"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Banhos de Mar

Primeiro Mar do Ano
Ontem e anteontem tomei os primeiros banhos de mar de 2010. No plural diário: um de manhã; outro à tarde. Às nove da manhã, sozinho e dono do mundo, e, depois, às cinco da tarde, acompanhado por meio mundo, mas não menos feliz por isso. Portámo-nos todos como se tivesse chegado o Verão. Todos os anos, a meados de Abril, caímos no mesmo engano. Sabemos que vêm aí grandes chuvadas e intempéries. Mas que nós, na nossa inocência, gula e esperança, não esperamos. Somos fáceis de enganar, ano após ano, apesar da lembrança de termos sido anualmente enganados desde que nascemos, vez após vez, porque o engano sabe bem. É como a droga, um dia de praia no princípio de Abril. É como o prazer de ser estúpido. É como apostar que vai sair o 36 na roleta 36 vezes seguidas.

Nunca tive a coragem de experimentar as drogas duras (que devem ser boas de mais), nem paciência para aturar as moles (que não são suficientemente boas). As minhas drogas foram sempre as moderadas: as centrais; as divertidas; as que sabem bem; as que ajudam a trabalhar; as que nos matam sem darmos por isso.

O mar português é exactamente como uma dessas drogas - a cocaína; o álcool; as anfetaminas. É um perigo e um prazer. Faz medo mas faz bem. Mata bastante mas dá-nos sempre uma sensação de viver. O engano de acharmos que começou a época da praia é como o feitiço da toxicodependência. É uma estupidez profunda da qual temos consciência mas nem por isso nos liberta.

Bem-vinda seja, a traidora.


Miguel Esteves Cardoso, no Público.

Os Surfer Blood a nadarem numa garagem

sábado, 10 de abril de 2010

Passos e Sócrates, a mesma luta

Passos Coelho encontra-se uma posição simétrica à de Sócrates, quando venceu as directas no PS. Como Sócrates, Passos teve uma maioria esmagadora, mas tem um problema de credibilidade externa que não é independente de défices na relação com as elites do partido e da sociedade civil. Sócrates resolveu o seu problema interno cooptando para a sua direcção muitos apoiantes de Alegre, que viriam a integrar o seu núcleo duro. Passos aparenta estar a fazer o mesmo, ao apresentar uma lista unitária para a direcção política do PSD. As semelhanças não acabam aqui. Passos terá, presumivelmente, em Pacheco Pereira o seu Manuel Alegre - uma voz crítica e isolada no grupo parlamentar, mas com muita notoriedade mediática. Mas unir o partido não basta, como Sócrates sabia em 2004. Passos precisa de ter uma ponte com a Presidência da República - uma alavanca decisiva para chegar ao poder - e de um tema mobilizador. Precisa de alguém que desempenhe o papel de António Costa e de encontrar o seu "choque tecnológico". No entanto, além da estratégia e da táctica, sobra a substância. Com a vitória de Passos, os dois principais partidos têm líderes que são produtos das estruturas partidárias, sem a credenciação social e intelectual que detinham os líderes do passado. Há quem veja nesta tendência um sintoma de empobrecimento da vida política portuguesa, mas pode dar-se o caso de estarmos apenas a aproximar-nos do padrão das democracias mais avançadas, nas quais a política é deixada a políticos profissionais. Podemos, de facto, estar a ficar iguais aos europeus mas com uma diferença que tem custos: saltámos várias etapas.

publicado hoje no i.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Saber envelhecer

O rei vai de submarino

Esta semana ficámos a saber que os portugueses confiam pouco. Não confiam quase nada no governo (apenas 27%), nem nos media (32%) ou nas empresas (34%). A nossa falta de confiança só se compara com o que se passa na Irlanda, e a situação é tal que confiamos muito mais nas multinacionais do que no que é português. O declínio na confiança é filho da depressão económica, mas é enteado do sentimento de que a corrupção se está a generalizar. Os submarinos são o último contributo para esta percepção. Sobre a sua aquisição há um conjunto de perguntas que, por mais que se procure, não se encontram respostas convincentes. Esta opacidade não é independente da cultura de secretismo que caracteriza ainda as instituições militares, em muitos domínios desnecessária. Enquanto no conjunto das políticas públicas se tem progredido na transparência da informação, a reserva mantém-se reduto intransponível na Defesa. Conforme se vão conhecendo justificações tímidas da necessidade dos submarinos e um pouco mais da nebulosa que foi o processo de aquisição, mais abalada fica a nossa confiança. A este propósito é elucidativa a entrevista do general Loureiro dos Santos ao "Diário Económico". Sobre a necessidade da aquisição diz-nos que "havia equipamentos de que as Forças Armadas necessitavam com mais prioridade - os patrulhões oceânicos, os navios antipoluição e os helicópteros", pois os submarinos respondem a uma ameaça de combate que não se põe no actual contexto estratégico; quanto às contrapartidas, "são artifícios para desequilibrar as opções para determinadas propostas". A percepção com que se fica é que o rei não vai nu, mas sim de submarino.
publicado hoje no i.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Merda: o cash for chaos acabou


Aparentemente, a maior vigarice de sempre acabou e já não volta mais.

O joelho de Hope

terça-feira, 6 de abril de 2010

New England+Born to run=A more perfect Union



Uns gajos que conseguem a proeza de citar no refrão a minha música preferida do Billy Bragg e a melhor música do Bruce Springsteen merecem, só por isso, toda a consideração. Mas os Titus Andronicus valem bem mais do que a influência. Monitor é um grande disco que, no meio da Guerra Civil americana, transborda de energia vital. Desde os Pogues que não se gritava tão bem.

O que nasce torto

(...) O problema é que sobre a necessidade militar dos submarinos conhecemos apenas justificações circulares e sabemos que a NATO classificou a aquisição como um "desperdício", já sobre o seu papel económico também pouco se sabe. Numa altura em que se exige uma análise "custo/benefício" para construir um viaduto pedonal, é estranho que, sempre que se coloca uma questão sobre submarinos, nada mais se encontre para além de respostas evasivas.
E é aqui que entram as responsabilidades políticas. Uma das obrigações primeiras de quem governa é esclarecer. Quando o tema são submarinos, assistimos a uma espécie de "passa ao outro e não ao mesmo". A este propósito, a reacção de Durão Barroso foi paradigmática. Confrontado com as notícias do Der Spiegel, não se inibiu de afirmar que não tinha tido "qualquer intervenção directa" no negócio, além da participação na decisão tomada colectivamente em Conselho de Ministros. No fundo, a maior aquisição da democracia portuguesa foi tratada como um decreto-lei do Ministério da Agricultura. Estamos, no mínimo, perante um caso de irresponsabilidade política. Durão Barroso afirmar que não teve "intervenção directa" no negócio dos submarinos é o mesmo que Sócrates dizer que não sabia do negócio PT/TVI, mas a uma escala radicalmente diferente. Não só está em causa um valor dez vezes superior, como, no primeiro caso, era um negócio do Estado; no segundo, entre privados, sendo que o Estado detinha apenas uma ‘golden share' na empresa compradora. (...)
do meu artigo no Diário Económico.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Maiores do que nós



Hoje tudo teve condições para correr mal. Depois do roubo de sexta-feira, que inclusivamente fez corar Mesquita Machado, só faltavam mesmo aqueles quinze minutos iniciais. Andei o dia todo com um pressentimento estranho: o jogo ia correr mal e o jogo estava a correr mal. Nos últimos anos, o meu optimismo tem sido sempre contrariado pela equipa. Este ano, é ao contrário e é o meu pessimismo que é contrariado pela equipa. É para isso que serve o Benfica - para ser maior do que nós; o Benfica tem sido outra vez maior do que nós e hoje foi muito maior do que nós. Na verdade, tirando um ou dois jogos esporádicos, isto não me acontecia desde a primeira passagem do Eriksson pela Luz, quando eu era o miúdo que chorou no golo contra o Liverpool na quinta-feira. Razão tem o João Alves quando há semanas dizia que "este Benfica atropela os adversários como o meu e vai ficar para a história." Para mim, já ficou.

The bravest show that David Simon has ever made



“Treme” isn’t in the business of taking a socioeconomic or political view of the storm’s ravages (if there was a reference to President Bush in the first three episodes, I missed it) or of drawing many moral distinctions between characters. There’s no sense of judgments being made, except when it comes to non-natives. (...) I’d never seen anything like it in a TV show. And yet it didn’t strike me as exotic, since that’s a word I would use to describe something I felt distanced from. But here I felt a strong connection. I think this is what Simon wanted to have happen to viewers, though so far it hasn’t happened to me very often. The characters in the show are ambivalent about outsiders, and if you’re at all sensitive to that you feel intrusive, rude—almost a colonialist—for appreciating what you see and hear in “Treme.” The series virtually prohibits you from loving it, while asking you to value it. In that sense, I suppose, it may be the bravest show that David Simon has ever made.

vá e siga.
(site de Treme)

A raiva é a última a morrer

sábado, 3 de abril de 2010

As fogueiras que ardem de novo

As fogueiras são sempre as mesmas, bem como as formas como são acendidas. Quem arde por estes dias não são bruxas, mas padres. É evidente que a Igreja Católica tem lidado com a pedofilia com os pés – o que não é independente nem do modo tendencialmente pecaminoso como o catolicismo olha para a sexualidade, nem da lamentável cultura de encobrimento com que gere os seus problemas. Mas uma coisa é a propensão para uma sexualidade imatura, resultado de um processo formativo em seminários e do celibato, ou a forma anacrónica como a instituição se procura, a todo o custo, proteger a si própria, em lugar de pedir publicamente desculpa; outra, bem diferente, é tornar todos os padres pedófilos potenciais. Não há aqui inocentes e os primeiros culpados são naturalmente os padres que comprovadamente – sublinho o comprovadamente – abusaram de crianças. Mas talvez não fosse má altura para parar para pensar. Desde logo, a hierarquia da Igreja Católica que, como sugeria António Marujo no Público, deveria ter uma “atitude purificadora e aberta à mudança”, de forma a recuperar a credibilidade perdida nesta crise. Mas, também, os media que fazem de qualquer padre acusado de pedofilia um condenado de facto, com cara e nome, para deleite das massas que assistem às fogueiras. Ainda esta semana, as televisões não se inibiram de exibir imagens de um padre do Porto indiciado – e apenas indiciado – por abusos sexuais. O que prova que mudam os tempos, mas as fogueiras continuam a arder como ardiam. Nós, não só cometemos sempre os mesmos erros, como somos incapazes de aprender com o passado. Quando era preciso uma “ressurreição”, escolhemos ficar agrilhoados.

publicado hoje no i.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Vivemos todos num submarino

O País transformou-se num enorme submarino: passa grande parte do tempo submerso e quando vem à superfície é para mostrar, em todo o seu esplendor, a riqueza que “tem” e não só não pode ter como adquiriu de modo trôpego. Mas, de quando em vez, há boas notícias. Por força das revelações do Der Spiegel, ficámos a saber que o Governo admite denunciar as condições do contrato de compra do “Arpão” e do “Tridente” – uma espécie de atracções para fazerem companhia à “Amália” e ao “Eusébio” do Oceanário (a própria NATO classificou a aquisição como “desperdício). Nunca é tarde para se descobrir que os submarinos servem no essencial para nos afundar um pouco mais e que o negócio das contrapartidas é o chumbo que nos deixará presos ao fundo do mar. O propósito das contrapartidas parece mesmo ser só um: inflacionar o preço de compra e, pelo caminho, enganar uns quantos papalvos. Uma coisa é, por exemplo, adquirir material militar e negociar que a sua manutenção é garantidamente feita em Portugal; outra é adquirir submarinos e esperar que o consórcio que vende se empenhe em colocar produtos da indústria portuguesa no mercado alemão. O resultado só pode ser um: uma execução muito baixa e um risco elevado de lesar o Estado. Mas há sempre quem ganhe quando colectivamente nos afundamos. Diz muito, aliás, sobre o País, que o Parlamento ande entretido numa comissão de inquérito para saber se o primeiro-ministro tinha conhecimento de um negócio abortado entre privados e não se faça uma comissão de inquérito sobre as contrapartidas nos negócios militares, onde há indícios de fraudes que nos custam milhares de milhões.

publicado hoje no i.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Da luta de classes


Conforme o tempo passa, mais eu gosto deste gajo (um bom pretexto para recordar esta grande entrevista, a anos luz daquilo a que nos habituam os políticos).

quarta-feira, 31 de março de 2010

No fundo é isto

Durão Barroso dizer que não teve "intervenção directa" no negócio dos submarinos é a mesma coisa que Sócrates dizer que não sabia do negócio PT/TVI, mas a uma escala radicalmente diferente. No primeiro caso, era um negócio do Estado; no segundo, entre privados, sendo que o Estado detinha apenas uma golden share na empresa compradora. Já agora, com o dinheiro dos submarinos, com jeito, comprava-se dez vezes a TVI (mil milhões para circa 130 milhões).

Intervenção directa

A maior das surpresas sobre "submarinos" de hoje não é a notícia do Der Spiegel, é sim a porta que o Governo deixou entreaberta, por força do incumprimento nas contrapartidas, para denunciar o contrato de compra (boas notícias e mais uma vez prometo regressar ao tema - sobre o qual, aliás, falarei hoje à noite no Roda Livre da TVI24). Mas, no meio desta história no mínimo atribulado do tridente e do arpão, que dizer do modo como Durão Barroso, bem ao seu estilo, passou as responsabilidades para Paulo Portas. Durão alegou não ter tido "qualquer intervenção directa" na compra dos submarinos. Não se percebe o que é que a declaração quer exactamente dizer. Em última análise, nenhum primeiro-ministro tem intervenção directa em nenhum assunto, tendo em conta que há delegação de competências de quase tudo nos ministros. Mas alguém acredita que uma compra de submarinos, que, contrapartidas à parte, custou cerca de mil milhões de euros, poderia ser feita sem envolvimento/acompanhamento/intervenção directa, pelo menos, do primeiro-ministro, do ministro da defesa e, claro, do ministro das finanças. Se não teve intervenção, deveria ter tido. Nada disto, claro, tem a ver com qualquer ilícito. É mesmo uma questão política e não foi nada bonito o modo como Durão chutou a bola para Portas.

Sujeitos de personalidade jurídica indefinida

Gosto tanto de futebol que fujo de “trios de ataque” e entrevistas a dirigentes desportivos a sete pés. Quem me tira uma partidinha da divisão de honra nas manhãs de fim-de-semana transmitida por essa instituição que tanta falta me fez na adolescência que é a Sport TV, tira-me bastante. Já sem tudo o resto, passo bem - o que, pelo caminho, torna possível continuar a gostar de futebol. Mas se bem percebo o que se tem passado, um jogador de futebol que agride um adepto está sujeito a uma moldura disciplinar bem inferior àquela que resulta dos casos em que a agressão é a um “agente desportivo” (não deveria ser exactamente ao contrário?). No fundo, é isso que explica a alteração na suspensão de Hulk e Sapunaru - que, convém não esquecer, andaram mesmo a pontapear sujeitos aparentemente de personalidade jurídica indefinida num túnel. E, por mais voltas que se dê, não se consegue perceber como é que um steward, que está ali porque tem de estar para que o jogo se realize, é um espectador como eu.
(nota de rodapé: este ano, era preciso roubar mesmo muito o Benfica para não sermos campeões)

terça-feira, 30 de março de 2010

segunda-feira, 29 de março de 2010

We all got holes to fill



Aí há dezoito anos conheci assim o Townes Van Zandt. Uma coisa completamente irrelevante para o resto do mundo, já eu nunca recuperei bem dos impactos e das coisas que a partir daí fui ouvindo. (sim, a Margo esquece-se da letra lá para o fim).

sábado, 27 de março de 2010

Agora ou a eternidade?

Hoje é o primeiro dia do resto desta legislatura: abre-se uma curta janela para o Presidente convocar eleições e, coincidência (ou não), o PSD, depois de seis meses de lenta agonia, terá, finalmente, um líder. Mas se é hoje que começam as oportunidades, temo dizê-lo, é também o momento em que elas acabam. Uma nova liderança do PSD precisa de tempo para se afirmar, mas não pode esperar muito tempo; e Cavaco Silva, com presidenciais à porta, a última coisa que quererá é uma crise política nos próximos meses. Ao que acresce que o epílogo de Ferreira Leite foi também o estertor de uma liderança do PSD em cooperação estratégica com Belém. O PSD a partir de hoje vai necessariamente ter de se afastar de Belém, sendo que precisa de Belém para regressar ao poder no curto prazo. Complexo. Há, ainda assim, uma forma de romper com este dilema: fazer tudo ao contrário do que fez a direcção cessante. Ferreira Leite deixa o partido nos mesmíssimos níveis com que o recebeu de Menezes. Ou seja, o problema não era, nem é, a credibilidade. O problema é que enquanto o PSD se concentrar no carácter do primeiro-ministro, conseguirá afectar a popularidade de José Sócrates, mas não será capaz de se afirmar como alternativa. Todo o debate sobre o PEC foi, desse ponto de vista, elucidativo. O PSD revelou-se, simultaneamente, dividido, contra o programa e incapaz de propor um caminho alternativo. O único caminho para o novo líder passa, por isso, por encontrar um espaço de diferenciação nas políticas. Um desafio que precisa de tempo. Ora o tempo disponível é curto, até porque o pós-presidenciais será daqui a uma eternidade.

publicado no i.