"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Barely Legal



é impossível encontrar um texto sobre os Avi Buffalo que não comece logo por referir a idade de Avigdor Zahner-Isenberg (como se vê, não é só no West Side Soweto que imperam os judeus a fazer rock'n'roll). o rapaz Avi começou a fazer músicas no fim do liceu e tudo aconteceu antes de completar vinte anos (assinou pela sub-pop e o resto é mais ou menos (des)conhecido). o disco é mesmo bom para o (meu) verão, mas o que me inquieta mais não é a idade hoje, mas, sim, o que acontecerá a alguém que com esta idade já faz música assim. Será possível envelhecer e continuar a fazer músicas que soam velhas e novas ao mesmo tempo?

Only fools rush in


Um tipo que está aí para provar que o talento resiste a tudo (ou a quase tudo), uma música antiga, que me faz regressar mais uma vez a um disco ao qual estou sempre a regressar, em versão assombrosa, e um festival sem calor, sem pó e com raparigas que dançam escandinavamente. (o resto pode ser visto aqui)

sábado, 17 de julho de 2010

Uma questão de timing

No debate do Estado da Nação, José Sócrates cavalgou os dados sobre a pobreza revelados nesse mesmo dia. Tem boas razões para o fazer. Há muito que se esperava que a pobreza diminuísse entre 2005 e 2008 e o INE veio prová-lo. É a confirmação de que as políticas fazem a diferença. O efeito combinado dos aumentos do salário mínimo, da diferenciação das prestações familiares e do complemento solidário para idosos aliviou a situação dos mais desfavorecidos. Contudo, estes factos colidem com o que foi a realidade política do período a que os dados dizem respeito. Não é preciso procurar muito para encontrar declarações dos vários líderes políticos a afirmarem que “a pobreza está a aumentar em Portugal”. Contra todas as evidências, Passos Coelho foi o último intérprete desta linhagem, tendo afirmado esta semana que “hoje temos três vezes mais pobres que há 15 anos”. Ou seja, os dados do INE vieram revelar que há mesmo muita gente em Portugal com um problema profundo de relação com a realidade. A questão é que os dados reportam a 2008, mas são utilizados politicamente hoje. E do mesmo modo que, contra tudo o que se afirmava na altura, era manifesto que a pobreza não podia estar a aumentar em Portugal, também hoje há sinais de que a pobreza está a aumentar em 2010 - consequência do aumento do desemprego, da tendência para a diminuição do número de desempregados protegidos e das novas escalas de equivalência, que diminuirão em muito o rendimento das famílias mais pobres. O que serve para demonstrar que, em política, os factos são quase tudo, mas o timing também. E a relação com a realidade depende da capacidade para alinhar com os dados, no momento certo.
publicado hoje no i.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Esquizofrenia múltipla

A política portuguesa vive num estado de esquizofrenia múltipla, em choque permanente com a realidade. O debate do estado da nação apenas tornou a síndrome mais visível. A situação singular em que nos encontramos, com o único governo de maioria relativa da Europa, serve para revelar como a crise política estará sempre à espreita, como um vírus oportunista, e é o primeiro dos sintomas de esquizofrenia. Depois temos um governo que tinha um discurso eleitoral e que de facto foi obrigado a abandoná-lo para fazer exactamente o contrário do que propunha como resposta à crise (do investimento aos pacotes de estímulo à economia e ao emprego). Como se não bastasse, o governo precisou do PSD para viabilizar as medidas de austeridade e, quando houver uma moção de censura do CDS, dependerá do apoio do BE e do PCP. No mínimo confuso. Finalmente, temos um Presidente que alterna entre um discurso vago sobre a insustentabilidade da nossa situação orçamental e a necessidade de mais respostas sociais, mas que, de facto, desistiu de promover quer esforços concretos para disciplinar as contas públicas (quando retirou o apoio a Correia de Campos), quer mecanismos que permitam proteger mais os "novos pobres" (a oposição ao novo Código Contributivo). Com tantos níveis de esquizofrenia, resta uma certeza: vamos ter uma séria crise política a somar à crise económica e social. A única questão é saber quando. Por uma vez, talvez não fosse má ideia alinhar a experiência interna da política com a realidade e agir preventivamente, procurando uma solução política estável e, não menos importante, previsível.
publicado hoje no i.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O lugar onde


o Mundial acabou, mas eu continuo na África do Sul.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A escrita de Deus

terça-feira, 13 de julho de 2010

Demasiado distantes

"(...) todas as políticas precisam de aliados e a política educativa encontrou, no passado recente, fortes aliados nas associações de pais e nos directores de escolas. Aliás, o novo modelo de gestão, como quase todas as reformas relevantes dos últimos tempos, foi aprovado com a oposição dos sindicatos de professores (cuja agenda é invariavelmente centrada em questões de carreiras ou salariais, ao mesmo tempo que secundariza o que tem a ver com a escola e os alunos). Ora a criação destes mega-agrupamentos tem também um outro efeito: aliena os principais aliados da política educativa recente, sem que crie novos.
O que está em causa é, de facto, um bom princípio: agrupar escolas. Mas os bons princípios, para serem postos em prática, precisam de tempo, de aliados e não ganham nada com a definição de muitas regras que, soando bem na lei, tendem a chocar com a realidade. Uma asserção que é válida para todas as políticas públicas e que encontra no processo de agrupamento de escolas agora iniciado um mau exemplo."

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Afinal a culpa não é das Lisbon sisters



"We took two trips to Lisbon over the course of writing this record," Leithauser adds. "None of us had ever been there, and we were really blown away by the place. The topography and architecture are stunningly handsome. Even when we were there for the rainy season — it literally never stopped raining — it was a trip that outshone a lot of others. We've never had much luck at all in Europe, and the Portuguese were surprisingly accommodating. I think those two trips really helped keep us motivated while making this record. We named the record Lisbon as sort of a 'thank you' and a small tribute."
daqui, onde já se pode ir ouvindo um tema de Lisbon, o novo disco dos Walkmen.

we went dutch, dutch, dutch,dutch


era nisto que o Stephen Malkmus estava a pensar quando, há uns doze anos, escreveu o Shady Lane.

sábado, 10 de julho de 2010

A vingança de Telê


Vivemos agarrados aos nossos mitos fundadores e o futebol não é excepção. Eu sei exactamente quando comecei a gostar de futebol: em 1982, com a avalanche ofensiva da selecção brasileira de Zico, Sócrates, Falcão, Júnior e Cerezzo, comandada por um treinador, dizia-se, excessivamente atacante, Telê Santana. Jogaram como nunca e pelo caminho perderam face ao cinismo da Itália. Foi a minha primeira paixão e também o meu primeiro desgosto. A partir daí, nunca mais se viu nada assim em mundiais. Em parte, é isso que explica o mantra tantas vezes repetido, que nos convence que os mundiais já não são como eram. Pois o Mundial que amanhã termina foi bem melhor que os anteriores. Quem gosta de futebol pode deixar-se fascinar por equipas ganhadoras com pouca posse de bola (as equipas de Mourinho), mas o deslumbramento só chega mesmo com o futebol atacante, enredado em passes curtos, que nos devolve a um romantismo que é, ao mesmo tempo, ingénuo e infantil. O futebol do "escrete" de 1982 é a minha medida e foi preciso chegar a 2010 para ver na final de um Mundial duas equipas dominadoras, quase sem réstia de cinismo. Entre a posse de bola e a vontade de atacar da Holanda e o "tiki-taka" ofuscante que a Espanha pediu emprestado ao Barcelona, e que o Barcelona importou da Holanda com Cruijff, haverá amanhã uma garantia: ganhe quem ganhar, eu poderei de facto regressar à minha infância e o Telê Santana será finalmente vingado. Não mais se poderá dizer que para ganhar um Mundial é preciso esperar pelo adversário, jogar em contenção e só depois arriscar partir para o contra-ataque. Na África do Sul, o futebol voltou a proteger os audazes.
publicado no i.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A caixa de Pandora das SCUTS

O meu comentário sobre as Scuts e o que elas revelam sobre a política portuguesa na TVI24 (e também sobre o negócio Telefónica/PT e ainda sobre os agrupamentos escolares).

A questão política e ideológica

Para Durão Barroso, não há nada de ideológico nem de político na proibição de golden shares. Trata-se de uma questão jurídica. Claro que é uma questão jurídica, mas é também evidente que não é. Os Tratados vinculam os Estados-membros e era previsível que o Tribunal de Justiça Europeu decidisse pela ilegalidade das acções com direitos especiais na PT, por violação do princípio da livre circulação de capitais. Mas o direito é também um reflexo de opções ideológicas e políticas e não uma codificação de escolhas neutras. E a decisão de impedir os Estados de formalmente deterem direitos especiais em empresas de sectores estratégicos é tudo menos neutra. Serve, aliás, para revelar como a Europa optou por evitar confrontar-se com os problemas do edifício regulatório que estava a construir. Hoje, os Estados têm menos direitos que o mercado e, consequentemente, os poderes políticos nacionais encontram-se feridos de morte, sem que exista uma entidade europeia que desempenhe as funções que no passado cabiam ao Estado. Em muitos aspectos, a solução é boa: os mercados criam riqueza e geram competição; o problema são os sectores estratégicos (dos recursos naturais às telecomunicações). Aí, não podemos esperar que o interesse nacional seja a soma de interesses privados, mesmo que racionais. O bem comum precisa de mercados livres, mas, como provam muitos exemplos pela Europa fora, requer também uma dose de proteccionismo. A menos que a Europa passe a desempenhar a função protectora que no passado desempenharam os Estados-nação. No fundo, a questão política e ideológica que não tem sido debatida.
publicado no i.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O fim da minha primeira rádio

Quando me perguntam o que mais gosto de fazer na comunicação social, não hesito: rádio. Não vale a pena repetir os conhecidos chavões, mas a rádio é mesmo especial. Desde logo porque, ao contrário do que acontece na TV – onde as pessoas no essencial vêem-nos – ou nos jornais – onde há cada vez menos gente que de facto lê o que se escreve –, na rádio somos mesmo escutados. Hoje aconteceu o que estava escrito há bastante tempo. O Rádio Clube fechou e agora não vale a pena discutir sobre o que correu mal. Foi no Rádio Clube que me estreei na rádio e, durante mais de dois anos, por lá fiz de tudo um pouco: comentário político diário, entrevistas e também um programa de música (talvez de todas as coisas que fiz na comunicação social, a que me deu maior satisfação). Foi, também por isso, a redacção onde estive mais embedded e só guardo boas recordações da estação. Aliás, também nas redacções as rádios parecem ser diferentes dos outros media, com uma relação que é única entre jornalistas, animadores e técnicos de som. O pouco que sei sobre como se fala na rádio, foi lá que comecei a aprender, pelo que é com tristeza que sei do fim do Rádio Clube, mas, acima de tudo, é com tristeza que sei que haverá um conjunto de pessoas, nas quais vi sempre muito empenho, competência e talento, que estarão numa situação bem difícil. É para eles o meu abraço.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Determinismo sociológico


Mesmo com todo este calor, a minha escolha vai para tipos que usam camisas - e tudo o resto - assim. (o que me recorda que alguém devia fazer um filme desta música)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

June Carter Revisitada

domingo, 4 de julho de 2010

O maior gajo do mundo agora passou a ser este


Um tipo como os que havia no futebol antigamente e além do mais tem o melhor dos nomes próprios.

sábado, 3 de julho de 2010

Fazer a diferença

"Depois de mim virá quem de mim bom fará." A asserção é particularmente verdadeira quando falamos da política portuguesa. É sabido que um ministro impopular, que tenha revelado coragem para enfrentar os interesses da sua área de actuação, será tão vilipendiado enquanto estiver no poder, como elogiado assim que o deixar. De Leonor Beleza a Correia de Campos, há muitos exemplos de ministros muito impopulares que, uma vez feitos ex-minis- tros, passaram a ser exemplos a seguir, o que diz muito sobre as condições políticas efectivas para reformar as políticas públicas. Maria de Lurdes Rodrigues é talvez um dos exemplos mais acabados desta tendência. Seis meses após ter saído do governo, o que era ontem a sua marca mais distintiva - a incapacidade negocial - desapareceu, para ser agora ocupada por uma nova qualidade - coragem política. Muitas das vezes toma-se por reforma uma medida que desencadeie contestação política e social. Mas o que distingue uma reforma é, acima de tudo, a irreversibilidade. No fundo, para parafrasear o título do livro lançado este semana por Maria de Lurdes Rodrigues, a irreversibilidade é que "pode fazer a diferença". E o legado da ex-ministra da Educação fez certamente a diferença na defesa da escola pública. Por muita contestação que tenha havido, uma coisa é certa: não regressaremos a um tempo em que não havia escola a tempo inteiro, nem aulas de substituição ou em que os professores não eram avaliados e, de facto, não havia diferenciação na progressão na carreira ou existia complacência com o défice de certificação escolar dos adultos. O que fará a diferença é que os próximos governos não revogarão estes progressos.
publicado hoje no i.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O desemprego mensal

A propósito do que hoje se foi dizendo sobre os dados mensais do Eurostat (que na verdade não existem), o que me ocorre dizer é isto.

Muito provavelmente o maior gajo do mundo

Puxar da pistola

Há um par de anos, um grupo de empresários portugueses lançou um movimento para defender os centros de decisão nacionais. Ricardo Salgado, por exemplo, aquando da OPA do BCP ao BPI, e a propósito do papel do banco espanhol La Caixa, afirmava que o BES "está sempre pronto a colaborar no que se refere à construção de uma solução nacional de oposição a eventuais take overs hostis de estrangeiros". Depois do que se passou na quarta-feira, com a disponibilidade revelada por alguns desses mesmos empresários para enviar a PT para as distritais do campeonato mundial das telecomunicações, fica aqui uma promessa: da próxima vez que me falarem em centros de decisão nacionais "puxo logo da pistola". A questão é suficientemente séria. O que está em causa não é a sustentabilidade das contas públicas, é a sustentabilidade do estado-nação, que depende da existência de empresas nacionais internacionalizadas como a PT. E o que fica provado é que não há ninguém com capacidade para defender os interesses do país. É sabido que o mercado é a soma de um conjunto de acções racionais individuais que não resultam necessariamente numa opção estratégica racional. No caso da oferta pela Vivo, é de facto racional para os accionistas privados, a precisarem de liquidez, vender à Telefónica. Mas a consequência desta soma de acções individuais é só uma: amputar a manutenção da PT como empresa com escala e dimensão. O Estado pode usar a golden share para bloquear o negócio, mas o mais provável é a opção ser ineficaz. No fundo, a situação do país é mesmo insustentável: com empresários a apostarem no curto prazo e a desprezarem o interesse estratégico e um Estado frágil, que age com uma ilusão de poder que já não tem, podemos mesmo estar condenados.

publicado no i.