"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O carnaval financeiro

Depois do braço-de-ferro entre governo e oposições para definir as condições de governabilidade, o país viu-se enredado num novo braço-de-ferro: entre os partidos "nacionais" e as suas declinações regionais. Até ver, a versão regional dos partidos leva vantagem. Enquanto isso, a bolsa de valores cai a uma velocidade estonteante e o risco da dívida portuguesa vai batendo alegremente recordes. Quando era necessário robustez política para cortar a despesa e conter o endividamento, os partidos, empurrados a partir da Madeira e inspirados pelas palavras de João Jardim, iniciam um desfile de Carnaval antes de tempo. Salta à vista de toda a gente que a ausência de uma maioria de um só partido ou, alternativamente, de uma coligação formalizada entre partidos tornará impossível qualquer esforço estrutural de consolidação; mas como a irresponsabilidade não conhece limites, torna-se também cada vez mais claro que os partidos estão capturados pelo interesse regional (como já se tinha percebido, para o caso do PS, com o Estatuto dos Açores). Não se vislumbra nenhum motivo para que, num contexto em que é exigida disciplina orçamental a todos, se suspendam os princípios da Lei das Finanças Regionais em vigor. A menos que tudo se deva a uma singela coincidência: com directas à porta, ninguém no PSD quer perder os cerca de 2500 votos de militantes da Madeira. Conclusão, de captura em captura não restará ninguém para defender o interesse geral. Sair-nos-á bem caro, literalmente, quando forem emitidas obrigações do Estado português.
publicado hoje no i.

I'm not standing here

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Declínio e queda

TAKE YA BREATH AWAY from asurfersparadise on Vimeo.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Braveheart


"Uma das suas acrobacias consistia em beber um litro de cerveja, mantendo a cabeça para baixo e com os pés apoiados numa parede, um número estrambólico difícil de imaginar e impossível de eu reeditar."
Gennaro Gattuso sobre Stuart McCall, hoje em entrevista ao i.

Primeiras braçadas

O diabo está nos detalhes

Quem leve a sério os discursos políticos tenderá a acreditar que há um amplo consenso em torno da contenção da despesa. Na verdade, podemos mesmo chegar a crer que está em curso um campeonato para saber quem é mais favorável à disciplina orçamental. O problema é que os discursos não resistem ao teste da realidade. Como provaram as negociações pré-orçamentais, há entre nós uma notável incapacidade de consensualizar acordos de contenção da despesa quando se passa da discussão abstracta para o concreto. Depois de os partidos todos terem estimulado a consagração de um regime de excepção para as carreiras dos professores, ao mesmo tempo que é pedido um esforço solidário aos funcionários públicos, assistimos a uma espécie de pré-discussão na especialidade que não deu nenhum contributo para diminuir estruturalmente a despesa. Perante desequilíbrios orçamentais que não se vê como possam ser ultrapassados até 2013, fica claro que não bastam "abstenções construtivas"; é necessária uma coligação formal em torno de um programa plurianual para equilibrar as contas públicas. Como se encarregará de demonstrar a discussão orçamental na especialidade, o Diabo - o aumento da despesa - estará nos detalhes. Com acordos de navegação à vista, poderemos dar o benefício da credibilidade a Teixeira dos Santos (que se apresentará com renovada capacidade de fazer estimativas), aguardar a retoma económica ou até esperar a complacência dos mercados, mas o mais certo é caminharmos inexoravelmente para o Purgatório.
publicado no i.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Mulheres de Brooklyn



"viajo de imediato, mesmo descalço e sem camisola", palavras de Job (Petro de Luanda)

O regresso dos homens sem rosto

Fixem este nome: Anthony Thomas. Ele é o novo homem sem rosto. O mais provável é que, a esta hora, se encontre fechado num gabinete em Londres às voltas com a leitura do Orçamento do Estado português. A empresa para a qual trabalha, a Moody's, vive uma profunda crise de credibilidade, afectada pelos erros de avaliação que, com outras agências de rating, cometeu e que foram relevantes no desencadear da crise financeira. Naturalmente que os erros cometidos têm custos: Anthony Thomas e os seus colegas agem como animais acossados, que atacam ao mais pequeno sinal de fragilidade. Em teoria, são fiéis intérpretes do modo como o mercado percepciona o risco; na prática não é tanto assim. Ainda esta semana, os mercados procuraram obrigações do Estado grego a um ritmo três vezes superior ao esperado. Ou seja, os analistas foram contraditados pelo próprio mercado. Logo, não podemos deixar de pensar que a "confiança dos mercados" é também um eufemismo para potenciar movimentos especulativos. Perante isto, pode um Estado como Portugal agir de outro modo e não cuidar do modo como os mercados nos olham? Não, até porque a dimensão dos nossos desequilíbrios orçamentais é assustadora. O drama é que, enquanto a política orçamental se torna numa gestão de fatalidades, um ano após a crise, o mundo esqueceu-se de discutir as suas causas e de as enfrentar. Aceitamos hoje, com assinalável complacência, que os homens sem rosto ajam como faziam há um ano, quando devíamos estar a procurar uma alternativa às agências de rating.
publicado hoje no i.

Continua a nadar

"I was trying desperately to write a couple of lines, and in a few minutes [Beck] had a whole song. I suggested some of the song titles, wrote a line or two here and there. But really, Beck did everything."
Charlotte G. (aqui no Letterman sem o Beck)



e aqui, já acompanhada.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Filha de peixe sabe nadar



Muito provavelmente o melhor disco do Beck desde Sea Change e ela canta mesmo.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O mundo está a olhar para nós

O exercício orçamental de 2010 não se limita à tradicional relação entre despesa e receita e ao modo como aquela orientará as políticas públicas. Na ressaca da crise internacional, este Orçamento é também uma lei para consumo externo. Com as agências de rating a viverem uma violenta crise de credibilidade, a malha com que olham o comportamento das contas públicas tornou-se bem mais apertada. Com a reacção dos mercados ao caso grego e com os efeitos de contaminação de toda a zona euro, Portugal acabou por ver a sua exposição ao risco significativamente aumentada.
Este novo contexto deixou-nos perante um dilema, divididos entre o Orçamento de que a economia e o mercado de trabalho precisavam e o sinal que é imperioso dar para abrandar a pressão das agências de rating. Com o espectro de um aumento dos custos de financiamento da economia portuguesa a pairar, ficámos sem margem para escolher e de facto perdemos parte da nossa soberania política.
A contenção da despesa corrente primária, os cortes no investimento e as negociações políticas à direita servirão para que os mercados olhem com tímida satisfação para o OE 2010 – que ainda assim tenderão a considerar insuficiente. Mas pelo caminho parece ter ficado esquecido o primado do investimento público, que, ouvimos repetir, deveria nortear as boas respostas domésticas à crise internacional.
publicado hoje no i.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Benfica 1 - Radiohead 0


aqui.

A justiça no YouTube

"(...) ao mesmo tempo que é tão fácil para o nosso sistema escutar alguém (sem que seja garantido que o conteúdo dessas escutas é reservado e não cai no domínio público), continua a ser tão difícil "escutar" se, por exemplo, um juiz, um magistrado do Ministério Público, um funcionário judicial ou um advogado falou com um jornalista sobre elementos de um processo."

do meu artigo de hoe no Diário Económico.

sábado, 23 de janeiro de 2010

A troca orçamental

A incapacidade de a maioria aritmética de esquerda se traduzir numa coligação política é o mais estrutural dos bloqueios do nosso sistema partidário. Com uma maioria relativa do PS no Parlamento, o tema regressa à tona, com particular intensidade quando se discute o Orçamento do Estado. Um parlamento de esquerda que se revela incapaz de um entendimento em torno da lei fundamental para a governação. O paradoxo tem raízes sólidas.

Ao mesmo tempo que o PS não consegue hegemonizar à esquerda, as condições de diálogo têm sido impossibilitadas pelo efeito combinado - ainda que assimétrico - de um PS partido-charneira e de um BE e um PCP em acantonamento auto-infligido (sustentado por uma combinação que não encontra paralelo na Europa parlamentar entre irrealismo e conservadorismo).

Desta feita, há certamente bons argumentos para não haver um entendimento orçamental à esquerda, mas convém que sejam explicitados. Caso contrário, a ideia que fica é de que o PS desistiu de desbloquear a sua relação com a esquerda. Se assim for, o próprio governo chegará às próximas presidenciais numa situação muito delicada: emparedado entre Cavaco Silva, manifestamente hostil a Sócrates, e Manuel Alegre, cuja dinâmica política vai no sentido contrário à da maioria socialista. Sem candidato presidencial de facto e condenado pela realidade a uma troca orçamental com o PSD/CDS, o PS pode continuar a assumir-se como um referencial de estabilidade, mas vai lentamente delapidando a sua base política.

publicado no i.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O tecto de Cavaco

A História diz-nos que um Presidente ou primeiro-ministro eleito que se recandidate ganha as eleições. Mas a história também nos conta que Cavaco Silva tem um tecto eleitoral que não só nunca superou como se revela surpreendentemente estável - em 1987, 50,22%; em 1991, 50,60%; em 2006, 50,59%.

Ao longo destes quatro anos, Cavaco deu algum passo no sentido de alargar a sua base eleitoral? A resposta é não. Nesse sentido, o primeiro mandato de Cavaco foi atípico. Com o recurso a comunicações ao país que só introduziram ruído no debate; com uma inclinação para tutelar o seu espaço político de origem; e, acima de tudo, com uma reconversão de primeiro-ministro modernizador em Presidente conservador, numa altura em que o conservadorismo social está em retracção no país, Cavaco cristalizou a sua base de apoio. Pelo caminho, ao envolver-se por interposta pessoa nas disputas eleitorais, delapidou aquele que era o seu principal capital político: a ideia de que pairava acima da miséria da política partidária e que era um referencial de estabilidade e previsibilidade. A consequência é que, pela primeira vez, se discute a reeleição de um Presidente. Fica, contudo, uma dúvida: será Cavaco no último ano de mandato capaz de voltar a corporizar o apelo modernizador que fez parte da sua identidade e com isso ultrapassar o seu tecto e (re)conquistar o eleitorado central para a sua reeleição?

publicado no i.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A fotografia nº8

Onde está a fotografia nº8 estamos todos nós (operadores judiciais excluídos, está claro).

Imunidades

Unlike most of my Cambridge contemporaries, I was thus immune to the enthusiasms and seductions of the New Left, much less its radical spin-offs: Maoism, gauchisme, tiers-mondisme, etc. For the same reasons I was decidedly uninspired by student-centered dogmas of anticapitalist transformation, much less the siren calls of femino-Marxism or sexual politics in general. I was—and remain—suspicious of identity politics in all forms, Jewish above all. Labour Zionism made me, perhaps a trifle prematurely, a universalist social democrat—an unintended consequence which would have horrified my Israeli teachers had they followed my career. But of course they didn’t. I was lost to the cause and thus effectively “dead.”
Tony Judt continua a publicar as suas memórias por aqui e vale bem a pena ser lido.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Oi, get some exercise





Em Fevereiro, regresso, por DVD, a Warwick, 1994/95.

sábado, 16 de janeiro de 2010

O silenciamento de Marcelo

A RTP acabou com as escolhas de Marcelo mas, felizmente, a consequência não será o silenciamento de Marcelo. Pelo contrário, como, ainda assim, na televisão o mercado funciona, o professor limitar-se-á a ver o seu "preço" aumentar e acabará disputado entre vários media. Na verdade, o fim concreto do programa é o lado menos preocupante da decisão. Bem mais grave é a visão que ela tem implícita sobre a natureza da análise política e sobre o pluralismo.

Desde logo, não há comentário político independente, assente numa mirífica neutralidade axiológica. Pelo contrário, o comentário é alicerçado numa determinada visão política, que enquadra as análises. Contudo, e esse é o equívoco, uma coisa é analisar a partir de um posicionamento ideológico, outra é fazê-lo com base numa agenda partidária. Não há razão nenhuma que impeça um militante partidário de analisar a actualidade com autonomia face ao seu espaço de origem. Depois, o pluralismo não se garante nem ao cronómetro, nem com programas televisivos que se transformem em frisos parlamentares. Na verdade, se o argumento do contraponto a Marcelo for para levar a sério, para dois militantes do PSD na TV, deveriam existir três do PS, um do CDS, do BE e do PCP, sempre com uma distribuição dos tempos proporcional aos resultados eleitorais. Assim se vê como, ao contrário do que pensa a ERC, a forma menos má para garantir o pluralismo continua a ser deixar a questão entregue aos critérios autónomos de quem dirige editorialmente os media.

publicado hoje no i.

A verdade dele

Com assinalável sacrifício, cheguei ao fim do artigo de Fernando Lima no Expresso. Dois mil caracteres chegariam bem para dizer o que o pós-assessor pretendia, contudo, Lima optou por escrever, escrever e pouco dizer. Percebi, aliás, também por que razão nos destaques de ontem nos vários jornais não se percebia qual era o seu ponto. Afinal, se bem percebi, só há um: o Público inventou toda esta história e o DN denunciou, por métodos impróprios, a inventona. É, por isso, muito estranho o silêncio de quem no Público foi responsável pelas notícias sobre escutas.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A Grécia não é aqui

Portugal tem uma inclinação para o copianço. Consoante as preferências políticas, já quisemos emular o modelo irlandês, espanhol, finlandês e dinamarquês. Como era expectável, nunca conseguimos importar com sucesso o que correu bem noutras paragens. As importações acríticas vêm sempre acompanhadas de uma propensão para a engenharia social, insensível às especificidades nacionais. Mas se no passado a competição era na escolha do modelo de sucesso a imitar, entretanto foi inaugurado um novo desígnio nacional: escolher o país cuja desgraça vamos replicar.

Neste campeonato, a Grécia leva vantagem. Acontece que, sendo a nossa situação muito complexa, é, ainda assim, diferente da grega. Para um défice de 8% em Portugal, a Grécia apresenta 12,7%; para uma dívida pública de 77%, os gregos têm 113%. Temos também um lastro recente de capacidade de redução do défice e de reforma em domínios relevantes que a Grécia não apresenta. O que explica, como sublinhava o "Finantial Times", que, por comparação, a Grécia tenha um problema sério de credibilidade. Ainda assim, a Grécia tem uma vantagem política: um governo suportado numa maioria parlamentar que, contudo, coexiste com níveis de contestação extraparlamentar bem maiores que os nossos. Temos razões para estarmos preocupados? É evidente que sim. Mas temo que, quer no sucesso, quer no insucesso, a fixação no que acontece lá fora seja apenas uma forma de não enfrentarmos os nossos problemas específicos.

publicado hoje no i.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O escrete no Haiti

O Haiti é ali

What is already all too clear, ­however, is the fact that this impact will be the result of an even longer-term history of deliberate impoverishment and disempowerment. Haiti is routinely described as the "poorest country in the western hemisphere". This poverty is the direct legacy of perhaps the most brutal system of colonial exploitation in world history, compounded by decades of systematic postcolonial oppression.
O resto vale a pena ser lido neste artigo de Peter Hallward, no Guardian.

Grandes esperanças para 2010


Treme.

"Há muita falta de memória na política"



Numa altura em que o PS faz grande parte da sua demarcação ideológica com base nos temas pós-materiais, vale bem a pena ler isto.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Os professores como eles são?

Um dos aspectos mais negativos da hostilidade entre Governo e professores foi a revelação duma faceta desconhecida dos professores: o recurso ao insulto, por vezes grotesco, como arma política. Foi assim frequentemente nas manifestações, onde os insultos a Lurdes Rodrigues abundavam e ultrapassavam todos os limites aceitáveis, mas é, também, assim nos blogs de professores, mesmo naqueles que aparentemente são referência. Hoje, pela primeira vez, li com olhos de ler um desses blogs e não posso deixar de me questionar, parafraseando um comentário notável que por lá se lê, a propósito do meu artigo de ontem no Diário Económico: é a gente como esta que entregamos os nossos filhos de manhã, quando os vamos levar à escola?

Some moments last forever and some flare out with love love love

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A factura dos professores

da mesma forma que o país tem na factura energética uma das principais causas do endividamento externo, tem na factura dos professores uma das causas do crescimento da despesa orçamental. A este propósito, muitos têm optado por demonizar o papel dos sindicatos. Parece-me que é errado fazê-lo. Os sindicatos fizeram o seu trabalho. O que não se esperava era que os partidos, bem como o Presidente da República, sempre tão preocupados com os desequilíbrios orçamentais, tivessem dado cobertura política às reivindicações dos professores. No fundo, tudo isto serve para tornar claro como o discurso sobre a contenção da despesa não resiste ao teste da realidade.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

Let me mouth be ever fresh with praise



Left that place in ruin, drunk on the Spirit and high on fumes
Checked into a Red Roof in stayed up for several hours and then slept like infants
In the burning fuselage of my days
Let me mouth be ever fresh with praise

He has fixed his sign in the sky
He has raised me from the pit and set me high

Each morning new
Each day shot through
With all the sharps small shards of shrapnel
that seem to burst of me and you

(e há mais aqui)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Legados


Eric Rohmer (1920-2010)

Grandes esperanças para 2010


O disco novo dos Spoon pode ser ouvido integralmente aqui.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Tempo Perdido

Nos últimos três meses assistimos a um braço-de-ferro parlamentar, em que os partidos procuraram definir os contornos deste ciclo político. Perdemos tempo. Esta semana aconteceu o inevitável. Perante uma grave crise económica e social, com contornos orçamentais dramáticos, PS e PSD chegaram à conclusão óbvia: neste contexto estão condenados a entender-se. Com as condições de governabilidade bloqueadas à esquerda e com uma negociação casuística e multipartidária a provocar um aumento da despesa, o esforço de disciplina orçamental precisa de um entendimento estável. Mas uma coisa são as proclamações, outra é a prática concreta.
Desde logo, um entendimento precisa de previsibilidade e de interlocutores fiáveis. Se bem se percebe, o governo iniciou negociações com uma direcção demissionária. Ora não é preciso fazer um grande exercício de memória para recordarmos como, no passado recente, lideranças do PSD rasgaram compromissos assumidos pelas direcções anteriores. Depois, como escrevia Martin Wolf num notável artigo no "Financial Times", países como Portugal caíram na armadilha do euro, mas, descartada a hipótese de sair da moeda única, é uma fatalidade que os ajustamentos sejam feitos, em parte, do lado dos salários. Como mostra o dossiê da avaliação dos professores, uma coisa é a expressão abstracta de vontades, outra, bem diferente, é a capacidade dos partidos de se entenderem, de modo determinado, em torno da contenção salarial.
publicado no i.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Contributos para o Professor José Cid



A semana passada, numa livraria em Lisboa.
Eu: boa tarde, estou à procura da ilha, de um autor italiano de que não me recordo o nome. O livro é daquela editora nova, a ahab.
Rapariga da livraria, virando-se para uma colega: sabes onde é que está aquele livro, a ilha, daquela editora com nome árabe?

Na ausência de links neste blog, o professor José Cid já foi para o Google reader, assim como o córtex frontal, do josé medeiros ferreira e da joana amaral dias e o albergue espanhol, como o nome indica, de artistas vários, das mais diversas proveniências.

Os gays não são prioridade

Tal como o amor e o cartão de crédito, os chavões políticos têm uma atracção inicial que mais tarde traz complicações. A asserção é do politólogo Michael Waller e, como sabemos das nossas vidas privadas, é quase invariavelmente válida. Roubo-a porque, nas últimas semanas, ouvimos com frequência a repetição de um chavão que revela uma atracção inicial: o casamento entre pessoas do mesmo sexo não é prioridade, designadamente num contexto de desemprego elevado.
O problema, desde logo, é que não há necessidade de ponderar entre, por um lado, conceder um direito com importante peso simbólico, que estava vedado a um conjunto de cidadãos com base na sua opção sexual, e, por outro, focar o essencial das políticas públicas nas questões económicas. Alargar um direito preexistente não colide com o esforço adicional que a crise requer das políticas públicas. Contudo, e isso é que é mais paradoxal, os mesmos que nos dizem diariamente que o tema do casamento gay não é prioritário associam-lhe, sempre, um ataque sem paralelo à família, uma instituição milenar.
Estão portanto a ver quais são as complicações: ou bem que estamos perante um ataque a uma instituição muitíssimo relevante e então o tema é uma prioridade absoluta (mesmo comparando com a consolidação estrutural das contas públicas), ou o argumento da não-prioridade não passa de uma manobra de diversão.
publicado no i.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Grandes esperanças para 2010

The eurozone’s next decade will be tough

"Where does that leave peripheral countries today? In structural recession, is the answer. At some point, they have to slash fiscal deficits. Without monetary or exchange rate offsets, that seems sure to worsen the recession already caused by the collapse in their bubble-fuelled private spending. Worse, in the boom years, these countries lost competitiveness within the eurozone. That was also inherent in the system. The interest rates set by the European Central Bank, aimed at balancing supply and demand in the zone, were too low for bubble-fuelled countries. With inflation in sectors producing non-tradeables relatively high, real interest rates were also relatively low in these countries. A loss of external competitiveness and strong domestic demand expanded external deficits. These generated the demand needed by core countries with excess capacity. To add insult to injury, since the core country is highly competitive globally and the eurozone has a robust external position and a sound currency, the euro itself has soared in value.
This leaves peripheral countries in a trap: they cannot readily generate an external surplus; they cannot easily restart private sector borrowing; and they cannot easily sustain present fiscal deficits. Mass emigration would be a possibility, but surely not a recommendation. Mass immigration of wealthy foreigners, to live in now-cheap properties, would be far better. Yet, at worst, a lengthy slump might be needed to grind out a reduction in nominal prices and wages. Ireland seems to have accepted such a future. Spain and Greece have not. Moreover, the affected country would also suffer debt deflation: with falling nominal prices and wages, the real burden of debt denominated in euros will rise. A wave of defaults – private and even public – threaten.
The crisis in the eurozone’s periphery is not an accident: it is inherent in the system. The weaker members have to find an escape from the trap they are in."
Martin Wolf no FT. vá e siga.

adenda: ainda sobre este artigo, o pedro lains diz, de forma imaculada e irrepreensível, o que eu queria dizer. além de que posta a versão em pdf do artigo, que poupa trabalho a quem não está registado no ft. igualmente imaculado e irrepreensível e, além do mais, muito claro é o que o joão pinto e castro acrescenta aqui.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

"I'm still a young guy"



"In this solo Tiny Desk Concert, his four songs fit nearly into distinct categories: new and quiet ("Hebrews 11:40"), new and loud ("Psalms 40:2"), old and quiet ("Color in Your Cheeks," from All Hail West Texas), and old and loud ("Going to Georgia," from Zopilote Machine). It's no surprise that all four approaches serve him well."
Se seguirem este link e aproveitarem para subscrever os podcasts dos concertos do "all songs considered" da NPR, vão poder ouver o John Darnielle num dos concertos da série "Tiny Desk". É uma pena que a minha geração vá demorar tanto tempo a descobrir que também tem direito ao seu Cohen/Dylan e o que mais quiser.
(obrigado à Mariana Trigo Pereira que partilhou o link)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Do desnorte

Vá lá saber-se porquê, o desnorte político é como a água, corre para o desnorte político. Esqueçam todos os exemplos dos últimos meses que têm assolado a governação e o partido socialista. Hoje, a crer no Diário Económico, e há boas razões para crer, ficámos a saber que o Governo sondou Souto Moura para dirigir o Centro de Estudos Judiciários. Ou seja, sondou Souto Moura para dirigir a instituição que forma os magistrados. A sondagem é grave em si - estamos a falar de Souto Moura, personagem que me abstenho de comentar -, mas é também grave "para si" - estamos a falar de alguém que iria formar os juízes em quem depositaríamos a justiça do país no futuro. Ou seja, se por acaso o inefável "gato constipado" tem aceite o lugar, o melhor mesmo seria "fazer a trouxa e zarpar".

domingo, 3 de janeiro de 2010

Por favor, MoveOn

No calor do escândalo Lewinsky, um grupo de activistas criou o movimento "MoveOn". Na sua génese, o objectivo era censurar o que havia a censurar no comportamento de Clinton e pressionar para que a política norte-americana - enredada em campanhas negativas e num processo de impeachment - se concentrasse no essencial: a economia e o emprego. Mais tarde, durante a presidência Bush, o movimento transformar-se-ia na mais importante organização grass-roots progressista, opondo-se à invasão do Iraque e contribuindo para a eleição de Obama.
No início deste ano, o paralelismo com Portugal não poderia ser maior.
Perante uma crise económica profunda, com contornos sociais dramáticos, a política portuguesa tem-se centrado em questões judiciais (Face Oculta); casos de polícia (BPN e BPP); patetices delirantes (a claustrofobia democrática); e desculpas de mau pagador (as coligações negativas).

Como se não bastasse, os actores políticos, do executivo ao Parlamento, passando pela Presidência, envolveram-se num jogo de passa-culpas, a fazer lembrar uma zaragata de recreio de escola primária - na qual, a certa altura, já pouco importa quem teve razão no início. Perante isto, a única coisa que podemos exigir para 2010 é que a política portuguesa siga em frente e se foque. Por exemplo, na discussão orçamental debatendo soluções. Mas, tendo em conta o que se tem passado nos últimos meses, temo que seja pedir de mais. Estaremos condenados à zaragata, nuns casos inconsequente, noutros contraproducente.

publicado no i.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Bom ano



In the Vanity Fair Italy feature, Stefano Gabbana discusses the campaign and why Madonna was the perfect match: "She loved the collection," he says, "...she is passionate and impressively knowledgeable about Italian cinema," (Monica is Vitti her favourite actress and we see the resemblance)."
When asked as to whether Madonna knows how to wash dishes, Stefano Gabbana replies "Certainly...she's a very practical woman..." And does she actually eat spaghetti despite her most enviable figure? "Of course, says Stefano, and she can allow herself too with all the exercise she does!"
o resto das fotos estás aqui.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Felizmente não sou economista

(...) os governos têm de cortar na despesa porque é isso que esperam os mercados. Ou seja, os mesmos mercados que desestabilizaram o sistema financeiro a um ponto tal que este teve de ser salvo pelos contribuintes, exigem agora um esforço de consolidação como preço a pagar pelo seu apoio a governos cujas dificuldades ajudaram a causar.
Mas eu, que felizmente não sou economista, perante a crise e as suas sequelas, só me ocorre que existe um conjunto de questões políticas sobre o papel do BCE que tem de ser respondido. As declarações de Trichet só as tornam mais claras. (...)
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Natal é quando um homem quer

sábado, 26 de dezembro de 2009

Inconformados e birrentos

Os nossos políticos andam inconformados e birrentos. Nenhum dos líderes partidários se conforma com o resultado das eleições: Sócrates não perdoa aos portugueses não ter tido maioria absoluta e age como se ainda a tivesse ou, pior, alimenta a ilusão de que pode recuperá-la; Ferreira Leite não percebe como teve tantos votos como o omnipresente Santana e, em lugar de se afastar e permitir que o PSD respire de novo, insiste na estratégia de insídia que a levou à derrota; Louçã não aceita que a esquerda iluminada não faça a diferença para a maioria absoluta; Jerónimo não compreende como é que a crise não provoca um levantamento nacional que ponha de vez fim à democracia burguesa; Portas não entende como é que a sua clarividência retórica não basta para o alcandorar a líder incontestável da direita. Vai daí, fazem todos uma enorme birra: uns fingem que não perderam as eleições e outros não aceitam governar com o resultado eleitoral. A consequência está à vista - querelas institucionais com base em atrasos a chegar a reuniões, provocações, acusações de falta de carácter e coligações negativas. Para sairmos deste pântano, é-nos sugerido, poderíamos perguntar, de novo, ao soberano o que pensa sobre o assunto. Como nos aproximamos do fim do ano, permita- -se que faça uma profecia:
o resultado eleitoral seria o mesmo de há um par de meses. Logo, é bom que cada partido desempenhe o papel que lhe foi destinado pelos portugueses em Setembro.

publicado no i.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Uma década em 10 discos

Escolher os discos do ano é uma daquelas provas difíceis de superar. Não são precisos muitos dias para que a lista perca sentido e logo nos pareça profundamente injusta. Aqui em baixo escolhi os 10 discos de que mais gostei este ano e dois dias depois reparo na injustiça que fiz aos Girls. Tudo isto porque agora me deu para escolher os 10 discos da década. Não são necessariamente os discos dos últimos dez anos que ouço mais hoje, mas são certamente os 10 discos que foram para mim mais importantes na última década. Isto implica, por exemplo, excluir muitos discos que ouvi muito nesta década e que são anteriores. Agora, quando olho para esta lista, mais importante do que a música é recordar-me que todos estes discos ganharam um sentido particular, ouvidos em circunstâncias irrepetíveis. Há bastantes coisas da última década que preferiria não recordar, mas pela música regresso a elas com uma outra tranquilidade. Do mesmo modo que consigo associar a algumas das coisas fantásticas que me aconteceram na última década muitos destes discos. Na verdade, muito provavelmente, ouço música de mais. Aqui fica então a lista (a ordem é alfabética) e para outra altura ficará qualquer coisa sobre estes discos, algumas das músicas e sobre uma década que começou electrónica para acabar entre guitarras e alt-country, mas essencialmente com a música toda disponível - para pirataria ou não - na rede.

Arcade Fire – Funeral



Arctic Monkeys -Whatever People Say I Am That's What I'm Not



The Clientele – Strange Geometry



Paolo Conte – Reveries



Flaming Lips -Yoshimi Battles the Pink Robots



Herbert – Bodily Functions



Lambchop - Is a Woman



The Mountain Goats – Tallahassee



The National – Alligator



The Strokes – Is this it

Um conto de fadas de natal



vale bem a pena tirar uma hora para ver o documentário aqui.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

10 discos de 2009

As listas dos melhores do ano, na verdade, só interessam a quem tem alguma inclinação para fazer listas dos melhores dos anos. Esta naturalmente não interessará a muita gente, mas, dos discos que ouvi este ano, os melhores foram estes.

1. Bill Callahan - Sometimes I Wish We Were an Eagle
2. Grizzly Bear - Veckatimest
3. The xx - The xx
4. The Mountain Goats - The Life of the World to Come
5. Animal Collective - Merriweather Post Pavilion
6. The Clientele -Bonfires on the Heath
7. God Help the Girl - God Help the Girl
8. Dirty Projectors - Bitte Orca
9. Sleeping States - In the Garden of the North
10. The Pains of Being Pure at Heart - The Pains of Being Pure at Heart

domingo, 20 de dezembro de 2009

"Saviola vem passar férias"


declarações de Bruno Carvalho, o sujeito preclaro que se candidatou à presidência do Benfica, aquando da contratação de Saviola.

Menos pobres

Não passa muito tempo sem que sejamos confrontados com os níveis intoleráveis de pobreza em Portugal. É bom que tenhamos presente a dimensão do problema: ajuda a manter o combate às desigualdades como prioridade política. Mas, enquanto isso acontece, convém valorizar colectivamente o muito que vai sendo feito para enfrentar o fenómeno. Esta semana, no meio do pessimismo que varre o país, o Padre Jardim Moreira, da Rede Europeia Anti-Pobreza, revelava o seu espanto com o sucesso da estratégia nacional para os sem-abrigo, que está a ultrapassar as melhores expectativas. Metade dos objectivos traçados para seis anos foram alcançados em nove meses e só no Porto mais de mil pessoas deixaram de dormir nas ruas. Já a Associação Nacional de Direito ao Crédito celebrou dez anos, durante os quais apoiou, através do microcrédito, o empreendorismo emancipador de mais de mil pobres. No final da semana, o Presidente da Cais sublinhava que sem transferências sociais (entre elas o rendimento mínimo), a nossa taxa de pobreza seria de 41%.

São motivos para satisfação, mas serve também para revelar como o nosso sucesso relativo na resposta à pobreza mais severa não tem sido acompanhado no combate ao conjunto das desigualdades. Se temos hoje instrumentos para combater as formas extremas de pobreza, continuamos estrangulados por níveis salariais que fazem dos trabalhadores uma parte importante dos pobres. É isso que está em causa com aumentos do salário mínimo acima dos salários médios.

publicado no i.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

E a banda continuou a tocar

Não se sabe com exactidão que música tocava a banda quando o Titanic chocou com o iceberg. Mas uma coisa é certa: a banda continuou a tocar. Portugal chocou com o seu iceberg particular. Empurrados pela conjuntura externa dramática, as nossas debilidades estruturais não só vieram ao de cima como se agravaram. Desemprego, défice e endividamento são os aspectos mais visíveis do rombo. Perante isto, os partidos continuam a tocar música como se nada se estivesse a passar. Não bastava a coligação parlamentar de cortes na receita combinados com aumento na despesa, esta semana os deputados do PS reuniram-se para falar de regionalização. Na política, a oportunidade, não sendo tudo, é quase. E dificilmente haverá tema mais desajustado. Quando o foco deveria estar por inteiro na política económica de resposta à crise (do mercado de trabalho e orçamental), o Partido Socialista escolhe reflectir sobre quantas regiões deviam existir e as competências a transferir. O tema é uma espécie de fetiche da classe política, desajustado da realidade. Mas, também, não há novidade. Sempre que os partidos precisam de encontrar uma manobra de diversão têm na regionalização um tema adequado. Os outros partidos não se inibem de reagir e a comunicação social amplia devidamente o tema. Há uma década que é assim, mas é apenas mais um sintoma de empobrecimento do debate político. O problema é que agora temos mesmo de resolver o problema do iceberg.
publicado hoje no i.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Encontrar uma razão



O Andrew Kidman está bem posicionado na minha galeria de super-heróis. Enquanto escrevo um artigo sobre Ether, um livro monumental, regresso a um excerto do Glass Love, acompanhado por um belo cover da Cat Power para um original dos Velvet, I Found a Reason.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Duvido, logo corrupto

A crer na fúria legisladora do Parlamento, dentro de dois anos, a corrupção estará erradicada da face do país e, não tardará, as avançadas democracias escandinavas estarão a emular as boas práticas domésticas.
Nada que surpreenda. Perante um problema político sério - e a corrupção é-o - tendemos a optar pela solução preguiçosa: tipificam-se mais crimes, criam-se uns quantos observatórios e daqui a não muito tempo levantar-se-á um clamor colectivo protestando contra a ineficácia das leis entretanto aprovadas. Depois, já se sabe, a história repetir-se-á, com nova fúria legisladora.
do meu artigo e hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

we're our own devil


A Hope Sandoval já não anda a pedir-nos para sermos o anjo dela. Juntou-se aos Massive Attack (que estão de volta e desta feita a coisa parece prometer) e fizeram isto. Muito cuidado com o link: o video dispara logo e não é aconselhável o visionamento no local de trabalho (ou como se diz em inglês, nsfw).

You're standing there so nice in your blizzard of ice

You're written in her book, you're number 37 have a look



Devemos muitas coisas à Nico - a mais conhecida das quais é a tensão entre Reed e Cale -, mas provavelmente nada se compara ao efeito que A "femme fatale" terá provocado em Leonard Cohen, como aqui se pode testemunhar. Este fim-de-semana vi o dvd do mítico concerto de Cohen na ilha de wight, em 1970. Comprem e ofereçam pelo Natal.

domingo, 13 de dezembro de 2009

O óbvio

O estado a que chegámos é tal que já nos surpreendemos quando alguém diz o óbvio:
"Freedom of speech should not include distortion of the truth, lies, fabrication and slander" Kate McCann.
"if anyone steps over the lines then they should be prepared to defend what they say in court." Gerry McCann.
daqui.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Vigiar e punir

Lembramo-nos bem do último governo com tutela presidencial. Foi com Santana Lopes, correu mal e acabou depressa. Era previsível que assim fosse. Mas, como para provar que nunca aprendemos o suficiente, esta semana vários socialistas vieram reclamar uma nova forma de tutela presidencial, desta feita sobre o Parlamento: Cavaco Silva deveria intervir, puxando as orelhas aos partidos que não se entendem.

O apelo insólito, para além de revelar desnorte político, teve, desde logo, o condão de fragilizar quem o fez
- que ficou à espera de uma resposta presidencial, que naturalmente não chegou. Não deixa de ser verdade que, no discurso de tomada de posse do governo, Cavaco destinou a si próprio o papel de referencial de estabilidade. Mas uma coisa é apelar a que o Presidente cumpra esse papel, outra, bem diferente, é criar as condições objectivas para que ele o faça.

Nas últimas semanas, temos visto facções que se digladiam numa competição para aumentar a despesa e diminuir a receita e a uma maioria que se lamenta perante as coligações negativas - isto ao mesmo tempo que se revela incapaz de fazer pedagogia política que explique a sua posição (veja-se o exemplo do Código Contributivo, em que só após a suspensão no Parlamento se ouviram os argumentos do executivo). Moral da nossa história: como os partidos não se entendem, reclamam que a autoridade vigie e puna. Em democracia só pode dar mau resultado, e não foi para isso que foi concebido o nosso semipresidencialismo.

publicado no i.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Manifesto anti-pessimista

O pé de fora

As candidaturas presidenciais ganhadoras são as que, partindo de um determinado espaço político, conseguem alargá-lo. Quando Mário Soares, em entrevista ao i, diz que Alegre está com um pé dentro e outro fora do PS tem, de facto, razão, mas está também a reconhecer o potencial eleitoral da recandidatura alegrista. O problema é que o pé que Alegre tem fora do PS - e em muitos dias é esse o "pé-director" -, ao mesmo tempo que tem ajudado a tornar a sua candidatura presidencial uma quase inevitabilidade, está a amarrar Sócrates a uma estratégia que não lhe convém. Há uns dias, Alegre proclamava que não estava refém de ninguém. É verdade, até porque são hoje Sócrates e o PS que estão reféns de Alegre: as lições de 2005 impedem uma candidatura alternativa à do poeta (que só fraccionaria o PS), mas Alegre Presidente ameaça o projecto político que Sócrates tem tido para o PS. Se a cooperação estratégica entre Cavaco e Sócrates é uma miragem de um passado longínquo, entre Sócrates e Alegre é uma utopia distante. É inevitável que, dentro de um ano, José Sócrates e Manuel Alegre estejam nos braços um do outro, enquanto proclamam a partilha dos valores da esquerda democrática. Acontece que, politicamente, não há convergência estratégica possível entre os dois. E, como se não bastasse, Alegre candidato oficial do PS não terá o potencial eleitoral de Alegre candidato com o "pé fora" do PS. Nisto, as presidenciais servirão para revelar o bloqueio estratégico que existe à esquerda.
publicado hoje no i.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Regressar de Paris

sábado, 5 de dezembro de 2009

A posição minoritária

Esta semana, Ana Gomes, na TSF, afirmava que quem era contra a tipificação do enriquecimento ilícito, por este inverter o ónus da prova, usava "desculpas de mau pagador"; já no Parlamento, Fernando Negrão, enquanto justificava a coligação entre PSD/BE/PCP nas políticas de combate à corrupção, falava no pré-crime.

Confesso que há para mim uma diferença de escala entre os deputados entenderem-se em torno de formas de aumentar a despesa de modo incontrolável e a coligação invencível que, a propósito do justo combate à corrupção, se prepara para esmagar quem se atreva a ter dúvidas sobre os passos demagógicos que estão a ser dados. É, ainda assim, bem mais grave, à boleia do calor mediático, minar os alicerces do estado de direito do que abraçar a indisciplina orçamental.

Tendo em conta que não me é possível sugerir que experimentemos colectivamente uma distopia - que infelizmente está sempre ao virar da esquina - onde direitos, liberdades e garantias são uma miragem do passado,

recomendo que se leia mais ficção científica ou se vejam as adaptações ao cinema.
No "Relatório Minoritário" de Philip K. Dick, o departamento que geria preventivamente a criminalidade chamava-se "precrime" e nos seus livros fica claro que a capacidade de impedir crimes de ocorrerem e a criação de sociedades absolutamente seguras tem sempre uma outra face bem sombria: um universo totalitário que tende a suspender as liberdades individuais. Convém recordar que se chega a esse mundo através de uma sucessão de pequenos passos.

publicado hoje no i.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Imaginação Informada


Brian Eno é um notável músico, mas também um surpreendente colunista político. A coluna que assina na "Prospect" - Dr. Pangloss - é um oásis de optimismo antropológico, enfrentando o modismo pessimista que tem feito escola. No seu último texto - "The post-theoretical age" - chama a atenção para o facto de vivermos numa era onde o debate é mais informado do que nunca. Dos blogue ao Twitter, assistimos a uma democratização do acesso a dados. As consequências são claras: "Na ausência de dados, teorizamos. Na abundância, só temos de fazer as contas." O que poderia parecer uma negação da dissensão política, não o é. Com a massificação da informação estamos a construir as ferramentas intelectuais que vão decidir o futuro. Perante este novo contexto, o conservadorismo leva vantagem: enquanto os progressistas se inclinam perante um futuro ainda indefinido, os conservadores agarram-se ao passado e sabem exactamente o que não querem. O futuro é para os progressistas um "acto colectivo de imaginação informada", sendo que a qualidade da informação está a melhorar.
Eno não o diz, mas informação pública de qualidade é o alfa e o ómega das políticas progressistas. Se há domínio no qual, em Portugal, há défices gritantes é esse. Défices que minam a confiança no debate público democrático. É por isso que o exercício de desinformação orçamental feito ao longo deste ano, sendo politicamente grave, é, acima de tudo, uma limitação à imaginação do futuro.
publicado no i.

Philip K. Dick ou Fernando Negrão?


"Nós vivemos em sociedades de transição. De transição entre uma sociedade industrial e uma sociedade digital, de transição entre uma sociedade nacional e uma sociedade global. Nos vivemos cada vez mais numa sociedade onde o risco e o perigo imperam. Todos nos sentimos isso todos os dias. E por isso é preciso construir o crime de enriquecimento ilícito, com base numa figura jurídica que é a figura jurídica do crime de perigo. E com base nessa figura jurídica nós podemos construir um pré-crime, no sentido de acautelar as situações que não têm tido acautelamento jurídico."
Podia fazer parte do Minority Report, mas não, foi mesmo um deputado do PSD ontem no Parlamento. Eu ouvi e não queria acreditar. Se calhar o melhor é mesmo fingir que não foi dito.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Rapazes



Esta versão do teledisco dos Girls para Lust for Life é apresentada como sendo hardcore (perceberão porquê). Os Girls têm um disco, uma história pessoal insólita e são a melhor coisa que o Evan Dando poderia ter feito depois de ter feito um par de discos iniciais com os Lemonheads já lá vai mais de uma década. O disco de estreia deles é todo assim: rock'n'roll exaltante e cantarolável, a empurrar-nos para festas. Acontece que por mais explícita que seja, qualquer versão hardcore dos Girls perde para a violência hardcore do que o John Darnielle faz - como se pode atestar aqui em baixo.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

sábado, 28 de novembro de 2009

Juntos, contra

Durante muito tempo ouvimos vozes de todo o espectro político a insurgirem-se contra a ausência de protecção no desemprego de muitos portugueses. A indignação é justa, mas choca com os limites ao financiamento dos apoios sociais. Com um sistema baseado numa lógica de seguro social, a protecção depende dos descontos prévios e da massa salarial sobre a qual incidem. Subverter esta lógica pode ser muito popular, mas é, no mínimo, financeiramente irresponsável.
O problema é tanto mais sério quanto Portugal combina níveis de participação no mercado de trabalho muito elevados com uma grande precariedade do emprego – que encontra poucos paralelos na Europa. Acontece que à precariedade não estão apenas associados níveis remuneratórios mais baixos e menor segurança no emprego, mas também, frequentemente, ausência de protecção no desemprego.
A única forma viável de proteger mais os portugueses que estão no desemprego é encontrar novas formas de financiar a segurança social, alargando a base de incidência contributiva, designadamente considerando rendimentos não salariais, mas que são de facto contrapartidas do trabalho. É também isso que está em causa com o novo código contributivo. Perante isto, a direita opõe-se porque o novo código onera os empregadores e a esquerda porque legitima a precariedade. Juntos, votam contra. Mas não tardará que, juntos, venham clamar por mais protecção no desemprego. A mesma protecção que agora se recusaram a financiar.
publicado hoje no i (na edição impressa, para além duma gralha que muda o sentido - e à qual sou alheio -, o texto vem atribuído à Laurinda Alves)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O Gulag pode ser aqui

Há umas semanas, uma deputada do PCP revelava desconhecer o Gulag. A entrevista deu que falar, mas a polémica parecia deslocada. Nada de mais errado. Esta semana, Jerónimo de Sousa mostrou que, sendo o Gulag uma sinistra recordação, o seu espírito se mantém vivo. A propósito das escutas ao primeiro-ministro - e, peço desculpa, o tema é, para o caso, completamente irrelevante -, o secretário-geral do PCP defendeu que "seria muito grave que quaisquer formalismos legais determinassem a anulação definitiva de matéria de prova" e que se devia procurar manter "essas provas para processos futuros". Não vá alguém, algum dia, tergiversar, nada como ter na gaveta alguma coisa que possa servir para incriminar. Já os "formalismos legais" são apenas o que nos protege dos julgamentos populares, uma espécie de antecâmara do Gulag. Mas ainda a procissão ia no adro e Aguiar-Branco - paradoxalmente o melhor ministro da Justiça dos últimos anos, prejudicado pelo contexto em que exerceu o cargo - afirmava que "ninguém é obrigado a aceitar um cargo político" mas que, ao assumi-lo, "aceita o escrutínio das suas conversas". Ou seja, com a responsabilidade política vem também uma compressão intolerável dos direitos individuais.
Das últimas semanas guardo uma esperança: que tudo o que se tem dito seja apenas resultado temporário de uma profunda discordância de Sócrates - politicamente legítima e justificável - que está a obnubilar os espíritos, mesmo os mais livres.
publicado hoje no i.

O assador

Os artigos de Daniel Amaral são quase um óasis. O desta semana não é excepção.
"De crescimento económico sabemos que o biénio 2010-11 vai ser muito mau e o 2012-13 é uma incógnita. O melhor é não contarmos com isso. E a optimização da cobrança já deverá estar esgotada. Resta-nos o aumento de impostos: sim ou não? O cenário não é de excluir, mas penso que deverá ser o último a considerar. Os impostos já são de tal modo elevados que um eventual aumento seria um suicídio político.
A alternativa está no corte nas despesas. Recuperemos então a estrutura que deixámos lá atrás. Cortamos nos juros da dívida? É impossível. Aliás, estes juros ainda vão aumentar. Cortamos no investimento? Por Deus, não! Seria desistir de viver. Restam-nos três grupos de despesas: os salários, as pensões e as acções sociais. Querem fazer o favor de escolher? Eu recuso-me. Não consigo imaginar o choque que uma tal violência irá provocar no país."

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Anteontem: Verão no Alentejo

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

"Quem é ateu e viu milagres como eu"


foto tirada daqui, onde, aliás, há explicação.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Muito barulho para nada

Cinco anos passados, muita contestação depois e muito desgaste para as várias partes, os indícios de que a avaliação de professores regressará ao ponto onde se encontrava em 2005 são manifestos.
Se assim for, a conclusão só pode ser uma: muito barulho para nada.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

domingo, 22 de novembro de 2009

Assim se vê a força do PC

Aqui, Daniel Proença de Carvalho notava que "todos nós conhecemos os actores políticos, os seus percursos, as ideias que professam, os seus comportamentos políticos; e, muito importante, exercem o poder com base no voto popular, que é a regra da democracia. Que sabemos nós dos detentores do poder judiciário? Por onde andaram, que ideias políticas professam? E a pergunta fatal: qual a raiz do seu poder soberano? Com que legitimidade o exercem? Esta é a questão crucial com que, mais dia, menos dia, teremos de confrontar-nos."
Jerónimo de Sousa, como sempre acontece com o PC quando os temas são estes, nesta admirável declaração, dá um um contributo para a resposta: "seria muito grave que quaisquer formalismos legais determinassem a anulação definitiva de matéria de prova indispensável à descoberta de eventuais crimes".

sábado, 21 de novembro de 2009

A herança de Harper Lee


Já houve os Boo Radleys, mas há também a "Scout" Nibblet, como para mostrar que há felizmente por aí muitos herdeiros do To Kill a Mockingbird.

Ausência de caminho?

Desemprego acima dos 500 mil, dívida incontrolável e o défice voltou a ser excessivo. No horizonte, crescimentos medíocres do produto e, pelo menos até 2012, não há sinais de que o emprego recupere. Como se não bastasse, assim que se vislumbrar uma tímida retoma, regressará a pressão para a consolidação orçamental.

Não são bons tempos para se estar vivo - economicamente falando, claro. Mas uma coisa os últimos meses também nos disseram: o cenário poderia ter sido bem pior. As previsões feitas para a economia portuguesa têm sido sistematicamente revistas em alta. Sendo verdade que as estratégias anticíclicas revelaram alguma eficiência, foram também insuficientes. Moral da história: sem o pacote de estímulos, a recessão teria sido bem mais profunda e o desemprego ainda pior.

Foi quebrado o ciclo vicioso que nos ameaçava, mas os riscos estão longe de terem sido eliminados. Que fazer agora? Estamos perante um dilema dramático: não temos recursos para manter a economia alimentada pelo consumo público, mas não há condições para não o fazer.

Há três caminhos possíveis, todos muito exíguos: diminuir a despesa (sendo que a que resta é tremendamente rígida); aumentar impostos (não se vê quais) e estimular a economia, continuando a aumentar a despesa. Provavelmente, é preciso fazer de tudo um pouco. Mas também é necessário que nos libertemos dos que, enquanto se entretêm a repetir que o cenário é negro, não conseguem vislumbrar nenhum caminho.

publicado no i.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Exemplos



Em 1770, em Boston, os soldados britânicos dispararam sobre vários populares que se manifestavam contra a possibilidade de o parlamento britânico regular de facto as trocas comerciais e taxar as colónias da América do Norte. No que ficaria conhecido como "Massacre de Boston", morreram cinco civis. O episódio tem uma grande carga simbólica e costuma ser visto como tendo espoletado o processo que levou à declaração de independência dos EUA.

Há, contudo, outro lado da mesma história. Num clima de grande indignação popular, os soldados britânicos são levados a julgamento. Têm, contudo, dificuldade em encontrar quem os defenda. Acabam por conseguir que John Adams aceite ser seu advogado. Adams, que tinha assistido ao massacre, era um empenhado militante independentista, e viria a ser vice-presidente de George Washington, a quem sucederia como presidente.

Ao contrário de todos os outros advogados, que recusaram a defesa com medo que isso os descredibilizasse perante os seus compatriotas independentistas, Adams aceitou. Ao fazê-lo, pôs à frente do seu interesse político um princípio inegociável: o direito a uma justiça justa e isenta.

Este episódio é relatado numa notável série da HBO sobre John Adams, magnificamente interpretado por Paul Giamatti. É uma história exemplar e bem actual.

publicado no i.

Ladies and gentlemen, Mr. Leonard Cohen



durante uma semana, podem ver graciosamente este filme.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A propósito de claustrofobia democrática

Vale bem a pena ler o texto do Pedro Múrias, para se perceber que mais preocupante que a pressão que vem de fora para as redacções, são as condições em que se trabalha em muitas redacções.

Os primos de west-side park voltaram

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Beach House


Entre a praia e casa e entre casa e a praia, não paro de ouvir o novo dos Beach House. Violem umas quantas leis, façam download do disco e depois comprem quando sair em Janeiro. Eles bem merecem, e vocês também.

Espero que tenha sido tão bom para vocês como foi para mim

A pedido de duas famílias, aqui fica a lista de 20 canções que escolhi para a TSF. Critérios? Essencialmente dois: temas de que gosto há muitos anos e que continuo a gostar muito ainda hoje (ainda que por vezes por motivos diferentes) e outros de que suspeito vou continuar a gostar muito daqui a uns quantos anos. Peço especiais desculpas ao Chico Buarque, ao Caetano e ao Ian Curtis e aos outros três rapazes. Mas, infelizmente, não havia espaço para todos. Fica para a próxima. Para ouvir, clickar aqui.

The Beatles - I'm Only Sleeping 3:00 Revolver
Belle & Sebastian - We Rule The School 3:27 Tigermilk
Bill Callahan - Jim Cain 4:39 Sometimes I Wish We Were An Eagle
Bob Dylan - I Want You 3:07 Blonde on Blonde
Bon Iver - For Emma 3:41 For Emma, Forever Ago
Cowboy Junkies - Powderfinger 5:47 The Caution Horses
David Byrne - A Soft Seduction 3:01 Feelings
The Durutti Column - Tomorrow 4:04 Circuses and Bread
The Go-Betweens - Cattle And Cane 4:03 Before Hollywood
Jacques Brel - Le Plat Pays 2:45 Brel
João Gilberto - Este Seu Olhar 2:18 João Gilberto
John Cale - (I Keep A) Close Watch 2:32 Fragments Of A Rainy Season
Johnny Cash - If You Could Read My Mind 4:30 American V: A Hundred Highways
Lambchop - The Daily Growl 6:37 Is A Woman
Leonard Cohen - Stranger Song 5:06 The Songs Of Leonard Cohen
The Mountain Goats - No Children 2:46 Tallahassee
The National - Daughters Of The Soho Riots 3:59 Alligator
Paolo Conte - Genova Per Noi 2:54 Paolo Conte
The Smiths - There Is A Light That Never Goes Out 4:05 The Sound Of The Smiths
Wilco - Jesus, Etc. 4:00 Kicking Television: Live In Chicago

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Dia de surf


(imagem roubada daqui. vale bem uma visita.)

Cepticismo, por favor

Sempre que há um caso judicial que envolve política, inicia-se um ‘ping-pong’ de acusações entre políticos que se indignam com a ligeireza com que a justiça trata os direitos e as garantias e operadores judiciais que se sentem constrangidos na sua autonomia.
No entanto, há uma classe que tende a passar entre os pingos da chuva e cujas responsabilidades na percepção da falência da justiça em Portugal estão bem longe de ser irrelevantes: os jornalistas.
do meu artigo de hoje no Diário Económico

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Meios & Publicidade

A quem possa interessar,
Desde Setembro que, com o Pedro Marques Lopes, faço um programa semanal de debate político na TSF moderado pelo Paulo Tavares. Chama-se Bloco Central, vai para o ar aos Domingos entre o meio-dia e a uma da tarde, e pode ser (re)ouvido aqui. Passei também a ser "residente" no programa Roda Livre da TVI-24, onde debato com o Rui Ramos e o Manuel Villaverde Cabral, com moderação do Henrique Garcia. O programa vai para o ar às quintas-feiras entre as 22 e as 23 horas e pode ser (re)visto aqui.

Regra do Jogo

Há várias semanas que ando para saudar a chegada da Regra do Jogo. Escrevem por lá muitas pessoas que gosto genuinamente de ler e com as quais aprendo sempre. Faço-o hoje porque aproveito para chamar a atenção para este texto do Porfírio, que como sempre nos obriga a pensar.

sábado, 14 de novembro de 2009

Sabemos como começa

Primeiro aceitamos que a investigação criminal vá assentando cada vez mais em escutas, e aparentemente quase só em escutas; depois toleramos que o seu conteúdo seja plantado na comunicação social; por fim discutimos o teor do que não deveria existir, sem que questionemos o modo com estamos colectivamente a deixar que se minem os alicerces do Estado de direito. Como se não bastasse, admitimos com normalidade que um titular de um órgão de soberania seja, em última análise, alvo de espionagem política durante uns meses. Para culminar, parece ter chegado o dia em que os deputados se juntarão para aprovar uma lei que obrigará de facto o suspeito de um crime a provar a sua inocência, em lugar de obrigar a acusação a provar a sua culpa. Pelo caminho deitámos fora princípios sacrossantos para uma vida em comum numa sociedade decente: o direito à privacidade e a importância das garantias consagradas no processo penal, designadamente a presunção de inocência. Agora toca a quem ocupa transitoriamente o cargo de primeiro-ministro, mas, se não somos intransigentes neste caso, haverá um dia em que poderá passar-se connosco. E nesse dia não teremos a lei do nosso lado, e já não haverá Estado de direito para nos defender.

A tudo isto se chama recuo civilizacional. Sabemos, na verdade, como começa, mas temo que saibamos também como vai acabar. Até certa fase podemos ir resistindo, com mais ou menos energia, mas chegará um momento em que teremos de viver recatadamente com a derrota.

publicado hoje no i.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A minha playlist

Durante dois anos e meio, concretizei um sonho de sempre: tive duas horas semanais na rádio para, com o Nuno Costa Santos, passar música sem constrangimentos. Não sei se a oportunidade se repetirá, mas, agora que deixei o Rádio Clube para passar a colaborar com a TSF, pediram-me que fizesse a minha playlist. O desafio de escolher apenas 20 músicas não é fácil. No dia em que gravei, a escolha foi esta.

Os cínicos e os cépticos

Imagino que o Paulo Pena não se importe que eu publique aqui o texto que o Pedro Sales já publicou no Arrastão. É bom saber que há quem pense o que o Paulo pensa, mas ainda mais importante é saber que há quem, sendo jornalista, tenha hoje a coragem de o escrever. Aqui fica.

Só para citar de memória, e deixando de fora os amendoins: Houve o caso Paulo Portas/Moderna; o caso Paulo Pedroso/Casa Pia; o caso Portucale; o caso Freeport; e, agora, as «certidões» da sucata. Tudo grandes investigações que envolviam políticos e não passaram no teste do algodão. Mal ou bem, estas grandes incursões da justiça no mundo da política foram, ou virão a ser, fiascos. Mas deixam um subtexto que substitui a verificação da veracidade ou falsidade das alegações: os políticos não se deixam apanhar, ou fazem leis para se «safar», ou condicionam os intrépidos magistrados.
O que são, nos media, estes casos? Investigações jornalísticas? Ou, em 90% dos casos, uma nova categoria de «reportagem sobre investigações», como lhes chamam Bill Kovach e Tom Rosenstiel, no imprescindível livro Os Elementos do Jornalismo (Porto Editora)?

Veja-se a descrição americana, e compare-se com a realidade portuguesa:

«Neste caso, a reportagem desenvolve-se a partir da descoberta ou fuga de informação de uma investigação oficial (…) O risco deste tipo de reportagem (…) é que o seu valor depende muito do rigor e do cepticismo do repórter envolvido. O repórter proporciona ao entrevistado um precioso espaço para a difusão de uma alegação ou insinuações, sem qualquer responsabilização pública. Isto não significa que a reportagem sobre investigações esteja, por inerência, errada. Mas está repleta de riscos, geralmente negligenciados. Nesta situação, os repórteres apenas costumam conhecer parte da investigação, em vez de serem responsáveis pela mesma. A hipótese de serem manipulados pelas fontes é elevada. Em vez de vigiar as instituições do poder, a imprensa fica vulnerável e torna-se num instrumento à mercê das mesmas.»

Estes são os riscos. E basta ir à hemeroteca para constatar que andamos, todos, a ser muito pouco cépticos com um género particular de investigações: as investigações judiciais. Em Portugal há, e houve em momentos críticos, como os anos da Casa Pia, jornalistas a partilhar blogues com magistrados (convenientemente anónimos). Houve um PGR que nunca foi investigado por ter mandado a sua assessoria de imprensa divulgar notícias falsas. Houve um director-nacional da Judiciária que mentiu a um jornal, acusando Ferro Rodrigues, na altura líder do PS, de um crime horrendo que era falso, e continua, ainda hoje, a aplicar «justiça» num tribunal superior.

Andamos mesmo a ser pouco cépticos. Tão pouco cépticos que já é altura de pararmos para pensar se não andaremos a ser coniventes e acéfalos.
Para mim, a separação de poderes dá a resposta ao dilema: os jornalistas devem investigar, e não fazer de caixa de ressonância; os investigadores judiciais devem ser avaliados pelos resultados das suas investigações e não pela comoção pública que geram as suas quase-descobertas; e os políticos devem ser julgados pelas suas acções e não pela sensação de verosimilhança que gostamos de associar entre uma discordância política e uma falha ética. Há políticos honestos de quem discordamos e políticos corruptos com quem concordamos.

Foi Kapuscinski que disse que «os cínicos não servem para este ofício». E tem cada vez mais razão. A diferença entre cínicos e cépticos devia ser ensinada nas faculdades de jornalismo.

Paulo Pena, jornalista.

O dia em que o Correio da Manhã venceu

Estava escrito. Um dia o modo como o "Correio da Manhã" olha para a sociedade tornar-se-ia dominante. Temo que esse dia tenha chegado. O contexto estava maduro: a sensação de que a corrupção está a aumentar combinada com um sentimento de impunidade. Mas, ainda assim, as instituições pareciam imunes aos julgamentos na praça pública alimentados por violações grosseiras ao segredo de justiça; do mesmo modo que partidos políticos não hesitavam na defesa das regras básicas de uma sociedade decente - o primado da lei, a importância dos procedimentos formais para nos proteger a todos e a presunção da inocência.

Infelizmente, chegou o dia em que o consenso que nos permitia resistir à fúria justicialista foi posto em causa. Manuela Ferreira Leite, no Parlamento, não resistiu a afirmar que "as dúvidas políticas não se resolvem adiando investigações e destruindo provas", para logo depois dizer que o primeiro- -ministro devia esclarecimentos ao país sobre este caso. Eu não sei, nem quero saber, que "provas" são essas de que Ferreira Leite fala. Desde logo porque, num país civilizado, as escutas deveriam ser o último recurso para a investigação, em situação alguma deveriam ser passadas aos media e todos devíamos ter a consciência de que a maior exigência nas escutas aos órgãos de soberania visa proteger não quem ocupa transitoriamente os cargos mas, sim, a segurança do Estado, da governação e, custa-me dizê-lo, hoje em dia, também a autonomia da política face à justiça.

publicado no i.

Homens em tempos sombrios

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A latrina

Na verdade, para sairmos da latrina onde estamos presos, precisamos de investigações discretas, blindadas às fugas e capazes de produzir, de facto, prova. Mas, precisamos, essencialmente, que o processo de tomada de decisões nas políticas públicas seja transparente, baseado em critérios partilhados e densificado por um enquadramento legal estável e previsível. Infelizmente, temos todos os dias violações ao Estado de direito, mas temos também quotidianamente decisões políticas opacas e sobre as quais pouco sabemos.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

o maravilhoso mundo do clipping

Há um lado invariavelmente trágico no humor involuntário. A este propósito, a entrevista que José Manuel Fernandes deu ao Correio da Manhã (por acaso parece-me bem escolhido o jornal), é a vários títulos inigualável. Mas, desde já, e agora que terá mais tempo disponível, tenho duas singelas sugestões a fazer ao agora colaborador "aqui e ali" do Público: trabalhar as suas capacidades para realizar buscas no google e pedir ao Pai Natal se lhe deixa no sapato uma assinatura de um serviço de clipping. Vai ver que é bem melhor que o arquivo do Pacheco Pereira. As coisas que por lá se descobrem.

Comemorações

quem é que estava no 7 de Novembro de 1981?
a resposta está aqui.

sábado, 7 de novembro de 2009

A sombra do passado

O debate deste final de semana revelou um governo novo com um programa novo, mas que herdou do executivo anterior velhos problemas. À cabeça o processo de avaliação dos professores. O tema está, em teoria, bem longe de ser uma prioridade nacional; acontece que se transformou de facto numa prioridade política e será um teste decisivo à capacidade de Sócrates para governar em minoria.
A equação não é fácil de resolver. De um lado estão escolas (que precisam de estabilidade) e professores já avaliados (que não querem abdicar do percurso que já fizeram); de outro, partidos políticos e sindicatos, que querem manter a chama da luta política acesa e não abrem mão da suspensão do processo. No meio está o governo, que viu diminuídas as suas condições políticas e perdeu grande parte da margem de manobra negocial que detinha (primeiro, no memorando de entendimento com os sindicatos em Abril de 2008 e depois com a revisão do estatuto da carreira, aprovada neste Verão com escasso impacto).
Os sinais sobre qual vai ser a saída para o impasse são contraditórios: a nova ministra afirmou que "tanto no sistema de avaliação como no estatuto, não há pontos que não se possam mudar", enquanto o ministro dos Assuntos Parlamentares acena com uma encruzilhada jurídica, que em última análise pode bloquear politicamente o país. Há, contudo, uma certeza: o modo como será resolvida esta equação marcará a identidade do novo governo, o que não é compaginável com indefinições e contradições.
publicado no i

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Por detrás das falas mansas

Em Novembro de 1989, os alemães de leste foram finalmente autorizados a passarem a fronteira com Berlim ocidental. Vinte anos passados, há bons motivos para comemorar o simbolismo dos primeiros passos de uma Europa unida e livre. Mas, num remoto país da Europa, há quem pense que não. Em nota enviada à Lusa, o PCP vem recordar-nos que “as 'comemorações de regime' a que assistimos são uma operação de reescrita da história e de branqueamento do capitalismo". Afinal, “o mundo está hoje mais injusto, mais desigual, mais perigoso e menos democrático" e, claro, a solução dos problemas da humanidade "não está nas contra-revoluções que há 20 anos varreram o Leste europeu", mas sim na lealdade aos ideais da "grande Revolução de Outubro".
Podemos tomar estas declarações como pitorescas, mas, na verdade, torna-se difícil. Desde logo porque, nas sociedades abertas, as liberdades civis e políticas são inegociáveis e não compagináveis com nenhum “mas”; depois, o próprio PCP já tinha encerrado este capítulo de sinistra nostalgia estalinista e é, no mínimo, trágico que se entretenha agora a reabri-lo. No fim, fica a certeza que, por detrás das falas mansas do “comunismo de sociedade recreativa”, se esconde um partido envolvido num crescendo de ortodoxia que não encontra paralelo no mundo ocidental. Afinal, o enlevo com a Coreia do Norte de Bernardino Soares ou o apagamento dos Gulags da deputada Rita Rato não são notas dissonantes ocasionais, mas, sim, o elemento central da partitura pela qual se rege hoje o PCP.
publicado hoje no i.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A vaga de fundo

Há um ano e meio, os barões do PSD uniram-se para que Ferreira Leite avançasse para a liderança. A vaga de fundo, é hoje sabido, ofereceu uma curtíssima vitória nas eleições directas à "boa moeda". Depois, a "escolhida" teve um resultado eleitoral em tudo idêntico ao da "má moeda", cinco anos antes, com Santana Lopes. Agora, os mesmíssimos barões empenharam-se em revisitar o equívoco, lançando um apelo para que, desta feita, fosse Marcelo Rebelo de Sousa o voluntário para se deixar imolar na fogueira que os barões, depois, se encarregariam de ir mantendo acesa. A repetição da história revela, antes de mais, que o partido não conseguiu aprender com os erros recentes, mas também que há um conjunto de pressupostos sobre o PSD que a realidade se tem encarregado de desmentir.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Dress code: usar óculos

Uma fatia muito importante do meu tempo nos últimos anos foi dedicada a isto. Acabou de repente, depois de um par de horas fechado numa sala com homens com óculos.

Sinais de vitória


Devo muito do que sou ao António Sérgio na medida em que não me conheço sem passar o tempo a ouvir músicas, a descobrir músicas e a querer saber mais sobre músicas. Cheguei ontem a Portugal e percebi que o António Sérgio morreu, mas fiquei contente por perceber que o António Sérgio tinha sido e é muito importante para muita gente – basta dar uma vista de olhos pelos blogs. Este é o género de coisas que faz de mim um optimista. Isto e uma história que acho que terei ouvido ao John Peel numa entrevista qualquer: para ele, a sanidade da sua família media-se pelo facto de ir com a mulher e os filhos a concertos dos The Fall, mais de vinte anos passados depois do Mark E. Smith nos ter começado a assombrar a todos. Era isso que eu sentia também no António Sérgio quando o ouvia, cavernoso, na Radar: o mesmo entusiasmo inicial com a música.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Uma última vista


até já.