Dificilmente haverá exemplo mais acabado da disfuncionalidade a que chegou a nossa vida política e económica do que o caso Figo. Um atleta-modelo, símbolo do país moderno, alegadamente envolvido num esquema bem doméstico, onde se cruzam compadrios políticos com negócios públicos e apoios partidários. O pior dos mundos. Para ajudar à festa, a habitual culpabilidade decretada nos media. Há boas razões para que o caso seja investigado, o que não ajuda é que partamos da culpabilidade para depois investigar. Desde logo, porque há já demasiados casos nos quais houve culpados e depois não houve nem acusação nem condenação. Mas o caso Figo tem outra face: os partidos, em acentuada trajectória de descrédito social, procuram compensar a credibilidade perdida através de uma colecção de cromos que vai sendo exibida ao lado dos líderes. As máquinas partidárias, devidamente fustigadas, interiorizaram a sua própria falência e vivem deslumbradas com o apoio de uns quantos notáveis. É pouco provável que haja ganhos eleitorais significativos com estas aparições em campanha. As razões das escolhas eleitorais são outras e, paradoxalmente, o investimento nos notáveis convive com uma negligência dos partidos nos factores que enraízam mais as escolhas. Na verdade, por cada notável que surge numa campanha, haverá sempre uma relação perversa entre políticos e amigos, que aparentam proteger-se mutuamente em negócios de contornos dúbios. É por isso tão exemplar o caso de Figo. É-nos sugerido que as duas dinâmicas, afinal, até se podem en-contrar interligadas.
publicado hoje no i.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Sinais de crise sistémica
A tendência mais saliente deste barómetro é o crescimento de opiniões negativas sobre quem neste momento tem responsabilidades políticas de facto: o primeiro-ministro, como era inevitável, vê as avaliações positivas decrescerem e as negativas crescerem e o PS perde cinco pontos. O mesmo acontecendo, aliás, com o Presidente – ainda que com menor intensidade. Contudo, este declínio continua a não se traduzir em ganhos equivalentes para os partidos que poderiam ser uma alternativa aos socialistas. Faz sentido. Num cenário de degradação genérica da imagem da actividade política, combinada com a sugestão de que há zonas cinzentas de relações promíscuas entre políticos e actividades empresariais, é o próprio sistema que sai corroído. Ou seja, a oposição do ‘arco da governabilidade’ tem também dificuldades em capitalizar a seu favor. Quando o debate político se centra progressivamente numa espiral de casos de corrupção e clientelismo, este tipo de partidos não consegue extrair ganhos políticos. As crises sistémicas tendem é a favorecer quem se apresenta como não fazendo parte do sistema. Não por acaso, o Bloco de Esquerda recupera cinco pontos neste sondagem e aparenta ser o único vencedor da crise. Conclusão: o retrato deste barómetro não augura nada de bom no que toca às possibilidades efectivas de sairmos politicamente da crise em que nos encontramos.
publicado hoje no Diário Económico como comentário ao barómetro da marktest.
publicado hoje no Diário Económico como comentário ao barómetro da marktest.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Que viola o segredo?
O segredo de justiça tornou-se o espelho da justiça em Portugal. É violado quotidianamente, com benefício do infractor. Entre a impunidade de uns e a impotência de outros, resta um sistema desacreditado e que procura a credibilidade perdida numa gestão a conta -gotas da informação que vai passando para a comunicação social. A procuradora-geral- adjunta, Cândida Almeida, veio, esta semana, lembrar o óbvio: o rei vai nu e para que ele possa ser de novo vestido é necessário, por um lado, aumentar as penas dos prevaricadores e, por outro, admitir que também os magistrados são possíveis violadores do segredo. Logo, também eles poderiam ser escutados para apurar a verdade. A proposta parece absurda, mas convenhamos que é compatível com o papel omnipresente que as escutas têm vindo a revelar na investigação judicial. Não demorou muito para que o sindicato dos magistrados do Ministério Público viesse, com a costumeira indignação, recusar-se a aceitar que os magistrados possam ser responsáveis pela violação; posição prontamente acompanhada pelo secretário de Estado da Justiça, que suspendeu funções para se pronunciar enquanto advogado (!), recusando-se a aceitar que um magistrado seja "presumivelmente o infractor". Partindo do princípio de que as violações do segredo de justiça não são obra do divino Espírito Santo, que os senhores magistrados foram "ungidos" no CEJ e, portanto, estão acima de qualquer suspeita, a malha aperta-se e não restam muitos presumíveis infractores. É por isso estranho que raramente haja condenações.
publicado hoje no i.
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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Ninguém é neutro
Como acontece invariavelmente, vale mesmo muito a pena ler o que escreve João Lopes. Fica aqui um excerto, o resto deve ser lido no sítio do costume.
"4.Ora, ninguém é neutro. Ninguém. A começar pelo jornalista. Como qualquer observador/relator, ele é alguém que escolhe: escolhe o que olhar, de onde olhar, para onde não olhar; escolhe o que dizer, como dizer, como evitar dizer. O que o jornalista produz não é uma "fotocópia" da realidade, mas sim uma construção narrativa (por palavras, imagens, etc.) que existe como uma nova realidade que se vai somar àquela de onde partiu.
5.Reconhecer isto não é lançar nenhuma suspeita sobre a actividade jornalística. Bem pelo contrário: é reconhecer a sua complexidade prática e conceptual, celebrando também a sua imensa responsabilidade narrativa, simbólica e filosófica. Por isso, cada vez que um jornalista nos quer convencer da sua virgindade cognitiva — "olhem para mim a dar-vos um ponto de vista que não podem contestar" —, acontece uma mentira. Não necessariamente factual, mas ontológica."
"4.Ora, ninguém é neutro. Ninguém. A começar pelo jornalista. Como qualquer observador/relator, ele é alguém que escolhe: escolhe o que olhar, de onde olhar, para onde não olhar; escolhe o que dizer, como dizer, como evitar dizer. O que o jornalista produz não é uma "fotocópia" da realidade, mas sim uma construção narrativa (por palavras, imagens, etc.) que existe como uma nova realidade que se vai somar àquela de onde partiu.
5.Reconhecer isto não é lançar nenhuma suspeita sobre a actividade jornalística. Bem pelo contrário: é reconhecer a sua complexidade prática e conceptual, celebrando também a sua imensa responsabilidade narrativa, simbólica e filosófica. Por isso, cada vez que um jornalista nos quer convencer da sua virgindade cognitiva — "olhem para mim a dar-vos um ponto de vista que não podem contestar" —, acontece uma mentira. Não necessariamente factual, mas ontológica."
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Contra factos, a narrativa
“O primeiro-ministro é mentiroso”. Esta asserção é o centro da narrativa sobre o envolvimento de Sócrates na tentativa de compra da Media Capital pela PT. Em Junho, da primeira vez que foi confrontado na AR com a possibilidade de negócio, alegou desconhecimento. A narrativa, devidamente baseada em escutas descontextualizadas, sugere-nos que Sócrates mentiu aos deputados. Vozes da "política de verdade" têm, aliás, alegado o mesmo. Somos levados a acreditar na imagem de um primeiro-ministro mentiroso. Tudo vai nesse sentido. Tanto mais que Sócrates tem revelado uma preocupação inusitada com o que a comunicação social diz de si, o que se traduzirá automaticamente num impulso controleiro de facto. Conclusão: Sócrates não só saberia do negócio como seria autor moral da sua concretização. E se não tiver sido assim?
A pergunta é tão insólita que ninguém está disposto a colocá-la. A tendência é de tal modo claustrofóbica que se surgirem factos que contrariem a narrativa, ninguém quererá saber da força dos factos. Contra factos, o que conta é a narrativa, ardilosamente construída.
continuar a ler aqui.
A pergunta é tão insólita que ninguém está disposto a colocá-la. A tendência é de tal modo claustrofóbica que se surgirem factos que contrariem a narrativa, ninguém quererá saber da força dos factos. Contra factos, o que conta é a narrativa, ardilosamente construída.
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Sair? Só com eleições
Em entrevista, Passos Coelho disse que "novo primeiro- -ministro só com outras eleições". Sócrates, entretanto, sublinhou que "nada o fará abdicar". Esta é talvez a mais impor- tante das cooperações estratégicas dos últimos tempos. A cooperação em torno do bom senso e da razoabilidade. Depois de várias semanas em que assistimos, do lado dos opositores, a apelos para que Sócrates se afastasse ou fosse substituído pelos seus pares, e, por parte do seus pares, a alguns exercícios especulativos sobre cenários B, em que outro socialista assumiria o lugar, parece que alguém se recordou do óbvio. Em Portugal, de facto, ninguém pode ser primeiro-ministro sem antes ser legitimado pelo voto popular. Não se trata apenas do carácter cada vez mais personalizado das eleições legislativas, são também os precedentes. Depois das experiências de Balsemão e Santana Lopes, ninguém no seu perfeito juízo poderá aceitar ser primeiro- -ministro não eleito e qualquer governo nestas condições será um nado-morto. Se um governo minoritário legítimo e sufragado há três meses é frágil, imaginemos um governo minoritário que não tivesse sido eleito. Convinha também que, independentemente do juízo substantivo que possamos fazer, não se abrisse outro precedente: a possibilidade de um primeiro-ministro ser afastado através de uma apropriação política de instrumentos do sistema de justiça, considerados irrelevantes por quem de direito. Sócrates deixará de ser primeiro-ministro um dia, mas através de eleições. Se não for assim, nunca mais a política recuperará a sua autonomia face à justiça.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
O velho novo
Gil Scott-Heron regressou como novo, ou como velho. Pouco importa. O disco é, como se usa dizer, incontornável.
As explicações por dar
Sócrates demorou quatro longos dias para dizer que quem tinha invocado o seu nome no negócio da PT com a Media Capital o tinha feito abusivamente. Enquanto durou o silêncio, adensaram-se as suspeitas sobre o envolvimento do primeiro-ministro. Entretanto, dez dias passados, nada nos foi dito sobre se mantinha a confiança nos dois administradores que representam o Estado na empresa. Se usaram o seu nome indevidamente e se envolveram a empresa num negócio que é legítimo (o regresso aos conteúdos), mas está manchado por manigâncias, não podem manter-se no lugar. O comportamento deles põe em causa a reputação de Sócrates. Naturalmente que, pelo caminho, aconteceu o óbvio: pressionado pela pressão pública e política, um dos administradores - Rui Pedro Soares - demitiu-se. Soares Carneiro (que foi acusado de "quebra de confiança" por Granadeiro, pela passagem dos fundos de pensões da PT para a Ongoing e por, alegadamente, ser o responsável pela fuga de informação das actas de uma reunião da administração), mais dia menos dia, seguirá o mesmo caminho. Ou seja, as circunstâncias encarregar-se-ão de fazer o que Sócrates já devia ter feito. A questão é política e deve ser tratada como tal. Não faz por isso sentido o argumento formalista, que manda aguardar pela reunião da assembleia- -geral da empresa. Uma coisa é clara: quanto mais tempo demorar o silêncio do primeiro-ministro sobre o tema, pior. O ónus da explicação está do seu lado e Sócrates tem demorado demasiado tempo a responder.
publicado hoje no i (e escrito antes da declaração ao país de ontem à noite - que, na verdade, não deu as respostas necessárias.)
publicado hoje no i (e escrito antes da declaração ao país de ontem à noite - que, na verdade, não deu as respostas necessárias.)
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
O vizinho polaco
O Duarte "Valcheck" pergunta-me o que pretendo demonstrar com este post. Temo desiludi-lo, mas não pretendo demonstrar absolutamente nada. Como aliás escrevo quando o republico, encontrei o texto por acaso e já nem me lembrava exactamente nem do episódio, nem do que havia escrito. Lido o texto, pareceu-me particularmente actual e não deixa de ser curioso que, 13 anos passados, estejamos a discutir a mesma coisa - ainda que, admito, a um novo nível. Não sou muito dado a "indignações furiosas", pelo que na altura não me indignei muito com o "meu" episódio, o mesmo se passando agora. Fiquei satisfeito por descobrir que penso hoje exactamente a mesma coisa do que pensava então (o que já não é pouco). Quanto ao que se passa hoje, peço desculpa, mas nas últimas semanas, em artigos, aqui na TSF e aqui na TVI24, tenho demonstrado tudo menos indiferença. Não sou é do género de andar de granada na mão para cumprir missões. É uma questão de feitio.
Ar puro

No fundo é isto: “People might think that surfing’s a limited thing, but surfing’s not limited . . . You’re all the time learning how to do things, discovering better ways of surfing and more ways of enjoying it.”
Farrelly, M. and McGregor, C. (1968) How to Surf. London: Sphere Books. roubado daqui.
Somos todos o João Galamba
O João Galamba é um tipo decente, mas os tempos estão sempre mais difíceis para os tipos decentes.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Escândalo: o governo faz política
Anda para aí uma grande indignação, baseada nesta investigação jornalística que consumiu o tempo de três jornalistas, que tiveram de ler mails de uma mailing list (de que aliás eu fazia, faço, parte) que lhes foi devidamente entregue por um sujeito. No fundo, a indignação é um retrato fiel do país. Anda tudo indignado porque, veja-se lá, assessores do governo faziam política. Ou seja, passavam argumentários com informação pública sobre a acção governamental para uma mailing list de que faziam parte bloggers e candidatos a deputados. Tudo durante a campanha eleitoral. Mas onde é que já se viu tal coisa? O que se espera de assessores governamentais é que façam continhas, assinem informações e retirem as mangas de alpaca à hora de regressarem a casa. Política? a minha política é o trabalho e até acho que a política devia ser criminalizada. Pois o meu trabalho é a política e o que me parece que faz falta é exactamente que o Governo faça mais política, que informe mais e que produza mais argumentos, desde logo convincentes. Não é preciso estar muito atento para se perceber que é isso que falta e não o contrário. Pelo meio, fico também com uma certeza: a blogosfera pode revelar-se particularmente útil - representa um meio eficaz para os perturbados mentais fazerem terapia ocupacional e expressarem as suas frustrações. Mesmo se, pelo caminho, violarem correspondência.
adenda: ainda sobre o mesmo tema, ler o porfírio e o eduardo e ainda o rogério e ainda o andré couto e o tomás vasques e ainda o luís tito e ainda a sofia loureiro dos santos e ainda o miguel abrantes e ainda o tiago barbosa ribeiro e ainda o vasco barreto e ainda o Miguel Vale de Almeida e ainda o josé reis santos.
adenda: ainda sobre o mesmo tema, ler o porfírio e o eduardo e ainda o rogério e ainda o andré couto e o tomás vasques e ainda o luís tito e ainda a sofia loureiro dos santos e ainda o miguel abrantes e ainda o tiago barbosa ribeiro e ainda o vasco barreto e ainda o Miguel Vale de Almeida e ainda o josé reis santos.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Há muita falta de memória no jornalismo
Em 1997, fui durante uns tempos colunista do jornal A Capital (jornal no qual, aliás, voltei a escrever, em 2004/2005), então propriedade do grupo Edimpresa - o tal em que, segundo, Henrique Monteiro, os colunistas são absolutamente livres. Na sequência da censura a Carreira Bom, escrevi, ingenuamente, este artigo. Na véspera de publicação, enviei-o para o jornal, no dia seguinte, ao contrário do habitual, o artigo não fora publicado. Nem sequer se deram ao trabalho de justificar a censura. A história é, essencialmente, pessoal e nem eu próprio me lembrava bem do que havia escrito; hoje, encontrei o texto não publicado num back-up. Tem a sua piada e uma certa actualidade, designadamente as citações de Paulo Portas.
Elementar, “Meu Caro” Portas
Já sabíamos que conquistas básicas, elementares e justas dos trabalhadores têm vindo nos últimos anos a ser postas em causa. Paulatinamente os patrões vêm sujeitando empregados: são as horas extraordinárias que não são pagas, os inacreditáveis entraves às idas à casa de banho e, talvez aquilo que é mais decisivo, o regime de medo que resulta da precariedade do emprego e que diminui decisivamente a capacidade reivindicativa dos trabalhadores. Mas se sabíamos que isto se passava na industria têxtil endividada (mas em que os patrões se passeiam impunemente de Ferrari), nos bancos e no tecido empresarial português resistente à modernização, não sabíamos era que esta lógica de autoritarismo tinha ocupado também, a esfera, tradicionalmente autónoma e liberal, dos meios de comunicação social.
A verdade é que os indícios ténues já se faziam sentir – bastava ler com atenção certos jornais e ver como as notícias eram tratadas. Mas foi preciso assistir ao despedimento de João Carreira Bom (JCB) do Expresso para termos a confirmação empírica. Esta tendência precisava contudo dum suporte teórico. Afinal, não há regime totalitário que tenha vingado sem uma legitimação conceptual, sem uma clarificação das suas práticas. O Dr. Paulo Portas, na sua coluna do Independente de 31/10, deu-se ao trabalho de clarificar as águas e teorizou sobre o para ele justo despedimento de JCB.
Antes de mais um elogio. O artigo do Dr. Paulo Portas tem uma série de virtudes. É frontal, clarificador e coerente com aquilo que o seu autor costuma defender. Nos dias que correm estas qualidades não são desprezíveis, bem pelo contrário. Mas se do ponto de vista formal há que louvar o artigo do Dr. Paulo Portas, já quanto à substância o seu texto é não só grave, como coloca em causa princípios elementares do jornalismo e consequentemente da democracia.
De acordo com o Dr. Portas, o fim da coluna de JCB, não tendo sido uma decisão agradável de tomar por parte do director do Expresso, foi contudo uma consequência “rigorosamente inevitável” face ao que o cronista escreveu. E foi-o porque, de acordo com as suas próprias palavras, “o dono de um jornal não tem o dever de suportar ofensas impressas no papel em que ele próprio investiu. (...) Não compreender este princípio é supor que a função do capital é pagar, comer e calar, enquanto a responsabilidade do jornalista ou, no concreto, do colunista seria inatacável e, sobretudo, intocável. Em parte alguma do mundo as coisas são assim. Muito menos na iniciativa privada que, por natureza, é privada nos seus critérios” (sic).
Como facilmente se depreende deste excerto, o artigo do Dr. Portas é particularmente grave, na medida em que legitima uma nova prática, resultante da máxima: detenho o capital, posso e mando escrever o que quero. Isto ao mesmo tempo que coloca em causa dois princípios elementares, garantes de um jornalismo imparcial.
Primeiro, um jornal, ou outro meio de comunicação social, não é um negócio privado como outro qualquer. É que, para utilizar uma parábola “famosa”, um jornal, porque faz opinião, vende presidentes da República e vender presidentes é substancialmente diferente de vender sabonetes. Há uma responsabilidade social por parte da comunicação social que reside no facto de esta ser, não só um pilar fundamental dos regimes democráticos, mas também, um garante da autonomia dos cidadãos face ao Estado e face à esfera económica. É por isso que, ao contrário do que o Dr. Portas quer fazer crer, a “função do capital” é mesmo pagar, comer e calar. Isto é, investir, arrecadar os lucros e libertar as redacções de qualquer tipo de constrangimentos.
Segundo, de facto a responsabilidade dos jornalistas deve ser “atacável”, mas deve sê-lo não quando estes criticam o “dono” mas, bem pelo contrário, quando sonegam ou deturpam informação por esta ser prejudicial ao “dono”. Como tem lembrado Ferreira Fernandes na Visão, de acordo com aquilo que o Dr. Portas defende, aos jornalistas do Público não seria permitido publicar notícias críticas em relação à Sonae, aos do DN em relação aos cinema Lusomundo, aos do Expresso em relação à SIC e ao próprio Ferreira Fernandes, tendo em conta que o capital da Visão é maioritariamente suíço, não seria permitido questionar o sigilo bancário helvético. Ora, parece-me um princípio básico que os jornalistas devem ser autónomos e livres de pressões na produção do seu trabalho. Afinal, são eles que assinam as notícias e, com essa assinatura, os leitores esperam que a responsabilidade do que vem escrito seja um exclusivo do autor do texto, livre da influência de quem lhe paga.
Por tudo isto lhe digo “meu caro” Portas que, caso estejamos interessados em defender a imprensa livre – não só dos poderes públicos mas cada vez mais, dos poderes económicos -, é elementar assegurar a autonomia de quem escreve nos jornais. A legitimação do despedimento de JCB que desenvolveu no seu artigo de há duas semanas é um passo decisivo para colocar fim a essa autonomia, dando visibilidade a uma prática que na sombra já se fazia sentir. Antes assim. Ao menos passamos a saber o grau de dependência que tem aquilo que lemos. Designadamente n’ “O Independente”.
artigo enviado para A Capital, algures em Outubro de 1997, e não publicado.
Elementar, “Meu Caro” Portas
Já sabíamos que conquistas básicas, elementares e justas dos trabalhadores têm vindo nos últimos anos a ser postas em causa. Paulatinamente os patrões vêm sujeitando empregados: são as horas extraordinárias que não são pagas, os inacreditáveis entraves às idas à casa de banho e, talvez aquilo que é mais decisivo, o regime de medo que resulta da precariedade do emprego e que diminui decisivamente a capacidade reivindicativa dos trabalhadores. Mas se sabíamos que isto se passava na industria têxtil endividada (mas em que os patrões se passeiam impunemente de Ferrari), nos bancos e no tecido empresarial português resistente à modernização, não sabíamos era que esta lógica de autoritarismo tinha ocupado também, a esfera, tradicionalmente autónoma e liberal, dos meios de comunicação social.
A verdade é que os indícios ténues já se faziam sentir – bastava ler com atenção certos jornais e ver como as notícias eram tratadas. Mas foi preciso assistir ao despedimento de João Carreira Bom (JCB) do Expresso para termos a confirmação empírica. Esta tendência precisava contudo dum suporte teórico. Afinal, não há regime totalitário que tenha vingado sem uma legitimação conceptual, sem uma clarificação das suas práticas. O Dr. Paulo Portas, na sua coluna do Independente de 31/10, deu-se ao trabalho de clarificar as águas e teorizou sobre o para ele justo despedimento de JCB.
Antes de mais um elogio. O artigo do Dr. Paulo Portas tem uma série de virtudes. É frontal, clarificador e coerente com aquilo que o seu autor costuma defender. Nos dias que correm estas qualidades não são desprezíveis, bem pelo contrário. Mas se do ponto de vista formal há que louvar o artigo do Dr. Paulo Portas, já quanto à substância o seu texto é não só grave, como coloca em causa princípios elementares do jornalismo e consequentemente da democracia.
De acordo com o Dr. Portas, o fim da coluna de JCB, não tendo sido uma decisão agradável de tomar por parte do director do Expresso, foi contudo uma consequência “rigorosamente inevitável” face ao que o cronista escreveu. E foi-o porque, de acordo com as suas próprias palavras, “o dono de um jornal não tem o dever de suportar ofensas impressas no papel em que ele próprio investiu. (...) Não compreender este princípio é supor que a função do capital é pagar, comer e calar, enquanto a responsabilidade do jornalista ou, no concreto, do colunista seria inatacável e, sobretudo, intocável. Em parte alguma do mundo as coisas são assim. Muito menos na iniciativa privada que, por natureza, é privada nos seus critérios” (sic).
Como facilmente se depreende deste excerto, o artigo do Dr. Portas é particularmente grave, na medida em que legitima uma nova prática, resultante da máxima: detenho o capital, posso e mando escrever o que quero. Isto ao mesmo tempo que coloca em causa dois princípios elementares, garantes de um jornalismo imparcial.
Primeiro, um jornal, ou outro meio de comunicação social, não é um negócio privado como outro qualquer. É que, para utilizar uma parábola “famosa”, um jornal, porque faz opinião, vende presidentes da República e vender presidentes é substancialmente diferente de vender sabonetes. Há uma responsabilidade social por parte da comunicação social que reside no facto de esta ser, não só um pilar fundamental dos regimes democráticos, mas também, um garante da autonomia dos cidadãos face ao Estado e face à esfera económica. É por isso que, ao contrário do que o Dr. Portas quer fazer crer, a “função do capital” é mesmo pagar, comer e calar. Isto é, investir, arrecadar os lucros e libertar as redacções de qualquer tipo de constrangimentos.
Segundo, de facto a responsabilidade dos jornalistas deve ser “atacável”, mas deve sê-lo não quando estes criticam o “dono” mas, bem pelo contrário, quando sonegam ou deturpam informação por esta ser prejudicial ao “dono”. Como tem lembrado Ferreira Fernandes na Visão, de acordo com aquilo que o Dr. Portas defende, aos jornalistas do Público não seria permitido publicar notícias críticas em relação à Sonae, aos do DN em relação aos cinema Lusomundo, aos do Expresso em relação à SIC e ao próprio Ferreira Fernandes, tendo em conta que o capital da Visão é maioritariamente suíço, não seria permitido questionar o sigilo bancário helvético. Ora, parece-me um princípio básico que os jornalistas devem ser autónomos e livres de pressões na produção do seu trabalho. Afinal, são eles que assinam as notícias e, com essa assinatura, os leitores esperam que a responsabilidade do que vem escrito seja um exclusivo do autor do texto, livre da influência de quem lhe paga.
Por tudo isto lhe digo “meu caro” Portas que, caso estejamos interessados em defender a imprensa livre – não só dos poderes públicos mas cada vez mais, dos poderes económicos -, é elementar assegurar a autonomia de quem escreve nos jornais. A legitimação do despedimento de JCB que desenvolveu no seu artigo de há duas semanas é um passo decisivo para colocar fim a essa autonomia, dando visibilidade a uma prática que na sombra já se fazia sentir. Antes assim. Ao menos passamos a saber o grau de dependência que tem aquilo que lemos. Designadamente n’ “O Independente”.
artigo enviado para A Capital, algures em Outubro de 1997, e não publicado.
Pressão Alta
O Jornal de Negócios publica hoje uma short list para Ministro das Finanças de um futuro Governo PSD - Teodora Cardoso deve ser a excepção para confirmar a regra. Estranhamente, a notícia sugere que a lista é de potenciais governadores do Banco de Portugal. Sinal dos tempos.
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Também foi (é) a minha t-shirt

When I was in high school I had a Meat Is Murder t-shirt. (...) Nobody stays in high school forever, but Meat Is Murder has a way of gaining layers and subtleties as you move onto college and beyond. Unlike some "teen" albums, it still sounds good after you've grownup. With that in mind, the record turns 25 this Valentine's Day. It's been around a long time, soothing any number of misfits, so we asked some of our favorite musicians about their own experiences with the record.
ler aqui.
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