Primeiro aceitamos que a investigação criminal vá assentando cada vez mais em escutas, e aparentemente quase só em escutas; depois toleramos que o seu conteúdo seja plantado na comunicação social; por fim discutimos o teor do que não deveria existir, sem que questionemos o modo com estamos colectivamente a deixar que se minem os alicerces do Estado de direito. Como se não bastasse, admitimos com normalidade que um titular de um órgão de soberania seja, em última análise, alvo de espionagem política durante uns meses. Para culminar, parece ter chegado o dia em que os deputados se juntarão para aprovar uma lei que obrigará de facto o suspeito de um crime a provar a sua inocência, em lugar de obrigar a acusação a provar a sua culpa. Pelo caminho deitámos fora princípios sacrossantos para uma vida em comum numa sociedade decente: o direito à privacidade e a importância das garantias consagradas no processo penal, designadamente a presunção de inocência. Agora toca a quem ocupa transitoriamente o cargo de primeiro-ministro, mas, se não somos intransigentes neste caso, haverá um dia em que poderá passar-se connosco. E nesse dia não teremos a lei do nosso lado, e já não haverá Estado de direito para nos defender.
A tudo isto se chama recuo civilizacional. Sabemos, na verdade, como começa, mas temo que saibamos também como vai acabar. Até certa fase podemos ir resistindo, com mais ou menos energia, mas chegará um momento em que teremos de viver recatadamente com a derrota.
publicado hoje no i.
sábado, 14 de novembro de 2009
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
A minha playlist
Durante dois anos e meio, concretizei um sonho de sempre: tive duas horas semanais na rádio para, com o Nuno Costa Santos, passar música sem constrangimentos. Não sei se a oportunidade se repetirá, mas, agora que deixei o Rádio Clube para passar a colaborar com a TSF, pediram-me que fizesse a minha playlist. O desafio de escolher apenas 20 músicas não é fácil. No dia em que gravei, a escolha foi esta.
Os cínicos e os cépticos
Imagino que o Paulo Pena não se importe que eu publique aqui o texto que o Pedro Sales já publicou no Arrastão. É bom saber que há quem pense o que o Paulo pensa, mas ainda mais importante é saber que há quem, sendo jornalista, tenha hoje a coragem de o escrever. Aqui fica.
Só para citar de memória, e deixando de fora os amendoins: Houve o caso Paulo Portas/Moderna; o caso Paulo Pedroso/Casa Pia; o caso Portucale; o caso Freeport; e, agora, as «certidões» da sucata. Tudo grandes investigações que envolviam políticos e não passaram no teste do algodão. Mal ou bem, estas grandes incursões da justiça no mundo da política foram, ou virão a ser, fiascos. Mas deixam um subtexto que substitui a verificação da veracidade ou falsidade das alegações: os políticos não se deixam apanhar, ou fazem leis para se «safar», ou condicionam os intrépidos magistrados. O que são, nos media, estes casos? Investigações jornalísticas? Ou, em 90% dos casos, uma nova categoria de «reportagem sobre investigações», como lhes chamam Bill Kovach e Tom Rosenstiel, no imprescindível livro Os Elementos do Jornalismo (Porto Editora)?
Veja-se a descrição americana, e compare-se com a realidade portuguesa: «Neste caso, a reportagem desenvolve-se a partir da descoberta ou fuga de informação de uma investigação oficial (…) O risco deste tipo de reportagem (…) é que o seu valor depende muito do rigor e do cepticismo do repórter envolvido. O repórter proporciona ao entrevistado um precioso espaço para a difusão de uma alegação ou insinuações, sem qualquer responsabilização pública. Isto não significa que a reportagem sobre investigações esteja, por inerência, errada. Mas está repleta de riscos, geralmente negligenciados. Nesta situação, os repórteres apenas costumam conhecer parte da investigação, em vez de serem responsáveis pela mesma. A hipótese de serem manipulados pelas fontes é elevada. Em vez de vigiar as instituições do poder, a imprensa fica vulnerável e torna-se num instrumento à mercê das mesmas.»
Estes são os riscos. E basta ir à hemeroteca para constatar que andamos, todos, a ser muito pouco cépticos com um género particular de investigações: as investigações judiciais. Em Portugal há, e houve em momentos críticos, como os anos da Casa Pia, jornalistas a partilhar blogues com magistrados (convenientemente anónimos). Houve um PGR que nunca foi investigado por ter mandado a sua assessoria de imprensa divulgar notícias falsas. Houve um director-nacional da Judiciária que mentiu a um jornal, acusando Ferro Rodrigues, na altura líder do PS, de um crime horrendo que era falso, e continua, ainda hoje, a aplicar «justiça» num tribunal superior.
Andamos mesmo a ser pouco cépticos. Tão pouco cépticos que já é altura de pararmos para pensar se não andaremos a ser coniventes e acéfalos. Para mim, a separação de poderes dá a resposta ao dilema: os jornalistas devem investigar, e não fazer de caixa de ressonância; os investigadores judiciais devem ser avaliados pelos resultados das suas investigações e não pela comoção pública que geram as suas quase-descobertas; e os políticos devem ser julgados pelas suas acções e não pela sensação de verosimilhança que gostamos de associar entre uma discordância política e uma falha ética. Há políticos honestos de quem discordamos e políticos corruptos com quem concordamos.
Foi Kapuscinski que disse que «os cínicos não servem para este ofício». E tem cada vez mais razão. A diferença entre cínicos e cépticos devia ser ensinada nas faculdades de jornalismo.
Paulo Pena, jornalista.
Só para citar de memória, e deixando de fora os amendoins: Houve o caso Paulo Portas/Moderna; o caso Paulo Pedroso/Casa Pia; o caso Portucale; o caso Freeport; e, agora, as «certidões» da sucata. Tudo grandes investigações que envolviam políticos e não passaram no teste do algodão. Mal ou bem, estas grandes incursões da justiça no mundo da política foram, ou virão a ser, fiascos. Mas deixam um subtexto que substitui a verificação da veracidade ou falsidade das alegações: os políticos não se deixam apanhar, ou fazem leis para se «safar», ou condicionam os intrépidos magistrados. O que são, nos media, estes casos? Investigações jornalísticas? Ou, em 90% dos casos, uma nova categoria de «reportagem sobre investigações», como lhes chamam Bill Kovach e Tom Rosenstiel, no imprescindível livro Os Elementos do Jornalismo (Porto Editora)?
Veja-se a descrição americana, e compare-se com a realidade portuguesa: «Neste caso, a reportagem desenvolve-se a partir da descoberta ou fuga de informação de uma investigação oficial (…) O risco deste tipo de reportagem (…) é que o seu valor depende muito do rigor e do cepticismo do repórter envolvido. O repórter proporciona ao entrevistado um precioso espaço para a difusão de uma alegação ou insinuações, sem qualquer responsabilização pública. Isto não significa que a reportagem sobre investigações esteja, por inerência, errada. Mas está repleta de riscos, geralmente negligenciados. Nesta situação, os repórteres apenas costumam conhecer parte da investigação, em vez de serem responsáveis pela mesma. A hipótese de serem manipulados pelas fontes é elevada. Em vez de vigiar as instituições do poder, a imprensa fica vulnerável e torna-se num instrumento à mercê das mesmas.»
Estes são os riscos. E basta ir à hemeroteca para constatar que andamos, todos, a ser muito pouco cépticos com um género particular de investigações: as investigações judiciais. Em Portugal há, e houve em momentos críticos, como os anos da Casa Pia, jornalistas a partilhar blogues com magistrados (convenientemente anónimos). Houve um PGR que nunca foi investigado por ter mandado a sua assessoria de imprensa divulgar notícias falsas. Houve um director-nacional da Judiciária que mentiu a um jornal, acusando Ferro Rodrigues, na altura líder do PS, de um crime horrendo que era falso, e continua, ainda hoje, a aplicar «justiça» num tribunal superior.
Andamos mesmo a ser pouco cépticos. Tão pouco cépticos que já é altura de pararmos para pensar se não andaremos a ser coniventes e acéfalos. Para mim, a separação de poderes dá a resposta ao dilema: os jornalistas devem investigar, e não fazer de caixa de ressonância; os investigadores judiciais devem ser avaliados pelos resultados das suas investigações e não pela comoção pública que geram as suas quase-descobertas; e os políticos devem ser julgados pelas suas acções e não pela sensação de verosimilhança que gostamos de associar entre uma discordância política e uma falha ética. Há políticos honestos de quem discordamos e políticos corruptos com quem concordamos.
Foi Kapuscinski que disse que «os cínicos não servem para este ofício». E tem cada vez mais razão. A diferença entre cínicos e cépticos devia ser ensinada nas faculdades de jornalismo.
Paulo Pena, jornalista.
O dia em que o Correio da Manhã venceu
Estava escrito. Um dia o modo como o "Correio da Manhã" olha para a sociedade tornar-se-ia dominante. Temo que esse dia tenha chegado. O contexto estava maduro: a sensação de que a corrupção está a aumentar combinada com um sentimento de impunidade. Mas, ainda assim, as instituições pareciam imunes aos julgamentos na praça pública alimentados por violações grosseiras ao segredo de justiça; do mesmo modo que partidos políticos não hesitavam na defesa das regras básicas de uma sociedade decente - o primado da lei, a importância dos procedimentos formais para nos proteger a todos e a presunção da inocência.
Infelizmente, chegou o dia em que o consenso que nos permitia resistir à fúria justicialista foi posto em causa. Manuela Ferreira Leite, no Parlamento, não resistiu a afirmar que "as dúvidas políticas não se resolvem adiando investigações e destruindo provas", para logo depois dizer que o primeiro- -ministro devia esclarecimentos ao país sobre este caso. Eu não sei, nem quero saber, que "provas" são essas de que Ferreira Leite fala. Desde logo porque, num país civilizado, as escutas deveriam ser o último recurso para a investigação, em situação alguma deveriam ser passadas aos media e todos devíamos ter a consciência de que a maior exigência nas escutas aos órgãos de soberania visa proteger não quem ocupa transitoriamente os cargos mas, sim, a segurança do Estado, da governação e, custa-me dizê-lo, hoje em dia, também a autonomia da política face à justiça.
publicado no i.
Infelizmente, chegou o dia em que o consenso que nos permitia resistir à fúria justicialista foi posto em causa. Manuela Ferreira Leite, no Parlamento, não resistiu a afirmar que "as dúvidas políticas não se resolvem adiando investigações e destruindo provas", para logo depois dizer que o primeiro- -ministro devia esclarecimentos ao país sobre este caso. Eu não sei, nem quero saber, que "provas" são essas de que Ferreira Leite fala. Desde logo porque, num país civilizado, as escutas deveriam ser o último recurso para a investigação, em situação alguma deveriam ser passadas aos media e todos devíamos ter a consciência de que a maior exigência nas escutas aos órgãos de soberania visa proteger não quem ocupa transitoriamente os cargos mas, sim, a segurança do Estado, da governação e, custa-me dizê-lo, hoje em dia, também a autonomia da política face à justiça.
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terça-feira, 10 de novembro de 2009
A latrina
Na verdade, para sairmos da latrina onde estamos presos, precisamos de investigações discretas, blindadas às fugas e capazes de produzir, de facto, prova. Mas, precisamos, essencialmente, que o processo de tomada de decisões nas políticas públicas seja transparente, baseado em critérios partilhados e densificado por um enquadramento legal estável e previsível. Infelizmente, temos todos os dias violações ao Estado de direito, mas temos também quotidianamente decisões políticas opacas e sobre as quais pouco sabemos.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
o maravilhoso mundo do clipping
Há um lado invariavelmente trágico no humor involuntário. A este propósito, a entrevista que José Manuel Fernandes deu ao Correio da Manhã (por acaso parece-me bem escolhido o jornal), é a vários títulos inigualável. Mas, desde já, e agora que terá mais tempo disponível, tenho duas singelas sugestões a fazer ao agora colaborador "aqui e ali" do Público: trabalhar as suas capacidades para realizar buscas no google e pedir ao Pai Natal se lhe deixa no sapato uma assinatura de um serviço de clipping. Vai ver que é bem melhor que o arquivo do Pacheco Pereira. As coisas que por lá se descobrem.
sábado, 7 de novembro de 2009
A sombra do passado
O debate deste final de semana revelou um governo novo com um programa novo, mas que herdou do executivo anterior velhos problemas. À cabeça o processo de avaliação dos professores. O tema está, em teoria, bem longe de ser uma prioridade nacional; acontece que se transformou de facto numa prioridade política e será um teste decisivo à capacidade de Sócrates para governar em minoria.
A equação não é fácil de resolver. De um lado estão escolas (que precisam de estabilidade) e professores já avaliados (que não querem abdicar do percurso que já fizeram); de outro, partidos políticos e sindicatos, que querem manter a chama da luta política acesa e não abrem mão da suspensão do processo. No meio está o governo, que viu diminuídas as suas condições políticas e perdeu grande parte da margem de manobra negocial que detinha (primeiro, no memorando de entendimento com os sindicatos em Abril de 2008 e depois com a revisão do estatuto da carreira, aprovada neste Verão com escasso impacto).
Os sinais sobre qual vai ser a saída para o impasse são contraditórios: a nova ministra afirmou que "tanto no sistema de avaliação como no estatuto, não há pontos que não se possam mudar", enquanto o ministro dos Assuntos Parlamentares acena com uma encruzilhada jurídica, que em última análise pode bloquear politicamente o país. Há, contudo, uma certeza: o modo como será resolvida esta equação marcará a identidade do novo governo, o que não é compaginável com indefinições e contradições.
publicado no i
A equação não é fácil de resolver. De um lado estão escolas (que precisam de estabilidade) e professores já avaliados (que não querem abdicar do percurso que já fizeram); de outro, partidos políticos e sindicatos, que querem manter a chama da luta política acesa e não abrem mão da suspensão do processo. No meio está o governo, que viu diminuídas as suas condições políticas e perdeu grande parte da margem de manobra negocial que detinha (primeiro, no memorando de entendimento com os sindicatos em Abril de 2008 e depois com a revisão do estatuto da carreira, aprovada neste Verão com escasso impacto).
Os sinais sobre qual vai ser a saída para o impasse são contraditórios: a nova ministra afirmou que "tanto no sistema de avaliação como no estatuto, não há pontos que não se possam mudar", enquanto o ministro dos Assuntos Parlamentares acena com uma encruzilhada jurídica, que em última análise pode bloquear politicamente o país. Há, contudo, uma certeza: o modo como será resolvida esta equação marcará a identidade do novo governo, o que não é compaginável com indefinições e contradições.
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sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Por detrás das falas mansas
Em Novembro de 1989, os alemães de leste foram finalmente autorizados a passarem a fronteira com Berlim ocidental. Vinte anos passados, há bons motivos para comemorar o simbolismo dos primeiros passos de uma Europa unida e livre. Mas, num remoto país da Europa, há quem pense que não. Em nota enviada à Lusa, o PCP vem recordar-nos que “as 'comemorações de regime' a que assistimos são uma operação de reescrita da história e de branqueamento do capitalismo". Afinal, “o mundo está hoje mais injusto, mais desigual, mais perigoso e menos democrático" e, claro, a solução dos problemas da humanidade "não está nas contra-revoluções que há 20 anos varreram o Leste europeu", mas sim na lealdade aos ideais da "grande Revolução de Outubro".
Podemos tomar estas declarações como pitorescas, mas, na verdade, torna-se difícil. Desde logo porque, nas sociedades abertas, as liberdades civis e políticas são inegociáveis e não compagináveis com nenhum “mas”; depois, o próprio PCP já tinha encerrado este capítulo de sinistra nostalgia estalinista e é, no mínimo, trágico que se entretenha agora a reabri-lo. No fim, fica a certeza que, por detrás das falas mansas do “comunismo de sociedade recreativa”, se esconde um partido envolvido num crescendo de ortodoxia que não encontra paralelo no mundo ocidental. Afinal, o enlevo com a Coreia do Norte de Bernardino Soares ou o apagamento dos Gulags da deputada Rita Rato não são notas dissonantes ocasionais, mas, sim, o elemento central da partitura pela qual se rege hoje o PCP.
publicado hoje no i.
Podemos tomar estas declarações como pitorescas, mas, na verdade, torna-se difícil. Desde logo porque, nas sociedades abertas, as liberdades civis e políticas são inegociáveis e não compagináveis com nenhum “mas”; depois, o próprio PCP já tinha encerrado este capítulo de sinistra nostalgia estalinista e é, no mínimo, trágico que se entretenha agora a reabri-lo. No fim, fica a certeza que, por detrás das falas mansas do “comunismo de sociedade recreativa”, se esconde um partido envolvido num crescendo de ortodoxia que não encontra paralelo no mundo ocidental. Afinal, o enlevo com a Coreia do Norte de Bernardino Soares ou o apagamento dos Gulags da deputada Rita Rato não são notas dissonantes ocasionais, mas, sim, o elemento central da partitura pela qual se rege hoje o PCP.
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terça-feira, 3 de novembro de 2009
A vaga de fundo
Há um ano e meio, os barões do PSD uniram-se para que Ferreira Leite avançasse para a liderança. A vaga de fundo, é hoje sabido, ofereceu uma curtíssima vitória nas eleições directas à "boa moeda". Depois, a "escolhida" teve um resultado eleitoral em tudo idêntico ao da "má moeda", cinco anos antes, com Santana Lopes. Agora, os mesmíssimos barões empenharam-se em revisitar o equívoco, lançando um apelo para que, desta feita, fosse Marcelo Rebelo de Sousa o voluntário para se deixar imolar na fogueira que os barões, depois, se encarregariam de ir mantendo acesa. A repetição da história revela, antes de mais, que o partido não conseguiu aprender com os erros recentes, mas também que há um conjunto de pressupostos sobre o PSD que a realidade se tem encarregado de desmentir.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Dress code: usar óculos
Uma fatia muito importante do meu tempo nos últimos anos foi dedicada a isto. Acabou de repente, depois de um par de horas fechado numa sala com homens com óculos.
Sinais de vitória
Devo muito do que sou ao António Sérgio na medida em que não me conheço sem passar o tempo a ouvir músicas, a descobrir músicas e a querer saber mais sobre músicas. Cheguei ontem a Portugal e percebi que o António Sérgio morreu, mas fiquei contente por perceber que o António Sérgio tinha sido e é muito importante para muita gente – basta dar uma vista de olhos pelos blogs. Este é o género de coisas que faz de mim um optimista. Isto e uma história que acho que terei ouvido ao John Peel numa entrevista qualquer: para ele, a sanidade da sua família media-se pelo facto de ir com a mulher e os filhos a concertos dos The Fall, mais de vinte anos passados depois do Mark E. Smith nos ter começado a assombrar a todos. Era isso que eu sentia também no António Sérgio quando o ouvia, cavernoso, na Radar: o mesmo entusiasmo inicial com a música.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Uma linha ténue
Para bom entendedor, as palavras são claras: o que foi a votos foi a identidade do governo definida há quatro anos e meio e o reformismo contra os interesses corporativos saiu vencedor. Para as oposições, a mensagem é também inequívoca: o caminho passará por prosseguir uma agenda reformista e o ónus da instabilidade política recairá sobre elas, nomeadamente se forem criadas coligações negativas. Em maioria absoluta, as oposições podem ser "irresponsáveis"; num contexto de maioria relativa serão naturalmente responsabilizadas pela instabilidade.
A linha apontada é de combate político. Mas é também uma linha em que a diferença entre sucesso e falhanço é muito ténue. Ora uma coisa é certa, o sucesso da estratégia depende de um elenco governativo politicamente robusto, capaz de resistir à exposição parlamentar e de alargar a base de apoio do governo para além da Assembleia da República. Ouvido o discurso de ontem, só podem por isso aumentar as perplexidades sobre a equipa ministerial que tomou posse. Pode haver surpresas, mas, em teoria, não é possível ter um governo de combate político com tão poucos políticos.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
A linha apontada é de combate político. Mas é também uma linha em que a diferença entre sucesso e falhanço é muito ténue. Ora uma coisa é certa, o sucesso da estratégia depende de um elenco governativo politicamente robusto, capaz de resistir à exposição parlamentar e de alargar a base de apoio do governo para além da Assembleia da República. Ouvido o discurso de ontem, só podem por isso aumentar as perplexidades sobre a equipa ministerial que tomou posse. Pode haver surpresas, mas, em teoria, não é possível ter um governo de combate político com tão poucos políticos.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
sábado, 24 de outubro de 2009
Mais perto e mais longe
Um governo com mais mulheres aproxima-nos da norma europeia, mas há uma outra dimensão que nos afasta: os ministros independentes. É verdade que a entrada de novos ministros, recrutados fora da esfera partidária e governativa, revela capacidade de atracção, quando se temia que ela já não existisse. Mas, acima de tudo, esconde um conjunto de fragilidades do sistema partidário português. Fragilidades que, em lugar de serem contrariadas, são reforçadas. Os independentes tendem a revelar-se, com excepções, casos problemáticos de inabilidade política (risco que é maior quando não há maioria absoluta). Mas são essencialmente um sintoma de fraca institucionalização dos nossos partidos.
Nas democracias do Norte da Europa há poucos ministros vindos de "fora" do sistema partidário: ou são previamente eleitos para o Parlamento ou são "políticos profissionais", saídos dos aparelhos partidários ou sindicais.
Num caso e noutro, há incentivos para os melhores irem a votos e, o que não é menos importante, para se envolverem na vida política. Em Portugal temos sistematicamente o incentivo contrário. A mensagem é clara: "Se ambicionas ser governante, afasta-te dos partidos." Esta mensagem tem várias consequências - degrada (ainda mais) a imagem dos partidos e secundariza o seu papel na configuração da governação, ao mesmo tempo que tenta resolver pela porta do cavalo a sua fraca ancoragem social. Se calhar, as quotas de que precisamos são as que obrigam os ministros a serem eleitos em listas partidárias.
publicado hoje no i.
Nas democracias do Norte da Europa há poucos ministros vindos de "fora" do sistema partidário: ou são previamente eleitos para o Parlamento ou são "políticos profissionais", saídos dos aparelhos partidários ou sindicais.
Num caso e noutro, há incentivos para os melhores irem a votos e, o que não é menos importante, para se envolverem na vida política. Em Portugal temos sistematicamente o incentivo contrário. A mensagem é clara: "Se ambicionas ser governante, afasta-te dos partidos." Esta mensagem tem várias consequências - degrada (ainda mais) a imagem dos partidos e secundariza o seu papel na configuração da governação, ao mesmo tempo que tenta resolver pela porta do cavalo a sua fraca ancoragem social. Se calhar, as quotas de que precisamos são as que obrigam os ministros a serem eleitos em listas partidárias.
publicado hoje no i.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Uma onda vale milhões
A realização de uma etapa do circuito mundial em Peniche pôs o surf na agenda mediática. É bom que isso aconteça. Uma onda vale milhões de euros e em Portugal o potencial das ondas é imenso. Num paper recente, Pedro Bicudo e Ana Horta (do IST) estimam que uma onda de qualidade possa ter um impacto no turismo na ordem dos 100 milhões de euros anuais. Faz sentido. Não apenas o número de praticantes em Portugal tem crescido bastante, como, numa sondagem recente, 90% dos europeus escolhiam o surf como o desporto que mais gostariam de experimentar. Da África do Sul à Indonésia, passando pelo País Basco, há localidades que se transformaram radicalmen- te porque tinham condições óptimas para o surf. Jeffrey's Bay, Uluwatu ou Mundaka são lugares prósperos porque se reconverteram de longínquas terras costeiras em destinos turísticos de surf. Com ganhos evidentes: desenvolveram-se (preservando a sua identidade) e encontraram um equilíbrio ambiental, obrigadas a proteger um recurso natural - uma onda de excelência. Há várias ondas em Portugal que podem funcionar como pólo de atracção do turismo de surf. Mas, como lembra o mesmo paper, em Portugal continuam a ser destruídas ondas de enorme qualidade: o Jardim do Mar na Madeira, Rabo de Peixe nos Açores ou o caso mais recente do Cabedelo na Figueira da Foz. Há autarcas sentados em cima de uma autêntica galinha de ovos de ouro, mas que, em lugar de a usarem como alavanca para o desenvolvimento, preferem destruí-la.
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quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Uma porta para o que não conseguimos explicar
O Público noticia que o Semanário acabou, leia-se que já não sai esta semana. O Semanário foi ressuscitado através desta foto-novela das escutas (que nasceu em parte porque havia quem se entretivesse a comentar notícias do Semanário). O Semanário que estava morto há vários anos, mas estranhamente não havia ainda sido enterrado. Isso é que seria de facto notícia: explicar como é que foi possível que o Semanário continuasse a aparecer nas bancas todas as semanas. Suspeito que quem fosse capaz de responder a este enigma desvendaria muitos dos segredos nacionais.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
A economia do surf
O surf pode ajudar a fazer uma síntese de que muitas regiões do país bem necessitam: gera novos recursos, mas contribui também para preservar recursos naturais, que tradicionalmente eram vistos como um empecilho ao desenvolvimento económico. Os bons exemplos das autarquias de Peniche e de Cascais - que têm visto no surf uma oportunidade para a criação de uma nova identidade local - bem podiam ser seguidos por muitas outras câmaras do pais que, tendo ondas de qualidade, não só não cuidam da sua protecção, como desprezam o seu potencial económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
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