"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

sábado, 14 de agosto de 2010

Léxico Familiar



O disco novo dos Walkmen chama-se Lisbon e a primeira música a fazer o circuito dos late night shows chama-se Angela Surf City. Tudo muito cá de casa, portanto.

Uma estratégia possível

As últimas sondagens dão a Cavaco Silva uma vantagem suficiente para ganhar à primeira volta. A candidatura de Manuel Alegre tem um problema sério e o estado de espírito na esquerda resume-se a esperar para ver. Alegre tem de fazer qualquer coisa para inverter esta tendência: o pior que lhe podia acontecer era ficar numa espécie de meio caminho que, sem desagradar nem ao PS nem ao BE, acabará por não mobilizar ninguém. Não por acaso, o seu melhor momento até agora esteve na tentativa de associar Cavaco, o economista empenhado na cooperação estratégica, à situação económica do país. Anteontem, ao reler para o i o "III Fares the Land" de Tony Judt, lembrei-me da candidatura de Alegre. O livro anuncia uma estratégia eleitoral possível. Manuel Alegre representa a mesma social- -democracia de Judt, demasiado presa ao modelo social vigente nos 30 gloriosos anos do pós- -guerra, que, além do mais e infelizmente, nunca passaram por Portugal. Uma estratégia que, como programa de governo, não serve, desde logo porque abdica de qualquer visão modernizadora. Mas, tratando--se de eleições presidenciais, talvez esta retórica nostálgica não seja vista como uma ameaça excessiva pelo que resta da esquerda moderna de Sócrates. Num momento em que as pessoas olham para o futuro com desconfiança e vêem o seu estilo de vida ameaçado - a "era de insegurança" de que fala Judt -, uma plataforma política conservadora e de resistência às transformações e aos ajustamentos será pouco realista e inconsequente mas poderá, apesar de tudo, ter alguma força eleitoral, permitindo descolar dos actuais 20%.
publicado hoje no i.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Um legado com futuro?

Morreu no fim-de-semana o notável historiador Tony Judt (são imperdíveis as suas crónicas autobiográficas que o New York Review of Books disponibiliza online). Consciente da sua curta esperança de vida, quis deixar "Ill Fares the Land" como testemunho social-democrata. O principal problema do livro reside aqui. A social-democracia que Judt defende nada tem a ver, por exemplo, com a de Donald Sassoon, que nos mostra um movimento marcado por sucessivos processos de modernização e que sempre soube distinguir os valores dos instrumentos que ao longo do tempo os concretizam. A social-democracia de Judt é rígida e parece ter atingido um estado de perfeição nos 30 anos do pós-guerra que deve ser defendido a todo o custo: "Abandonar os esforços de um século é trair aqueles que nos antecederam bem como os que estão por vir." O Estado Providência está hoje confrontado com conhecidos desafios estruturais, de natureza económica e demográfica. Para Judt, é como se tudo se resumisse a uma questão de discurso, a um problema que pode ser ultrapassado num plano estritamente ideológico. Infelizmente, para a sustentabilidade do Estado Providência, tão perigosas como as receitas neoliberais são as posições imobilistas. "Ill Fares the Land", um testemunho pensado para os jovens, bem podia ser um manifesto eleitoral de sucesso para os mais velhos. Tocqueville, que Judt lembra numa das muitas (e boas) epígrafes, parece mais actual do que nunca: "Não posso deixar de temer que as pessoas cheguem a um ponto em que vêem qualquer nova teoria como um perigo, qualquer inovação como um problema [...] e que possam recusar qualquer movimento."
publicado hoje no i.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O legado bolchevique

(...) O regresso à linha ortodoxa, representada por Jerónimo de Sousa e preparada na sombra pelos velhos (e novos) bolcheviques, só tem servido para resistir, tirando ao PCP qualquer hipótese de crescimento, mesmo em anos de governação socialista. Quem tem aproveitado é o Bloco de Esquerda. Ao contrário do que sugeria Carvalho da Silva numa entrevista ao Sol, não é tanto a falta de um PS social-democrata que tem impedido o diálogo entre a esquerda portuguesa. Como bem sabe o líder da CGTP, é justamente neste regresso do PCP à ortodoxia e na sua competição fratricida com o BE que tem residido o principal bloqueio do sistema partidário português.

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Um tipo exemplar

“Today I’m regarded outside New York University as a looney-tunes leftie self-hating Jewish communist; inside the university I’m regarded as a typical old-fashioned white male liberal elitist,” he told The Guardian of London in January 2010. “I like that. I’m on the edge of both, it makes me feel comfortable.”
o resto do obituário, aqui.

domingo, 8 de agosto de 2010

The talented

"In my generation we thought of ourselves as both radical and members of an elite. If this sounds incoherent, it is the incoherence of a certain liberal descent that we intuitively imbibed over the course of our college years. It is the incoherence of the patrician Keynes establishing the Royal Ballet and the Arts Council for the greater good of everyone, but ensuring that they were run by the cognoscenti. It is the incoherence of meritocracy: giving everyone a chance and then privileging the talented. It was the incoherence of my King’s and I was fortunate to have experienced it."

O Tony Judt escrevia os únicos textos longos que eu era capaz de ler online. O último foi este e percebe-se bem o que é ter talento.

sábado, 7 de agosto de 2010

Tudo por explicar

Esta semana entrou no Tejo o Tridente. O ministro e o chefe da Armada estavam de férias. A chegada foi discreta, como não podia deixar de ser: os submarinos queimam. O que só serve para demonstrar como neste processo nada correu bem. Em primeiro lugar, a oportunidade. Afinal, são mil milhões a entrar nos défices dos próximos dois anos. Nada de especial, por exemplo, para o almirante Vieira Matias, que veio lamentar que não tenham vindo quatro submarinos. Mas as dúvidas adensam-se também em relação ao processo administrativo: a escolha do consórcio; as regras que se alteraram a meio do jogo; a fraca execução das contrapartidas; a posição de fragilidade em que o Estado se pôs; o enigmático papel dos consultores. Nada é claro. Esta intriga tem, no entanto, deixado para segundo plano a discussão de uma questão não menos relevante: a de saber se Portugal necessitava de renovar, com esta urgência e nível de investimento, a sua capacidade submarina. Na devida altura, Ana Gomes revelou publicamente a existência de documentos da NATO que punham fortes reservas sobre a utilidade desta aquisição. Que "interesse nacional" é esse que se manifesta em contradição com o quadro de alianças em que Portugal se insere? Argumenta-se com a utilidade submarina na "vigilância costeira". Mas não haverá outros navios mais vocacionados para essas missões? Recentemente também surgiram notícias dando conta da redução das frotas submarinas em países da UE e da NATO. Neste caso, como infelizmente noutras aquisições militares, está ainda tudo por explicar.
publicado no i.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Um país, três rainhas



A revisão constitucional e a campanha presidencial já têm assunto: a organização do Ministério Público. Pinto Monteiro foi certeiro. É preciso que o poder político decida se quer um MP autónomo mas hierarquizado ou se prefere o "actual simulacro de hierarquia, em que o PGR tem os poderes da rainha de Inglaterra".
Na verdade, para além do procurador, há mais duas rainhas de Inglaterra no sistema: o Presidente da República, supremo magistrado da nação, a quem compete nomear o PGR, e o próprio ministro da Justiça, que não pode ser responsabilizado pelos resultados de um sistema que, aos olhos dos cidadãos, tutela.
O que vigora é aquilo a que, há um par de anos, o próprio PGR apelidou de sistema de "duques, marquesas e valetes". A face mais visível deste poder feudal é o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, que anteontem nos brindou com mais um comunicado que só veio dar razão àqueles que, como Jorge Miranda, defendem a proibição constitucional de os magistrados se organizarem em sindicatos.
Era bom que os principais partidos trocassem, de boa fé, umas ideias sobre este assunto. Para já, o PS podia ter ido mais longe na defesa do reforço da hierarquia no MP, em vez de deixar o PGR isolado. O PCP, já sabemos, não conta para este debate. Mas o PSD há muito devia ter percebido que este estado de coisas só serve para descredibilizar o sistema político no seu todo. Como escreveu esta semana Ferreira Fernandes, a propósito das perguntas que os procuradores não conseguiram fazer a Sócrates, "a minha questão é: e amanhã? Passos ou Ângelo, Jerónimo, Portas ou Louçã, todos terão direito a perguntas que não lhes serão feitas".
publicado hoje no i.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Nobody gets me but you



Só a improvável conversão dos Roots ao Krautrock me faria interromper as férias para passar por aqui. Conclusão: os Spoon movem montanhas.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

all i ever wanted to do was hear music

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O fim da presunção de inocência

sábado, 31 de julho de 2010

Piloto de testes

O proselitismo liberal é a versão actual da vulgata marxista, que esteve muito em voga na passagem dos anos 60 para os 70. Como acontecia com quem então padecia da doença infantil do comunismo, também os nossos liberais tendem a moldar a realidade à sua construção teórica, ao mesmo tempo simples e com resposta para tudo. Ao fazerem-no esquecem, por um lado, a complexidade dos ajustamentos nas políticas públicas e, por outro, o país que realmente existe, feito de portugueses bem diferentes daqueles que conhecem ou projectam. O mantra "menos Estado" tornou-se, aliás, um novo "amanhã que canta", combinando as mesmas doses de optimismo e de normatividade com uma subjugação da realidade aos arquétipos de partida. Mas a realidade tem sempre razão. Talvez tenha sido o choque com a realidade que levou Passos Coelho a dizer, primeiro, que esperava que o PSD não recuasse nas suas insólitas propostas de revisão constitucional (o que, vindo do líder do partido, não deixa de ser estranho) e, já esta semana, que no fundo tudo isto não tinha passado de um teste - imagina-se para ver se o país estava preparado para o receber, devidamente acompanhado da sua doutrina. Há, contudo, um risco. Passos Coelho, que encontrou circunstâncias muito favoráveis para se afirmar politicamente, com um governo frágil e uma situação económica débil, arrisca-se ele próprio a ser apenas mais um piloto de testes, juntando-se à longa lista de líderes do PSD que nunca chegaram a primeiros-ministros.
publicado hoje no i.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O cancro Freeport

Tem sido sugerido que, uma vez conhecida a acusação do processo Freeport, era devido um pedido de desculpas a Sócrates. Se pensarmos no que foram as manchetes dos media nos últimos seis anos, sopradas por "operadores" do sistema de justiça, e na utilização política que foi feita do processo, há boas razões para uma penitência colectiva de muitos jornalistas portugueses, acompanhados por parte significativa da classe política. Mas é um erro olhar para o que se passou como uma questão com Sócrates. No essencial, a presença mediática do processo Freeport nunca foi uma diatribe contra o primeiro-ministro. O que esteve sempre em causa foi bem mais grave: a exposição de um cancro que está a destruir a democracia portuguesa e que resulta da coligação perversa entre péssimas investigações e jornalismo medíocre. Uma coligação que radica numa justiça que compensa a incapacidade de produzir prova com disseminação de pseudo-factos nos media e numa comunicação social que se revela incapaz de avaliar a idoneidade das suas fontes, tomando como válida qualquer informação proveniente do sistema de justiça. Os resultados estão à vista. Uma degradação generalizada da vida pública e um sentimento de total impunidade - que impossibilita que tenhamos certezas quando alguém é condenado, ao mesmo tempo que fica sempre a pairar uma dúvida sobre a inocência de quem algum dia tenha visto o seu nome envolvido num processo. Na verdade, não é a José Sócrates que é devido um pedido de desculpas. É a todos nós, que assistimos impotentes a este cancro que está a degradar a democracia portuguesa.
publicado hoje no i.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O meu Verão Azul

terça-feira, 27 de julho de 2010

Não interrompas um erro

"(...)o aspecto mais extraordinário desta proposta, apresentada antes do Verão e a tempo de eclodir em plena pré-campanha presidencial, são as oportunidades que Passos criou aos seus adversários políticos. Numa altura em que o Governo se encontrava em manifestas dificuldades, Sócrates passou a ter uma oportunidade para fazer uma afirmação ideológica com a qual nem o próprio sonhava; e quando Portas se encontrava encostado às cordas, por força do crescimento do PSD, pôde voltar a vestir o fato de homem de Estado e revelar razoabilidade. No fundo, a Sócrates e a Portas resta fazer o que Passos Coelho não conseguiu: seguir a velha máxima de Napoleão que aconselhava a nunca interromper um inimigo quando ele está a cometer um erro."

do meu artigo de hoje no Diário Económico.

domingo, 25 de julho de 2010

Vou só ali dar um mergulho e já não volto



foto roubada ao ricardo

sábado, 24 de julho de 2010

Passos e Cavaco: uma luta diferente

Há quem diga que as questões afectivas tendem a ser desvalorizadas quando se analisa a política. É provavelmente verdade. Basta pensar na proposta de revisão constitucional apresentada por Passos Coelho. Tem sido dito que representa um ataque ao código genético do regime, pondo em causa os seus alicerces (o ataque descabelado ao Estado Social), ao mesmo tempo que promove instabilidade política (ao mexer inoportunamente no equilíbrio de poderes). Se procurarmos alguma racionalidade nas propostas de Passos, faz sentido olhar para elas assim. Mas talvez valha a pena pôr a razão de lado. Cada semana que passa, mais me convenço que o inimigo de Passos não é o povo (através do fim da gratuitidade no acesso à educação e à saúde), nem sequer Sócrates. Não é segredo que Ca-vaco não morre de amores por Passos - no que é retribuído. Ora se olharmos para as últimas iniciativas do PSD, começa a ficar claro que, no fundo, podem não passar de um acerto de contas com Cavaco. Primeiro foi o tema da acumulação de pensões, em que o PSD obrigou Cavaco a justificar a sua posição, enquanto se envolvia numa enorme trapalhada sobre o que estava em causa; depois a ameaça de chumbo do OE, que poderá ocorrer em plena campanha presidencial - a última coisa que Cavaco deseja; esta semana chegou a alteração dos poderes presidenciais, causando natural desconforto ao Presidente em exercício que mais de uma vez se confessou confortável com os actuais poderes. Mas, já que estamos no domínio da emoção, não sei porquê, parece-me que este frenesim de iniciativas acabará por trazer mais problemas a Passos do que a Cavaco.
publicado hoje no i.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A TINA precisa de amigos



A TINA (There is no alternative) é uma rapariga incompreendida. Mas hoje o que nos resta é a TINA e ela precisa de amigos. Ainda na semana passada, Paulo Portas lhe quis fazer um arranjinho. Acontece que a TINA, rapariga avisada, sabe que as relações a três, mesmo que escondam um secreto fascínio, tendem a não acabar bem. O que a TINA precisava mesmo era de uma relação previsível, de um ambiente estável que lhe desse tranquilidade durante uns quantos anos. Se isso acontecesse, a TINA estaria disposta a sair de cena daqui a uns tempos, deixando o campo aberto para que todos pudessem escolher uma rapariga à sua medida. Mas a TINA teme que isso não aconteça. Inveja, por isso, as relações que vai conhecendo na Europa, onde os partidos se juntam, com documento escrito e assinado. Por cá, ela tem pouca esperança de que algo semelhante aconteça. Esta semana, aliás, ficou muito preocupada quando percebeu que Passos Coelho, rapaz com quem até dançaria um tango, afinal estava mais preocupado com os poderes do Presidente e do Parlamento. A TINA sabe que ninguém gosta que lhe seja dito que não há alternativa e que pouco resta a fazer além de um conjunto de cortes que vão deprimir ainda mais a economia. A esses, a TINA diz, e com justiça, que se vão queixar à Europa que há um ano e pouco não anda a tratar nada bem dos seus. A questão é que a TINA também sabe que hoje a única alternativa à sua presença é o caos financeiro, económico e social. E a TINA está consciente de que, se não lhe encontrarem parceiros fiéis, a alternativa vai ser mesmo essa. Só nessa altura, os que hoje a desprezam lhe saberão reconhecer valor.
publicado hoje no i.

Isto é quase tão bom como um golo do Mantorras