís Filipe Rocha, Luís Moita, Luís Mourão, Margarida Gil, Maria do Céu Tostão, Maria Eduarda Gonçalves, Maria Helena Mira Mateus, Maria Manuela Silva, Mário Murteira, Mário Ruivo, Miguel Caetano, Philipp Barnstorf, Teresa Pizarro Beleza e Soromenho Marques.
Do Público online.
Do Público online.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Quem é afinal da classe média?
O Francisco José Viegas insurge-se aqui contra a prioridade que o PS pretende dar às classes médias no próximo programa eleitoral. Para ele, mais do que qualquer tipo de apoio, a classe média caracteriza-se por "querer que a deixem em paz – e que, por favor, não se ocupem dos seus interesses. Basta que não atrapalhem." Quando leio estas afirmações, fico sempre com a sensação de que anda tudo a falar de classes médias diferentes e que a classe média está para as prioridades políticas como o liberalismo para os princípios. Todos se declaram liberais, do mesmo modo que todos querem ajudar a classe média. O problema é quando se tem de passar dos posts à prática. Talvez a melhor forma de definir classe média acabe por ser através dos rendimentos e o problema em Portugal - como aliás mostram os dados do INE publicados ontem - já não são essencialmente (sublinhe-se o essencialmente) as formas mais severas de pobreza, que têm hoje já um conjunto de respostas, mais ou menos eficazes, mas que produzem resultados. O problema é mesmo que o salário mediano no sector privado está em redor dos 700 euros, ou seja, 50% da população portuguesa ganha até 700 euros (suspeito que o emprego no sector público faça subir ligeiramente o valor da mediana). Imagino que seja isto a classe média, a maioria dos portugueses que já não é abrangida por mecanismos de protecção social, mas que trabalha e tem salários muito baixos. Talvez valha a pena perguntar a estes portugueses se foram assolados por uma pandemia liberal e se não querem ser atrapalhados por políticas públicas que perturbem a sua paz. A paz de quem vive, note-se, com 700 euros por mês.
(a propósito do diferencial salarial entre sector privado e público, acabei de encontrar esta notícia de hoje).
(a propósito do diferencial salarial entre sector privado e público, acabei de encontrar esta notícia de hoje).
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Ter quinze anos

A partir das onze horas de Lisboa, vou estar aqui, de novo com quinze anos e pronto para assistir ao desempate. Que ganhem os dois.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Excesso de licenciados?
para quem investiu numa licenciatura, o desemprego ou um emprego desajustado às suas qualificações gere um sério problema de gestão de expectativas. Ainda assim, por muito que isso frustre as expectativas dos próprios, colectivamente temos a ganhar se mesmo profissões que tradicionalmente não requerem licenciaturas forem desempenhadas por licenciados. É uma situação difícil de gerir para quem a vive, mas, por exemplo, um taxista licenciado em direito desempenhará melhor a sua profissão do que um taxista com problemas de literacia ou incapacidade de falar línguas estrangeiras e ter uma licenciatura ajudará, certamente, a que tenha expectativas realistas de mobilidade profissional. O problema não é haver muitos juristas, é continuarmos a pensar que todos os juristas vão ser advogados ou juízes.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
O exemplo da Fiorentina

Há uns anos, assisti ao que pensava ser um processo improvável. A Fiorentina acabou como clube de futebol, entrou em insolvência e foi afastada dos campeonatos profissionais. Ao mesmo tempo, era criado um novo clube, com outro nome, mas que começava a competir desde as primeiras divisões regionais. Uns anos passados, a Fiorentina refundada está de regresso à série A e voltou a ser uma das “sette sorelle” que dominam o futebol italiano. Ou seja, há certas alturas em que o melhor que as instituições podem fazer mesmo é refundarem-se. Começarem tudo de novo. Quando leio notícias sobre o triângulo entre o PS nacional, o PS Porto e a candidata Elisa Ferreira, fico sempre com a sensação que o melhor que havia a fazer era reconhecer a situação de insolvência e começar de novo. Todos, militantes e independentes.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Prioridades
Ricardo, falar com o Amarante? Para cumprir a profecia do poeta que citas, não teria sido mais compreensível se tivesses ido ter com esta rapariga?
terça-feira, 7 de julho de 2009
A telescola ao contrário
Hoje o i tem uma entrevista onde Filomena Mónica revela as preciosidades do costume. A Ler deste mês tem uma excelente entrevista a Vasco Pulido Valente, que está naturalmente a anos luz da de Filomena Mónica. Contudo, ficamos a saber que ambos partilham uma característica: não saem de casa e não escondem a misantropia, que só pode coexistir com um desconhecimento profundo da vida das pessoas que existem mesmo, fora do saber livresco. Para quem gosta tanto de glosar, de modo aparentemente sofisticado, a expressão “isto só em Portugal”, é caso para dizer mesmo: só em Portugal é que é possível fazer carreira académica e, mais relevante, surgir como eminência intelectual, ao mesmo tempo que se faz gala em afirmar que se desconhece a realidade. Não há mal nenhum na misantropia, e até há boas razões para a atitude, mas a misantropia limita também a possibilidade de falar com propriedade do que de facto se passa e existe “à volta”. Depois, fico sempre com uma dúvida: não é no mínimo estranho que quem tem responsabilidades académicas em instituições públicas se vanglorie de estar sempre em casa? Estamos perante uma telescola ao contrário, onde são os alunos que estão na escola e os professores em casa? Ou contactar com alunos, orientá-los e dar aulas deixou de fazer parte das exigências de uma carreira académica, mesmo que de investigador emérito?
Aumentar impostos
Em Portugal, estamos abaixo da média europeia em carga fiscal, no entanto, temos um nível de desigualdades que nos envergonha colectivamente. E a verdade é que são os países com uma maior carga fiscal, mas, também, com maior progressividade nos seus sistemas fiscais, aqueles onde as desigualdades são menores. Seremos capazes de romper este bloqueio? Aparentemente não, já que vivemos armadilhados numa teia onde os políticos temem falar dos impostos como instrumento de promoção de justiça social. Ora, conjuntamente com as políticas de mínimos sociais, a utilização do sistema fiscal é uma das formas mais eficazes de compensar desigualdades de rendimentos excessivas, formadas no mercado.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
I've a dream
Tenho uma secreta esperança que esta malta do Crawdaddy reúna todos estes vídeos do concerto dos Mountain Goats e os edite num DVD que depois encimará as tabelas de vendas da Amazon.
O calendário
Com eleições separadas apenas por duas semanas, seria difícil de compreender que os partidos apresentassem o mesmo candidato a dois cargos. Se assim acontecesse, seria a própria possibilidade de vitória dos “candidatos-duplos” que estaria posta em causa. Mas esta decisão do PS é duplamente tardia: em primeiro lugar porque, efectivamente, muda as regras a meio do jogo (apesar de a nova regra fazer todo o sentido); depois porque revela, mais uma vez, que os partidos ou desconheciam os calendários eleitorais ou não são capazes de antecipar problemas. Este episódio das duplas candidaturas é apenas mais um, a somar por exemplo ao facto de se prepararem para apresentar os programas eleitorais no final de Julho (neste aspecto o caso do PSD é manifestamente mais gritante, pois nada se sabe quanto ao programa, o que não sucede no do PS – onde pelo menos desde o último congresso são conhecidas algumas prioridades programáticas).
O provedor
"O provedor interroga-se sobre se a falha relatada por José Manuel Fernandes não terá sido potenciada por falta de “vontade política”, isto é, aconteceu com o manifesto dos 51 mas nunca aconteceria com o dos 28. E isso diz do grau de empenho do jornal numa notícia e na outra, ou seja, da opinião que, sem o declarar, o PÚBLICO expressa sobre os manifestos."
vale mesmo a pena ler o texto de Joaquim Vieira, provedor do Público.
vale mesmo a pena ler o texto de Joaquim Vieira, provedor do Público.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
dying is fine, but Death o baby.
No campeonato de bandas de betos com inclinação freak do estado de Nova Iorque, os Ra Ra Riot não perdem por muito para os seus primos chegados Vampire Weekend (aliás, se pensarmos na importância do violoncelo, até ficam manifestamente a ganhar). Aliás, uma das coisas que me ultrapassou no ano passado, foi o hype em torno dos segundos quando comparado com a clandestinidade em que viveu Rhumb Line, dos primeiros. Este Dying is fine - que parte de um poema do e.e. cummings - é uma música do caraças, boa para ouvir no Ipod em viagens de metro.
quinta-feira, 2 de julho de 2009

A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.
Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.
Sophia de Mello Breyner Andersen (6 de Novembro de 1919 — Lisboa, 2 de Julho de 2004)
terça-feira, 30 de junho de 2009
Famílias Sanduíche
o estudo da TESE serve para revelar aquele que é, hoje, o principal estrangulamento da sociedade portuguesa: há um conjunto de famílias que beneficiando de recursos materiais que são suficientes para as excluírem do acesso às prestações sociais de combate à pobreza, têm contudo recursos insuficientes para fazer face às suas despesas e cumprir expectativas e aspirações naturais de vida. Essas famílias são adequadamente descritas como "famílias sanduíche": estão fora da rede de apoios sociais de combate à pobreza, mas não deixam por isso de ser pobres. Esta asfixia das classes médias baixas tem várias consequências. Com os fracos rendimentos não são só as famílias portuguesas que estão ensanduichadas, é a própria democracia. Sem classes médias cooptadas para o sistema, a democracia vive uma permanente crise de legitimidade. E não há cooptação possível quando as classes médias vivem maioritariamente com menos de 900 euros por mês e, não menos grave, com a percepção que as trajectórias de mobilidade social ascendente que, ainda assim, tiveram, não se reproduzirão nos seus filhos. Não por acaso, o estudo revela que 70% dos portugueses não confia nas instituições que nos governam.
Romper este ciclo de precariedade consolidada, ao qual se tem juntado um conjunto de rupturas recentes (desde logo o crescimento do desemprego), e com isso aliviar as classes médias baixas tem de ser o desafio do próximo ciclo político. O objectivo não pode apenas passar por continuar a responder às formas mais severas de pobreza, como revela este estudo, é urgente encontrar soluções para os que estando acima da linha de pobreza, não deixam por isso de ser pobres.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
Romper este ciclo de precariedade consolidada, ao qual se tem juntado um conjunto de rupturas recentes (desde logo o crescimento do desemprego), e com isso aliviar as classes médias baixas tem de ser o desafio do próximo ciclo político. O objectivo não pode apenas passar por continuar a responder às formas mais severas de pobreza, como revela este estudo, é urgente encontrar soluções para os que estando acima da linha de pobreza, não deixam por isso de ser pobres.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Falar verdade
A drª Ferreira Leite afirmou no final da semana, com uma veemência que se lhe desconhecia, que ia rasgar todos as políticas do actual executivo (com excepção da reforma da segurança social). Ora uma das coisas que o País não precisa mesmo é de sistemáticas rupturas profundas nas políticas depois de cada ciclo eleitoral. De facto, é aliás muito pouco provável que se Ferreira Leite vier a ser Primeira-Ministra rasgue mesmo todas as políticas anteriores. Logo, das duas uma: ou Ferreira Leite é politicamente irresponsável ou não está a falar verdade. Eu prefiro que a segunda hipótese seja a verdadeira.
Noutro mundo
O disco dos Wilco está finalmente acessível legalmente ao público. No meio de boas canções, está lá uma balada a vozes meias entre o Jeff Tweedy e a Leslie Feist. Se isto fosse um mundo normal, esta canção seria um hit incontornável do Verão. É preciso ter tido uma vida fodida, como o Tweedy teve, para depois se conseguir fazer uma coisa assim meia sentimentalona sem soar lamechas. Depois, claro, há a Feist. (já agora gostava que me explicassem qual a razão para raparigas como a Feist, quando abraçam ou beijam com carinho, levantarem uma das pernas).
quarta-feira, 24 de junho de 2009
O nosso esqui
O surf está um pouco por todo o lado. Hoje, quer seja numa praia, quer num anúncio televisivo, é difícil não nos cruzarmos quotidianamente com uma prancha, que sugere invariavelmente uma ideia de liberdade.
Esta presença quase hegemónica do surf coexiste com uma desvalorização do papel económico do desporto. Apesar de não haver quem não valorize o papel do mar como alavanca de um novo modelo de desenvolvimento para o país, estamos muito longe de concretizar esse objectivo e de fazer do surf um aspecto central da associação entre ‘mar’ e a ‘marca Portugal’. O que é tanto mais estranho quanto o surf poderia estar para o turismo português como os desportos de neve estão para os Alpes suíços. O turismo de surf não é um turismo de massas, é sustentável e continuado, e um nicho de mercado sólido e em crescimento. E abundam pela Europa casos de desenvolvimento virtuoso de regiões inteiras, literalmente “puxadas” pelo esqui. Portugal tem um clima temperado, ondas de qualidade, surfáveis durante todo o ano, centralidade (quando comparado com outros destinos de surf) combinada com baixa ocupação das praias na época alta do surf (fora do Verão). O surf poderia ser o nosso esqui, mas, também, o novo golf.
Para que isso acontecesse era preciso que o surf fosse olhado não apenas como uma modalidade desportiva ou um estilo de vida, mas, também, como um bem económico com enorme potencial de expansão, de que o conjunto da sociedade beneficiaria. O que está longe de acontecer.
Publicado no i (que hoje dedica duas páginas ao surf)
Esta presença quase hegemónica do surf coexiste com uma desvalorização do papel económico do desporto. Apesar de não haver quem não valorize o papel do mar como alavanca de um novo modelo de desenvolvimento para o país, estamos muito longe de concretizar esse objectivo e de fazer do surf um aspecto central da associação entre ‘mar’ e a ‘marca Portugal’. O que é tanto mais estranho quanto o surf poderia estar para o turismo português como os desportos de neve estão para os Alpes suíços. O turismo de surf não é um turismo de massas, é sustentável e continuado, e um nicho de mercado sólido e em crescimento. E abundam pela Europa casos de desenvolvimento virtuoso de regiões inteiras, literalmente “puxadas” pelo esqui. Portugal tem um clima temperado, ondas de qualidade, surfáveis durante todo o ano, centralidade (quando comparado com outros destinos de surf) combinada com baixa ocupação das praias na época alta do surf (fora do Verão). O surf poderia ser o nosso esqui, mas, também, o novo golf.
Para que isso acontecesse era preciso que o surf fosse olhado não apenas como uma modalidade desportiva ou um estilo de vida, mas, também, como um bem económico com enorme potencial de expansão, de que o conjunto da sociedade beneficiaria. O que está longe de acontecer.
Publicado no i (que hoje dedica duas páginas ao surf)
terça-feira, 23 de junho de 2009
Um Presidente da República
A crer na TSF, Cavaco Silva terá afirmado conhecer sondagens favoráveis à realização de eleições em simultâneo. Ora aqui está um tema que deve ser mesmo sondado e cuja decisão deve ser tomada com base no que as sondagens dizem. Imaginem por um momento que a mesma sondagem que Cavaco conhece (já agora, feita por quem? paga por quem?) revelava que os portugueses eram favoráveis a que não se realizassem eleições de todo ou que o nosso sistema evoluísse para o presidencialismo. O que é que o Presidente da República fazia?
Estes economistas

Há vários meses que na faculdade onde dou aulas está pintado numa parede uma inscrição que pergunta, “estes economistas, para quê?”.
Quando li o manifesto dos 28 foi essa a questão que me veio à cabeça. Na verdade, há um manifesto que eu, enquanto não-economista, esperava ver escrito. Um manifesto que reflectisse sobre o falhanço do mesmo saber técnico que agora é invocado para intervir politicamente na previsão do que aconteceu à economia mundial ou sobre a incapacidade de construir respostas políticas que prevenissem o descalabro. Por exemplo, não seria de esperar que se assistisse a um questionamento crítico do Pacto de Estabilidade que tantos entraves criou ao crescimento económico no espaço europeu?
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Provar do próprio veneno
O jornal A Bola publica hoje um artigo que se baseia no mesmíssimo tipo de critérios jornalísticos que a TVI costuma usar. Basicamente, a candidatura de Moniz à presidência do Benfica faria parte de um grande complot espanhol para comprar o Benfica. Provas e evidências eram naturalmente poucas, o que sobrava eram suspeições e uns quantos nexos causais frágeis. Imaginem só o que Moniz decidiu fazer: vai processar o director da bola e o autor da peça. Curioso, não é. Não há nada como provar do próprio veneno para aprender. Resta saber se aprende.
sábado, 20 de junho de 2009
Do amiguismo
Escrever sobre o mar e as ondas não é tarefa fácil. Isto é tanto mais verdade quanto melhor for a escrita, maior a sua depuração, e mais interessantes os pontos de contacto existentes entre o lirismo da paixão pelo mar e a vida passada em terra. É por tudo isto que as crónicas do Pedro Adão e Silva são, há já alguns anos, uma referência incontornável do surf escrito em língua portuguesa. Daí que só os distraídos se permitam surpreender por estas crónicas passarem agora a livro.
Assim, é com o mais supremo prazer (fazendo nossas as palavras do James Cook quando viu um gajo em cima de uma tábua há uma porrada de anos atrás, e que o Pedro tão bem cita na epígrafe do livro) que anunciamos o lançamento de "Sal na Terra", pela editora Bertrand, a partir de hoje nas livrarias de todo o país. O livro reúne crónicas do Pedro publicadas na SURFPortugal durante os últimos anos, recuperando oportunamente o título do seu espaço na revista. Para além das crónicas arrumadas em livro, há ainda as fotografias. Destas podemos dizer que foram captadas pelo Ricardo Bravo e complementam na perfeição uma série de textos singulares capazes de percorrer a distância entre Kelly Slater e Cesare Pavese, passando por Zico ou Tiago Pires.
O volume agora editado, a que o poeta José Tolentino Mendonça se refere no prefácio como "um dos mais belos livros da poesia portuguesa", será apresentado por Francisco José Viegas no próximo dia 23 de Junho, às 18:30, na livraria Ler Devagar, agora na LX Factory. Considerem-se convidados.
Vasco Mendonça, no site da SurfPortugal.
Assim, é com o mais supremo prazer (fazendo nossas as palavras do James Cook quando viu um gajo em cima de uma tábua há uma porrada de anos atrás, e que o Pedro tão bem cita na epígrafe do livro) que anunciamos o lançamento de "Sal na Terra", pela editora Bertrand, a partir de hoje nas livrarias de todo o país. O livro reúne crónicas do Pedro publicadas na SURFPortugal durante os últimos anos, recuperando oportunamente o título do seu espaço na revista. Para além das crónicas arrumadas em livro, há ainda as fotografias. Destas podemos dizer que foram captadas pelo Ricardo Bravo e complementam na perfeição uma série de textos singulares capazes de percorrer a distância entre Kelly Slater e Cesare Pavese, passando por Zico ou Tiago Pires.
O volume agora editado, a que o poeta José Tolentino Mendonça se refere no prefácio como "um dos mais belos livros da poesia portuguesa", será apresentado por Francisco José Viegas no próximo dia 23 de Junho, às 18:30, na livraria Ler Devagar, agora na LX Factory. Considerem-se convidados.
Vasco Mendonça, no site da SurfPortugal.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Em Nashville também está muito calor
St. Vincent "Actor Out Of Work" from Lake Fever Sessions on Vimeo.
"I don't even think I own an acoustic guitar" (e há mais aqui)
quarta-feira, 17 de junho de 2009
terça-feira, 16 de junho de 2009
6ª feira, todos ao Frágil

Os 20 anos do disco dos Stone Roses são um pretexto como outro qualquer para uma boa festa.
Um país paralisado
a moção de censura que amanhã o CDS apresentará, e que terá o apoio do PSD, sendo uma versão extrema da acusação de falta de legitimidade política do executivo para Governar que surgiu na sequência das europeias, funciona como antevisão do país que poderemos ter daqui a um ano. E a última coisa que nos faltava acrescentar à crise era um país paralisado por uma crise de legitimidade política do Governo. Que seja sugerido que o país pare já, em Junho, quando não haverá novo executivo até Novembro, tem apenas uma virtude: antecipa o que pode ser a paisagem política no próximo ano.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Saber envelhecer
Há uns tempos li que o John Peel teria dito que um sintoma da sanidade da sua família era o facto de, trinta anos depois, gostarem de ir juntos - filhos incluídos - a concertos dos The Fall. Os Sonic Youth têm um disco novo. Na verdade, é igual a quase todos os outros: uma lição sobre o que fazer com as guitarras, onde aproveitam para mostrar como como se pode manter a energia pop adolescente e combiná-la com a maturidade de quem já abriu todos os caminhos no rock. A Kim Gordon continua com as melhores pernas do Rock e o Thurston Moore parece estar sempre mais novo, para compensar o cabelo do Lee Ranaldo e os kilos a mais do Steve Shelley. Isto tudo porque eu hei um dia de ir a um concerto dos Sonic Youth com os meus filhos.
(devo confessar que só tive a certeza que Nova Iorque existia como de facto se diz que ela é quando um dia me virei e atrás do meu ombro estava o Lee Ranaldo com a mulher e os filhos)
Retratos de um País
Comendador Moita Flores (Alexandre Herculano está claramente abalado pela notícia).
quinta-feira, 11 de junho de 2009
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Este tipo vai longe
Não sei se estão recordados do episódio não muito distante no qual Paulo Rangel se insurgia contra o facto do primeiro-ministro não querer debates quinzenais durante a campanha para as europeias. Curiosamente, a decisão havia sido tomada em conferência de líderes e por unanimidade. O que faz todo o sentido, aliás, tendo em conta que estava a decorrer uma campanha eleitoral, provavelmente nem deveriam existir sessões plenárias. Pois, para o que importa, o Dr. Rangel é líder de um grupo parlamentar e o seu grupo parlamentar havia concordado com a decisão que, passado uns dias, daria o direito ao Dr. Rangel de se indignar. Ontem voltou à carga. A propósito da lamentável lei do financiamento partidário, que em boa hora o Presidente vetou, o Dr. Rangel vem agora dizer que, no fundo, sempre foi contra a lei em questão - “O PSD nunca pretendeu que estas alterações que motivaram o veto do senhor Presidente da República fossem avante”. Elucidativo, votou a favor, mas era contra. Durante algum tempo, quando ouvia o Dr. Rangel, ficava sempre com uma dúvida: como é que tinha feito parte do Governo de Santana Lopes? Começa a perceber-se melhor e há uma coisa que fica claro: estamos perante alguém que vai longe. Não tenham dúvidas.
terça-feira, 9 de junho de 2009
Rupturas à esquerda
O resultado das europeias criou uma grande responsabilidade aos partidos de esquerda: criar condições de governabilidade a partir de uma maioria eleitoral. Não é fácil e implica várias rupturas.
O PS, depois de ter tido um resultado que é, em votos expressos, o mais baixo de sempre e em percentagem só ultrapassado pelos seus mínimos históricos de 1985 e 1987, precisa de reflectir sobre a narrativa política que desenvolveu nesta legislatura e sobre o modo como olha para esta crise.
Esta dupla reflexão implica que o PS não se limite a manter o rumo seguido, numa estratégia cega perante o que os portugueses pensam e insensível à dimensão da crise internacional.
Durante muito tempo, o sucesso do actual Governo foi atribuído ao modo como combatia os interesses corporativos. Os resultados eleitorais vêm revelar que, em democracia, não é possível reformar eficazmente sem estabelecer coligações sociais. Por exemplo, tomar o movimento sindical como adversário é impensável para um partido de centro-esquerda. Por outro lado, esta crise requer soluções que não sejam repetições do passado e obriga a que o centro-esquerda reflicta, de facto, sobre o seu papel na construção dos modelos de regulação que nos trouxeram até aqui.
Os partidos de extrema esquerda têm uma responsabilidade não menor. Com um resultado que supera os pontos mais altos do PC (em 1979), contraíram a obrigação de transformar voto de protesto em mudança efectiva. Para tal, precisam, antes de tudo, de abandonar a tradição de escolher o PS como adversário preferencial e recentrar as suas reivindicações programáticas (por exemplo, o absurdo de exigir a saída de Portugal da NATO).
Serão capazes? Acho muito difícil, como prova a experiência autárquica em Lisboa. Mas uma coisa é certa, os eleitores não perdoarão que o esforço não seja feito.
versão integral de um texto publicado hoje no Diário de Notícias.
O PS, depois de ter tido um resultado que é, em votos expressos, o mais baixo de sempre e em percentagem só ultrapassado pelos seus mínimos históricos de 1985 e 1987, precisa de reflectir sobre a narrativa política que desenvolveu nesta legislatura e sobre o modo como olha para esta crise.
Esta dupla reflexão implica que o PS não se limite a manter o rumo seguido, numa estratégia cega perante o que os portugueses pensam e insensível à dimensão da crise internacional.
Durante muito tempo, o sucesso do actual Governo foi atribuído ao modo como combatia os interesses corporativos. Os resultados eleitorais vêm revelar que, em democracia, não é possível reformar eficazmente sem estabelecer coligações sociais. Por exemplo, tomar o movimento sindical como adversário é impensável para um partido de centro-esquerda. Por outro lado, esta crise requer soluções que não sejam repetições do passado e obriga a que o centro-esquerda reflicta, de facto, sobre o seu papel na construção dos modelos de regulação que nos trouxeram até aqui.
Os partidos de extrema esquerda têm uma responsabilidade não menor. Com um resultado que supera os pontos mais altos do PC (em 1979), contraíram a obrigação de transformar voto de protesto em mudança efectiva. Para tal, precisam, antes de tudo, de abandonar a tradição de escolher o PS como adversário preferencial e recentrar as suas reivindicações programáticas (por exemplo, o absurdo de exigir a saída de Portugal da NATO).
Serão capazes? Acho muito difícil, como prova a experiência autárquica em Lisboa. Mas uma coisa é certa, os eleitores não perdoarão que o esforço não seja feito.
versão integral de um texto publicado hoje no Diário de Notícias.
O espectro da ingovernabilidade
Não sabemos se com as europeias o que esteve em causa foi essencialmente a mobilização de voto de protesto face a um Governo que construiu a sua imagem com um discurso de confronto às corporações e que se revelou impotente para contrariar a crise económica e o crescimento do desemprego - e que com isso desbaratou o seu capital junto da esquerda sociológica - ou se, pelo contrário, estamos perante um novo ciclo político, em que o centro-direita inverte a tendência eleitoral recente. Mas uma coisa sabemos, a pulverização partidária, a somar à crise económica e social, e, em particular, o facto de PS e PSD terem resultados conjugados particularmente baixos - só superiores à percentagem alcançada em 1985, com o PRD - é um passo para a reconfiguração do espectro partidário português. Não vejo como essa reconfiguração possa ocorrer sem pôr em causa a governabilidade do país e sem contribuir para o aprofundamento da crise que vivemos.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Assino por baixo
A principal preocupação que me acompanha, agora como antes, é a da governabilidade. Portugal é um país pobre, com falta de qualificação das pessoas e das organizações, com um Estado fraco e insuficiente, em que a falta de sentido da responsabilidade é larvar - e não sairemos desse estado se cedermos por sistema a toda a colecção de egoísmos de grupo que continuam a ser a matriz básica da nossa vida colectiva. E há uma fatia grande do “povo de esquerda” que não compreende isso. E não será possível dar uma resposta política a essa situação se não se compreender o fenómeno de fragmentação da esquerda que levou ao estado lastimoso (por exemplo) da esquerda francesa. Aqueles que pensam que sairão vencedores desta situação varrendo os socialistas da cena - serão os arquitectos de uma paisagem política à francesa, com uma direita instalada e sem verdadeiro contraponto.
Porfírio Silva, no Outubro.
Porfírio Silva, no Outubro.
Do baú
A confrontação com os actores sectoriais tem sido uma forma eficaz para que aos olhos do “interesse comum” as mudanças sejam percepcionadas como legítimas. Mas não deixa de ser verdade que numa democracia ainda longe da institucionalização, esta estratégia produz danos colaterais. Portugal precisa de mais e não de menos factores de intermediação entre a sociedade e a esfera política e a valorização da negociação é uma das poucas formas conhecidas de tornar orgânica a representação da sociedade. Com uma crescente pulverização dos interesses organizados, a ancoragem política dos blocos sociais fica ainda mais frágil e a estabilidade do sistema partidário será, no médio prazo, afectada. Também aqui, o eleitorado tenderá a fugir e, no que é grave, quando o fizer, fá-lo-á sem rumo.
daqui.
daqui.
O fim de qualquer coisa
Alguns factos: o PS teve o seu pior resultado de sempre em número de votos e em percentagem só melhor do que 1985 e 1987.
Ao contrário do que aconteceu quando o PS se aproximou dos seus mínimos, o PSD cresceu muito pouco (teve 28.77% com Santana e agora 31.6% com Ferreira Leite e Rangel).
BE e PCP juntos ultrapassam largamente os melhores resultados do PCP, em redor dos 18% em 1979 e 1983.
Ao mesmo tempo, votou mais gente do que nas últimas europeias.
Para já, ainda não sabemos se os eleitores expressaram, de modo racional, o seu protesto com poucos custos para a governabilidade (a propósito, a moção de censura de Portas e a afirmação de Rangel de que a legitimidade para governar está diminuída, devem ter sido as únicas coisas positivas para José Sócrates ontem à noite) e, quando estiver em causa, de facto, a governação do país, a tendência para a bipartidarização regressará ou se, pelo contrário, os três blocos (PSD+CDS; PS; e BE+PCP), que vivem de costas voltadas, são uma realidade que veio para ficar? Se a segunda hipótese for a verdadeira, temo que o que se inaugurou ontem não signifique o início de nada, mas represente apenas o fim de qualquer coisa.
Ao contrário do que aconteceu quando o PS se aproximou dos seus mínimos, o PSD cresceu muito pouco (teve 28.77% com Santana e agora 31.6% com Ferreira Leite e Rangel).
BE e PCP juntos ultrapassam largamente os melhores resultados do PCP, em redor dos 18% em 1979 e 1983.
Ao mesmo tempo, votou mais gente do que nas últimas europeias.
Para já, ainda não sabemos se os eleitores expressaram, de modo racional, o seu protesto com poucos custos para a governabilidade (a propósito, a moção de censura de Portas e a afirmação de Rangel de que a legitimidade para governar está diminuída, devem ter sido as únicas coisas positivas para José Sócrates ontem à noite) e, quando estiver em causa, de facto, a governação do país, a tendência para a bipartidarização regressará ou se, pelo contrário, os três blocos (PSD+CDS; PS; e BE+PCP), que vivem de costas voltadas, são uma realidade que veio para ficar? Se a segunda hipótese for a verdadeira, temo que o que se inaugurou ontem não signifique o início de nada, mas represente apenas o fim de qualquer coisa.
sexta-feira, 5 de junho de 2009
O empate técnico
O João Pinto e Castro chamou a atenção aqui para mais um exemplo do falhanço da escola pública. O Pedro Magalhães espanta-se com os títulos das notícias. Mas na verdade, é sempre possível ir mais longe. O Público hoje anuncia uma profunda ruptura paradigmática nas eleições de Domingo: o empate técnico como resultado eleitoral ("as vantagens obtidas em relação ao PSD não são, no entanto, significativas e, tendo em conta as margens de erro, o empate técnico é um dos resultados mais previsíveis").
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Eu vi o futuro do rock'n'roll

dois putos a solarem no concerto dos Wilco (se a memória não me atraiçoa, durante o Spiders (kidsmoke))
His goal in life was to be an echo
não deixa de ser espantoso que quem escreveu isto tenha passado por isto (cheguei a este texto através do Luís Azevedo Rodrigues).(Já agora, mais uma prova de como os espanhóis são imbatíveis no inglês)
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Eu e a minha senhora
O dr. Cavaco – político profissional aí há uns trinta anos – continua a ter um problema quando está sob pressão (legítima ou ilegitimamente, pouco importa). Hoje, mais uma vez, se calhar porque Fernando Lima não estava por perto, para dar uma mão, não se saiu bem.
Neste história das acções da SLN não há, na verdade, nenhum problema em si. Há apenas (o que em política não é pouco) um problema de gestão do assunto. Bem pode o Dr. Cavaco indignar-se, mas não vejo porque razão a sua “seriedade” deva estar imune ao escrutínio político e mediático. Ele é um político, exactamente igual aos outros políticos, pelo que tem de responder às questões incómodas, pertinentes, mas também às questões estúpidas e impertinentes que os jornalistas (com demasiada frequência, é verdade) colocam. Ora hoje, após ter manifestamente omitido um facto aquando do comunicado sobre o BPN, não deu um bom contributo para encerrar o assunto.
Antes de mais, o tom de vítima: “Eu e a minha mulher, antes de eu estar nesta posição, quando éramos apenas professores, não tínhamos as nossas poupanças debaixo do colchão, nem tão pouco no estrangeiro”. Na verdade, haverá muitos professores que têm tido perdas com a bolsa nos últimos meses e que viram as suas poupanças "desaparecidas". Mas a SLN, ao contrário do que Cavaco sugere quando nomeia outras empresas das quais detém acções, não está cotada em bolsa, pelo que não estou a ver que fosse fácil a um casal qualquer de professores adquirir acções desta empresa, como poderia adquirir da EDP, SONAE ou Brisa. Além de que não vejo como seria possível a um gestor de conta adquirir acções de uma empresa não cotada, ainda mais sem envolver o detentor das poupanças nesse processo. Depois, neste caso concreto, Cavaco e a sua mulher não perderam dinheiro, fizeram uma mais valia, se não estou em erro, de 140%. Claro que o lote de acções era reduzido e não estamos a falar, nem de longe, nem de perto, de um accionista de referência. Ou seja, estamos, de facto, perante uma mão cheia de nada, pelo que custa a perceber porque razão Cavaco não matou o assunto à nascença, deixou-o crescer e, hoje, como se não bastasse, veio ainda introduzir mais ruído. Deve ser porque não é um político profissional. Apesar de andar há trinta anos a fazer política.
Neste história das acções da SLN não há, na verdade, nenhum problema em si. Há apenas (o que em política não é pouco) um problema de gestão do assunto. Bem pode o Dr. Cavaco indignar-se, mas não vejo porque razão a sua “seriedade” deva estar imune ao escrutínio político e mediático. Ele é um político, exactamente igual aos outros políticos, pelo que tem de responder às questões incómodas, pertinentes, mas também às questões estúpidas e impertinentes que os jornalistas (com demasiada frequência, é verdade) colocam. Ora hoje, após ter manifestamente omitido um facto aquando do comunicado sobre o BPN, não deu um bom contributo para encerrar o assunto.
Antes de mais, o tom de vítima: “Eu e a minha mulher, antes de eu estar nesta posição, quando éramos apenas professores, não tínhamos as nossas poupanças debaixo do colchão, nem tão pouco no estrangeiro”. Na verdade, haverá muitos professores que têm tido perdas com a bolsa nos últimos meses e que viram as suas poupanças "desaparecidas". Mas a SLN, ao contrário do que Cavaco sugere quando nomeia outras empresas das quais detém acções, não está cotada em bolsa, pelo que não estou a ver que fosse fácil a um casal qualquer de professores adquirir acções desta empresa, como poderia adquirir da EDP, SONAE ou Brisa. Além de que não vejo como seria possível a um gestor de conta adquirir acções de uma empresa não cotada, ainda mais sem envolver o detentor das poupanças nesse processo. Depois, neste caso concreto, Cavaco e a sua mulher não perderam dinheiro, fizeram uma mais valia, se não estou em erro, de 140%. Claro que o lote de acções era reduzido e não estamos a falar, nem de longe, nem de perto, de um accionista de referência. Ou seja, estamos, de facto, perante uma mão cheia de nada, pelo que custa a perceber porque razão Cavaco não matou o assunto à nascença, deixou-o crescer e, hoje, como se não bastasse, veio ainda introduzir mais ruído. Deve ser porque não é um político profissional. Apesar de andar há trinta anos a fazer política.
terça-feira, 2 de junho de 2009
Um referendo nacional
Contudo, a partir de certa altura, o PS abandonou a sua linha inicial e passou ele próprio a querer fazer das europeias um referendo ao Governo e às oposições. Por estranho que possa parecer, a ideia aparenta não ter sido má. Se acreditarmos nos resultados das sondagens, pese embora a distância significativa face à maioria absoluta, esta mudança, consubstanciada na entrada de José Sócrates na campanha, coincide com uma recuperação das intenções de voto no PS. O que parece reflectir uma variável chave para o sucesso dos partidos de Governo neste tipo de eleições: a capacidade de mobilização do seu núcleo duro de eleitores.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
A abstenção e a inveja

Ando muito preocupado com a abstenção. Oferecem-nos coisas e depois não conseguimos valorizá-las de modo adequado. Ontem os Wilco estiveram no Coliseu e o cenário era deprimente: 1/3 da sala ocupada, na visão benévola de quem ocupava um lugar da segunda fila. Que país é este que toma como adquiridos bens que são de facto frágeis? Depois, o concerto começou morno, até que os rapazes se foram soltando. A certa altura, já depois de umas dez músicas e talvez o dobro de trocas de guitarras (se somarmos as do Nels Cline às do Jeff Tweedy), o público juntou-se todo à frente, em pé como mandam estas coisas, e o que era morno tornou-se, subitamente, num dos melhores concertos de que me recordo. Dificilmente se encontra outra banda capaz de um som a um tempo tão poderoso e tão conseguido e com uma capacidade única de olhar para as raízes do folk rock norte-americano. Três guitarras que soavam na perfeição e que por vezes se transformavam em duas mais dois teclistas, mas sem que no virtuosismo se perdesse a intensidade. Tudo com um Jeff Tweedy bem disposto e com uma banda que manifestamente tem prazer a tocar. Pelo meio, quase não houve nada que ficasse por ouvir (pronto, não tocaram o Via Chicago, que aparentemente tocaram em Braga, mas em Lx tocaram o War on War, que não terão tocado na véspera). Mas, no fim, no meio de um longo encore (terão sido umas oito músicas?), e quando se ouviu uma versão do Hate it here a soar a Beatles por todos os lados e quando a faceta Neil Young veio mais ao de cima, chegou o momento da noite: dois miúdos, ela com uns oito anos, ele com seis, tiveram direito a solar na guitarra do Jeff Tweedy. Ali bem em frente ao palco e ao meu lado. A inveja é uma coisa muito feita. Mas foi o que eu senti. Ah, o Radio Cure e o Hummingbird tiveram versões assim como que superlativas.
E daqui a um ano?
A crer nos dados hoje divulgados, os portugueses mantém-se bastante pessimistas. Ainda assim, o pessimismo é significativamente maior quando questionados sobre como estará a economia daqui a um ano do que em relação ao seu próprio agregado familiar. Provavelmente não é uma percepção muito realista. A dimensão e a profundidade desta crise é tal que poucas famílias escaparão de modo directo ou indirecto ao seu impacto.
Contudo, estes dados entram em contradição com a tendência revelada pelo indicador de clima económico do INE, publicado na semana passada, que revela um interrupção do movimento descendente que se verificava há um ano e que tinha atingido um pico no mês de Abril. Tanto mais que esta inversão foi acompanhada por uma variação positiva dos indicadores de confiança em todo os sectores económicos.
Mas, provavelmente, o aspecto mais paradoxal destes resultados é o seu cruzamento com as intenções de voto apuradas na mesma sondagem. Perante uma crise desta dimensão o que se esperaria seria, por um lado, uma reprovação do partido que está no Governo e, por outro, uma desafectação geral face aos partidos políticos, na medida que se têm revelado incapazes de contrariar a depressão económica e social. Curiosamente, nenhuma destas tendências se está a verificar, o que sugere que os portugueses continuam a ver no executivo e nos partidos do sistema capacidade para responder à crise. Resta saber até quando resiste essa avaliação positiva.
Se daqui a um ano a resposta à mesma pergunta continuar a mostrar indicadores tão negativos, o problema continuará a ser económico e social, mas assumirá contornos políticos com os quais será difícil de lidar.
texto publicado no Diário Económico como comentário a estes resultados da sondagem da Marktest.
Contudo, estes dados entram em contradição com a tendência revelada pelo indicador de clima económico do INE, publicado na semana passada, que revela um interrupção do movimento descendente que se verificava há um ano e que tinha atingido um pico no mês de Abril. Tanto mais que esta inversão foi acompanhada por uma variação positiva dos indicadores de confiança em todo os sectores económicos.
Mas, provavelmente, o aspecto mais paradoxal destes resultados é o seu cruzamento com as intenções de voto apuradas na mesma sondagem. Perante uma crise desta dimensão o que se esperaria seria, por um lado, uma reprovação do partido que está no Governo e, por outro, uma desafectação geral face aos partidos políticos, na medida que se têm revelado incapazes de contrariar a depressão económica e social. Curiosamente, nenhuma destas tendências se está a verificar, o que sugere que os portugueses continuam a ver no executivo e nos partidos do sistema capacidade para responder à crise. Resta saber até quando resiste essa avaliação positiva.
Se daqui a um ano a resposta à mesma pergunta continuar a mostrar indicadores tão negativos, o problema continuará a ser económico e social, mas assumirá contornos políticos com os quais será difícil de lidar.
texto publicado no Diário Económico como comentário a estes resultados da sondagem da Marktest.
sexta-feira, 29 de maio de 2009
Somos todos da América profunda
Seja lá o que isso for, quem usa casaquinhos destes deve ter andado por lá muito tempo. Não sei se já repararam, mas os Wilco tocam Domingo no Coliseu e se o disco novo é muito bom, ao vivo é que esta rapaziada de facto se revela. Reparem no solo de fazer inveja ao Neil Young (ou será ao Slash?) neste one wing que tem uma versão de estúdio bem mais contida.
quinta-feira, 28 de maio de 2009
quarta-feira, 27 de maio de 2009
A minha estação preferida

"Mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar / caminha para o mar pelo Verão"
Ruy Belo
Agora que é Inverno, recupero a memória fotográfica do último dia de férias de Verão. Uma memória que se repete: todos os anos, no dia em que volto as costas às férias, após subir a duna íngreme que me afasta do mar, olho fixamente para trás, como se aquele fosse o derradeiro dia de praia.
Na verdade, regresso muitas vezes àquela mesma praia, mas de facto só um ano depois, quando volta o Verão, é que ela me é devolvida. Só então volto a tomar a praia como minha, reacendendo-se inesperadamente, como num turbilhão, um sopro de felicidade absoluta. É paradoxal que assim seja. É agora no Inverno que as ondas nos chegam mais espaçadas, movendo mais água e com menos vento. É agora o tempo do mar dos surfistas.
“É triste no Outono concluir/ que era o Verão a única estação”, escreveu Ruy Belo em ‘A Mão no Arado’, um dos seus mais espantosos poemas. Naturalmente que o Verão sobre o qual escrevia não era o dos surfistas em dias de ondas quentes. Mas ainda assim, no dilema entre Verão e as outras estações, há invariavelmente alguma coisa que, para quem olha o mar com os nossos olhos, remete para o surf.
O surf dos verdadeiros surfistas é o de Inverno, habituamo-nos a ouvir dizer. É aí que se separam as águas: entre os fortuitos e os que enfrentam as manhãs frias e as ondas com consequências. Eu, pelo contrário, preciso de chegar ao Inverno para sentir saudades do “suave tempo” que tantas vezes desdigo enquanto o vivo. É agora Inverno e olho com um contentamento redobrado para o que ficou para trás: já não tenho presentes os dias e dias de flat em Agosto, ou as sucessivas nortadas que nos atormentam, e satisfaço-me com a recordação de duas ou três ondas quentes e perfeitas. Hoje tenho o Inverno e a certeza de um mar melhor. Mas, tenho também o Verão como única estação. O “Verão sem limites” onde num breve momento podemos encontrar a onda que fixamos na memória. Ainda que fugazmente, só no Verão podemos ambicionar um mundo perfeito para o qual convergem as ondas, o calor na água e a areia soalheira, pronta a retemperar as nossas forças e, acima de tudo, a ausência de sombras.
É por isso que olho para trás no fim de Agosto quando deixo as férias e a praia. Eu sei que vou regressar umas semanas depois àquele mesmo lugar. Mas quando volto, nem me atrevo a olhar com os mesmos olhos. Falta-me o torpor do vento tépido, mas, acima, de tudo, a ausência de sombras que confere uma cor única. Com o sol a pique, não há imagens projectadas e vemos tudo com uma lucidez que não se volta a repetir ao longo do ano.
Se olho uma última vez para a praia, é porque sei que vislumbro ali um tempo parado, batido pelo sol. É um fugaz momento, mas que trago no regresso à cidade. Depois, basta-me fechar os olhos e ficar com a certeza que na memória tenho tudo. O calor, o vento e um mundo de ondas perfeitas. Muitas delas imaginadas.
Estou convencido que a nostalgia de um lugar é mais rica se conservada como nostalgia, como se a sua recuperação significasse a morte da ideia que fazemos desse mesmo lugar. Agora que se passam semanas sem ver mar, vai-me bastando esse pulsar sereno que guardo do dia em que virei as costas ao Verão. Eu, por mim, estou convencido da superioridade daquele último olhar furtivo.
Publicado na coluna Sal na Terra da Surf Portugal.
terça-feira, 26 de maio de 2009
O espelho do BPN
Seis meses passados, é evidente que os trabalhos da comissão se têm centrado na gestão do BPN e têm servido para revelar que a realidade do funcionamento do banco ultrapassava as mais delirantes suposições. Contabilidade paralela, balcões virtuais, ilegalidade puras, negócios ruinosos, desconhecimento pelos accionistas do que era feito na gestão, temos ouvido descrições de tudo. Essencialmente, tem sido espantosa a candura com que alguns dos depoentes descrevem o seu papel em todo o processo. Sobre muitos dos que têm ido depor, fica, até agora, uma dúvida: ou estamos perante campeões da ingenuidade ou vigaristas encartados. Ao contrário do que eu esperava, se bem que se tenha desviado do que era o seu propósito inicial, a comissão de inquérito tem sido muito útil na revelação do caos que imperava no BPN. No entanto, o sucesso da comissão de inquérito ao BPN, apesar de exemplar das virtudes do parlamentarismo, não é motivo para satisfação. Pelo contrário, ele revela, uma vez mais, o falhanço do sistema de Justiça em Portugal.
A menos que algo de surpreendente se esteja a passar na discrição da investigação (algo improvável tendo em conta o tratamento de que é alvo o segredo de justiça entre nós), há sinais de que, em seis meses, se progrediu mais numa comissão de inquérito do que no processo que decorre na Justiça. Agora, o mínimo que se pode esperar é que a Justiça seja capaz de aproveitar o trabalho parlamentar e produzir prova a partir dos factos relatados na comissão.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
A menos que algo de surpreendente se esteja a passar na discrição da investigação (algo improvável tendo em conta o tratamento de que é alvo o segredo de justiça entre nós), há sinais de que, em seis meses, se progrediu mais numa comissão de inquérito do que no processo que decorre na Justiça. Agora, o mínimo que se pode esperar é que a Justiça seja capaz de aproveitar o trabalho parlamentar e produzir prova a partir dos factos relatados na comissão.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 25 de maio de 2009
Os covers como indicadores

"you cannot tell a book by its cover, but you can tell a band by its covers."
Nic Ratner, a propósito da vida pós-Birthday Party de Nick Cave se ter iniciado com um cover de Avalanche, de L. Cohen. Mas o melhor mesmo é aproveitar o facto do "documentário" lançado com a edição remasterizada dos álbuns iniciais dos Bad Seeds estar hoje e amanhã disponível aqui. O melhor que podem fazer é ouvir tudo.
entretanto, a parte 2 já pode ser vista aqui.
Liderança ou caos
"o que mais tem descredibilizado a Justiça é o comportamento de alguns dos agentes da investigação criminal, que se mostram incapazes de impedir a prática diária do crime de violação do segredo de justiça, revelam cumplicidades vergonhosas com os media em julgamentos sumários nos meios de comunicação social, discutem permanentemente na praça pública as leis a que deviam obedecer e agem na mais absoluta irresponsabilidade. O sindicato do MP comporta-se como dono da Instituição e não mero representante sindical dos seus membros.
A única forma de pôr termo a este descalabro é conferir ao Procurador-Geral - única entidade com legitimidade democrática dentro do MP - a responsabilidade e o poder de pôr ordem na casa e garantir o seu bom funcionamento."
Daniel Proença de Carvalho no Semanário Económico.
A única forma de pôr termo a este descalabro é conferir ao Procurador-Geral - única entidade com legitimidade democrática dentro do MP - a responsabilidade e o poder de pôr ordem na casa e garantir o seu bom funcionamento."
Daniel Proença de Carvalho no Semanário Económico.
sábado, 23 de maio de 2009
Quique fica

Mas como no Benfica é difícil aprender, está em curso uma tentativa de repetir os erros no passado. Criar a ilusão de que se resolve tudo com uma substituição de treinador. Quando o que era preciso era estabilidade no plantel (contrariando a sangria anual, que, no defeso, leva todos os anos os dois melhores da época anterior) e na equipa técnica, o Benfica vai substituir Quique, tudo aponta, pelo "mestre da táctica" Jorge Jesus.
Deixemos de lado a fama que acompanha Jesus no submundo das contratações ou a relação muito peculiar que o técnico bracarense tem com a expressão oral em português (o que convenhamos não é uma qualidade irrelevante para quem treina o Benfica), basta recordarmos o seu curriculum (do Felgueiras ao Moreirense, passando pelo Setúbal). Nem é preciso olhar muito para trás, veja-se o que se passou com o Braga esta temporada. Com um plantel que, no mínimo, compete com o do Sporting, o Braga prepara-se para ficar atrás do Nacional da Madeira e, durante grande parte da temporada, os arsenalistas perderam sistematicamente pontos com equipas com muito menos condições. Enquanto uma nova temporada de Quique seria um sinal de que o Benfica, por uma vez, valorizava a estabilidade e a capacidade de aprender com os erros, com Jesus, volta a aposta numa incógnita, que tem tudo para correr mal, e será certamente acompanhada de duas mãos cheias de contratações, feitas ao gosto do novo treinador. A coisa é de tal modo, que já se fala de um regresso do marcante Tixier ao futebol português para acompanhar Jesus.
Na verdade, talvez seja altura do Benfica, em lugar de mudar de treinador, mudar de Presidente. Até porque há um candidato natural ao lugar: Rui Costa que poderia ser bem acompanhado por José Veiga.
quinta-feira, 21 de maio de 2009
O vigilante do amor
O Sam Beam, escondido nos Iron & Wine, anda por aí há uns tempos a cantar baixinho mas com uma força que pode levar à conversão. Agora, tem um disco que arruma as versões e os out-takes. Não ouvi. Mas, pela amostra, não foram muitas as vezes em que os New Order soaram assim.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
It’s very natural to me to be agressive with the guitar

"It’s very natural to me to be agressive with the guitar, violent with the guitar. I’m such a big fan of guitar that is really disgusting, gnarly. No other word for it, just gnarly."
St. Vincent
O João Lisboa tem estado envolvido num campeonato de escolha de fotos da St. Vincent. Não é por nada, pese embora alguns exemplares competitivos, este blog leva vantagem (apenas porque encontrou isto).
(ah, esta frase que impõe todo o respeito do mundo, foi tirada deste video que, por sua vez, tirei das provas de contacto).
Se Portugal fosse um país a sério
A polémica a propósito do “apagão” no IEFP ameaça tornar-se num ‘case study’ do estado delirante a que chegou a disputa política em Portugal. Uma visão mais benévola poderá justificar toda esta discussão com o aproximar de três actos eleitorais, que encontraram na subida do desemprego um contexto adequado. Não me parece razão suficiente. As razões são outras e o episódio serve para demonstrar que a política portuguesa deixou de ser discutida assentando em critérios mínimos de racionalidade.
Tudo terá começado com uma notícia no DN. O que se escrevia era que teria havido um corte de 15 mil desempregados nos ficheiros do IEFP. Depois, e se bem me recordo, no corpo da mesma notícia, acrescentava-se que esse corte resultava de um erro de cruzamento entre os registos de contribuições para a segurança social (que se reportavam a Fevereiro de 2008) e o desemprego registado (que se reportava a Fevereiro de 2009). Ou seja, um cruzamento positivo, que não tem muitos anos e permite que alguém que está a trabalhar e não comunique ao IEFP, deixe de contar como desempregado, teria sido feito indevidamente. Acontece que, e pasme-se, esse erro foi detectado e os dados do desemprego registado foram corrigidos antes da sua publicação. Ou seja, a notícia é que houve um erro e ele foi corrigido internamente, antes de os dados serem públicos.
Eu sei que era preciso fazer um esforço de leitura, mas ler é uma coisa que dá trabalho e como o desemprego está a crescer, o melhor é não deixar que a verdade dos factos estrague uma boa história. A boa história é comentar uma notícia inicial sem demonstrar qualquer preocupação em lê-la e percebê-la. Depois, como o delírio não tem paragem, os partidos rapidamente se apressaram a pedir auditorias externas (certamente para tentar perceber como é que uma instituição pública consegue detectar internamente um erro antes que ele fosse público) e pedidos de demissão do presidente do IEFP (aliás, gostava de saber se o pedido feito pelo PSD é subscrito pela Drª Ferreira Leite ou se foi um entusiasmo parlamentar).
De facto, se Portugal fosse um país a sério.
Tudo terá começado com uma notícia no DN. O que se escrevia era que teria havido um corte de 15 mil desempregados nos ficheiros do IEFP. Depois, e se bem me recordo, no corpo da mesma notícia, acrescentava-se que esse corte resultava de um erro de cruzamento entre os registos de contribuições para a segurança social (que se reportavam a Fevereiro de 2008) e o desemprego registado (que se reportava a Fevereiro de 2009). Ou seja, um cruzamento positivo, que não tem muitos anos e permite que alguém que está a trabalhar e não comunique ao IEFP, deixe de contar como desempregado, teria sido feito indevidamente. Acontece que, e pasme-se, esse erro foi detectado e os dados do desemprego registado foram corrigidos antes da sua publicação. Ou seja, a notícia é que houve um erro e ele foi corrigido internamente, antes de os dados serem públicos.
Eu sei que era preciso fazer um esforço de leitura, mas ler é uma coisa que dá trabalho e como o desemprego está a crescer, o melhor é não deixar que a verdade dos factos estrague uma boa história. A boa história é comentar uma notícia inicial sem demonstrar qualquer preocupação em lê-la e percebê-la. Depois, como o delírio não tem paragem, os partidos rapidamente se apressaram a pedir auditorias externas (certamente para tentar perceber como é que uma instituição pública consegue detectar internamente um erro antes que ele fosse público) e pedidos de demissão do presidente do IEFP (aliás, gostava de saber se o pedido feito pelo PSD é subscrito pela Drª Ferreira Leite ou se foi um entusiasmo parlamentar).
De facto, se Portugal fosse um país a sério.
O contributo da bipolarização
A diferença entre as intenções de voto no BE nas sondagens e o resultado das últimas legislativas é, hoje, suficiente para impedir o PS de repetir a maioria absoluta. Contudo, bastaria que aqueles que votaram no PS e que agora se mostram inclinados a votar BE, repetissem o voto, para que o PS voltasse a ter uma maioria absoluta. O objectivo não é tão difícil de concretizar como parece.
Antes de mais, porque o eleitorado do BE é o menos consolidado de todos os partidos. Não apenas porque tradicionalmente os potenciais eleitores bloquistas revelam grande propensão para a abstenção, mas, também, porque são eleitores que nunca votaram BE.
Este facto, aliás, serve para consolidar um paradoxo. Enquanto entre a direcção do PS e do BE há, relativamente a políticas centrais, diferenças inegociáveis, as diferenças de posicionamento político entre os eleitores flutuantes dos dois partidos são bem menores.
Face a este cenário, o BE escolheu o Governo como principal (e único) adversário político e o PS tem apontado artilharia pesada ao BE. O problema é que este jogo de ataques mútuos tem tido como consequência empurrar para o BE os eleitores oscilantes entre os dois partidos.
Mas, por si só, a aproximação das eleições contraria qualquer estratégia política. O inevitável crescimento do PSD – feito no essencial à custa da descida do CDS – traz de novo uma questão que pairará como um espectro sobre os eleitores de esquerda: preferem um Governo de Ferreira Leite ou um novo Governo de Sócrates? Como o BE não tem resposta para esta questão e mostra-se indisponível para fazer parte da solução de governabilidade após as legislativas, é natural que muitos dos que hoje manifestam o seu protesto através do BE, se mostrem de novo disponíveis para votar, de modo útil, a favor da governabilidade à esquerda.
comentário à relação entre PS e BE quando se aproximam as eleições, publicado hoje no Diário Económico.
Antes de mais, porque o eleitorado do BE é o menos consolidado de todos os partidos. Não apenas porque tradicionalmente os potenciais eleitores bloquistas revelam grande propensão para a abstenção, mas, também, porque são eleitores que nunca votaram BE.
Este facto, aliás, serve para consolidar um paradoxo. Enquanto entre a direcção do PS e do BE há, relativamente a políticas centrais, diferenças inegociáveis, as diferenças de posicionamento político entre os eleitores flutuantes dos dois partidos são bem menores.
Face a este cenário, o BE escolheu o Governo como principal (e único) adversário político e o PS tem apontado artilharia pesada ao BE. O problema é que este jogo de ataques mútuos tem tido como consequência empurrar para o BE os eleitores oscilantes entre os dois partidos.
Mas, por si só, a aproximação das eleições contraria qualquer estratégia política. O inevitável crescimento do PSD – feito no essencial à custa da descida do CDS – traz de novo uma questão que pairará como um espectro sobre os eleitores de esquerda: preferem um Governo de Ferreira Leite ou um novo Governo de Sócrates? Como o BE não tem resposta para esta questão e mostra-se indisponível para fazer parte da solução de governabilidade após as legislativas, é natural que muitos dos que hoje manifestam o seu protesto através do BE, se mostrem de novo disponíveis para votar, de modo útil, a favor da governabilidade à esquerda.
comentário à relação entre PS e BE quando se aproximam as eleições, publicado hoje no Diário Económico.
terça-feira, 19 de maio de 2009
Sair, ficando
É preciso que os portugueses, e nomeadamente os que votaram PS mas que agora se sentem menos ou nada inclinados para voltar a fazê-lo, por um lado, sintam que o regresso do PSD ao poder é um mal maior do que um novo Governo PS e, por outro, que os socialistas se revelem capazes de apresentar um programa de resposta à crise económica e social, para além das soluções de emergência que têm dominado a agenda. Manuel Alegre, simpatizemos ou não com o seu percurso político e com as suas opções recentes, pode ser determinante para o PS concretizar este duplo objectivo. O que só serve para provar que, por vezes, estar fora acaba mesmo por ser a melhor forma de ter mais peso interno.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Não te salves
Não fiques imóvel
À beira do caminho
Não congeles o júbilo
Não ames com desprendimento
Não te salves nem agora
Nem nunca
Não te salves
Não te enchas de calma
Não reserves do mundo
Apenas um canto tranquilo
Não deixes cair as pálpebras
pesadas como julgamentos
não fiques sem lábios
não adormeças sem sono
não te penses sem sangue
não te julgues sem tempo
Mas se
Ainda assim
Não o puderes evitar
E congelas o júbilo
E amas com desprendimento
E te salvas agora
E te enches de calma
E reservas do mundo
Apenas um canto tranquilo
E deixas cair as pálpebras
Pesadas como julgamentos
E ficas sem lábios
E adormeces sem sono
E te pensas sem sangue
E te julgas sem tempo
E ficas imóvel
À beira do caminho
E te salvas
Então
Não fiques comigo.
Morreu Mario Benedetti
À beira do caminho
Não congeles o júbilo
Não ames com desprendimento
Não te salves nem agora
Nem nunca
Não te salves
Não te enchas de calma
Não reserves do mundo
Apenas um canto tranquilo
Não deixes cair as pálpebras
pesadas como julgamentos
não fiques sem lábios
não adormeças sem sono
não te penses sem sangue
não te julgues sem tempo
Mas se
Ainda assim
Não o puderes evitar
E congelas o júbilo
E amas com desprendimento
E te salvas agora
E te enches de calma
E reservas do mundo
Apenas um canto tranquilo
E deixas cair as pálpebras
Pesadas como julgamentos
E ficas sem lábios
E adormeces sem sono
E te pensas sem sangue
E te julgas sem tempo
E ficas imóvel
À beira do caminho
E te salvas
Então
Não fiques comigo.
Morreu Mario Benedetti
Cavaco da Capadócia
O Presidente da República não se dá bem com saídas do Palácio de Belém, para além do território continental. A gestão dos microfones passa a ser menos apertada e, é sabido, Cavaco nunca foi dado ao humorismo e ainda menos a liberdades com a imprensa. Esta viagem à Turquia vai entrar para o podium dos "tesourinhos deprimentes": dos turcos que, convém lembrar, não são árabes, aos números do PIB no bolso do casaco, passando por não ser "just" falar do eurojust, culminando na confissão que a mulher tinha há muito o sonho de visitar a Capadócia e, já se sabe, as viagens fazem-se para concretizarmos os sonhos das nossas senhoras (que assim também podem ir fazer compras para os netinhos). Como bem escreve Ferreira Fernandes, imaginemos que tinha sido o primeiro-ministro a dizer ""Vim à Capadócia porque era há muito um sonho da minha namorada vir à Capadócia." A esta hora, grassava por aí uma grande indignação por os telejornais não continuarem a abrir com o tema e os índices de situacionismo batiam todos os recordes. Mas, claro, Cavaco não é um político, é qualquer coisa de intermédio.
Geni e o Zepelim
A Segurança Social vai sair desta crise com um elevadíssimo défice, que pode ser ainda mais expressivo caso sejam aprovadas as medidas aventureiras que alguns reclamam. Curiosamente, os mesmos que dentro de alguns anos voltarão à carga com o discurso da insustentabilidade do sistema e a defesa da sua privatização. É como na canção "Geni e o Zepelim, de Chico Buarque: a Geni, a quem todos queriam "jogar pedra", torna-se, nos momentos de aflição, naquela que "nos pode salvar". Mas no fundo ela "é feita para apanhar".
Manuel Esteve no Diário Económico.
Manuel Esteve no Diário Económico.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Um camelo numa varanda
Uma das coisas boas da idade adulta é poder-se comprar bilhetes decentes para concertos. Daqui a um par de semanas, o tipo na segunda fila que se vê neste video vou ser eu. Entretanto, enquanto vou vendo o DVD do Ashes of American Flags (ainda não houve ninguém que fizesse o obséquio de democratizar a coisa no youtube), os próprios Wilco têm para audição integral o novo álbum (que tem o magnífico nome de Wilco) no site da banda. A propósito, o álbum vem acompanhado de uma grande capa e não desilude. Aliás, o dueto com a senhora Feist é como se esperava.
terça-feira, 12 de maio de 2009
Já desistiu
O que a declaração de Ferreira Leite esconde é que o PSD incorporou a ideia de que não pode vencer e desistiu de lutar pela maioria absoluta. O problema é que essa desistência diminui a propensão para a bipolarização e, logo, as condições de governabilidade futuras do país. A percepção de que o PSD não pode ganhar tem ajudado à dispersão de voto à esquerda e à criação de um terceiro bloco, com cerca de 20% das intenções de voto, mas que se exclui de qualquer solução de governabilidade. Se o PSD não compete, de facto, pela vitória com o PS, os custos de votar à esquerda como forma de protesto são aparentemente baixos.Tendo em conta que o país vai precisar de um Governo que dure uma legislatura e que PS e PSD estão relativamente próximos em questões centrais, o melhor cenário é um Governo de maioria absoluta do PS ou do PSD, até porque a alternativa é uma pulverização eleitoral, que só produzirá instabilidade política. Que Ferreira Leite já tenha desistido deste objectivo é, por isso, incompreensível para o PSD e prejudicial para o país.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Este gajo levava o meu voto
O Pete Seeger fez noventa anos e ainda há uns meses o vimos a cantar ao frio, na tomada de posse de Obama, acompanhado pelo Springsteen. Há uma semana, no Madison Square Garden, em vez dos Knicks, jogou uma rapaziada para o homenagear. Não se encontram as músicas com um mínimo de qualidade (pensando bem, talvez valha a pena ver este video), mas esta discursata do Boss é do caraças e vale a pena, independentemente das músicas. Ainda a propósito da versão integral do 'this land is your land', cantada na tomada de posse: "that’s what Pete’s done is all life. He sings all the verses all time. Especially the ones we would like to leave out of our history as a people."
(e claro, esqueçam a pivot)
É reconfortante ler isto
"(...) To be sure, all Presidents want to be seen as political centrists. They dare not proclaim themselves "Right" or "Left," or even "conservative" or "liberal," on an ideological spectrum that’s become ever more highly polarized. It is politically safer – yes, even pragmatic – to describe one’s values as "commonsensical" or "middle of the road." But even this description minimizes and distorts a president’s capacity for leadership. A true leader does not take the public to where the public happens to be, because the public is already there. A leader takes the public to where the public should be, according to that leader’s view of the society’s highest ideals – ideals that the public shares but which have not yet been realized.
Obama did this several times during the presidential campaign, most notably in his courageous speech on race. He took America to a higher place by explaining what we all knew and felt but giving it a larger and nobler frame. He educated us in the best sense of the word. Doing so may have been politically pragmatic but his goal was not solely to get elected. Nor was it simply to demonstrate to us the leadership of which he is capable, although the speech did that. His goal was also to make us more aware about how race is used divisively. In doing so he drew on what in retrospect seem "commonsensical" positions and "middle of the road" values. But that’s not how the speech struck most of us then. We were transformed by the power of his thinking and the values that underlay it – values that we share but had not thought through.
President Obama can afford to do the same with regard to the overriding issue of widening inequality in American society. He can connect the dots for us, allowing us to understand why inequality is widening without deriding the rich or castigating the fortunate. Doing so would allow us to understand what he is seeking to do and why, and empower us to seek and do the same."
Robert Reich
Obama did this several times during the presidential campaign, most notably in his courageous speech on race. He took America to a higher place by explaining what we all knew and felt but giving it a larger and nobler frame. He educated us in the best sense of the word. Doing so may have been politically pragmatic but his goal was not solely to get elected. Nor was it simply to demonstrate to us the leadership of which he is capable, although the speech did that. His goal was also to make us more aware about how race is used divisively. In doing so he drew on what in retrospect seem "commonsensical" positions and "middle of the road" values. But that’s not how the speech struck most of us then. We were transformed by the power of his thinking and the values that underlay it – values that we share but had not thought through.
President Obama can afford to do the same with regard to the overriding issue of widening inequality in American society. He can connect the dots for us, allowing us to understand why inequality is widening without deriding the rich or castigating the fortunate. Doing so would allow us to understand what he is seeking to do and why, and empower us to seek and do the same."
Robert Reich
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Há, de facto, muita tolerância com o PC
Um amigo chamou-me a atenção para as declarações de hoje no parlamento do deputado comunista Bernardino Soares, onde este qualificou as palavras do deputado socialista Mota Andrade como estando “ao nível das de um destacado militante do PS, [que,] na pele de comentador, até se atreveu a dizer que tem havido demasiada tolerância com o PCP na sociedade portuguesa”. Tendo depois acrescentado que “se vivêssemos no tempo do fascismo, eram uma boa carta de recomendação para integrar os quadros da PIDE”. As citações são da Lusa e tomo-as por verdadeiras.
O comentador sou eu e de facto na sexta-feira na RTP-N disse que há muita tolerância na sociedade portuguesa com o PC. A frase foi dita perante a a recusa que o PC demonstrou ao longo do dia em se distanciar dos agitadores (que se combinou com as twittadas do deputado Miguel Tiago, que, entre outras pérolas, escreveu que “Vital Moreira é que agride os trabalhadores portugueses há muito tempo!” (sic)). Em momento algum esteve em causa outra responsabilidade do PC que não a de, ao contrário dos outros partidos, não ter criticado o que aconteceu. Mas se fossem necessárias mais provas da tolerância que se tem com o PC, aí estão as declarações de Bernardino Soares hoje.
Vamos ver se nos entendemos: as democracias pluralistas assentam num chão comum, que tem necessariamente de ser partilhado por todos. O problema do PC é mesmo esse: divide-se entre a hesitação na defesa e a secundarização de princípios basilares da democracia, à cabeça o pluralismo, o respeito pelos direitos humanos e pela liberdade de expressão. Basta ter lido as teses ao último congresso onde o PCP defendia o “papel de resistência à “nova ordem” imperialista” dos países que definem como “orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista – Cuba, China, Vietname, Laos e R.D.P. da Coreia” e onde revelava uma nostalgia despudorada da U.R.S.S – “a contribuição da URSS e, posteriormente, do campo dos países socialistas, para os grandes avanços de civilização verificados no século XX foi gigantesca” para se perceber a consideração que o PC tem por esse chão comum. Sobre votos de fé na democracia, estamos, por isso, conversados. Façamos um paralelismo com o que aconteceria se um qualquer partido de direita português se lembrasse de tecer um elogio equivalente a qualquer regime autoritário. Suspeito que ninguém, e a meu ver bem, toleraria. Pois ao PC tudo é permitido, desde logo a escalada de crescente ortodoxia em que se tem embrenhado e que é tomada como uma idiossincrasia nacional, meio patusca. De facto, é preciso ter muita tolerância com os intolerantes.
Há uma fonte de legitimação democrática à qual o PC recorre sempre que se vê em apuros – o anti-fascismo e a corajosa resistência de muitos comunistas ao regime de Salazar. 35 anos depois, aí reside o capital democrático dos comunistas portugueses. É isso, aliás, que permite, por exemplo, que o PC se ache dono e senhor do 25 de Abril e do 1º de Maio, momentos em que outros democratas são autorizados a juntarem-se aos comunistas. Nada disto é novidade, mas é uma tendência que se tem acentuado nos últimos tempos. Nem sequer é preciso voltar ao “caso Vital Moreira”. Basta recordar como José Neves – a quem todos os que em Portugal defendem uma sociedade pluralista devem de facto muito – foi também apupado este ano nas comemorações do 25 de Abril.
Bernardino Soares, que há uns tempos tinha “dúvidas que a Coreia do Norte não fosse uma democracia”, resolveu hoje dizer que as minhas declarações “eram uma boa carta de recomendação para integrar os quadros da PIDE”. De facto, há muita tolerância com o PC, desde logo, porque a afirmação é de tal modo insultuosa que só é tolerável porque vivemos numa democracia, onde temos de tolerar principalmente os intolerantes.
O comentador sou eu e de facto na sexta-feira na RTP-N disse que há muita tolerância na sociedade portuguesa com o PC. A frase foi dita perante a a recusa que o PC demonstrou ao longo do dia em se distanciar dos agitadores (que se combinou com as twittadas do deputado Miguel Tiago, que, entre outras pérolas, escreveu que “Vital Moreira é que agride os trabalhadores portugueses há muito tempo!” (sic)). Em momento algum esteve em causa outra responsabilidade do PC que não a de, ao contrário dos outros partidos, não ter criticado o que aconteceu. Mas se fossem necessárias mais provas da tolerância que se tem com o PC, aí estão as declarações de Bernardino Soares hoje.
Vamos ver se nos entendemos: as democracias pluralistas assentam num chão comum, que tem necessariamente de ser partilhado por todos. O problema do PC é mesmo esse: divide-se entre a hesitação na defesa e a secundarização de princípios basilares da democracia, à cabeça o pluralismo, o respeito pelos direitos humanos e pela liberdade de expressão. Basta ter lido as teses ao último congresso onde o PCP defendia o “papel de resistência à “nova ordem” imperialista” dos países que definem como “orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista – Cuba, China, Vietname, Laos e R.D.P. da Coreia” e onde revelava uma nostalgia despudorada da U.R.S.S – “a contribuição da URSS e, posteriormente, do campo dos países socialistas, para os grandes avanços de civilização verificados no século XX foi gigantesca” para se perceber a consideração que o PC tem por esse chão comum. Sobre votos de fé na democracia, estamos, por isso, conversados. Façamos um paralelismo com o que aconteceria se um qualquer partido de direita português se lembrasse de tecer um elogio equivalente a qualquer regime autoritário. Suspeito que ninguém, e a meu ver bem, toleraria. Pois ao PC tudo é permitido, desde logo a escalada de crescente ortodoxia em que se tem embrenhado e que é tomada como uma idiossincrasia nacional, meio patusca. De facto, é preciso ter muita tolerância com os intolerantes.
Há uma fonte de legitimação democrática à qual o PC recorre sempre que se vê em apuros – o anti-fascismo e a corajosa resistência de muitos comunistas ao regime de Salazar. 35 anos depois, aí reside o capital democrático dos comunistas portugueses. É isso, aliás, que permite, por exemplo, que o PC se ache dono e senhor do 25 de Abril e do 1º de Maio, momentos em que outros democratas são autorizados a juntarem-se aos comunistas. Nada disto é novidade, mas é uma tendência que se tem acentuado nos últimos tempos. Nem sequer é preciso voltar ao “caso Vital Moreira”. Basta recordar como José Neves – a quem todos os que em Portugal defendem uma sociedade pluralista devem de facto muito – foi também apupado este ano nas comemorações do 25 de Abril.
Bernardino Soares, que há uns tempos tinha “dúvidas que a Coreia do Norte não fosse uma democracia”, resolveu hoje dizer que as minhas declarações “eram uma boa carta de recomendação para integrar os quadros da PIDE”. De facto, há muita tolerância com o PC, desde logo, porque a afirmação é de tal modo insultuosa que só é tolerável porque vivemos numa democracia, onde temos de tolerar principalmente os intolerantes.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Até tu, Stringer Bell

"They're so removed from what I do and at the same time they're very protective of me, because I'm their only child. I tell them that Obsessed is breaking box-office records and that I'm going to be interviewed on the Paul O'Grady Show, and my mum says, 'Oh, that's good. Did you eat today?' I need that stuff more than ever" ·
Idris Elba, mais conhecido como Stringer Bell, no Guardian.
Subscrever:
Mensagens (Atom)











