"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

sábado, 16 de janeiro de 2010

A verdade dele

Com assinalável sacrifício, cheguei ao fim do artigo de Fernando Lima no Expresso. Dois mil caracteres chegariam bem para dizer o que o pós-assessor pretendia, contudo, Lima optou por escrever, escrever e pouco dizer. Percebi, aliás, também por que razão nos destaques de ontem nos vários jornais não se percebia qual era o seu ponto. Afinal, se bem percebi, só há um: o Público inventou toda esta história e o DN denunciou, por métodos impróprios, a inventona. É, por isso, muito estranho o silêncio de quem no Público foi responsável pelas notícias sobre escutas.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A Grécia não é aqui

Portugal tem uma inclinação para o copianço. Consoante as preferências políticas, já quisemos emular o modelo irlandês, espanhol, finlandês e dinamarquês. Como era expectável, nunca conseguimos importar com sucesso o que correu bem noutras paragens. As importações acríticas vêm sempre acompanhadas de uma propensão para a engenharia social, insensível às especificidades nacionais. Mas se no passado a competição era na escolha do modelo de sucesso a imitar, entretanto foi inaugurado um novo desígnio nacional: escolher o país cuja desgraça vamos replicar.

Neste campeonato, a Grécia leva vantagem. Acontece que, sendo a nossa situação muito complexa, é, ainda assim, diferente da grega. Para um défice de 8% em Portugal, a Grécia apresenta 12,7%; para uma dívida pública de 77%, os gregos têm 113%. Temos também um lastro recente de capacidade de redução do défice e de reforma em domínios relevantes que a Grécia não apresenta. O que explica, como sublinhava o "Finantial Times", que, por comparação, a Grécia tenha um problema sério de credibilidade. Ainda assim, a Grécia tem uma vantagem política: um governo suportado numa maioria parlamentar que, contudo, coexiste com níveis de contestação extraparlamentar bem maiores que os nossos. Temos razões para estarmos preocupados? É evidente que sim. Mas temo que, quer no sucesso, quer no insucesso, a fixação no que acontece lá fora seja apenas uma forma de não enfrentarmos os nossos problemas específicos.

publicado hoje no i.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O escrete no Haiti

O Haiti é ali

What is already all too clear, ­however, is the fact that this impact will be the result of an even longer-term history of deliberate impoverishment and disempowerment. Haiti is routinely described as the "poorest country in the western hemisphere". This poverty is the direct legacy of perhaps the most brutal system of colonial exploitation in world history, compounded by decades of systematic postcolonial oppression.
O resto vale a pena ser lido neste artigo de Peter Hallward, no Guardian.

Grandes esperanças para 2010


Treme.

"Há muita falta de memória na política"



Numa altura em que o PS faz grande parte da sua demarcação ideológica com base nos temas pós-materiais, vale bem a pena ler isto.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Os professores como eles são?

Um dos aspectos mais negativos da hostilidade entre Governo e professores foi a revelação duma faceta desconhecida dos professores: o recurso ao insulto, por vezes grotesco, como arma política. Foi assim frequentemente nas manifestações, onde os insultos a Lurdes Rodrigues abundavam e ultrapassavam todos os limites aceitáveis, mas é, também, assim nos blogs de professores, mesmo naqueles que aparentemente são referência. Hoje, pela primeira vez, li com olhos de ler um desses blogs e não posso deixar de me questionar, parafraseando um comentário notável que por lá se lê, a propósito do meu artigo de ontem no Diário Económico: é a gente como esta que entregamos os nossos filhos de manhã, quando os vamos levar à escola?

Some moments last forever and some flare out with love love love

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A factura dos professores

da mesma forma que o país tem na factura energética uma das principais causas do endividamento externo, tem na factura dos professores uma das causas do crescimento da despesa orçamental. A este propósito, muitos têm optado por demonizar o papel dos sindicatos. Parece-me que é errado fazê-lo. Os sindicatos fizeram o seu trabalho. O que não se esperava era que os partidos, bem como o Presidente da República, sempre tão preocupados com os desequilíbrios orçamentais, tivessem dado cobertura política às reivindicações dos professores. No fundo, tudo isto serve para tornar claro como o discurso sobre a contenção da despesa não resiste ao teste da realidade.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

Let me mouth be ever fresh with praise



Left that place in ruin, drunk on the Spirit and high on fumes
Checked into a Red Roof in stayed up for several hours and then slept like infants
In the burning fuselage of my days
Let me mouth be ever fresh with praise

He has fixed his sign in the sky
He has raised me from the pit and set me high

Each morning new
Each day shot through
With all the sharps small shards of shrapnel
that seem to burst of me and you

(e há mais aqui)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Legados


Eric Rohmer (1920-2010)

Grandes esperanças para 2010


O disco novo dos Spoon pode ser ouvido integralmente aqui.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Tempo Perdido

Nos últimos três meses assistimos a um braço-de-ferro parlamentar, em que os partidos procuraram definir os contornos deste ciclo político. Perdemos tempo. Esta semana aconteceu o inevitável. Perante uma grave crise económica e social, com contornos orçamentais dramáticos, PS e PSD chegaram à conclusão óbvia: neste contexto estão condenados a entender-se. Com as condições de governabilidade bloqueadas à esquerda e com uma negociação casuística e multipartidária a provocar um aumento da despesa, o esforço de disciplina orçamental precisa de um entendimento estável. Mas uma coisa são as proclamações, outra é a prática concreta.
Desde logo, um entendimento precisa de previsibilidade e de interlocutores fiáveis. Se bem se percebe, o governo iniciou negociações com uma direcção demissionária. Ora não é preciso fazer um grande exercício de memória para recordarmos como, no passado recente, lideranças do PSD rasgaram compromissos assumidos pelas direcções anteriores. Depois, como escrevia Martin Wolf num notável artigo no "Financial Times", países como Portugal caíram na armadilha do euro, mas, descartada a hipótese de sair da moeda única, é uma fatalidade que os ajustamentos sejam feitos, em parte, do lado dos salários. Como mostra o dossiê da avaliação dos professores, uma coisa é a expressão abstracta de vontades, outra, bem diferente, é a capacidade dos partidos de se entenderem, de modo determinado, em torno da contenção salarial.
publicado no i.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Contributos para o Professor José Cid



A semana passada, numa livraria em Lisboa.
Eu: boa tarde, estou à procura da ilha, de um autor italiano de que não me recordo o nome. O livro é daquela editora nova, a ahab.
Rapariga da livraria, virando-se para uma colega: sabes onde é que está aquele livro, a ilha, daquela editora com nome árabe?

Na ausência de links neste blog, o professor José Cid já foi para o Google reader, assim como o córtex frontal, do josé medeiros ferreira e da joana amaral dias e o albergue espanhol, como o nome indica, de artistas vários, das mais diversas proveniências.

Os gays não são prioridade

Tal como o amor e o cartão de crédito, os chavões políticos têm uma atracção inicial que mais tarde traz complicações. A asserção é do politólogo Michael Waller e, como sabemos das nossas vidas privadas, é quase invariavelmente válida. Roubo-a porque, nas últimas semanas, ouvimos com frequência a repetição de um chavão que revela uma atracção inicial: o casamento entre pessoas do mesmo sexo não é prioridade, designadamente num contexto de desemprego elevado.
O problema, desde logo, é que não há necessidade de ponderar entre, por um lado, conceder um direito com importante peso simbólico, que estava vedado a um conjunto de cidadãos com base na sua opção sexual, e, por outro, focar o essencial das políticas públicas nas questões económicas. Alargar um direito preexistente não colide com o esforço adicional que a crise requer das políticas públicas. Contudo, e isso é que é mais paradoxal, os mesmos que nos dizem diariamente que o tema do casamento gay não é prioritário associam-lhe, sempre, um ataque sem paralelo à família, uma instituição milenar.
Estão portanto a ver quais são as complicações: ou bem que estamos perante um ataque a uma instituição muitíssimo relevante e então o tema é uma prioridade absoluta (mesmo comparando com a consolidação estrutural das contas públicas), ou o argumento da não-prioridade não passa de uma manobra de diversão.
publicado no i.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Grandes esperanças para 2010

The eurozone’s next decade will be tough

"Where does that leave peripheral countries today? In structural recession, is the answer. At some point, they have to slash fiscal deficits. Without monetary or exchange rate offsets, that seems sure to worsen the recession already caused by the collapse in their bubble-fuelled private spending. Worse, in the boom years, these countries lost competitiveness within the eurozone. That was also inherent in the system. The interest rates set by the European Central Bank, aimed at balancing supply and demand in the zone, were too low for bubble-fuelled countries. With inflation in sectors producing non-tradeables relatively high, real interest rates were also relatively low in these countries. A loss of external competitiveness and strong domestic demand expanded external deficits. These generated the demand needed by core countries with excess capacity. To add insult to injury, since the core country is highly competitive globally and the eurozone has a robust external position and a sound currency, the euro itself has soared in value.
This leaves peripheral countries in a trap: they cannot readily generate an external surplus; they cannot easily restart private sector borrowing; and they cannot easily sustain present fiscal deficits. Mass emigration would be a possibility, but surely not a recommendation. Mass immigration of wealthy foreigners, to live in now-cheap properties, would be far better. Yet, at worst, a lengthy slump might be needed to grind out a reduction in nominal prices and wages. Ireland seems to have accepted such a future. Spain and Greece have not. Moreover, the affected country would also suffer debt deflation: with falling nominal prices and wages, the real burden of debt denominated in euros will rise. A wave of defaults – private and even public – threaten.
The crisis in the eurozone’s periphery is not an accident: it is inherent in the system. The weaker members have to find an escape from the trap they are in."
Martin Wolf no FT. vá e siga.

adenda: ainda sobre este artigo, o pedro lains diz, de forma imaculada e irrepreensível, o que eu queria dizer. além de que posta a versão em pdf do artigo, que poupa trabalho a quem não está registado no ft. igualmente imaculado e irrepreensível e, além do mais, muito claro é o que o joão pinto e castro acrescenta aqui.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

"I'm still a young guy"



"In this solo Tiny Desk Concert, his four songs fit nearly into distinct categories: new and quiet ("Hebrews 11:40"), new and loud ("Psalms 40:2"), old and quiet ("Color in Your Cheeks," from All Hail West Texas), and old and loud ("Going to Georgia," from Zopilote Machine). It's no surprise that all four approaches serve him well."
Se seguirem este link e aproveitarem para subscrever os podcasts dos concertos do "all songs considered" da NPR, vão poder ouver o John Darnielle num dos concertos da série "Tiny Desk". É uma pena que a minha geração vá demorar tanto tempo a descobrir que também tem direito ao seu Cohen/Dylan e o que mais quiser.
(obrigado à Mariana Trigo Pereira que partilhou o link)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Do desnorte

Vá lá saber-se porquê, o desnorte político é como a água, corre para o desnorte político. Esqueçam todos os exemplos dos últimos meses que têm assolado a governação e o partido socialista. Hoje, a crer no Diário Económico, e há boas razões para crer, ficámos a saber que o Governo sondou Souto Moura para dirigir o Centro de Estudos Judiciários. Ou seja, sondou Souto Moura para dirigir a instituição que forma os magistrados. A sondagem é grave em si - estamos a falar de Souto Moura, personagem que me abstenho de comentar -, mas é também grave "para si" - estamos a falar de alguém que iria formar os juízes em quem depositaríamos a justiça do país no futuro. Ou seja, se por acaso o inefável "gato constipado" tem aceite o lugar, o melhor mesmo seria "fazer a trouxa e zarpar".

domingo, 3 de janeiro de 2010

Por favor, MoveOn

No calor do escândalo Lewinsky, um grupo de activistas criou o movimento "MoveOn". Na sua génese, o objectivo era censurar o que havia a censurar no comportamento de Clinton e pressionar para que a política norte-americana - enredada em campanhas negativas e num processo de impeachment - se concentrasse no essencial: a economia e o emprego. Mais tarde, durante a presidência Bush, o movimento transformar-se-ia na mais importante organização grass-roots progressista, opondo-se à invasão do Iraque e contribuindo para a eleição de Obama.
No início deste ano, o paralelismo com Portugal não poderia ser maior.
Perante uma crise económica profunda, com contornos sociais dramáticos, a política portuguesa tem-se centrado em questões judiciais (Face Oculta); casos de polícia (BPN e BPP); patetices delirantes (a claustrofobia democrática); e desculpas de mau pagador (as coligações negativas).

Como se não bastasse, os actores políticos, do executivo ao Parlamento, passando pela Presidência, envolveram-se num jogo de passa-culpas, a fazer lembrar uma zaragata de recreio de escola primária - na qual, a certa altura, já pouco importa quem teve razão no início. Perante isto, a única coisa que podemos exigir para 2010 é que a política portuguesa siga em frente e se foque. Por exemplo, na discussão orçamental debatendo soluções. Mas, tendo em conta o que se tem passado nos últimos meses, temo que seja pedir de mais. Estaremos condenados à zaragata, nuns casos inconsequente, noutros contraproducente.

publicado no i.