terça-feira, 3 de agosto de 2010
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
sábado, 31 de julho de 2010
Piloto de testes
O proselitismo liberal é a versão actual da vulgata marxista, que esteve muito em voga na passagem dos anos 60 para os 70. Como acontecia com quem então padecia da doença infantil do comunismo, também os nossos liberais tendem a moldar a realidade à sua construção teórica, ao mesmo tempo simples e com resposta para tudo. Ao fazerem-no esquecem, por um lado, a complexidade dos ajustamentos nas políticas públicas e, por outro, o país que realmente existe, feito de portugueses bem diferentes daqueles que conhecem ou projectam. O mantra "menos Estado" tornou-se, aliás, um novo "amanhã que canta", combinando as mesmas doses de optimismo e de normatividade com uma subjugação da realidade aos arquétipos de partida. Mas a realidade tem sempre razão. Talvez tenha sido o choque com a realidade que levou Passos Coelho a dizer, primeiro, que esperava que o PSD não recuasse nas suas insólitas propostas de revisão constitucional (o que, vindo do líder do partido, não deixa de ser estranho) e, já esta semana, que no fundo tudo isto não tinha passado de um teste - imagina-se para ver se o país estava preparado para o receber, devidamente acompanhado da sua doutrina. Há, contudo, um risco. Passos Coelho, que encontrou circunstâncias muito favoráveis para se afirmar politicamente, com um governo frágil e uma situação económica débil, arrisca-se ele próprio a ser apenas mais um piloto de testes, juntando-se à longa lista de líderes do PSD que nunca chegaram a primeiros-ministros.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
O cancro Freeport
Tem sido sugerido que, uma vez conhecida a acusação do processo Freeport, era devido um pedido de desculpas a Sócrates. Se pensarmos no que foram as manchetes dos media nos últimos seis anos, sopradas por "operadores" do sistema de justiça, e na utilização política que foi feita do processo, há boas razões para uma penitência colectiva de muitos jornalistas portugueses, acompanhados por parte significativa da classe política. Mas é um erro olhar para o que se passou como uma questão com Sócrates. No essencial, a presença mediática do processo Freeport nunca foi uma diatribe contra o primeiro-ministro. O que esteve sempre em causa foi bem mais grave: a exposição de um cancro que está a destruir a democracia portuguesa e que resulta da coligação perversa entre péssimas investigações e jornalismo medíocre. Uma coligação que radica numa justiça que compensa a incapacidade de produzir prova com disseminação de pseudo-factos nos media e numa comunicação social que se revela incapaz de avaliar a idoneidade das suas fontes, tomando como válida qualquer informação proveniente do sistema de justiça. Os resultados estão à vista. Uma degradação generalizada da vida pública e um sentimento de total impunidade - que impossibilita que tenhamos certezas quando alguém é condenado, ao mesmo tempo que fica sempre a pairar uma dúvida sobre a inocência de quem algum dia tenha visto o seu nome envolvido num processo. Na verdade, não é a José Sócrates que é devido um pedido de desculpas. É a todos nós, que assistimos impotentes a este cancro que está a degradar a democracia portuguesa.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
terça-feira, 27 de julho de 2010
Não interrompas um erro
"(...)o aspecto mais extraordinário desta proposta, apresentada antes do Verão e a tempo de eclodir em plena pré-campanha presidencial, são as oportunidades que Passos criou aos seus adversários políticos. Numa altura em que o Governo se encontrava em manifestas dificuldades, Sócrates passou a ter uma oportunidade para fazer uma afirmação ideológica com a qual nem o próprio sonhava; e quando Portas se encontrava encostado às cordas, por força do crescimento do PSD, pôde voltar a vestir o fato de homem de Estado e revelar razoabilidade. No fundo, a Sócrates e a Portas resta fazer o que Passos Coelho não conseguiu: seguir a velha máxima de Napoleão que aconselhava a nunca interromper um inimigo quando ele está a cometer um erro."
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
domingo, 25 de julho de 2010
sábado, 24 de julho de 2010
Passos e Cavaco: uma luta diferente
Há quem diga que as questões afectivas tendem a ser desvalorizadas quando se analisa a política. É provavelmente verdade. Basta pensar na proposta de revisão constitucional apresentada por Passos Coelho. Tem sido dito que representa um ataque ao código genético do regime, pondo em causa os seus alicerces (o ataque descabelado ao Estado Social), ao mesmo tempo que promove instabilidade política (ao mexer inoportunamente no equilíbrio de poderes). Se procurarmos alguma racionalidade nas propostas de Passos, faz sentido olhar para elas assim. Mas talvez valha a pena pôr a razão de lado. Cada semana que passa, mais me convenço que o inimigo de Passos não é o povo (através do fim da gratuitidade no acesso à educação e à saúde), nem sequer Sócrates. Não é segredo que Ca-vaco não morre de amores por Passos - no que é retribuído. Ora se olharmos para as últimas iniciativas do PSD, começa a ficar claro que, no fundo, podem não passar de um acerto de contas com Cavaco. Primeiro foi o tema da acumulação de pensões, em que o PSD obrigou Cavaco a justificar a sua posição, enquanto se envolvia numa enorme trapalhada sobre o que estava em causa; depois a ameaça de chumbo do OE, que poderá ocorrer em plena campanha presidencial - a última coisa que Cavaco deseja; esta semana chegou a alteração dos poderes presidenciais, causando natural desconforto ao Presidente em exercício que mais de uma vez se confessou confortável com os actuais poderes. Mas, já que estamos no domínio da emoção, não sei porquê, parece-me que este frenesim de iniciativas acabará por trazer mais problemas a Passos do que a Cavaco.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
A TINA precisa de amigos

A TINA (There is no alternative) é uma rapariga incompreendida. Mas hoje o que nos resta é a TINA e ela precisa de amigos. Ainda na semana passada, Paulo Portas lhe quis fazer um arranjinho. Acontece que a TINA, rapariga avisada, sabe que as relações a três, mesmo que escondam um secreto fascínio, tendem a não acabar bem. O que a TINA precisava mesmo era de uma relação previsível, de um ambiente estável que lhe desse tranquilidade durante uns quantos anos. Se isso acontecesse, a TINA estaria disposta a sair de cena daqui a uns tempos, deixando o campo aberto para que todos pudessem escolher uma rapariga à sua medida. Mas a TINA teme que isso não aconteça. Inveja, por isso, as relações que vai conhecendo na Europa, onde os partidos se juntam, com documento escrito e assinado. Por cá, ela tem pouca esperança de que algo semelhante aconteça. Esta semana, aliás, ficou muito preocupada quando percebeu que Passos Coelho, rapaz com quem até dançaria um tango, afinal estava mais preocupado com os poderes do Presidente e do Parlamento. A TINA sabe que ninguém gosta que lhe seja dito que não há alternativa e que pouco resta a fazer além de um conjunto de cortes que vão deprimir ainda mais a economia. A esses, a TINA diz, e com justiça, que se vão queixar à Europa que há um ano e pouco não anda a tratar nada bem dos seus. A questão é que a TINA também sabe que hoje a única alternativa à sua presença é o caos financeiro, económico e social. E a TINA está consciente de que, se não lhe encontrarem parceiros fiéis, a alternativa vai ser mesmo essa. Só nessa altura, os que hoje a desprezam lhe saberão reconhecer valor.
publicado hoje no i.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Barely Legal
é impossível encontrar um texto sobre os Avi Buffalo que não comece logo por referir a idade de Avigdor Zahner-Isenberg (como se vê, não é só no West Side Soweto que imperam os judeus a fazer rock'n'roll). o rapaz Avi começou a fazer músicas no fim do liceu e tudo aconteceu antes de completar vinte anos (assinou pela sub-pop e o resto é mais ou menos (des)conhecido). o disco é mesmo bom para o (meu) verão, mas o que me inquieta mais não é a idade hoje, mas, sim, o que acontecerá a alguém que com esta idade já faz música assim. Será possível envelhecer e continuar a fazer músicas que soam velhas e novas ao mesmo tempo?
Only fools rush in
Um tipo que está aí para provar que o talento resiste a tudo (ou a quase tudo), uma música antiga, que me faz regressar mais uma vez a um disco ao qual estou sempre a regressar, em versão assombrosa, e um festival sem calor, sem pó e com raparigas que dançam escandinavamente. (o resto pode ser visto aqui)
sábado, 17 de julho de 2010
Uma questão de timing
No debate do Estado da Nação, José Sócrates cavalgou os dados sobre a pobreza revelados nesse mesmo dia. Tem boas razões para o fazer. Há muito que se esperava que a pobreza diminuísse entre 2005 e 2008 e o INE veio prová-lo. É a confirmação de que as políticas fazem a diferença. O efeito combinado dos aumentos do salário mínimo, da diferenciação das prestações familiares e do complemento solidário para idosos aliviou a situação dos mais desfavorecidos. Contudo, estes factos colidem com o que foi a realidade política do período a que os dados dizem respeito. Não é preciso procurar muito para encontrar declarações dos vários líderes políticos a afirmarem que “a pobreza está a aumentar em Portugal”. Contra todas as evidências, Passos Coelho foi o último intérprete desta linhagem, tendo afirmado esta semana que “hoje temos três vezes mais pobres que há 15 anos”. Ou seja, os dados do INE vieram revelar que há mesmo muita gente em Portugal com um problema profundo de relação com a realidade. A questão é que os dados reportam a 2008, mas são utilizados politicamente hoje. E do mesmo modo que, contra tudo o que se afirmava na altura, era manifesto que a pobreza não podia estar a aumentar em Portugal, também hoje há sinais de que a pobreza está a aumentar em 2010 - consequência do aumento do desemprego, da tendência para a diminuição do número de desempregados protegidos e das novas escalas de equivalência, que diminuirão em muito o rendimento das famílias mais pobres. O que serve para demonstrar que, em política, os factos são quase tudo, mas o timing também. E a relação com a realidade depende da capacidade para alinhar com os dados, no momento certo.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Esquizofrenia múltipla
A política portuguesa vive num estado de esquizofrenia múltipla, em choque permanente com a realidade. O debate do estado da nação apenas tornou a síndrome mais visível. A situação singular em que nos encontramos, com o único governo de maioria relativa da Europa, serve para revelar como a crise política estará sempre à espreita, como um vírus oportunista, e é o primeiro dos sintomas de esquizofrenia. Depois temos um governo que tinha um discurso eleitoral e que de facto foi obrigado a abandoná-lo para fazer exactamente o contrário do que propunha como resposta à crise (do investimento aos pacotes de estímulo à economia e ao emprego). Como se não bastasse, o governo precisou do PSD para viabilizar as medidas de austeridade e, quando houver uma moção de censura do CDS, dependerá do apoio do BE e do PCP. No mínimo confuso. Finalmente, temos um Presidente que alterna entre um discurso vago sobre a insustentabilidade da nossa situação orçamental e a necessidade de mais respostas sociais, mas que, de facto, desistiu de promover quer esforços concretos para disciplinar as contas públicas (quando retirou o apoio a Correia de Campos), quer mecanismos que permitam proteger mais os "novos pobres" (a oposição ao novo Código Contributivo). Com tantos níveis de esquizofrenia, resta uma certeza: vamos ter uma séria crise política a somar à crise económica e social. A única questão é saber quando. Por uma vez, talvez não fosse má ideia alinhar a experiência interna da política com a realidade e agir preventivamente, procurando uma solução política estável e, não menos importante, previsível.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
quarta-feira, 14 de julho de 2010
terça-feira, 13 de julho de 2010
Demasiado distantes
"(...) todas as políticas precisam de aliados e a política educativa encontrou, no passado recente, fortes aliados nas associações de pais e nos directores de escolas. Aliás, o novo modelo de gestão, como quase todas as reformas relevantes dos últimos tempos, foi aprovado com a oposição dos sindicatos de professores (cuja agenda é invariavelmente centrada em questões de carreiras ou salariais, ao mesmo tempo que secundariza o que tem a ver com a escola e os alunos). Ora a criação destes mega-agrupamentos tem também um outro efeito: aliena os principais aliados da política educativa recente, sem que crie novos.
O que está em causa é, de facto, um bom princípio: agrupar escolas. Mas os bons princípios, para serem postos em prática, precisam de tempo, de aliados e não ganham nada com a definição de muitas regras que, soando bem na lei, tendem a chocar com a realidade. Uma asserção que é válida para todas as políticas públicas e que encontra no processo de agrupamento de escolas agora iniciado um mau exemplo."
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
O que está em causa é, de facto, um bom princípio: agrupar escolas. Mas os bons princípios, para serem postos em prática, precisam de tempo, de aliados e não ganham nada com a definição de muitas regras que, soando bem na lei, tendem a chocar com a realidade. Uma asserção que é válida para todas as políticas públicas e que encontra no processo de agrupamento de escolas agora iniciado um mau exemplo."
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Afinal a culpa não é das Lisbon sisters

"We took two trips to Lisbon over the course of writing this record," Leithauser adds. "None of us had ever been there, and we were really blown away by the place. The topography and architecture are stunningly handsome. Even when we were there for the rainy season — it literally never stopped raining — it was a trip that outshone a lot of others. We've never had much luck at all in Europe, and the Portuguese were surprisingly accommodating. I think those two trips really helped keep us motivated while making this record. We named the record Lisbon as sort of a 'thank you' and a small tribute."
daqui, onde já se pode ir ouvindo um tema de Lisbon, o novo disco dos Walkmen.
we went dutch, dutch, dutch,dutch
era nisto que o Stephen Malkmus estava a pensar quando, há uns doze anos, escreveu o Shady Lane.
sábado, 10 de julho de 2010
A vingança de Telê

Vivemos agarrados aos nossos mitos fundadores e o futebol não é excepção. Eu sei exactamente quando comecei a gostar de futebol: em 1982, com a avalanche ofensiva da selecção brasileira de Zico, Sócrates, Falcão, Júnior e Cerezzo, comandada por um treinador, dizia-se, excessivamente atacante, Telê Santana. Jogaram como nunca e pelo caminho perderam face ao cinismo da Itália. Foi a minha primeira paixão e também o meu primeiro desgosto. A partir daí, nunca mais se viu nada assim em mundiais. Em parte, é isso que explica o mantra tantas vezes repetido, que nos convence que os mundiais já não são como eram. Pois o Mundial que amanhã termina foi bem melhor que os anteriores. Quem gosta de futebol pode deixar-se fascinar por equipas ganhadoras com pouca posse de bola (as equipas de Mourinho), mas o deslumbramento só chega mesmo com o futebol atacante, enredado em passes curtos, que nos devolve a um romantismo que é, ao mesmo tempo, ingénuo e infantil. O futebol do "escrete" de 1982 é a minha medida e foi preciso chegar a 2010 para ver na final de um Mundial duas equipas dominadoras, quase sem réstia de cinismo. Entre a posse de bola e a vontade de atacar da Holanda e o "tiki-taka" ofuscante que a Espanha pediu emprestado ao Barcelona, e que o Barcelona importou da Holanda com Cruijff, haverá amanhã uma garantia: ganhe quem ganhar, eu poderei de facto regressar à minha infância e o Telê Santana será finalmente vingado. Não mais se poderá dizer que para ganhar um Mundial é preciso esperar pelo adversário, jogar em contenção e só depois arriscar partir para o contra-ataque. Na África do Sul, o futebol voltou a proteger os audazes.
publicado no i.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
A caixa de Pandora das SCUTS
O meu comentário sobre as Scuts e o que elas revelam sobre a política portuguesa na TVI24 (e também sobre o negócio Telefónica/PT e ainda sobre os agrupamentos escolares).
A questão política e ideológica
Para Durão Barroso, não há nada de ideológico nem de político na proibição de golden shares. Trata-se de uma questão jurídica. Claro que é uma questão jurídica, mas é também evidente que não é. Os Tratados vinculam os Estados-membros e era previsível que o Tribunal de Justiça Europeu decidisse pela ilegalidade das acções com direitos especiais na PT, por violação do princípio da livre circulação de capitais. Mas o direito é também um reflexo de opções ideológicas e políticas e não uma codificação de escolhas neutras. E a decisão de impedir os Estados de formalmente deterem direitos especiais em empresas de sectores estratégicos é tudo menos neutra. Serve, aliás, para revelar como a Europa optou por evitar confrontar-se com os problemas do edifício regulatório que estava a construir. Hoje, os Estados têm menos direitos que o mercado e, consequentemente, os poderes políticos nacionais encontram-se feridos de morte, sem que exista uma entidade europeia que desempenhe as funções que no passado cabiam ao Estado. Em muitos aspectos, a solução é boa: os mercados criam riqueza e geram competição; o problema são os sectores estratégicos (dos recursos naturais às telecomunicações). Aí, não podemos esperar que o interesse nacional seja a soma de interesses privados, mesmo que racionais. O bem comum precisa de mercados livres, mas, como provam muitos exemplos pela Europa fora, requer também uma dose de proteccionismo. A menos que a Europa passe a desempenhar a função protectora que no passado desempenharam os Estados-nação. No fundo, a questão política e ideológica que não tem sido debatida.
publicado no i.
publicado no i.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
O fim da minha primeira rádio
Quando me perguntam o que mais gosto de fazer na comunicação social, não hesito: rádio. Não vale a pena repetir os conhecidos chavões, mas a rádio é mesmo especial. Desde logo porque, ao contrário do que acontece na TV – onde as pessoas no essencial vêem-nos – ou nos jornais – onde há cada vez menos gente que de facto lê o que se escreve –, na rádio somos mesmo escutados. Hoje aconteceu o que estava escrito há bastante tempo. O Rádio Clube fechou e agora não vale a pena discutir sobre o que correu mal. Foi no Rádio Clube que me estreei na rádio e, durante mais de dois anos, por lá fiz de tudo um pouco: comentário político diário, entrevistas e também um programa de música (talvez de todas as coisas que fiz na comunicação social, a que me deu maior satisfação). Foi, também por isso, a redacção onde estive mais embedded e só guardo boas recordações da estação. Aliás, também nas redacções as rádios parecem ser diferentes dos outros media, com uma relação que é única entre jornalistas, animadores e técnicos de som. O pouco que sei sobre como se fala na rádio, foi lá que comecei a aprender, pelo que é com tristeza que sei do fim do Rádio Clube, mas, acima de tudo, é com tristeza que sei que haverá um conjunto de pessoas, nas quais vi sempre muito empenho, competência e talento, que estarão numa situação bem difícil. É para eles o meu abraço.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Determinismo sociológico
Mesmo com todo este calor, a minha escolha vai para tipos que usam camisas - e tudo o resto - assim. (o que me recorda que alguém devia fazer um filme desta música)
segunda-feira, 5 de julho de 2010
domingo, 4 de julho de 2010
O maior gajo do mundo agora passou a ser este

Um tipo como os que havia no futebol antigamente e além do mais tem o melhor dos nomes próprios.
sábado, 3 de julho de 2010
Fazer a diferença
"Depois de mim virá quem de mim bom fará." A asserção é particularmente verdadeira quando falamos da política portuguesa. É sabido que um ministro impopular, que tenha revelado coragem para enfrentar os interesses da sua área de actuação, será tão vilipendiado enquanto estiver no poder, como elogiado assim que o deixar. De Leonor Beleza a Correia de Campos, há muitos exemplos de ministros muito impopulares que, uma vez feitos ex-minis- tros, passaram a ser exemplos a seguir, o que diz muito sobre as condições políticas efectivas para reformar as políticas públicas. Maria de Lurdes Rodrigues é talvez um dos exemplos mais acabados desta tendência. Seis meses após ter saído do governo, o que era ontem a sua marca mais distintiva - a incapacidade negocial - desapareceu, para ser agora ocupada por uma nova qualidade - coragem política. Muitas das vezes toma-se por reforma uma medida que desencadeie contestação política e social. Mas o que distingue uma reforma é, acima de tudo, a irreversibilidade. No fundo, para parafrasear o título do livro lançado este semana por Maria de Lurdes Rodrigues, a irreversibilidade é que "pode fazer a diferença". E o legado da ex-ministra da Educação fez certamente a diferença na defesa da escola pública. Por muita contestação que tenha havido, uma coisa é certa: não regressaremos a um tempo em que não havia escola a tempo inteiro, nem aulas de substituição ou em que os professores não eram avaliados e, de facto, não havia diferenciação na progressão na carreira ou existia complacência com o défice de certificação escolar dos adultos. O que fará a diferença é que os próximos governos não revogarão estes progressos.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
O desemprego mensal
A propósito do que hoje se foi dizendo sobre os dados mensais do Eurostat (que na verdade não existem), o que me ocorre dizer é isto.
Puxar da pistola
Há um par de anos, um grupo de empresários portugueses lançou um movimento para defender os centros de decisão nacionais. Ricardo Salgado, por exemplo, aquando da OPA do BCP ao BPI, e a propósito do papel do banco espanhol La Caixa, afirmava que o BES "está sempre pronto a colaborar no que se refere à construção de uma solução nacional de oposição a eventuais take overs hostis de estrangeiros". Depois do que se passou na quarta-feira, com a disponibilidade revelada por alguns desses mesmos empresários para enviar a PT para as distritais do campeonato mundial das telecomunicações, fica aqui uma promessa: da próxima vez que me falarem em centros de decisão nacionais "puxo logo da pistola". A questão é suficientemente séria. O que está em causa não é a sustentabilidade das contas públicas, é a sustentabilidade do estado-nação, que depende da existência de empresas nacionais internacionalizadas como a PT. E o que fica provado é que não há ninguém com capacidade para defender os interesses do país. É sabido que o mercado é a soma de um conjunto de acções racionais individuais que não resultam necessariamente numa opção estratégica racional. No caso da oferta pela Vivo, é de facto racional para os accionistas privados, a precisarem de liquidez, vender à Telefónica. Mas a consequência desta soma de acções individuais é só uma: amputar a manutenção da PT como empresa com escala e dimensão. O Estado pode usar a golden share para bloquear o negócio, mas o mais provável é a opção ser ineficaz. No fundo, a situação do país é mesmo insustentável: com empresários a apostarem no curto prazo e a desprezarem o interesse estratégico e um Estado frágil, que age com uma ilusão de poder que já não tem, podemos mesmo estar condenados.
publicado no i.
publicado no i.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Tacuara resolve

Larissa Riquelme, por esta altura não há ninguém minimamente desperto para o mundo que não saiba quem é (mas, sim, a primeira pessoa que sinalizou o fenómeno foi o Manel), promete despir-se se o Paraguai passar às meias-finais. Eis um trabalho para o Tacuara.
terça-feira, 29 de junho de 2010
Águia de ouro
O Panda Bear vai ter disco novo lá para o Outono. O António Manuel Ribeiro que se cuide: uma das músicas vai chamar-se Benfica.
Uma relação insustentável
"(...) O mais dramático é que Sócrates tem razão quando diz que o dever de um primeiro-ministro é puxar pelas energias positivas do país e Cavaco tem razão quando diz que a situação das nossas contas públicas é insustentável. Mas uma coisa são as proclamações retóricas, outra, bem diferente, é o contributo que de facto a relação Belém/São Bento dá para enfrentar os problemas do país. E se não precisamos de uma gestão excessivamente optimista das expectativas, também não serve de nada um pessimismo militante.
Não está de facto no ‘site' de Belém, mas, no essencial, a cooperação estratégica entre Presidência e Executivo pressupunha uma convergência, quer quanto aos objectivos políticos para o país, quer quanto aos meios para os alcançar. E é aí que se joga de facto a sustentabilidade das políticas públicas.
Ora, o essencial da nossa despesa pública é muito rígido e concentra-se em áreas onde é complexo fazer reformas: salários, prestações sociais, despesas com saúde e educação. E nessas áreas não precisamos de proclamações retóricas, mas sim de disciplina concreta. A este propósito, convém não esquecer que o esforço de Correia de Campos para conter o crescimento da despesa na saúde não encontrou cooperação em Belém (aliás, bem pelo contrário) e o de Maria de Lurdes Rodrigues para diferenciar o crescimento salarial dos professores foi entretanto suspenso, com um silêncio complacente do Presidente. O que só prova que há uma grande diferença entre falar de sustentabilidade e cooperar para a sustentabilidade."
javascript:void(0)
excerto do meu artigo de hoje no DE.
Não está de facto no ‘site' de Belém, mas, no essencial, a cooperação estratégica entre Presidência e Executivo pressupunha uma convergência, quer quanto aos objectivos políticos para o país, quer quanto aos meios para os alcançar. E é aí que se joga de facto a sustentabilidade das políticas públicas.
Ora, o essencial da nossa despesa pública é muito rígido e concentra-se em áreas onde é complexo fazer reformas: salários, prestações sociais, despesas com saúde e educação. E nessas áreas não precisamos de proclamações retóricas, mas sim de disciplina concreta. A este propósito, convém não esquecer que o esforço de Correia de Campos para conter o crescimento da despesa na saúde não encontrou cooperação em Belém (aliás, bem pelo contrário) e o de Maria de Lurdes Rodrigues para diferenciar o crescimento salarial dos professores foi entretanto suspenso, com um silêncio complacente do Presidente. O que só prova que há uma grande diferença entre falar de sustentabilidade e cooperar para a sustentabilidade."
javascript:void(0)
excerto do meu artigo de hoje no DE.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Derrotar a Alemanha

Estou a chegar àquela fase dos mundiais em que tenho uma prioridade: concentrar-me na derrota da Alemanha. Este ano, como se fossem necessários mais contributos, há uma razão adicional para que isso aconteça. As roupas à "foda-se" que os gajos que estão no banco usam.
sábado, 26 de junho de 2010
Democracia ferida de morte
“O país é governado por uma coligação de procuradores e jornais”, afirmou esta semana Henrique Granadeiro em entrevista ao Jornal de Negócios. Temo que “governado” não seja o termo adequado. Seria mais correcto dizer que o país se vai tornar progressivamente ingovernável por força de uma coligação entre péssimas investigações e jornalismo tablóide. Não são só os desequilíbrios orçamentais, a nossa situação política é também insustentável porque a justiça, nos processos mediáticos, compensa frequentemente a sua incapacidade de produzir prova com a disseminação de informação falsa e a conta-gotas em órgãos de comunicação que se têm prestado a essa função. Com consequências: fica sempre a pairar uma nuvem de suspeição sobre todos – inocentes e culpados – combinada com uma total incapacidade de apurar a verdade. Se, por um lado, ser político passou a ser uma profissão de risco, por outro a imagem dos agentes da justiça deteriorou-se a um ritmo só comparável com a dos políticos. Deveria ser uma prioridade quebrar a espinha a esta coligação indomável entre alguns procuradores incompetentes e péssimos jornalistas que está a ferir de morte a democracia. Mas é duvidoso que tal seja possível. A classe política não o pode fazer pois não só nenhum partido está imune a processos mediáticos, como os políticos se degradaram progressivamente. Resta uma possibilidade. Um Presidente da República que use a sua gravitas para liderar este combate, até porque esta missão é a única relevante que resta a um chefe de Estado. Mas também aqui é escusado depositar quaisquer expectativas. Tanto o Presidente como os candidatos que se perfilam, para além de nunca terem relevado vontade política nesse sentido, têm sido complacentes com o desvario justicialista acomodado pelos media.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
Com dedicatória
no concerto que os Spoon deram na aula magna há uns anos, o Britt Daniel dedicou esta música à avó.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Uma história exemplar
Há dois anos, os chips das matrículas foram apresentados pelo governo como uma solução virtuosa para todos. Em mais um arremedo de deslumbramento tecnológico, falava-se em "potenciar um cluster na telemática rodoviária", num "aumento da segurança rodoviária", tudo com o objectivo de "fiscalizar veículos e não pessoas". Claro está que o essencial era o não dito. Era necessário criar um mecanismo que permitisse cobrar portagens nas Scut, onde não foram inicialmente construídas praças para o efeito. Dois anos passados, estamos mais ou menos na mesma situação. O governo não conseguiu encontrar uma solução alternativa à obrigatoriedade dos chips e continuamos a aceitar dois princípios insólitos: que é possível existirem auto-estradas sem custos adicionais para os utilizadores e, pior, que é adequado fazer política redistributiva através da rede rodoviária. Para ajudar à festa, enquanto o governo quer monitorizar através de um conjunto de indicadores socioeconómicos as Scut que se devem manter gratuitas, o PSD contrapropõe com isenções para os moradores e agentes económicos das regiões. Entretanto, o PSD a norte e o PS a sul ameaçam com contestação à introdução de portagens, ainda que de intensidades diferentes. Tudo isto serve para revelar que, quando era necessário uma simplificação e racionalização das políticas públicas, caminhamos sempre no sentido da sua complexificação. Que esta complexificação tenha chegado a um domínio aparentemente tão material como o modelo de financiamento das auto-estradas é revelador do monstro que está a ser construído.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Uma coligação indomável
Não sei se governado é o termo adequado, mas a afirmação de Granadeiro hoje ao Jornal de Negócios, quando diz que ""o país é governado por uma coligação de procuradores e jornais", corresponde à verdade. A questão é que ou alguém quebra a espinha a essa coligação ou o País pura e simplesmente não poderá ser governado.Temo bem que ninguém tenha a força política para o fazer. O que só servirá para provar que o que torna, de facto, a nossa situação insustentável é esta coligação perversa, mas, acima de tudo, indomável.
Regressos e amiguismo

Eu na verdade nunca regresso nem aos Açores, nem ao Brel. Mas o Nuno fez regressar o Brel aos Açores, para contar a história do encontro e da amizade de Brel com o médico Decq Mota. Entre Quinta e Sábado no São Luiz. Pensando bem, há uma semana que não ouço Brel e não tarda vão passar dois anos desde a última das vezes que estive em São Miguel.
terça-feira, 22 de junho de 2010
segunda-feira, 21 de junho de 2010
The marvellous Coentrão
"The left-back Coentrao, who has been a real threat going forward, beats Cha Jong Hyok drives a dangerous, deflected cross towards the near post where Almeida,
Ronaldo finds the overlapping Coentrao down the left and he drives his cross low towards the six-yard box
The excellent Fabio Coentrao burst into space down the left onto a lovely pass from Tiago and then swung back a perfect cross to Almeida
going forward Coentrao has been a revelation.
The marvellous Coentrao crossed from the left edge of the box ..."
Há pouco disse na TSF que o melhor em campo tinha sido o Coentrão e que podíamos imaginar o que teria sido este jogo com o Carlos Martins. As reacções dos portistas não se fizeram esperar. Nada como um farol da imprensa livre como tira teimas. Estas citações são todas retiradas do relato online do The Guardian.
Ronaldo finds the overlapping Coentrao down the left and he drives his cross low towards the six-yard box
The excellent Fabio Coentrao burst into space down the left onto a lovely pass from Tiago and then swung back a perfect cross to Almeida
going forward Coentrao has been a revelation.
The marvellous Coentrao crossed from the left edge of the box ..."
Há pouco disse na TSF que o melhor em campo tinha sido o Coentrão e que podíamos imaginar o que teria sido este jogo com o Carlos Martins. As reacções dos portistas não se fizeram esperar. Nada como um farol da imprensa livre como tira teimas. Estas citações são todas retiradas do relato online do The Guardian.
sábado, 19 de junho de 2010
Diz que é uma espécie de fetiche
Há um vírus sazonal que nos faz crer que os problemas do nosso mercado de trabalho se resolvem através da flexibilização das relações laborais. De tempos a tempos o vírus volta a atacar e encontra ambiente propício ao desenvolvimento na rigidez formal da nossa legislação. Esta semana foi o PSD a fazer regressar o tema, propondo o fim do limite à renovação dos contratos a termo e diminuindo a sua duração. O problema é a realidade. Portugal tem de facto uma legislação do trabalho comparativamente rígida (ainda que já não tanto como no passado), mas a rigidez formal coexiste com a enorme flexibilidade de facto. Não por acaso, os níveis de precariedade são superiores à média europeia e, mesmo com toda a rigidez, o ritmo de crescimento do desemprego não encontra paralelo na Europa. Hoje, aliás, mais de 80% dos novos vínculos laborais são a prazo, o que não é necessariamente um problema se evoluírem para relações de trabalho sem termo. Mas uma coisa é valorizar a flexibilidade na entrada no mercado de trabalho e outra, bem diferente, é pensar que a flexibilidade deve ser a regra ao longo da carreira ou, pior, que os níveis de regulação do trabalho devem ser mínimos. Tudo isto sugere que em Portugal, como na Europa, a crise está a tornar-se um cavalo de Tróia de uma agenda desregulamentadora. E, convém não esquecer, não foi a rigidez dos mercados de trabalho que fez deflagrar esta crise. Era bom que os nossos problemas se resolvessem, de algum modo, com maior flexibilidade na contratação ou combatendo armadilhas de inactividade, mas, com o desemprego a 10% e a economia deprimida, pensar que se combate o desemprego com uma agenda flexibilizadora não passa de um fetiche.
publicado no i.
publicado no i.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
E porque não os idosos?
O velho slogan político exige que os ricos paguem a crise. Mas, para além da retórica, há a realidade e as crises são mais duras para os mais pobres. Esta não é excepção e em Portugal, um país onde as desigualdades são muito marcadas, os mais desfavorecidos serão as principais vítimas. É, por isso, numa altura como esta que mais necessária é uma rede de mínimos sociais eficaz. Desde a primeira versão do PEC sabíamos que o esforço de contenção começaria por onde não deveria - pelas prestações não contributivas, o conjunto de benefícios sociais que protege quem nada mais tem. É verdade que existem muitas irracionalidades nas condições de acesso a estas prestações, que o diploma aprovado esta semana resolve: escalas de equivalência não uniformes; rendimentos relevantes que variam de prestação para prestação e exigências aos beneficiários inconstantes. Mas nada disto é novo. Dirão que nunca é má altura para corrigir o que está errado e aumentar a eficácia das prestações. Certo, mas, politicamente, alterações nestes domínios, nesta altura, sugerem que os nossos desequilíbrios orçamentais resultam de uma generosidade excessiva com a protecção dos mais pobres, o que está longe de ser verdade. Aliás, se assim fosse, o que faria verdadeiramente sentido era uniformizar as condições de recursos para todas as prestações com uma componente não contributiva, à cabeça a pensão social e os complementos sociais das pensões. Se o objectivo é poupar dinheiro, é duro dizê-lo, há muito mais margem para poupança no acesso indevido às pensões não contributivas do que com os "malandros do rendimento mínimo". Se se pretende, e bem, uniformizar as condições de recursos, não há razão para excluir os idosos das novas regras.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Só Deus salva

Hoje é mais um dia igual a muitos dos últimos sete anos. Eu, que não sou crente, já só acredito mesmo na justiça divina.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
terça-feira, 15 de junho de 2010
A "crescer"
Os Titus Andronicus aconselham a destruir tudo o que não nos faça parecer mais como o Bruce Springsteen. O conselho é justo e hoje aproveitei uma longa viagem de carro para agir em conformidade e ouvir o primeiro dos três CD ao vivo do Springsteen (1975-1985 Live). É triste, mas já não me recordava da fabulosa versão do Growin' up que nele se ouve, que é superior a todas as que se encontram no youtube (e são muitas). Para quem se recorda, é a de um concerto onde a mãe e a irmã estão entre o público (o melhor mesmo é recuperarem o disco ou comprarem-no, que o dinheiro é muito bem empregue). Mas esta versão, de 1972, revela um Springsteen que nunca tinha visto e que quase ninguém chegou a ver.
Já aqui, vemo-lo maduro e crescido e, ironia, a fazer uma versão dylanesca do tema. Uma coisa eu hoje sei, a Newark que aparece em vários momentos no universo do Roth torna-se muito mais familiar se antes se tiver ouvido tudo isto.
Já aqui, vemo-lo maduro e crescido e, ironia, a fazer uma versão dylanesca do tema. Uma coisa eu hoje sei, a Newark que aparece em vários momentos no universo do Roth torna-se muito mais familiar se antes se tiver ouvido tudo isto.
Demagogia nas pensões
"não se chega a perceber se o que o PSD está a dizer é que não quer pagar pensões acima de um determinado tecto para os actuais pensionistas, para os futuros, para os que agora começam a contribuir, ou se a discussão serve apenas para abrir a porta para a introdução de tectos nos descontos. Das duas uma: ou é mais uma ideia pouco maturada ou é apenas uma tirada demagógica, que serve para iludir o facto de a evolução de um sistema como o nosso para um com tectos nos descontos ter custos de transição que, por si só, o tornam inviável."
do meu artigo no Diário Económico.
do meu artigo no Diário Económico.
domingo, 13 de junho de 2010
Mata e esfola
A campanha presidencial já começou de facto e não vai correr bem ao governo. Há uns dias, Alegre sugeria que o economista da cooperação estratégica não tinha servido para nada. Tem razão. O Professor Doutor de Inglaterra, político não-profissional, que colocou toda a sua sapiência indiscutível ao serviço da pátria, chega ao fim do primeiro mandato com um País económica e financeiramente em pior estado. Não por acaso, e porque sabe que Alegre tocou na ferida que dói eleitoralmente, Cavaco logo se apressou a responder no discurso do 10 de Junho. Primeiro, referiu que não valem a pena "divisões estéreis" (uma versão revisitada da sua velha máxima pessoal, segundo a qual, no fundo, a política não leva a lado nenhum) - e ele bem avisou o que aí vinha. Depois, chamou a atenção para uma verdade insofismável: "quanto mais se exigir do povo, mais o povo exigirá dos que o governam". A leitura é simples: Cavaco coloca-se do lado de fora. Já não era político, agora também não é responsabilizável. Para Alegre a mensagem fica clara: não vale a pena juntar o Presidente à lista dos culpados, que isso da cooperação estratégica acabou com a saída do Dr. Menezes. Estamos assim em Junho. Imaginem depois do Verão. De cada vez que Alegre disser "mata", Cavaco apressar-se-á a dizer "esfola". Sócrates ficará a falar sozinho.
publicado no i.
publicado no i.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
A suspensão da democracia
Há um ano, Manuela Ferreira Leite, com o tacto político que lhe é reconhecido, aventou a hipótese de se suspender a democracia. Temo dizê-lo, mas o que era uma possibilidade remota passou a ser cada vez mais real. Na semana passada, o Ministro das Finanças descobriu um novo dilema: entre a prioridade aos formalismos legais e a economia. Vai daí, não hesitou em secundarizar as garantias constitucionais, o que não deixa de ser revelador se nos lembrarmos que este Governo tem defendido com unhas e dentes o primado da Lei e do Estado de Direito. A meio da semana foi a vez de um Comissário Europeu demonstrar que a inclinação para suspender a democracia não é um exclusivo nacional e confirmar – como se ainda fosse necessário – que a Europa está completamente louca. Mostrando desconhecimento acerca das reformas entretanto feitas no sistema de pensões ou na regulação do mercado de trabalho, Olli Rehn pronunciou-se, sem qualquer cobertura dos Tratados (lá está, um formalismo que garante a democracia), sobre o que deve estar na agenda política de um Estado-membro. Isto apesar de a Europa se ter sempre sentido inibida, por ausência de competências, para intervir no modo como os Estados-membros regulavam o seu mercado de trabalho ou arquitectavam os seus sistemas de pensões. Agora, no exacto momento em que a construção europeia se está a tornar numa ficção política, assistimos a claras ameaças ao que resta de soberania. Como lembrou Cavaco Silva, “nenhuma entidade exterior pode colocar questões dessas na agenda nacional”. E, já agora, não há um único exemplo histórico de que algum problema se tenha resolvido com suspensão da democracia.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Baterista também é músico
não sei porquê, isto parece-me tirado dum concerto no São Luiz aí há não sei quantos anos.
sábado, 5 de junho de 2010
A hegemonia dos duros
Os duros tornaram-se hegemónicos no espaço público. Mas as suas receitas são no essencial preguiçosas. Para uns os males do país resolvem-se cortando salários (em percentagens variáveis) e prestações sociais (para combater os "malandros dos subsídio-dependentes"), para outros tudo se soluciona aumentando a carga fiscal (essencialmente sobre os "malandros de cartola", na caracterização de Francisco Louçã). Os dois caminhos revelam a incapacidade do Estado de lidar com a despesa. Para o governo, é possível cortar salários e aumentar impostos, já racionalizar políticas públicas é invariavelmente mais difícil. Cada tentativa de mudar o que quer que seja choca com a mobilização do coro de descontentamentos locais. Já os que clamam por coragem reformista, quando se fala em fecho de escolas ou maternidades, na diminuição do número de freguesias ou na introdução de critérios para avaliar os professores, aproveitam para se remeter a um comprometedor silêncio. Há, claro, boas razões para que surjam vozes de protesto. Desde logo porque fica sempre a ideia que o que é proposto surge do nada, com pouca partilha prévia da informação em que assentam as decisões. O Estado não consegue racionalizar a própria rede administrativa, mas também não procura criar condições para isso. Com processos de decisão públicos e transparentes talvez fosse possível criar coligações sociais favoráveis à modernização das políticas públicas; com opacidade nas decisões e informação estatística remetida para a penumbra administrativa, estamos condenados a fazer ajustamentos cortando salários, diminuindo prestações sociais ou aumentando a carga fiscal.
publicado no i.
publicado no i.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Ser irrealista, exigir o impossível
Ontem, daniel Cohn-Bendit era realista e exigia o impossível; hoje, no Parlamento Europeu, o mesmo "Dany le Rouge" é realista e diz que "não devemos pedir à Grécia o impossível". Num notável discurso em Bruxelas, e em rápidos seis minutos, Cohn-Bendit explicava, há umas semanas, como exigir um exercício de disciplina orçamental violento, assente em cortes brutais sem qualquer expectativa de crescimento económico, é pedir que a Grécia faça uma autêntica quadratura do círculo. O resultado na Grécia, e em todas as economias europeias, só poderá ser uma espiral de desemprego, quebra da receita, mais desequilíbrio orçamental e recessão profunda. O que é pedido à Grécia, como lembrou Cohn-Bendit, é que faça, por exemplo, alterações no seu sistema de pensões que, um pouco por toda a Europa, levaram à queda de governos (em França e em Itália, num passado recente) ou se revelaram politicamente inviáveis. É por isso que, hoje, o perigo grego reside não apenas no risco de contaminação do profundo desequilíbrio orçamental, mas também na ideia de que ajustamentos abruptos são política e socialmente possíveis. Não são. Haver quem pense que vai ser possível ultrapassar a presente crise assim serve apenas para revelar como "a Europa está completamente louca". Que seja preciso Cohn-Bendit para dizer isso, não deixa de ter ironia. Uma ironia só ultrapassada pela forma como, enquanto ouve as palavras do eurodeputado, José Manuel Barroso acena que não, que ele nunca perdeu eleições. Já suspeitávamos.
publicado no i, onde se pode ver o video do Cohn-Bendit, que vi, em primeiro lugar, nos ladrões de bicicletas.
publicado no i, onde se pode ver o video do Cohn-Bendit, que vi, em primeiro lugar, nos ladrões de bicicletas.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Grandes escoceses
Os Teenage fanclub voltaram. Uma banda subvalorizada e que fez, pelo menos, uma das maiores canções de sempre. Até o Nick Hornby concordou comigo.
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Já devia ter explicado isto (ou se calhar não).
"Noi siamo cinque fratelli. Abitiamo in città diverse, alcuni di noi stanno all'estero: e non ci scriviamo spesso. Quando ci incontriamo, possiamo essere, l'uno con l'altro, indifferenti o distratti, ma basta, fra noi, una parola. Basta una parola, una frase: una di quelle frasi antiche, sentite e ripetute infinite volte nella nostra infanzia. Ci basta dire: "Non siamo venuti a Bergamo per fare campagna" o "De cosa spussa l'acido solfidrico", per ritrovare ad un tratto i nostri antichi rapporti, e la nostra infanzia e giovinezza, legata indissolubilmente a quelle frasi, a quelle parole."
Natalia Ginzburg, Lessico Famigliare
terça-feira, 1 de junho de 2010
Afinidades electivas
And I tell you with my tongue between your toes
If there's ever anyone else
Don't let them do this
And I'll laugh and revel
As you scratch and crawl
If there's ever anyone else
Just show them the ugly mess
Stuart Staples, Jism
Karen, put me in a chair, fuck me and make me a drink
I've lost direction, and I'm past my peak
I'm telling you this isn't me
No, this isn't me
Karen, believe me, you just haven't seen my good side yet
Matt Berninger, Karen
If there's ever anyone else
Don't let them do this
And I'll laugh and revel
As you scratch and crawl
If there's ever anyone else
Just show them the ugly mess
Stuart Staples, Jism
Karen, put me in a chair, fuck me and make me a drink
I've lost direction, and I'm past my peak
I'm telling you this isn't me
No, this isn't me
Karen, believe me, you just haven't seen my good side yet
Matt Berninger, Karen
Um apoio bipolar
Sócrates apoiou Alegre a contragosto, mas não tinha alternativa, porque não a construiu. Entretanto, todos os nomes que se perfilam como eventuais sucessores (de António Costa a António José Seguro, passando por Assis e Carlos César) já haviam apoiado Alegre e uma não-posição, como sugeriam alguns, era um absurdo político, com consequências devastadoras. Mas o apoio burocrático dado pelo aparelho coexiste com uma desmobilização de figuras de relevo na actual hierarquia partidária. O PS apoiar formalmente, mas depois o terceiro, o quinto e o sétimo da hierarquia não apoiarem, revela a natureza bipolar do envolvimento do aparelho com a candidatura. O que não deixará de ter consequências na campanha - criando uma dinâmica fraccionária - e no resultado eleitoral. Acima de tudo, consolida o que tem sido uma tendência no modo como Sócrates tem gerido o PS: a secundarização de todas as eleições, com excepção das legislativas.
Esta secundarização poderá bem, no caso das presidenciais, colocar fim ao actual ciclo político. Sócrates, independentemente do resultado, já perdeu as presidenciais. Sócrates perde, quer seja Cavaco, quer seja Alegre a ganhar. Se Cavaco reforçar o seu resultado, o lugar de primeiro-ministro passará a estar sujeito a uma tutela política ainda mais apertada; se Alegre perder, mas com um resultado muito elevado, encontrará um equivalente ao "milhão de votos" de há quatro anos para pressionar o PS; e se Alegre vencer, estaremos perante a disputa entre duas visões diametralmente opostas do que deve ser um governo do PS. Que Sócrates se tenha deixado colocar nesta posição permanece um mistério político.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
Esta secundarização poderá bem, no caso das presidenciais, colocar fim ao actual ciclo político. Sócrates, independentemente do resultado, já perdeu as presidenciais. Sócrates perde, quer seja Cavaco, quer seja Alegre a ganhar. Se Cavaco reforçar o seu resultado, o lugar de primeiro-ministro passará a estar sujeito a uma tutela política ainda mais apertada; se Alegre perder, mas com um resultado muito elevado, encontrará um equivalente ao "milhão de votos" de há quatro anos para pressionar o PS; e se Alegre vencer, estaremos perante a disputa entre duas visões diametralmente opostas do que deve ser um governo do PS. Que Sócrates se tenha deixado colocar nesta posição permanece um mistério político.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
A liberdade que vem depois
Só depois do orgasmo somos verdadeiramente livres. Eu já tinha pensado nisso, mas nada como um especialista para nos falar, com propriedade, do totalitarismo do orgasmo.
O melhor de 2010
o melhor disco de 2010 é o On Fire dos Galaxie 500 (reeditado, remasterizado e a devolver-me aos meus 16 anos). Não há volta a dar. Soa ainda melhor agora do que me soava há 20 anos, numa velha k7 BASF, ouvida vezes sem conta. Que eu tenha descoberto isso um par de meses antes do Greenberg, deixa-me, devo confessá-lo, preocupado.
sábado, 29 de maio de 2010
Descer a Avenida
Entrámos na normalidade: o governo é penalizado nas sondagens e a contestação social aumenta. Hoje, dezenas de milhar de pessoas descerão a Avenida e nos próximos tempos a mobilização sindical intensificar-se-á. Faz sentido. Todas as crises são assimétricas, penalizam mais uns do que outros. Mas a crise tem servido para revelar também o profundo desajustamento entre a resposta política e o que seria necessário para lhe responder eficazmente. O movimento sindical mobiliza-se, os portugueses revelam o seu descontentamento, mas, temo dizê-lo, no essencial, não está nas mãos do governo a possibilidade de inverter a situação. O problema é que a crescente impotência dos governos nacionais coexiste com uma disputa política que se mantém presa às fronteiras do Estado-nação. Não temos uma Europa que reproduza as clivagens políticas tradicionais e nem sequer temos líderes europeus que consigam compensar essa insuficiência (como aconteceu no passado, com o eixo Kohl/Mitterrand, coadjuvados por Delors). Mas, para além da miséria dos outros, temos também a nossa miséria nacional. Quando mais precisávamos de um movimento sindical internacionalista, temos uma CGTP que cultiva uma política isolacionista. A recusa em aderir à nova Confederação Sindical Internacional pode parecer uma questão menor, mas não é: prejudica a nossa capacidade institucional para responder à crise. Hoje, em lugar de estar com os sindicatos europeus autónomos, a CGTP escolheu descer a avenida lado a lado com os sindicatos politicamente tutelados que pertencem à Federação Sindical Mundial. Os sindicatos de democracias pujantes como a Coreia do Norte, Bielorrússia ou Síria.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
O apoio burocrático
Neste fim-de-semana o PS apoiará, a contragosto, a candidatura presidencial de Alegre. Manuel Alegre amarrou o PS e Sócrates com uma passividade que lhe sairá cara politicamente, deixou que o PS ficasse amarrado a esta opção. Este apoio burocrático tem em si o entusiasmo dos actos administrativos: obedece a uma racionalidade própria, mas ninguém se dispõe a apoiar afectivamente a decisão. A mobilização entre os socialistas, já se percebeu, será escassa e o resultado eleitoral condizente. Ironia das ironias, Manuel Alegre, que se afirmou decisivamente no PS como um dos mais veementes opositores das estratégias entristas nos anos 70 (que visavam esquerdizar o PS desde o seu interior), é hoje um aliado objectivo do novo entrismo. A estratégia política do BE, o único partido de facto mobilizado no apoio a Alegre, é clara: promover uma cisão no PS e sobre os seus escombros reerguer uma nova esquerda. É por isso que, do mesmo modo que o apoio a Alegre faz todo o sentido para o BE, não faz sentido nenhum para o PS de Sócrates. O problema é que também não faz sentido para quase mais ninguém no PS. Alegre sem o PS não é um candidato vitorioso, mas Alegre com um apoio burocrático do PS é um candidato perdedor. Como se não bastasse, a sua derrota funcionará como uma espécie de vacina para a possibilidade de um PS simultaneamente ganhador e ancorado à esquerda. A única forma de, a partir do centro, esvaziar eleitoralmente o BE e o PC, garantindo a governabilidade à esquerda.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Nunca é tarde
Record Club: INXS "Never Tear Us Apart" from Beck Hansen on Vimeo.
Tenho a leve impressão de que fui muito prejudicado na minha adolescência por não suportar os INXS, ou para o mesmo efeito os Depeche Mode. Há que ter os gostos musicais adequados. Como me foi possível provar, o que se passa neste filme é do domínio da ficção científica. Lembrei-me disto porque, como foi visível nos concertos dos XX e dos Grizzly Bear, o mundo mudou, mas já foi tarde para mim. Não sei se a Annie Clark, à época, gostou dos INXS, mas, agora que a ouço, quase que me sinto empurrado para uma conversão póstuma.
terça-feira, 25 de maio de 2010
Sem medo de ninguém

With my kid on my shoulders I try
Not to hurt anybody I like
But I don't have the drugs to sort it out
Os National after Moretti.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
sábado, 22 de maio de 2010
O Vice Primeiro-Ministro
O último inquérito pós-eleitoral do ICS já trazia boas notícias para os partidos mais pequenos: as condições estruturais para o seu crescimento são reais (ver margens de erro). Mas o tom das entrevistas que Sócrates e Passos Coelho deram esta semana às televisões serviram para revelar que as condições conjunturais também concorrem para essa tendência. Se Sócrates teve de justificar o aumento de impostos e o adiamento dos grandes investimentos com o facto de o mundo ter mudado em poucos dias (o que não deixa de ser verdade), a posição de Passos Coelho também não é fácil. Depois de uma campanha interna em que prometeu poder ao aparelho e menos impostos ao eleitorado, a realidade impôs-se: perante a necessidade de salvar a economia portuguesa, Passos chegou a acordo para a aprovação de um pacote de austeridade que durará, segundo o próprio, durante 2010 e 2011. Inicialmente, o acordo parecia favorecer Passos: a photo opportunity em São Bento deu-lhe uma imagem de estadista que lhe faltava, sem os custos da partilha do poder numa conjuntura bastante complicada. Propostas como o tributo social, infelizmente, também não desagradam à maioria. Mas com o passar do tempo, à medida que o peso das medidas do lado da receita tem, segundo o próprio, de passar para o lado da despesa, Passos vai ter de se posicionar, revelando a sua agenda. O que implica falar de salários (função pública), de despedimentos (reforma laboral) e de cortes no Serviço Nacional de Saúde. O que não deixará de ter custos políticos. Não por acaso, o Bloco de Esquerda já lhe chama «o Vice Primeiro-Ministro».
publicado no i.
publicado no i.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
a gestão da contestação
A semana começou com uma comunicação do Presidente da República ao país e termina com uma moção de censura do PCP. Em ambos os casos, a contestação ao governo como pano de fundo. A moção do PCP é a expressão institucional da manifestação convocada para o próximo fim-de-semana. Nada de novo: o PCP sempre desempenhou esta função de socialização política da contestação, prejudicando o desenvolvimento de lógicas de negociação, mas evitando, apesar de tudo, o tipo de radicalismo a que assistimos, por exemplo, na Grécia. A outro nível, e em contextos económicos e sociais bem mais favoráveis, essa foi também uma das funções da Presidência da República: em público ou nos bastidores, Soares e Sampaio foram, frequentemente, a válvula de escape do regime, capazes de moderar reacções de interesses sociais afectados e de desbloquear alguns impasses na sociedade. Cavaco não tem sabido desempenhar essa função. Na segunda-feira dirigiu-se pela terceira vez ao país e pela terceira vez escolheu um tema considerado (pelo próprio) menor. Depois do Estatuto dos Açores e das escutas a Belém, desta vez veio justificar a promulgação do casamento gay. Foi uma promulgação mais sonora que muitos vetos, mas que desagradou tanto à sua base eleitoral como aos defensores da lei. Mais uma vez, não alargou o seu espaço político, num discurso em que o efeito da crise apareceu misturado com a "conflitualidade" que a igualdade de acesso ao casamento alegadamente gera. Que, perante isto, a esquerda não esteja com boas perspectivas para as presidenciais diz muito sobre o estado da esquerda. Mas talvez a moção de censura ajude a explicar.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
terça-feira, 18 de maio de 2010
O candidato Cavaco Silva
a propósito do que disse ontem Cavaco Silva ao país, o que penso é estranhamente o que disse logo a seguir e que pode ser visto no video.
a propósito, passarei a estar, a partir da próxima semana, todas as sextas-feiras no jornal das nove da tvi24, a comentar a actualidade com o Henrique Garcia.
a propósito, passarei a estar, a partir da próxima semana, todas as sextas-feiras no jornal das nove da tvi24, a comentar a actualidade com o Henrique Garcia.
Ainda salvos pela Europa?
(...) É essa a lição dos últimos meses e que se agudizou na semana passada, com a saída encontrada para fazer face ao ataque especulativo às dívidas soberanas da zona euro. Uma saída que representa um golpe profundo na soberania nacional, sem que lhe esteja associada uma (re)legitimação do processo de integração. O que a Europa nos propõe é uma gestão financeira da crise, sem qualquer tipo de estratégia económica e que se limitará a reproduzir os desequilíbrios do passado: crescimentos anémicos; desemprego alto e pressão fiscal crescente.(...)
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
Bluesology

Foi assim que ontem Gil Scott-Heron classificou o seu trabalho. Hoje faz 30 anos que morreu o mestre da bluesology. Há cinco anos, escrevi isto na defunta A Capital. Provavelmente não me tem dado muita saúde, mas não consigo deixar de ouvir hoje Joy Division da mesmíssima maneira como ouvi, pela primeira vez, já lá vão mais de vinte anos.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
sábado, 15 de maio de 2010
Os pobres eram o problema
Vale a pena recuar umas semanas até à apresentação do PEC. Na altura, foi revelada uma inusitada preocupação com o peso das prestações sociais não contributivas e do subsídio de desemprego na despesa pública. Aliás, a preocupação era tal que o principal resultado prático da primeira aparição conjunta de Sócrates com Passos Coelho foi a antecipação do aperto na protecção social face ao calendarizado. É o que se pode classificar como um exercício puramente político e cosmético. O essencial dos nossos problemas não é o excesso de protecção social dos mais desfavorecidos e o impacto orçamental das alterações propostas não só será reduzido, como em muitos casos terá custos administrativos adicionais. Esta semana, quando governo e oposição foram obrigados a fazer o inevitável para enfrentar a deriva especulativa e para responder ao que é a actual miséria política europeia, tornou-se ainda mais claro o erro que foi cometido. Os ajustamentos violentos que são inevitáveis para restaurarmos a nossa credibilidade financeira precisam de ser compensados por uma rede de mínimos sociais eficaz e solidária. Exactamente o que se procurou deslegitimar politicamente há um par de semanas. Nos últimos anos, muito por força das medidas que agora se criticam, Portugal diminuiu a sua taxa de pobreza e a percentagem de desempregados a receber subsídio foi sempre crescente. Nos próximos anos, acontecerá exactamente o contrário. Quando se tem de aumentar a pressão fiscal, retrair o investimento público e, consequentemente, se congela o mercado de trabalho, talvez não fosse má ideia não tocar no estado social.
publicado no i.
publicado no i.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
A desorientação é o regime
E num instante tudo muda. Há dias, o risco de incumprimento do nosso PEC radicava num cenário macroeconómico optimista. As instâncias internacionais desconfiavam da nossa capacidade para crescer, mesmo que a um ritmo medíocre. Pelo caminho, o garrote do financiamento tinha-nos sido apertado, de modo a garantir que não cresceríamos sequer como o previsto. Esta semana, como que para provar a irracionalidade em que tudo assenta, o INE revelou um crescimento do produto no 1º trimestre inesperado, mesmo para os mais optimistas. Depois, o pouco investimento público que restava, e que na semana passada nos era apresentado pelo governo como estratégico, foi directamente para o caixote do lixo da história. Ficámos, portanto, a saber que a velha máxima do futebol de que "o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira" contagiou definitivamente a política. Entretanto, a mesma Europa, que defendia há um par de meses que a retirada precoce dos estímulos às economias produziria um efeito recessivo profundo, abriu as portas à possibilidade de intervir nos orçamentos nacionais, enquanto empurrava os países para um regresso em força à disciplina orçamental apertada. Por cá, onde a desorientação é o regime há vários meses, governo e PSD entenderam-se para assegurar definitivamente que o nosso ajustamento não assentará em nenhuma estratégia económica, mas numa recessão duradoura. Se íamos crescer pouco, o mais certo é que agora não sejamos capazes de crescer. No meio da desorientação, talvez não fosse má ideia que alguém aproveitasse para dizer que, sendo assim, chegaremos a 2013 com níveis de desemprego iguais ou superiores aos que temos hoje.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Risco de incumprimento
Ameaçado por risco de incumprimento de afazeres académicos, tenho tido a sorte de, num difícil exercício de insonorização, me ter conseguido manter num reduto de laicismo, mas também me tem sido impossível seguir muito atentamente aquilo que se está a passar na Europa, com réplicas que se fazem sentir de modo devastador em Portugal. Mas, do que li, sublinho em particular este texto do Pedro Lains, este do Jorge Bateira, este do João Pinto e Castro e ainda este do João Galamba.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
I was dressed for success / But success it never comes
Corre por aí, entre o grupo excursionista que se deslocou aos National+Pavement, o boato de que combinei o dress code com o Stephen Malkmus. Na verdade, confirma-se, ainda que tenha optado por não usar a t-shirt lilás que ele ostentava (cada um sabe de si).
terça-feira, 11 de maio de 2010
Fé e dogmas
Se me perguntarem a que é que eu pertenço, só há mesmo uma coisa que respondo sem hesitação. Se me perguntarem o que é que faz com que de facto me emocione para além do meu controlo, a resposta é a mesma. Eu fui e continuo a ser aquele miúdo que chorou quando o Benfica marcou contra o Liverpool este ano e mantenho uma memória fotográfica de muitas tardes passadas no velho estádio da Luz. Eu e mais centenas de milhares de outros portugueses - os portugueses que olham com desconfiança para a selecção e que preferem ver o David Luiz a titular do escrete ou o Di Maria a fazer o Maradona sorrir do que a ter de conviver com os nossos jogadores lado a lado com os dos rivais. Sou por isso um dos milhares de benfiquistas para quem este título valeu por muitos outros. Já vi muitas vezes o Benfica campeão, já vibrei com muitas vitórias históricas, mas, admito, é diferente vencer à Trappattoni e vencer jogando como jogámos esta época, naquele carrossel mágico de que tenho a certeza nunca mais me esquecerei. Quando precisar de me emocionar, sei sempre que posso recordar-me do que vi este ano e que, tenho fé, se repetirá para o ano e nos próximos.
Dois lamentos e uma proposta construtiva
Como não tenho twitter, tem de ser aqui. Sou prova empírica que isto do Vulcão é mesmo uma grande merda: não fui ao marquês, não vi o jogo, mas fui salvo pelos sms de uma mão-cheia de amigos. Por outro lado, nos últimos dias tenho-me lembrado muito do Johnny Rotten no último concerto dos Sex Pistols, quando se virou para o público e disse: "Ever get the feeling you've been cheated?. Tenho ainda uma proposta: alguém devia organizar uma excursão de ex-seleccionadores nacionais (e também de treinadores campeões) para ser recebida pelas mais altas instâncias nacionais (do sr. Madaíl ao dr. Cavaco), para que a ida do Prof. Queiroz (o homem novo que o dr. Cavaco anunciou aqui há uns anos) ao Mundial fosse suspensa.
sábado, 8 de maio de 2010
A grande recessão
Numa semana, forçados pela pressão externa, havia entendimento entre PS e PSD sobre a necessidade de implementar o PEC. Noutra semana, reaberta a disputa política interna sobre as “grandes obras”, o entendimento desfez-se em ar. Nenhuma das instituições internacionais que se pronunciou sobre o nosso PEC identificou o investimento público nele previsto como um risco. Aliás, o risco de incumprimento reside, no essencial, num cenário macroeconómico optimista, mesmo incluindo o pouco investimento público que resiste. Com aeroporto e TGV – que não poderão deixar de ter impacto positivo na nossa competitividade externa no médio prazo –, chegaremos ao fim do PEC com o desemprego em 9,3% e o crescimento do produto em 1,7%. E uma coisa é certa: sem que se vislumbre um modelo alternativo ao que tem dominado nas últimas décadas, um corte total, drástico e de um dia para o outro de todo o investimento público teria um impacto dramático – uma recessão profunda, duradoura, acompanhada por um disparar do desemprego bem para além dos actuais 10%. Neste cenário, tornar-se-ia, por exemplo, impossível promover qualquer tipo de consolidação orçamental. As profundas alterações das nossas condições de financiamento e o fim do “dinheiro barato” são óptimos pretextos para racionalizar o investimento público, colocando fim a muito desperdício e dando prioridade aos que têm melhor rendibilidade privada. Mas entre esse exercício e parar tudo vai uma grande diferença. No fundo, a diferença entre o mantra tantas vezes repetido de que “o País tem de aumentar a sua competitividade” e a capacidade de ter, de facto, uma política económica que torne Portugal viável.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
sexta-feira, 7 de maio de 2010
pode alguém ser quem não é?
Alegre formalizou a sua candidatura presidencial e, não tarda, o PS apoiá-lo-á. Desde das últimas presidenciais, estava escrito que assim seria. Uma espécie de fatalidade à qual nenhuma das partes tinha capacidade de resistir. Mas Alegre e o PS vivem enredados num dilema: Alegre sabe que um candidato ganhador precisa de ser capaz de alargar o seu espaço político de partida e o PS sabe que Alegre não é, na verdade, o candidato da sua linha estratégica dominante. Contudo, no anúncio em Ponta Delgada, Alegre-candidato revelou-se bem diferente de Alegre-proto-candidato. Onde antes havia um crítico do Governo em aspectos politicamente centrais, ouvimos um candidato alinhado com a estratégia de Sócrates. O candidato que esteve quase sempre com o “pé-fora” do PS, para recuperar a expressão de Soares, voltou agora a pôr o “pé-dentro”. Mas uma coisa são as proclamações, outra é a percepção que existe sobre o que Alegre e Sócrates representam politicamente. E, quanto a isso, não há interpretações alternativas: as visões de cada um são suficientemente diferentes para impossibilitar qualquer tipo de cooperação estratégica de facto. Alegre foi um candidato forte enquanto “maverick”, rebelando-se contra o poder do seu espaço de origem; o mesmo não é verdade para Alegre candidato artificialmente oficial do PS. Qualquer das duas versões está eleitoralmente limitada e, em política, não há nada pior do que se tentar ser o que não se é. No fim, restará uma disputa presidencial entre dois candidatos conservadores, ainda que com matrizes políticas diferentes. Entre Cavaco e Alegre ficará um amplo espaço político por representar.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Amanhã, em Paris de França, vão estar juntos (depois conto)
>
"You've been humming in a daze forever
Praying for Pavement to get back together"
The National, so far around the band
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Se isto não é rock'n'roll

"and so now when i drink im going to drink to excess
and when i smoke i will smoke keep it in hold it in my chest
and when i scream i will scream until im gasping for breath
and when i get sick i will stay sick for the rest of my
days peddling hate at the back of a chevy express
each one will fly into the face of your idea of success
and if this be thy will then fuckin' pass me the cup
and im sorry dad no i'm not making this up!
but my enemies feel on the name under my wrist as i go to sleep and i know what little ive known of peace until ive done to you what you've done to me.
and i'd be nothing without you my darling please dont ever leave me.
please dont ever leave"
Titus Andronicus, the battle of hampton roads (só mesmo ouvindo)
The enemy is everywhere
Tenho andado com muito pouco tempo para me dedicar a coisas importantes, mas tenho ouvido muito este disco e ainda não me tinha apercebido que o queria dizer sobre ele era exactamente o que aqui se escreveu. Peço desculpa por ser em estrangeiro, mas era isto que eu queria ter escrito:
"I'm not sure what else I can say about Titus Andronicus' stellar album The Monitor that hasn't already been said. It's about the Civil War as much as it is about New Jersey as much as it's about disaffected youth. That is to say it is about a lot of BIG things. That is also to say it's gonna take a lot of listens before I can unpack it all.
But that's a beautiful thing, because it sounds about as big as the subject matter it covers. Not in an overblown way though, more like an out-of-breath way. There might as well not even be a track listing because every song just sort of ramshackle-y unravels, verse piled on verse, and spills into the next, but in the best possible way. It kind of sounds like a much punkier, more youthful version of The Hold Steady, with all the Springsteen worship to boot. (Check out the lyrics in epic opener "A More Perfect Union", "tramps like us, baby we were born to die!") In other words, it's the sound of something exciting looking forward and looking back."
(no youtube arranja-se uns videos manhosos da "battle of hampton roads" (assim os melhores 14 minutos que o rock nos deu nos últimos anos)
"I'm not sure what else I can say about Titus Andronicus' stellar album The Monitor that hasn't already been said. It's about the Civil War as much as it is about New Jersey as much as it's about disaffected youth. That is to say it is about a lot of BIG things. That is also to say it's gonna take a lot of listens before I can unpack it all.
But that's a beautiful thing, because it sounds about as big as the subject matter it covers. Not in an overblown way though, more like an out-of-breath way. There might as well not even be a track listing because every song just sort of ramshackle-y unravels, verse piled on verse, and spills into the next, but in the best possible way. It kind of sounds like a much punkier, more youthful version of The Hold Steady, with all the Springsteen worship to boot. (Check out the lyrics in epic opener "A More Perfect Union", "tramps like us, baby we were born to die!") In other words, it's the sound of something exciting looking forward and looking back."
(no youtube arranja-se uns videos manhosos da "battle of hampton roads" (assim os melhores 14 minutos que o rock nos deu nos últimos anos)
terça-feira, 4 de maio de 2010
O bloqueio e Alegre
A candidatura que Manuel Alegre hoje oficializa é, no essencial, uma tentativa para enfrentar o bloqueio estrutural da esquerda portuguesa: apesar de eleitoralmente maioritária é incapaz de garantir condições efectivas de governabilidade. Mas se Alegre, ao contrário do PS de hoje, tem a virtude de tentar enfrentar este bloqueio, infelizmente não contribui estrategicamente para o ultrapassar. Pelo contrário, a sua candidatura pode funcionar como uma espécie de vacina que inviabilize um PS modernizador e ancorado à esquerda.
O principal desafio da social democracia na Europa ocidental é ter uma agenda que faça da sustentabilidade financeira do Estado Providência a sua prioridade política. Ora Alegre, nuns casos colocou-se à margem de todas as discussões sobre este tema que ocorreram em Portugal nas últimas décadas, noutros foi um destacado opositor de medidas que tinham este objectivo. Da diferenciação das prestações familiares ainda com Guterres, passando pela disciplina orçamental no SNS com Correia de Campos e pela introdução do factor de sustentabilidade na segurança social com Vieira da Silva, até à opção pela adaptabilidade externa na reforma da regulação laboral, Alegre ou esteve ausente ou foi porta-voz da oposição política a estas medidas.
Num contexto de austeridade como o que vivemos, o sucesso de Alegre depende mais de libertar-se do conservadorismo de esquerda que tem sido a sua marca distintiva, do que de corrigir o afastamento recente em relação ao seu espaço político de origem. Seria um contributo relevante para a construção de um centro-esquerda capaz de crescer eleitoralmente à esquerda. Pelo contrário, uma candidatura conservadora nos costumes e imobilista nas políticas públicas serve apenas dois objectivos: consolida o bloco político conservador e assegura que o PS encontra na sua ala esquerda, por paradoxal que possa parecer, o melhor dos pretextos para se ir, cada vez mais, descaracterizando ideologicamente.
excerto do meu artigo de hoje no Diário Económico.
O principal desafio da social democracia na Europa ocidental é ter uma agenda que faça da sustentabilidade financeira do Estado Providência a sua prioridade política. Ora Alegre, nuns casos colocou-se à margem de todas as discussões sobre este tema que ocorreram em Portugal nas últimas décadas, noutros foi um destacado opositor de medidas que tinham este objectivo. Da diferenciação das prestações familiares ainda com Guterres, passando pela disciplina orçamental no SNS com Correia de Campos e pela introdução do factor de sustentabilidade na segurança social com Vieira da Silva, até à opção pela adaptabilidade externa na reforma da regulação laboral, Alegre ou esteve ausente ou foi porta-voz da oposição política a estas medidas.
Num contexto de austeridade como o que vivemos, o sucesso de Alegre depende mais de libertar-se do conservadorismo de esquerda que tem sido a sua marca distintiva, do que de corrigir o afastamento recente em relação ao seu espaço político de origem. Seria um contributo relevante para a construção de um centro-esquerda capaz de crescer eleitoralmente à esquerda. Pelo contrário, uma candidatura conservadora nos costumes e imobilista nas políticas públicas serve apenas dois objectivos: consolida o bloco político conservador e assegura que o PS encontra na sua ala esquerda, por paradoxal que possa parecer, o melhor dos pretextos para se ir, cada vez mais, descaracterizando ideologicamente.
excerto do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
sábado, 1 de maio de 2010
imitem a Europa: entendam-se
Por lirismo ou pura irresponsabilidade, o país pôs-se numa posição singular no contexto da zona euro. E não, não é o risco da dívida soberana. A nossa maior singularidade é política. Na Europa há governos de maioria absoluta, de coligação no executivo ou assentes em coligações parlamentares. O que não existe são governos minoritários sem entendimentos parlamentares estáveis. O caso português é único e, por alguma razão, ninguém replica o nosso experimentalismo. Num contexto de crescimento económico, com maior ou menor vigor reformista, a governabilidade é possível sem um apoio maioritário. Num contexto de austeridade, é irresponsável go-vernar sem uma maioria estável. Se as eleições não produzem esse resultado, o mínimo que se exige à classe política é que seja capaz de se entender. Nos últimos seis meses, com responsabilidades repartidas, os partidos portugueses entretiveram-se a votar favoravelmente medidas que aumentam a despesa (acordo sobre a carreira dos professores) e que diminuem a receita (chumbo do Código Contributivo e suspensão do pagamento especial por conta). Esta semana, num gesto essencialmente simbólico, Sócrates e Passos Coelho apareceram lado a lado em São Bento. Fizeram-no condicionados pela pressão externa, mostrando mais uma vez que nos maus momentos temos de ser ajudados a partir de fora. É pena que PS e PSD tenham demorado seis meses a perceber o óbvio: uma crise destas não se enfrenta com coligações pontuais e com governação à vista. Mas é bom que percebam também que, sendo um passo positivo, a solução não radica em conferências de imprensa.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
>
>






