"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

sábado, 15 de maio de 2010

Os pobres eram o problema

Vale a pena recuar umas semanas até à apresentação do PEC. Na altura, foi revelada uma inusitada preocupação com o peso das prestações sociais não contributivas e do subsídio de desemprego na despesa pública. Aliás, a preocupação era tal que o principal resultado prático da primeira aparição conjunta de Sócrates com Passos Coelho foi a antecipação do aperto na protecção social face ao calendarizado. É o que se pode classificar como um exercício puramente político e cosmético. O essencial dos nossos problemas não é o excesso de protecção social dos mais desfavorecidos e o impacto orçamental das alterações propostas não só será reduzido, como em muitos casos terá custos administrativos adicionais. Esta semana, quando governo e oposição foram obrigados a fazer o inevitável para enfrentar a deriva especulativa e para responder ao que é a actual miséria política europeia, tornou-se ainda mais claro o erro que foi cometido. Os ajustamentos violentos que são inevitáveis para restaurarmos a nossa credibilidade financeira precisam de ser compensados por uma rede de mínimos sociais eficaz e solidária. Exactamente o que se procurou deslegitimar politicamente há um par de semanas. Nos últimos anos, muito por força das medidas que agora se criticam, Portugal diminuiu a sua taxa de pobreza e a percentagem de desempregados a receber subsídio foi sempre crescente. Nos próximos anos, acontecerá exactamente o contrário. Quando se tem de aumentar a pressão fiscal, retrair o investimento público e, consequentemente, se congela o mercado de trabalho, talvez não fosse má ideia não tocar no estado social.

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sexta-feira, 14 de maio de 2010

A desorientação é o regime

E num instante tudo muda. Há dias, o risco de incumprimento do nosso PEC radicava num cenário macroeconómico optimista. As instâncias internacionais desconfiavam da nossa capacidade para crescer, mesmo que a um ritmo medíocre. Pelo caminho, o garrote do financiamento tinha-nos sido apertado, de modo a garantir que não cresceríamos sequer como o previsto. Esta semana, como que para provar a irracionalidade em que tudo assenta, o INE revelou um crescimento do produto no 1º trimestre inesperado, mesmo para os mais optimistas. Depois, o pouco investimento público que restava, e que na semana passada nos era apresentado pelo governo como estratégico, foi directamente para o caixote do lixo da história. Ficámos, portanto, a saber que a velha máxima do futebol de que "o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira" contagiou definitivamente a política. Entretanto, a mesma Europa, que defendia há um par de meses que a retirada precoce dos estímulos às economias produziria um efeito recessivo profundo, abriu as portas à possibilidade de intervir nos orçamentos nacionais, enquanto empurrava os países para um regresso em força à disciplina orçamental apertada. Por cá, onde a desorientação é o regime há vários meses, governo e PSD entenderam-se para assegurar definitivamente que o nosso ajustamento não assentará em nenhuma estratégia económica, mas numa recessão duradoura. Se íamos crescer pouco, o mais certo é que agora não sejamos capazes de crescer. No meio da desorientação, talvez não fosse má ideia que alguém aproveitasse para dizer que, sendo assim, chegaremos a 2013 com níveis de desemprego iguais ou superiores aos que temos hoje.
publicado hoje no i.

Depois de Jesus, Johnny Cash junta-se ao Benfica

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Risco de incumprimento

Ameaçado por risco de incumprimento de afazeres académicos, tenho tido a sorte de, num difícil exercício de insonorização, me ter conseguido manter num reduto de laicismo, mas também me tem sido impossível seguir muito atentamente aquilo que se está a passar na Europa, com réplicas que se fazem sentir de modo devastador em Portugal. Mas, do que li, sublinho em particular este texto do Pedro Lains, este do Jorge Bateira, este do João Pinto e Castro e ainda este do João Galamba.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

I was dressed for success / But success it never comes



Corre por aí, entre o grupo excursionista que se deslocou aos National+Pavement, o boato de que combinei o dress code com o Stephen Malkmus. Na verdade, confirma-se, ainda que tenha optado por não usar a t-shirt lilás que ele ostentava (cada um sabe de si).

terça-feira, 11 de maio de 2010

Fé e dogmas



Se me perguntarem a que é que eu pertenço, só há mesmo uma coisa que respondo sem hesitação. Se me perguntarem o que é que faz com que de facto me emocione para além do meu controlo, a resposta é a mesma. Eu fui e continuo a ser aquele miúdo que chorou quando o Benfica marcou contra o Liverpool este ano e mantenho uma memória fotográfica de muitas tardes passadas no velho estádio da Luz. Eu e mais centenas de milhares de outros portugueses - os portugueses que olham com desconfiança para a selecção e que preferem ver o David Luiz a titular do escrete ou o Di Maria a fazer o Maradona sorrir do que a ter de conviver com os nossos jogadores lado a lado com os dos rivais. Sou por isso um dos milhares de benfiquistas para quem este título valeu por muitos outros. Já vi muitas vezes o Benfica campeão, já vibrei com muitas vitórias históricas, mas, admito, é diferente vencer à Trappattoni e vencer jogando como jogámos esta época, naquele carrossel mágico de que tenho a certeza nunca mais me esquecerei. Quando precisar de me emocionar, sei sempre que posso recordar-me do que vi este ano e que, tenho fé, se repetirá para o ano e nos próximos.

Dois lamentos e uma proposta construtiva

Como não tenho twitter, tem de ser aqui. Sou prova empírica que isto do Vulcão é mesmo uma grande merda: não fui ao marquês, não vi o jogo, mas fui salvo pelos sms de uma mão-cheia de amigos. Por outro lado, nos últimos dias tenho-me lembrado muito do Johnny Rotten no último concerto dos Sex Pistols, quando se virou para o público e disse: "Ever get the feeling you've been cheated?. Tenho ainda uma proposta: alguém devia organizar uma excursão de ex-seleccionadores nacionais (e também de treinadores campeões) para ser recebida pelas mais altas instâncias nacionais (do sr. Madaíl ao dr. Cavaco), para que a ida do Prof. Queiroz (o homem novo que o dr. Cavaco anunciou aqui há uns anos) ao Mundial fosse suspensa.

sábado, 8 de maio de 2010

A grande recessão

Numa semana, forçados pela pressão externa, havia entendimento entre PS e PSD sobre a necessidade de implementar o PEC. Noutra semana, reaberta a disputa política interna sobre as “grandes obras”, o entendimento desfez-se em ar. Nenhuma das instituições internacionais que se pronunciou sobre o nosso PEC identificou o investimento público nele previsto como um risco. Aliás, o risco de incumprimento reside, no essencial, num cenário macroeconómico optimista, mesmo incluindo o pouco investimento público que resiste. Com aeroporto e TGV – que não poderão deixar de ter impacto positivo na nossa competitividade externa no médio prazo –, chegaremos ao fim do PEC com o desemprego em 9,3% e o crescimento do produto em 1,7%. E uma coisa é certa: sem que se vislumbre um modelo alternativo ao que tem dominado nas últimas décadas, um corte total, drástico e de um dia para o outro de todo o investimento público teria um impacto dramático – uma recessão profunda, duradoura, acompanhada por um disparar do desemprego bem para além dos actuais 10%. Neste cenário, tornar-se-ia, por exemplo, impossível promover qualquer tipo de consolidação orçamental. As profundas alterações das nossas condições de financiamento e o fim do “dinheiro barato” são óptimos pretextos para racionalizar o investimento público, colocando fim a muito desperdício e dando prioridade aos que têm melhor rendibilidade privada. Mas entre esse exercício e parar tudo vai uma grande diferença. No fundo, a diferença entre o mantra tantas vezes repetido de que “o País tem de aumentar a sua competitividade” e a capacidade de ter, de facto, uma política económica que torne Portugal viável.

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sexta-feira, 7 de maio de 2010

pode alguém ser quem não é?

Alegre formalizou a sua candidatura presidencial e, não tarda, o PS apoiá-lo-á. Desde das últimas presidenciais, estava escrito que assim seria. Uma espécie de fatalidade à qual nenhuma das partes tinha capacidade de resistir. Mas Alegre e o PS vivem enredados num dilema: Alegre sabe que um candidato ganhador precisa de ser capaz de alargar o seu espaço político de partida e o PS sabe que Alegre não é, na verdade, o candidato da sua linha estratégica dominante. Contudo, no anúncio em Ponta Delgada, Alegre-candidato revelou-se bem diferente de Alegre-proto-candidato. Onde antes havia um crítico do Governo em aspectos politicamente centrais, ouvimos um candidato alinhado com a estratégia de Sócrates. O candidato que esteve quase sempre com o “pé-fora” do PS, para recuperar a expressão de Soares, voltou agora a pôr o “pé-dentro”. Mas uma coisa são as proclamações, outra é a percepção que existe sobre o que Alegre e Sócrates representam politicamente. E, quanto a isso, não há interpretações alternativas: as visões de cada um são suficientemente diferentes para impossibilitar qualquer tipo de cooperação estratégica de facto. Alegre foi um candidato forte enquanto “maverick”, rebelando-se contra o poder do seu espaço de origem; o mesmo não é verdade para Alegre candidato artificialmente oficial do PS. Qualquer das duas versões está eleitoralmente limitada e, em política, não há nada pior do que se tentar ser o que não se é. No fim, restará uma disputa presidencial entre dois candidatos conservadores, ainda que com matrizes políticas diferentes. Entre Cavaco e Alegre ficará um amplo espaço político por representar.

publicado hoje no i.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Miles of style (anteontem em Dublin)

Amanhã, em Paris de França, vão estar juntos (depois conto)



"You've been humming in a daze forever
Praying for Pavement to get back together"


The National, so far around the band

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Se isto não é rock'n'roll


"and so now when i drink im going to drink to excess
and when i smoke i will smoke keep it in hold it in my chest
and when i scream i will scream until im gasping for breath
and when i get sick i will stay sick for the rest of my
days peddling hate at the back of a chevy express
each one will fly into the face of your idea of success
and if this be thy will then fuckin' pass me the cup
and im sorry dad no i'm not making this up!
but my enemies feel on the name under my wrist as i go to sleep and i know what little ive known of peace until ive done to you what you've done to me.
and i'd be nothing without you my darling please dont ever leave me.
please dont ever leave"

Titus Andronicus, the battle of hampton roads (só mesmo ouvindo)



The enemy is everywhere

Tenho andado com muito pouco tempo para me dedicar a coisas importantes, mas tenho ouvido muito este disco e ainda não me tinha apercebido que o queria dizer sobre ele era exactamente o que aqui se escreveu. Peço desculpa por ser em estrangeiro, mas era isto que eu queria ter escrito:

"I'm not sure what else I can say about Titus Andronicus' stellar album The Monitor that hasn't already been said. It's about the Civil War as much as it is about New Jersey as much as it's about disaffected youth. That is to say it is about a lot of BIG things. That is also to say it's gonna take a lot of listens before I can unpack it all.
But that's a beautiful thing, because it sounds about as big as the subject matter it covers. Not in an overblown way though, more like an out-of-breath way. There might as well not even be a track listing because every song just sort of ramshackle-y unravels, verse piled on verse, and spills into the next, but in the best possible way. It kind of sounds like a much punkier, more youthful version of The Hold Steady, with all the Springsteen worship to boot. (Check out the lyrics in epic opener "A More Perfect Union", "tramps like us, baby we were born to die!") In other words, it's the sound of something exciting looking forward and looking back."

(no youtube arranja-se uns videos manhosos da "battle of hampton roads" (assim os melhores 14 minutos que o rock nos deu nos últimos anos)

terça-feira, 4 de maio de 2010

O bloqueio e Alegre

A candidatura que Manuel Alegre hoje oficializa é, no essencial, uma tentativa para enfrentar o bloqueio estrutural da esquerda portuguesa: apesar de eleitoralmente maioritária é incapaz de garantir condições efectivas de governabilidade. Mas se Alegre, ao contrário do PS de hoje, tem a virtude de tentar enfrentar este bloqueio, infelizmente não contribui estrategicamente para o ultrapassar. Pelo contrário, a sua candidatura pode funcionar como uma espécie de vacina que inviabilize um PS modernizador e ancorado à esquerda.

O principal desafio da social democracia na Europa ocidental é ter uma agenda que faça da sustentabilidade financeira do Estado Providência a sua prioridade política. Ora Alegre, nuns casos colocou-se à margem de todas as discussões sobre este tema que ocorreram em Portugal nas últimas décadas, noutros foi um destacado opositor de medidas que tinham este objectivo. Da diferenciação das prestações familiares ainda com Guterres, passando pela disciplina orçamental no SNS com Correia de Campos e pela introdução do factor de sustentabilidade na segurança social com Vieira da Silva, até à opção pela adaptabilidade externa na reforma da regulação laboral, Alegre ou esteve ausente ou foi porta-voz da oposição política a estas medidas.

Num contexto de austeridade como o que vivemos, o sucesso de Alegre depende mais de libertar-se do conservadorismo de esquerda que tem sido a sua marca distintiva, do que de corrigir o afastamento recente em relação ao seu espaço político de origem. Seria um contributo relevante para a construção de um centro-esquerda capaz de crescer eleitoralmente à esquerda. Pelo contrário, uma candidatura conservadora nos costumes e imobilista nas políticas públicas serve apenas dois objectivos: consolida o bloco político conservador e assegura que o PS encontra na sua ala esquerda, por paradoxal que possa parecer, o melhor dos pretextos para se ir, cada vez mais, descaracterizando ideologicamente.

excerto do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Um amor terrível



Depois conto como é que eles se portaram a fazer a primeira parte dos Pavement.

sábado, 1 de maio de 2010

imitem a Europa: entendam-se

Por lirismo ou pura irresponsabilidade, o país pôs-se numa posição singular no contexto da zona euro. E não, não é o risco da dívida soberana. A nossa maior singularidade é política. Na Europa há governos de maioria absoluta, de coligação no executivo ou assentes em coligações parlamentares. O que não existe são governos minoritários sem entendimentos parlamentares estáveis. O caso português é único e, por alguma razão, ninguém replica o nosso experimentalismo. Num contexto de crescimento económico, com maior ou menor vigor reformista, a governabilidade é possível sem um apoio maioritário. Num contexto de austeridade, é irresponsável go-vernar sem uma maioria estável. Se as eleições não produzem esse resultado, o mínimo que se exige à classe política é que seja capaz de se entender. Nos últimos seis meses, com responsabilidades repartidas, os partidos portugueses entretiveram-se a votar favoravelmente medidas que aumentam a despesa (acordo sobre a carreira dos professores) e que diminuem a receita (chumbo do Código Contributivo e suspensão do pagamento especial por conta). Esta semana, num gesto essencialmente simbólico, Sócrates e Passos Coelho apareceram lado a lado em São Bento. Fizeram-no condicionados pela pressão externa, mostrando mais uma vez que nos maus momentos temos de ser ajudados a partir de fora. É pena que PS e PSD tenham demorado seis meses a perceber o óbvio: uma crise destas não se enfrenta com coligações pontuais e com governação à vista. Mas é bom que percebam também que, sendo um passo positivo, a solução não radica em conferências de imprensa.

publicado hoje no i.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A culpa é do mordomo


Culpar o mordomo é a forma fácil de responsabilizar alguém quando não se encontra o criminoso. Grécia e Portugal são os mordomos desta crise. Mas, assim que os mordomos de hoje forem suficiente- mente fustigados, a função será diligentemente desempenhada por outros Estados - Espanha é o mordomo que se segue. Isto não quer dizer que Portugal não partilhe culpas pela situação em que se encontra. Mas, uma coisa são erros cometidos nos ajustamentos que eram necessários para a integração económica e para a moeda única, outra são as responsabilidades morais e materiais no eclodir da crise financeira que agora provoca ondas de choque assimétricas na zona euro. Não deixa de ser sintomático que tenhamos hoje, ano e meio passado sobre o início da crise, de recordar que os défices excessivos e o crescimento do endividamento não são fruto da desorientação política dos governos nacionais, mas sim consequência do resgate do desvario financeiro. Encontramo-nos no pior dos mundos: temos os erros na formação do euro (da sobrevalorização cambial a uma política comercial que prejudicou objectivamente os países da coesão, enquanto reforçava as economias com balanças comerciais, à partida mais favoráveis, passando pela ausência de uma política fiscal comum) combinados com uma total ausência de capacidade política europeia para os enfrentar; por outro lado, temos um conjunto de Estados que têm de fazer ajustes que não fizeram no passado, mas cuja capacidade para os fazer sem respaldo europeu é nula e teria resultados ineficazes. Perante a dimensão dos problemas, só resta culpar os mordomos.
publicado hoje no i.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Rating: triple A (com outlook muito positivo)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Se eu fosse especulador, atacava aqui

Landscape Altered - Episode 2 from Kustom Airstrike on Vimeo.

Ser Guterrista - hoje, ontem e amanhã

"Para Portugal, como cidadãos, todos nós temos projectos. Para o regresso à política portuguesa tenho um projecto, que é o de não regressar"
António Guterres hoje, citado aqui.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

King Saul fell on his sword



um contributo para a conversão do Jacinto.

sábado, 24 de abril de 2010

Os deputados polícias

Dois meses passados, Rui Pedro Soares vestiu finalmente o papel de Oliver North que lhe estava destinado: pediu desculpa ao primeiro-ministro e alegou ter invocado o seu nome em vão. Depois calou-se. O PS, que dias antes tinha criticado um "jornalista" por se escudar no sigilo profissional, condescendeu. O episódio foi apenas mais um sinal de que o Parlamento se está a transformar e, pelo caminho, a degradar. Quando chegarem ao fim os trabalhos da comissão de inquérito ao "negócio" PT/TVI não estaremos mais próximos da verdade e o Parlamento sairá ainda mais fragilizado. Bem tem avisado Mota Amaral que os deputados não estão num tribunal e que os interrogatórios intermináveis são uma coisa de outro tempo. Os avisos caem em saco roto. Os deputados polícias vieram para ficar e com eles as investigações parajudiciais, sem meios, sem formação, sem possibilidade de defesa, tudo servido em directo online. Onde antes havia actividade legislativa e se fiscalizava a acção do governo, agora temos o milagre da multiplicação das CPI e a verdade apurada na confrontação entre notícias de jornais. Se da justiça devemos esperar uma atitude cega à partida e convicções formadas com prova, nas CPI temos exactamente o contrário: convicções formadas desde o início que depois pescam provas à linha. Este é um daqueles casos que sabemos como começam, mas temo que também saibamos como acabam: numa imparável judicialização da vida política. Imagino que os senhores deputados se sintam muito confortáveis nas suas novas vestes policiais. É bom que se habituem. Doravante será assim.

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sexta-feira, 23 de abril de 2010

A diferença está no papel higiénico?

Depois de, no pec, o governo ter dito mata (congelamento de salários e prestações), a margem de manobra que restava ao PSD era curta. Pouco mais poderia fazer do que dizer esfola (redução nominal de salários e prestações). Descartada a "via Frasquilho", Passos Coelho, ainda assim, não hesitou em criar muita expectativa em torno de um PEC alternativo. Quarta-feira, depois de semanas e semanas de "agarra-me se não eu digo o que faria", lá ficámos a conhecer o milagre da consolidação orçamental passista. Uma redução da despesa em 1700 milhões, mesmo com a reposição dos benefícios fiscais. Tudo assente em cortes em pareceres, na utilização de software livre e na redução das despesas com comunicações. As sugestões só podem ter a resposta que Nick Clegg, o líder dos liberais-democratas britânicos, deu no debate da semana passada. Perante as propostas para disciplinar as contas públicas dos seus opositores, Clegg respondeu que o que sugeriam é que era possível poupar muito dinheiro cortando nos clips. No fundo, no caso português, o que Passos sugere é que a diferença do seu PEC estaria no papel higiénico. Mas como, mesmo que se acabasse com todo o papel higiénico, não se chegaria aos milhares de milhões necessários, só podemos desconfiar que há, de facto, outros lados onde se pretende cortar. Tudo indicia, aliás, que o essencial seriam cortes com aquisições e serviços na saúde. Os tais 3,5 mil milhões de euros também referidos. O problema é que estamos a falar, por exemplo, de medicamentos e meios de diagnóstico. O que revela que talvez o papel higiénico não passe de um biombo. Era mais sério dizer de facto ao que se vem.

publicado hoje no i.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Contra os pobres, tudo

Quando a luta aperta à direita é invariável que a primeira vítima seja o rendimento mínimo. Agora, entre Passos e Portas assistiremos a uma competição para saber quem, num dos países mais pobres da zona-euro, revela mais vigor face aos malandros dos pobres. O Governo, já se sabe, também não quer ficar mal na fotografia e envolve-se na refrega. Mas se a coisa for explicada em estrangeiro e posta nestes termos talvez se perceba.

Oliver North

Hoje, ao saber do que Rui Pedro Soares disse na CPI, não pude deixar de recordar-me do que escrevi há mais de dois meses no i.

Durante o escândalo Irão-Contra, ficou célebre a imagem do coronel Oliver North a assumir solenemente a total responsabilidade pela entrega de armas ao Irão. Ao fazê-lo desresponsabilizou o presidente Reagan, que, no mínimo, simpatizava com a causa. O máximo que se tornou possível dizer foi que a vontade de Reagan tinha sido interpretada abusivamente por North. Ainda hoje não se sabe com exactidão o que se passou, mas North, falhada uma carreira política, tornou-se um popular comentador da Fox News (mais um farol da liberdade de expressão). Depois de ter classificado as revelações do jornal "Sol" como jornalismo de buraco de fechadura (o que manifestamente é), José Sócrates demorou quatro longos dias a afirmar que a "intenção estratégica" da PT de comprar a Media Capital foi "totalmente independente da vontade do governo". Logo, o seu nome foi invocado abusivamente. O que, como é sabido, na actividade política, tende a acontecer com frequência. Aliás, não demorou muito para que Henrique Granadeiro, presidente da PT, viesse corroborar as palavras de Sócrates. Mas é esse hoje o problema do primeiro-ministro: a credibilidade das suas palavras depende de facto do que afirmem terceiros. No fundo, depende de que alguns protagonistas ajam como Oliver North.

Até logo

quarta-feira, 21 de abril de 2010

36 a caminho dos 37


custa-me muito ter de escrever isto, mas só uma enorme cavalgadura não faz deste senhor titular indiscutível em qualquer equipa de futebol do planeta. no fundo, era o zanetti e o messi e mais nove (entre eles o angelito, claro).

terça-feira, 20 de abril de 2010

The horror, the horror

Assim que soube que a comitiva presidencial à república checa regressava em caravana de autocarro, tive a certeza que seria inevitável uma cantoria. A Mª José Oliveira relata aqui o horror.
"19h46
A viagem no autocarro que transporta a comunicação social transforma-se oficialmente numa excursão às amendoeiras em flor. Um repórter de imagem agarra-se a um microfone e incita as crianças, anteriormente muito sossegadas, a cantar - de Xutos & Pontapés a Rui Veloso, passando pelos Black Eyed Peas e o cansativo tema que se tornou o "hino" da Selecção Nacional (I Gotta Feeling). A coisa não fica por aqui. O DJ de Belém começa a ensaiar coreografias no corredor e pede às crianças para imitarem a dança. Quase seis horas depois da partida de Praga, o desconforto atinge agora o sistema auditivo. The horror, the horror."

Vai trabalhar, malandro

Durante três séculos, as ‘workhouses’ foram o instrumento central da resposta à pobreza no Reino Unido.
Com origem nas ‘poor laws' de 1601, eram instituições em que os pobres trocavam protecção por trabalho, simbolizando o apogeu da protecção social como controlo social e higiénico dos pobres. O regime das ‘workhouses' era conhecido pelo seu carácter punitivo, que tinha como objectivo desencorajar que os residentes as vissem como alternativa ao trabalho. Em 1930, o Governo britânico aboliu as ‘worhouses'. A decisão é usualmente vista como um marco na generalização dos direitos sociais de cidadania no mundo ocidental. Em Portugal, em 2010, o novo líder do maior partido da oposição escolheu como aspecto central da sua plataforma política o "tributo solidário", uma medida que, a ser levada a sério, reenvia-nos para o universo simbólico das ‘workhouses'.
Na formulação de Passos Coelho, com o tributo solidário "quem é ajudado pelo Estado deve retribuir essa benesse em trabalho social". A obrigação recai sobre os beneficiários do RSI e do subsídio de desemprego. A proposta consegue ser, ao mesmo tempo, politicamente errada e revelar desconhecimento sobre o funcionamento das medidas existentes. No fundo, o tributo solidário tem apenas um objectivo: explorar politicamente o ressentimento face aos beneficiários de prestações sociais.

continuar a ler no meu artigo de hoje no Diário Económico.

Preciso de ti esta noite

Record Club: INXS "Need You Tonight" from Beck Hansen on Vimeo.



Annie Clark (aka St. Vincent) vai estar no super rock, super bock, numa noite de julho, na praia do meco.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Um 25 de Abril

sábado, 17 de abril de 2010

Liberdade de escolha

"Sem música, a vida seria um erro", escreveu Nietzsche. Eu acrescento que a educação sem música é um erro ainda maior. Lembrei-me disto quando vi um vídeo de um coro de uma escola pública norte-americana a cantar "Zebra", dos Beach House. O surpreendente não era nem o entusiasmo com que cantavam, nem as capacidades harmónicas. Nisso aquele coro não se distinguia dos de muitas escolas. O que surpreendia era que, em lugar das músicas infantilizadas, aqueles miúdos cantavam uma música adulta, apropriando-se dela com um olhar de criança. Vi nisso a diferença que existe entre a educação musical que tive e a que hoje é dominante. Tive a sorte de fazer a primária na ressaca do PREC, na melhor escola do mundo. As músicas que aprendi eram do Zeca, do Zé Mário Branco e do Fausto - que fez o melhor disco de MPP dos anos oitenta, precisamente sobre a "Peregrinação" do autor fantástico que dava nome à minha escola. Deixo de lado a natureza politizada da minha educação musical, o que importa é que nos ensinavam músicas adultas. Éramos tratados como crianças, mas não infantilizados. Há um tempo para tudo, mas eu temo que os meus filhos tenham uma educação musical infantilizada. Ou seja, há momentos em que sou favorável à liberdade de escolha na educação, tema que se tornou muito popular. Mas depois de ver aquele vídeo inclino-me decisivamente para a "política do gosto" e para a certeza de que a liberdade se garante na escola pública, com professores que mudam o mundo, dando a crianças de um contexto desfavorecido uma educação musical adulta, como em Staten Island, em New Jersey ou com a Orquestra Geração, no Casal da Boba, na Amadora.

publicado no i.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A cortina de fumo constitucional

Há um manual não escrito para a acção política em Portugal. O primeiro mandamento desse manual tem sido sobejamente posto em prática e reza assim: "Se quiseres marcar a agenda e não tiveres nenhuma outra forma de o fazer, propõe uma revisão constitucional". Passos Coelho, na esteira de Luís Filipe Menezes, foi o último a sacar a revisão constitucional da cartola. O efeito esperado foi produzido. Classe política, jornalistas e comentadores reagiram ao tema. Mas terão sido certamente os únicos a dedicar um segundo de atenção à proposta. Dificilmente se encontrará exemplo mais paradigmático da distância que vai entre as prioridades de quem gravita em torno da política e o resto do país. E este é um daqueles casos em que é o resto do país que tem razão. Desde logo porque, estando Portugal bloqueado económica e socialmente, infelizmente nenhum dos nossos problemas se resolve através da alteração, ainda que radical, de meia dúzia de artigos da Constituição. Antes assim fosse. A proposta de Passos Coelho aparenta ser, por isso, uma cortina de fumo para evitar explicitar propostas políticas que, não colidindo com o texto fundamental, chocam, contudo, com a vontade popular. Uma agenda privatizadora na saúde e na educação, colocada em termos programáticos revela um apelo que rapidamente se desvaneceria se traduzida em compromissos políticos concretos. É por isso que a revisão constitucional de Passos Coelho, tendo a virtude de trazer consigo um subtexto que clarificará ideologicamente o espectro partidário português, não passa de um truque para esconder uma agenda política.

publicado hoje no i.

quinta-feira, 15 de abril de 2010



"I've destroyed everything that wouldn't make me more like Bruce Springsteen"
Titus Andronicus, The Battle of Hampton Roads

quarta-feira, 14 de abril de 2010

No fundo, foi isto

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Liberdade de escolha



O JMF lembrava hoje, linkando isto, que para Nietzsche "a vida sem música era um erro". Eu, que sou provavelmente o pior cantor do mundo, acrescento que a educação sem música é um erro. Não sei de que modo contribuiu a minha educação musical para a música que hoje ouço, mas sei que tive a sorte de fazer a primária no rescaldo do PREC, na melhor escola do mundo. As músicas que aprendi eram do Zeca, do Zé Mário Branco e do Fausto - que a certa altura fez um disco fabuloso, precisamente sobre o nome da escola onde eu andava. Temo que os meus filhos aprendam outras músicas, e quando vejo o meu filho a cantarolar os ABBA ou os insuportáveis Black Eyed Peas temo pelo futuro. Mas sou tolerante e há mesmo um tempo para tudo (mas, pelo sim pelo não, em nome do dirigismo e da política do gosto, já o convenci da superioridade do Johnny Cash, até porque na Balbúrdia na Quinta há uma versão do I Won't Back Down). No fundo, há momentos em que sou pela liberdade de escolha na educação, uma coisa que parece ser agora muito popular. Mas depois, vejo este video e comovo-me. A escola é manifestamente pública, com miúdos de muitas etnias, provavelmente de um contexto - lá está - sócio-económico desfavorecido. Mas, o que conta aqui é que há um professor que ensina outras músicas a este conjunto de miúdos. Acho que mudar o mundo é apenas isto e liberdade de oportunidades é estes miúdos poderem aprender esta música dos Beach House, numa escola pública.
(a propósito de ser possível oferecer aos miúdos músicas não apatetadas, que dizer deste workshop do Thurston Moore, para crianças a partir dos oito anos, que decorreu ontem. O que isto não fará pelo futuro duma criança?)

Banhos de Mar

Primeiro Mar do Ano
Ontem e anteontem tomei os primeiros banhos de mar de 2010. No plural diário: um de manhã; outro à tarde. Às nove da manhã, sozinho e dono do mundo, e, depois, às cinco da tarde, acompanhado por meio mundo, mas não menos feliz por isso. Portámo-nos todos como se tivesse chegado o Verão. Todos os anos, a meados de Abril, caímos no mesmo engano. Sabemos que vêm aí grandes chuvadas e intempéries. Mas que nós, na nossa inocência, gula e esperança, não esperamos. Somos fáceis de enganar, ano após ano, apesar da lembrança de termos sido anualmente enganados desde que nascemos, vez após vez, porque o engano sabe bem. É como a droga, um dia de praia no princípio de Abril. É como o prazer de ser estúpido. É como apostar que vai sair o 36 na roleta 36 vezes seguidas.

Nunca tive a coragem de experimentar as drogas duras (que devem ser boas de mais), nem paciência para aturar as moles (que não são suficientemente boas). As minhas drogas foram sempre as moderadas: as centrais; as divertidas; as que sabem bem; as que ajudam a trabalhar; as que nos matam sem darmos por isso.

O mar português é exactamente como uma dessas drogas - a cocaína; o álcool; as anfetaminas. É um perigo e um prazer. Faz medo mas faz bem. Mata bastante mas dá-nos sempre uma sensação de viver. O engano de acharmos que começou a época da praia é como o feitiço da toxicodependência. É uma estupidez profunda da qual temos consciência mas nem por isso nos liberta.

Bem-vinda seja, a traidora.


Miguel Esteves Cardoso, no Público.

Os Surfer Blood a nadarem numa garagem

sábado, 10 de abril de 2010

Passos e Sócrates, a mesma luta

Passos Coelho encontra-se uma posição simétrica à de Sócrates, quando venceu as directas no PS. Como Sócrates, Passos teve uma maioria esmagadora, mas tem um problema de credibilidade externa que não é independente de défices na relação com as elites do partido e da sociedade civil. Sócrates resolveu o seu problema interno cooptando para a sua direcção muitos apoiantes de Alegre, que viriam a integrar o seu núcleo duro. Passos aparenta estar a fazer o mesmo, ao apresentar uma lista unitária para a direcção política do PSD. As semelhanças não acabam aqui. Passos terá, presumivelmente, em Pacheco Pereira o seu Manuel Alegre - uma voz crítica e isolada no grupo parlamentar, mas com muita notoriedade mediática. Mas unir o partido não basta, como Sócrates sabia em 2004. Passos precisa de ter uma ponte com a Presidência da República - uma alavanca decisiva para chegar ao poder - e de um tema mobilizador. Precisa de alguém que desempenhe o papel de António Costa e de encontrar o seu "choque tecnológico". No entanto, além da estratégia e da táctica, sobra a substância. Com a vitória de Passos, os dois principais partidos têm líderes que são produtos das estruturas partidárias, sem a credenciação social e intelectual que detinham os líderes do passado. Há quem veja nesta tendência um sintoma de empobrecimento da vida política portuguesa, mas pode dar-se o caso de estarmos apenas a aproximar-nos do padrão das democracias mais avançadas, nas quais a política é deixada a políticos profissionais. Podemos, de facto, estar a ficar iguais aos europeus mas com uma diferença que tem custos: saltámos várias etapas.

publicado hoje no i.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Saber envelhecer

O rei vai de submarino

Esta semana ficámos a saber que os portugueses confiam pouco. Não confiam quase nada no governo (apenas 27%), nem nos media (32%) ou nas empresas (34%). A nossa falta de confiança só se compara com o que se passa na Irlanda, e a situação é tal que confiamos muito mais nas multinacionais do que no que é português. O declínio na confiança é filho da depressão económica, mas é enteado do sentimento de que a corrupção se está a generalizar. Os submarinos são o último contributo para esta percepção. Sobre a sua aquisição há um conjunto de perguntas que, por mais que se procure, não se encontram respostas convincentes. Esta opacidade não é independente da cultura de secretismo que caracteriza ainda as instituições militares, em muitos domínios desnecessária. Enquanto no conjunto das políticas públicas se tem progredido na transparência da informação, a reserva mantém-se reduto intransponível na Defesa. Conforme se vão conhecendo justificações tímidas da necessidade dos submarinos e um pouco mais da nebulosa que foi o processo de aquisição, mais abalada fica a nossa confiança. A este propósito é elucidativa a entrevista do general Loureiro dos Santos ao "Diário Económico". Sobre a necessidade da aquisição diz-nos que "havia equipamentos de que as Forças Armadas necessitavam com mais prioridade - os patrulhões oceânicos, os navios antipoluição e os helicópteros", pois os submarinos respondem a uma ameaça de combate que não se põe no actual contexto estratégico; quanto às contrapartidas, "são artifícios para desequilibrar as opções para determinadas propostas". A percepção com que se fica é que o rei não vai nu, mas sim de submarino.
publicado hoje no i.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Merda: o cash for chaos acabou


Aparentemente, a maior vigarice de sempre acabou e já não volta mais.

O joelho de Hope

terça-feira, 6 de abril de 2010

New England+Born to run=A more perfect Union



Uns gajos que conseguem a proeza de citar no refrão a minha música preferida do Billy Bragg e a melhor música do Bruce Springsteen merecem, só por isso, toda a consideração. Mas os Titus Andronicus valem bem mais do que a influência. Monitor é um grande disco que, no meio da Guerra Civil americana, transborda de energia vital. Desde os Pogues que não se gritava tão bem.

O que nasce torto

(...) O problema é que sobre a necessidade militar dos submarinos conhecemos apenas justificações circulares e sabemos que a NATO classificou a aquisição como um "desperdício", já sobre o seu papel económico também pouco se sabe. Numa altura em que se exige uma análise "custo/benefício" para construir um viaduto pedonal, é estranho que, sempre que se coloca uma questão sobre submarinos, nada mais se encontre para além de respostas evasivas.
E é aqui que entram as responsabilidades políticas. Uma das obrigações primeiras de quem governa é esclarecer. Quando o tema são submarinos, assistimos a uma espécie de "passa ao outro e não ao mesmo". A este propósito, a reacção de Durão Barroso foi paradigmática. Confrontado com as notícias do Der Spiegel, não se inibiu de afirmar que não tinha tido "qualquer intervenção directa" no negócio, além da participação na decisão tomada colectivamente em Conselho de Ministros. No fundo, a maior aquisição da democracia portuguesa foi tratada como um decreto-lei do Ministério da Agricultura. Estamos, no mínimo, perante um caso de irresponsabilidade política. Durão Barroso afirmar que não teve "intervenção directa" no negócio dos submarinos é o mesmo que Sócrates dizer que não sabia do negócio PT/TVI, mas a uma escala radicalmente diferente. Não só está em causa um valor dez vezes superior, como, no primeiro caso, era um negócio do Estado; no segundo, entre privados, sendo que o Estado detinha apenas uma ‘golden share' na empresa compradora. (...)
do meu artigo no Diário Económico.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Maiores do que nós



Hoje tudo teve condições para correr mal. Depois do roubo de sexta-feira, que inclusivamente fez corar Mesquita Machado, só faltavam mesmo aqueles quinze minutos iniciais. Andei o dia todo com um pressentimento estranho: o jogo ia correr mal e o jogo estava a correr mal. Nos últimos anos, o meu optimismo tem sido sempre contrariado pela equipa. Este ano, é ao contrário e é o meu pessimismo que é contrariado pela equipa. É para isso que serve o Benfica - para ser maior do que nós; o Benfica tem sido outra vez maior do que nós e hoje foi muito maior do que nós. Na verdade, tirando um ou dois jogos esporádicos, isto não me acontecia desde a primeira passagem do Eriksson pela Luz, quando eu era o miúdo que chorou no golo contra o Liverpool na quinta-feira. Razão tem o João Alves quando há semanas dizia que "este Benfica atropela os adversários como o meu e vai ficar para a história." Para mim, já ficou.

The bravest show that David Simon has ever made



“Treme” isn’t in the business of taking a socioeconomic or political view of the storm’s ravages (if there was a reference to President Bush in the first three episodes, I missed it) or of drawing many moral distinctions between characters. There’s no sense of judgments being made, except when it comes to non-natives. (...) I’d never seen anything like it in a TV show. And yet it didn’t strike me as exotic, since that’s a word I would use to describe something I felt distanced from. But here I felt a strong connection. I think this is what Simon wanted to have happen to viewers, though so far it hasn’t happened to me very often. The characters in the show are ambivalent about outsiders, and if you’re at all sensitive to that you feel intrusive, rude—almost a colonialist—for appreciating what you see and hear in “Treme.” The series virtually prohibits you from loving it, while asking you to value it. In that sense, I suppose, it may be the bravest show that David Simon has ever made.

vá e siga.
(site de Treme)

A raiva é a última a morrer

sábado, 3 de abril de 2010

As fogueiras que ardem de novo

As fogueiras são sempre as mesmas, bem como as formas como são acendidas. Quem arde por estes dias não são bruxas, mas padres. É evidente que a Igreja Católica tem lidado com a pedofilia com os pés – o que não é independente nem do modo tendencialmente pecaminoso como o catolicismo olha para a sexualidade, nem da lamentável cultura de encobrimento com que gere os seus problemas. Mas uma coisa é a propensão para uma sexualidade imatura, resultado de um processo formativo em seminários e do celibato, ou a forma anacrónica como a instituição se procura, a todo o custo, proteger a si própria, em lugar de pedir publicamente desculpa; outra, bem diferente, é tornar todos os padres pedófilos potenciais. Não há aqui inocentes e os primeiros culpados são naturalmente os padres que comprovadamente – sublinho o comprovadamente – abusaram de crianças. Mas talvez não fosse má altura para parar para pensar. Desde logo, a hierarquia da Igreja Católica que, como sugeria António Marujo no Público, deveria ter uma “atitude purificadora e aberta à mudança”, de forma a recuperar a credibilidade perdida nesta crise. Mas, também, os media que fazem de qualquer padre acusado de pedofilia um condenado de facto, com cara e nome, para deleite das massas que assistem às fogueiras. Ainda esta semana, as televisões não se inibiram de exibir imagens de um padre do Porto indiciado – e apenas indiciado – por abusos sexuais. O que prova que mudam os tempos, mas as fogueiras continuam a arder como ardiam. Nós, não só cometemos sempre os mesmos erros, como somos incapazes de aprender com o passado. Quando era preciso uma “ressurreição”, escolhemos ficar agrilhoados.

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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Vivemos todos num submarino

O País transformou-se num enorme submarino: passa grande parte do tempo submerso e quando vem à superfície é para mostrar, em todo o seu esplendor, a riqueza que “tem” e não só não pode ter como adquiriu de modo trôpego. Mas, de quando em vez, há boas notícias. Por força das revelações do Der Spiegel, ficámos a saber que o Governo admite denunciar as condições do contrato de compra do “Arpão” e do “Tridente” – uma espécie de atracções para fazerem companhia à “Amália” e ao “Eusébio” do Oceanário (a própria NATO classificou a aquisição como “desperdício). Nunca é tarde para se descobrir que os submarinos servem no essencial para nos afundar um pouco mais e que o negócio das contrapartidas é o chumbo que nos deixará presos ao fundo do mar. O propósito das contrapartidas parece mesmo ser só um: inflacionar o preço de compra e, pelo caminho, enganar uns quantos papalvos. Uma coisa é, por exemplo, adquirir material militar e negociar que a sua manutenção é garantidamente feita em Portugal; outra é adquirir submarinos e esperar que o consórcio que vende se empenhe em colocar produtos da indústria portuguesa no mercado alemão. O resultado só pode ser um: uma execução muito baixa e um risco elevado de lesar o Estado. Mas há sempre quem ganhe quando colectivamente nos afundamos. Diz muito, aliás, sobre o País, que o Parlamento ande entretido numa comissão de inquérito para saber se o primeiro-ministro tinha conhecimento de um negócio abortado entre privados e não se faça uma comissão de inquérito sobre as contrapartidas nos negócios militares, onde há indícios de fraudes que nos custam milhares de milhões.

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quinta-feira, 1 de abril de 2010

Da luta de classes


Conforme o tempo passa, mais eu gosto deste gajo (um bom pretexto para recordar esta grande entrevista, a anos luz daquilo a que nos habituam os políticos).

quarta-feira, 31 de março de 2010

No fundo é isto

Durão Barroso dizer que não teve "intervenção directa" no negócio dos submarinos é a mesma coisa que Sócrates dizer que não sabia do negócio PT/TVI, mas a uma escala radicalmente diferente. No primeiro caso, era um negócio do Estado; no segundo, entre privados, sendo que o Estado detinha apenas uma golden share na empresa compradora. Já agora, com o dinheiro dos submarinos, com jeito, comprava-se dez vezes a TVI (mil milhões para circa 130 milhões).

Intervenção directa

A maior das surpresas sobre "submarinos" de hoje não é a notícia do Der Spiegel, é sim a porta que o Governo deixou entreaberta, por força do incumprimento nas contrapartidas, para denunciar o contrato de compra (boas notícias e mais uma vez prometo regressar ao tema - sobre o qual, aliás, falarei hoje à noite no Roda Livre da TVI24). Mas, no meio desta história no mínimo atribulado do tridente e do arpão, que dizer do modo como Durão Barroso, bem ao seu estilo, passou as responsabilidades para Paulo Portas. Durão alegou não ter tido "qualquer intervenção directa" na compra dos submarinos. Não se percebe o que é que a declaração quer exactamente dizer. Em última análise, nenhum primeiro-ministro tem intervenção directa em nenhum assunto, tendo em conta que há delegação de competências de quase tudo nos ministros. Mas alguém acredita que uma compra de submarinos, que, contrapartidas à parte, custou cerca de mil milhões de euros, poderia ser feita sem envolvimento/acompanhamento/intervenção directa, pelo menos, do primeiro-ministro, do ministro da defesa e, claro, do ministro das finanças. Se não teve intervenção, deveria ter tido. Nada disto, claro, tem a ver com qualquer ilícito. É mesmo uma questão política e não foi nada bonito o modo como Durão chutou a bola para Portas.

Sujeitos de personalidade jurídica indefinida

Gosto tanto de futebol que fujo de “trios de ataque” e entrevistas a dirigentes desportivos a sete pés. Quem me tira uma partidinha da divisão de honra nas manhãs de fim-de-semana transmitida por essa instituição que tanta falta me fez na adolescência que é a Sport TV, tira-me bastante. Já sem tudo o resto, passo bem - o que, pelo caminho, torna possível continuar a gostar de futebol. Mas se bem percebo o que se tem passado, um jogador de futebol que agride um adepto está sujeito a uma moldura disciplinar bem inferior àquela que resulta dos casos em que a agressão é a um “agente desportivo” (não deveria ser exactamente ao contrário?). No fundo, é isso que explica a alteração na suspensão de Hulk e Sapunaru - que, convém não esquecer, andaram mesmo a pontapear sujeitos aparentemente de personalidade jurídica indefinida num túnel. E, por mais voltas que se dê, não se consegue perceber como é que um steward, que está ali porque tem de estar para que o jogo se realize, é um espectador como eu.
(nota de rodapé: este ano, era preciso roubar mesmo muito o Benfica para não sermos campeões)

terça-feira, 30 de março de 2010

segunda-feira, 29 de março de 2010

We all got holes to fill



Aí há dezoito anos conheci assim o Townes Van Zandt. Uma coisa completamente irrelevante para o resto do mundo, já eu nunca recuperei bem dos impactos e das coisas que a partir daí fui ouvindo. (sim, a Margo esquece-se da letra lá para o fim).

sábado, 27 de março de 2010

Agora ou a eternidade?

Hoje é o primeiro dia do resto desta legislatura: abre-se uma curta janela para o Presidente convocar eleições e, coincidência (ou não), o PSD, depois de seis meses de lenta agonia, terá, finalmente, um líder. Mas se é hoje que começam as oportunidades, temo dizê-lo, é também o momento em que elas acabam. Uma nova liderança do PSD precisa de tempo para se afirmar, mas não pode esperar muito tempo; e Cavaco Silva, com presidenciais à porta, a última coisa que quererá é uma crise política nos próximos meses. Ao que acresce que o epílogo de Ferreira Leite foi também o estertor de uma liderança do PSD em cooperação estratégica com Belém. O PSD a partir de hoje vai necessariamente ter de se afastar de Belém, sendo que precisa de Belém para regressar ao poder no curto prazo. Complexo. Há, ainda assim, uma forma de romper com este dilema: fazer tudo ao contrário do que fez a direcção cessante. Ferreira Leite deixa o partido nos mesmíssimos níveis com que o recebeu de Menezes. Ou seja, o problema não era, nem é, a credibilidade. O problema é que enquanto o PSD se concentrar no carácter do primeiro-ministro, conseguirá afectar a popularidade de José Sócrates, mas não será capaz de se afirmar como alternativa. Todo o debate sobre o PEC foi, desse ponto de vista, elucidativo. O PSD revelou-se, simultaneamente, dividido, contra o programa e incapaz de propor um caminho alternativo. O único caminho para o novo líder passa, por isso, por encontrar um espaço de diferenciação nas políticas. Um desafio que precisa de tempo. Ora o tempo disponível é curto, até porque o pós-presidenciais será daqui a uma eternidade.

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sexta-feira, 26 de março de 2010

A gamela

Segunda-feira, Paulo Rangel regressará a Bruxelas. Ironia das ironias, para o exacto lugar onde colocou Elisa Ferreira e Ana Gomes. Belo epitáfio para a política da verdade.

Um Bloco Central de Palácios

Os mercados queriam um PEC corajoso e consensual. Basta ler as razões da Fitch para baixar o rating, para perceber que os mercados ficariam sempre insatisfeitos com a dimensão da austeridade prometida. Um PEC consensual é também impossível. O cenário político não podia ser pior: um partido do governo dividido e sem maioria e um PSD dividido e sem posição ou alternativa. Já não restam dúvidas de que a crise política se somará à financeira, num processo dramático de reforço mútuo. Como sair daqui? Emparedados entre a possibilidade de regressar a eleições, que produziriam o mesmo resultado, e a inviabilidade da solução que tem sido tentada - governação à vista, com acordos pontuais -, resta uma saída: uma coligação entre os dois principais partidos. Com a pressão financeira à espreita e o regresso à austeridade com custos sociais, nenhum governo de maioria relativa é sustentável quatro anos. Mas uma coisa era um bloco central claro, com negociações, cedências e compromissos perceptíveis. Outra é um de bastidores, baseado em jogadas palacianas que descredibilizam os partidos e não melhoram, de forma sustentada, o cenário político. Enquanto os partidos continuarem manifestamente incapazes de se entenderem, um outro bloco central começará a ser construído. Como aliás se foi percebendo do modo como o PSD foi formando o voto em relação ao PEC, está a germinar um bloco central de palácios, paradoxalmente construído entre São Bento e Belém. Se for este o caminho, chegaremos a 2013 com os partidos menorizados e um país politicamente ainda mais pobre.

publicado hoje no i.

O enigma Ferreira Leite

Havia uma racionalidade para a manutenção de Ferreira Leite na liderança do PSD após a derrota nas legislativas: viabilizar o Orçamento de Estado e o PEC e com isso libertar a próxima direcção, que não teria de aparecer ao lado do Governo na aprovação de políticas de austeridade. Depois das indecisões desta semana, a única explicação para a longa agonia em que a liderança do PSD se encontra desde Setembro desapareceu. As “famosas últimas palavras” de Ferreira Leite foram ditas ontem na reunião do grupo parlamentar: “ainda sou Presidente do partido e defendo a abstenção”. Dificilmente se encontraria maior sintoma de fragilidade política e melhor prova de que de pouco serviu a teimosia. Uma liderança demissionária é por natureza uma liderança frágil e sem nenhuma capacidade política. O PSD, em lugar de estar a escolher hoje o seu líder, já deveria ter resolvido o assunto em Novembro ou Dezembro. É o que se costuma chamar de “óbvio ululante” e a persistente má avaliação da imagem de Ferreira Leite nos barómetros desde as eleições é disso prova.
Mas se essa é uma parte do enigma, há outra que dificilmente encontrará explicação: o tipo de afirmação política que Ferreira Leite procurou. Uma combinação única entre falta de competências na comunicação política, com um discurso de um pessimismo sem paralelo e sem qualquer proposta para um caminho alternativo. Tudo isto pautado por um subtexto no qual categorias que deveriam ser marginais para a disputa política – da verdade ao carácter – foram centrais para a diferenciação do PSD face ao PS. Os resultados desta opção estratégica estão à vista: Ferreira Leite deixa o PSD com scores idênticos aos que herdou de Menezes.
comentário ao barómetro da Marktest, no último dia de Ferreira Leite líder do PSD (publicado no Diário Económico)

quinta-feira, 25 de março de 2010

Cartas ao director,

Não tive qualquer participação no programa eleitoral do PS, nem sou dirigente do partido – desde 2004 sou o que sempre fui, militante de base. Sobre o PEC, a minha posição a propósito da evolução da despesa com as prestações não-contributivas está bem longe da do BE, como, para bom entendedor, se pode ler aqui. Sobre a política em geral, há cerca de um ano que me parece - e já o disse e escrevi várias vezes - que perante a impossibilidade de haver uma maioria absoluta de um só partido, a única solução viável era, infelizmente e por culpa da esquerda, a formação de um bloco central. Os custos seriam, ainda assim, inferiores aos benefícios e, em particular, inferiores aos que continuaremos a enfrentar. É, no essencial, isto.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Vida para além do défice

Esqueçam o PEC, os estabilizadores automáticos, as privatizações e o cenário macroeconómico prudente. Há coisas bem mais importantes e que estarão por aqui, a pairar sobre nós, bem para além do horizonte temporal do regresso à consolidação. Ando para deixar isto aqui há várias semanas. Hoje pareceu-me um dia particularmente adequado para o fazer. O isto é um texto notável do José Manuel dos Santos, que saiu no Expresso há umas semanas. Se só poderem ler um texto este ano, leiam este. Fica um excerto, o resto está aqui. Eu, acompanhado por mais duas ou três pessoas, só posso agradecer ao José Manuel ter tido a coragem e a lucidez para escrever este texto. É a prova de que há ainda homens e que é nos tempos sombrios que se percebe quem é quem.

"Nestes dias sujos e vociferantes, muitas palavras se têm escutado sobre as escutas. Em quase todas elas, há aquela mistura de moralismo e ódio, alvoroço e justicialismo, mediocridade e exibicionismo que preside aos grandes desastres. Dizer que os meios ganham razão pelos fins é dar voz à barbárie. Mas há sempre juristas para a defender, tornando legítimo o ilegal e justo o intolerável. Em todos os crimes dos despotismos, do ordálio medieval aos julgamentos de Moscovo, houve juristas a fazer da sua argumentação uma justificação e mesmo uma apologia do monstruoso. Esses crimes foram sempre perpetrados em nome de um "interesse superior": da Verdade, do Bem, do Estado, da Nação, do Partido, do Povo, do Público, da Raça, de Deus. Ficaremos todos mais prevenidos e lúcidos quando um dia se fizer uma história do direito como aliado da barbárie. Kafka não era um escritor com excesso de imaginação..."

Messi ou Maradona?



(ou de como este blog lentamente vai regressar à normalidade democrática)

terça-feira, 23 de março de 2010

A solução preguiçosa

(...) A poupança no regime não-contributivo (complemento solidário para idosos, abonos, subsídio social de desemprego e rendimento social de inserção) tem sido recebida com estupefacção. Há boas razões para isso: é precisamente numa altura de crise que a existência de uma rede de mínimos sociais é mais necessária e, no passado recente, o seu desenvolvimento foi um elemento central da modernização programática do PS (a nova geração de políticas sociais). Uma coisa é clara no PEC: a redução dos apoios sociais é ideologicamente errada e politicamente preguiçosa. (...)
do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Na ressaca do dia mundial da poesia


são papoilas saltitantes.

sábado, 20 de março de 2010

A lei Pacheco Pereira

As leis devem ser gerais e abstractas. Uma verdade que não colhe no PSD. A lei da rolha é de facto uma lei ad hominem, tem um destinatário claro: Pacheco Pereira; mas, acima de tudo, é o sintoma de que há um problema larvar no partido. É no mínimo insólito que, perante uma crise profunda e com o governo debilitado, o PSD se entretenha a discutir estatutos e a limitar os direitos dos militantes dissonantes. O PSD tem um problema de lealdade - "os tiros nos pés" de que falou Marques Mendes -, mas a unidade só se recupera com poder. Até regressar ao governo, o partido estará condenado aos desentendimentos internos. E a sua principal raiz não é propriamente ideológica. O PSD vive preso numa clivagem entre um partido de "cima" e um partido de "baixo". Um partido que tem presença mediática e outro que se mantém activo no território, através de micropoderes locais com escassa notoriedade pública. Nos últimos anos, o partido de "baixo" (com Santana e Menezes) tem alternado no poder interno com o partido de "cima" (com Marques Mendes e Ferreira Leite), sem que nenhum dos partidos se consiga afirmar perante o outro. O resultado está à vista. O partido de "baixo", que não aparece nos jornais, vinga-se, com a "lei da rolha", do partido de "cima", personificado em Pacheco Pereira, que tem todas as tribunas disponíveis, para depois o partido de "cima" prometer revogar imediatamente uma norma que o partido de "baixo" acabou de aprovar maioritariamente. Mais do que saber se deve ser liberal, conservador ou social-democrata, o PSD tem de encontrar um líder capaz de romper com esta clivagem.
publicado no i.

sexta-feira, 19 de março de 2010

As pessoas no fim

O PEC tal como conhecido a semana passada combinava austeridade com equidade. Mas esta semana, conhecido na integralidade, emerge uma agenda que esteve escondida. Ao contrário do que parecia, quem vai sofrer mais com o PEC não são as classes médias, são os mais pobres. É dramático, mas o maior contributo para a diminuição da despesa é dado pela redução das transferências do Orçamento do Estado para a segurança social. Ou seja, as políticas que formam a rede de mínimos sociais verão o seu financiamento muito limitado (do complemento solidário para idosos ao subsídio social de desemprego, passando pelo rendimento social de inserção). Não falo do modo como esta opção contradiz o programa eleitoral com que o PS se apresentou às eleições, nem sequer do que esta escassez de recursos representará num país pobre como o nosso, quando o desemprego se manterá a níveis socialmente intoleráveis. O que está em causa é também uma questão de identidade partidária. Há muita falta de memória na política, mas não tanta que faça esquecer que, há perto de 20 anos, quando o PS, com António Guterres, redefiniu a sua linha programática, um dos eixos centrais desse aggiornamento foi a criação de uma rede de mínimos sociais, baseada em direitos de cidadania. No tempo em que os slogans políticos eram levados a sério, era o que queria dizer "as pessoas primeiro". Subitamente, numa terça-feira, o governo do PS vem limitar o financiamento dessa rede, mas acima de tudo cria um tecto administrativo ao que se propõe gastar. Em última análise acaba com uma lógica de direitos de cidadania e faz regressar a política de combate à pobreza aos apoios discricionários com que rompeu no passado. A mensagem é clara: as pessoas ficam para o fim.

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quinta-feira, 18 de março de 2010

"Quem é ateu e viu milagres como eu"




Hoje à noite, na Capela do Rato em Lisboa, participarei numa mesa redonda sobre "Deus: questão para Crentes e não-Crentes", com o Henrique Raposo e Assunção Cristas, moderados pelo João Wengorovius Menezes. Em cima, algumas das coisas de que prometo falar.

Teoria da relatividade

Quando eu sou a esquerda do que quer que seja, há claramente um problema. Temo que não seja eu o problema.

terça-feira, 16 de março de 2010

Estado de choque

Fica aqui uma promessa de regressar ao tema, mas não posso deixar de considerar chocante o plafonamento da despesa com o rendimento mínimo prevista no PEC. Há certamente muitas dimensões em que é possível (e é necessário) aprofundar a fiscalização e as condições de atribuição e renovação da prestação, mas uma coisa radicalmente diferente é fixar administrativamente, sem se perceber com base em quê, um tecto para a despesa. Fica assim provado que o programa eleitoral do PS foi uma brincadeira e que o Governo incorporou as críticas mais ferozes ao RSI (ou seja, o que era a demagogia recente de Paulo Portas passou a ser a norma do executivo - o que, por exemplo, fere a identidade política do PS, desde 1995 com António Guterres, designadamente a prioridade ao combate da pobreza mais severa). Mas, ainda assim, o mais dramático serão as consequências sociais da opção. Num contexto em que o desemprego previsto para 2013 será superior a 9% e em que o desemprego subsidiado terá diminuído muito, o natural seria que houvesse mais despesa com o RSI (no fundo, a rede de mínimos que seria o que sobraria para milhares de famílias). O que o Governo propõe é pura e simplesmente retirar toda a protecção a milhares de famílias, designadamente a protecção não-contributiva. Temo dizê-lo, mas o esforço de consolidação orçamental tem, de facto, de ser alcançado, mas, por isso mesmo, para que seja possível fazê-lo, é preciso criar uma rede de mínimos coerente e eficaz. E que tal cortar os 130 milhões de euros que se quer cortar com "os malandros do rendimento mínimo" em prémios e salários no sector empresarial do Estado ou, em alternativa, incluir já no OE para 2010 a tributação das mais valias bolsistas. Suspeito que a receita seria bem superior à despesa que agora se quer poupar. É mesmo uma questão de prioridades e estas não são mesmo as minhas.
(entretanto subscrevo integralmente o que o Paulo aqui escreve sobre o mesmo assunto)

segunda-feira, 15 de março de 2010

O Presidente da COC

Passei este fim-de-semana em Mafra, a comentar a “reunião magna do PPD/PSD”. Feitas as contas, é o terceiro congresso do PPD/PSD a que assisto integralmente (o que já dá algum curriculum). O que me pareceu, no essencial, do que se tinha passado até Domingo à hora de almoço está dito aqui, mas, no fim, tudo somado, fiquei com a sensação de que se tivesse sido José Sócrates a organizar este congresso, ele não teria sido muito diferente. Começou com uma discussão inenarrável sobre se o “enclave” deveria durar um ou dois dias, depois Marcelo fez a única intervenção com cabeça, tronco e membros (e com isso ajudou a consolidar a percepção de que os candidatos são, de facto, segundas, terceiras e quartas escolhas), para tudo culminar na aprovação de uma proposta estatutária que, quando ouvi referida ainda no Sábado, pensei, na minha ingenuidade, que não recolheria nenhuns apoios. Para mim, este dia e meio em Mafra foi a prova acabada de que a mão tentacular de Sócrates chega bem mais longe do que se pensa. Se não foi ele o Presidente da COC, disfarçou muito bem.

sábado, 13 de março de 2010

O dilema de Passos

O congresso do PSD que hoje se inicia é o culminar do falhanço de dois planos que tinham o mesmo objectivo: impedir que Passos Coelho fosse o próximo líder do partido. Plano A, a criação de uma vaga de fundo para que Cristo voltasse a descer à Terra, sob a forma de Marcelo ou Rio; plano B, o lançamento de uma candidatura vitoriosa, herdeira da linha dura do Ferreira Leitismo. Os planos falharam, mas a muito provável vitória de Passos Coelho deixa-o perante um novo dilema, que a entrevista de Cavaco Silva só veio adensar. Passos Coelho vencerá porque sugere que com ele o PSD regressará ao poder. Em última análise, é isso que move os militantes que votarão nas directas. Mas esta sugestão só funciona se for acompanhada de uma opção táctica que leve os sociais-democratas ao governo a curto prazo. Um pouco à imagem do que aconteceu com Sócrates quando foi eleito secretário-geral do PS, Passos Coelho precisa de ir a votos rapidamente, sob pena de ser vítima do mesmo que está acontecer ao primeiro-ministro: ser queimado em lume brando. Acontece que não está nas suas mãos precipitar uma crise política. É necessário que o Presidente não vete politicamente esta intenção. Ora aqui os interesses de Cavaco Silva colidem com os interesses de Passos Coelho. Enquanto Cavaco quer tudo menos turbulência política até às presidenciais, Passos precisa de eleições quanto antes. Se procurar precipitar uma crise política, Passos corre o risco de ser desautorizado desde Belém; se esperar até daqui a um ano e meio, corre o risco de ser politicamente desfeito pelos seus pares.

publicado hoje no i.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Theory and Practice in theory and in practice

My generation was obsessed with the distinction between theory and practice—I knew a man in California whose doctoral dissertation was devoted to “Theory and Practice in theory and in practice.” Sexually, we lived the contrast. In theory we prided ourselves on being the cutting edge. But in practice we were a conformist cohort: shaped more by our ’50s youth than our ’60s adolescence. A surprising number of us married young—often to our first serious girlfriend. And of that number, many have stayed married. Championing the inalienable right of everyone to do anything, we had scant occasion to do much ourselves.
a única coisa a fazer é, mesmo, ir ler o resto do que o Tony Judt escreve aqui.

Um PE

Há uma letra a mais no PEC. O "C" de crescimento. Portugal apresentou um "PE", um programa de estabilidade, mas, no horizonte temporal de 2013 não poderemos esperar crescimento. É este o nosso drama, armadilhados que estamos por uma zona euro que não foi concebida para choques como o que enfrentamos. Aliás, o governo britânico, por exemplo, não o esconde, ao reconhecer no seu próprio PEC que este pode desacelerar a retoma. Ainda assim, o PEC português serve para mostrar como restam margens de manobra políticas. Desde logo porque, em lugar da adopção acrítica da receita dos cortes cegos, é revelada uma preocupação com a equidade, através de uma distribuição desigual dos custos da austeridade (da taxação das mais-valias mobiliárias, à criação dum escalão mais elevado no IRS e, acima de tudo, com a diferenciação nos benefícios fiscais - que são, de facto, um poderoso mecanismo de reprodução de desigualdades materiais). Existe, contudo, outro lado da moeda e esse é que doerá de facto. A credibilidade deste PEC assenta num cenário macroeconómico muito prudente - aliás, ao arrepio do histórico recente do governo português -, que, a ser tomado como bom, torna inviável que haja uma diminuição do desemprego significativa até 2013. Com um desemprego estimado nos 9,3% e com o número de desempregados sem subsídio a crescer todos os meses, chegaremos a 2013 com centenas de milhar de portugueses sem rendimentos. O cenário é socialmente sustentável? Claramente não. Havia alternativa? Também não. A menos que a Europa decida, de uma vez por todas, acrescentar o "C" que falta a outro "PE", o Pacto de Estabilidade.
publicado hoje no i.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Regressos e pequenas invejas



Os National estrearam ontem no Jimmy Fallon um tema do seu novo disco, High Violet, e não está nada mal, mesmo nada mal (chama-se "terrible love). Bem sei que isto não se faz em público, mas os National vão abrir um concerto dos Pavement na Europa e, custa-me muito informar, eu já sou legítimo proprietário de dois bilhetes. Falo disto porque aqui pode ser vista uma retrospectiva dos telediscos do Malkmus & friends.

quarta-feira, 10 de março de 2010

E os juízes tornam-se também médicos

O Centro de Estudos Judiciários não tem uma nova direcção nomeada. O assunto é naturalmente grave, até porque dura há bastante tempo. Ainda assim, não tão grave como seria a aventada nomeação do "gato constipado" para o lugar - uma espécie de prémio de carreira. Entretanto, um dos directores-adjuntos do CEJ teve um enfarte. Perante isto, fiquei hoje de manhã a saber através da TSF que António Martins, que preside à Associação Sindical dos Juízes, "afirma ter a certeza de que o problema de saúde foi motivado pelo momento pelo qual está a passar esta instituição".

As prioridades certas


now you're telling me
you're not nostalgic
then give me another word for it
you who are so good with words
and at keeping things vague
because I need some of that vagueness now
it's all come back too clearly
yes I loved you dearly
and if you're offering me diamonds and rust
I've already paid

hoje ou aqui.

A nossa miséria ou uma curta metragem sobre os especialistas na presidência da república



Esta coisa começa por fazer rir, mas no fim só podemos ter vontade de chorar.

terça-feira, 9 de março de 2010

Virgens ofendidas

(...) No dia-a-dia temos tido sinais visíveis da vontade de poder dos magistrados, mas ficamos a saber também que isso é feito de modo reflectido e como resposta a uma convocatória "do poder judicial para um outro exercício da democracia". Aliás, os magistrados não o escondem, quando se questionam se "estaremos perante uma transferência de legitimidade dos poderes legislativo e executivo para o judicial?". Claro que esta alteração na "narrativa" produz efeitos: não só "tem de explicar o papel dos vários poderes do Estado Democrático de um outro modo", como "densifica a dimensão política" do judiciário. Como seria de esperar, tudo tende a acabar em reivindicações sobre a carreira: "o estatuto dos juízes deixa para a lei ordinária um largo campo de regulamentação".

O que nos é sugerido é não apenas uma nova centralidade para o poder judicial, como também uma ofensiva que passa pela diminuição das esferas de autonomia dos poderes políticos. O que nos lembra que já não estamos apenas numa fase de tensão latente. Se a saída para a "democracia descontente" em que nos encontramos passar por uma transferência da legitimidade de poderes com legitimidade eleitoral (como são o legislativo e o executivo), para um poder cuja legitimidade radica em mecanismos fracamente sindicáveis pelos cidadãos, há boas razões para termos medo. É um sintoma de que está a germinar uma visão em que o poder judicial já não quer ser independente do poder político, mas sim ver este subjugado ao seu poder.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.
(para quem tiver curiosidade, o texto da associação sindical dos juízes portugueses, que cito, pode ser lido, em todo o seu esplendor, aqui.)

segunda-feira, 8 de março de 2010

E Deus criou a mulher (madura)


Kathryn Bigelow tem 58 anos e Kim Gordon 56. Os EUA são definitivamente o Sol da Terra.

E Deus criou a mulher

E Deus criou a mulher

sábado, 6 de março de 2010

Eu e o "pequeno judeu que escreveu a Bíblia"


gostamos deste gajo.

O nosso caso Lewinsky

A PT queria comprar a Media Capital e a Media Capital queria ser comprada pela PT, mas o negócio foi interrompido pela Golden Share. Foi o que nos disseram esta semana Zeinal Bava e Bernardo Bairrão. Estamos perante um caso de coito interrompido por interferência de terceiros. Face a isto, o Parlamento prepara-se para fazer uma comissão de inquérito, porque José Sócrates afirmou não saber do negócio que ambas as partes queriam, de facto, que fosse feito e que o primeiro-ministro não deixou que se fizesse. Estranho, mas é assim. De facto, em nome do interesse público, não faz sentido que a PT, enquanto existe golden share, regresse aos conteúdos. Mas uma coisa é desde já sabida: o Estado tinha poder para vetar o negócio, mas, tendo em conta a complexa estrutura accionista da PT, dificilmente poderia ser o seu artífice moral. Não deixa, aliás, de ser curioso que saibamos tanto sobre o papel de personagens menores neste enredo e tão pouco sobre o de actores determinantes (à cabeça, o Banco Espírito Santo). No fim, resta uma certeza. Teremos uma comissão de inquérito em tudo igual à que delapidou o capital político de Clinton. Também aqui o tema não será o direito a ter amantes, mas sim saber se um político pode cometer perjúrio. No fatídico dia 24 de Junho, Sócrates alegou desconhecimento de um negócio que era conhecido por muitos (e no qual os seus amigos políticos se puseram, no mínimo, em bicos de pés); agora, em Fevereiro, inaugura-se uma nova fase da vida política portuguesa. Vai ser avaliado, com os poderes parajudiciais que detém uma comissão de inquérito parlamentar, o papel da mentira na política.
publicado no i.

sexta-feira, 5 de março de 2010

A miséria do sindicalismo

"A greve na função pública é apenas a preparação da ampliação da luta." Foi assim que Carvalho da Silva antecipou a greve de ontem, em entrevista ao "Diário Económico". Não es- panta: na mesma entrevista classificou o acordo tripartido alcançado na Irlanda como resultante de uma "cultura diferente" e classificou o apelo à negociação como uma "treta" (sic). O sindicalismo português é apenas mais um elemento da miséria política do nosso país. Perante dificuldades extremas e constrangimentos que aparentam ser inultrapassáveis, o que se exigia de todas as partes eram convergências: entre partidos e governo, entre empresários e sindicatos. O que nos é oferecido é precisamente o contrário: uma total incapacidade de negociar, de abandonar a rigidez da posição de partida para alcançar um compromisso. Entretanto, o desemprego continua a sua imparável cavalgada e a dívida que temos de pagar lá fora fica todos os dias mais cara. Portugal tem níveis de conflitualidade laboral (medidos pelo número de greves) comparativamente baixos e estes têm descido de modo acen- tuado. A administração pública é a excepção. Hoje faz greve quem pode (quem tem uma relação laboral protegida) e os funcionários públicos podem. Contudo, é também sabido, o padrão de baixa conflitualidade laboral coexiste com níveis elevados de contestação política de base sindical. No fundo, as greves servem para "ampliar a luta". As consequências da estratégia serão incontornáveis: um acantonamento político e social do movimento sindical, sem ganhos visíveis para os trabalhadores. Precisamos, de facto, de "outras políticas", mas precisamos não menos de outros sindicatos.
publicado hoje no i.

quinta-feira, 4 de março de 2010

A Fanny Ardant e eu


gostamos deste gajo.

Homens em tempos sombrios


Cada dia que passa e cada jornal que leio, mais gosto deste gajo.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Recordar é viver


"Then tell me about nothingness. I'd like to hear a complete account of nothing."

terça-feira, 2 de março de 2010

Recordar é viver


a propósito do que o Ricardo relata aqui.

Canalhocracia*

Faço votos sinceros que os receptadores que andam entretidos a chafurdar nos mails privados que receberam (de uma mailing list de que faço parte), diligentemente entregues por um bufo, que dá pelo nome de Carlos Santos, façam bom proveito do que têm lido. No essencial, é isto que tenho a dizer.
(para detalhes, o melhor é ler o Eduardo. claramente uma pessoa tolerante, paciente e condescendente e também o Luís.).
título roubado ao Tomás.

Já me compensaram os dias



Estes ouvi mais no Inverno de 1994/95, mas, também, se bem me lembro, durante o Verão seguinte e ainda este Verão. Há bocado - literalmente - começaram a tournée de reunião na Nova Zelândia. Entretanto, fica aqui um medley. Se derem uma volta por aqui há mais coisas.

Já me estragaram os dias



No Inverno de 1993/94, terei ouvido mais este disco (Jazzmatazz) do que qualquer outro. Foi aliás um bom Inverno. Aulas à tarde na faculdade, surf de manhã e belas viagens, acompanhadas a k7, num memorável Ford Fiesta. Como se usa dizer: bons tempos para se estar vivo. Nada disto me ocorreria agora, não fora o Guru - aqui acompanhado pelo Donald Byrd - ter tido um enfarte que o deixou em coma. Uma bela merda.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Para este peditório, eu dou


Shane Macgowan, directamente saído do caldeirão de cerveja (cerveja?) onde caíu faz 30/40 anos, reuniu mais uns colegas de natação. Tudo por uma boa causa: o Haiti. O resultado é que passei a ter a minha própria Band Aid. Enquanto o Mick Jones bate no estintor de incêndios, o Nick Cave põe alguma ordem no estúdio e o Bobby Gillespie faz de Bobby Gillespie, o Johnny Depp aproveita para fazer um belo solo, numa ainda mais bela guitarra. A música que sofre este tratamento é o I put a spell on you, de Screamin' Jay Hawkins'. A rapariga do baixo, parece-me a mim, é a ex-Pogues e ex de Elvis Costello, Cait O'Riordan. Está, contrariamente aos outros, bem conservada.