"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Acabar o mandato com dignidade

Ontem, ainda meio estonteado com a mais insólita das declarações políticas que me foi dado ouvir, disse isto. Mas na verdade, o essencial está dito neste video (via Tiago Tibúrcio)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Dêem-me vida



Este blog podia acabar aqui.

Tempos sombrios

O novo parlamento cria um contexto que desresponsabiliza individualmente os partidos de esquerda, que não se sentirão pressionados para contribuir, cada um por si, para a governabilidade; e representa uma ameaça para o PS, se optar por procurar o apoio à direita. Como, aliás, revelam os resultados eleitorais na Alemanha, quando o centro-esquerda se alia à direita, as perdas eleitorais à esquerda tornam-se inevitáveis. Esta assimetria nas relações do PS com a direita e com a esquerda num parlamento com clara inclinação à esquerda, colocará, paradoxalmente, dilemas políticos de difícil superação. Ficámos com um parlamento onde todos ganharam, mas onde a soma das vitórias parciais pouco contribui para a governabilidade e para responder aos problemas do país.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Lucy in the sky

Morreu Lucy O'Donnel, aka the girl with kaleidoscope eyes, a colega de Julian Lennon que, contra todas as especulações, inspirou de facto o pai John.

Dilemas

Se tivessem de escolher entre este original



e este cover



o que é que faziam? (tendo conhecido primeiro o cover e só depois o original e sendo também uma escolha entre um tipo com uma camisa e um ar decentes e uma mulher incrivelmente bonita)

atenção que o assunto é sério.

sábado, 26 de setembro de 2009

Mais realistas que os realistas


“Eu, pessoalmente, queimaria todos os livros israelitas que encontrasse numa biblioteca”. A declaração é de Farouk Hosny, Ministro da Cultura do Egípcio há mais de vinte anos, conhecido pelo seu sólido curriculum de declarações anti-semitas, actos censórios e atentados aos direitos das mulheres. O poeta alemão Heinrich Heine escreveu que “onde se queimam livros, acabará por se queimar pessoas”. A história, infelizmente, foi-lhe sempre dando razão.
E não é possível não recordar a história quando o Governo português apoia Farouk Hosny para Director-Geral da Unesco. O embaixador português na UNESCO, Manuel Maria Carrilho recusou-se a acatar a decisão do Palácio das Necessidades, tendo sido substituído na votação por um diplomata de carreira. No fim, ironia do destino, o candidato egípcio, contra as expectativas, acabaria por ser derrotado pela candidata búlgara. Claro que a culpa da derrota foi das forças sionistas.
Do pouco que se sabe, o voto português teria como troca o apoio egípcio à candidatura de Portugal a um lugar não-permanente no conselho de segurança da ONU para o biénio 2011-2012. Não sei se será exactamente assim, mas o que sei é que a diplomacia portuguesa revela sempre uma incansável tendência para ser mais realista que os realistas. Sofremos do síndrome dos bons alunos, mas sem benefícios e à custa de princípios inegociáveis. E se há alguma coisa inegociável é não tolerar quem pondera queimar livros.
publicado no i.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

yes, you can call me anything you want

Humbug dos Arctic Monkeys não precisava de ter mais nenhuma música para além de Cornerstone para ser um grande álbum. E tem muitas grandes músicas para além de Cornerstone.

É da natureza dele

Quando se candidatou à Presidência, Cavaco Silva fez da cooperação estratégica o alfa e o ómega do que seria o seu papel em Belém. Hoje, é claro que, enquanto o PSD teve lideranças nas quais Cavaco Silva não se revia, a acção de Belém foi de facto instrumental na capacitação do Governo para levar a cabo políticas estratégicas para o País. Mas, uma vez resolvida a questão interna do PSD, a natureza táctica da cooperação saltou à vista.
O problema de Ferreira Leite é que, como aliás aconteceu no passado, quando os Presidentes procuram tutelar o seu espaço político, os resultados não são famosos. Naturalmente que ninguém esperaria que se chegasse tão longe, ao ponto de, aparentemente, se ter tentado, com a conivência ou não de Cavaco, não se sabe, um ‘putsch’ por meios mediáticos.
A meio da semana, quando o que restava era compensar os danos colaterais da demissão de Fernando Lima, Pacheco Pereira apelou a que Cavaco dissesse tudo o que tinha a dizer sobre o tema. Fazia sentido: era a única saída viável para a posição em que o PSD se colocou ao focar a campanha na verdade, quando o que preocupa os portugueses são as questões económicas e sociais.
O apelo, contudo, embateu num obstáculo. Cavaco Silva, com o seu característico realismo, já estava a pensar em segunda-feira. Deixou cair Fernando Lima, como havia deixado cair Fernando Nogueira e, pelo meio, foi Ferreira Leite que ficou sem discurso e sem campanha.
publicado no i.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

What's left



Nos sessenta anos, born to run no mítico concerto no hammersmith odeon. a primeira vez na Europa, com uns tenros 26 anos.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

A dissolução

Cavaco Silva, depois de ter estado quatro dias em estado de negação perante o mais grave conflito institucional da história da democracia portuguesa, sacrificou o seu assessor e homem de confiança há largos anos. Será que é suficiente para apagar os estragos entretanto feitos?

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Expansão da procura externa


Hi Pedro
Due to overwhelming worldwide demand for the Beatles Box Sets we are waiting for our stock to arrive. We are expecting stock to arrive at the end of October and will keep you informed with any updates. We apologise for any inconvenience caused. If you have any questions then please don’t hesitate to contact our Customer Service.
Best regards

sábado, 19 de setembro de 2009

Uma conversa de merda

Sinceramente, já não há paciência para esta conversa de merda. Ontem, a drª Ferreira Leite, num dia em que as declarações delirantes se sucederam a um ritmo vertiginoso, vindas de vários lados, entre várias pérolas, disse isto: "Aquilo que o PS trouxe foi medo, medo. As pessoas têm medo. (...) Cada um de vós, tenho a certeza, se é funcionário público, se é professor, se trabalha num hospital, se tem amigos com quem costuma falar ao telefone, em todas as situações já disse: cuidado, que ninguém nos oiça, eu não te posso contar isto porque se calhar o meu telefone pode estar em escuta."
Há coisas que convém ser recordadas: enquanto estas afirmações assentam apenas num conjunto de suspeições, sem qualquer facto ou indício que as comprove (e por isso são, ao mesmo tempo, irresponsáveis e graves), houve de facto uma direcção partidária que comprovadamente esteve sob escuta. Dá-se o caso de ter sido do PS.

ai, ai, ai, ai, ai, ai, que não pode ser

Na sequência da publicação do email de Luciano Alvarez para Tolentino da Nóbrega pelo DN, muitos jornalistas têm-se indignado com a violação da correspondência privada entre dois jornalistas e a não protecção de uma fonte de outro jornal. A indignação faz todo o sentido, mas não deixa de ser curioso que seja a mesma classe profissional que quotidianamente viola a privacidade de um sem número de pessoas que agora se indigna. Não será apenas porque desta vez o "violado" foi um jornalista?

O ocaso no Verão

Em Agosto, a história parecia um caso de Verão, passageiro e equívoco. Quando Cavaco Silva disse que as escutas estavam a desviar as atenções do essencial, a declaração parecia sensata e desautorizava as fontes de Belém invocadas pelo Público. Passada a época das tontarias, no Domingo passado o Provedor do Leitor do Público revelou que as alegadas escutas não se baseavam em qualquer "indício palpável", para além "de um indício, sim, mas de paranóia, oriunda do Palácio de Belém". Mais, todas as informações recolhidas pelo correspondente do jornal na Madeira que contradiziam a fonte de Belém haviam sido ostensivamente ignoradas aquando da publicação das notícias. Entretanto, ontem, o DN revelava um e-mail onde se dá conta do modo como, alegadamente, um assessor de Cavaco plantou a notícia.
Tudo sugere que estamos perante um gravíssimo episódio de manipulação política do jornalismo e um acto institucionalmente inaceitável. Como é hábito, entre explicações delirantes, ninguém assume responsabilidades, mas as consequências são já claras: o que aparentava ser um caso tonto tornou-se no ocaso da superioridade moral de Cavaco Silva. Quando mais precisávamos de um Presidente capaz de contribuir para a solidez institucional, ajudando a formar um Governo sólido, que supere a inevitável fragmentação eleitoral, teremos um Presidente fragilizado na sua principal mais-valia: a credibilidade.

publicado no i.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Homens em tempos sombrios


Gostar ou não de ciclismo é a prova definitiva para se saber se alguém gosta ou não de desporto. Quem nunca percebeu o prazer de passar uma tarde inteira em frente à televisão a ver o Marco Chagas, antes, ou a ouvir o Marco Chagas, agora, perde muito. Mas o ciclismo também não é um desporto para homens. Ninguém pode conseguir suportar tudo aquilo. Há doping no ciclismo, claro que há. Como poderia não haver. Hoje, ficou a saber-se que o Nuno Ribeiro tomou EPO. É uma merda, é o que é. Passei umas boas tardes de verão emocionado com a ligeireza com que ele pedalou este ano na volta, vencendo contra todas as expectativas, desde logo da sua própria equipa - que não o havia escolhido como chefe de fila. Mas a prova de que o ciclismo é mesmo um desporto de homens, foi hoje ver o Américo Silva - director desportivo da Liberty - a falar no noticiário da RTP (pode ser que alguém tenha a dignidade de colocar aquilo no youtube). Mesmo em tempos sombrios, no ciclismo encontram-se homens.

adenda: o Luís Caldas enviou-me o link para o noticiário da RTP. O Américo aparece por volta do minuto 29.

Partidos capturados

Zangam-se as comadres, sabem-se as verdades. Como se vê pelos votos comprados no PSD, a asserção também é válida para os partidos políticos. Com a agravante de o assunto não ser apenas entre comadres, mas dizer respeito a todos.
Para um estranho à vida partidária, eleições internas não passam de acontecimentos menores, que tendem a decorrer em caves fechadas, distantes da realidade. Acontece que não é assim. Dificilmente se encontra melhor observatório do agravamento do fosso entre partidos e cidadãos.
Pagar quotas de terceiros é uma prática com lastro histórico. Mesmo com a introdução de pagamento feito directamente pelos militantes, continuam a persistir formas mais ou menos sofisticadas de generosidade interessada. Caciques locais que pagam em massa quotas de terceiros. O intuito é simples: quem paga tem o poder de decidir quem é militante, logo quem elege representantes nas estruturas partidárias.
Ora, esta generosidade tem várias consequências. Fecha os partidos à entrada de novos militantes e reproduz lógicas perversas de poder interno. Se há 100 militantes e estes são suficientes para manter uma determinada estrutura de poder, qual a razão para abrir a porta a novos militantes com autonomia? Depois, quem paga quotas é eleito e quem é eleito passa a ter recursos para pagar mais quotas e ainda dar uns bónus (25 ou 30 euros, ficámos a saber). Fica assim explicada a importância, para alguns, de estar nas listas de deputados.
publicado no i.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Mary Travers (1936-2009)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Os Young Marble Giants reencarnaram

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Apoios e apoios

Hoje ficou a saber-se que Sócrates gostaria de contar com Moita Flores. Sorte tem o PSD que não conta com ele. Há apoios que subtraem.

A governabilidade na Europa

A maioria absoluta de um só partido está hoje afastada dos cenários eleitorais. Logo, voltámos a ser assolados pelo espectro da ingovernabilidade. O que não deixa de ser estranho, num país onde, por tudo e por nada, se recorre aos exemplos que vêm de fora. Ora, olhando para os 27 Estados-membros da U.E., os governos maioritários de um só partido são a excepção, a regra são as coligações.
É possível distinguir três tipos de governos na Europa a 27. As coligações entre vários partidos; governos minoritários; e, finalmente, os governos monocolores. Há, neste momento, na Europa, 17 governos que assentam em coligações entre partidos; 4 governos minoritários (que vão desde coligações minoritárias, de que são exemplo a Bulgária, a Dinamarca e a Estónia, até à Espanha, onde o PSOE não tem maioria absoluta, mas governa sozinho, negociando com partidos regionais); e finalmente 6 governos com maioria de um só partido. Nesta última categoria, Portugal e Chipre são claramente casos excepcionais (pois têm sistemas eleitorais proporcionais, pouco propensos à formação de maiorias absolutas), enquanto Reino Unido e França têm sistemas maioritários, a Grécia um bónus maioritário e Malta um sistema bipartidário de facto (só dois partidos elegem deputados).
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

He sounds like a grittier Sinatra.

It Came From Brooklyn: The Walkmen // In The New Year [Part 1 of 3] from Ray Concepcion on Vimeo.


Tenho por bom princípio nunca ler caixas de comentários - é uma forma de preservar relativamente intacta a minha inclinação para o optimismo antropológico -, mas na caixa de comentários da stereogum encontrei a mais justa definição das qualidades vocais de Hamilton Leithauser, o vocalista dos Walkmen. Por uma vez não foi o Dylan da fase eléctrica, mas com maior amplitude vocal, que foi evocado. Mas sim Sinatra. Vejam lá este video - esqueçam os maneirismos arty da câmara sempre em movimento - de um concerto da série "It Came From Brooklyn" no Museu Guggenheim e digam lá se não há ali qualquer coisa de Sinatra, mas com mais coragem.

sábado, 12 de setembro de 2009

A palavra é importante


Numa cena de "Palombella Rossa", Michele, o alter ego de Nanni Moretti, enquanto procura um rumo entre os escombros do PCI, responde a uma jornalista, após um jogo de pólo aquático. A certa altura grita irritado - "quem fala mal, pensa mal. É preciso encontrar as palavras adequadas: as palavras são importantes". A política é também uma conversa que temos uns com os outros, logo falar bem é uma competência essencial. Para quem tenha visto os debates, fica claro que há três líderes que se sentem bem na dimensão tribunícia da política: Sócrates, Portas e Louçã. Depois há Jerónimo, cujo estilo patusco, adequadamente descrito como "comunismo de sociedade recreativa", tem servido para compensar o crescendo ortodoxo do PCP. Sobra Ferreira Leite.

Não é novidade: Ferreira Leite não domina a palavra. Se nos debates não houve gaffes, surgiu a outra face da mesma moeda: os raciocínios confusos e as frases por acabar.

O problema é que a líder do PSD não compensa essa fragilidade com uma afirmação tecnocrática, até porque se recusa a desvendar como é que o saber técnico poderia responder aos males nacionais. Aparentemente, esta negação das formas tradicionais de fazer política revela- -se mobilizadora. O que só pode ser visto como um perigoso sintoma de empobrecimento do sistema político, com a agravante de não inaugurar nada de novo. Desde logo porque não podemos esperar de quem fala mal que pense bem.

publicado no i.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Sinais de fogo, os homens se despedem,
exaustos e tranquilos, destas cinzas frias,
lançando ao mar os barcos de outra vida.

Jorge de Sena

Vamos assustá-los

A política é a continuação da guerra por outros meios e os debates entre candidatos um desporto de combate. Contra todas as expectativas, Louçã perdeu o debate com Sócrates por KO técnico. As razões da derrota são simples: Sócrates usou as armas que Louçã costuma utilizar - um caso concreto para desmontar um argumento genérico -, enquanto Louçã não soube pôr-se no papel de primeiro-ministro - que tem de oferecer princípios genéricos para justificar políticas concretas. O líder do BE só pode viver mal com essa dificuldade. Afinal o seu objectivo é liderar a esquerda e ser primeiro-ministro. Acontece que o BE vive uma crise de crescimento: mobiliza o voto de protesto, desde que não exponha aquele que é, de facto, o seu programa eleitoral. Se é revelado o que o BE pretende fazer (do programa de nacionalizações ao fim das deduções fiscais, passando pelo antieuropeísmo), logo se percebe que não há ali nada de novo e o que há de velho é assustador.
Há, a este propósito, frases particularmente reveladoras. Logo após o debate, Louçã foi encerrar um comício em Almada. Tal como um general ferido em plena batalha, e certamente inspirado pelo discurso de Almada de Vasco Gonçalves, não resistiu a mobilizar as tropas com um "vamos assustá-los". O risco é mesmo esse - assustar muitos dos potenciais eleitores do BE, que não se revêem no projecto político do partido.
publicado no i.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

43 anos e centenas de grupos depois, ninguém voltou a conseguir fazer isto



Costumo conseguir escolher a minha música preferida de todas as bandas, bem como o melhor álbum. Os Beatles são excepção. Divido-me entre 4 álbuns (Rubber Soul, Revolver, Branco e Abbey Road) e um sem número de músicas. Hoje, o meu top-10 é este. E que belo dia, passado com a ideia que a esta altura a caixa já vem a caminho da minha caixa de correio.
A day in the life
Strawberry fields forever
Tomorrow never knows
Dear Prudence
For no one
Across the universe
Something
While my guitar gently weeps
Happiness is a warm gun
The long and winding road

terça-feira, 8 de setembro de 2009

As cabras tornam-se pastores


"Twelve hard lessons the Bible taught me, kind of."

Daqui a um mês, sai o disco novo dos Mountain Goats. Boas notícias e nada como fazer uma pré-ordem. Entretanto, mais boas notícias: enquanto não chega o disco, o mais provável é que já amanhã se consiga encontrar um site para fazer o download. Hoje mesmo, John Darnielle anunciou que houve um leak (I don't know if you're aware of this-- the album leaked today). Mais notícias, o álbum é inspirado em passagens bíblicas (algo que estava à espera de acontecer) e já há uma canção que pode ser ouvida aqui. Também já se sabe que Owen Pallet (aka Final Fantasy) fez os arranjos. Aliás, na tournée norte-americana, Pallet juntar-se-á a Darnielle, Hughes e Wurster. Bom, e aqui chegam as más notícias. Em meados de Outubro, Darnielle vai dar uns quantos concertos na Europa (a solo) e Portugal nada. Não haverá nenhum promotor interessado em trazê-lo cá? Era o que se poderia chamar, verdadeiramente, de serviço público.
(entretanto, aqui está uma bela entrevista)

Um conselho

Não percam muito tempo a ler tudo o que se tem escrito sobre a box-set dos Beatles. Leiam antes este artigo da Pitchfork e dificilmente ficarão com perguntas por responder. Depois, podem dedicar-se a ler as críticas aos discos, uma a uma.

"Listening to the new masters, the differences in sound quality generally manifest in three ways: songs have more "punch," with Paul McCartney's bass (an absolute wonder throughout) and Ringo's drums hitting with more force; the separation is better, so that instruments and (especially) layered vocals have more definition-- when the Beatles are harmonizing, you can more easily pick out the different vocalists, and the voices have more presence; and finally, the sound in general seems just a touch brighter, with various sound effects, cymbals taps, and so on, ringing with more clarity. The differences to my ears are not quite night and day, but they are certainly there, and they are noticeable. And it's satisfying to have these albums, absolutely some of the best-engineered records in the history of pop music, sounding as good as they can."

Uma questão de oportunidade

A liberdade de expressão, como se tem visto, infelizmente, não se defende nem com indignação colectiva, nem com auto-regulação. É aqui que importa recordar a Lei do pluralismo e da não concentração dos media. Não era certamente uma Lei totalmente equilibrada - levantava, por exemplo, alguns problemas de operacionalização - mas era um passo claro no sentido de regular o sector.
Um aspecto decisivo para a defesa da liberdade de expressão passa pela autonomia das decisões editoriais face aos detentores do capital e às administrações das empresas. As especificidades do negócio da comunicação social a isso o obrigam. Ora o que temos hoje, face à não promulgação da Lei, é um vazio que possibilita, de facto, que os detentores de um grupo económico intervenham directamente nas decisões editoriais. Deixemos agora de lado a discussão sobre a bondade do afastamento de Moura Guedes, a verdade é que foi esse vazio legal que permitiu que, consoante as versões, os donos da Media Capital ou a administração tivessem passado por cima das chefias editoriais e afastassem a "jornalista". Se há indícios ou mesmo provas cabais de que, cada vez mais, a autonomia editorial das redacções se encontra limitada por força de um intervencionismo das administrações que ameaça a liberdade de expressão, esse problema agrava-se quando, como já acontece em alguns casos em Portugal, nem sequer sabemos quem são os proprietários dos órgãos de comunicação social.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

EN2 (epílogo)

sábado, 5 de setembro de 2009

A verdade é totalitária

Em 1984, apenas quatro ministérios governavam a Oceânia. Um era o da verdade, onde, aliás, trabalhava o protagonista da distopia de Orwell. O jornal do regime soviético chamava-se "Pravda", verdade em russo. O partido nazi exigia no seu manifesto que fossem perseguidos aqueles que propagavam mentiras políticas. A história ensina-nos a desconfiar de quem nos promete uma política imune à mentira.

Nas sociedades abertas não há nem uma verdade, nem superioridade moral de uma "mundividência", para usar um novo modismo. Pelo contrário, há uma concorrência racional, assente em regras partilhadas, entre diferentes verdades.

Por paradoxal que possa parecer, precisamos mais de políticos que defendam a sua verdade (uma visão alternativa da realidade com soluções contrastantes) do que de políticos que se afirmem detentores da verdade (enquanto definição positivista de soluções desprovidas de juízos de valor).

Em Portugal, a semanas das eleições, quando devíamos estar focados na escolha entre programas, o que nos é sugerido é que optemos entre caracteres e atitudes. Convenhamos que se percebe o apelo imediato da política de verdade - chama a atenção para promessas não cumpridas e serve para atacar o carácter dos oponentes - mas remete para um mundo nada admirável e faz muito pouco pela credibilidade da política.

publicado no i.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A estupidez não tem limites

O Jornal Nacional da TVI não gostava de José Sócrates e o afecto era retribuído. A vantagem é que quem frequentava aquela hora já sabia ao que ia: não era possível ter um olhar neutro, até porque o que era oferecido não era um produto jornalístico, assente em factos e no contraditório. Mas essa é outra história, que tinha, aliás, a vantagem de ser clara. A três semanas de eleições, a decisão de pôr fim ao regresso anunciado de Manuela Moura Guedes aos ecrãs é uma decisão notável, que não se percebe a quem convém. Comercialmente não faz sentido que a Media Capital abdique de um programa líder de audiências e politicamente Sócrates sai prejudicado pela percepção de que afinal há "asfixia democrática". Mas, convenhamos, uma televisão privada é uma empresa, em que também há relações hierárquicas. Ora o que poderá uma administração fazer quando uma funcionária se entretém a conceder declarações à imprensa que colocam manifestamente em causa a autonomia das decisões da administração? Pois foi isso que fez Moura Guedes ao dizer, textualmente, que "só se fosse alguém muito estúpido" é que a tirava do ar. Entre fingir que não ouviram ou agir em conformidade face a uma chantagem, a administração agiu. É, no mínimo, estúpido e inoportuno.
publicado no i, onde a partir de hoje passo a escrever todas as sextas e sábados.

EN2 (3) - o cão ideal para se desenhar

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A EN2 (-1 e 2)

O prólogo que só hoje vi


e Viseu/Góis

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A EN2


O João Catarino tem dois blogues notáveis: um onde desenha sobre surf e outro sobre o resto das coisas. Nunca percebi a razão da divisão. Pouco importa: nos próximos dias, o i vai revelar os desenhos e os textos da sua viagem através da estrada nacional 2. Vejam o video e digam lá se não dava um belo programa de serviço público (por exemplo em lugar daquelas coisas inenarráveis que a 2 nos oferece agora, mesmo antes da meia-noite)?

Que fazer?


Faltam sete dias e vivo com uma dúvida: comprar a caixa integral dos Beatles com as edições remasterizadas (e em digipak, esta parte é fundamental) com os primeiros quatro discos em mono ou em stereo (os quatro primeiros discos que são aqueles que provavelmente nem ouvirei)?
(uma rápida prospecção ao mercado diz-me que a compra mais económica é aqui).

terça-feira, 1 de setembro de 2009

E à 3ª jornada, começou a cumprir-se a profecia


"O Benfica em termos individuais tem excelentes jogadores e vão jogar o dobro do que jogaram no ano passado. E o dobro, se calhar, é pouco!"
Jesus, em declarações no dia da apresentação

Como fazer?

Se fosse possível desenhar um regime de segurança social desde o zero, a escolha recairia sobre um sistema misto. O problema é que tal não é possível: há um legado institucional que, ao mesmo tempo que impossibilita que se desenhe um sistema como se não existissem opções anteriores, torna os custos de transição de tal modo elevados que qualquer mudança no sistema é financeiramente incomportável. Desde logo, porque para começar a capitalizar diminuir-se-ia automaticamente a receita, logo o sistema ficaria impossibilitado de assegurar as prestações dos actuais beneficiários. Que o PSD se proponha mudar a natureza do nosso regime, ainda para mais numa altura em que o mercado de trabalho se encontra deprimido, e não dedique uma linha a explicar como o pretende fazer não é um contributo sério para uma política de verdade. Sinceramente, não vejo como seja possível diminuir a taxa social única em dois pontos percentuais, tornar o subsídio de desemprego mais generoso e, ao mesmo tempo, fazer evoluir a segurança social para um sistema misto. Pensando bem há uma forma: ferindo de morte a sustentabilidade financeira da segurança social.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

Espero que tenha sido tão bom para vocês como para mim



"We are sleek and beautiful
We are cursed
Ready for the future
Ready for the world about to come"

terça-feira, 4 de agosto de 2009


"somos crianças feitas para grandes férias"
Ruy Belo

Ricos e Pobres

Num país com uma taxa de pobreza que nos devia envergonhar colectivamente, há quem tenha dificuldade em definir o que é ser rico. Paradoxalmente, nem por cá, nem na Europa a que pertencemos, há dificuldade em definir o que é ser pobre.
Nas sociedades democráticas e para além da ausência de níveis mínimos de subsistência que caracterizam a privação absoluta, a pobreza é um conceito relativo. Não por acaso, existe uma consagração estatística do risco de pobreza e, na Europa, pobres são todos os que têm rendimentos inferiores em 60% à mediana. Aliás, o leitor estará certamente recordado: cada vez que o Eurostat publica os dados sobre a taxa de pobreza na Europa, assistimos em Portugal a um movimento de indignação colectiva com a persistência e com a dimensão do fenómeno. A indignação é totalmente justa, mas não deixa de ser estranho que desapareça com a mesma intensidade com que surge. Na verdade, só somos capazes de definir quem são os pobres porque somos capazes de saber quem são os que têm rendimentos médios e, naturalmente, aqueles que são ricos. Acontece que, surpresa, em Portugal - o tal país com níveis intoleráveis de pobreza - hesitamos perante a necessidade de definir quem são, relativamente, os ricos.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

domingo, 2 de agosto de 2009

O fim das fotocópias

Durante muito tempo, a política portuguesa viveu assolada pelo espectro da indiferenciação: as opções do PSD e do PS para as políticas públicas pouco se distinguiam. Se alguma coisa resultou clara da conferência “Transformar Portugal” foi precisamente a consolidação do fim dos partidos fotocópias. José Sócrates e Manuel Ferreira Leite – e com eles PS e PSD – distinguem-se hoje bem mais do que no passado.
Antes de mais, no estilo. Podemos não saber exactamente que tipo de político preferem hoje os portugueses, mas enquanto Sócrates revelou uma notável desenvoltura formal na sua intervenção (falou de improviso), Ferreira Leite mostrou-se presa a um discurso escrito assente num conjunto de lugares comuns, tão pueris como facilmente partilháveis por todos.
Depois, nas opções estratégicas. Se é verdade que Ferreira Leite voltou a revelar muito pouco – ou rigorosamente quase nada – do que se propõe fazer se ganhar as eleições, é ainda assim possível intuir diferenças substantivas entre os dois candidatos.
Sócrates, ao mesmo tempo que fez uma defesa do seu executivo em duas áreas chaves (a educação e as renováveis), defendeu um aprofundamento das funções do Estado nas áreas sociais, designadamente respondendo aos trabalhadores de baixos salários, quer através de uma nova prestação, quer através da densificação das respostas de serviços às famílias. Ferreira Leite, ainda que tenha centrado a sua intervenção quase exclusivamente nas questões económicas e financeiras, não deixou de sugerir que as funções sociais do Estado devem ser supletivas.
No fim, ficou também a diferença sobre o papel da política fiscal. Enquanto para Ferreira Leite os impostos não devem estar ao serviço da equidade, Sócrates parece ter dado um passo no sentido de tornar a política fiscal mais relevante para as respostas sociais.
A dois meses das eleições, as diferenças entre os dois principais partidos são claras e é possível de facto escolher alternativas. A diferenciação é uma vantagem para a própria democracia, falta agora que o PSD seja capaz de transformar em medidas tangíveis o que até agora é apenas sugerido. Uma coisa é certa, ficamos todos a ganhar com o aprofundar das clivagens e da distinção programática.

Comentário às conferências "Transformar Portugal", publicado no Semanário Económico

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Um choque social

Numa altura em que as ideologias contam pouco, a crise económica e a competição dos partidos à esquerda trouxeram as prioridades sociais para o topo da agenda do PS. O realismo fez com que o lugar que antes era ocupado pelo “choque tecnológico” esteja, hoje, preenchido por um “choque social”.
A este propósito, podemos distinguir dois tipos de compromissos no programa eleitoral.
Um primeiro que tem a ver com o aprofundamento do que foi feito na anterior legislatura (ex. a diferenciação positiva das carreiras contributivas mais longas e a densificação da rede de creches com horários alargados). Um segundo que se prende com inovações que, ao mesmo tempo que podem ter um enorme alcance social, serão financeira e administrativamente muito exigentes. É disto exemplo paradigmático a prestação para as famílias trabalhadoras com filhos, que se encontram em risco de pobreza.
É uma medida ambiciosa, dirigida ao problema social mais premente: os trabalhadores de baixos salários. Simultaneamente, é o mais forte dos incentivos à activação dos beneficiários da rede de mínimos sociais. A enunciação programática é ainda vaga, mas, a ser levada à letra, o que está em causa é, de facto, uma espécie de majoração do rendimento mínimo para quem está no mercado de trabalho. Enquanto o RSI tem como referencial a pensão social (187 euros), a linha de pobreza encontra-se aproximadamente nos 400 euros. Estamos, por isso, não apenas a falar de um universo de agregados familiares muito grande (todas as famílias que tendo adultos no mercado de trabalho têm rendimentos per capita inferiores à linha de pobreza), como, potencialmente, de prestações diferenciais com montantes muito significativos.
A diferença estará nos detalhes no desenho da medida, mas o seu alcance será equivalente ao do rendimento mínimo garantido e do complemento solidário para idosos. Resta saber se haverá recursos suficientes para o fazer de um modo abrangente.

publicado no i como comentário ao programa do PS para as áreas sociais.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

As raparigas do coro



"I loved you for your beauty
but that doesn't make a fool of me:
you were in it for your beauty too
and I loved you for your body
there's a voice that sounds like God to me
declaring, declaring, declaring that your body's really you"
L.C.

Desacantonar a política fiscal

Nos últimos anos, Portugal desenvolveu uma rede de mínimos sociais à imagem dos Estados Providência consolidados. Ainda que a pobreza continue a ser a questão social predominante, o caminho passa agora por aumentar a eficácia e a eficiência das políticas existentes. Mas este sucesso relativo aumenta a visibilidade de problemas sociais persistentes. À cabeça a pobreza entre os trabalhadores. Com uma mediana salarial que pouco ultrapassa os 700 euros, há uma classe média literalmente ensanduichada entre as famílias que beneficiam de mínimos sociais e aquelas que têm recursos suficientes. Responder a este grupo é a prioridade do próximo ciclo político.
Acontece que esta resposta já não pode ser dada apenas através da protecção social. Assenta num esforço de densificação dos serviços de apoio às famílias, adequando-os às necessidades de quem está no mercado de trabalho, mas implica, essencialmente, que a política fiscal e a política de emprego assumam maiores responsabilidade sociais. Este movimento requer uma ruptura, desde logo com o património político do PS: a política fiscal não pode continuar acantonada, assumindo escassamente o seu papel redistributivo e solidário. É preciso redistribuir mais e redistribuir mais a favor dos que estão no mercado de trabalho mas vivem uma dupla precariedade: de rendimentos e contratual. Portugal precisa, naturalmente, de modernizar o seu padrão de especialização económico, mas não o pode fazer se não for capaz de fazê-lo solidariamente. Espero por isso que, no programa eleitoral do PS, a política fiscal seja também um instrumento de política social.

publicado no i, como resposta à pergunta: "o que deveria ser o programa de governo?"

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Cum caraças.

Pablito



"Uma vez perguntaram-me quem contratava se tivesse 100 milhões do dólares e respondi Pablito. Tem uma técnica fora do normal e uma visão fenomenal."
Juan Sebastian Verón ao i.

Da onda que se vê no mar



“Um surfista olhando o mar...está vendo ou está sendo?”, pergunta o Pepê César. Raro é o dia que não me cruzo com esta citação, que encabeça a Goiabada do Júlio Adler. Quando a leio, quase fico com a certeza que o modo como se olha o mar é indicador absoluto do nosso temperamento. O surf enviesa esta minha percepção, mas o meu “léxico familiar” é também decisivo.
Contam as “lendas familiares” que o meu Avô paterno tinha por hábito perguntar aos jovens que se apresentavam, se gostavam de pescar. Perante a surpresa e as frequentes respostas negativas, o meu Avô logo atirava, de modo directo: “não é, portanto, dado à contemplação”. O meu Avô nunca pescou, pese embora tentativas frustradas de aprender a arte, nos Verões dos anos cinquenta, com os pescadores de uma Ericeira de praias desertas e de ondas sem surfistas. Mas, sendo ele próprio um contemplativo, sabia que o mar encerrava o espaço adequado para o espírito se absorver. A pesca era um pretexto – como o surf? – para virar as costas ao mundo e fixar-se na natureza essencial das coisas. Olhando. Pescar ou não, seria, para ele, certamente uma irrelevância. O que importava era a disponibilidade para a ideia de pescar.
O escritor italiano Italo Calvino nunca surfou e não sei se alguma vez se dedicou à pesca. Mas Palomar, o seu último livro, publicado um par de anos antes da sua morte (1985), começa com uma leitura de uma onda. Não se trata, é verdade, de uma leitura contemplativa. Afinal, lembra Calvino, para a contemplação é necessário um temperamento, um estado de espírito e um conjunto de circunstâncias externas adequadas e no Senhor Palomar nenhuma destas três condições se verificava. Não por acaso, Palomar enfrenta dificuldades para ler a onda, para a interpretar: “isolar uma onda, separando-a da onda que imediatamente se lhe segue e que parece empurrá-la, e que por vezes a alcança e a arrasta consigo, é muito difícil; assim como separá-la da onda que a precede e que parece arrastá-la atrás de si em direcção à costa, salvo quando depois, eventualmente, se volta contra ela, como que para a deter.”
Ao longo de cinco páginas, a descrição detalhada de Calvino serve para revelar um paradoxo: enquanto ao Senhor Palomar faltavam as competências para ler a onda, o que lhe provocava tensão, para nós, surfistas, é fácil descodificá-la e ao olharmos para uma onda somos apenas envolvidos por um desejo intenso, ainda que de calmaria.
Enquanto o Senhor Palomar sofria com a identificação do percurso visual adequado para seguir uma onda, os surfistas partilham um olhar sequencial quando olham o mar. Contemplamos todos do mesmo modo as ondas: primeiro, as linhas que se aproximam, logo depois o sítio onde a onda começa a quebrar, formando as primeiras espumas; seguimos então o pocket, tentando perceber onde a onda se reforma e abre espaço para reganharmos velocidade através das várias junções, até ao momento em que a onda se desvanece por ter encontrado um excesso de água ou, pelo contrário, fecha, fazendo-nos voltar ao início. Por mais ondas que se ergam no mar, é este invariavelmente o caminho mental que percorremos quando as vemos.
O que para os outros se afigura difícil de “ler” é, para os surfistas, natural, surge com facilidade e quase parece ser parte de nós. O surf provoca um desejo de acção, de remar para as ondas e deslizar na sua superfície. Mas, mesmo que não sejamos dados a pescarias, dá-nos também um entendimento do mar que é feito de uma inescapável inclinação contemplativa. É por isso que, depois de embrenhados no surf, quando olhamos para o mar já não estamos apenas a ver. Estamos também a aproximar-mo-nos de nós mesmos. A ser.

publicado no Sal na Terra e um pretexto para anunciar que o Senhor Palomar anda pela blogosfera.
(tal como no livro, a foto é do Ricardo Bravo)

terça-feira, 28 de julho de 2009

Gráficos que impõem respeito


ainda a propósito disto.

Prometer Empregos

Para quem está no poder, um novo ciclo assenta na avaliação combinada do que foi feito com o que de novo se propõe.
Não por acaso, o PSD, assim que o PS apresentou as suas linha programáticas, veio chamar a atenção para as promessas não cumpridas nos últimos cinco anos. E, nesta legislatura, promessas não cumpridas é sinónimo de 150 mil postos de trabalho.
Sejamos claros: não fazem sentido promessas quantificadas em torno de objectivos cuja concretização não depende exclusivamente da acção governativa. Este é o caso da criação de emprego. Estando descartada a possibilidade de criar emprego público, o mais que o Estado pode fazer - e está longe de ser pouco - é criar condições que estimulem o emprego privado e intervir nos factores que alteram o padrão de especialização da nossa economia. Ora esta intervenção pública só produz efeitos no médio prazo e a sua avaliação não é compaginável com metas quantificadas.
Dito isto, o que é que aconteceu, de facto, aos 150 mil postos de trabalho?

a resposta está no meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Não peço desculpa, vou votar PS

Durante muito tempo, o “não merece, mas vote PS” do O’Neill foi a melhor forma de explicar os sucessos eleitorais relativos (literalmente) do PS. Agora já não o é. Depois de uma primeira maioria absoluta, o PS deixou de ser um partido que ocupava uma posição relativamente central e que por isso causava poucos anti-corpos da esquerda à direita para passar a ser um partido que governou, de facto, e com isso passou a centrar todos os descontentamentos. A experiência foi tão intensa que, hoje, sinal dos tempos, a “nacional situacionista” criou uma barragem tal que alguém que diga que vai votar PS tem antes de pedir desculpa. Não me é difícil fazer uma longa lista de coisas que gostava que este Governo tivesse feito diferente. Mas, eu, de facto, não peço desculpa: vou votar PS porque, ao contrário do que pensa o condutor moral Louçã, a política é mesmo uma negociação e só o PS é capaz de negociar um País onde modernização se combine com solidariedade. Ao mesmo tempo, só o PS o pode fazer ancorado na esquerda e envolvendo gente politicamente variada, que vai, a título de exemplo, do Miguel Vale de Almeida ao Luís Amado. Ora se calhar é mesmo isso que deve ser feito nos próximos anos: negociar mais e fazê-lo com gente mais variada.
também publicado no SIMplex.

Uma história de sucesso

As nossas sociedades vivem sob o espectro do envelhecimento.
Não deixa de ser paradoxal que o que durante muito tempo foi uma ambição quase utópica, uma vez concretizado, se tenha transformado na questão social dominante.
O efeito conjugado da melhoria dos cuidados de saúde, do ‘baby-boom' do pós-guerra e da actual baixa da natalidade, criou um mundo em que, pela primeira vez, o número de pessoas com mais de 65 anos superará o de crianças com menos de cinco. Esta é uma história de sucesso, mas torná-la sustentável passou a ser um desafio difícil de enfrentar.
Portugal encontra-se, a este como a muitos outros respeitos, numa situação particularmente preocupante: combina traços de modernidade (é um dos países mais envelhecidos) com marcas do passado persistentes. O que faz com que estejamos a envelhecer mais depressa do que a enriquecer, muito por força de taxas de emprego elevadas, mas assentes em baixos salários, o que tem levado a um declínio da fertilidade. Precisamos, por isso, de continuar a aumentar a qualidade de vida dos nossos idosos - libertando-os da pobreza e garantindo melhores cuidados de saúde - mas temos de criar condições para que seja possível compatibilizar trabalho com a possibilidade de ter filhos. A escola a tempo inteiro e a universalização da rede de pré-escolar foram passos decisivos nesse sentido. O desafio agora é, por exemplo, aumentar a taxa de cobertura de creches, dos actuais 30% para um valor que permita de facto compensar o envelhecimento da população com o nascimento de mais crianças.

texto publicado no Diário Económico como comentário a este estudo.

sábado, 25 de julho de 2009

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Os problemas da visibilidade

Uma das reformas eternamente reclamadas pelos partidos na oposição, mas logo abandonada uma vez chegados ao poder, é a do Parlamento. Esta verdade com lastro foi colocada em causa nesta legislatura. Foi aprovado um novo regimento, por vontade de uma maioria absoluta, e São Bento ganhou uma nova centralidade no debate político. Nada disto aconteceu sem que velhos problemas se tornassem mais visíveis e que novos fossem revelados.
Apesar de, por força da maioria absoluta, os equilíbrios parlamentares não terem sido determinantes para a governabilidade, a disputa política no Parlamento foi muito visível. Este contexto expôs o primeiro-ministro a um nível de sindicância que não encontra paralelo na democracia portuguesa, mas revelou que a nossa cultura política não está ainda preparada para debates sistemáticos que vão para além de velhos vícios. Para que os debates plenários combinem visibilidade com eficácia têm de se centrar mais nas políticas e menos na política, o que implicará uma participação mais activa dos ministros.
Mas esta legislatura fica também marcada por um nível de conflitualidade inédito entre Belém e Parlamento. Os 11 vetos de Cavaco Silva – que comparam com 5 de Soares e 4 de Sampaio – foram todos a Leis da Assembleia, muitas delas assentes em maiorias mais amplas do que a governamental. Nunca saberemos se a escolha do Parlamento como objecto de dissensão foi uma forma de enfrentar a maioria governamental através de um elo com pior imagem pública (o Parlamento), ou se foi apenas acaso. Mas em política não costuma haver coincidências.
artigo publicado no DN a propósito dos trabalhos parlamentares durante esta legislatura.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A alegria do povo



Quem não se emociona com isto, não anda cá a fazer muita coisa.
(roubado ao Manel)
p.s.
espero muito do fruto da jovem rapariga que por ali se vê com o Kun Aguero.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Bons tempos para se estar vivo



"I used to be darker, then I got lighter, then I got dark again
Something to be seen was passing over and over me
Well it seemed like the routine case at first
With the death of the shadow came a lightness of verse
But the darkest of nights, in truth, still dazzles
And I wore myself until I'm frazzled"

Há desejos que não precisam de ser concretizados. Ao contrário do que sugere o título - Sometimes I wish we were an eagle -, o novo álbum de Bill Callahan é mesmo feito por uma águia (se bem que fique a dúvida sobre até onde se estende o plural). A música que nele se ouve paira alta, é contida e, olhando para as coisas à distância, confere-lhes perspectiva. À voz grave e às guitarras no sítio certo, junta-se desta vez o mais coerente conjunto de canções que Callahan alguma vez fez. Canções que ganham uma textura mais rica, agora que definitivamente o ex-Smog optou por arranjos com mais orquestrações e com um naipe de instrumentos mais diverso. John Darnielle, o líder dos Mountain Goats, escreveu no seu blog, a propósito deste disco, que "someday you will brag that you were around when stuff this good was being written". Convém não deixarmos passar muito tempo até esse momento, acrescentaria eu.

terça-feira, 21 de julho de 2009

A classe média portuguesa

Frequentemente, quando se fala de classes médias em Portugal julgamos estar a falar de agregados com rendimentos em redor dos 2 mil euros mensais. Convém, no entanto, ter presente que a mediana salarial no sector privado encontra-se em redor dos 700 euros, ou seja, 50% da população portuguesa ganha até 700 euros (valor que aumenta se considerarmos o emprego no sector público). Ora são estas famílias que compõem o grosso da classe média. Para aliviar a sua situação material não podemos recorrer às políticas de protecção social, ao mesmo tempo que não podemos ficar à espera que o padrão de especialização da economia portuguesa se modernize o suficiente para permitir ganhos salariais significativos. Qual é o caminho que resta? Recorrer a instrumentos fiscais que redistribuam a favor das "famílias sanduíche", naturalmente retirando benefícios a quem tem rendimentos bem acima da mediana. Pode ser impopular dizê-lo, mas se nada for feito, estamos condenados a ter um conjunto crescente de famílias para as quais a ausência de expectativas sociais se transformará inevitavelmente numa desafectação face ao sistema político.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

sábado, 18 de julho de 2009

É fazer as contas

Os 14 redactores do documento provêem de diversas áreas (economia, universidade e cultura) e assumem-se como independentes. São eles: Ana Luísa Amaral, Ana Maria Pereirinha, António Pinto Ribeiro, Clara Macedo Cabral, Isabel Allegro de Magalhães, Isabel Hub Faria, Jean Barrocas, Joana Rigatto, João Ferreira do Amaral, João Sedas Nunes, Laura Ferreira dos Santos, Luís Filipe Rocha, Luís Moita, Luís Mourão, Margarida Gil, Maria do Céu Tostão, Maria Eduarda Gonçalves, Maria Helena Mira Mateus, Maria Manuela Silva, Mário Murteira, Mário Ruivo, Miguel Caetano, Philipp Barnstorf, Teresa Pizarro Beleza e Soromenho Marques.
Do Público online.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Dilemas insuperáveis

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Quem é afinal da classe média?

O Francisco José Viegas insurge-se aqui contra a prioridade que o PS pretende dar às classes médias no próximo programa eleitoral. Para ele, mais do que qualquer tipo de apoio, a classe média caracteriza-se por "querer que a deixem em paz – e que, por favor, não se ocupem dos seus interesses. Basta que não atrapalhem." Quando leio estas afirmações, fico sempre com a sensação de que anda tudo a falar de classes médias diferentes e que a classe média está para as prioridades políticas como o liberalismo para os princípios. Todos se declaram liberais, do mesmo modo que todos querem ajudar a classe média. O problema é quando se tem de passar dos posts à prática. Talvez a melhor forma de definir classe média acabe por ser através dos rendimentos e o problema em Portugal - como aliás mostram os dados do INE publicados ontem - já não são essencialmente (sublinhe-se o essencialmente) as formas mais severas de pobreza, que têm hoje já um conjunto de respostas, mais ou menos eficazes, mas que produzem resultados. O problema é mesmo que o salário mediano no sector privado está em redor dos 700 euros, ou seja, 50% da população portuguesa ganha até 700 euros (suspeito que o emprego no sector público faça subir ligeiramente o valor da mediana). Imagino que seja isto a classe média, a maioria dos portugueses que já não é abrangida por mecanismos de protecção social, mas que trabalha e tem salários muito baixos. Talvez valha a pena perguntar a estes portugueses se foram assolados por uma pandemia liberal e se não querem ser atrapalhados por políticas públicas que perturbem a sua paz. A paz de quem vive, note-se, com 700 euros por mês.
(a propósito do diferencial salarial entre sector privado e público, acabei de encontrar esta notícia de hoje).

Léxico familiar

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Ter quinze anos


A partir das onze horas de Lisboa, vou estar aqui, de novo com quinze anos e pronto para assistir ao desempate. Que ganhem os dois.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Excesso de licenciados?

para quem investiu numa licenciatura, o desemprego ou um emprego desajustado às suas qualificações gere um sério problema de gestão de expectativas. Ainda assim, por muito que isso frustre as expectativas dos próprios, colectivamente temos a ganhar se mesmo profissões que tradicionalmente não requerem licenciaturas forem desempenhadas por licenciados. É uma situação difícil de gerir para quem a vive, mas, por exemplo, um taxista licenciado em direito desempenhará melhor a sua profissão do que um taxista com problemas de literacia ou incapacidade de falar línguas estrangeiras e ter uma licenciatura ajudará, certamente, a que tenha expectativas realistas de mobilidade profissional. O problema não é haver muitos juristas, é continuarmos a pensar que todos os juristas vão ser advogados ou juízes.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

O exemplo da Fiorentina



Há uns anos, assisti ao que pensava ser um processo improvável. A Fiorentina acabou como clube de futebol, entrou em insolvência e foi afastada dos campeonatos profissionais. Ao mesmo tempo, era criado um novo clube, com outro nome, mas que começava a competir desde as primeiras divisões regionais. Uns anos passados, a Fiorentina refundada está de regresso à série A e voltou a ser uma das “sette sorelle” que dominam o futebol italiano. Ou seja, há certas alturas em que o melhor que as instituições podem fazer mesmo é refundarem-se. Começarem tudo de novo. Quando leio notícias sobre o triângulo entre o PS nacional, o PS Porto e a candidata Elisa Ferreira, fico sempre com a sensação que o melhor que havia a fazer era reconhecer a situação de insolvência e começar de novo. Todos, militantes e independentes.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Prioridades


Ricardo, falar com o Amarante? Para cumprir a profecia do poeta que citas, não teria sido mais compreensível se tivesses ido ter com esta rapariga?

terça-feira, 7 de julho de 2009

A telescola ao contrário

Hoje o i tem uma entrevista onde Filomena Mónica revela as preciosidades do costume. A Ler deste mês tem uma excelente entrevista a Vasco Pulido Valente, que está naturalmente a anos luz da de Filomena Mónica. Contudo, ficamos a saber que ambos partilham uma característica: não saem de casa e não escondem a misantropia, que só pode coexistir com um desconhecimento profundo da vida das pessoas que existem mesmo, fora do saber livresco. Para quem gosta tanto de glosar, de modo aparentemente sofisticado, a expressão “isto só em Portugal”, é caso para dizer mesmo: só em Portugal é que é possível fazer carreira académica e, mais relevante, surgir como eminência intelectual, ao mesmo tempo que se faz gala em afirmar que se desconhece a realidade. Não há mal nenhum na misantropia, e até há boas razões para a atitude, mas a misantropia limita também a possibilidade de falar com propriedade do que de facto se passa e existe “à volta”. Depois, fico sempre com uma dúvida: não é no mínimo estranho que quem tem responsabilidades académicas em instituições públicas se vanglorie de estar sempre em casa? Estamos perante uma telescola ao contrário, onde são os alunos que estão na escola e os professores em casa? Ou contactar com alunos, orientá-los e dar aulas deixou de fazer parte das exigências de uma carreira académica, mesmo que de investigador emérito?

Aumentar impostos

Em Portugal, estamos abaixo da média europeia em carga fiscal, no entanto, temos um nível de desigualdades que nos envergonha colectivamente. E a verdade é que são os países com uma maior carga fiscal, mas, também, com maior progressividade nos seus sistemas fiscais, aqueles onde as desigualdades são menores. Seremos capazes de romper este bloqueio? Aparentemente não, já que vivemos armadilhados numa teia onde os políticos temem falar dos impostos como instrumento de promoção de justiça social. Ora, conjuntamente com as políticas de mínimos sociais, a utilização do sistema fiscal é uma das formas mais eficazes de compensar desigualdades de rendimentos excessivas, formadas no mercado.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

I've a dream



Tenho uma secreta esperança que esta malta do Crawdaddy reúna todos estes vídeos do concerto dos Mountain Goats e os edite num DVD que depois encimará as tabelas de vendas da Amazon.

O calendário

Com eleições separadas apenas por duas semanas, seria difícil de compreender que os partidos apresentassem o mesmo candidato a dois cargos. Se assim acontecesse, seria a própria possibilidade de vitória dos “candidatos-duplos” que estaria posta em causa. Mas esta decisão do PS é duplamente tardia: em primeiro lugar porque, efectivamente, muda as regras a meio do jogo (apesar de a nova regra fazer todo o sentido); depois porque revela, mais uma vez, que os partidos ou desconheciam os calendários eleitorais ou não são capazes de antecipar problemas. Este episódio das duplas candidaturas é apenas mais um, a somar por exemplo ao facto de se prepararem para apresentar os programas eleitorais no final de Julho (neste aspecto o caso do PSD é manifestamente mais gritante, pois nada se sabe quanto ao programa, o que não sucede no do PS – onde pelo menos desde o último congresso são conhecidas algumas prioridades programáticas).

O provedor

"O provedor interroga-se sobre se a falha relatada por José Manuel Fernandes não terá sido potenciada por falta de “vontade política”, isto é, aconteceu com o manifesto dos 51 mas nunca aconteceria com o dos 28. E isso diz do grau de empenho do jornal numa notícia e na outra, ou seja, da opinião que, sem o declarar, o PÚBLICO expressa sobre os manifestos."
vale mesmo a pena ler o texto de Joaquim Vieira, provedor do Público.

Contraditório


ponto


e contraponto.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

dying is fine, but Death o baby.



No campeonato de bandas de betos com inclinação freak do estado de Nova Iorque, os Ra Ra Riot não perdem por muito para os seus primos chegados Vampire Weekend (aliás, se pensarmos na importância do violoncelo, até ficam manifestamente a ganhar). Aliás, uma das coisas que me ultrapassou no ano passado, foi o hype em torno dos segundos quando comparado com a clandestinidade em que viveu Rhumb Line, dos primeiros. Este Dying is fine - que parte de um poema do e.e. cummings - é uma música do caraças, boa para ouvir no Ipod em viagens de metro.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Maizena

Apesar dos estragos já estarem feitos, espero que o dr. Manuel Pinho tenha o bom senso de se demitir.


A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.


Sophia de Mello Breyner Andersen (6 de Novembro de 1919 — Lisboa, 2 de Julho de 2004)

terça-feira, 30 de junho de 2009

Famílias Sanduíche

o estudo da TESE serve para revelar aquele que é, hoje, o principal estrangulamento da sociedade portuguesa: há um conjunto de famílias que beneficiando de recursos materiais que são suficientes para as excluírem do acesso às prestações sociais de combate à pobreza, têm contudo recursos insuficientes para fazer face às suas despesas e cumprir expectativas e aspirações naturais de vida. Essas famílias são adequadamente descritas como "famílias sanduíche": estão fora da rede de apoios sociais de combate à pobreza, mas não deixam por isso de ser pobres. Esta asfixia das classes médias baixas tem várias consequências. Com os fracos rendimentos não são só as famílias portuguesas que estão ensanduichadas, é a própria democracia. Sem classes médias cooptadas para o sistema, a democracia vive uma permanente crise de legitimidade. E não há cooptação possível quando as classes médias vivem maioritariamente com menos de 900 euros por mês e, não menos grave, com a percepção que as trajectórias de mobilidade social ascendente que, ainda assim, tiveram, não se reproduzirão nos seus filhos. Não por acaso, o estudo revela que 70% dos portugueses não confia nas instituições que nos governam.

Romper este ciclo de precariedade consolidada, ao qual se tem juntado um conjunto de rupturas recentes (desde logo o crescimento do desemprego), e com isso aliviar as classes médias baixas tem de ser o desafio do próximo ciclo político. O objectivo não pode apenas passar por continuar a responder às formas mais severas de pobreza, como revela este estudo, é urgente encontrar soluções para os que estando acima da linha de pobreza, não deixam por isso de ser pobres.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Surfer Rosa

Falar verdade

A drª Ferreira Leite afirmou no final da semana, com uma veemência que se lhe desconhecia, que ia rasgar todos as políticas do actual executivo (com excepção da reforma da segurança social). Ora uma das coisas que o País não precisa mesmo é de sistemáticas rupturas profundas nas políticas depois de cada ciclo eleitoral. De facto, é aliás muito pouco provável que se Ferreira Leite vier a ser Primeira-Ministra rasgue mesmo todas as políticas anteriores. Logo, das duas uma: ou Ferreira Leite é politicamente irresponsável ou não está a falar verdade. Eu prefiro que a segunda hipótese seja a verdadeira.

Noutro mundo



O disco dos Wilco está finalmente acessível legalmente ao público. No meio de boas canções, está lá uma balada a vozes meias entre o Jeff Tweedy e a Leslie Feist. Se isto fosse um mundo normal, esta canção seria um hit incontornável do Verão. É preciso ter tido uma vida fodida, como o Tweedy teve, para depois se conseguir fazer uma coisa assim meia sentimentalona sem soar lamechas. Depois, claro, há a Feist. (já agora gostava que me explicassem qual a razão para raparigas como a Feist, quando abraçam ou beijam com carinho, levantarem uma das pernas).

quarta-feira, 24 de junho de 2009

O nosso esqui

O surf está um pouco por todo o lado. Hoje, quer seja numa praia, quer num anúncio televisivo, é difícil não nos cruzarmos quotidianamente com uma prancha, que sugere invariavelmente uma ideia de liberdade.
Esta presença quase hegemónica do surf coexiste com uma desvalorização do papel económico do desporto. Apesar de não haver quem não valorize o papel do mar como alavanca de um novo modelo de desenvolvimento para o país, estamos muito longe de concretizar esse objectivo e de fazer do surf um aspecto central da associação entre ‘mar’ e a ‘marca Portugal’. O que é tanto mais estranho quanto o surf poderia estar para o turismo português como os desportos de neve estão para os Alpes suíços. O turismo de surf não é um turismo de massas, é sustentável e continuado, e um nicho de mercado sólido e em crescimento. E abundam pela Europa casos de desenvolvimento virtuoso de regiões inteiras, literalmente “puxadas” pelo esqui. Portugal tem um clima temperado, ondas de qualidade, surfáveis durante todo o ano, centralidade (quando comparado com outros destinos de surf) combinada com baixa ocupação das praias na época alta do surf (fora do Verão). O surf poderia ser o nosso esqui, mas, também, o novo golf.
Para que isso acontecesse era preciso que o surf fosse olhado não apenas como uma modalidade desportiva ou um estilo de vida, mas, também, como um bem económico com enorme potencial de expansão, de que o conjunto da sociedade beneficiaria. O que está longe de acontecer.
Publicado no i (que hoje dedica duas páginas ao surf)

terça-feira, 23 de junho de 2009

Um Presidente da República

A crer na TSF, Cavaco Silva terá afirmado conhecer sondagens favoráveis à realização de eleições em simultâneo. Ora aqui está um tema que deve ser mesmo sondado e cuja decisão deve ser tomada com base no que as sondagens dizem. Imaginem por um momento que a mesma sondagem que Cavaco conhece (já agora, feita por quem? paga por quem?) revelava que os portugueses eram favoráveis a que não se realizassem eleições de todo ou que o nosso sistema evoluísse para o presidencialismo. O que é que o Presidente da República fazia?

Estes economistas


Há vários meses que na faculdade onde dou aulas está pintado numa parede uma inscrição que pergunta, “estes economistas, para quê?”.
Quando li o manifesto dos 28 foi essa a questão que me veio à cabeça. Na verdade, há um manifesto que eu, enquanto não-economista, esperava ver escrito. Um manifesto que reflectisse sobre o falhanço do mesmo saber técnico que agora é invocado para intervir politicamente na previsão do que aconteceu à economia mundial ou sobre a incapacidade de construir respostas políticas que prevenissem o descalabro. Por exemplo, não seria de esperar que se assistisse a um questionamento crítico do Pacto de Estabilidade que tantos entraves criou ao crescimento económico no espaço europeu?
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Provar do próprio veneno

O jornal A Bola publica hoje um artigo que se baseia no mesmíssimo tipo de critérios jornalísticos que a TVI costuma usar. Basicamente, a candidatura de Moniz à presidência do Benfica faria parte de um grande complot espanhol para comprar o Benfica. Provas e evidências eram naturalmente poucas, o que sobrava eram suspeições e uns quantos nexos causais frágeis. Imaginem só o que Moniz decidiu fazer: vai processar o director da bola e o autor da peça. Curioso, não é. Não há nada como provar do próprio veneno para aprender. Resta saber se aprende.

Sintam-se convidados



mapa aqui.

sábado, 20 de junho de 2009

Do amiguismo

Escrever sobre o mar e as ondas não é tarefa fácil. Isto é tanto mais verdade quanto melhor for a escrita, maior a sua depuração, e mais interessantes os pontos de contacto existentes entre o lirismo da paixão pelo mar e a vida passada em terra. É por tudo isto que as crónicas do Pedro Adão e Silva são, há já alguns anos, uma referência incontornável do surf escrito em língua portuguesa. Daí que só os distraídos se permitam surpreender por estas crónicas passarem agora a livro.

Assim, é com o mais supremo prazer (fazendo nossas as palavras do James Cook quando viu um gajo em cima de uma tábua há uma porrada de anos atrás, e que o Pedro tão bem cita na epígrafe do livro) que anunciamos o lançamento de "Sal na Terra", pela editora Bertrand, a partir de hoje nas livrarias de todo o país. O livro reúne crónicas do Pedro publicadas na SURFPortugal durante os últimos anos, recuperando oportunamente o título do seu espaço na revista. Para além das crónicas arrumadas em livro, há ainda as fotografias. Destas podemos dizer que foram captadas pelo Ricardo Bravo e complementam na perfeição uma série de textos singulares capazes de percorrer a distância entre Kelly Slater e Cesare Pavese, passando por Zico ou Tiago Pires.

O volume agora editado, a que o poeta José Tolentino Mendonça se refere no prefácio como "um dos mais belos livros da poesia portuguesa", será apresentado por Francisco José Viegas no próximo dia 23 de Junho, às 18:30, na livraria Ler Devagar, agora na LX Factory. Considerem-se convidados.

Vasco Mendonça, no site da SurfPortugal.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Em Nashville também está muito calor

St. Vincent "Actor Out Of Work" from Lake Fever Sessions on Vimeo.


"I don't even think I own an acoustic guitar" (e há mais aqui)

quarta-feira, 17 de junho de 2009

A capa



nas livrarias a partir de amanhã.

Low Cost

o ataque do Benfica para 2009 vai ser formado por Marcel e Weldon.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Da importância de manter o rumo



What's it like to be a girl in a band?

6ª feira, todos ao Frágil


Os 20 anos do disco dos Stone Roses são um pretexto como outro qualquer para uma boa festa.

Um país paralisado

a moção de censura que amanhã o CDS apresentará, e que terá o apoio do PSD, sendo uma versão extrema da acusação de falta de legitimidade política do executivo para Governar que surgiu na sequência das europeias, funciona como antevisão do país que poderemos ter daqui a um ano. E a última coisa que nos faltava acrescentar à crise era um país paralisado por uma crise de legitimidade política do Governo. Que seja sugerido que o país pare já, em Junho, quando não haverá novo executivo até Novembro, tem apenas uma virtude: antecipa o que pode ser a paisagem política no próximo ano.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Saber envelhecer



Há uns tempos li que o John Peel teria dito que um sintoma da sanidade da sua família era o facto de, trinta anos depois, gostarem de ir juntos - filhos incluídos - a concertos dos The Fall. Os Sonic Youth têm um disco novo. Na verdade, é igual a quase todos os outros: uma lição sobre o que fazer com as guitarras, onde aproveitam para mostrar como como se pode manter a energia pop adolescente e combiná-la com a maturidade de quem já abriu todos os caminhos no rock. A Kim Gordon continua com as melhores pernas do Rock e o Thurston Moore parece estar sempre mais novo, para compensar o cabelo do Lee Ranaldo e os kilos a mais do Steve Shelley. Isto tudo porque eu hei um dia de ir a um concerto dos Sonic Youth com os meus filhos.
(devo confessar que só tive a certeza que Nova Iorque existia como de facto se diz que ela é quando um dia me virei e atrás do meu ombro estava o Lee Ranaldo com a mulher e os filhos)

Retratos de um País


Comendador Moita Flores (Alexandre Herculano está claramente abalado pela notícia).

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Um esboço para o Verão

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Este tipo vai longe

Não sei se estão recordados do episódio não muito distante no qual Paulo Rangel se insurgia contra o facto do primeiro-ministro não querer debates quinzenais durante a campanha para as europeias. Curiosamente, a decisão havia sido tomada em conferência de líderes e por unanimidade. O que faz todo o sentido, aliás, tendo em conta que estava a decorrer uma campanha eleitoral, provavelmente nem deveriam existir sessões plenárias. Pois, para o que importa, o Dr. Rangel é líder de um grupo parlamentar e o seu grupo parlamentar havia concordado com a decisão que, passado uns dias, daria o direito ao Dr. Rangel de se indignar. Ontem voltou à carga. A propósito da lamentável lei do financiamento partidário, que em boa hora o Presidente vetou, o Dr. Rangel vem agora dizer que, no fundo, sempre foi contra a lei em questão - “O PSD nunca pretendeu que estas alterações que motivaram o veto do senhor Presidente da República fossem avante”. Elucidativo, votou a favor, mas era contra. Durante algum tempo, quando ouvia o Dr. Rangel, ficava sempre com uma dúvida: como é que tinha feito parte do Governo de Santana Lopes? Começa a perceber-se melhor e há uma coisa que fica claro: estamos perante alguém que vai longe. Não tenham dúvidas.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Em busca de um novo Obama



Esta não descobri nem na Stereogum, nem na Pitchfork. Foi mesmo o Luciano Amaral.

Rupturas à esquerda

O resultado das europeias criou uma grande responsabilidade aos partidos de esquerda: criar condições de governabilidade a partir de uma maioria eleitoral. Não é fácil e implica várias rupturas.
O PS, depois de ter tido um resultado que é, em votos expressos, o mais baixo de sempre e em percentagem só ultrapassado pelos seus mínimos históricos de 1985 e 1987, precisa de reflectir sobre a narrativa política que desenvolveu nesta legislatura e sobre o modo como olha para esta crise.
Esta dupla reflexão implica que o PS não se limite a manter o rumo seguido, numa estratégia cega perante o que os portugueses pensam e insensível à dimensão da crise internacional.
Durante muito tempo, o sucesso do actual Governo foi atribuído ao modo como combatia os interesses corporativos. Os resultados eleitorais vêm revelar que, em democracia, não é possível reformar eficazmente sem estabelecer coligações sociais. Por exemplo, tomar o movimento sindical como adversário é impensável para um partido de centro-esquerda. Por outro lado, esta crise requer soluções que não sejam repetições do passado e obriga a que o centro-esquerda reflicta, de facto, sobre o seu papel na construção dos modelos de regulação que nos trouxeram até aqui.
Os partidos de extrema esquerda têm uma responsabilidade não menor. Com um resultado que supera os pontos mais altos do PC (em 1979), contraíram a obrigação de transformar voto de protesto em mudança efectiva. Para tal, precisam, antes de tudo, de abandonar a tradição de escolher o PS como adversário preferencial e recentrar as suas reivindicações programáticas (por exemplo, o absurdo de exigir a saída de Portugal da NATO).
Serão capazes? Acho muito difícil, como prova a experiência autárquica em Lisboa. Mas uma coisa é certa, os eleitores não perdoarão que o esforço não seja feito.
versão integral de um texto publicado hoje no Diário de Notícias.

O espectro da ingovernabilidade

Não sabemos se com as europeias o que esteve em causa foi essencialmente a mobilização de voto de protesto face a um Governo que construiu a sua imagem com um discurso de confronto às corporações e que se revelou impotente para contrariar a crise económica e o crescimento do desemprego - e que com isso desbaratou o seu capital junto da esquerda sociológica - ou se, pelo contrário, estamos perante um novo ciclo político, em que o centro-direita inverte a tendência eleitoral recente. Mas uma coisa sabemos, a pulverização partidária, a somar à crise económica e social, e, em particular, o facto de PS e PSD terem resultados conjugados particularmente baixos - só superiores à percentagem alcançada em 1985, com o PRD - é um passo para a reconfiguração do espectro partidário português. Não vejo como essa reconfiguração possa ocorrer sem pôr em causa a governabilidade do país e sem contribuir para o aprofundamento da crise que vivemos.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

Eleições de primeira ordem

Está na hora do Vieira ir embora.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Assino por baixo

A principal preocupação que me acompanha, agora como antes, é a da governabilidade. Portugal é um país pobre, com falta de qualificação das pessoas e das organizações, com um Estado fraco e insuficiente, em que a falta de sentido da responsabilidade é larvar - e não sairemos desse estado se cedermos por sistema a toda a colecção de egoísmos de grupo que continuam a ser a matriz básica da nossa vida colectiva. E há uma fatia grande do “povo de esquerda” que não compreende isso. E não será possível dar uma resposta política a essa situação se não se compreender o fenómeno de fragmentação da esquerda que levou ao estado lastimoso (por exemplo) da esquerda francesa. Aqueles que pensam que sairão vencedores desta situação varrendo os socialistas da cena - serão os arquitectos de uma paisagem política à francesa, com uma direita instalada e sem verdadeiro contraponto.
Porfírio Silva, no Outubro.

Andam a tomar-nos por parvos

esta notícia.

Do baú

A confrontação com os actores sectoriais tem sido uma forma eficaz para que aos olhos do “interesse comum” as mudanças sejam percepcionadas como legítimas. Mas não deixa de ser verdade que numa democracia ainda longe da institucionalização, esta estratégia produz danos colaterais. Portugal precisa de mais e não de menos factores de intermediação entre a sociedade e a esfera política e a valorização da negociação é uma das poucas formas conhecidas de tornar orgânica a representação da sociedade. Com uma crescente pulverização dos interesses organizados, a ancoragem política dos blocos sociais fica ainda mais frágil e a estabilidade do sistema partidário será, no médio prazo, afectada. Também aqui, o eleitorado tenderá a fugir e, no que é grave, quando o fizer, fá-lo-á sem rumo.
daqui.