"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Banhos de Mar

Primeiro Mar do Ano
Ontem e anteontem tomei os primeiros banhos de mar de 2010. No plural diário: um de manhã; outro à tarde. Às nove da manhã, sozinho e dono do mundo, e, depois, às cinco da tarde, acompanhado por meio mundo, mas não menos feliz por isso. Portámo-nos todos como se tivesse chegado o Verão. Todos os anos, a meados de Abril, caímos no mesmo engano. Sabemos que vêm aí grandes chuvadas e intempéries. Mas que nós, na nossa inocência, gula e esperança, não esperamos. Somos fáceis de enganar, ano após ano, apesar da lembrança de termos sido anualmente enganados desde que nascemos, vez após vez, porque o engano sabe bem. É como a droga, um dia de praia no princípio de Abril. É como o prazer de ser estúpido. É como apostar que vai sair o 36 na roleta 36 vezes seguidas.

Nunca tive a coragem de experimentar as drogas duras (que devem ser boas de mais), nem paciência para aturar as moles (que não são suficientemente boas). As minhas drogas foram sempre as moderadas: as centrais; as divertidas; as que sabem bem; as que ajudam a trabalhar; as que nos matam sem darmos por isso.

O mar português é exactamente como uma dessas drogas - a cocaína; o álcool; as anfetaminas. É um perigo e um prazer. Faz medo mas faz bem. Mata bastante mas dá-nos sempre uma sensação de viver. O engano de acharmos que começou a época da praia é como o feitiço da toxicodependência. É uma estupidez profunda da qual temos consciência mas nem por isso nos liberta.

Bem-vinda seja, a traidora.


Miguel Esteves Cardoso, no Público.

Os Surfer Blood a nadarem numa garagem

sábado, 10 de abril de 2010

Passos e Sócrates, a mesma luta

Passos Coelho encontra-se uma posição simétrica à de Sócrates, quando venceu as directas no PS. Como Sócrates, Passos teve uma maioria esmagadora, mas tem um problema de credibilidade externa que não é independente de défices na relação com as elites do partido e da sociedade civil. Sócrates resolveu o seu problema interno cooptando para a sua direcção muitos apoiantes de Alegre, que viriam a integrar o seu núcleo duro. Passos aparenta estar a fazer o mesmo, ao apresentar uma lista unitária para a direcção política do PSD. As semelhanças não acabam aqui. Passos terá, presumivelmente, em Pacheco Pereira o seu Manuel Alegre - uma voz crítica e isolada no grupo parlamentar, mas com muita notoriedade mediática. Mas unir o partido não basta, como Sócrates sabia em 2004. Passos precisa de ter uma ponte com a Presidência da República - uma alavanca decisiva para chegar ao poder - e de um tema mobilizador. Precisa de alguém que desempenhe o papel de António Costa e de encontrar o seu "choque tecnológico". No entanto, além da estratégia e da táctica, sobra a substância. Com a vitória de Passos, os dois principais partidos têm líderes que são produtos das estruturas partidárias, sem a credenciação social e intelectual que detinham os líderes do passado. Há quem veja nesta tendência um sintoma de empobrecimento da vida política portuguesa, mas pode dar-se o caso de estarmos apenas a aproximar-nos do padrão das democracias mais avançadas, nas quais a política é deixada a políticos profissionais. Podemos, de facto, estar a ficar iguais aos europeus mas com uma diferença que tem custos: saltámos várias etapas.

publicado hoje no i.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Saber envelhecer

O rei vai de submarino

Esta semana ficámos a saber que os portugueses confiam pouco. Não confiam quase nada no governo (apenas 27%), nem nos media (32%) ou nas empresas (34%). A nossa falta de confiança só se compara com o que se passa na Irlanda, e a situação é tal que confiamos muito mais nas multinacionais do que no que é português. O declínio na confiança é filho da depressão económica, mas é enteado do sentimento de que a corrupção se está a generalizar. Os submarinos são o último contributo para esta percepção. Sobre a sua aquisição há um conjunto de perguntas que, por mais que se procure, não se encontram respostas convincentes. Esta opacidade não é independente da cultura de secretismo que caracteriza ainda as instituições militares, em muitos domínios desnecessária. Enquanto no conjunto das políticas públicas se tem progredido na transparência da informação, a reserva mantém-se reduto intransponível na Defesa. Conforme se vão conhecendo justificações tímidas da necessidade dos submarinos e um pouco mais da nebulosa que foi o processo de aquisição, mais abalada fica a nossa confiança. A este propósito é elucidativa a entrevista do general Loureiro dos Santos ao "Diário Económico". Sobre a necessidade da aquisição diz-nos que "havia equipamentos de que as Forças Armadas necessitavam com mais prioridade - os patrulhões oceânicos, os navios antipoluição e os helicópteros", pois os submarinos respondem a uma ameaça de combate que não se põe no actual contexto estratégico; quanto às contrapartidas, "são artifícios para desequilibrar as opções para determinadas propostas". A percepção com que se fica é que o rei não vai nu, mas sim de submarino.
publicado hoje no i.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Merda: o cash for chaos acabou


Aparentemente, a maior vigarice de sempre acabou e já não volta mais.

O joelho de Hope

terça-feira, 6 de abril de 2010

New England+Born to run=A more perfect Union



Uns gajos que conseguem a proeza de citar no refrão a minha música preferida do Billy Bragg e a melhor música do Bruce Springsteen merecem, só por isso, toda a consideração. Mas os Titus Andronicus valem bem mais do que a influência. Monitor é um grande disco que, no meio da Guerra Civil americana, transborda de energia vital. Desde os Pogues que não se gritava tão bem.

O que nasce torto

(...) O problema é que sobre a necessidade militar dos submarinos conhecemos apenas justificações circulares e sabemos que a NATO classificou a aquisição como um "desperdício", já sobre o seu papel económico também pouco se sabe. Numa altura em que se exige uma análise "custo/benefício" para construir um viaduto pedonal, é estranho que, sempre que se coloca uma questão sobre submarinos, nada mais se encontre para além de respostas evasivas.
E é aqui que entram as responsabilidades políticas. Uma das obrigações primeiras de quem governa é esclarecer. Quando o tema são submarinos, assistimos a uma espécie de "passa ao outro e não ao mesmo". A este propósito, a reacção de Durão Barroso foi paradigmática. Confrontado com as notícias do Der Spiegel, não se inibiu de afirmar que não tinha tido "qualquer intervenção directa" no negócio, além da participação na decisão tomada colectivamente em Conselho de Ministros. No fundo, a maior aquisição da democracia portuguesa foi tratada como um decreto-lei do Ministério da Agricultura. Estamos, no mínimo, perante um caso de irresponsabilidade política. Durão Barroso afirmar que não teve "intervenção directa" no negócio dos submarinos é o mesmo que Sócrates dizer que não sabia do negócio PT/TVI, mas a uma escala radicalmente diferente. Não só está em causa um valor dez vezes superior, como, no primeiro caso, era um negócio do Estado; no segundo, entre privados, sendo que o Estado detinha apenas uma ‘golden share' na empresa compradora. (...)
do meu artigo no Diário Económico.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Maiores do que nós



Hoje tudo teve condições para correr mal. Depois do roubo de sexta-feira, que inclusivamente fez corar Mesquita Machado, só faltavam mesmo aqueles quinze minutos iniciais. Andei o dia todo com um pressentimento estranho: o jogo ia correr mal e o jogo estava a correr mal. Nos últimos anos, o meu optimismo tem sido sempre contrariado pela equipa. Este ano, é ao contrário e é o meu pessimismo que é contrariado pela equipa. É para isso que serve o Benfica - para ser maior do que nós; o Benfica tem sido outra vez maior do que nós e hoje foi muito maior do que nós. Na verdade, tirando um ou dois jogos esporádicos, isto não me acontecia desde a primeira passagem do Eriksson pela Luz, quando eu era o miúdo que chorou no golo contra o Liverpool na quinta-feira. Razão tem o João Alves quando há semanas dizia que "este Benfica atropela os adversários como o meu e vai ficar para a história." Para mim, já ficou.

The bravest show that David Simon has ever made



“Treme” isn’t in the business of taking a socioeconomic or political view of the storm’s ravages (if there was a reference to President Bush in the first three episodes, I missed it) or of drawing many moral distinctions between characters. There’s no sense of judgments being made, except when it comes to non-natives. (...) I’d never seen anything like it in a TV show. And yet it didn’t strike me as exotic, since that’s a word I would use to describe something I felt distanced from. But here I felt a strong connection. I think this is what Simon wanted to have happen to viewers, though so far it hasn’t happened to me very often. The characters in the show are ambivalent about outsiders, and if you’re at all sensitive to that you feel intrusive, rude—almost a colonialist—for appreciating what you see and hear in “Treme.” The series virtually prohibits you from loving it, while asking you to value it. In that sense, I suppose, it may be the bravest show that David Simon has ever made.

vá e siga.
(site de Treme)

A raiva é a última a morrer

sábado, 3 de abril de 2010

As fogueiras que ardem de novo

As fogueiras são sempre as mesmas, bem como as formas como são acendidas. Quem arde por estes dias não são bruxas, mas padres. É evidente que a Igreja Católica tem lidado com a pedofilia com os pés – o que não é independente nem do modo tendencialmente pecaminoso como o catolicismo olha para a sexualidade, nem da lamentável cultura de encobrimento com que gere os seus problemas. Mas uma coisa é a propensão para uma sexualidade imatura, resultado de um processo formativo em seminários e do celibato, ou a forma anacrónica como a instituição se procura, a todo o custo, proteger a si própria, em lugar de pedir publicamente desculpa; outra, bem diferente, é tornar todos os padres pedófilos potenciais. Não há aqui inocentes e os primeiros culpados são naturalmente os padres que comprovadamente – sublinho o comprovadamente – abusaram de crianças. Mas talvez não fosse má altura para parar para pensar. Desde logo, a hierarquia da Igreja Católica que, como sugeria António Marujo no Público, deveria ter uma “atitude purificadora e aberta à mudança”, de forma a recuperar a credibilidade perdida nesta crise. Mas, também, os media que fazem de qualquer padre acusado de pedofilia um condenado de facto, com cara e nome, para deleite das massas que assistem às fogueiras. Ainda esta semana, as televisões não se inibiram de exibir imagens de um padre do Porto indiciado – e apenas indiciado – por abusos sexuais. O que prova que mudam os tempos, mas as fogueiras continuam a arder como ardiam. Nós, não só cometemos sempre os mesmos erros, como somos incapazes de aprender com o passado. Quando era preciso uma “ressurreição”, escolhemos ficar agrilhoados.

publicado hoje no i.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Vivemos todos num submarino

O País transformou-se num enorme submarino: passa grande parte do tempo submerso e quando vem à superfície é para mostrar, em todo o seu esplendor, a riqueza que “tem” e não só não pode ter como adquiriu de modo trôpego. Mas, de quando em vez, há boas notícias. Por força das revelações do Der Spiegel, ficámos a saber que o Governo admite denunciar as condições do contrato de compra do “Arpão” e do “Tridente” – uma espécie de atracções para fazerem companhia à “Amália” e ao “Eusébio” do Oceanário (a própria NATO classificou a aquisição como “desperdício). Nunca é tarde para se descobrir que os submarinos servem no essencial para nos afundar um pouco mais e que o negócio das contrapartidas é o chumbo que nos deixará presos ao fundo do mar. O propósito das contrapartidas parece mesmo ser só um: inflacionar o preço de compra e, pelo caminho, enganar uns quantos papalvos. Uma coisa é, por exemplo, adquirir material militar e negociar que a sua manutenção é garantidamente feita em Portugal; outra é adquirir submarinos e esperar que o consórcio que vende se empenhe em colocar produtos da indústria portuguesa no mercado alemão. O resultado só pode ser um: uma execução muito baixa e um risco elevado de lesar o Estado. Mas há sempre quem ganhe quando colectivamente nos afundamos. Diz muito, aliás, sobre o País, que o Parlamento ande entretido numa comissão de inquérito para saber se o primeiro-ministro tinha conhecimento de um negócio abortado entre privados e não se faça uma comissão de inquérito sobre as contrapartidas nos negócios militares, onde há indícios de fraudes que nos custam milhares de milhões.

publicado hoje no i.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Da luta de classes


Conforme o tempo passa, mais eu gosto deste gajo (um bom pretexto para recordar esta grande entrevista, a anos luz daquilo a que nos habituam os políticos).

quarta-feira, 31 de março de 2010

No fundo é isto

Durão Barroso dizer que não teve "intervenção directa" no negócio dos submarinos é a mesma coisa que Sócrates dizer que não sabia do negócio PT/TVI, mas a uma escala radicalmente diferente. No primeiro caso, era um negócio do Estado; no segundo, entre privados, sendo que o Estado detinha apenas uma golden share na empresa compradora. Já agora, com o dinheiro dos submarinos, com jeito, comprava-se dez vezes a TVI (mil milhões para circa 130 milhões).

Intervenção directa

A maior das surpresas sobre "submarinos" de hoje não é a notícia do Der Spiegel, é sim a porta que o Governo deixou entreaberta, por força do incumprimento nas contrapartidas, para denunciar o contrato de compra (boas notícias e mais uma vez prometo regressar ao tema - sobre o qual, aliás, falarei hoje à noite no Roda Livre da TVI24). Mas, no meio desta história no mínimo atribulado do tridente e do arpão, que dizer do modo como Durão Barroso, bem ao seu estilo, passou as responsabilidades para Paulo Portas. Durão alegou não ter tido "qualquer intervenção directa" na compra dos submarinos. Não se percebe o que é que a declaração quer exactamente dizer. Em última análise, nenhum primeiro-ministro tem intervenção directa em nenhum assunto, tendo em conta que há delegação de competências de quase tudo nos ministros. Mas alguém acredita que uma compra de submarinos, que, contrapartidas à parte, custou cerca de mil milhões de euros, poderia ser feita sem envolvimento/acompanhamento/intervenção directa, pelo menos, do primeiro-ministro, do ministro da defesa e, claro, do ministro das finanças. Se não teve intervenção, deveria ter tido. Nada disto, claro, tem a ver com qualquer ilícito. É mesmo uma questão política e não foi nada bonito o modo como Durão chutou a bola para Portas.

Sujeitos de personalidade jurídica indefinida

Gosto tanto de futebol que fujo de “trios de ataque” e entrevistas a dirigentes desportivos a sete pés. Quem me tira uma partidinha da divisão de honra nas manhãs de fim-de-semana transmitida por essa instituição que tanta falta me fez na adolescência que é a Sport TV, tira-me bastante. Já sem tudo o resto, passo bem - o que, pelo caminho, torna possível continuar a gostar de futebol. Mas se bem percebo o que se tem passado, um jogador de futebol que agride um adepto está sujeito a uma moldura disciplinar bem inferior àquela que resulta dos casos em que a agressão é a um “agente desportivo” (não deveria ser exactamente ao contrário?). No fundo, é isso que explica a alteração na suspensão de Hulk e Sapunaru - que, convém não esquecer, andaram mesmo a pontapear sujeitos aparentemente de personalidade jurídica indefinida num túnel. E, por mais voltas que se dê, não se consegue perceber como é que um steward, que está ali porque tem de estar para que o jogo se realize, é um espectador como eu.
(nota de rodapé: este ano, era preciso roubar mesmo muito o Benfica para não sermos campeões)

terça-feira, 30 de março de 2010

segunda-feira, 29 de março de 2010

We all got holes to fill



Aí há dezoito anos conheci assim o Townes Van Zandt. Uma coisa completamente irrelevante para o resto do mundo, já eu nunca recuperei bem dos impactos e das coisas que a partir daí fui ouvindo. (sim, a Margo esquece-se da letra lá para o fim).

sábado, 27 de março de 2010

Agora ou a eternidade?

Hoje é o primeiro dia do resto desta legislatura: abre-se uma curta janela para o Presidente convocar eleições e, coincidência (ou não), o PSD, depois de seis meses de lenta agonia, terá, finalmente, um líder. Mas se é hoje que começam as oportunidades, temo dizê-lo, é também o momento em que elas acabam. Uma nova liderança do PSD precisa de tempo para se afirmar, mas não pode esperar muito tempo; e Cavaco Silva, com presidenciais à porta, a última coisa que quererá é uma crise política nos próximos meses. Ao que acresce que o epílogo de Ferreira Leite foi também o estertor de uma liderança do PSD em cooperação estratégica com Belém. O PSD a partir de hoje vai necessariamente ter de se afastar de Belém, sendo que precisa de Belém para regressar ao poder no curto prazo. Complexo. Há, ainda assim, uma forma de romper com este dilema: fazer tudo ao contrário do que fez a direcção cessante. Ferreira Leite deixa o partido nos mesmíssimos níveis com que o recebeu de Menezes. Ou seja, o problema não era, nem é, a credibilidade. O problema é que enquanto o PSD se concentrar no carácter do primeiro-ministro, conseguirá afectar a popularidade de José Sócrates, mas não será capaz de se afirmar como alternativa. Todo o debate sobre o PEC foi, desse ponto de vista, elucidativo. O PSD revelou-se, simultaneamente, dividido, contra o programa e incapaz de propor um caminho alternativo. O único caminho para o novo líder passa, por isso, por encontrar um espaço de diferenciação nas políticas. Um desafio que precisa de tempo. Ora o tempo disponível é curto, até porque o pós-presidenciais será daqui a uma eternidade.

publicado no i.

sexta-feira, 26 de março de 2010

A gamela

Segunda-feira, Paulo Rangel regressará a Bruxelas. Ironia das ironias, para o exacto lugar onde colocou Elisa Ferreira e Ana Gomes. Belo epitáfio para a política da verdade.

Um Bloco Central de Palácios

Os mercados queriam um PEC corajoso e consensual. Basta ler as razões da Fitch para baixar o rating, para perceber que os mercados ficariam sempre insatisfeitos com a dimensão da austeridade prometida. Um PEC consensual é também impossível. O cenário político não podia ser pior: um partido do governo dividido e sem maioria e um PSD dividido e sem posição ou alternativa. Já não restam dúvidas de que a crise política se somará à financeira, num processo dramático de reforço mútuo. Como sair daqui? Emparedados entre a possibilidade de regressar a eleições, que produziriam o mesmo resultado, e a inviabilidade da solução que tem sido tentada - governação à vista, com acordos pontuais -, resta uma saída: uma coligação entre os dois principais partidos. Com a pressão financeira à espreita e o regresso à austeridade com custos sociais, nenhum governo de maioria relativa é sustentável quatro anos. Mas uma coisa era um bloco central claro, com negociações, cedências e compromissos perceptíveis. Outra é um de bastidores, baseado em jogadas palacianas que descredibilizam os partidos e não melhoram, de forma sustentada, o cenário político. Enquanto os partidos continuarem manifestamente incapazes de se entenderem, um outro bloco central começará a ser construído. Como aliás se foi percebendo do modo como o PSD foi formando o voto em relação ao PEC, está a germinar um bloco central de palácios, paradoxalmente construído entre São Bento e Belém. Se for este o caminho, chegaremos a 2013 com os partidos menorizados e um país politicamente ainda mais pobre.

publicado hoje no i.

O enigma Ferreira Leite

Havia uma racionalidade para a manutenção de Ferreira Leite na liderança do PSD após a derrota nas legislativas: viabilizar o Orçamento de Estado e o PEC e com isso libertar a próxima direcção, que não teria de aparecer ao lado do Governo na aprovação de políticas de austeridade. Depois das indecisões desta semana, a única explicação para a longa agonia em que a liderança do PSD se encontra desde Setembro desapareceu. As “famosas últimas palavras” de Ferreira Leite foram ditas ontem na reunião do grupo parlamentar: “ainda sou Presidente do partido e defendo a abstenção”. Dificilmente se encontraria maior sintoma de fragilidade política e melhor prova de que de pouco serviu a teimosia. Uma liderança demissionária é por natureza uma liderança frágil e sem nenhuma capacidade política. O PSD, em lugar de estar a escolher hoje o seu líder, já deveria ter resolvido o assunto em Novembro ou Dezembro. É o que se costuma chamar de “óbvio ululante” e a persistente má avaliação da imagem de Ferreira Leite nos barómetros desde as eleições é disso prova.
Mas se essa é uma parte do enigma, há outra que dificilmente encontrará explicação: o tipo de afirmação política que Ferreira Leite procurou. Uma combinação única entre falta de competências na comunicação política, com um discurso de um pessimismo sem paralelo e sem qualquer proposta para um caminho alternativo. Tudo isto pautado por um subtexto no qual categorias que deveriam ser marginais para a disputa política – da verdade ao carácter – foram centrais para a diferenciação do PSD face ao PS. Os resultados desta opção estratégica estão à vista: Ferreira Leite deixa o PSD com scores idênticos aos que herdou de Menezes.
comentário ao barómetro da Marktest, no último dia de Ferreira Leite líder do PSD (publicado no Diário Económico)

quinta-feira, 25 de março de 2010

Cartas ao director,

Não tive qualquer participação no programa eleitoral do PS, nem sou dirigente do partido – desde 2004 sou o que sempre fui, militante de base. Sobre o PEC, a minha posição a propósito da evolução da despesa com as prestações não-contributivas está bem longe da do BE, como, para bom entendedor, se pode ler aqui. Sobre a política em geral, há cerca de um ano que me parece - e já o disse e escrevi várias vezes - que perante a impossibilidade de haver uma maioria absoluta de um só partido, a única solução viável era, infelizmente e por culpa da esquerda, a formação de um bloco central. Os custos seriam, ainda assim, inferiores aos benefícios e, em particular, inferiores aos que continuaremos a enfrentar. É, no essencial, isto.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Vida para além do défice

Esqueçam o PEC, os estabilizadores automáticos, as privatizações e o cenário macroeconómico prudente. Há coisas bem mais importantes e que estarão por aqui, a pairar sobre nós, bem para além do horizonte temporal do regresso à consolidação. Ando para deixar isto aqui há várias semanas. Hoje pareceu-me um dia particularmente adequado para o fazer. O isto é um texto notável do José Manuel dos Santos, que saiu no Expresso há umas semanas. Se só poderem ler um texto este ano, leiam este. Fica um excerto, o resto está aqui. Eu, acompanhado por mais duas ou três pessoas, só posso agradecer ao José Manuel ter tido a coragem e a lucidez para escrever este texto. É a prova de que há ainda homens e que é nos tempos sombrios que se percebe quem é quem.

"Nestes dias sujos e vociferantes, muitas palavras se têm escutado sobre as escutas. Em quase todas elas, há aquela mistura de moralismo e ódio, alvoroço e justicialismo, mediocridade e exibicionismo que preside aos grandes desastres. Dizer que os meios ganham razão pelos fins é dar voz à barbárie. Mas há sempre juristas para a defender, tornando legítimo o ilegal e justo o intolerável. Em todos os crimes dos despotismos, do ordálio medieval aos julgamentos de Moscovo, houve juristas a fazer da sua argumentação uma justificação e mesmo uma apologia do monstruoso. Esses crimes foram sempre perpetrados em nome de um "interesse superior": da Verdade, do Bem, do Estado, da Nação, do Partido, do Povo, do Público, da Raça, de Deus. Ficaremos todos mais prevenidos e lúcidos quando um dia se fizer uma história do direito como aliado da barbárie. Kafka não era um escritor com excesso de imaginação..."

Messi ou Maradona?



(ou de como este blog lentamente vai regressar à normalidade democrática)

terça-feira, 23 de março de 2010

A solução preguiçosa

(...) A poupança no regime não-contributivo (complemento solidário para idosos, abonos, subsídio social de desemprego e rendimento social de inserção) tem sido recebida com estupefacção. Há boas razões para isso: é precisamente numa altura de crise que a existência de uma rede de mínimos sociais é mais necessária e, no passado recente, o seu desenvolvimento foi um elemento central da modernização programática do PS (a nova geração de políticas sociais). Uma coisa é clara no PEC: a redução dos apoios sociais é ideologicamente errada e politicamente preguiçosa. (...)
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Na ressaca do dia mundial da poesia


são papoilas saltitantes.

sábado, 20 de março de 2010

A lei Pacheco Pereira

As leis devem ser gerais e abstractas. Uma verdade que não colhe no PSD. A lei da rolha é de facto uma lei ad hominem, tem um destinatário claro: Pacheco Pereira; mas, acima de tudo, é o sintoma de que há um problema larvar no partido. É no mínimo insólito que, perante uma crise profunda e com o governo debilitado, o PSD se entretenha a discutir estatutos e a limitar os direitos dos militantes dissonantes. O PSD tem um problema de lealdade - "os tiros nos pés" de que falou Marques Mendes -, mas a unidade só se recupera com poder. Até regressar ao governo, o partido estará condenado aos desentendimentos internos. E a sua principal raiz não é propriamente ideológica. O PSD vive preso numa clivagem entre um partido de "cima" e um partido de "baixo". Um partido que tem presença mediática e outro que se mantém activo no território, através de micropoderes locais com escassa notoriedade pública. Nos últimos anos, o partido de "baixo" (com Santana e Menezes) tem alternado no poder interno com o partido de "cima" (com Marques Mendes e Ferreira Leite), sem que nenhum dos partidos se consiga afirmar perante o outro. O resultado está à vista. O partido de "baixo", que não aparece nos jornais, vinga-se, com a "lei da rolha", do partido de "cima", personificado em Pacheco Pereira, que tem todas as tribunas disponíveis, para depois o partido de "cima" prometer revogar imediatamente uma norma que o partido de "baixo" acabou de aprovar maioritariamente. Mais do que saber se deve ser liberal, conservador ou social-democrata, o PSD tem de encontrar um líder capaz de romper com esta clivagem.
publicado no i.

sexta-feira, 19 de março de 2010

As pessoas no fim

O PEC tal como conhecido a semana passada combinava austeridade com equidade. Mas esta semana, conhecido na integralidade, emerge uma agenda que esteve escondida. Ao contrário do que parecia, quem vai sofrer mais com o PEC não são as classes médias, são os mais pobres. É dramático, mas o maior contributo para a diminuição da despesa é dado pela redução das transferências do Orçamento do Estado para a segurança social. Ou seja, as políticas que formam a rede de mínimos sociais verão o seu financiamento muito limitado (do complemento solidário para idosos ao subsídio social de desemprego, passando pelo rendimento social de inserção). Não falo do modo como esta opção contradiz o programa eleitoral com que o PS se apresentou às eleições, nem sequer do que esta escassez de recursos representará num país pobre como o nosso, quando o desemprego se manterá a níveis socialmente intoleráveis. O que está em causa é também uma questão de identidade partidária. Há muita falta de memória na política, mas não tanta que faça esquecer que, há perto de 20 anos, quando o PS, com António Guterres, redefiniu a sua linha programática, um dos eixos centrais desse aggiornamento foi a criação de uma rede de mínimos sociais, baseada em direitos de cidadania. No tempo em que os slogans políticos eram levados a sério, era o que queria dizer "as pessoas primeiro". Subitamente, numa terça-feira, o governo do PS vem limitar o financiamento dessa rede, mas acima de tudo cria um tecto administrativo ao que se propõe gastar. Em última análise acaba com uma lógica de direitos de cidadania e faz regressar a política de combate à pobreza aos apoios discricionários com que rompeu no passado. A mensagem é clara: as pessoas ficam para o fim.

publicado hoje no i.

quinta-feira, 18 de março de 2010

"Quem é ateu e viu milagres como eu"




Hoje à noite, na Capela do Rato em Lisboa, participarei numa mesa redonda sobre "Deus: questão para Crentes e não-Crentes", com o Henrique Raposo e Assunção Cristas, moderados pelo João Wengorovius Menezes. Em cima, algumas das coisas de que prometo falar.

Teoria da relatividade

Quando eu sou a esquerda do que quer que seja, há claramente um problema. Temo que não seja eu o problema.

terça-feira, 16 de março de 2010

Estado de choque

Fica aqui uma promessa de regressar ao tema, mas não posso deixar de considerar chocante o plafonamento da despesa com o rendimento mínimo prevista no PEC. Há certamente muitas dimensões em que é possível (e é necessário) aprofundar a fiscalização e as condições de atribuição e renovação da prestação, mas uma coisa radicalmente diferente é fixar administrativamente, sem se perceber com base em quê, um tecto para a despesa. Fica assim provado que o programa eleitoral do PS foi uma brincadeira e que o Governo incorporou as críticas mais ferozes ao RSI (ou seja, o que era a demagogia recente de Paulo Portas passou a ser a norma do executivo - o que, por exemplo, fere a identidade política do PS, desde 1995 com António Guterres, designadamente a prioridade ao combate da pobreza mais severa). Mas, ainda assim, o mais dramático serão as consequências sociais da opção. Num contexto em que o desemprego previsto para 2013 será superior a 9% e em que o desemprego subsidiado terá diminuído muito, o natural seria que houvesse mais despesa com o RSI (no fundo, a rede de mínimos que seria o que sobraria para milhares de famílias). O que o Governo propõe é pura e simplesmente retirar toda a protecção a milhares de famílias, designadamente a protecção não-contributiva. Temo dizê-lo, mas o esforço de consolidação orçamental tem, de facto, de ser alcançado, mas, por isso mesmo, para que seja possível fazê-lo, é preciso criar uma rede de mínimos coerente e eficaz. E que tal cortar os 130 milhões de euros que se quer cortar com "os malandros do rendimento mínimo" em prémios e salários no sector empresarial do Estado ou, em alternativa, incluir já no OE para 2010 a tributação das mais valias bolsistas. Suspeito que a receita seria bem superior à despesa que agora se quer poupar. É mesmo uma questão de prioridades e estas não são mesmo as minhas.
(entretanto subscrevo integralmente o que o Paulo aqui escreve sobre o mesmo assunto)

segunda-feira, 15 de março de 2010

O Presidente da COC

Passei este fim-de-semana em Mafra, a comentar a “reunião magna do PPD/PSD”. Feitas as contas, é o terceiro congresso do PPD/PSD a que assisto integralmente (o que já dá algum curriculum). O que me pareceu, no essencial, do que se tinha passado até Domingo à hora de almoço está dito aqui, mas, no fim, tudo somado, fiquei com a sensação de que se tivesse sido José Sócrates a organizar este congresso, ele não teria sido muito diferente. Começou com uma discussão inenarrável sobre se o “enclave” deveria durar um ou dois dias, depois Marcelo fez a única intervenção com cabeça, tronco e membros (e com isso ajudou a consolidar a percepção de que os candidatos são, de facto, segundas, terceiras e quartas escolhas), para tudo culminar na aprovação de uma proposta estatutária que, quando ouvi referida ainda no Sábado, pensei, na minha ingenuidade, que não recolheria nenhuns apoios. Para mim, este dia e meio em Mafra foi a prova acabada de que a mão tentacular de Sócrates chega bem mais longe do que se pensa. Se não foi ele o Presidente da COC, disfarçou muito bem.

sábado, 13 de março de 2010

O dilema de Passos

O congresso do PSD que hoje se inicia é o culminar do falhanço de dois planos que tinham o mesmo objectivo: impedir que Passos Coelho fosse o próximo líder do partido. Plano A, a criação de uma vaga de fundo para que Cristo voltasse a descer à Terra, sob a forma de Marcelo ou Rio; plano B, o lançamento de uma candidatura vitoriosa, herdeira da linha dura do Ferreira Leitismo. Os planos falharam, mas a muito provável vitória de Passos Coelho deixa-o perante um novo dilema, que a entrevista de Cavaco Silva só veio adensar. Passos Coelho vencerá porque sugere que com ele o PSD regressará ao poder. Em última análise, é isso que move os militantes que votarão nas directas. Mas esta sugestão só funciona se for acompanhada de uma opção táctica que leve os sociais-democratas ao governo a curto prazo. Um pouco à imagem do que aconteceu com Sócrates quando foi eleito secretário-geral do PS, Passos Coelho precisa de ir a votos rapidamente, sob pena de ser vítima do mesmo que está acontecer ao primeiro-ministro: ser queimado em lume brando. Acontece que não está nas suas mãos precipitar uma crise política. É necessário que o Presidente não vete politicamente esta intenção. Ora aqui os interesses de Cavaco Silva colidem com os interesses de Passos Coelho. Enquanto Cavaco quer tudo menos turbulência política até às presidenciais, Passos precisa de eleições quanto antes. Se procurar precipitar uma crise política, Passos corre o risco de ser desautorizado desde Belém; se esperar até daqui a um ano e meio, corre o risco de ser politicamente desfeito pelos seus pares.

publicado hoje no i.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Theory and Practice in theory and in practice

My generation was obsessed with the distinction between theory and practice—I knew a man in California whose doctoral dissertation was devoted to “Theory and Practice in theory and in practice.” Sexually, we lived the contrast. In theory we prided ourselves on being the cutting edge. But in practice we were a conformist cohort: shaped more by our ’50s youth than our ’60s adolescence. A surprising number of us married young—often to our first serious girlfriend. And of that number, many have stayed married. Championing the inalienable right of everyone to do anything, we had scant occasion to do much ourselves.
a única coisa a fazer é, mesmo, ir ler o resto do que o Tony Judt escreve aqui.

Um PE

Há uma letra a mais no PEC. O "C" de crescimento. Portugal apresentou um "PE", um programa de estabilidade, mas, no horizonte temporal de 2013 não poderemos esperar crescimento. É este o nosso drama, armadilhados que estamos por uma zona euro que não foi concebida para choques como o que enfrentamos. Aliás, o governo britânico, por exemplo, não o esconde, ao reconhecer no seu próprio PEC que este pode desacelerar a retoma. Ainda assim, o PEC português serve para mostrar como restam margens de manobra políticas. Desde logo porque, em lugar da adopção acrítica da receita dos cortes cegos, é revelada uma preocupação com a equidade, através de uma distribuição desigual dos custos da austeridade (da taxação das mais-valias mobiliárias, à criação dum escalão mais elevado no IRS e, acima de tudo, com a diferenciação nos benefícios fiscais - que são, de facto, um poderoso mecanismo de reprodução de desigualdades materiais). Existe, contudo, outro lado da moeda e esse é que doerá de facto. A credibilidade deste PEC assenta num cenário macroeconómico muito prudente - aliás, ao arrepio do histórico recente do governo português -, que, a ser tomado como bom, torna inviável que haja uma diminuição do desemprego significativa até 2013. Com um desemprego estimado nos 9,3% e com o número de desempregados sem subsídio a crescer todos os meses, chegaremos a 2013 com centenas de milhar de portugueses sem rendimentos. O cenário é socialmente sustentável? Claramente não. Havia alternativa? Também não. A menos que a Europa decida, de uma vez por todas, acrescentar o "C" que falta a outro "PE", o Pacto de Estabilidade.
publicado hoje no i.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Regressos e pequenas invejas



Os National estrearam ontem no Jimmy Fallon um tema do seu novo disco, High Violet, e não está nada mal, mesmo nada mal (chama-se "terrible love). Bem sei que isto não se faz em público, mas os National vão abrir um concerto dos Pavement na Europa e, custa-me muito informar, eu já sou legítimo proprietário de dois bilhetes. Falo disto porque aqui pode ser vista uma retrospectiva dos telediscos do Malkmus & friends.

quarta-feira, 10 de março de 2010

E os juízes tornam-se também médicos

O Centro de Estudos Judiciários não tem uma nova direcção nomeada. O assunto é naturalmente grave, até porque dura há bastante tempo. Ainda assim, não tão grave como seria a aventada nomeação do "gato constipado" para o lugar - uma espécie de prémio de carreira. Entretanto, um dos directores-adjuntos do CEJ teve um enfarte. Perante isto, fiquei hoje de manhã a saber através da TSF que António Martins, que preside à Associação Sindical dos Juízes, "afirma ter a certeza de que o problema de saúde foi motivado pelo momento pelo qual está a passar esta instituição".

As prioridades certas


now you're telling me
you're not nostalgic
then give me another word for it
you who are so good with words
and at keeping things vague
because I need some of that vagueness now
it's all come back too clearly
yes I loved you dearly
and if you're offering me diamonds and rust
I've already paid

hoje ou aqui.

A nossa miséria ou uma curta metragem sobre os especialistas na presidência da república



Esta coisa começa por fazer rir, mas no fim só podemos ter vontade de chorar.

terça-feira, 9 de março de 2010

Virgens ofendidas

(...) No dia-a-dia temos tido sinais visíveis da vontade de poder dos magistrados, mas ficamos a saber também que isso é feito de modo reflectido e como resposta a uma convocatória "do poder judicial para um outro exercício da democracia". Aliás, os magistrados não o escondem, quando se questionam se "estaremos perante uma transferência de legitimidade dos poderes legislativo e executivo para o judicial?". Claro que esta alteração na "narrativa" produz efeitos: não só "tem de explicar o papel dos vários poderes do Estado Democrático de um outro modo", como "densifica a dimensão política" do judiciário. Como seria de esperar, tudo tende a acabar em reivindicações sobre a carreira: "o estatuto dos juízes deixa para a lei ordinária um largo campo de regulamentação".

O que nos é sugerido é não apenas uma nova centralidade para o poder judicial, como também uma ofensiva que passa pela diminuição das esferas de autonomia dos poderes políticos. O que nos lembra que já não estamos apenas numa fase de tensão latente. Se a saída para a "democracia descontente" em que nos encontramos passar por uma transferência da legitimidade de poderes com legitimidade eleitoral (como são o legislativo e o executivo), para um poder cuja legitimidade radica em mecanismos fracamente sindicáveis pelos cidadãos, há boas razões para termos medo. É um sintoma de que está a germinar uma visão em que o poder judicial já não quer ser independente do poder político, mas sim ver este subjugado ao seu poder.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.
(para quem tiver curiosidade, o texto da associação sindical dos juízes portugueses, que cito, pode ser lido, em todo o seu esplendor, aqui.)

segunda-feira, 8 de março de 2010

E Deus criou a mulher (madura)


Kathryn Bigelow tem 58 anos e Kim Gordon 56. Os EUA são definitivamente o Sol da Terra.

E Deus criou a mulher

E Deus criou a mulher

sábado, 6 de março de 2010

Eu e o "pequeno judeu que escreveu a Bíblia"


gostamos deste gajo.

O nosso caso Lewinsky

A PT queria comprar a Media Capital e a Media Capital queria ser comprada pela PT, mas o negócio foi interrompido pela Golden Share. Foi o que nos disseram esta semana Zeinal Bava e Bernardo Bairrão. Estamos perante um caso de coito interrompido por interferência de terceiros. Face a isto, o Parlamento prepara-se para fazer uma comissão de inquérito, porque José Sócrates afirmou não saber do negócio que ambas as partes queriam, de facto, que fosse feito e que o primeiro-ministro não deixou que se fizesse. Estranho, mas é assim. De facto, em nome do interesse público, não faz sentido que a PT, enquanto existe golden share, regresse aos conteúdos. Mas uma coisa é desde já sabida: o Estado tinha poder para vetar o negócio, mas, tendo em conta a complexa estrutura accionista da PT, dificilmente poderia ser o seu artífice moral. Não deixa, aliás, de ser curioso que saibamos tanto sobre o papel de personagens menores neste enredo e tão pouco sobre o de actores determinantes (à cabeça, o Banco Espírito Santo). No fim, resta uma certeza. Teremos uma comissão de inquérito em tudo igual à que delapidou o capital político de Clinton. Também aqui o tema não será o direito a ter amantes, mas sim saber se um político pode cometer perjúrio. No fatídico dia 24 de Junho, Sócrates alegou desconhecimento de um negócio que era conhecido por muitos (e no qual os seus amigos políticos se puseram, no mínimo, em bicos de pés); agora, em Fevereiro, inaugura-se uma nova fase da vida política portuguesa. Vai ser avaliado, com os poderes parajudiciais que detém uma comissão de inquérito parlamentar, o papel da mentira na política.
publicado no i.

sexta-feira, 5 de março de 2010

A miséria do sindicalismo

"A greve na função pública é apenas a preparação da ampliação da luta." Foi assim que Carvalho da Silva antecipou a greve de ontem, em entrevista ao "Diário Económico". Não es- panta: na mesma entrevista classificou o acordo tripartido alcançado na Irlanda como resultante de uma "cultura diferente" e classificou o apelo à negociação como uma "treta" (sic). O sindicalismo português é apenas mais um elemento da miséria política do nosso país. Perante dificuldades extremas e constrangimentos que aparentam ser inultrapassáveis, o que se exigia de todas as partes eram convergências: entre partidos e governo, entre empresários e sindicatos. O que nos é oferecido é precisamente o contrário: uma total incapacidade de negociar, de abandonar a rigidez da posição de partida para alcançar um compromisso. Entretanto, o desemprego continua a sua imparável cavalgada e a dívida que temos de pagar lá fora fica todos os dias mais cara. Portugal tem níveis de conflitualidade laboral (medidos pelo número de greves) comparativamente baixos e estes têm descido de modo acen- tuado. A administração pública é a excepção. Hoje faz greve quem pode (quem tem uma relação laboral protegida) e os funcionários públicos podem. Contudo, é também sabido, o padrão de baixa conflitualidade laboral coexiste com níveis elevados de contestação política de base sindical. No fundo, as greves servem para "ampliar a luta". As consequências da estratégia serão incontornáveis: um acantonamento político e social do movimento sindical, sem ganhos visíveis para os trabalhadores. Precisamos, de facto, de "outras políticas", mas precisamos não menos de outros sindicatos.
publicado hoje no i.

quinta-feira, 4 de março de 2010

A Fanny Ardant e eu


gostamos deste gajo.

Homens em tempos sombrios


Cada dia que passa e cada jornal que leio, mais gosto deste gajo.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Recordar é viver


"Then tell me about nothingness. I'd like to hear a complete account of nothing."

terça-feira, 2 de março de 2010

Recordar é viver


a propósito do que o Ricardo relata aqui.

Canalhocracia*

Faço votos sinceros que os receptadores que andam entretidos a chafurdar nos mails privados que receberam (de uma mailing list de que faço parte), diligentemente entregues por um bufo, que dá pelo nome de Carlos Santos, façam bom proveito do que têm lido. No essencial, é isto que tenho a dizer.
(para detalhes, o melhor é ler o Eduardo. claramente uma pessoa tolerante, paciente e condescendente e também o Luís.).
título roubado ao Tomás.

Já me compensaram os dias



Estes ouvi mais no Inverno de 1994/95, mas, também, se bem me lembro, durante o Verão seguinte e ainda este Verão. Há bocado - literalmente - começaram a tournée de reunião na Nova Zelândia. Entretanto, fica aqui um medley. Se derem uma volta por aqui há mais coisas.

Já me estragaram os dias



No Inverno de 1993/94, terei ouvido mais este disco (Jazzmatazz) do que qualquer outro. Foi aliás um bom Inverno. Aulas à tarde na faculdade, surf de manhã e belas viagens, acompanhadas a k7, num memorável Ford Fiesta. Como se usa dizer: bons tempos para se estar vivo. Nada disto me ocorreria agora, não fora o Guru - aqui acompanhado pelo Donald Byrd - ter tido um enfarte que o deixou em coma. Uma bela merda.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Para este peditório, eu dou


Shane Macgowan, directamente saído do caldeirão de cerveja (cerveja?) onde caíu faz 30/40 anos, reuniu mais uns colegas de natação. Tudo por uma boa causa: o Haiti. O resultado é que passei a ter a minha própria Band Aid. Enquanto o Mick Jones bate no estintor de incêndios, o Nick Cave põe alguma ordem no estúdio e o Bobby Gillespie faz de Bobby Gillespie, o Johnny Depp aproveita para fazer um belo solo, numa ainda mais bela guitarra. A música que sofre este tratamento é o I put a spell on you, de Screamin' Jay Hawkins'. A rapariga do baixo, parece-me a mim, é a ex-Pogues e ex de Elvis Costello, Cait O'Riordan. Está, contrariamente aos outros, bem conservada.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

O exemplo de Figo

Dificilmente haverá exemplo mais acabado da disfuncionalidade a que chegou a nossa vida política e económica do que o caso Figo. Um atleta-modelo, símbolo do país moderno, alegadamente envolvido num esquema bem doméstico, onde se cruzam compadrios políticos com negócios públicos e apoios partidários. O pior dos mundos. Para ajudar à festa, a habitual culpabilidade decretada nos media. Há boas razões para que o caso seja investigado, o que não ajuda é que partamos da culpabilidade para depois investigar. Desde logo, porque há já demasiados casos nos quais houve culpados e depois não houve nem acusação nem condenação. Mas o caso Figo tem outra face: os partidos, em acentuada trajectória de descrédito social, procuram compensar a credibilidade perdida através de uma colecção de cromos que vai sendo exibida ao lado dos líderes. As máquinas partidárias, devidamente fustigadas, interiorizaram a sua própria falência e vivem deslumbradas com o apoio de uns quantos notáveis. É pouco provável que haja ganhos eleitorais significativos com estas aparições em campanha. As razões das escolhas eleitorais são outras e, paradoxalmente, o investimento nos notáveis convive com uma negligência dos partidos nos factores que enraízam mais as escolhas. Na verdade, por cada notável que surge numa campanha, haverá sempre uma relação perversa entre políticos e amigos, que aparentam proteger-se mutuamente em negócios de contornos dúbios. É por isso tão exemplar o caso de Figo. É-nos sugerido que as duas dinâmicas, afinal, até se podem en-contrar interligadas.

publicado hoje no i.

Sinais de crise sistémica

A tendência mais saliente deste barómetro é o crescimento de opiniões negativas sobre quem neste momento tem responsabilidades políticas de facto: o primeiro-ministro, como era inevitável, vê as avaliações positivas decrescerem e as negativas crescerem e o PS perde cinco pontos. O mesmo acontecendo, aliás, com o Presidente – ainda que com menor intensidade. Contudo, este declínio continua a não se traduzir em ganhos equivalentes para os partidos que poderiam ser uma alternativa aos socialistas. Faz sentido. Num cenário de degradação genérica da imagem da actividade política, combinada com a sugestão de que há zonas cinzentas de relações promíscuas entre políticos e actividades empresariais, é o próprio sistema que sai corroído. Ou seja, a oposição do ‘arco da governabilidade’ tem também dificuldades em capitalizar a seu favor. Quando o debate político se centra progressivamente numa espiral de casos de corrupção e clientelismo, este tipo de partidos não consegue extrair ganhos políticos. As crises sistémicas tendem é a favorecer quem se apresenta como não fazendo parte do sistema. Não por acaso, o Bloco de Esquerda recupera cinco pontos neste sondagem e aparenta ser o único vencedor da crise. Conclusão: o retrato deste barómetro não augura nada de bom no que toca às possibilidades efectivas de sairmos politicamente da crise em que nos encontramos.

publicado hoje no Diário Económico como comentário ao barómetro da marktest.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Que viola o segredo?

O segredo de justiça tornou-se o espelho da justiça em Portugal. É violado quotidianamente, com benefício do infractor. Entre a impunidade de uns e a impotência de outros, resta um sistema desacreditado e que procura a credibilidade perdida numa gestão a conta -gotas da informação que vai passando para a comunicação social. A procuradora-geral- adjunta, Cândida Almeida, veio, esta semana, lembrar o óbvio: o rei vai nu e para que ele possa ser de novo vestido é necessário, por um lado, aumentar as penas dos prevaricadores e, por outro, admitir que também os magistrados são possíveis violadores do segredo. Logo, também eles poderiam ser escutados para apurar a verdade. A proposta parece absurda, mas convenhamos que é compatível com o papel omnipresente que as escutas têm vindo a revelar na investigação judicial. Não demorou muito para que o sindicato dos magistrados do Ministério Público viesse, com a costumeira indignação, recusar-se a aceitar que os magistrados possam ser responsáveis pela violação; posição prontamente acompanhada pelo secretário de Estado da Justiça, que suspendeu funções para se pronunciar enquanto advogado (!), recusando-se a aceitar que um magistrado seja "presumivelmente o infractor". Partindo do princípio de que as violações do segredo de justiça não são obra do divino Espírito Santo, que os senhores magistrados foram "ungidos" no CEJ e, portanto, estão acima de qualquer suspeita, a malha aperta-se e não restam muitos presumíveis infractores. É por isso estranho que raramente haja condenações.

publicado hoje no i.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Ninguém é neutro

Como acontece invariavelmente, vale mesmo muito a pena ler o que escreve João Lopes. Fica aqui um excerto, o resto deve ser lido no sítio do costume.

"4.Ora, ninguém é neutro. Ninguém. A começar pelo jornalista. Como qualquer observador/relator, ele é alguém que escolhe: escolhe o que olhar, de onde olhar, para onde não olhar; escolhe o que dizer, como dizer, como evitar dizer. O que o jornalista produz não é uma "fotocópia" da realidade, mas sim uma construção narrativa (por palavras, imagens, etc.) que existe como uma nova realidade que se vai somar àquela de onde partiu.

5.Reconhecer isto não é lançar nenhuma suspeita sobre a actividade jornalística. Bem pelo contrário: é reconhecer a sua complexidade prática e conceptual, celebrando também a sua imensa responsabilidade narrativa, simbólica e filosófica. Por isso, cada vez que um jornalista nos quer convencer da sua virgindade cognitiva — "olhem para mim a dar-vos um ponto de vista que não podem contestar" —, acontece uma mentira. Não necessariamente factual, mas ontológica."

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

El Perro Del Mar "Shelter" (by The XX) from The Control Group on Vimeo.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Contra factos, a narrativa

“O primeiro-ministro é mentiroso”. Esta asserção é o centro da narrativa sobre o envolvimento de Sócrates na tentativa de compra da Media Capital pela PT. Em Junho, da primeira vez que foi confrontado na AR com a possibilidade de negócio, alegou desconhecimento. A narrativa, devidamente baseada em escutas descontextualizadas, sugere-nos que Sócrates mentiu aos deputados. Vozes da "política de verdade" têm, aliás, alegado o mesmo. Somos levados a acreditar na imagem de um primeiro-ministro mentiroso. Tudo vai nesse sentido. Tanto mais que Sócrates tem revelado uma preocupação inusitada com o que a comunicação social diz de si, o que se traduzirá automaticamente num impulso controleiro de facto. Conclusão: Sócrates não só saberia do negócio como seria autor moral da sua concretização. E se não tiver sido assim?
A pergunta é tão insólita que ninguém está disposto a colocá-la. A tendência é de tal modo claustrofóbica que se surgirem factos que contrariem a narrativa, ninguém quererá saber da força dos factos. Contra factos, o que conta é a narrativa, ardilosamente construída.

continuar a ler aqui.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Wouldn't that make for a special show?

Afinidades electivas


Miccoli confessa que comprou brinco de Maradona por 25 mil euros.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Sair? Só com eleições

Em entrevista, Passos Coelho disse que "novo primeiro- -ministro só com outras eleições". Sócrates, entretanto, sublinhou que "nada o fará abdicar". Esta é talvez a mais impor- tante das cooperações estratégicas dos últimos tempos. A cooperação em torno do bom senso e da razoabilidade. Depois de várias semanas em que assistimos, do lado dos opositores, a apelos para que Sócrates se afastasse ou fosse substituído pelos seus pares, e, por parte do seus pares, a alguns exercícios especulativos sobre cenários B, em que outro socialista assumiria o lugar, parece que alguém se recordou do óbvio. Em Portugal, de facto, ninguém pode ser primeiro-ministro sem antes ser legitimado pelo voto popular. Não se trata apenas do carácter cada vez mais personalizado das eleições legislativas, são também os precedentes. Depois das experiências de Balsemão e Santana Lopes, ninguém no seu perfeito juízo poderá aceitar ser primeiro- -ministro não eleito e qualquer governo nestas condições será um nado-morto. Se um governo minoritário legítimo e sufragado há três meses é frágil, imaginemos um governo minoritário que não tivesse sido eleito. Convinha também que, independentemente do juízo substantivo que possamos fazer, não se abrisse outro precedente: a possibilidade de um primeiro-ministro ser afastado através de uma apropriação política de instrumentos do sistema de justiça, considerados irrelevantes por quem de direito. Sócrates deixará de ser primeiro-ministro um dia, mas através de eleições. Se não for assim, nunca mais a política recuperará a sua autonomia face à justiça.
publicado hoje no i.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O velho novo


Gil Scott-Heron regressou como novo, ou como velho. Pouco importa. O disco é, como se usa dizer, incontornável.

As explicações por dar

Sócrates demorou quatro longos dias para dizer que quem tinha invocado o seu nome no negócio da PT com a Media Capital o tinha feito abusivamente. Enquanto durou o silêncio, adensaram-se as suspeitas sobre o envolvimento do primeiro-ministro. Entretanto, dez dias passados, nada nos foi dito sobre se mantinha a confiança nos dois administradores que representam o Estado na empresa. Se usaram o seu nome indevidamente e se envolveram a empresa num negócio que é legítimo (o regresso aos conteúdos), mas está manchado por manigâncias, não podem manter-se no lugar. O comportamento deles põe em causa a reputação de Sócrates. Naturalmente que, pelo caminho, aconteceu o óbvio: pressionado pela pressão pública e política, um dos administradores - Rui Pedro Soares - demitiu-se. Soares Carneiro (que foi acusado de "quebra de confiança" por Granadeiro, pela passagem dos fundos de pensões da PT para a Ongoing e por, alegadamente, ser o responsável pela fuga de informação das actas de uma reunião da administração), mais dia menos dia, seguirá o mesmo caminho. Ou seja, as circunstâncias encarregar-se-ão de fazer o que Sócrates já devia ter feito. A questão é política e deve ser tratada como tal. Não faz por isso sentido o argumento formalista, que manda aguardar pela reunião da assembleia- -geral da empresa. Uma coisa é clara: quanto mais tempo demorar o silêncio do primeiro-ministro sobre o tema, pior. O ónus da explicação está do seu lado e Sócrates tem demorado demasiado tempo a responder.

publicado hoje no i (e escrito antes da declaração ao país de ontem à noite - que, na verdade, não deu as respostas necessárias.)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O vizinho polaco

O Duarte "Valcheck" pergunta-me o que pretendo demonstrar com este post. Temo desiludi-lo, mas não pretendo demonstrar absolutamente nada. Como aliás escrevo quando o republico, encontrei o texto por acaso e já nem me lembrava exactamente nem do episódio, nem do que havia escrito. Lido o texto, pareceu-me particularmente actual e não deixa de ser curioso que, 13 anos passados, estejamos a discutir a mesma coisa - ainda que, admito, a um novo nível. Não sou muito dado a "indignações furiosas", pelo que na altura não me indignei muito com o "meu" episódio, o mesmo se passando agora. Fiquei satisfeito por descobrir que penso hoje exactamente a mesma coisa do que pensava então (o que já não é pouco). Quanto ao que se passa hoje, peço desculpa, mas nas últimas semanas, em artigos, aqui na TSF e aqui na TVI24, tenho demonstrado tudo menos indiferença. Não sou é do género de andar de granada na mão para cumprir missões. É uma questão de feitio.

Melhor que Dostoiévski


não é verdade, Tiago?

Ar puro


No fundo é isto: “People might think that surfing’s a limited thing, but surfing’s not limited . . . You’re all the time learning how to do things, discovering better ways of surfing and more ways of enjoying it.”

Farrelly, M. and McGregor, C. (1968) How to Surf. London: Sphere Books. roubado daqui.

Somos todos o João Galamba

O João Galamba é um tipo decente, mas os tempos estão sempre mais difíceis para os tipos decentes.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Escândalo: o governo faz política

Anda para aí uma grande indignação, baseada nesta investigação jornalística que consumiu o tempo de três jornalistas, que tiveram de ler mails de uma mailing list (de que aliás eu fazia, faço, parte) que lhes foi devidamente entregue por um sujeito. No fundo, a indignação é um retrato fiel do país. Anda tudo indignado porque, veja-se lá, assessores do governo faziam política. Ou seja, passavam argumentários com informação pública sobre a acção governamental para uma mailing list de que faziam parte bloggers e candidatos a deputados. Tudo durante a campanha eleitoral. Mas onde é que já se viu tal coisa? O que se espera de assessores governamentais é que façam continhas, assinem informações e retirem as mangas de alpaca à hora de regressarem a casa. Política? a minha política é o trabalho e até acho que a política devia ser criminalizada. Pois o meu trabalho é a política e o que me parece que faz falta é exactamente que o Governo faça mais política, que informe mais e que produza mais argumentos, desde logo convincentes. Não é preciso estar muito atento para se perceber que é isso que falta e não o contrário. Pelo meio, fico também com uma certeza: a blogosfera pode revelar-se particularmente útil - representa um meio eficaz para os perturbados mentais fazerem terapia ocupacional e expressarem as suas frustrações. Mesmo se, pelo caminho, violarem correspondência.

adenda: ainda sobre o mesmo tema, ler o porfírio e o eduardo e ainda o rogério e ainda o andré couto e o tomás vasques e ainda o luís tito e ainda a sofia loureiro dos santos e ainda o miguel abrantes e ainda o tiago barbosa ribeiro e ainda o vasco barreto e ainda o Miguel Vale de Almeida e ainda o josé reis santos.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Há muita falta de memória no jornalismo

Em 1997, fui durante uns tempos colunista do jornal A Capital (jornal no qual, aliás, voltei a escrever, em 2004/2005), então propriedade do grupo Edimpresa - o tal em que, segundo, Henrique Monteiro, os colunistas são absolutamente livres. Na sequência da censura a Carreira Bom, escrevi, ingenuamente, este artigo. Na véspera de publicação, enviei-o para o jornal, no dia seguinte, ao contrário do habitual, o artigo não fora publicado. Nem sequer se deram ao trabalho de justificar a censura. A história é, essencialmente, pessoal e nem eu próprio me lembrava bem do que havia escrito; hoje, encontrei o texto não publicado num back-up. Tem a sua piada e uma certa actualidade, designadamente as citações de Paulo Portas.

Elementar, “Meu Caro” Portas
Já sabíamos que conquistas básicas, elementares e justas dos trabalhadores têm vindo nos últimos anos a ser postas em causa. Paulatinamente os patrões vêm sujeitando empregados: são as horas extraordinárias que não são pagas, os inacreditáveis entraves às idas à casa de banho e, talvez aquilo que é mais decisivo, o regime de medo que resulta da precariedade do emprego e que diminui decisivamente a capacidade reivindicativa dos trabalhadores. Mas se sabíamos que isto se passava na industria têxtil endividada (mas em que os patrões se passeiam impunemente de Ferrari), nos bancos e no tecido empresarial português resistente à modernização, não sabíamos era que esta lógica de autoritarismo tinha ocupado também, a esfera, tradicionalmente autónoma e liberal, dos meios de comunicação social.
A verdade é que os indícios ténues já se faziam sentir – bastava ler com atenção certos jornais e ver como as notícias eram tratadas. Mas foi preciso assistir ao despedimento de João Carreira Bom (JCB) do Expresso para termos a confirmação empírica. Esta tendência precisava contudo dum suporte teórico. Afinal, não há regime totalitário que tenha vingado sem uma legitimação conceptual, sem uma clarificação das suas práticas. O Dr. Paulo Portas, na sua coluna do Independente de 31/10, deu-se ao trabalho de clarificar as águas e teorizou sobre o para ele justo despedimento de JCB.
Antes de mais um elogio. O artigo do Dr. Paulo Portas tem uma série de virtudes. É frontal, clarificador e coerente com aquilo que o seu autor costuma defender. Nos dias que correm estas qualidades não são desprezíveis, bem pelo contrário. Mas se do ponto de vista formal há que louvar o artigo do Dr. Paulo Portas, já quanto à substância o seu texto é não só grave, como coloca em causa princípios elementares do jornalismo e consequentemente da democracia.
De acordo com o Dr. Portas, o fim da coluna de JCB, não tendo sido uma decisão agradável de tomar por parte do director do Expresso, foi contudo uma consequência “rigorosamente inevitável” face ao que o cronista escreveu. E foi-o porque, de acordo com as suas próprias palavras, “o dono de um jornal não tem o dever de suportar ofensas impressas no papel em que ele próprio investiu. (...) Não compreender este princípio é supor que a função do capital é pagar, comer e calar, enquanto a responsabilidade do jornalista ou, no concreto, do colunista seria inatacável e, sobretudo, intocável. Em parte alguma do mundo as coisas são assim. Muito menos na iniciativa privada que, por natureza, é privada nos seus critérios” (sic).
Como facilmente se depreende deste excerto, o artigo do Dr. Portas é particularmente grave, na medida em que legitima uma nova prática, resultante da máxima: detenho o capital, posso e mando escrever o que quero. Isto ao mesmo tempo que coloca em causa dois princípios elementares, garantes de um jornalismo imparcial.
Primeiro, um jornal, ou outro meio de comunicação social, não é um negócio privado como outro qualquer. É que, para utilizar uma parábola “famosa”, um jornal, porque faz opinião, vende presidentes da República e vender presidentes é substancialmente diferente de vender sabonetes. Há uma responsabilidade social por parte da comunicação social que reside no facto de esta ser, não só um pilar fundamental dos regimes democráticos, mas também, um garante da autonomia dos cidadãos face ao Estado e face à esfera económica. É por isso que, ao contrário do que o Dr. Portas quer fazer crer, a “função do capital” é mesmo pagar, comer e calar. Isto é, investir, arrecadar os lucros e libertar as redacções de qualquer tipo de constrangimentos.
Segundo, de facto a responsabilidade dos jornalistas deve ser “atacável”, mas deve sê-lo não quando estes criticam o “dono” mas, bem pelo contrário, quando sonegam ou deturpam informação por esta ser prejudicial ao “dono”. Como tem lembrado Ferreira Fernandes na Visão, de acordo com aquilo que o Dr. Portas defende, aos jornalistas do Público não seria permitido publicar notícias críticas em relação à Sonae, aos do DN em relação aos cinema Lusomundo, aos do Expresso em relação à SIC e ao próprio Ferreira Fernandes, tendo em conta que o capital da Visão é maioritariamente suíço, não seria permitido questionar o sigilo bancário helvético. Ora, parece-me um princípio básico que os jornalistas devem ser autónomos e livres de pressões na produção do seu trabalho. Afinal, são eles que assinam as notícias e, com essa assinatura, os leitores esperam que a responsabilidade do que vem escrito seja um exclusivo do autor do texto, livre da influência de quem lhe paga.
Por tudo isto lhe digo “meu caro” Portas que, caso estejamos interessados em defender a imprensa livre – não só dos poderes públicos mas cada vez mais, dos poderes económicos -, é elementar assegurar a autonomia de quem escreve nos jornais. A legitimação do despedimento de JCB que desenvolveu no seu artigo de há duas semanas é um passo decisivo para colocar fim a essa autonomia, dando visibilidade a uma prática que na sombra já se fazia sentir. Antes assim. Ao menos passamos a saber o grau de dependência que tem aquilo que lemos. Designadamente n’ “O Independente”.

artigo enviado para A Capital, algures em Outubro de 1997, e não publicado.

Pressão Alta

O Jornal de Negócios publica hoje uma short list para Ministro das Finanças de um futuro Governo PSD - Teodora Cardoso deve ser a excepção para confirmar a regra. Estranhamente, a notícia sugere que a lista é de potenciais governadores do Banco de Portugal. Sinal dos tempos.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

"Gasping, But Somehow Still Alive"



Celebrar os 25 anos.

Também foi (é) a minha t-shirt


When I was in high school I had a Meat Is Murder t-shirt. (...) Nobody stays in high school forever, but Meat Is Murder has a way of gaining layers and subtleties as you move onto college and beyond. Unlike some "teen" albums, it still sounds good after you've grownup. With that in mind, the record turns 25 this Valentine's Day. It's been around a long time, soothing any number of misfits, so we asked some of our favorite musicians about their own experiences with the record.
ler aqui.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Colectivo ruptura

"É preciso um programa para mudar o país, em ruptura." "A verdadeira razão para nos dar o seu voto: ruptura total com o sistema." As frases podiam ser de Paulo Rangel, mas não são. A primeira faz parte das conclusões do último congresso da Ruptura/FER, a ala extremista do BE, que continua a militar por uma política revolucionária; já a segunda é de Manuel Monteiro, então líder da Nova Democracia, uma cisão pela direita do CDS-PP. Na política as palavras que se escolhem contam. Paulo Rangel, ao escolher a ruptura como Leit-motiv, avançou para a liderança do PSD envolvendo-se numa retórica própria das margens políticas. É coerente com a natureza essencialmente tribunícia da sua afirmação política e representa uma continuação da estratégia Ferreira Leite, agora por outros meios: o rasgar de ontem torna-se a ruptura de hoje. O problema é que a ruptura que o PSD precisa de fazer é antes de mais consigo próprio. Nos últimos anos, mesmo em contextos muito favoráveis, os sociais-democratas ultrapassaram com dificuldade a barreira dos 30%. Durante um tempo, Santana Lopes foi a desculpa, mas a verdade é que as dificuldades de afirmação política têm razões mais fundas: a combinação irresistível entre conservadorismo social e uma política económica que combina ruptura com ausência de dimensão propositiva. A existência de várias candidaturas à liderança pode ajudar a que o PSD faça o que na verdade tem evitado fazer: discutir-se a si próprio. Mas a ruptura que Rangel agora propõe é apenas um exercício retórico para evitar discutir os falhanços recentes do partido.
publicado hoje no i.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

While my guitar gently weeps

Em busca de Oliver North

Durante o escândalo Irão-Contra, ficou célebre a imagem do coronel Oliver North a assumir solenemente a total responsabilidade pela entrega de armas ao Irão. Ao fazê-lo desresponsabilizou o presidente Reagan, que, no mínimo, simpatizava com a causa. O máximo que se tornou possível dizer foi que a vontade de Reagan tinha sido interpretada abusivamente por North. Ainda hoje não se sabe com exactidão o que se passou, mas North, falhada uma carreira política, tornou- -se um popular comentador da Fox News (mais um farol da liberdade de expressão). Depois de ter classificado as revelações do jornal "Sol" como jornalismo de buraco de fechadura (o que manifestamente é), José Sócrates demorou quatro longos dias a afirmar que a "intenção estratégica" da PT de comprar a Media Capital foi "totalmente independente da vontade do governo". Logo, o seu nome foi invocado abusivamente. O que, como é sabido na actividade política, tende a acontecer com frequência. Aliás, não demorou muito que Henrique Granadeiro, presidente da PT, viesse corroborar as palavras de Sócrates. Mas é esse hoje o problema do primeiro-ministro: a credibilidade das suas palavras depende de facto do que afirmem terceiros. No fundo, depende de que alguns protagonistas ajam como Oliver North.
publicado hoje no i.

First we take Lisbon, then we take Manhattan

Se bem percebi da leitura da edição do SOL hoje, para a semana ser-nos-á revelado como Nuno Vasconcellos, Armando Vara, Rui Pedro Soares, devidamente coadjuvados por Joaquim Oliveira, se preparavam não apenas para comprar a Media Capital, mas todo o grupo PRISA. Por alturas da Páscoa, serão publicadas informações preciosas que mostram como as negociações para a compra do NYT já estavam também em estado avançado. Pelo caminho, José Eduardo Moniz ter-se-á deslocado a Londres para tratar do Guardian e do Observer, em devido conluio com José Sócrates.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Higienizado de novo

Governo, justiça, democracia, tudo a mesma merda

Na verdade não me apetecia muito conspurcar o meu blog, que estava assim como que higienizado, com o Kurt Wagner aqui em baixo, mas como sou outro dos que padece dum problema de autonomia (de falta dela, claro), não resisto a citar, desde o Público, a deputada do BE, Helena Pinto. O "Bloco (que) foi o primeiro partido a reagir à notícia da providência cautelar. Que, nota Helena Pinto, “não abona na credibilidade nem do Governo nem da própria democracia”. “Só em situações absolutamente excepcionais”, acrescentou, “é que se admite a intervenção da justiça num órgão de comunicação social”. Vejam só como eles estão sempre na vanguarda: no fundo Governo, democracia, justiça é tudo a mesma merda ou, pelo menos, o mesmo órgão. Na verdade, isto tornou-se mesmo irrespirável, não fora a candeia de liberdade que nos iluminou hoje, desde as escadarias da AR. Na fundo estava escrito desde o início que a claustrofobia democrática culminaria numa manif pela hora de almoço. A seguir, juntar-se-ão todos no colectivo ruptura (reconstruído).

And the best is yet to come



"To conclude this interview
Many facts and fictions you construe
The dog gives you the paw
You pat his head and you wipe his jaw
He's the only one who knew
(about) my blue wave"

(na verdade o resto do concerto pode ser visto no youtube, mas o melhor mesmo é tratarem da coisa aqui).

Tenham medo

Leio no Diário Económico que uma das "propostas" de Rangel para a área da justiça é dar mais poder aos juízes. O populismo, já se sabe, é democrático na escolha dos seus porta-vozes, mas há boas razões para termos medo. Para termos muito medo.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Da (ir)relevância relativa do nosso debate orçamental

(...) The conventional wisdom also declares that once fiscal adjustments have been made and flexibility introduced, the affected economies can return to growth, as Germany did after painful adjustments in the early noughties. Furthermore, adds the conventional wisdom, the existence of huge current account imbalances within the zone has no bearing on either the problem or the solution. There is no more reason to worry about eurozone internal “imbalances” than one would about imbalances between US states.
This conventional wisdom is, alas, nonsense. Until policymakers recognise this, they are dooming the eurozone to huge tensions. There is no way to put this delicately. So long as the European Central Bank tolerates weak demand in the eurozone as a whole and core countries, above all Germany, continue to run vast trade surpluses, it will be nigh on impossible for weaker members to escape from their insolvency traps. Theirs is not a problem that can be resolved by fiscal austerity alone. They need a huge improvement in external demand for their output. (...)
o resto pode (deve) ser lido aqui.

Roda Livre

A Roda Livre, o programa em que participo semanalmente na TVI24 com o Rui Ramos e o Manuel Villaverde Cabral, moderados pelo Henrique Garcia, mudou de horário. A partir de hoje, passará a ser emitido às quartas-feiras a seguir ao noticiário das 23 horas.

Obrigado João Pereira

Na verdade não queria falar muito do Sporting - a equipa que, para Carvalhal, tem um problema estrutural, uma defesa baixa (o que ajuda a explicar a compra de João Pereira) -, mas há uma frase, ainda ontem repetida, que resume o estado do clube: "o Everton tem progredido muito nos últimos tempos". Preparem-se portanto.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Haverá alguém disposto a fazer de Oliver North?



De acordo com o PM, a "intenção estratégica" da PT em comprar a Media Capital foi "totalmente independente da vontade do Governo". Há portanto dois candidatos a Oliver North que convinha que dissessem alguma coisa.

Boas notícias

O Tiago voltou.

Linha de Fronteira

(...) A tentativa de compra da Media Capital pela PT deu, a este respeito, um péssimo sinal. Como aliás parecia ser consensual aquando da alienação da Lusomundo, a separação entre plataformas e conteúdos ia no bom sentido. O súbito retrocesso estratégico anunciado antes do Verão não encontrou nenhuma explicação plausível, pelo que a ideia que ficou a pairar é que tudo se resumia a uma vontade indomável de controlar um grupo de media através de uma empresa com uma ‘golden share' pública. Aliás, se o objectivo era tão estratégico, não se chega a perceber por que razão, uma vez abortado o negócio com a PRISA, não procurou a PT encontrar outra alternativa no mercado.

No fundo, tudo radica numa questão: garantido o serviço público e com uma entidade reguladora eficiente, há algum motivo para que o Estado se envolva directa ou indirectamente no negócio dos media? A resposta é não, o que serve também para revelar que, enquanto existir uma ‘golden share' na PT, estaremos sempre condenados à interferência política nos media. Não só não é esse o caminho para garantir o pluralismo como cria o caldo adequado para que interesses financeiros, pulsões controleiras de governantes e protagonistas do sub-mundo partidário se coliguem com efeitos devastadores para a qualidade da democracia.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Swim to reach the end

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Bem-vindos ao futuro

As liberdades individuais nunca são retiradas de uma vez só. São confiscadas lentamente, uma a uma, em pequenos passos, sem que na verdade valorizemos muito cada um deles. O problema é que, quando damos por nós, normalmente já é tarde para defender a autonomia individual e o direito à privacidade. Há contudo semanas em que estes pequenos passos se sucedem a um ritmo que parece imparável. Esta foi uma dessas semanas. Num par de dias, recuámos ao tempo em que a delação de conversas escutadas em restaurantes era aceite, mas também avançámos para um futuro distópico em que os rendimentos de cada um ficariam expostos à consulta invariavelmente mesquinha de todos, à distancia de um click. Pelo caminho, banalizou-se a violação do segredo de justiça, que nos é agora apresentada transfigurada de jornalismo de investigação, e, num exercício de violência simbólica, vimos ainda o Ministro da Defesa, acompanhado de militares, a comentar um artigo hediondo de um bom pivot de telejornal, como que para provar de uma vez por todas que o governo revela uma preocupação desmesurada pelo que dele se diz nos media. Começa a haver, em tudo isto, poucos inocentes e quem assiste, com alguma réstia de respeito pelas liberdades individuais, não pode deixar de temer por um futuro que é demasiadamente parecido com o passado. Bem-vindos sejam, por isso, ao futuro que estão a construir.
publicado hoje no i.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ruínas, por mais belas, amarguram-me


«Eu saía da água junto aos joelhos dela, a sentir-me translúcida, levíssima como o cefalópode com muitos braços, uma galáxia de braços. Não era para ela, era com ela. Poucas coisas são tão alegres como o egoísmo de duas crianças síntonas no seu brinquedo, que era o mar.
– A partir de certa idade, Maria, o mar rejeita-nos.
– Ora, Sophia, é só a água na cara que a enerva, isso há-de passar.
Não era caridade, era compaixão. Compaixão com ela do que um dia havia de me esperar. O mar hostil.
Íamos já a caminho de casa, do delicioso spaghetti frio que ela temperava com ervas e azeite virgem, alcaparras ou anchovas, do peixe frio marinado em calda, como se come no mar, comido no alpendre, debaixo da renda de heras. E da noite, que já avermelhava no horizonte marinho do almoço tardio.
Da noite, em que vestidas de lavado, cabelo desamarrado, o dela uma sedinha solta, o meu afrodionisíaco, como ela o dizia, roupas longas, soltas e largas, falávamos de tudo e de nada, até às mais altas horas, que lhe convinham, a ela e a mim. Bebíamos vinho branco gelado, não havia retsina, pena para ela, bom para mim, que não gosto de quase nada do que vem da Grécia, excepto a comida e as azeitonas talhadas com alho e tomilho, o que a chocava, mas não tanto quanto seria de esperar.
– Ruínas, por mais belas, amarguram-me, Sophia.
Falávamos na noite, no alpendre quase morno, sem tom nem som. Nenhuma das duas era desesperadamente musical. Não havia música nem nos fazia preciso. Falávamos mais de todos do que de tudo; do tudo eram a arte e a poesia – nem política, nem mundos a mudar. Não era a prudência de pertencermos a facções políticas diferentes. Era a força de indiferenciação da noite, quando as mulheres falam. Falávamos de amores, de filhos, de amigos e desamigados. Desse mundo ginecêutico e caótico, onde tínhamos ambas de manter aparências. Brilhávamos na meia obscuridade como as estrelas que se viam no céu limpo, mortais e imortais, passe a solenidade.
Porque não éramos solenes.»

[in Sophia: Vozes, de Maria Velho da Costa, prefácio ao livro Evocação de Sophia, de Alberto Vaz da Silva, Assírio & Alvim, 2009]. copiado daqui.

No fundo é isto


Ontem, enquanto o país desabava, a rtp emitia uma grande entrevista a Faissal.