
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Em busca de Oliver North
Durante o escândalo Irão-Contra, ficou célebre a imagem do coronel Oliver North a assumir solenemente a total responsabilidade pela entrega de armas ao Irão. Ao fazê-lo desresponsabilizou o presidente Reagan, que, no mínimo, simpatizava com a causa. O máximo que se tornou possível dizer foi que a vontade de Reagan tinha sido interpretada abusivamente por North. Ainda hoje não se sabe com exactidão o que se passou, mas North, falhada uma carreira política, tornou- -se um popular comentador da Fox News (mais um farol da liberdade de expressão). Depois de ter classificado as revelações do jornal "Sol" como jornalismo de buraco de fechadura (o que manifestamente é), José Sócrates demorou quatro longos dias a afirmar que a "intenção estratégica" da PT de comprar a Media Capital foi "totalmente independente da vontade do governo". Logo, o seu nome foi invocado abusivamente. O que, como é sabido na actividade política, tende a acontecer com frequência. Aliás, não demorou muito que Henrique Granadeiro, presidente da PT, viesse corroborar as palavras de Sócrates. Mas é esse hoje o problema do primeiro-ministro: a credibilidade das suas palavras depende de facto do que afirmem terceiros. No fundo, depende de que alguns protagonistas ajam como Oliver North.
publicado hoje no i.
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First we take Lisbon, then we take Manhattan
Se bem percebi da leitura da edição do SOL hoje, para a semana ser-nos-á revelado como Nuno Vasconcellos, Armando Vara, Rui Pedro Soares, devidamente coadjuvados por Joaquim Oliveira, se preparavam não apenas para comprar a Media Capital, mas todo o grupo PRISA. Por alturas da Páscoa, serão publicadas informações preciosas que mostram como as negociações para a compra do NYT já estavam também em estado avançado. Pelo caminho, José Eduardo Moniz ter-se-á deslocado a Londres para tratar do Guardian e do Observer, em devido conluio com José Sócrates.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Governo, justiça, democracia, tudo a mesma merda
Na verdade não me apetecia muito conspurcar o meu blog, que estava assim como que higienizado, com o Kurt Wagner aqui em baixo, mas como sou outro dos que padece dum problema de autonomia (de falta dela, claro), não resisto a citar, desde o Público, a deputada do BE, Helena Pinto. O "Bloco (que) foi o primeiro partido a reagir à notícia da providência cautelar. Que, nota Helena Pinto, “não abona na credibilidade nem do Governo nem da própria democracia”. “Só em situações absolutamente excepcionais”, acrescentou, “é que se admite a intervenção da justiça num órgão de comunicação social”. Vejam só como eles estão sempre na vanguarda: no fundo Governo, democracia, justiça é tudo a mesma merda ou, pelo menos, o mesmo órgão. Na verdade, isto tornou-se mesmo irrespirável, não fora a candeia de liberdade que nos iluminou hoje, desde as escadarias da AR. Na fundo estava escrito desde o início que a claustrofobia democrática culminaria numa manif pela hora de almoço. A seguir, juntar-se-ão todos no colectivo ruptura (reconstruído).
And the best is yet to come
"To conclude this interview
Many facts and fictions you construe
The dog gives you the paw
You pat his head and you wipe his jaw
He's the only one who knew
(about) my blue wave"
(na verdade o resto do concerto pode ser visto no youtube, mas o melhor mesmo é tratarem da coisa aqui).
Tenham medo
Leio no Diário Económico que uma das "propostas" de Rangel para a área da justiça é dar mais poder aos juízes. O populismo, já se sabe, é democrático na escolha dos seus porta-vozes, mas há boas razões para termos medo. Para termos muito medo.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Da (ir)relevância relativa do nosso debate orçamental
(...) The conventional wisdom also declares that once fiscal adjustments have been made and flexibility introduced, the affected economies can return to growth, as Germany did after painful adjustments in the early noughties. Furthermore, adds the conventional wisdom, the existence of huge current account imbalances within the zone has no bearing on either the problem or the solution. There is no more reason to worry about eurozone internal “imbalances” than one would about imbalances between US states.
This conventional wisdom is, alas, nonsense. Until policymakers recognise this, they are dooming the eurozone to huge tensions. There is no way to put this delicately. So long as the European Central Bank tolerates weak demand in the eurozone as a whole and core countries, above all Germany, continue to run vast trade surpluses, it will be nigh on impossible for weaker members to escape from their insolvency traps. Theirs is not a problem that can be resolved by fiscal austerity alone. They need a huge improvement in external demand for their output. (...)
o resto pode (deve) ser lido aqui.
This conventional wisdom is, alas, nonsense. Until policymakers recognise this, they are dooming the eurozone to huge tensions. There is no way to put this delicately. So long as the European Central Bank tolerates weak demand in the eurozone as a whole and core countries, above all Germany, continue to run vast trade surpluses, it will be nigh on impossible for weaker members to escape from their insolvency traps. Theirs is not a problem that can be resolved by fiscal austerity alone. They need a huge improvement in external demand for their output. (...)
o resto pode (deve) ser lido aqui.
Roda Livre
A Roda Livre, o programa em que participo semanalmente na TVI24 com o Rui Ramos e o Manuel Villaverde Cabral, moderados pelo Henrique Garcia, mudou de horário. A partir de hoje, passará a ser emitido às quartas-feiras a seguir ao noticiário das 23 horas.
Obrigado João Pereira
Na verdade não queria falar muito do Sporting - a equipa que, para Carvalhal, tem um problema estrutural, uma defesa baixa (o que ajuda a explicar a compra de João Pereira) -, mas há uma frase, ainda ontem repetida, que resume o estado do clube: "o Everton tem progredido muito nos últimos tempos". Preparem-se portanto.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Haverá alguém disposto a fazer de Oliver North?

De acordo com o PM, a "intenção estratégica" da PT em comprar a Media Capital foi "totalmente independente da vontade do Governo". Há portanto dois candidatos a Oliver North que convinha que dissessem alguma coisa.
Linha de Fronteira
(...) A tentativa de compra da Media Capital pela PT deu, a este respeito, um péssimo sinal. Como aliás parecia ser consensual aquando da alienação da Lusomundo, a separação entre plataformas e conteúdos ia no bom sentido. O súbito retrocesso estratégico anunciado antes do Verão não encontrou nenhuma explicação plausível, pelo que a ideia que ficou a pairar é que tudo se resumia a uma vontade indomável de controlar um grupo de media através de uma empresa com uma ‘golden share' pública. Aliás, se o objectivo era tão estratégico, não se chega a perceber por que razão, uma vez abortado o negócio com a PRISA, não procurou a PT encontrar outra alternativa no mercado.
No fundo, tudo radica numa questão: garantido o serviço público e com uma entidade reguladora eficiente, há algum motivo para que o Estado se envolva directa ou indirectamente no negócio dos media? A resposta é não, o que serve também para revelar que, enquanto existir uma ‘golden share' na PT, estaremos sempre condenados à interferência política nos media. Não só não é esse o caminho para garantir o pluralismo como cria o caldo adequado para que interesses financeiros, pulsões controleiras de governantes e protagonistas do sub-mundo partidário se coliguem com efeitos devastadores para a qualidade da democracia.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
No fundo, tudo radica numa questão: garantido o serviço público e com uma entidade reguladora eficiente, há algum motivo para que o Estado se envolva directa ou indirectamente no negócio dos media? A resposta é não, o que serve também para revelar que, enquanto existir uma ‘golden share' na PT, estaremos sempre condenados à interferência política nos media. Não só não é esse o caminho para garantir o pluralismo como cria o caldo adequado para que interesses financeiros, pulsões controleiras de governantes e protagonistas do sub-mundo partidário se coliguem com efeitos devastadores para a qualidade da democracia.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Bem-vindos ao futuro
As liberdades individuais nunca são retiradas de uma vez só. São confiscadas lentamente, uma a uma, em pequenos passos, sem que na verdade valorizemos muito cada um deles. O problema é que, quando damos por nós, normalmente já é tarde para defender a autonomia individual e o direito à privacidade. Há contudo semanas em que estes pequenos passos se sucedem a um ritmo que parece imparável. Esta foi uma dessas semanas. Num par de dias, recuámos ao tempo em que a delação de conversas escutadas em restaurantes era aceite, mas também avançámos para um futuro distópico em que os rendimentos de cada um ficariam expostos à consulta invariavelmente mesquinha de todos, à distancia de um click. Pelo caminho, banalizou-se a violação do segredo de justiça, que nos é agora apresentada transfigurada de jornalismo de investigação, e, num exercício de violência simbólica, vimos ainda o Ministro da Defesa, acompanhado de militares, a comentar um artigo hediondo de um bom pivot de telejornal, como que para provar de uma vez por todas que o governo revela uma preocupação desmesurada pelo que dele se diz nos media. Começa a haver, em tudo isto, poucos inocentes e quem assiste, com alguma réstia de respeito pelas liberdades individuais, não pode deixar de temer por um futuro que é demasiadamente parecido com o passado. Bem-vindos sejam, por isso, ao futuro que estão a construir.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Ruínas, por mais belas, amarguram-me

«Eu saía da água junto aos joelhos dela, a sentir-me translúcida, levíssima como o cefalópode com muitos braços, uma galáxia de braços. Não era para ela, era com ela. Poucas coisas são tão alegres como o egoísmo de duas crianças síntonas no seu brinquedo, que era o mar.
– A partir de certa idade, Maria, o mar rejeita-nos.
– Ora, Sophia, é só a água na cara que a enerva, isso há-de passar.
Não era caridade, era compaixão. Compaixão com ela do que um dia havia de me esperar. O mar hostil.
Íamos já a caminho de casa, do delicioso spaghetti frio que ela temperava com ervas e azeite virgem, alcaparras ou anchovas, do peixe frio marinado em calda, como se come no mar, comido no alpendre, debaixo da renda de heras. E da noite, que já avermelhava no horizonte marinho do almoço tardio.
Da noite, em que vestidas de lavado, cabelo desamarrado, o dela uma sedinha solta, o meu afrodionisíaco, como ela o dizia, roupas longas, soltas e largas, falávamos de tudo e de nada, até às mais altas horas, que lhe convinham, a ela e a mim. Bebíamos vinho branco gelado, não havia retsina, pena para ela, bom para mim, que não gosto de quase nada do que vem da Grécia, excepto a comida e as azeitonas talhadas com alho e tomilho, o que a chocava, mas não tanto quanto seria de esperar.
– Ruínas, por mais belas, amarguram-me, Sophia.
Falávamos na noite, no alpendre quase morno, sem tom nem som. Nenhuma das duas era desesperadamente musical. Não havia música nem nos fazia preciso. Falávamos mais de todos do que de tudo; do tudo eram a arte e a poesia – nem política, nem mundos a mudar. Não era a prudência de pertencermos a facções políticas diferentes. Era a força de indiferenciação da noite, quando as mulheres falam. Falávamos de amores, de filhos, de amigos e desamigados. Desse mundo ginecêutico e caótico, onde tínhamos ambas de manter aparências. Brilhávamos na meia obscuridade como as estrelas que se viam no céu limpo, mortais e imortais, passe a solenidade.
Porque não éramos solenes.»
[in Sophia: Vozes, de Maria Velho da Costa, prefácio ao livro Evocação de Sophia, de Alberto Vaz da Silva, Assírio & Alvim, 2009]. copiado daqui.
O carnaval financeiro
Depois do braço-de-ferro entre governo e oposições para definir as condições de governabilidade, o país viu-se enredado num novo braço-de-ferro: entre os partidos "nacionais" e as suas declinações regionais. Até ver, a versão regional dos partidos leva vantagem. Enquanto isso, a bolsa de valores cai a uma velocidade estonteante e o risco da dívida portuguesa vai batendo alegremente recordes. Quando era necessário robustez política para cortar a despesa e conter o endividamento, os partidos, empurrados a partir da Madeira e inspirados pelas palavras de João Jardim, iniciam um desfile de Carnaval antes de tempo. Salta à vista de toda a gente que a ausência de uma maioria de um só partido ou, alternativamente, de uma coligação formalizada entre partidos tornará impossível qualquer esforço estrutural de consolidação; mas como a irresponsabilidade não conhece limites, torna-se também cada vez mais claro que os partidos estão capturados pelo interesse regional (como já se tinha percebido, para o caso do PS, com o Estatuto dos Açores). Não se vislumbra nenhum motivo para que, num contexto em que é exigida disciplina orçamental a todos, se suspendam os princípios da Lei das Finanças Regionais em vigor. A menos que tudo se deva a uma singela coincidência: com directas à porta, ninguém no PSD quer perder os cerca de 2500 votos de militantes da Madeira. Conclusão, de captura em captura não restará ninguém para defender o interesse geral. Sair-nos-á bem caro, literalmente, quando forem emitidas obrigações do Estado português.
publicado hoje no i.
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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
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