segunda-feira, 31 de maio de 2010
A liberdade que vem depois
Só depois do orgasmo somos verdadeiramente livres. Eu já tinha pensado nisso, mas nada como um especialista para nos falar, com propriedade, do totalitarismo do orgasmo.
O melhor de 2010
o melhor disco de 2010 é o On Fire dos Galaxie 500 (reeditado, remasterizado e a devolver-me aos meus 16 anos). Não há volta a dar. Soa ainda melhor agora do que me soava há 20 anos, numa velha k7 BASF, ouvida vezes sem conta. Que eu tenha descoberto isso um par de meses antes do Greenberg, deixa-me, devo confessá-lo, preocupado.
sábado, 29 de maio de 2010
Descer a Avenida
Entrámos na normalidade: o governo é penalizado nas sondagens e a contestação social aumenta. Hoje, dezenas de milhar de pessoas descerão a Avenida e nos próximos tempos a mobilização sindical intensificar-se-á. Faz sentido. Todas as crises são assimétricas, penalizam mais uns do que outros. Mas a crise tem servido para revelar também o profundo desajustamento entre a resposta política e o que seria necessário para lhe responder eficazmente. O movimento sindical mobiliza-se, os portugueses revelam o seu descontentamento, mas, temo dizê-lo, no essencial, não está nas mãos do governo a possibilidade de inverter a situação. O problema é que a crescente impotência dos governos nacionais coexiste com uma disputa política que se mantém presa às fronteiras do Estado-nação. Não temos uma Europa que reproduza as clivagens políticas tradicionais e nem sequer temos líderes europeus que consigam compensar essa insuficiência (como aconteceu no passado, com o eixo Kohl/Mitterrand, coadjuvados por Delors). Mas, para além da miséria dos outros, temos também a nossa miséria nacional. Quando mais precisávamos de um movimento sindical internacionalista, temos uma CGTP que cultiva uma política isolacionista. A recusa em aderir à nova Confederação Sindical Internacional pode parecer uma questão menor, mas não é: prejudica a nossa capacidade institucional para responder à crise. Hoje, em lugar de estar com os sindicatos europeus autónomos, a CGTP escolheu descer a avenida lado a lado com os sindicatos politicamente tutelados que pertencem à Federação Sindical Mundial. Os sindicatos de democracias pujantes como a Coreia do Norte, Bielorrússia ou Síria.
publicado hoje no i.
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sexta-feira, 28 de maio de 2010
O apoio burocrático
Neste fim-de-semana o PS apoiará, a contragosto, a candidatura presidencial de Alegre. Manuel Alegre amarrou o PS e Sócrates com uma passividade que lhe sairá cara politicamente, deixou que o PS ficasse amarrado a esta opção. Este apoio burocrático tem em si o entusiasmo dos actos administrativos: obedece a uma racionalidade própria, mas ninguém se dispõe a apoiar afectivamente a decisão. A mobilização entre os socialistas, já se percebeu, será escassa e o resultado eleitoral condizente. Ironia das ironias, Manuel Alegre, que se afirmou decisivamente no PS como um dos mais veementes opositores das estratégias entristas nos anos 70 (que visavam esquerdizar o PS desde o seu interior), é hoje um aliado objectivo do novo entrismo. A estratégia política do BE, o único partido de facto mobilizado no apoio a Alegre, é clara: promover uma cisão no PS e sobre os seus escombros reerguer uma nova esquerda. É por isso que, do mesmo modo que o apoio a Alegre faz todo o sentido para o BE, não faz sentido nenhum para o PS de Sócrates. O problema é que também não faz sentido para quase mais ninguém no PS. Alegre sem o PS não é um candidato vitorioso, mas Alegre com um apoio burocrático do PS é um candidato perdedor. Como se não bastasse, a sua derrota funcionará como uma espécie de vacina para a possibilidade de um PS simultaneamente ganhador e ancorado à esquerda. A única forma de, a partir do centro, esvaziar eleitoralmente o BE e o PC, garantindo a governabilidade à esquerda.
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quinta-feira, 27 de maio de 2010
Nunca é tarde
Record Club: INXS "Never Tear Us Apart" from Beck Hansen on Vimeo.
Tenho a leve impressão de que fui muito prejudicado na minha adolescência por não suportar os INXS, ou para o mesmo efeito os Depeche Mode. Há que ter os gostos musicais adequados. Como me foi possível provar, o que se passa neste filme é do domínio da ficção científica. Lembrei-me disto porque, como foi visível nos concertos dos XX e dos Grizzly Bear, o mundo mudou, mas já foi tarde para mim. Não sei se a Annie Clark, à época, gostou dos INXS, mas, agora que a ouço, quase que me sinto empurrado para uma conversão póstuma.
terça-feira, 25 de maio de 2010
Sem medo de ninguém

With my kid on my shoulders I try
Not to hurt anybody I like
But I don't have the drugs to sort it out
Os National after Moretti.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
sábado, 22 de maio de 2010
O Vice Primeiro-Ministro
O último inquérito pós-eleitoral do ICS já trazia boas notícias para os partidos mais pequenos: as condições estruturais para o seu crescimento são reais (ver margens de erro). Mas o tom das entrevistas que Sócrates e Passos Coelho deram esta semana às televisões serviram para revelar que as condições conjunturais também concorrem para essa tendência. Se Sócrates teve de justificar o aumento de impostos e o adiamento dos grandes investimentos com o facto de o mundo ter mudado em poucos dias (o que não deixa de ser verdade), a posição de Passos Coelho também não é fácil. Depois de uma campanha interna em que prometeu poder ao aparelho e menos impostos ao eleitorado, a realidade impôs-se: perante a necessidade de salvar a economia portuguesa, Passos chegou a acordo para a aprovação de um pacote de austeridade que durará, segundo o próprio, durante 2010 e 2011. Inicialmente, o acordo parecia favorecer Passos: a photo opportunity em São Bento deu-lhe uma imagem de estadista que lhe faltava, sem os custos da partilha do poder numa conjuntura bastante complicada. Propostas como o tributo social, infelizmente, também não desagradam à maioria. Mas com o passar do tempo, à medida que o peso das medidas do lado da receita tem, segundo o próprio, de passar para o lado da despesa, Passos vai ter de se posicionar, revelando a sua agenda. O que implica falar de salários (função pública), de despedimentos (reforma laboral) e de cortes no Serviço Nacional de Saúde. O que não deixará de ter custos políticos. Não por acaso, o Bloco de Esquerda já lhe chama «o Vice Primeiro-Ministro».
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sexta-feira, 21 de maio de 2010
a gestão da contestação
A semana começou com uma comunicação do Presidente da República ao país e termina com uma moção de censura do PCP. Em ambos os casos, a contestação ao governo como pano de fundo. A moção do PCP é a expressão institucional da manifestação convocada para o próximo fim-de-semana. Nada de novo: o PCP sempre desempenhou esta função de socialização política da contestação, prejudicando o desenvolvimento de lógicas de negociação, mas evitando, apesar de tudo, o tipo de radicalismo a que assistimos, por exemplo, na Grécia. A outro nível, e em contextos económicos e sociais bem mais favoráveis, essa foi também uma das funções da Presidência da República: em público ou nos bastidores, Soares e Sampaio foram, frequentemente, a válvula de escape do regime, capazes de moderar reacções de interesses sociais afectados e de desbloquear alguns impasses na sociedade. Cavaco não tem sabido desempenhar essa função. Na segunda-feira dirigiu-se pela terceira vez ao país e pela terceira vez escolheu um tema considerado (pelo próprio) menor. Depois do Estatuto dos Açores e das escutas a Belém, desta vez veio justificar a promulgação do casamento gay. Foi uma promulgação mais sonora que muitos vetos, mas que desagradou tanto à sua base eleitoral como aos defensores da lei. Mais uma vez, não alargou o seu espaço político, num discurso em que o efeito da crise apareceu misturado com a "conflitualidade" que a igualdade de acesso ao casamento alegadamente gera. Que, perante isto, a esquerda não esteja com boas perspectivas para as presidenciais diz muito sobre o estado da esquerda. Mas talvez a moção de censura ajude a explicar.
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quarta-feira, 19 de maio de 2010
terça-feira, 18 de maio de 2010
O candidato Cavaco Silva
a propósito do que disse ontem Cavaco Silva ao país, o que penso é estranhamente o que disse logo a seguir e que pode ser visto no video.
a propósito, passarei a estar, a partir da próxima semana, todas as sextas-feiras no jornal das nove da tvi24, a comentar a actualidade com o Henrique Garcia.
a propósito, passarei a estar, a partir da próxima semana, todas as sextas-feiras no jornal das nove da tvi24, a comentar a actualidade com o Henrique Garcia.
Ainda salvos pela Europa?
(...) É essa a lição dos últimos meses e que se agudizou na semana passada, com a saída encontrada para fazer face ao ataque especulativo às dívidas soberanas da zona euro. Uma saída que representa um golpe profundo na soberania nacional, sem que lhe esteja associada uma (re)legitimação do processo de integração. O que a Europa nos propõe é uma gestão financeira da crise, sem qualquer tipo de estratégia económica e que se limitará a reproduzir os desequilíbrios do passado: crescimentos anémicos; desemprego alto e pressão fiscal crescente.(...)
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
Bluesology

Foi assim que ontem Gil Scott-Heron classificou o seu trabalho. Hoje faz 30 anos que morreu o mestre da bluesology. Há cinco anos, escrevi isto na defunta A Capital. Provavelmente não me tem dado muita saúde, mas não consigo deixar de ouvir hoje Joy Division da mesmíssima maneira como ouvi, pela primeira vez, já lá vão mais de vinte anos.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
sábado, 15 de maio de 2010
Os pobres eram o problema
Vale a pena recuar umas semanas até à apresentação do PEC. Na altura, foi revelada uma inusitada preocupação com o peso das prestações sociais não contributivas e do subsídio de desemprego na despesa pública. Aliás, a preocupação era tal que o principal resultado prático da primeira aparição conjunta de Sócrates com Passos Coelho foi a antecipação do aperto na protecção social face ao calendarizado. É o que se pode classificar como um exercício puramente político e cosmético. O essencial dos nossos problemas não é o excesso de protecção social dos mais desfavorecidos e o impacto orçamental das alterações propostas não só será reduzido, como em muitos casos terá custos administrativos adicionais. Esta semana, quando governo e oposição foram obrigados a fazer o inevitável para enfrentar a deriva especulativa e para responder ao que é a actual miséria política europeia, tornou-se ainda mais claro o erro que foi cometido. Os ajustamentos violentos que são inevitáveis para restaurarmos a nossa credibilidade financeira precisam de ser compensados por uma rede de mínimos sociais eficaz e solidária. Exactamente o que se procurou deslegitimar politicamente há um par de semanas. Nos últimos anos, muito por força das medidas que agora se criticam, Portugal diminuiu a sua taxa de pobreza e a percentagem de desempregados a receber subsídio foi sempre crescente. Nos próximos anos, acontecerá exactamente o contrário. Quando se tem de aumentar a pressão fiscal, retrair o investimento público e, consequentemente, se congela o mercado de trabalho, talvez não fosse má ideia não tocar no estado social.
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sexta-feira, 14 de maio de 2010
A desorientação é o regime
E num instante tudo muda. Há dias, o risco de incumprimento do nosso PEC radicava num cenário macroeconómico optimista. As instâncias internacionais desconfiavam da nossa capacidade para crescer, mesmo que a um ritmo medíocre. Pelo caminho, o garrote do financiamento tinha-nos sido apertado, de modo a garantir que não cresceríamos sequer como o previsto. Esta semana, como que para provar a irracionalidade em que tudo assenta, o INE revelou um crescimento do produto no 1º trimestre inesperado, mesmo para os mais optimistas. Depois, o pouco investimento público que restava, e que na semana passada nos era apresentado pelo governo como estratégico, foi directamente para o caixote do lixo da história. Ficámos, portanto, a saber que a velha máxima do futebol de que "o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira" contagiou definitivamente a política. Entretanto, a mesma Europa, que defendia há um par de meses que a retirada precoce dos estímulos às economias produziria um efeito recessivo profundo, abriu as portas à possibilidade de intervir nos orçamentos nacionais, enquanto empurrava os países para um regresso em força à disciplina orçamental apertada. Por cá, onde a desorientação é o regime há vários meses, governo e PSD entenderam-se para assegurar definitivamente que o nosso ajustamento não assentará em nenhuma estratégia económica, mas numa recessão duradoura. Se íamos crescer pouco, o mais certo é que agora não sejamos capazes de crescer. No meio da desorientação, talvez não fosse má ideia que alguém aproveitasse para dizer que, sendo assim, chegaremos a 2013 com níveis de desemprego iguais ou superiores aos que temos hoje.
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quinta-feira, 13 de maio de 2010
Risco de incumprimento
Ameaçado por risco de incumprimento de afazeres académicos, tenho tido a sorte de, num difícil exercício de insonorização, me ter conseguido manter num reduto de laicismo, mas também me tem sido impossível seguir muito atentamente aquilo que se está a passar na Europa, com réplicas que se fazem sentir de modo devastador em Portugal. Mas, do que li, sublinho em particular este texto do Pedro Lains, este do Jorge Bateira, este do João Pinto e Castro e ainda este do João Galamba.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
I was dressed for success / But success it never comes
Corre por aí, entre o grupo excursionista que se deslocou aos National+Pavement, o boato de que combinei o dress code com o Stephen Malkmus. Na verdade, confirma-se, ainda que tenha optado por não usar a t-shirt lilás que ele ostentava (cada um sabe de si).
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