"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Apoios e apoios

Hoje ficou a saber-se que Sócrates gostaria de contar com Moita Flores. Sorte tem o PSD que não conta com ele. Há apoios que subtraem.

A governabilidade na Europa

A maioria absoluta de um só partido está hoje afastada dos cenários eleitorais. Logo, voltámos a ser assolados pelo espectro da ingovernabilidade. O que não deixa de ser estranho, num país onde, por tudo e por nada, se recorre aos exemplos que vêm de fora. Ora, olhando para os 27 Estados-membros da U.E., os governos maioritários de um só partido são a excepção, a regra são as coligações.
É possível distinguir três tipos de governos na Europa a 27. As coligações entre vários partidos; governos minoritários; e, finalmente, os governos monocolores. Há, neste momento, na Europa, 17 governos que assentam em coligações entre partidos; 4 governos minoritários (que vão desde coligações minoritárias, de que são exemplo a Bulgária, a Dinamarca e a Estónia, até à Espanha, onde o PSOE não tem maioria absoluta, mas governa sozinho, negociando com partidos regionais); e finalmente 6 governos com maioria de um só partido. Nesta última categoria, Portugal e Chipre são claramente casos excepcionais (pois têm sistemas eleitorais proporcionais, pouco propensos à formação de maiorias absolutas), enquanto Reino Unido e França têm sistemas maioritários, a Grécia um bónus maioritário e Malta um sistema bipartidário de facto (só dois partidos elegem deputados).
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

He sounds like a grittier Sinatra.

It Came From Brooklyn: The Walkmen // In The New Year [Part 1 of 3] from Ray Concepcion on Vimeo.


Tenho por bom princípio nunca ler caixas de comentários - é uma forma de preservar relativamente intacta a minha inclinação para o optimismo antropológico -, mas na caixa de comentários da stereogum encontrei a mais justa definição das qualidades vocais de Hamilton Leithauser, o vocalista dos Walkmen. Por uma vez não foi o Dylan da fase eléctrica, mas com maior amplitude vocal, que foi evocado. Mas sim Sinatra. Vejam lá este video - esqueçam os maneirismos arty da câmara sempre em movimento - de um concerto da série "It Came From Brooklyn" no Museu Guggenheim e digam lá se não há ali qualquer coisa de Sinatra, mas com mais coragem.

sábado, 12 de setembro de 2009

A palavra é importante


Numa cena de "Palombella Rossa", Michele, o alter ego de Nanni Moretti, enquanto procura um rumo entre os escombros do PCI, responde a uma jornalista, após um jogo de pólo aquático. A certa altura grita irritado - "quem fala mal, pensa mal. É preciso encontrar as palavras adequadas: as palavras são importantes". A política é também uma conversa que temos uns com os outros, logo falar bem é uma competência essencial. Para quem tenha visto os debates, fica claro que há três líderes que se sentem bem na dimensão tribunícia da política: Sócrates, Portas e Louçã. Depois há Jerónimo, cujo estilo patusco, adequadamente descrito como "comunismo de sociedade recreativa", tem servido para compensar o crescendo ortodoxo do PCP. Sobra Ferreira Leite.

Não é novidade: Ferreira Leite não domina a palavra. Se nos debates não houve gaffes, surgiu a outra face da mesma moeda: os raciocínios confusos e as frases por acabar.

O problema é que a líder do PSD não compensa essa fragilidade com uma afirmação tecnocrática, até porque se recusa a desvendar como é que o saber técnico poderia responder aos males nacionais. Aparentemente, esta negação das formas tradicionais de fazer política revela- -se mobilizadora. O que só pode ser visto como um perigoso sintoma de empobrecimento do sistema político, com a agravante de não inaugurar nada de novo. Desde logo porque não podemos esperar de quem fala mal que pense bem.

publicado no i.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Sinais de fogo, os homens se despedem,
exaustos e tranquilos, destas cinzas frias,
lançando ao mar os barcos de outra vida.

Jorge de Sena

Vamos assustá-los

A política é a continuação da guerra por outros meios e os debates entre candidatos um desporto de combate. Contra todas as expectativas, Louçã perdeu o debate com Sócrates por KO técnico. As razões da derrota são simples: Sócrates usou as armas que Louçã costuma utilizar - um caso concreto para desmontar um argumento genérico -, enquanto Louçã não soube pôr-se no papel de primeiro-ministro - que tem de oferecer princípios genéricos para justificar políticas concretas. O líder do BE só pode viver mal com essa dificuldade. Afinal o seu objectivo é liderar a esquerda e ser primeiro-ministro. Acontece que o BE vive uma crise de crescimento: mobiliza o voto de protesto, desde que não exponha aquele que é, de facto, o seu programa eleitoral. Se é revelado o que o BE pretende fazer (do programa de nacionalizações ao fim das deduções fiscais, passando pelo antieuropeísmo), logo se percebe que não há ali nada de novo e o que há de velho é assustador.
Há, a este propósito, frases particularmente reveladoras. Logo após o debate, Louçã foi encerrar um comício em Almada. Tal como um general ferido em plena batalha, e certamente inspirado pelo discurso de Almada de Vasco Gonçalves, não resistiu a mobilizar as tropas com um "vamos assustá-los". O risco é mesmo esse - assustar muitos dos potenciais eleitores do BE, que não se revêem no projecto político do partido.
publicado no i.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

43 anos e centenas de grupos depois, ninguém voltou a conseguir fazer isto



Costumo conseguir escolher a minha música preferida de todas as bandas, bem como o melhor álbum. Os Beatles são excepção. Divido-me entre 4 álbuns (Rubber Soul, Revolver, Branco e Abbey Road) e um sem número de músicas. Hoje, o meu top-10 é este. E que belo dia, passado com a ideia que a esta altura a caixa já vem a caminho da minha caixa de correio.
A day in the life
Strawberry fields forever
Tomorrow never knows
Dear Prudence
For no one
Across the universe
Something
While my guitar gently weeps
Happiness is a warm gun
The long and winding road

terça-feira, 8 de setembro de 2009

As cabras tornam-se pastores


"Twelve hard lessons the Bible taught me, kind of."

Daqui a um mês, sai o disco novo dos Mountain Goats. Boas notícias e nada como fazer uma pré-ordem. Entretanto, mais boas notícias: enquanto não chega o disco, o mais provável é que já amanhã se consiga encontrar um site para fazer o download. Hoje mesmo, John Darnielle anunciou que houve um leak (I don't know if you're aware of this-- the album leaked today). Mais notícias, o álbum é inspirado em passagens bíblicas (algo que estava à espera de acontecer) e já há uma canção que pode ser ouvida aqui. Também já se sabe que Owen Pallet (aka Final Fantasy) fez os arranjos. Aliás, na tournée norte-americana, Pallet juntar-se-á a Darnielle, Hughes e Wurster. Bom, e aqui chegam as más notícias. Em meados de Outubro, Darnielle vai dar uns quantos concertos na Europa (a solo) e Portugal nada. Não haverá nenhum promotor interessado em trazê-lo cá? Era o que se poderia chamar, verdadeiramente, de serviço público.
(entretanto, aqui está uma bela entrevista)

Um conselho

Não percam muito tempo a ler tudo o que se tem escrito sobre a box-set dos Beatles. Leiam antes este artigo da Pitchfork e dificilmente ficarão com perguntas por responder. Depois, podem dedicar-se a ler as críticas aos discos, uma a uma.

"Listening to the new masters, the differences in sound quality generally manifest in three ways: songs have more "punch," with Paul McCartney's bass (an absolute wonder throughout) and Ringo's drums hitting with more force; the separation is better, so that instruments and (especially) layered vocals have more definition-- when the Beatles are harmonizing, you can more easily pick out the different vocalists, and the voices have more presence; and finally, the sound in general seems just a touch brighter, with various sound effects, cymbals taps, and so on, ringing with more clarity. The differences to my ears are not quite night and day, but they are certainly there, and they are noticeable. And it's satisfying to have these albums, absolutely some of the best-engineered records in the history of pop music, sounding as good as they can."

Uma questão de oportunidade

A liberdade de expressão, como se tem visto, infelizmente, não se defende nem com indignação colectiva, nem com auto-regulação. É aqui que importa recordar a Lei do pluralismo e da não concentração dos media. Não era certamente uma Lei totalmente equilibrada - levantava, por exemplo, alguns problemas de operacionalização - mas era um passo claro no sentido de regular o sector.
Um aspecto decisivo para a defesa da liberdade de expressão passa pela autonomia das decisões editoriais face aos detentores do capital e às administrações das empresas. As especificidades do negócio da comunicação social a isso o obrigam. Ora o que temos hoje, face à não promulgação da Lei, é um vazio que possibilita, de facto, que os detentores de um grupo económico intervenham directamente nas decisões editoriais. Deixemos agora de lado a discussão sobre a bondade do afastamento de Moura Guedes, a verdade é que foi esse vazio legal que permitiu que, consoante as versões, os donos da Media Capital ou a administração tivessem passado por cima das chefias editoriais e afastassem a "jornalista". Se há indícios ou mesmo provas cabais de que, cada vez mais, a autonomia editorial das redacções se encontra limitada por força de um intervencionismo das administrações que ameaça a liberdade de expressão, esse problema agrava-se quando, como já acontece em alguns casos em Portugal, nem sequer sabemos quem são os proprietários dos órgãos de comunicação social.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

EN2 (epílogo)

sábado, 5 de setembro de 2009

A verdade é totalitária

Em 1984, apenas quatro ministérios governavam a Oceânia. Um era o da verdade, onde, aliás, trabalhava o protagonista da distopia de Orwell. O jornal do regime soviético chamava-se "Pravda", verdade em russo. O partido nazi exigia no seu manifesto que fossem perseguidos aqueles que propagavam mentiras políticas. A história ensina-nos a desconfiar de quem nos promete uma política imune à mentira.

Nas sociedades abertas não há nem uma verdade, nem superioridade moral de uma "mundividência", para usar um novo modismo. Pelo contrário, há uma concorrência racional, assente em regras partilhadas, entre diferentes verdades.

Por paradoxal que possa parecer, precisamos mais de políticos que defendam a sua verdade (uma visão alternativa da realidade com soluções contrastantes) do que de políticos que se afirmem detentores da verdade (enquanto definição positivista de soluções desprovidas de juízos de valor).

Em Portugal, a semanas das eleições, quando devíamos estar focados na escolha entre programas, o que nos é sugerido é que optemos entre caracteres e atitudes. Convenhamos que se percebe o apelo imediato da política de verdade - chama a atenção para promessas não cumpridas e serve para atacar o carácter dos oponentes - mas remete para um mundo nada admirável e faz muito pouco pela credibilidade da política.

publicado no i.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A estupidez não tem limites

O Jornal Nacional da TVI não gostava de José Sócrates e o afecto era retribuído. A vantagem é que quem frequentava aquela hora já sabia ao que ia: não era possível ter um olhar neutro, até porque o que era oferecido não era um produto jornalístico, assente em factos e no contraditório. Mas essa é outra história, que tinha, aliás, a vantagem de ser clara. A três semanas de eleições, a decisão de pôr fim ao regresso anunciado de Manuela Moura Guedes aos ecrãs é uma decisão notável, que não se percebe a quem convém. Comercialmente não faz sentido que a Media Capital abdique de um programa líder de audiências e politicamente Sócrates sai prejudicado pela percepção de que afinal há "asfixia democrática". Mas, convenhamos, uma televisão privada é uma empresa, em que também há relações hierárquicas. Ora o que poderá uma administração fazer quando uma funcionária se entretém a conceder declarações à imprensa que colocam manifestamente em causa a autonomia das decisões da administração? Pois foi isso que fez Moura Guedes ao dizer, textualmente, que "só se fosse alguém muito estúpido" é que a tirava do ar. Entre fingir que não ouviram ou agir em conformidade face a uma chantagem, a administração agiu. É, no mínimo, estúpido e inoportuno.
publicado no i, onde a partir de hoje passo a escrever todas as sextas e sábados.

EN2 (3) - o cão ideal para se desenhar

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A EN2 (-1 e 2)

O prólogo que só hoje vi


e Viseu/Góis

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A EN2


O João Catarino tem dois blogues notáveis: um onde desenha sobre surf e outro sobre o resto das coisas. Nunca percebi a razão da divisão. Pouco importa: nos próximos dias, o i vai revelar os desenhos e os textos da sua viagem através da estrada nacional 2. Vejam o video e digam lá se não dava um belo programa de serviço público (por exemplo em lugar daquelas coisas inenarráveis que a 2 nos oferece agora, mesmo antes da meia-noite)?

Que fazer?


Faltam sete dias e vivo com uma dúvida: comprar a caixa integral dos Beatles com as edições remasterizadas (e em digipak, esta parte é fundamental) com os primeiros quatro discos em mono ou em stereo (os quatro primeiros discos que são aqueles que provavelmente nem ouvirei)?
(uma rápida prospecção ao mercado diz-me que a compra mais económica é aqui).

terça-feira, 1 de setembro de 2009

E à 3ª jornada, começou a cumprir-se a profecia


"O Benfica em termos individuais tem excelentes jogadores e vão jogar o dobro do que jogaram no ano passado. E o dobro, se calhar, é pouco!"
Jesus, em declarações no dia da apresentação

Como fazer?

Se fosse possível desenhar um regime de segurança social desde o zero, a escolha recairia sobre um sistema misto. O problema é que tal não é possível: há um legado institucional que, ao mesmo tempo que impossibilita que se desenhe um sistema como se não existissem opções anteriores, torna os custos de transição de tal modo elevados que qualquer mudança no sistema é financeiramente incomportável. Desde logo, porque para começar a capitalizar diminuir-se-ia automaticamente a receita, logo o sistema ficaria impossibilitado de assegurar as prestações dos actuais beneficiários. Que o PSD se proponha mudar a natureza do nosso regime, ainda para mais numa altura em que o mercado de trabalho se encontra deprimido, e não dedique uma linha a explicar como o pretende fazer não é um contributo sério para uma política de verdade. Sinceramente, não vejo como seja possível diminuir a taxa social única em dois pontos percentuais, tornar o subsídio de desemprego mais generoso e, ao mesmo tempo, fazer evoluir a segurança social para um sistema misto. Pensando bem há uma forma: ferindo de morte a sustentabilidade financeira da segurança social.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

Espero que tenha sido tão bom para vocês como para mim



"We are sleek and beautiful
We are cursed
Ready for the future
Ready for the world about to come"