"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Contra factos, a narrativa

“O primeiro-ministro é mentiroso”. Esta asserção é o centro da narrativa sobre o envolvimento de Sócrates na tentativa de compra da Media Capital pela PT. Em Junho, da primeira vez que foi confrontado na AR com a possibilidade de negócio, alegou desconhecimento. A narrativa, devidamente baseada em escutas descontextualizadas, sugere-nos que Sócrates mentiu aos deputados. Vozes da "política de verdade" têm, aliás, alegado o mesmo. Somos levados a acreditar na imagem de um primeiro-ministro mentiroso. Tudo vai nesse sentido. Tanto mais que Sócrates tem revelado uma preocupação inusitada com o que a comunicação social diz de si, o que se traduzirá automaticamente num impulso controleiro de facto. Conclusão: Sócrates não só saberia do negócio como seria autor moral da sua concretização. E se não tiver sido assim?
A pergunta é tão insólita que ninguém está disposto a colocá-la. A tendência é de tal modo claustrofóbica que se surgirem factos que contrariem a narrativa, ninguém quererá saber da força dos factos. Contra factos, o que conta é a narrativa, ardilosamente construída.

continuar a ler aqui.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Wouldn't that make for a special show?

Afinidades electivas


Miccoli confessa que comprou brinco de Maradona por 25 mil euros.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Sair? Só com eleições

Em entrevista, Passos Coelho disse que "novo primeiro- -ministro só com outras eleições". Sócrates, entretanto, sublinhou que "nada o fará abdicar". Esta é talvez a mais impor- tante das cooperações estratégicas dos últimos tempos. A cooperação em torno do bom senso e da razoabilidade. Depois de várias semanas em que assistimos, do lado dos opositores, a apelos para que Sócrates se afastasse ou fosse substituído pelos seus pares, e, por parte do seus pares, a alguns exercícios especulativos sobre cenários B, em que outro socialista assumiria o lugar, parece que alguém se recordou do óbvio. Em Portugal, de facto, ninguém pode ser primeiro-ministro sem antes ser legitimado pelo voto popular. Não se trata apenas do carácter cada vez mais personalizado das eleições legislativas, são também os precedentes. Depois das experiências de Balsemão e Santana Lopes, ninguém no seu perfeito juízo poderá aceitar ser primeiro- -ministro não eleito e qualquer governo nestas condições será um nado-morto. Se um governo minoritário legítimo e sufragado há três meses é frágil, imaginemos um governo minoritário que não tivesse sido eleito. Convinha também que, independentemente do juízo substantivo que possamos fazer, não se abrisse outro precedente: a possibilidade de um primeiro-ministro ser afastado através de uma apropriação política de instrumentos do sistema de justiça, considerados irrelevantes por quem de direito. Sócrates deixará de ser primeiro-ministro um dia, mas através de eleições. Se não for assim, nunca mais a política recuperará a sua autonomia face à justiça.
publicado hoje no i.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O velho novo


Gil Scott-Heron regressou como novo, ou como velho. Pouco importa. O disco é, como se usa dizer, incontornável.

As explicações por dar

Sócrates demorou quatro longos dias para dizer que quem tinha invocado o seu nome no negócio da PT com a Media Capital o tinha feito abusivamente. Enquanto durou o silêncio, adensaram-se as suspeitas sobre o envolvimento do primeiro-ministro. Entretanto, dez dias passados, nada nos foi dito sobre se mantinha a confiança nos dois administradores que representam o Estado na empresa. Se usaram o seu nome indevidamente e se envolveram a empresa num negócio que é legítimo (o regresso aos conteúdos), mas está manchado por manigâncias, não podem manter-se no lugar. O comportamento deles põe em causa a reputação de Sócrates. Naturalmente que, pelo caminho, aconteceu o óbvio: pressionado pela pressão pública e política, um dos administradores - Rui Pedro Soares - demitiu-se. Soares Carneiro (que foi acusado de "quebra de confiança" por Granadeiro, pela passagem dos fundos de pensões da PT para a Ongoing e por, alegadamente, ser o responsável pela fuga de informação das actas de uma reunião da administração), mais dia menos dia, seguirá o mesmo caminho. Ou seja, as circunstâncias encarregar-se-ão de fazer o que Sócrates já devia ter feito. A questão é política e deve ser tratada como tal. Não faz por isso sentido o argumento formalista, que manda aguardar pela reunião da assembleia- -geral da empresa. Uma coisa é clara: quanto mais tempo demorar o silêncio do primeiro-ministro sobre o tema, pior. O ónus da explicação está do seu lado e Sócrates tem demorado demasiado tempo a responder.

publicado hoje no i (e escrito antes da declaração ao país de ontem à noite - que, na verdade, não deu as respostas necessárias.)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O vizinho polaco

O Duarte "Valcheck" pergunta-me o que pretendo demonstrar com este post. Temo desiludi-lo, mas não pretendo demonstrar absolutamente nada. Como aliás escrevo quando o republico, encontrei o texto por acaso e já nem me lembrava exactamente nem do episódio, nem do que havia escrito. Lido o texto, pareceu-me particularmente actual e não deixa de ser curioso que, 13 anos passados, estejamos a discutir a mesma coisa - ainda que, admito, a um novo nível. Não sou muito dado a "indignações furiosas", pelo que na altura não me indignei muito com o "meu" episódio, o mesmo se passando agora. Fiquei satisfeito por descobrir que penso hoje exactamente a mesma coisa do que pensava então (o que já não é pouco). Quanto ao que se passa hoje, peço desculpa, mas nas últimas semanas, em artigos, aqui na TSF e aqui na TVI24, tenho demonstrado tudo menos indiferença. Não sou é do género de andar de granada na mão para cumprir missões. É uma questão de feitio.

Melhor que Dostoiévski


não é verdade, Tiago?

Ar puro


No fundo é isto: “People might think that surfing’s a limited thing, but surfing’s not limited . . . You’re all the time learning how to do things, discovering better ways of surfing and more ways of enjoying it.”

Farrelly, M. and McGregor, C. (1968) How to Surf. London: Sphere Books. roubado daqui.

Somos todos o João Galamba

O João Galamba é um tipo decente, mas os tempos estão sempre mais difíceis para os tipos decentes.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Escândalo: o governo faz política

Anda para aí uma grande indignação, baseada nesta investigação jornalística que consumiu o tempo de três jornalistas, que tiveram de ler mails de uma mailing list (de que aliás eu fazia, faço, parte) que lhes foi devidamente entregue por um sujeito. No fundo, a indignação é um retrato fiel do país. Anda tudo indignado porque, veja-se lá, assessores do governo faziam política. Ou seja, passavam argumentários com informação pública sobre a acção governamental para uma mailing list de que faziam parte bloggers e candidatos a deputados. Tudo durante a campanha eleitoral. Mas onde é que já se viu tal coisa? O que se espera de assessores governamentais é que façam continhas, assinem informações e retirem as mangas de alpaca à hora de regressarem a casa. Política? a minha política é o trabalho e até acho que a política devia ser criminalizada. Pois o meu trabalho é a política e o que me parece que faz falta é exactamente que o Governo faça mais política, que informe mais e que produza mais argumentos, desde logo convincentes. Não é preciso estar muito atento para se perceber que é isso que falta e não o contrário. Pelo meio, fico também com uma certeza: a blogosfera pode revelar-se particularmente útil - representa um meio eficaz para os perturbados mentais fazerem terapia ocupacional e expressarem as suas frustrações. Mesmo se, pelo caminho, violarem correspondência.

adenda: ainda sobre o mesmo tema, ler o porfírio e o eduardo e ainda o rogério e ainda o andré couto e o tomás vasques e ainda o luís tito e ainda a sofia loureiro dos santos e ainda o miguel abrantes e ainda o tiago barbosa ribeiro e ainda o vasco barreto e ainda o Miguel Vale de Almeida e ainda o josé reis santos.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Há muita falta de memória no jornalismo

Em 1997, fui durante uns tempos colunista do jornal A Capital (jornal no qual, aliás, voltei a escrever, em 2004/2005), então propriedade do grupo Edimpresa - o tal em que, segundo, Henrique Monteiro, os colunistas são absolutamente livres. Na sequência da censura a Carreira Bom, escrevi, ingenuamente, este artigo. Na véspera de publicação, enviei-o para o jornal, no dia seguinte, ao contrário do habitual, o artigo não fora publicado. Nem sequer se deram ao trabalho de justificar a censura. A história é, essencialmente, pessoal e nem eu próprio me lembrava bem do que havia escrito; hoje, encontrei o texto não publicado num back-up. Tem a sua piada e uma certa actualidade, designadamente as citações de Paulo Portas.

Elementar, “Meu Caro” Portas
Já sabíamos que conquistas básicas, elementares e justas dos trabalhadores têm vindo nos últimos anos a ser postas em causa. Paulatinamente os patrões vêm sujeitando empregados: são as horas extraordinárias que não são pagas, os inacreditáveis entraves às idas à casa de banho e, talvez aquilo que é mais decisivo, o regime de medo que resulta da precariedade do emprego e que diminui decisivamente a capacidade reivindicativa dos trabalhadores. Mas se sabíamos que isto se passava na industria têxtil endividada (mas em que os patrões se passeiam impunemente de Ferrari), nos bancos e no tecido empresarial português resistente à modernização, não sabíamos era que esta lógica de autoritarismo tinha ocupado também, a esfera, tradicionalmente autónoma e liberal, dos meios de comunicação social.
A verdade é que os indícios ténues já se faziam sentir – bastava ler com atenção certos jornais e ver como as notícias eram tratadas. Mas foi preciso assistir ao despedimento de João Carreira Bom (JCB) do Expresso para termos a confirmação empírica. Esta tendência precisava contudo dum suporte teórico. Afinal, não há regime totalitário que tenha vingado sem uma legitimação conceptual, sem uma clarificação das suas práticas. O Dr. Paulo Portas, na sua coluna do Independente de 31/10, deu-se ao trabalho de clarificar as águas e teorizou sobre o para ele justo despedimento de JCB.
Antes de mais um elogio. O artigo do Dr. Paulo Portas tem uma série de virtudes. É frontal, clarificador e coerente com aquilo que o seu autor costuma defender. Nos dias que correm estas qualidades não são desprezíveis, bem pelo contrário. Mas se do ponto de vista formal há que louvar o artigo do Dr. Paulo Portas, já quanto à substância o seu texto é não só grave, como coloca em causa princípios elementares do jornalismo e consequentemente da democracia.
De acordo com o Dr. Portas, o fim da coluna de JCB, não tendo sido uma decisão agradável de tomar por parte do director do Expresso, foi contudo uma consequência “rigorosamente inevitável” face ao que o cronista escreveu. E foi-o porque, de acordo com as suas próprias palavras, “o dono de um jornal não tem o dever de suportar ofensas impressas no papel em que ele próprio investiu. (...) Não compreender este princípio é supor que a função do capital é pagar, comer e calar, enquanto a responsabilidade do jornalista ou, no concreto, do colunista seria inatacável e, sobretudo, intocável. Em parte alguma do mundo as coisas são assim. Muito menos na iniciativa privada que, por natureza, é privada nos seus critérios” (sic).
Como facilmente se depreende deste excerto, o artigo do Dr. Portas é particularmente grave, na medida em que legitima uma nova prática, resultante da máxima: detenho o capital, posso e mando escrever o que quero. Isto ao mesmo tempo que coloca em causa dois princípios elementares, garantes de um jornalismo imparcial.
Primeiro, um jornal, ou outro meio de comunicação social, não é um negócio privado como outro qualquer. É que, para utilizar uma parábola “famosa”, um jornal, porque faz opinião, vende presidentes da República e vender presidentes é substancialmente diferente de vender sabonetes. Há uma responsabilidade social por parte da comunicação social que reside no facto de esta ser, não só um pilar fundamental dos regimes democráticos, mas também, um garante da autonomia dos cidadãos face ao Estado e face à esfera económica. É por isso que, ao contrário do que o Dr. Portas quer fazer crer, a “função do capital” é mesmo pagar, comer e calar. Isto é, investir, arrecadar os lucros e libertar as redacções de qualquer tipo de constrangimentos.
Segundo, de facto a responsabilidade dos jornalistas deve ser “atacável”, mas deve sê-lo não quando estes criticam o “dono” mas, bem pelo contrário, quando sonegam ou deturpam informação por esta ser prejudicial ao “dono”. Como tem lembrado Ferreira Fernandes na Visão, de acordo com aquilo que o Dr. Portas defende, aos jornalistas do Público não seria permitido publicar notícias críticas em relação à Sonae, aos do DN em relação aos cinema Lusomundo, aos do Expresso em relação à SIC e ao próprio Ferreira Fernandes, tendo em conta que o capital da Visão é maioritariamente suíço, não seria permitido questionar o sigilo bancário helvético. Ora, parece-me um princípio básico que os jornalistas devem ser autónomos e livres de pressões na produção do seu trabalho. Afinal, são eles que assinam as notícias e, com essa assinatura, os leitores esperam que a responsabilidade do que vem escrito seja um exclusivo do autor do texto, livre da influência de quem lhe paga.
Por tudo isto lhe digo “meu caro” Portas que, caso estejamos interessados em defender a imprensa livre – não só dos poderes públicos mas cada vez mais, dos poderes económicos -, é elementar assegurar a autonomia de quem escreve nos jornais. A legitimação do despedimento de JCB que desenvolveu no seu artigo de há duas semanas é um passo decisivo para colocar fim a essa autonomia, dando visibilidade a uma prática que na sombra já se fazia sentir. Antes assim. Ao menos passamos a saber o grau de dependência que tem aquilo que lemos. Designadamente n’ “O Independente”.

artigo enviado para A Capital, algures em Outubro de 1997, e não publicado.

Pressão Alta

O Jornal de Negócios publica hoje uma short list para Ministro das Finanças de um futuro Governo PSD - Teodora Cardoso deve ser a excepção para confirmar a regra. Estranhamente, a notícia sugere que a lista é de potenciais governadores do Banco de Portugal. Sinal dos tempos.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

"Gasping, But Somehow Still Alive"



Celebrar os 25 anos.

Também foi (é) a minha t-shirt


When I was in high school I had a Meat Is Murder t-shirt. (...) Nobody stays in high school forever, but Meat Is Murder has a way of gaining layers and subtleties as you move onto college and beyond. Unlike some "teen" albums, it still sounds good after you've grownup. With that in mind, the record turns 25 this Valentine's Day. It's been around a long time, soothing any number of misfits, so we asked some of our favorite musicians about their own experiences with the record.
ler aqui.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Colectivo ruptura

"É preciso um programa para mudar o país, em ruptura." "A verdadeira razão para nos dar o seu voto: ruptura total com o sistema." As frases podiam ser de Paulo Rangel, mas não são. A primeira faz parte das conclusões do último congresso da Ruptura/FER, a ala extremista do BE, que continua a militar por uma política revolucionária; já a segunda é de Manuel Monteiro, então líder da Nova Democracia, uma cisão pela direita do CDS-PP. Na política as palavras que se escolhem contam. Paulo Rangel, ao escolher a ruptura como Leit-motiv, avançou para a liderança do PSD envolvendo-se numa retórica própria das margens políticas. É coerente com a natureza essencialmente tribunícia da sua afirmação política e representa uma continuação da estratégia Ferreira Leite, agora por outros meios: o rasgar de ontem torna-se a ruptura de hoje. O problema é que a ruptura que o PSD precisa de fazer é antes de mais consigo próprio. Nos últimos anos, mesmo em contextos muito favoráveis, os sociais-democratas ultrapassaram com dificuldade a barreira dos 30%. Durante um tempo, Santana Lopes foi a desculpa, mas a verdade é que as dificuldades de afirmação política têm razões mais fundas: a combinação irresistível entre conservadorismo social e uma política económica que combina ruptura com ausência de dimensão propositiva. A existência de várias candidaturas à liderança pode ajudar a que o PSD faça o que na verdade tem evitado fazer: discutir-se a si próprio. Mas a ruptura que Rangel agora propõe é apenas um exercício retórico para evitar discutir os falhanços recentes do partido.
publicado hoje no i.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

While my guitar gently weeps

Em busca de Oliver North

Durante o escândalo Irão-Contra, ficou célebre a imagem do coronel Oliver North a assumir solenemente a total responsabilidade pela entrega de armas ao Irão. Ao fazê-lo desresponsabilizou o presidente Reagan, que, no mínimo, simpatizava com a causa. O máximo que se tornou possível dizer foi que a vontade de Reagan tinha sido interpretada abusivamente por North. Ainda hoje não se sabe com exactidão o que se passou, mas North, falhada uma carreira política, tornou- -se um popular comentador da Fox News (mais um farol da liberdade de expressão). Depois de ter classificado as revelações do jornal "Sol" como jornalismo de buraco de fechadura (o que manifestamente é), José Sócrates demorou quatro longos dias a afirmar que a "intenção estratégica" da PT de comprar a Media Capital foi "totalmente independente da vontade do governo". Logo, o seu nome foi invocado abusivamente. O que, como é sabido na actividade política, tende a acontecer com frequência. Aliás, não demorou muito que Henrique Granadeiro, presidente da PT, viesse corroborar as palavras de Sócrates. Mas é esse hoje o problema do primeiro-ministro: a credibilidade das suas palavras depende de facto do que afirmem terceiros. No fundo, depende de que alguns protagonistas ajam como Oliver North.
publicado hoje no i.

First we take Lisbon, then we take Manhattan

Se bem percebi da leitura da edição do SOL hoje, para a semana ser-nos-á revelado como Nuno Vasconcellos, Armando Vara, Rui Pedro Soares, devidamente coadjuvados por Joaquim Oliveira, se preparavam não apenas para comprar a Media Capital, mas todo o grupo PRISA. Por alturas da Páscoa, serão publicadas informações preciosas que mostram como as negociações para a compra do NYT já estavam também em estado avançado. Pelo caminho, José Eduardo Moniz ter-se-á deslocado a Londres para tratar do Guardian e do Observer, em devido conluio com José Sócrates.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Higienizado de novo

Governo, justiça, democracia, tudo a mesma merda

Na verdade não me apetecia muito conspurcar o meu blog, que estava assim como que higienizado, com o Kurt Wagner aqui em baixo, mas como sou outro dos que padece dum problema de autonomia (de falta dela, claro), não resisto a citar, desde o Público, a deputada do BE, Helena Pinto. O "Bloco (que) foi o primeiro partido a reagir à notícia da providência cautelar. Que, nota Helena Pinto, “não abona na credibilidade nem do Governo nem da própria democracia”. “Só em situações absolutamente excepcionais”, acrescentou, “é que se admite a intervenção da justiça num órgão de comunicação social”. Vejam só como eles estão sempre na vanguarda: no fundo Governo, democracia, justiça é tudo a mesma merda ou, pelo menos, o mesmo órgão. Na verdade, isto tornou-se mesmo irrespirável, não fora a candeia de liberdade que nos iluminou hoje, desde as escadarias da AR. Na fundo estava escrito desde o início que a claustrofobia democrática culminaria numa manif pela hora de almoço. A seguir, juntar-se-ão todos no colectivo ruptura (reconstruído).

And the best is yet to come



"To conclude this interview
Many facts and fictions you construe
The dog gives you the paw
You pat his head and you wipe his jaw
He's the only one who knew
(about) my blue wave"

(na verdade o resto do concerto pode ser visto no youtube, mas o melhor mesmo é tratarem da coisa aqui).

Tenham medo

Leio no Diário Económico que uma das "propostas" de Rangel para a área da justiça é dar mais poder aos juízes. O populismo, já se sabe, é democrático na escolha dos seus porta-vozes, mas há boas razões para termos medo. Para termos muito medo.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Da (ir)relevância relativa do nosso debate orçamental

(...) The conventional wisdom also declares that once fiscal adjustments have been made and flexibility introduced, the affected economies can return to growth, as Germany did after painful adjustments in the early noughties. Furthermore, adds the conventional wisdom, the existence of huge current account imbalances within the zone has no bearing on either the problem or the solution. There is no more reason to worry about eurozone internal “imbalances” than one would about imbalances between US states.
This conventional wisdom is, alas, nonsense. Until policymakers recognise this, they are dooming the eurozone to huge tensions. There is no way to put this delicately. So long as the European Central Bank tolerates weak demand in the eurozone as a whole and core countries, above all Germany, continue to run vast trade surpluses, it will be nigh on impossible for weaker members to escape from their insolvency traps. Theirs is not a problem that can be resolved by fiscal austerity alone. They need a huge improvement in external demand for their output. (...)
o resto pode (deve) ser lido aqui.

Roda Livre

A Roda Livre, o programa em que participo semanalmente na TVI24 com o Rui Ramos e o Manuel Villaverde Cabral, moderados pelo Henrique Garcia, mudou de horário. A partir de hoje, passará a ser emitido às quartas-feiras a seguir ao noticiário das 23 horas.

Obrigado João Pereira

Na verdade não queria falar muito do Sporting - a equipa que, para Carvalhal, tem um problema estrutural, uma defesa baixa (o que ajuda a explicar a compra de João Pereira) -, mas há uma frase, ainda ontem repetida, que resume o estado do clube: "o Everton tem progredido muito nos últimos tempos". Preparem-se portanto.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Haverá alguém disposto a fazer de Oliver North?



De acordo com o PM, a "intenção estratégica" da PT em comprar a Media Capital foi "totalmente independente da vontade do Governo". Há portanto dois candidatos a Oliver North que convinha que dissessem alguma coisa.

Boas notícias

O Tiago voltou.

Linha de Fronteira

(...) A tentativa de compra da Media Capital pela PT deu, a este respeito, um péssimo sinal. Como aliás parecia ser consensual aquando da alienação da Lusomundo, a separação entre plataformas e conteúdos ia no bom sentido. O súbito retrocesso estratégico anunciado antes do Verão não encontrou nenhuma explicação plausível, pelo que a ideia que ficou a pairar é que tudo se resumia a uma vontade indomável de controlar um grupo de media através de uma empresa com uma ‘golden share' pública. Aliás, se o objectivo era tão estratégico, não se chega a perceber por que razão, uma vez abortado o negócio com a PRISA, não procurou a PT encontrar outra alternativa no mercado.

No fundo, tudo radica numa questão: garantido o serviço público e com uma entidade reguladora eficiente, há algum motivo para que o Estado se envolva directa ou indirectamente no negócio dos media? A resposta é não, o que serve também para revelar que, enquanto existir uma ‘golden share' na PT, estaremos sempre condenados à interferência política nos media. Não só não é esse o caminho para garantir o pluralismo como cria o caldo adequado para que interesses financeiros, pulsões controleiras de governantes e protagonistas do sub-mundo partidário se coliguem com efeitos devastadores para a qualidade da democracia.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Swim to reach the end

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Bem-vindos ao futuro

As liberdades individuais nunca são retiradas de uma vez só. São confiscadas lentamente, uma a uma, em pequenos passos, sem que na verdade valorizemos muito cada um deles. O problema é que, quando damos por nós, normalmente já é tarde para defender a autonomia individual e o direito à privacidade. Há contudo semanas em que estes pequenos passos se sucedem a um ritmo que parece imparável. Esta foi uma dessas semanas. Num par de dias, recuámos ao tempo em que a delação de conversas escutadas em restaurantes era aceite, mas também avançámos para um futuro distópico em que os rendimentos de cada um ficariam expostos à consulta invariavelmente mesquinha de todos, à distancia de um click. Pelo caminho, banalizou-se a violação do segredo de justiça, que nos é agora apresentada transfigurada de jornalismo de investigação, e, num exercício de violência simbólica, vimos ainda o Ministro da Defesa, acompanhado de militares, a comentar um artigo hediondo de um bom pivot de telejornal, como que para provar de uma vez por todas que o governo revela uma preocupação desmesurada pelo que dele se diz nos media. Começa a haver, em tudo isto, poucos inocentes e quem assiste, com alguma réstia de respeito pelas liberdades individuais, não pode deixar de temer por um futuro que é demasiadamente parecido com o passado. Bem-vindos sejam, por isso, ao futuro que estão a construir.
publicado hoje no i.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ruínas, por mais belas, amarguram-me


«Eu saía da água junto aos joelhos dela, a sentir-me translúcida, levíssima como o cefalópode com muitos braços, uma galáxia de braços. Não era para ela, era com ela. Poucas coisas são tão alegres como o egoísmo de duas crianças síntonas no seu brinquedo, que era o mar.
– A partir de certa idade, Maria, o mar rejeita-nos.
– Ora, Sophia, é só a água na cara que a enerva, isso há-de passar.
Não era caridade, era compaixão. Compaixão com ela do que um dia havia de me esperar. O mar hostil.
Íamos já a caminho de casa, do delicioso spaghetti frio que ela temperava com ervas e azeite virgem, alcaparras ou anchovas, do peixe frio marinado em calda, como se come no mar, comido no alpendre, debaixo da renda de heras. E da noite, que já avermelhava no horizonte marinho do almoço tardio.
Da noite, em que vestidas de lavado, cabelo desamarrado, o dela uma sedinha solta, o meu afrodionisíaco, como ela o dizia, roupas longas, soltas e largas, falávamos de tudo e de nada, até às mais altas horas, que lhe convinham, a ela e a mim. Bebíamos vinho branco gelado, não havia retsina, pena para ela, bom para mim, que não gosto de quase nada do que vem da Grécia, excepto a comida e as azeitonas talhadas com alho e tomilho, o que a chocava, mas não tanto quanto seria de esperar.
– Ruínas, por mais belas, amarguram-me, Sophia.
Falávamos na noite, no alpendre quase morno, sem tom nem som. Nenhuma das duas era desesperadamente musical. Não havia música nem nos fazia preciso. Falávamos mais de todos do que de tudo; do tudo eram a arte e a poesia – nem política, nem mundos a mudar. Não era a prudência de pertencermos a facções políticas diferentes. Era a força de indiferenciação da noite, quando as mulheres falam. Falávamos de amores, de filhos, de amigos e desamigados. Desse mundo ginecêutico e caótico, onde tínhamos ambas de manter aparências. Brilhávamos na meia obscuridade como as estrelas que se viam no céu limpo, mortais e imortais, passe a solenidade.
Porque não éramos solenes.»

[in Sophia: Vozes, de Maria Velho da Costa, prefácio ao livro Evocação de Sophia, de Alberto Vaz da Silva, Assírio & Alvim, 2009]. copiado daqui.

No fundo é isto


Ontem, enquanto o país desabava, a rtp emitia uma grande entrevista a Faissal.

O carnaval financeiro

Depois do braço-de-ferro entre governo e oposições para definir as condições de governabilidade, o país viu-se enredado num novo braço-de-ferro: entre os partidos "nacionais" e as suas declinações regionais. Até ver, a versão regional dos partidos leva vantagem. Enquanto isso, a bolsa de valores cai a uma velocidade estonteante e o risco da dívida portuguesa vai batendo alegremente recordes. Quando era necessário robustez política para cortar a despesa e conter o endividamento, os partidos, empurrados a partir da Madeira e inspirados pelas palavras de João Jardim, iniciam um desfile de Carnaval antes de tempo. Salta à vista de toda a gente que a ausência de uma maioria de um só partido ou, alternativamente, de uma coligação formalizada entre partidos tornará impossível qualquer esforço estrutural de consolidação; mas como a irresponsabilidade não conhece limites, torna-se também cada vez mais claro que os partidos estão capturados pelo interesse regional (como já se tinha percebido, para o caso do PS, com o Estatuto dos Açores). Não se vislumbra nenhum motivo para que, num contexto em que é exigida disciplina orçamental a todos, se suspendam os princípios da Lei das Finanças Regionais em vigor. A menos que tudo se deva a uma singela coincidência: com directas à porta, ninguém no PSD quer perder os cerca de 2500 votos de militantes da Madeira. Conclusão, de captura em captura não restará ninguém para defender o interesse geral. Sair-nos-á bem caro, literalmente, quando forem emitidas obrigações do Estado português.
publicado hoje no i.

I'm not standing here

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Declínio e queda

TAKE YA BREATH AWAY from asurfersparadise on Vimeo.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Braveheart


"Uma das suas acrobacias consistia em beber um litro de cerveja, mantendo a cabeça para baixo e com os pés apoiados numa parede, um número estrambólico difícil de imaginar e impossível de eu reeditar."
Gennaro Gattuso sobre Stuart McCall, hoje em entrevista ao i.

Primeiras braçadas

O diabo está nos detalhes

Quem leve a sério os discursos políticos tenderá a acreditar que há um amplo consenso em torno da contenção da despesa. Na verdade, podemos mesmo chegar a crer que está em curso um campeonato para saber quem é mais favorável à disciplina orçamental. O problema é que os discursos não resistem ao teste da realidade. Como provaram as negociações pré-orçamentais, há entre nós uma notável incapacidade de consensualizar acordos de contenção da despesa quando se passa da discussão abstracta para o concreto. Depois de os partidos todos terem estimulado a consagração de um regime de excepção para as carreiras dos professores, ao mesmo tempo que é pedido um esforço solidário aos funcionários públicos, assistimos a uma espécie de pré-discussão na especialidade que não deu nenhum contributo para diminuir estruturalmente a despesa. Perante desequilíbrios orçamentais que não se vê como possam ser ultrapassados até 2013, fica claro que não bastam "abstenções construtivas"; é necessária uma coligação formal em torno de um programa plurianual para equilibrar as contas públicas. Como se encarregará de demonstrar a discussão orçamental na especialidade, o Diabo - o aumento da despesa - estará nos detalhes. Com acordos de navegação à vista, poderemos dar o benefício da credibilidade a Teixeira dos Santos (que se apresentará com renovada capacidade de fazer estimativas), aguardar a retoma económica ou até esperar a complacência dos mercados, mas o mais certo é caminharmos inexoravelmente para o Purgatório.
publicado no i.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Mulheres de Brooklyn



"viajo de imediato, mesmo descalço e sem camisola", palavras de Job (Petro de Luanda)

O regresso dos homens sem rosto

Fixem este nome: Anthony Thomas. Ele é o novo homem sem rosto. O mais provável é que, a esta hora, se encontre fechado num gabinete em Londres às voltas com a leitura do Orçamento do Estado português. A empresa para a qual trabalha, a Moody's, vive uma profunda crise de credibilidade, afectada pelos erros de avaliação que, com outras agências de rating, cometeu e que foram relevantes no desencadear da crise financeira. Naturalmente que os erros cometidos têm custos: Anthony Thomas e os seus colegas agem como animais acossados, que atacam ao mais pequeno sinal de fragilidade. Em teoria, são fiéis intérpretes do modo como o mercado percepciona o risco; na prática não é tanto assim. Ainda esta semana, os mercados procuraram obrigações do Estado grego a um ritmo três vezes superior ao esperado. Ou seja, os analistas foram contraditados pelo próprio mercado. Logo, não podemos deixar de pensar que a "confiança dos mercados" é também um eufemismo para potenciar movimentos especulativos. Perante isto, pode um Estado como Portugal agir de outro modo e não cuidar do modo como os mercados nos olham? Não, até porque a dimensão dos nossos desequilíbrios orçamentais é assustadora. O drama é que, enquanto a política orçamental se torna numa gestão de fatalidades, um ano após a crise, o mundo esqueceu-se de discutir as suas causas e de as enfrentar. Aceitamos hoje, com assinalável complacência, que os homens sem rosto ajam como faziam há um ano, quando devíamos estar a procurar uma alternativa às agências de rating.
publicado hoje no i.

Continua a nadar

"I was trying desperately to write a couple of lines, and in a few minutes [Beck] had a whole song. I suggested some of the song titles, wrote a line or two here and there. But really, Beck did everything."
Charlotte G. (aqui no Letterman sem o Beck)



e aqui, já acompanhada.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Filha de peixe sabe nadar



Muito provavelmente o melhor disco do Beck desde Sea Change e ela canta mesmo.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O mundo está a olhar para nós

O exercício orçamental de 2010 não se limita à tradicional relação entre despesa e receita e ao modo como aquela orientará as políticas públicas. Na ressaca da crise internacional, este Orçamento é também uma lei para consumo externo. Com as agências de rating a viverem uma violenta crise de credibilidade, a malha com que olham o comportamento das contas públicas tornou-se bem mais apertada. Com a reacção dos mercados ao caso grego e com os efeitos de contaminação de toda a zona euro, Portugal acabou por ver a sua exposição ao risco significativamente aumentada.
Este novo contexto deixou-nos perante um dilema, divididos entre o Orçamento de que a economia e o mercado de trabalho precisavam e o sinal que é imperioso dar para abrandar a pressão das agências de rating. Com o espectro de um aumento dos custos de financiamento da economia portuguesa a pairar, ficámos sem margem para escolher e de facto perdemos parte da nossa soberania política.
A contenção da despesa corrente primária, os cortes no investimento e as negociações políticas à direita servirão para que os mercados olhem com tímida satisfação para o OE 2010 – que ainda assim tenderão a considerar insuficiente. Mas pelo caminho parece ter ficado esquecido o primado do investimento público, que, ouvimos repetir, deveria nortear as boas respostas domésticas à crise internacional.
publicado hoje no i.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Benfica 1 - Radiohead 0


aqui.

A justiça no YouTube

"(...) ao mesmo tempo que é tão fácil para o nosso sistema escutar alguém (sem que seja garantido que o conteúdo dessas escutas é reservado e não cai no domínio público), continua a ser tão difícil "escutar" se, por exemplo, um juiz, um magistrado do Ministério Público, um funcionário judicial ou um advogado falou com um jornalista sobre elementos de um processo."

do meu artigo de hoe no Diário Económico.

sábado, 23 de janeiro de 2010

A troca orçamental

A incapacidade de a maioria aritmética de esquerda se traduzir numa coligação política é o mais estrutural dos bloqueios do nosso sistema partidário. Com uma maioria relativa do PS no Parlamento, o tema regressa à tona, com particular intensidade quando se discute o Orçamento do Estado. Um parlamento de esquerda que se revela incapaz de um entendimento em torno da lei fundamental para a governação. O paradoxo tem raízes sólidas.

Ao mesmo tempo que o PS não consegue hegemonizar à esquerda, as condições de diálogo têm sido impossibilitadas pelo efeito combinado - ainda que assimétrico - de um PS partido-charneira e de um BE e um PCP em acantonamento auto-infligido (sustentado por uma combinação que não encontra paralelo na Europa parlamentar entre irrealismo e conservadorismo).

Desta feita, há certamente bons argumentos para não haver um entendimento orçamental à esquerda, mas convém que sejam explicitados. Caso contrário, a ideia que fica é de que o PS desistiu de desbloquear a sua relação com a esquerda. Se assim for, o próprio governo chegará às próximas presidenciais numa situação muito delicada: emparedado entre Cavaco Silva, manifestamente hostil a Sócrates, e Manuel Alegre, cuja dinâmica política vai no sentido contrário à da maioria socialista. Sem candidato presidencial de facto e condenado pela realidade a uma troca orçamental com o PSD/CDS, o PS pode continuar a assumir-se como um referencial de estabilidade, mas vai lentamente delapidando a sua base política.

publicado no i.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O tecto de Cavaco

A História diz-nos que um Presidente ou primeiro-ministro eleito que se recandidate ganha as eleições. Mas a história também nos conta que Cavaco Silva tem um tecto eleitoral que não só nunca superou como se revela surpreendentemente estável - em 1987, 50,22%; em 1991, 50,60%; em 2006, 50,59%.

Ao longo destes quatro anos, Cavaco deu algum passo no sentido de alargar a sua base eleitoral? A resposta é não. Nesse sentido, o primeiro mandato de Cavaco foi atípico. Com o recurso a comunicações ao país que só introduziram ruído no debate; com uma inclinação para tutelar o seu espaço político de origem; e, acima de tudo, com uma reconversão de primeiro-ministro modernizador em Presidente conservador, numa altura em que o conservadorismo social está em retracção no país, Cavaco cristalizou a sua base de apoio. Pelo caminho, ao envolver-se por interposta pessoa nas disputas eleitorais, delapidou aquele que era o seu principal capital político: a ideia de que pairava acima da miséria da política partidária e que era um referencial de estabilidade e previsibilidade. A consequência é que, pela primeira vez, se discute a reeleição de um Presidente. Fica, contudo, uma dúvida: será Cavaco no último ano de mandato capaz de voltar a corporizar o apelo modernizador que fez parte da sua identidade e com isso ultrapassar o seu tecto e (re)conquistar o eleitorado central para a sua reeleição?

publicado no i.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A fotografia nº8

Onde está a fotografia nº8 estamos todos nós (operadores judiciais excluídos, está claro).

Imunidades

Unlike most of my Cambridge contemporaries, I was thus immune to the enthusiasms and seductions of the New Left, much less its radical spin-offs: Maoism, gauchisme, tiers-mondisme, etc. For the same reasons I was decidedly uninspired by student-centered dogmas of anticapitalist transformation, much less the siren calls of femino-Marxism or sexual politics in general. I was—and remain—suspicious of identity politics in all forms, Jewish above all. Labour Zionism made me, perhaps a trifle prematurely, a universalist social democrat—an unintended consequence which would have horrified my Israeli teachers had they followed my career. But of course they didn’t. I was lost to the cause and thus effectively “dead.”
Tony Judt continua a publicar as suas memórias por aqui e vale bem a pena ser lido.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Oi, get some exercise





Em Fevereiro, regresso, por DVD, a Warwick, 1994/95.

sábado, 16 de janeiro de 2010

O silenciamento de Marcelo

A RTP acabou com as escolhas de Marcelo mas, felizmente, a consequência não será o silenciamento de Marcelo. Pelo contrário, como, ainda assim, na televisão o mercado funciona, o professor limitar-se-á a ver o seu "preço" aumentar e acabará disputado entre vários media. Na verdade, o fim concreto do programa é o lado menos preocupante da decisão. Bem mais grave é a visão que ela tem implícita sobre a natureza da análise política e sobre o pluralismo.

Desde logo, não há comentário político independente, assente numa mirífica neutralidade axiológica. Pelo contrário, o comentário é alicerçado numa determinada visão política, que enquadra as análises. Contudo, e esse é o equívoco, uma coisa é analisar a partir de um posicionamento ideológico, outra é fazê-lo com base numa agenda partidária. Não há razão nenhuma que impeça um militante partidário de analisar a actualidade com autonomia face ao seu espaço de origem. Depois, o pluralismo não se garante nem ao cronómetro, nem com programas televisivos que se transformem em frisos parlamentares. Na verdade, se o argumento do contraponto a Marcelo for para levar a sério, para dois militantes do PSD na TV, deveriam existir três do PS, um do CDS, do BE e do PCP, sempre com uma distribuição dos tempos proporcional aos resultados eleitorais. Assim se vê como, ao contrário do que pensa a ERC, a forma menos má para garantir o pluralismo continua a ser deixar a questão entregue aos critérios autónomos de quem dirige editorialmente os media.

publicado hoje no i.

A verdade dele

Com assinalável sacrifício, cheguei ao fim do artigo de Fernando Lima no Expresso. Dois mil caracteres chegariam bem para dizer o que o pós-assessor pretendia, contudo, Lima optou por escrever, escrever e pouco dizer. Percebi, aliás, também por que razão nos destaques de ontem nos vários jornais não se percebia qual era o seu ponto. Afinal, se bem percebi, só há um: o Público inventou toda esta história e o DN denunciou, por métodos impróprios, a inventona. É, por isso, muito estranho o silêncio de quem no Público foi responsável pelas notícias sobre escutas.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A Grécia não é aqui

Portugal tem uma inclinação para o copianço. Consoante as preferências políticas, já quisemos emular o modelo irlandês, espanhol, finlandês e dinamarquês. Como era expectável, nunca conseguimos importar com sucesso o que correu bem noutras paragens. As importações acríticas vêm sempre acompanhadas de uma propensão para a engenharia social, insensível às especificidades nacionais. Mas se no passado a competição era na escolha do modelo de sucesso a imitar, entretanto foi inaugurado um novo desígnio nacional: escolher o país cuja desgraça vamos replicar.

Neste campeonato, a Grécia leva vantagem. Acontece que, sendo a nossa situação muito complexa, é, ainda assim, diferente da grega. Para um défice de 8% em Portugal, a Grécia apresenta 12,7%; para uma dívida pública de 77%, os gregos têm 113%. Temos também um lastro recente de capacidade de redução do défice e de reforma em domínios relevantes que a Grécia não apresenta. O que explica, como sublinhava o "Finantial Times", que, por comparação, a Grécia tenha um problema sério de credibilidade. Ainda assim, a Grécia tem uma vantagem política: um governo suportado numa maioria parlamentar que, contudo, coexiste com níveis de contestação extraparlamentar bem maiores que os nossos. Temos razões para estarmos preocupados? É evidente que sim. Mas temo que, quer no sucesso, quer no insucesso, a fixação no que acontece lá fora seja apenas uma forma de não enfrentarmos os nossos problemas específicos.

publicado hoje no i.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O escrete no Haiti

O Haiti é ali

What is already all too clear, ­however, is the fact that this impact will be the result of an even longer-term history of deliberate impoverishment and disempowerment. Haiti is routinely described as the "poorest country in the western hemisphere". This poverty is the direct legacy of perhaps the most brutal system of colonial exploitation in world history, compounded by decades of systematic postcolonial oppression.
O resto vale a pena ser lido neste artigo de Peter Hallward, no Guardian.

Grandes esperanças para 2010


Treme.

"Há muita falta de memória na política"



Numa altura em que o PS faz grande parte da sua demarcação ideológica com base nos temas pós-materiais, vale bem a pena ler isto.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Os professores como eles são?

Um dos aspectos mais negativos da hostilidade entre Governo e professores foi a revelação duma faceta desconhecida dos professores: o recurso ao insulto, por vezes grotesco, como arma política. Foi assim frequentemente nas manifestações, onde os insultos a Lurdes Rodrigues abundavam e ultrapassavam todos os limites aceitáveis, mas é, também, assim nos blogs de professores, mesmo naqueles que aparentemente são referência. Hoje, pela primeira vez, li com olhos de ler um desses blogs e não posso deixar de me questionar, parafraseando um comentário notável que por lá se lê, a propósito do meu artigo de ontem no Diário Económico: é a gente como esta que entregamos os nossos filhos de manhã, quando os vamos levar à escola?

Some moments last forever and some flare out with love love love

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A factura dos professores

da mesma forma que o país tem na factura energética uma das principais causas do endividamento externo, tem na factura dos professores uma das causas do crescimento da despesa orçamental. A este propósito, muitos têm optado por demonizar o papel dos sindicatos. Parece-me que é errado fazê-lo. Os sindicatos fizeram o seu trabalho. O que não se esperava era que os partidos, bem como o Presidente da República, sempre tão preocupados com os desequilíbrios orçamentais, tivessem dado cobertura política às reivindicações dos professores. No fundo, tudo isto serve para tornar claro como o discurso sobre a contenção da despesa não resiste ao teste da realidade.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

Let me mouth be ever fresh with praise



Left that place in ruin, drunk on the Spirit and high on fumes
Checked into a Red Roof in stayed up for several hours and then slept like infants
In the burning fuselage of my days
Let me mouth be ever fresh with praise

He has fixed his sign in the sky
He has raised me from the pit and set me high

Each morning new
Each day shot through
With all the sharps small shards of shrapnel
that seem to burst of me and you

(e há mais aqui)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Legados


Eric Rohmer (1920-2010)

Grandes esperanças para 2010


O disco novo dos Spoon pode ser ouvido integralmente aqui.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Tempo Perdido

Nos últimos três meses assistimos a um braço-de-ferro parlamentar, em que os partidos procuraram definir os contornos deste ciclo político. Perdemos tempo. Esta semana aconteceu o inevitável. Perante uma grave crise económica e social, com contornos orçamentais dramáticos, PS e PSD chegaram à conclusão óbvia: neste contexto estão condenados a entender-se. Com as condições de governabilidade bloqueadas à esquerda e com uma negociação casuística e multipartidária a provocar um aumento da despesa, o esforço de disciplina orçamental precisa de um entendimento estável. Mas uma coisa são as proclamações, outra é a prática concreta.
Desde logo, um entendimento precisa de previsibilidade e de interlocutores fiáveis. Se bem se percebe, o governo iniciou negociações com uma direcção demissionária. Ora não é preciso fazer um grande exercício de memória para recordarmos como, no passado recente, lideranças do PSD rasgaram compromissos assumidos pelas direcções anteriores. Depois, como escrevia Martin Wolf num notável artigo no "Financial Times", países como Portugal caíram na armadilha do euro, mas, descartada a hipótese de sair da moeda única, é uma fatalidade que os ajustamentos sejam feitos, em parte, do lado dos salários. Como mostra o dossiê da avaliação dos professores, uma coisa é a expressão abstracta de vontades, outra, bem diferente, é a capacidade dos partidos de se entenderem, de modo determinado, em torno da contenção salarial.
publicado no i.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Contributos para o Professor José Cid



A semana passada, numa livraria em Lisboa.
Eu: boa tarde, estou à procura da ilha, de um autor italiano de que não me recordo o nome. O livro é daquela editora nova, a ahab.
Rapariga da livraria, virando-se para uma colega: sabes onde é que está aquele livro, a ilha, daquela editora com nome árabe?

Na ausência de links neste blog, o professor José Cid já foi para o Google reader, assim como o córtex frontal, do josé medeiros ferreira e da joana amaral dias e o albergue espanhol, como o nome indica, de artistas vários, das mais diversas proveniências.

Os gays não são prioridade

Tal como o amor e o cartão de crédito, os chavões políticos têm uma atracção inicial que mais tarde traz complicações. A asserção é do politólogo Michael Waller e, como sabemos das nossas vidas privadas, é quase invariavelmente válida. Roubo-a porque, nas últimas semanas, ouvimos com frequência a repetição de um chavão que revela uma atracção inicial: o casamento entre pessoas do mesmo sexo não é prioridade, designadamente num contexto de desemprego elevado.
O problema, desde logo, é que não há necessidade de ponderar entre, por um lado, conceder um direito com importante peso simbólico, que estava vedado a um conjunto de cidadãos com base na sua opção sexual, e, por outro, focar o essencial das políticas públicas nas questões económicas. Alargar um direito preexistente não colide com o esforço adicional que a crise requer das políticas públicas. Contudo, e isso é que é mais paradoxal, os mesmos que nos dizem diariamente que o tema do casamento gay não é prioritário associam-lhe, sempre, um ataque sem paralelo à família, uma instituição milenar.
Estão portanto a ver quais são as complicações: ou bem que estamos perante um ataque a uma instituição muitíssimo relevante e então o tema é uma prioridade absoluta (mesmo comparando com a consolidação estrutural das contas públicas), ou o argumento da não-prioridade não passa de uma manobra de diversão.
publicado no i.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Grandes esperanças para 2010

The eurozone’s next decade will be tough

"Where does that leave peripheral countries today? In structural recession, is the answer. At some point, they have to slash fiscal deficits. Without monetary or exchange rate offsets, that seems sure to worsen the recession already caused by the collapse in their bubble-fuelled private spending. Worse, in the boom years, these countries lost competitiveness within the eurozone. That was also inherent in the system. The interest rates set by the European Central Bank, aimed at balancing supply and demand in the zone, were too low for bubble-fuelled countries. With inflation in sectors producing non-tradeables relatively high, real interest rates were also relatively low in these countries. A loss of external competitiveness and strong domestic demand expanded external deficits. These generated the demand needed by core countries with excess capacity. To add insult to injury, since the core country is highly competitive globally and the eurozone has a robust external position and a sound currency, the euro itself has soared in value.
This leaves peripheral countries in a trap: they cannot readily generate an external surplus; they cannot easily restart private sector borrowing; and they cannot easily sustain present fiscal deficits. Mass emigration would be a possibility, but surely not a recommendation. Mass immigration of wealthy foreigners, to live in now-cheap properties, would be far better. Yet, at worst, a lengthy slump might be needed to grind out a reduction in nominal prices and wages. Ireland seems to have accepted such a future. Spain and Greece have not. Moreover, the affected country would also suffer debt deflation: with falling nominal prices and wages, the real burden of debt denominated in euros will rise. A wave of defaults – private and even public – threaten.
The crisis in the eurozone’s periphery is not an accident: it is inherent in the system. The weaker members have to find an escape from the trap they are in."
Martin Wolf no FT. vá e siga.

adenda: ainda sobre este artigo, o pedro lains diz, de forma imaculada e irrepreensível, o que eu queria dizer. além de que posta a versão em pdf do artigo, que poupa trabalho a quem não está registado no ft. igualmente imaculado e irrepreensível e, além do mais, muito claro é o que o joão pinto e castro acrescenta aqui.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

"I'm still a young guy"



"In this solo Tiny Desk Concert, his four songs fit nearly into distinct categories: new and quiet ("Hebrews 11:40"), new and loud ("Psalms 40:2"), old and quiet ("Color in Your Cheeks," from All Hail West Texas), and old and loud ("Going to Georgia," from Zopilote Machine). It's no surprise that all four approaches serve him well."
Se seguirem este link e aproveitarem para subscrever os podcasts dos concertos do "all songs considered" da NPR, vão poder ouver o John Darnielle num dos concertos da série "Tiny Desk". É uma pena que a minha geração vá demorar tanto tempo a descobrir que também tem direito ao seu Cohen/Dylan e o que mais quiser.
(obrigado à Mariana Trigo Pereira que partilhou o link)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Do desnorte

Vá lá saber-se porquê, o desnorte político é como a água, corre para o desnorte político. Esqueçam todos os exemplos dos últimos meses que têm assolado a governação e o partido socialista. Hoje, a crer no Diário Económico, e há boas razões para crer, ficámos a saber que o Governo sondou Souto Moura para dirigir o Centro de Estudos Judiciários. Ou seja, sondou Souto Moura para dirigir a instituição que forma os magistrados. A sondagem é grave em si - estamos a falar de Souto Moura, personagem que me abstenho de comentar -, mas é também grave "para si" - estamos a falar de alguém que iria formar os juízes em quem depositaríamos a justiça do país no futuro. Ou seja, se por acaso o inefável "gato constipado" tem aceite o lugar, o melhor mesmo seria "fazer a trouxa e zarpar".

domingo, 3 de janeiro de 2010

Por favor, MoveOn

No calor do escândalo Lewinsky, um grupo de activistas criou o movimento "MoveOn". Na sua génese, o objectivo era censurar o que havia a censurar no comportamento de Clinton e pressionar para que a política norte-americana - enredada em campanhas negativas e num processo de impeachment - se concentrasse no essencial: a economia e o emprego. Mais tarde, durante a presidência Bush, o movimento transformar-se-ia na mais importante organização grass-roots progressista, opondo-se à invasão do Iraque e contribuindo para a eleição de Obama.
No início deste ano, o paralelismo com Portugal não poderia ser maior.
Perante uma crise económica profunda, com contornos sociais dramáticos, a política portuguesa tem-se centrado em questões judiciais (Face Oculta); casos de polícia (BPN e BPP); patetices delirantes (a claustrofobia democrática); e desculpas de mau pagador (as coligações negativas).

Como se não bastasse, os actores políticos, do executivo ao Parlamento, passando pela Presidência, envolveram-se num jogo de passa-culpas, a fazer lembrar uma zaragata de recreio de escola primária - na qual, a certa altura, já pouco importa quem teve razão no início. Perante isto, a única coisa que podemos exigir para 2010 é que a política portuguesa siga em frente e se foque. Por exemplo, na discussão orçamental debatendo soluções. Mas, tendo em conta o que se tem passado nos últimos meses, temo que seja pedir de mais. Estaremos condenados à zaragata, nuns casos inconsequente, noutros contraproducente.

publicado no i.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Bom ano



In the Vanity Fair Italy feature, Stefano Gabbana discusses the campaign and why Madonna was the perfect match: "She loved the collection," he says, "...she is passionate and impressively knowledgeable about Italian cinema," (Monica is Vitti her favourite actress and we see the resemblance)."
When asked as to whether Madonna knows how to wash dishes, Stefano Gabbana replies "Certainly...she's a very practical woman..." And does she actually eat spaghetti despite her most enviable figure? "Of course, says Stefano, and she can allow herself too with all the exercise she does!"
o resto das fotos estás aqui.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Felizmente não sou economista

(...) os governos têm de cortar na despesa porque é isso que esperam os mercados. Ou seja, os mesmos mercados que desestabilizaram o sistema financeiro a um ponto tal que este teve de ser salvo pelos contribuintes, exigem agora um esforço de consolidação como preço a pagar pelo seu apoio a governos cujas dificuldades ajudaram a causar.
Mas eu, que felizmente não sou economista, perante a crise e as suas sequelas, só me ocorre que existe um conjunto de questões políticas sobre o papel do BCE que tem de ser respondido. As declarações de Trichet só as tornam mais claras. (...)
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Natal é quando um homem quer

sábado, 26 de dezembro de 2009

Inconformados e birrentos

Os nossos políticos andam inconformados e birrentos. Nenhum dos líderes partidários se conforma com o resultado das eleições: Sócrates não perdoa aos portugueses não ter tido maioria absoluta e age como se ainda a tivesse ou, pior, alimenta a ilusão de que pode recuperá-la; Ferreira Leite não percebe como teve tantos votos como o omnipresente Santana e, em lugar de se afastar e permitir que o PSD respire de novo, insiste na estratégia de insídia que a levou à derrota; Louçã não aceita que a esquerda iluminada não faça a diferença para a maioria absoluta; Jerónimo não compreende como é que a crise não provoca um levantamento nacional que ponha de vez fim à democracia burguesa; Portas não entende como é que a sua clarividência retórica não basta para o alcandorar a líder incontestável da direita. Vai daí, fazem todos uma enorme birra: uns fingem que não perderam as eleições e outros não aceitam governar com o resultado eleitoral. A consequência está à vista - querelas institucionais com base em atrasos a chegar a reuniões, provocações, acusações de falta de carácter e coligações negativas. Para sairmos deste pântano, é-nos sugerido, poderíamos perguntar, de novo, ao soberano o que pensa sobre o assunto. Como nos aproximamos do fim do ano, permita- -se que faça uma profecia:
o resultado eleitoral seria o mesmo de há um par de meses. Logo, é bom que cada partido desempenhe o papel que lhe foi destinado pelos portugueses em Setembro.

publicado no i.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Uma década em 10 discos

Escolher os discos do ano é uma daquelas provas difíceis de superar. Não são precisos muitos dias para que a lista perca sentido e logo nos pareça profundamente injusta. Aqui em baixo escolhi os 10 discos de que mais gostei este ano e dois dias depois reparo na injustiça que fiz aos Girls. Tudo isto porque agora me deu para escolher os 10 discos da década. Não são necessariamente os discos dos últimos dez anos que ouço mais hoje, mas são certamente os 10 discos que foram para mim mais importantes na última década. Isto implica, por exemplo, excluir muitos discos que ouvi muito nesta década e que são anteriores. Agora, quando olho para esta lista, mais importante do que a música é recordar-me que todos estes discos ganharam um sentido particular, ouvidos em circunstâncias irrepetíveis. Há bastantes coisas da última década que preferiria não recordar, mas pela música regresso a elas com uma outra tranquilidade. Do mesmo modo que consigo associar a algumas das coisas fantásticas que me aconteceram na última década muitos destes discos. Na verdade, muito provavelmente, ouço música de mais. Aqui fica então a lista (a ordem é alfabética) e para outra altura ficará qualquer coisa sobre estes discos, algumas das músicas e sobre uma década que começou electrónica para acabar entre guitarras e alt-country, mas essencialmente com a música toda disponível - para pirataria ou não - na rede.

Arcade Fire – Funeral



Arctic Monkeys -Whatever People Say I Am That's What I'm Not



The Clientele – Strange Geometry



Paolo Conte – Reveries



Flaming Lips -Yoshimi Battles the Pink Robots



Herbert – Bodily Functions



Lambchop - Is a Woman



The Mountain Goats – Tallahassee



The National – Alligator



The Strokes – Is this it

Um conto de fadas de natal



vale bem a pena tirar uma hora para ver o documentário aqui.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

10 discos de 2009

As listas dos melhores do ano, na verdade, só interessam a quem tem alguma inclinação para fazer listas dos melhores dos anos. Esta naturalmente não interessará a muita gente, mas, dos discos que ouvi este ano, os melhores foram estes.

1. Bill Callahan - Sometimes I Wish We Were an Eagle
2. Grizzly Bear - Veckatimest
3. The xx - The xx
4. The Mountain Goats - The Life of the World to Come
5. Animal Collective - Merriweather Post Pavilion
6. The Clientele -Bonfires on the Heath
7. God Help the Girl - God Help the Girl
8. Dirty Projectors - Bitte Orca
9. Sleeping States - In the Garden of the North
10. The Pains of Being Pure at Heart - The Pains of Being Pure at Heart

domingo, 20 de dezembro de 2009

"Saviola vem passar férias"


declarações de Bruno Carvalho, o sujeito preclaro que se candidatou à presidência do Benfica, aquando da contratação de Saviola.

Menos pobres

Não passa muito tempo sem que sejamos confrontados com os níveis intoleráveis de pobreza em Portugal. É bom que tenhamos presente a dimensão do problema: ajuda a manter o combate às desigualdades como prioridade política. Mas, enquanto isso acontece, convém valorizar colectivamente o muito que vai sendo feito para enfrentar o fenómeno. Esta semana, no meio do pessimismo que varre o país, o Padre Jardim Moreira, da Rede Europeia Anti-Pobreza, revelava o seu espanto com o sucesso da estratégia nacional para os sem-abrigo, que está a ultrapassar as melhores expectativas. Metade dos objectivos traçados para seis anos foram alcançados em nove meses e só no Porto mais de mil pessoas deixaram de dormir nas ruas. Já a Associação Nacional de Direito ao Crédito celebrou dez anos, durante os quais apoiou, através do microcrédito, o empreendorismo emancipador de mais de mil pobres. No final da semana, o Presidente da Cais sublinhava que sem transferências sociais (entre elas o rendimento mínimo), a nossa taxa de pobreza seria de 41%.

São motivos para satisfação, mas serve também para revelar como o nosso sucesso relativo na resposta à pobreza mais severa não tem sido acompanhado no combate ao conjunto das desigualdades. Se temos hoje instrumentos para combater as formas extremas de pobreza, continuamos estrangulados por níveis salariais que fazem dos trabalhadores uma parte importante dos pobres. É isso que está em causa com aumentos do salário mínimo acima dos salários médios.

publicado no i.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

E a banda continuou a tocar

Não se sabe com exactidão que música tocava a banda quando o Titanic chocou com o iceberg. Mas uma coisa é certa: a banda continuou a tocar. Portugal chocou com o seu iceberg particular. Empurrados pela conjuntura externa dramática, as nossas debilidades estruturais não só vieram ao de cima como se agravaram. Desemprego, défice e endividamento são os aspectos mais visíveis do rombo. Perante isto, os partidos continuam a tocar música como se nada se estivesse a passar. Não bastava a coligação parlamentar de cortes na receita combinados com aumento na despesa, esta semana os deputados do PS reuniram-se para falar de regionalização. Na política, a oportunidade, não sendo tudo, é quase. E dificilmente haverá tema mais desajustado. Quando o foco deveria estar por inteiro na política económica de resposta à crise (do mercado de trabalho e orçamental), o Partido Socialista escolhe reflectir sobre quantas regiões deviam existir e as competências a transferir. O tema é uma espécie de fetiche da classe política, desajustado da realidade. Mas, também, não há novidade. Sempre que os partidos precisam de encontrar uma manobra de diversão têm na regionalização um tema adequado. Os outros partidos não se inibem de reagir e a comunicação social amplia devidamente o tema. Há uma década que é assim, mas é apenas mais um sintoma de empobrecimento do debate político. O problema é que agora temos mesmo de resolver o problema do iceberg.
publicado hoje no i.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Encontrar uma razão



O Andrew Kidman está bem posicionado na minha galeria de super-heróis. Enquanto escrevo um artigo sobre Ether, um livro monumental, regresso a um excerto do Glass Love, acompanhado por um belo cover da Cat Power para um original dos Velvet, I Found a Reason.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Duvido, logo corrupto

A crer na fúria legisladora do Parlamento, dentro de dois anos, a corrupção estará erradicada da face do país e, não tardará, as avançadas democracias escandinavas estarão a emular as boas práticas domésticas.
Nada que surpreenda. Perante um problema político sério - e a corrupção é-o - tendemos a optar pela solução preguiçosa: tipificam-se mais crimes, criam-se uns quantos observatórios e daqui a não muito tempo levantar-se-á um clamor colectivo protestando contra a ineficácia das leis entretanto aprovadas. Depois, já se sabe, a história repetir-se-á, com nova fúria legisladora.
do meu artigo e hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

we're our own devil


A Hope Sandoval já não anda a pedir-nos para sermos o anjo dela. Juntou-se aos Massive Attack (que estão de volta e desta feita a coisa parece prometer) e fizeram isto. Muito cuidado com o link: o video dispara logo e não é aconselhável o visionamento no local de trabalho (ou como se diz em inglês, nsfw).

You're standing there so nice in your blizzard of ice

You're written in her book, you're number 37 have a look



Devemos muitas coisas à Nico - a mais conhecida das quais é a tensão entre Reed e Cale -, mas provavelmente nada se compara ao efeito que A "femme fatale" terá provocado em Leonard Cohen, como aqui se pode testemunhar. Este fim-de-semana vi o dvd do mítico concerto de Cohen na ilha de wight, em 1970. Comprem e ofereçam pelo Natal.

domingo, 13 de dezembro de 2009

O óbvio

O estado a que chegámos é tal que já nos surpreendemos quando alguém diz o óbvio:
"Freedom of speech should not include distortion of the truth, lies, fabrication and slander" Kate McCann.
"if anyone steps over the lines then they should be prepared to defend what they say in court." Gerry McCann.
daqui.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Vigiar e punir

Lembramo-nos bem do último governo com tutela presidencial. Foi com Santana Lopes, correu mal e acabou depressa. Era previsível que assim fosse. Mas, como para provar que nunca aprendemos o suficiente, esta semana vários socialistas vieram reclamar uma nova forma de tutela presidencial, desta feita sobre o Parlamento: Cavaco Silva deveria intervir, puxando as orelhas aos partidos que não se entendem.

O apelo insólito, para além de revelar desnorte político, teve, desde logo, o condão de fragilizar quem o fez
- que ficou à espera de uma resposta presidencial, que naturalmente não chegou. Não deixa de ser verdade que, no discurso de tomada de posse do governo, Cavaco destinou a si próprio o papel de referencial de estabilidade. Mas uma coisa é apelar a que o Presidente cumpra esse papel, outra, bem diferente, é criar as condições objectivas para que ele o faça.

Nas últimas semanas, temos visto facções que se digladiam numa competição para aumentar a despesa e diminuir a receita e a uma maioria que se lamenta perante as coligações negativas - isto ao mesmo tempo que se revela incapaz de fazer pedagogia política que explique a sua posição (veja-se o exemplo do Código Contributivo, em que só após a suspensão no Parlamento se ouviram os argumentos do executivo). Moral da nossa história: como os partidos não se entendem, reclamam que a autoridade vigie e puna. Em democracia só pode dar mau resultado, e não foi para isso que foi concebido o nosso semipresidencialismo.

publicado no i.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Manifesto anti-pessimista

O pé de fora

As candidaturas presidenciais ganhadoras são as que, partindo de um determinado espaço político, conseguem alargá-lo. Quando Mário Soares, em entrevista ao i, diz que Alegre está com um pé dentro e outro fora do PS tem, de facto, razão, mas está também a reconhecer o potencial eleitoral da recandidatura alegrista. O problema é que o pé que Alegre tem fora do PS - e em muitos dias é esse o "pé-director" -, ao mesmo tempo que tem ajudado a tornar a sua candidatura presidencial uma quase inevitabilidade, está a amarrar Sócrates a uma estratégia que não lhe convém. Há uns dias, Alegre proclamava que não estava refém de ninguém. É verdade, até porque são hoje Sócrates e o PS que estão reféns de Alegre: as lições de 2005 impedem uma candidatura alternativa à do poeta (que só fraccionaria o PS), mas Alegre Presidente ameaça o projecto político que Sócrates tem tido para o PS. Se a cooperação estratégica entre Cavaco e Sócrates é uma miragem de um passado longínquo, entre Sócrates e Alegre é uma utopia distante. É inevitável que, dentro de um ano, José Sócrates e Manuel Alegre estejam nos braços um do outro, enquanto proclamam a partilha dos valores da esquerda democrática. Acontece que, politicamente, não há convergência estratégica possível entre os dois. E, como se não bastasse, Alegre candidato oficial do PS não terá o potencial eleitoral de Alegre candidato com o "pé fora" do PS. Nisto, as presidenciais servirão para revelar o bloqueio estratégico que existe à esquerda.
publicado hoje no i.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Regressar de Paris

sábado, 5 de dezembro de 2009

A posição minoritária

Esta semana, Ana Gomes, na TSF, afirmava que quem era contra a tipificação do enriquecimento ilícito, por este inverter o ónus da prova, usava "desculpas de mau pagador"; já no Parlamento, Fernando Negrão, enquanto justificava a coligação entre PSD/BE/PCP nas políticas de combate à corrupção, falava no pré-crime.

Confesso que há para mim uma diferença de escala entre os deputados entenderem-se em torno de formas de aumentar a despesa de modo incontrolável e a coligação invencível que, a propósito do justo combate à corrupção, se prepara para esmagar quem se atreva a ter dúvidas sobre os passos demagógicos que estão a ser dados. É, ainda assim, bem mais grave, à boleia do calor mediático, minar os alicerces do estado de direito do que abraçar a indisciplina orçamental.

Tendo em conta que não me é possível sugerir que experimentemos colectivamente uma distopia - que infelizmente está sempre ao virar da esquina - onde direitos, liberdades e garantias são uma miragem do passado,

recomendo que se leia mais ficção científica ou se vejam as adaptações ao cinema.
No "Relatório Minoritário" de Philip K. Dick, o departamento que geria preventivamente a criminalidade chamava-se "precrime" e nos seus livros fica claro que a capacidade de impedir crimes de ocorrerem e a criação de sociedades absolutamente seguras tem sempre uma outra face bem sombria: um universo totalitário que tende a suspender as liberdades individuais. Convém recordar que se chega a esse mundo através de uma sucessão de pequenos passos.

publicado hoje no i.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Imaginação Informada


Brian Eno é um notável músico, mas também um surpreendente colunista político. A coluna que assina na "Prospect" - Dr. Pangloss - é um oásis de optimismo antropológico, enfrentando o modismo pessimista que tem feito escola. No seu último texto - "The post-theoretical age" - chama a atenção para o facto de vivermos numa era onde o debate é mais informado do que nunca. Dos blogue ao Twitter, assistimos a uma democratização do acesso a dados. As consequências são claras: "Na ausência de dados, teorizamos. Na abundância, só temos de fazer as contas." O que poderia parecer uma negação da dissensão política, não o é. Com a massificação da informação estamos a construir as ferramentas intelectuais que vão decidir o futuro. Perante este novo contexto, o conservadorismo leva vantagem: enquanto os progressistas se inclinam perante um futuro ainda indefinido, os conservadores agarram-se ao passado e sabem exactamente o que não querem. O futuro é para os progressistas um "acto colectivo de imaginação informada", sendo que a qualidade da informação está a melhorar.
Eno não o diz, mas informação pública de qualidade é o alfa e o ómega das políticas progressistas. Se há domínio no qual, em Portugal, há défices gritantes é esse. Défices que minam a confiança no debate público democrático. É por isso que o exercício de desinformação orçamental feito ao longo deste ano, sendo politicamente grave, é, acima de tudo, uma limitação à imaginação do futuro.
publicado no i.