"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

sexta-feira, 12 de março de 2010

Um PE

Há uma letra a mais no PEC. O "C" de crescimento. Portugal apresentou um "PE", um programa de estabilidade, mas, no horizonte temporal de 2013 não poderemos esperar crescimento. É este o nosso drama, armadilhados que estamos por uma zona euro que não foi concebida para choques como o que enfrentamos. Aliás, o governo britânico, por exemplo, não o esconde, ao reconhecer no seu próprio PEC que este pode desacelerar a retoma. Ainda assim, o PEC português serve para mostrar como restam margens de manobra políticas. Desde logo porque, em lugar da adopção acrítica da receita dos cortes cegos, é revelada uma preocupação com a equidade, através de uma distribuição desigual dos custos da austeridade (da taxação das mais-valias mobiliárias, à criação dum escalão mais elevado no IRS e, acima de tudo, com a diferenciação nos benefícios fiscais - que são, de facto, um poderoso mecanismo de reprodução de desigualdades materiais). Existe, contudo, outro lado da moeda e esse é que doerá de facto. A credibilidade deste PEC assenta num cenário macroeconómico muito prudente - aliás, ao arrepio do histórico recente do governo português -, que, a ser tomado como bom, torna inviável que haja uma diminuição do desemprego significativa até 2013. Com um desemprego estimado nos 9,3% e com o número de desempregados sem subsídio a crescer todos os meses, chegaremos a 2013 com centenas de milhar de portugueses sem rendimentos. O cenário é socialmente sustentável? Claramente não. Havia alternativa? Também não. A menos que a Europa decida, de uma vez por todas, acrescentar o "C" que falta a outro "PE", o Pacto de Estabilidade.
publicado hoje no i.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Regressos e pequenas invejas



Os National estrearam ontem no Jimmy Fallon um tema do seu novo disco, High Violet, e não está nada mal, mesmo nada mal (chama-se "terrible love). Bem sei que isto não se faz em público, mas os National vão abrir um concerto dos Pavement na Europa e, custa-me muito informar, eu já sou legítimo proprietário de dois bilhetes. Falo disto porque aqui pode ser vista uma retrospectiva dos telediscos do Malkmus & friends.

quarta-feira, 10 de março de 2010

E os juízes tornam-se também médicos

O Centro de Estudos Judiciários não tem uma nova direcção nomeada. O assunto é naturalmente grave, até porque dura há bastante tempo. Ainda assim, não tão grave como seria a aventada nomeação do "gato constipado" para o lugar - uma espécie de prémio de carreira. Entretanto, um dos directores-adjuntos do CEJ teve um enfarte. Perante isto, fiquei hoje de manhã a saber através da TSF que António Martins, que preside à Associação Sindical dos Juízes, "afirma ter a certeza de que o problema de saúde foi motivado pelo momento pelo qual está a passar esta instituição".

As prioridades certas


now you're telling me
you're not nostalgic
then give me another word for it
you who are so good with words
and at keeping things vague
because I need some of that vagueness now
it's all come back too clearly
yes I loved you dearly
and if you're offering me diamonds and rust
I've already paid

hoje ou aqui.

A nossa miséria ou uma curta metragem sobre os especialistas na presidência da república



Esta coisa começa por fazer rir, mas no fim só podemos ter vontade de chorar.

terça-feira, 9 de março de 2010

Virgens ofendidas

(...) No dia-a-dia temos tido sinais visíveis da vontade de poder dos magistrados, mas ficamos a saber também que isso é feito de modo reflectido e como resposta a uma convocatória "do poder judicial para um outro exercício da democracia". Aliás, os magistrados não o escondem, quando se questionam se "estaremos perante uma transferência de legitimidade dos poderes legislativo e executivo para o judicial?". Claro que esta alteração na "narrativa" produz efeitos: não só "tem de explicar o papel dos vários poderes do Estado Democrático de um outro modo", como "densifica a dimensão política" do judiciário. Como seria de esperar, tudo tende a acabar em reivindicações sobre a carreira: "o estatuto dos juízes deixa para a lei ordinária um largo campo de regulamentação".

O que nos é sugerido é não apenas uma nova centralidade para o poder judicial, como também uma ofensiva que passa pela diminuição das esferas de autonomia dos poderes políticos. O que nos lembra que já não estamos apenas numa fase de tensão latente. Se a saída para a "democracia descontente" em que nos encontramos passar por uma transferência da legitimidade de poderes com legitimidade eleitoral (como são o legislativo e o executivo), para um poder cuja legitimidade radica em mecanismos fracamente sindicáveis pelos cidadãos, há boas razões para termos medo. É um sintoma de que está a germinar uma visão em que o poder judicial já não quer ser independente do poder político, mas sim ver este subjugado ao seu poder.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.
(para quem tiver curiosidade, o texto da associação sindical dos juízes portugueses, que cito, pode ser lido, em todo o seu esplendor, aqui.)

segunda-feira, 8 de março de 2010

E Deus criou a mulher (madura)


Kathryn Bigelow tem 58 anos e Kim Gordon 56. Os EUA são definitivamente o Sol da Terra.

E Deus criou a mulher

E Deus criou a mulher

sábado, 6 de março de 2010

Eu e o "pequeno judeu que escreveu a Bíblia"


gostamos deste gajo.

O nosso caso Lewinsky

A PT queria comprar a Media Capital e a Media Capital queria ser comprada pela PT, mas o negócio foi interrompido pela Golden Share. Foi o que nos disseram esta semana Zeinal Bava e Bernardo Bairrão. Estamos perante um caso de coito interrompido por interferência de terceiros. Face a isto, o Parlamento prepara-se para fazer uma comissão de inquérito, porque José Sócrates afirmou não saber do negócio que ambas as partes queriam, de facto, que fosse feito e que o primeiro-ministro não deixou que se fizesse. Estranho, mas é assim. De facto, em nome do interesse público, não faz sentido que a PT, enquanto existe golden share, regresse aos conteúdos. Mas uma coisa é desde já sabida: o Estado tinha poder para vetar o negócio, mas, tendo em conta a complexa estrutura accionista da PT, dificilmente poderia ser o seu artífice moral. Não deixa, aliás, de ser curioso que saibamos tanto sobre o papel de personagens menores neste enredo e tão pouco sobre o de actores determinantes (à cabeça, o Banco Espírito Santo). No fim, resta uma certeza. Teremos uma comissão de inquérito em tudo igual à que delapidou o capital político de Clinton. Também aqui o tema não será o direito a ter amantes, mas sim saber se um político pode cometer perjúrio. No fatídico dia 24 de Junho, Sócrates alegou desconhecimento de um negócio que era conhecido por muitos (e no qual os seus amigos políticos se puseram, no mínimo, em bicos de pés); agora, em Fevereiro, inaugura-se uma nova fase da vida política portuguesa. Vai ser avaliado, com os poderes parajudiciais que detém uma comissão de inquérito parlamentar, o papel da mentira na política.
publicado no i.

sexta-feira, 5 de março de 2010

A miséria do sindicalismo

"A greve na função pública é apenas a preparação da ampliação da luta." Foi assim que Carvalho da Silva antecipou a greve de ontem, em entrevista ao "Diário Económico". Não es- panta: na mesma entrevista classificou o acordo tripartido alcançado na Irlanda como resultante de uma "cultura diferente" e classificou o apelo à negociação como uma "treta" (sic). O sindicalismo português é apenas mais um elemento da miséria política do nosso país. Perante dificuldades extremas e constrangimentos que aparentam ser inultrapassáveis, o que se exigia de todas as partes eram convergências: entre partidos e governo, entre empresários e sindicatos. O que nos é oferecido é precisamente o contrário: uma total incapacidade de negociar, de abandonar a rigidez da posição de partida para alcançar um compromisso. Entretanto, o desemprego continua a sua imparável cavalgada e a dívida que temos de pagar lá fora fica todos os dias mais cara. Portugal tem níveis de conflitualidade laboral (medidos pelo número de greves) comparativamente baixos e estes têm descido de modo acen- tuado. A administração pública é a excepção. Hoje faz greve quem pode (quem tem uma relação laboral protegida) e os funcionários públicos podem. Contudo, é também sabido, o padrão de baixa conflitualidade laboral coexiste com níveis elevados de contestação política de base sindical. No fundo, as greves servem para "ampliar a luta". As consequências da estratégia serão incontornáveis: um acantonamento político e social do movimento sindical, sem ganhos visíveis para os trabalhadores. Precisamos, de facto, de "outras políticas", mas precisamos não menos de outros sindicatos.
publicado hoje no i.

quinta-feira, 4 de março de 2010

A Fanny Ardant e eu


gostamos deste gajo.

Homens em tempos sombrios


Cada dia que passa e cada jornal que leio, mais gosto deste gajo.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Recordar é viver


"Then tell me about nothingness. I'd like to hear a complete account of nothing."

terça-feira, 2 de março de 2010

Recordar é viver


a propósito do que o Ricardo relata aqui.

Canalhocracia*

Faço votos sinceros que os receptadores que andam entretidos a chafurdar nos mails privados que receberam (de uma mailing list de que faço parte), diligentemente entregues por um bufo, que dá pelo nome de Carlos Santos, façam bom proveito do que têm lido. No essencial, é isto que tenho a dizer.
(para detalhes, o melhor é ler o Eduardo. claramente uma pessoa tolerante, paciente e condescendente e também o Luís.).
título roubado ao Tomás.

Já me compensaram os dias



Estes ouvi mais no Inverno de 1994/95, mas, também, se bem me lembro, durante o Verão seguinte e ainda este Verão. Há bocado - literalmente - começaram a tournée de reunião na Nova Zelândia. Entretanto, fica aqui um medley. Se derem uma volta por aqui há mais coisas.

Já me estragaram os dias



No Inverno de 1993/94, terei ouvido mais este disco (Jazzmatazz) do que qualquer outro. Foi aliás um bom Inverno. Aulas à tarde na faculdade, surf de manhã e belas viagens, acompanhadas a k7, num memorável Ford Fiesta. Como se usa dizer: bons tempos para se estar vivo. Nada disto me ocorreria agora, não fora o Guru - aqui acompanhado pelo Donald Byrd - ter tido um enfarte que o deixou em coma. Uma bela merda.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Para este peditório, eu dou


Shane Macgowan, directamente saído do caldeirão de cerveja (cerveja?) onde caíu faz 30/40 anos, reuniu mais uns colegas de natação. Tudo por uma boa causa: o Haiti. O resultado é que passei a ter a minha própria Band Aid. Enquanto o Mick Jones bate no estintor de incêndios, o Nick Cave põe alguma ordem no estúdio e o Bobby Gillespie faz de Bobby Gillespie, o Johnny Depp aproveita para fazer um belo solo, numa ainda mais bela guitarra. A música que sofre este tratamento é o I put a spell on you, de Screamin' Jay Hawkins'. A rapariga do baixo, parece-me a mim, é a ex-Pogues e ex de Elvis Costello, Cait O'Riordan. Está, contrariamente aos outros, bem conservada.