"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A culpa é do mordomo


Culpar o mordomo é a forma fácil de responsabilizar alguém quando não se encontra o criminoso. Grécia e Portugal são os mordomos desta crise. Mas, assim que os mordomos de hoje forem suficiente- mente fustigados, a função será diligentemente desempenhada por outros Estados - Espanha é o mordomo que se segue. Isto não quer dizer que Portugal não partilhe culpas pela situação em que se encontra. Mas, uma coisa são erros cometidos nos ajustamentos que eram necessários para a integração económica e para a moeda única, outra são as responsabilidades morais e materiais no eclodir da crise financeira que agora provoca ondas de choque assimétricas na zona euro. Não deixa de ser sintomático que tenhamos hoje, ano e meio passado sobre o início da crise, de recordar que os défices excessivos e o crescimento do endividamento não são fruto da desorientação política dos governos nacionais, mas sim consequência do resgate do desvario financeiro. Encontramo-nos no pior dos mundos: temos os erros na formação do euro (da sobrevalorização cambial a uma política comercial que prejudicou objectivamente os países da coesão, enquanto reforçava as economias com balanças comerciais, à partida mais favoráveis, passando pela ausência de uma política fiscal comum) combinados com uma total ausência de capacidade política europeia para os enfrentar; por outro lado, temos um conjunto de Estados que têm de fazer ajustes que não fizeram no passado, mas cuja capacidade para os fazer sem respaldo europeu é nula e teria resultados ineficazes. Perante a dimensão dos problemas, só resta culpar os mordomos.
publicado hoje no i.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Rating: triple A (com outlook muito positivo)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Se eu fosse especulador, atacava aqui

Landscape Altered - Episode 2 from Kustom Airstrike on Vimeo.

Ser Guterrista - hoje, ontem e amanhã

"Para Portugal, como cidadãos, todos nós temos projectos. Para o regresso à política portuguesa tenho um projecto, que é o de não regressar"
António Guterres hoje, citado aqui.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

King Saul fell on his sword



um contributo para a conversão do Jacinto.

sábado, 24 de abril de 2010

Os deputados polícias

Dois meses passados, Rui Pedro Soares vestiu finalmente o papel de Oliver North que lhe estava destinado: pediu desculpa ao primeiro-ministro e alegou ter invocado o seu nome em vão. Depois calou-se. O PS, que dias antes tinha criticado um "jornalista" por se escudar no sigilo profissional, condescendeu. O episódio foi apenas mais um sinal de que o Parlamento se está a transformar e, pelo caminho, a degradar. Quando chegarem ao fim os trabalhos da comissão de inquérito ao "negócio" PT/TVI não estaremos mais próximos da verdade e o Parlamento sairá ainda mais fragilizado. Bem tem avisado Mota Amaral que os deputados não estão num tribunal e que os interrogatórios intermináveis são uma coisa de outro tempo. Os avisos caem em saco roto. Os deputados polícias vieram para ficar e com eles as investigações parajudiciais, sem meios, sem formação, sem possibilidade de defesa, tudo servido em directo online. Onde antes havia actividade legislativa e se fiscalizava a acção do governo, agora temos o milagre da multiplicação das CPI e a verdade apurada na confrontação entre notícias de jornais. Se da justiça devemos esperar uma atitude cega à partida e convicções formadas com prova, nas CPI temos exactamente o contrário: convicções formadas desde o início que depois pescam provas à linha. Este é um daqueles casos que sabemos como começam, mas temo que também saibamos como acabam: numa imparável judicialização da vida política. Imagino que os senhores deputados se sintam muito confortáveis nas suas novas vestes policiais. É bom que se habituem. Doravante será assim.

publicado no i.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

A diferença está no papel higiénico?

Depois de, no pec, o governo ter dito mata (congelamento de salários e prestações), a margem de manobra que restava ao PSD era curta. Pouco mais poderia fazer do que dizer esfola (redução nominal de salários e prestações). Descartada a "via Frasquilho", Passos Coelho, ainda assim, não hesitou em criar muita expectativa em torno de um PEC alternativo. Quarta-feira, depois de semanas e semanas de "agarra-me se não eu digo o que faria", lá ficámos a conhecer o milagre da consolidação orçamental passista. Uma redução da despesa em 1700 milhões, mesmo com a reposição dos benefícios fiscais. Tudo assente em cortes em pareceres, na utilização de software livre e na redução das despesas com comunicações. As sugestões só podem ter a resposta que Nick Clegg, o líder dos liberais-democratas britânicos, deu no debate da semana passada. Perante as propostas para disciplinar as contas públicas dos seus opositores, Clegg respondeu que o que sugeriam é que era possível poupar muito dinheiro cortando nos clips. No fundo, no caso português, o que Passos sugere é que a diferença do seu PEC estaria no papel higiénico. Mas como, mesmo que se acabasse com todo o papel higiénico, não se chegaria aos milhares de milhões necessários, só podemos desconfiar que há, de facto, outros lados onde se pretende cortar. Tudo indicia, aliás, que o essencial seriam cortes com aquisições e serviços na saúde. Os tais 3,5 mil milhões de euros também referidos. O problema é que estamos a falar, por exemplo, de medicamentos e meios de diagnóstico. O que revela que talvez o papel higiénico não passe de um biombo. Era mais sério dizer de facto ao que se vem.

publicado hoje no i.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Contra os pobres, tudo

Quando a luta aperta à direita é invariável que a primeira vítima seja o rendimento mínimo. Agora, entre Passos e Portas assistiremos a uma competição para saber quem, num dos países mais pobres da zona-euro, revela mais vigor face aos malandros dos pobres. O Governo, já se sabe, também não quer ficar mal na fotografia e envolve-se na refrega. Mas se a coisa for explicada em estrangeiro e posta nestes termos talvez se perceba.

Oliver North

Hoje, ao saber do que Rui Pedro Soares disse na CPI, não pude deixar de recordar-me do que escrevi há mais de dois meses no i.

Durante o escândalo Irão-Contra, ficou célebre a imagem do coronel Oliver North a assumir solenemente a total responsabilidade pela entrega de armas ao Irão. Ao fazê-lo desresponsabilizou o presidente Reagan, que, no mínimo, simpatizava com a causa. O máximo que se tornou possível dizer foi que a vontade de Reagan tinha sido interpretada abusivamente por North. Ainda hoje não se sabe com exactidão o que se passou, mas North, falhada uma carreira política, tornou-se um popular comentador da Fox News (mais um farol da liberdade de expressão). Depois de ter classificado as revelações do jornal "Sol" como jornalismo de buraco de fechadura (o que manifestamente é), José Sócrates demorou quatro longos dias a afirmar que a "intenção estratégica" da PT de comprar a Media Capital foi "totalmente independente da vontade do governo". Logo, o seu nome foi invocado abusivamente. O que, como é sabido, na actividade política, tende a acontecer com frequência. Aliás, não demorou muito para que Henrique Granadeiro, presidente da PT, viesse corroborar as palavras de Sócrates. Mas é esse hoje o problema do primeiro-ministro: a credibilidade das suas palavras depende de facto do que afirmem terceiros. No fundo, depende de que alguns protagonistas ajam como Oliver North.

Até logo

quarta-feira, 21 de abril de 2010

36 a caminho dos 37


custa-me muito ter de escrever isto, mas só uma enorme cavalgadura não faz deste senhor titular indiscutível em qualquer equipa de futebol do planeta. no fundo, era o zanetti e o messi e mais nove (entre eles o angelito, claro).

terça-feira, 20 de abril de 2010

The horror, the horror

Assim que soube que a comitiva presidencial à república checa regressava em caravana de autocarro, tive a certeza que seria inevitável uma cantoria. A Mª José Oliveira relata aqui o horror.
"19h46
A viagem no autocarro que transporta a comunicação social transforma-se oficialmente numa excursão às amendoeiras em flor. Um repórter de imagem agarra-se a um microfone e incita as crianças, anteriormente muito sossegadas, a cantar - de Xutos & Pontapés a Rui Veloso, passando pelos Black Eyed Peas e o cansativo tema que se tornou o "hino" da Selecção Nacional (I Gotta Feeling). A coisa não fica por aqui. O DJ de Belém começa a ensaiar coreografias no corredor e pede às crianças para imitarem a dança. Quase seis horas depois da partida de Praga, o desconforto atinge agora o sistema auditivo. The horror, the horror."

Vai trabalhar, malandro

Durante três séculos, as ‘workhouses’ foram o instrumento central da resposta à pobreza no Reino Unido.
Com origem nas ‘poor laws' de 1601, eram instituições em que os pobres trocavam protecção por trabalho, simbolizando o apogeu da protecção social como controlo social e higiénico dos pobres. O regime das ‘workhouses' era conhecido pelo seu carácter punitivo, que tinha como objectivo desencorajar que os residentes as vissem como alternativa ao trabalho. Em 1930, o Governo britânico aboliu as ‘worhouses'. A decisão é usualmente vista como um marco na generalização dos direitos sociais de cidadania no mundo ocidental. Em Portugal, em 2010, o novo líder do maior partido da oposição escolheu como aspecto central da sua plataforma política o "tributo solidário", uma medida que, a ser levada a sério, reenvia-nos para o universo simbólico das ‘workhouses'.
Na formulação de Passos Coelho, com o tributo solidário "quem é ajudado pelo Estado deve retribuir essa benesse em trabalho social". A obrigação recai sobre os beneficiários do RSI e do subsídio de desemprego. A proposta consegue ser, ao mesmo tempo, politicamente errada e revelar desconhecimento sobre o funcionamento das medidas existentes. No fundo, o tributo solidário tem apenas um objectivo: explorar politicamente o ressentimento face aos beneficiários de prestações sociais.

continuar a ler no meu artigo de hoje no Diário Económico.

Preciso de ti esta noite

Record Club: INXS "Need You Tonight" from Beck Hansen on Vimeo.



Annie Clark (aka St. Vincent) vai estar no super rock, super bock, numa noite de julho, na praia do meco.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Um 25 de Abril

sábado, 17 de abril de 2010

Liberdade de escolha

"Sem música, a vida seria um erro", escreveu Nietzsche. Eu acrescento que a educação sem música é um erro ainda maior. Lembrei-me disto quando vi um vídeo de um coro de uma escola pública norte-americana a cantar "Zebra", dos Beach House. O surpreendente não era nem o entusiasmo com que cantavam, nem as capacidades harmónicas. Nisso aquele coro não se distinguia dos de muitas escolas. O que surpreendia era que, em lugar das músicas infantilizadas, aqueles miúdos cantavam uma música adulta, apropriando-se dela com um olhar de criança. Vi nisso a diferença que existe entre a educação musical que tive e a que hoje é dominante. Tive a sorte de fazer a primária na ressaca do PREC, na melhor escola do mundo. As músicas que aprendi eram do Zeca, do Zé Mário Branco e do Fausto - que fez o melhor disco de MPP dos anos oitenta, precisamente sobre a "Peregrinação" do autor fantástico que dava nome à minha escola. Deixo de lado a natureza politizada da minha educação musical, o que importa é que nos ensinavam músicas adultas. Éramos tratados como crianças, mas não infantilizados. Há um tempo para tudo, mas eu temo que os meus filhos tenham uma educação musical infantilizada. Ou seja, há momentos em que sou favorável à liberdade de escolha na educação, tema que se tornou muito popular. Mas depois de ver aquele vídeo inclino-me decisivamente para a "política do gosto" e para a certeza de que a liberdade se garante na escola pública, com professores que mudam o mundo, dando a crianças de um contexto desfavorecido uma educação musical adulta, como em Staten Island, em New Jersey ou com a Orquestra Geração, no Casal da Boba, na Amadora.

publicado no i.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A cortina de fumo constitucional

Há um manual não escrito para a acção política em Portugal. O primeiro mandamento desse manual tem sido sobejamente posto em prática e reza assim: "Se quiseres marcar a agenda e não tiveres nenhuma outra forma de o fazer, propõe uma revisão constitucional". Passos Coelho, na esteira de Luís Filipe Menezes, foi o último a sacar a revisão constitucional da cartola. O efeito esperado foi produzido. Classe política, jornalistas e comentadores reagiram ao tema. Mas terão sido certamente os únicos a dedicar um segundo de atenção à proposta. Dificilmente se encontrará exemplo mais paradigmático da distância que vai entre as prioridades de quem gravita em torno da política e o resto do país. E este é um daqueles casos em que é o resto do país que tem razão. Desde logo porque, estando Portugal bloqueado económica e socialmente, infelizmente nenhum dos nossos problemas se resolve através da alteração, ainda que radical, de meia dúzia de artigos da Constituição. Antes assim fosse. A proposta de Passos Coelho aparenta ser, por isso, uma cortina de fumo para evitar explicitar propostas políticas que, não colidindo com o texto fundamental, chocam, contudo, com a vontade popular. Uma agenda privatizadora na saúde e na educação, colocada em termos programáticos revela um apelo que rapidamente se desvaneceria se traduzida em compromissos políticos concretos. É por isso que a revisão constitucional de Passos Coelho, tendo a virtude de trazer consigo um subtexto que clarificará ideologicamente o espectro partidário português, não passa de um truque para esconder uma agenda política.

publicado hoje no i.

quinta-feira, 15 de abril de 2010



"I've destroyed everything that wouldn't make me more like Bruce Springsteen"
Titus Andronicus, The Battle of Hampton Roads

quarta-feira, 14 de abril de 2010

No fundo, foi isto

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Liberdade de escolha



O JMF lembrava hoje, linkando isto, que para Nietzsche "a vida sem música era um erro". Eu, que sou provavelmente o pior cantor do mundo, acrescento que a educação sem música é um erro. Não sei de que modo contribuiu a minha educação musical para a música que hoje ouço, mas sei que tive a sorte de fazer a primária no rescaldo do PREC, na melhor escola do mundo. As músicas que aprendi eram do Zeca, do Zé Mário Branco e do Fausto - que a certa altura fez um disco fabuloso, precisamente sobre o nome da escola onde eu andava. Temo que os meus filhos aprendam outras músicas, e quando vejo o meu filho a cantarolar os ABBA ou os insuportáveis Black Eyed Peas temo pelo futuro. Mas sou tolerante e há mesmo um tempo para tudo (mas, pelo sim pelo não, em nome do dirigismo e da política do gosto, já o convenci da superioridade do Johnny Cash, até porque na Balbúrdia na Quinta há uma versão do I Won't Back Down). No fundo, há momentos em que sou pela liberdade de escolha na educação, uma coisa que parece ser agora muito popular. Mas depois, vejo este video e comovo-me. A escola é manifestamente pública, com miúdos de muitas etnias, provavelmente de um contexto - lá está - sócio-económico desfavorecido. Mas, o que conta aqui é que há um professor que ensina outras músicas a este conjunto de miúdos. Acho que mudar o mundo é apenas isto e liberdade de oportunidades é estes miúdos poderem aprender esta música dos Beach House, numa escola pública.
(a propósito de ser possível oferecer aos miúdos músicas não apatetadas, que dizer deste workshop do Thurston Moore, para crianças a partir dos oito anos, que decorreu ontem. O que isto não fará pelo futuro duma criança?)