sexta-feira, 1 de outubro de 2010
I said a hip, a hop, the hippie, the hippie
eu gostava de ter algum tempo para escrever qualquer coisa sobre isto. infelizmente não tenho. mas fica a intenção.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
O rock'n'roll salva
entretanto a FNAC está quase a oferecer (22 euros) uma caixa com os 7 primeiros álbuns do Bruce.
sábado, 25 de setembro de 2010
Façam o favor de se distinguirem
"(...) Quando a oferta partidária é indistinta, o mais natural é que a mobilização política diminua e o sentido do voto perca relevância. Ora, o que o PSD tem feito nos últimos meses pode prejudicar o partido eleitoralmente, mas terá dado um bom contributo para que PS e PSD se demarquem mais, o que não deixará de ter consequências no tipo de ancoragem que os partidos passam a ter. O PSD, prejudicando-se no curto prazo ao clarificar as águas, é bem capaz de ter feito um enorme favor à política portuguesa. Tanto mais que o tipo de diferenciação que procurou assenta também numa rutura com a agenda tradicional da direita portuguesa. Se, no passado, a distinção se fazia mais nos temas relacionados com costumes, com tiradas conservadoras ou argumentos securitários, projetando uma imagem de autoridade, Passos Coelho procura afirmar-se com uma agenda liberal, demarcando-se onde PS e PSD tradicionalmente estavam mais próximos: no papel do Estado na economia e nos temas sociais.
Podemos considerar que não há um bloco social maioritário que apoie a agenda de Passos Coelho e que o PSD, ao encostar-se muito à direita, diminuiu o seu potencial eleitoral; podemos também pensar que o PSD escolheu o instrumento errado, pois fazia mais sentido rever a sua declaração de princípios do que rever a Constituição, que deve refletir um amplo consenso. Seja como for, a redefinição programática do PSD obrigou também o PS a reposicionar-se e, mesmo que tenha sido feita de forma tosca e confusa, trouxe consigo uma clarificação ideológica que é positiva."
o resto do meu artigo no expresso de 18 de setembro pode ser lido aqui.
Podemos considerar que não há um bloco social maioritário que apoie a agenda de Passos Coelho e que o PSD, ao encostar-se muito à direita, diminuiu o seu potencial eleitoral; podemos também pensar que o PSD escolheu o instrumento errado, pois fazia mais sentido rever a sua declaração de princípios do que rever a Constituição, que deve refletir um amplo consenso. Seja como for, a redefinição programática do PSD obrigou também o PS a reposicionar-se e, mesmo que tenha sido feita de forma tosca e confusa, trouxe consigo uma clarificação ideológica que é positiva."
o resto do meu artigo no expresso de 18 de setembro pode ser lido aqui.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
sábado, 18 de setembro de 2010
Tenho Medo
"Se me perguntarem qual é a minha prioridade na educação dos meus filhos, direi que é garantir que eles não têm medo. Medo físico, medo das personagens assombrosas que lhes surgem nos sonhos, mas também que têm a coragem suficiente para fazerem face às tormentas com que se defrontarão ao longo da vida. Se tiverem confiança, o resto virá por acréscimo. Para parafrasear a escritora Natalia Ginzburg, em "Le piccole virtú" (infelizmente não traduzido em português), tendemos a ensinar às crianças muitas das pequenas virtudes (a poupança, a prudência, a astúcia, a diplomacia e o desejo de sucesso), mas nisso esquecemo-nos das grandes virtudes (a generosidade, o amor à verdade, a abnegação, a coragem e o desejo de saber mais).
Peço desculpa se, dito assim, parece uma questão privada, pouco adequada a uma coluna de opinião, por natureza pública. Infelizmente não é. Para que os meus filhos - e, acrescento, os nossos filhos - não tenham medo, tenho também de lhes poder dizer que, se for caso disso, a lei estará do lado deles para os proteger. É isso que me leva a fazer em público uma confissão que é semiprivada: eu tenho medo da justiça em Portugal e o que se vai sabendo do famigerado processo Casa Pia só consolida as minhas inquietações.(...)"
o resto do meu artigo da semana passada no Expresso pode ser lido aqui.
Peço desculpa se, dito assim, parece uma questão privada, pouco adequada a uma coluna de opinião, por natureza pública. Infelizmente não é. Para que os meus filhos - e, acrescento, os nossos filhos - não tenham medo, tenho também de lhes poder dizer que, se for caso disso, a lei estará do lado deles para os proteger. É isso que me leva a fazer em público uma confissão que é semiprivada: eu tenho medo da justiça em Portugal e o que se vai sabendo do famigerado processo Casa Pia só consolida as minhas inquietações.(...)"
o resto do meu artigo da semana passada no Expresso pode ser lido aqui.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Baarìa

Eu não sou um fã incondicional do realizador Giuseppe Tornatore. Mas ao ver, no último fim-de-semana, Baarìa, tive a certeza que sou fã incondicional de Tornatore como realizador. No fundo, invejo a possibilidade de fazer filmes daqueles: explicitamente lamechas, sem nenhuma auto-censura sentimental. Mais do que gostar dos filmes, o que gostava era de ser eu a fazer aqueles filmes.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
O choque social é tecnológico
Portugal precisava de um impulso de modernização tecnológica aplicado à administração pública como de pão para a boca. Mas o choque tecnológico pode também ter consequências sociais, alargando desigualdades já muito profundas. E, quando combinado com deslumbramento tecnológico, o desastre é garantido: dos chips para as matrículas, apresentados como parte de um “cluster da telemática rodoviária”, ao VIA CTT que ninguém utilizou, já se inventou de tudo. Agora, ficou a saber-se, os beneficiários das prestações não-contributivas (RSI, subsídio social de desemprego e abono de família) têm de fazer prova de recursos através do site da Segurança Social. Como se não bastasse, em plena crise económica, começar por apertar o cerco àqueles que mais sofrem com o desemprego e a pobreza, o Governo lembrou-se também de lhes exigir o que não são capazes – aceder a um site na internet (que não têm) e preencher formulários que requerem competências específicas (que provavelmente lhes escapam). Se os cortes nas prestações sociais revelavam prioridades políticas erradas, o modo como estão a ser adoptados esconde um profundo desconhecimento do país, feito de muita pobreza persistente.
publicado no Expresso de 4 de Setembro.
publicado no Expresso de 4 de Setembro.
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Presos no Pântano
A partir de quinta-feira há uma garantia: o quadro parlamentar não mudará até, pelo menos, Maio. Com o aproximar das presidenciais, Cavaco Silva fica constitucionalmente inibido e Portugal fica politicamente preso num pântano. Sem maioria parlamentar, sem coligações e com uma tensão pré-negociação do Orçamento que não se ajusta aos desequilíbrios que temos de enfrentar. Tudo isto serve para lembrar que o primeiro dos problemas do país é de natureza política. Na Europa, há países com défices mais elevados (Irlanda), níveis de endividamento superiores (Itália), mais desemprego (Espanha) e até com perspectivas económicas mais débeis (Grécia), mas não há nenhum país que não tenha um Governo de maioria absoluta ou uma coligação governamental ou de incidência parlamentar. É essa a nossa singularidade. Depois das legislativas, os partidos não foram capazes de se entender e o assomo de responsabilidade que PS e PSD revelaram por altura dos PEC entretanto desfez-se. O cenário tornar-se-á agora ainda mais pantanoso. Ao Governo não resta alternativa senão aprovar o Orçamento com o PSD, com o beneplácito do candidato Cavaco Silva, que foge a sete pés de uma campanha contaminada por uma crise política de natureza orçamental. Ao mesmo tempo, o PS apoia um candidato que preferia um Orçamento viabilizado à esquerda, sendo que à esquerda não há possibilidades de criar condições políticas para conter a despesa. Já o PSD, pressionado pelas sondagens positivas, tem revelado um frenesim que faz com que Passos Coelho opte por arremedos de crise em lugar de procurar entendimentos. Nos próximos tempos, para utilizar uma expressão cara ao Presidente, tudo indica que a nossa situação será insustentável. Mas, antes de tudo, politicamente insustentável.
publicado no Expresso, de 4 de Setembro (e porque hoje é 9 de Setembro)
publicado no Expresso, de 4 de Setembro (e porque hoje é 9 de Setembro)
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Campos de Morangos para Sempre

Para lá da cerca -
Crescem - Morangos -
Para lá da cerca -
Eu podia subir - se tentasse, eu sei -
Que bom, morangos!
Mas - se eu manchasse o Avental -
Deus haveria de ralhar!
Ai - fosse Ele um Rapaz, acho eu -
Subiria - também - pudesse Ele!
Emily Dickinson
Dá que pensar
Durante o fim-de-semana, as Pestanas, os Martins, as Cabritas e os Namoras andaram a falar sozinhos. Mas não totalmente. Na Festa do Avante, Jerónimo de Sousa juntou-se ao coro, afirmando que foi feita justiça no processo Casa Pia. Perante tanta razão para, no mínimo, termos dúvidas, a posição do colectivo, expressa pelo secretário-geral, dá que pensar.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
We can reach our destination, but we're still a ways away
Onde estava o mar está agora o ecrã do computador. Mas eu também suspeitava que quando regressasse teria os Walkmen à espera. Pois o disco novo está todo para audição aqui e no fundo confirma que eles estão num dos caminhos que o Dylan abriu mas nunca chegou a percorrer. São mesmo bons, tão bons que fazem o que aqui se vê ao Driver 8 dos REM (que me serve para recordar que gostei muito dos REM e até tive durante muito tempo na parede do quarto uma das primeiras capas do LP - alguém se lembra do jornal? - com uma foto deles, julgo por altura do lançamento do Green). No fundo, nada disto importa muito depois da praia. Mas que se lixe.
The Walkmen cover R.E.M.
The Walkmen cover R.E.M.
sábado, 28 de agosto de 2010
Os suspeitos do costume
A história contemporânea ensina-nos que as crises económicas são inimigas da democracia. E a crise que as democracias ocidentais estão a atravessar é a maior das últimas décadas. É evidente que o contexto actual tem diferenças significativas relativamente ao período que levou à II Guerra Mundial. Mas há coisas que, infelizmente, não mudam. Estes períodos são sempre perigosos para os mais fracos, os imigrantes e os mais pobres dos pobres. Quando um chefe de Estado ou de governo está em dificuldades por causa dos efeitos das medidas de austeridade, nada melhor do que a exploração de preconceitos através de uma expulsão de ciganos devidamente mediatizada, como fez Sarkozy. Por cá, em matéria de imigração, há ainda um consenso importante entre PS e PSD. Mas quando a situação se complica, aperta-se o cerco aos "malandros dos beneficiários do rendimento mínimo" e faz-se disso bandeira da contenção da despesa. É, de facto, o caminho mais fácil. Afinal, muita gente ganha pouco mais do que eles e tem de trabalhar. Essas pessoas e sentimentos existem. Só falta que lhes digam que o problema talvez esteja mais na política de rendimentos e na política fiscal do que naqueles que tiveram o azar de passar nos apertados critérios de acesso às prestações.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Jornalismo e remodelações
Foi com grande espanto que li na edição de hoje, 27 de Agosto de 2010, do jornal SOL, na página 6, uma notícia (assinada pela jornalista Helena Pereira) segundo a qual eu consideraria o ministro Vieira da Silva um dos remodeláveis deste governo, com direito a citação e tudo.
Felizmente tenho muito boa memória e particular cuidado quando falo com jornalistas – o que faço sempre em on, pois considero que, em notícias sobre política, o off é não só um perfeito absurdo como um mecanismo que empobrece muito o debate político em Portugal -, pelo que me recordo, naturalmente, do que disse e sobre o que falei com Helena Pereira, a jornalista do SOL que me contactou e de quem, aliás, tenho boa opinião. Nessa conversa não abordámos o tema remodelações; no essencial falámos sobre deduções fiscais e a tensão pré-discussão do Orçamento de Estado. Se a jornalista queria saber a minha opinião sobre remodelações no Governo, poderia ter-me questionado, o que efectivamente não fez.
Estranhamente, na notícia do SOL surjo a falar sobre remodelações, tendo reconhecido, de facto, naquelas palavras um texto da minha autoria. Trata-se, contudo, de um artigo que escrevi para o jornal i, aquando do debate do Estado da Nação, de avaliação de vários ministros, já lá vai um mês e meio. O que disse sobre Vieira da Silva e sobre outros ministros tinha a ver com o contexto específico daquele exercício e em nada se relacionava com hipotéticas remodelações. Na notícia, não só pura e simplesmente não é citada a origem e a data da minha citação (dando a entender que foi uma declaração feita ao SOL esta semana), como se tenta integrá-la num contexto que manifestamente não era aquele em que o texto foi originalmente escrito. Ou seja, ao mesmo tempo que se omite a referência a uma peça de um outro jornal (o que não me parece, desde logo, curial), faz-se uma apropriação abusiva - e que induz em erro - de uma frase descontextualizada.
Infelizmente, há muito mais jornalismo feito assim do que se imagina ao ler jornais.
(carta que enviei hoje ao director do jornal SOL)
Felizmente tenho muito boa memória e particular cuidado quando falo com jornalistas – o que faço sempre em on, pois considero que, em notícias sobre política, o off é não só um perfeito absurdo como um mecanismo que empobrece muito o debate político em Portugal -, pelo que me recordo, naturalmente, do que disse e sobre o que falei com Helena Pereira, a jornalista do SOL que me contactou e de quem, aliás, tenho boa opinião. Nessa conversa não abordámos o tema remodelações; no essencial falámos sobre deduções fiscais e a tensão pré-discussão do Orçamento de Estado. Se a jornalista queria saber a minha opinião sobre remodelações no Governo, poderia ter-me questionado, o que efectivamente não fez.
Estranhamente, na notícia do SOL surjo a falar sobre remodelações, tendo reconhecido, de facto, naquelas palavras um texto da minha autoria. Trata-se, contudo, de um artigo que escrevi para o jornal i, aquando do debate do Estado da Nação, de avaliação de vários ministros, já lá vai um mês e meio. O que disse sobre Vieira da Silva e sobre outros ministros tinha a ver com o contexto específico daquele exercício e em nada se relacionava com hipotéticas remodelações. Na notícia, não só pura e simplesmente não é citada a origem e a data da minha citação (dando a entender que foi uma declaração feita ao SOL esta semana), como se tenta integrá-la num contexto que manifestamente não era aquele em que o texto foi originalmente escrito. Ou seja, ao mesmo tempo que se omite a referência a uma peça de um outro jornal (o que não me parece, desde logo, curial), faz-se uma apropriação abusiva - e que induz em erro - de uma frase descontextualizada.
Infelizmente, há muito mais jornalismo feito assim do que se imagina ao ler jornais.
(carta que enviei hoje ao director do jornal SOL)
Más notícias para a esquerda
Num mundo em permanente mudança, há uma instituição que nunca nos surpreende: o Partido Comunista Português. Depois de muito se falar de Carvalho da Silva, Ilda Figueiredo ou Bernardino Soares, o Comité Central do PCP decidiu aprovar, "por unanimidade e aclamação", o nome do "camarada Chico Lopes" como candidato à Presidência da República. Francisco Lopes não é um parlamentar conhecido nem uma figura mediática. É muito mais relevante do que isso. Trata-se de um dos três membros do Secretariado da Comissão Política, uma espécie de "politburo" do PCP. Esta escolha representa, a curto e a médio prazo, más notícias para a esquerda. É certo que Jerónimo lembrou que o candidato da direita é o principal adversário. E que Alegre se apressou a saudar a decisão da Soeiro Pereira Gomes, confiando no Partido Comunista para mobilizar os seus próprios eleitores. Mas é evidente que o principal adversário do PCP nestas eleições (como noutras) é o Bloco de Esquerda. O PCP não deixará de querer recuperar a hegemonia do espaço à esquerda do PS, e para isso o seu candidato precisará de atacar o governo e o seu candidato presidencial. Como se viu em 2006, o resultado da divisão à esquerda não é a mobilização para a segunda volta mas a desmobilização logo à primeira.
A médio prazo as perspectivas também não são animadoras. Se tivermos em conta que Carvalhas, primeiro, e Jerónimo, depois, passaram pelas campanhas presidenciais, tudo indica que estamos perante uma etapa essencial do cursus honorum dos secretários-gerais do PCP. Depois de Jerónimo não virá mais renovação e abertura. Virá Francisco Lopes.
publicado hoje no i.
A médio prazo as perspectivas também não são animadoras. Se tivermos em conta que Carvalhas, primeiro, e Jerónimo, depois, passaram pelas campanhas presidenciais, tudo indica que estamos perante uma etapa essencial do cursus honorum dos secretários-gerais do PCP. Depois de Jerónimo não virá mais renovação e abertura. Virá Francisco Lopes.
publicado hoje no i.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
A força da realidade
"(...) As coisas têm-se passado de tal modo que já se começa instalar a ideia de que talvez ainda esteja para nascer o líder do PSD que vai derrotar José Sócrates. Confesso que acho algo ilusório este optimismo. Na verdade, as últimas sondagens continuam a dar vantagem ao PSD - à semelhança do que sucede em praticamente todos os países, onde os Governos têm sido muito penalizados pela crise.
No final, a revisão constitucional de Passos Coelho pesará sempre muito menos do que os números do desemprego. Com o desemprego nos 10% de pouco servirá acenar com o papão neo-liberal. A realidade tem sempre mais força do que as proclamações programáticas.
Mas, para além destes indicadores económicos e sociais que não costumam dar muita saúde política aos governos, provavelmente o maior sinal de alerta para o PS é a incapacidade que revela em marcar a agenda política. No discurso de Mangualde, Sócrates esforçou-se por lembrar a agenda do Governo. Infelizmente, e como já vem sendo hábito, dessa agenda pouco ficou na memória - e isto diz muito da capacidade de mobilização e liderança de que o Executivo goza nesta fase. Longe vão os tempos em que se discutia as políticas de educação de Maria de Lurdes Rodrigues, a reforma da segurança social de Vieira da Silva e as mudanças na saúde de Correia de Campos. E, nesta fase, era mais de iniciativas políticas do que de crises políticas que o país precisava."
do meu último (e também derradeiro) artigo no Económico.
No final, a revisão constitucional de Passos Coelho pesará sempre muito menos do que os números do desemprego. Com o desemprego nos 10% de pouco servirá acenar com o papão neo-liberal. A realidade tem sempre mais força do que as proclamações programáticas.
Mas, para além destes indicadores económicos e sociais que não costumam dar muita saúde política aos governos, provavelmente o maior sinal de alerta para o PS é a incapacidade que revela em marcar a agenda política. No discurso de Mangualde, Sócrates esforçou-se por lembrar a agenda do Governo. Infelizmente, e como já vem sendo hábito, dessa agenda pouco ficou na memória - e isto diz muito da capacidade de mobilização e liderança de que o Executivo goza nesta fase. Longe vão os tempos em que se discutia as políticas de educação de Maria de Lurdes Rodrigues, a reforma da segurança social de Vieira da Silva e as mudanças na saúde de Correia de Campos. E, nesta fase, era mais de iniciativas políticas do que de crises políticas que o país precisava."
do meu último (e também derradeiro) artigo no Económico.
sábado, 21 de agosto de 2010
Uma presidência falhada?
Não foi certamente este o final de mandato com que Cavaco Silva sonhou. Quando regressar de férias encontrará a justiça numa situação insustentável, para utilizar uma expressão que lhe é cara. E convém lembrar que o Presidente é o supremo magistrado da nação, a quem compete nomear, por exemplo, o procurador-geral da República. O desemprego, por outro lado, mantém-se elevado e o abrandamento do ritmo de crescimento económico já reflecte os efeitos das medidas de austeridade. Ora este presidente candidatou-se com base nas suas credenciais de economista e prometeu uma concertação estratégica com o governo. Como se não bastasse, apesar de oriundo do centro-direita, Cavaco não parece ter neste momento qualquer influência nas direcções do PSD e do CDS, que já falam abertamente de eleições antecipadas e preferiam outro candidato. Entretanto, há dúvidas sobre se a incerteza quanto à viabilização do próximo Orçamento de Estado desagrada mais a Cavaco ou aos mercados. O Presidente tem portanto dois meses para mostrar o que vale. E não pode dizer que não tem competências em matéria de justiça ou política económica e parlamentar. Mesmo que seja em parte verdade, ao reconhecê-lo estaria a diminuir o cargo em véspera de eleições. Cavaco vai ter de assegurar alguma ordem no sector da justiça. Vai ter de garantir que o Orçamento passa com uma maioria PS e PSD, numa linha contraditória com a do seu principal adversário. E vai ter de evitar que às dificuldades económicas se junte uma crise política. O caos na justiça, a instabilidade orçamental e uma crise política seriam as marcas de uma presidência falhada.
publicado hoje no i.
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sexta-feira, 20 de agosto de 2010
O regresso do Pontal
Mendes Bota acha que Passos Coelho está numa posição privilegiada para “perceber o povo”, afinal “vive em Massamá» e não num “condomínio fechado”. A frase não deve ser vista como um dislate do dirigente do PSD no Pontal. Foi resultado da esperteza saloia que já se anunciava na última edição do Expresso: “da estratégia do PSD faz parte mostrar o novo líder como o português comum que passa férias na recatada vila de Manta Rota, por contraste com o primeiro-ministro no luxo do Pine Cliffs”. Sabemos que a anterior tentativa de demarcação com o PS - a revisão constitucional - não correu nada bem ao PSD. Passos deixou-se associar à privatização dos serviços públicos e à flexibilização dos despedimentos, e os efeitos tornaram-se visíveis nas sondagens. Para virar a página e voltar a sintonizar o líder com a classe média, não ocorreu aos estrategas do PSD nada melhor do que um contraste com as férias de Sócrates. Mas este regresso do PSD ao Pontal foi um regresso fora de tempo ao pior do cavaquismo, quando o homem do leme exibia a sua vivenda e justificava a ausência de currículo antifascista com o facto de não ter nascido em berço de ouro. Com um Governo sem rumo, uma situação económica e social dramática e sem que se perceba como é que vamos ter orçamento para 2011, não deixa de ser significativo que o que o PSD tenha para oferecer seja uma ameaça de crise política combinada com uma discussão sobre as férias do primeiro-ministro e a freguesia onde vive o líder da oposição. É bem o espelho do pântano para onde estamos a caminhar. Quando a classe política der por isso, já os portugueses tiraram definitivamente férias da política. Em Massamá, no Pine Cliffs ou em Manta Rota. Pouco importa.
publicado hoje no i.
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terça-feira, 17 de agosto de 2010
Sexta-feira voltam as ondas

A solidez da terra seca, monótona,
parece-nos fraca ilusão.
Queremos a solidão do grande mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.
Queremos sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados, uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo.
Cecília Meireles
sábado, 14 de agosto de 2010
Léxico Familiar
O disco novo dos Walkmen chama-se Lisbon e a primeira música a fazer o circuito dos late night shows chama-se Angela Surf City. Tudo muito cá de casa, portanto.
Uma estratégia possível
As últimas sondagens dão a Cavaco Silva uma vantagem suficiente para ganhar à primeira volta. A candidatura de Manuel Alegre tem um problema sério e o estado de espírito na esquerda resume-se a esperar para ver. Alegre tem de fazer qualquer coisa para inverter esta tendência: o pior que lhe podia acontecer era ficar numa espécie de meio caminho que, sem desagradar nem ao PS nem ao BE, acabará por não mobilizar ninguém. Não por acaso, o seu melhor momento até agora esteve na tentativa de associar Cavaco, o economista empenhado na cooperação estratégica, à situação económica do país. Anteontem, ao reler para o i o "III Fares the Land" de Tony Judt, lembrei-me da candidatura de Alegre. O livro anuncia uma estratégia eleitoral possível. Manuel Alegre representa a mesma social- -democracia de Judt, demasiado presa ao modelo social vigente nos 30 gloriosos anos do pós- -guerra, que, além do mais e infelizmente, nunca passaram por Portugal. Uma estratégia que, como programa de governo, não serve, desde logo porque abdica de qualquer visão modernizadora. Mas, tratando--se de eleições presidenciais, talvez esta retórica nostálgica não seja vista como uma ameaça excessiva pelo que resta da esquerda moderna de Sócrates. Num momento em que as pessoas olham para o futuro com desconfiança e vêem o seu estilo de vida ameaçado - a "era de insegurança" de que fala Judt -, uma plataforma política conservadora e de resistência às transformações e aos ajustamentos será pouco realista e inconsequente mas poderá, apesar de tudo, ter alguma força eleitoral, permitindo descolar dos actuais 20%.
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Um legado com futuro?
Morreu no fim-de-semana o notável historiador Tony Judt (são imperdíveis as suas crónicas autobiográficas que o New York Review of Books disponibiliza online). Consciente da sua curta esperança de vida, quis deixar "Ill Fares the Land" como testemunho social-democrata. O principal problema do livro reside aqui. A social-democracia que Judt defende nada tem a ver, por exemplo, com a de Donald Sassoon, que nos mostra um movimento marcado por sucessivos processos de modernização e que sempre soube distinguir os valores dos instrumentos que ao longo do tempo os concretizam. A social-democracia de Judt é rígida e parece ter atingido um estado de perfeição nos 30 anos do pós-guerra que deve ser defendido a todo o custo: "Abandonar os esforços de um século é trair aqueles que nos antecederam bem como os que estão por vir." O Estado Providência está hoje confrontado com conhecidos desafios estruturais, de natureza económica e demográfica. Para Judt, é como se tudo se resumisse a uma questão de discurso, a um problema que pode ser ultrapassado num plano estritamente ideológico. Infelizmente, para a sustentabilidade do Estado Providência, tão perigosas como as receitas neoliberais são as posições imobilistas. "Ill Fares the Land", um testemunho pensado para os jovens, bem podia ser um manifesto eleitoral de sucesso para os mais velhos. Tocqueville, que Judt lembra numa das muitas (e boas) epígrafes, parece mais actual do que nunca: "Não posso deixar de temer que as pessoas cheguem a um ponto em que vêem qualquer nova teoria como um perigo, qualquer inovação como um problema [...] e que possam recusar qualquer movimento."
publicado hoje no i.
publicado hoje no i.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
O legado bolchevique
(...) O regresso à linha ortodoxa, representada por Jerónimo de Sousa e preparada na sombra pelos velhos (e novos) bolcheviques, só tem servido para resistir, tirando ao PCP qualquer hipótese de crescimento, mesmo em anos de governação socialista. Quem tem aproveitado é o Bloco de Esquerda. Ao contrário do que sugeria Carvalho da Silva numa entrevista ao Sol, não é tanto a falta de um PS social-democrata que tem impedido o diálogo entre a esquerda portuguesa. Como bem sabe o líder da CGTP, é justamente neste regresso do PCP à ortodoxia e na sua competição fratricida com o BE que tem residido o principal bloqueio do sistema partidário português.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Um tipo exemplar
“Today I’m regarded outside New York University as a looney-tunes leftie self-hating Jewish communist; inside the university I’m regarded as a typical old-fashioned white male liberal elitist,” he told The Guardian of London in January 2010. “I like that. I’m on the edge of both, it makes me feel comfortable.”
o resto do obituário, aqui.
o resto do obituário, aqui.
domingo, 8 de agosto de 2010
The talented
"In my generation we thought of ourselves as both radical and members of an elite. If this sounds incoherent, it is the incoherence of a certain liberal descent that we intuitively imbibed over the course of our college years. It is the incoherence of the patrician Keynes establishing the Royal Ballet and the Arts Council for the greater good of everyone, but ensuring that they were run by the cognoscenti. It is the incoherence of meritocracy: giving everyone a chance and then privileging the talented. It was the incoherence of my King’s and I was fortunate to have experienced it."
O Tony Judt escrevia os únicos textos longos que eu era capaz de ler online. O último foi este e percebe-se bem o que é ter talento.
O Tony Judt escrevia os únicos textos longos que eu era capaz de ler online. O último foi este e percebe-se bem o que é ter talento.
sábado, 7 de agosto de 2010
Tudo por explicar
Esta semana entrou no Tejo o Tridente. O ministro e o chefe da Armada estavam de férias. A chegada foi discreta, como não podia deixar de ser: os submarinos queimam. O que só serve para demonstrar como neste processo nada correu bem. Em primeiro lugar, a oportunidade. Afinal, são mil milhões a entrar nos défices dos próximos dois anos. Nada de especial, por exemplo, para o almirante Vieira Matias, que veio lamentar que não tenham vindo quatro submarinos. Mas as dúvidas adensam-se também em relação ao processo administrativo: a escolha do consórcio; as regras que se alteraram a meio do jogo; a fraca execução das contrapartidas; a posição de fragilidade em que o Estado se pôs; o enigmático papel dos consultores. Nada é claro. Esta intriga tem, no entanto, deixado para segundo plano a discussão de uma questão não menos relevante: a de saber se Portugal necessitava de renovar, com esta urgência e nível de investimento, a sua capacidade submarina. Na devida altura, Ana Gomes revelou publicamente a existência de documentos da NATO que punham fortes reservas sobre a utilidade desta aquisição. Que "interesse nacional" é esse que se manifesta em contradição com o quadro de alianças em que Portugal se insere? Argumenta-se com a utilidade submarina na "vigilância costeira". Mas não haverá outros navios mais vocacionados para essas missões? Recentemente também surgiram notícias dando conta da redução das frotas submarinas em países da UE e da NATO. Neste caso, como infelizmente noutras aquisições militares, está ainda tudo por explicar.
publicado no i.
publicado no i.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Um país, três rainhas

A revisão constitucional e a campanha presidencial já têm assunto: a organização do Ministério Público. Pinto Monteiro foi certeiro. É preciso que o poder político decida se quer um MP autónomo mas hierarquizado ou se prefere o "actual simulacro de hierarquia, em que o PGR tem os poderes da rainha de Inglaterra".
Na verdade, para além do procurador, há mais duas rainhas de Inglaterra no sistema: o Presidente da República, supremo magistrado da nação, a quem compete nomear o PGR, e o próprio ministro da Justiça, que não pode ser responsabilizado pelos resultados de um sistema que, aos olhos dos cidadãos, tutela.
O que vigora é aquilo a que, há um par de anos, o próprio PGR apelidou de sistema de "duques, marquesas e valetes". A face mais visível deste poder feudal é o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, que anteontem nos brindou com mais um comunicado que só veio dar razão àqueles que, como Jorge Miranda, defendem a proibição constitucional de os magistrados se organizarem em sindicatos.
Era bom que os principais partidos trocassem, de boa fé, umas ideias sobre este assunto. Para já, o PS podia ter ido mais longe na defesa do reforço da hierarquia no MP, em vez de deixar o PGR isolado. O PCP, já sabemos, não conta para este debate. Mas o PSD há muito devia ter percebido que este estado de coisas só serve para descredibilizar o sistema político no seu todo. Como escreveu esta semana Ferreira Fernandes, a propósito das perguntas que os procuradores não conseguiram fazer a Sócrates, "a minha questão é: e amanhã? Passos ou Ângelo, Jerónimo, Portas ou Louçã, todos terão direito a perguntas que não lhes serão feitas".
publicado hoje no i.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Nobody gets me but you
Só a improvável conversão dos Roots ao Krautrock me faria interromper as férias para passar por aqui. Conclusão: os Spoon movem montanhas.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
sábado, 31 de julho de 2010
Piloto de testes
O proselitismo liberal é a versão actual da vulgata marxista, que esteve muito em voga na passagem dos anos 60 para os 70. Como acontecia com quem então padecia da doença infantil do comunismo, também os nossos liberais tendem a moldar a realidade à sua construção teórica, ao mesmo tempo simples e com resposta para tudo. Ao fazerem-no esquecem, por um lado, a complexidade dos ajustamentos nas políticas públicas e, por outro, o país que realmente existe, feito de portugueses bem diferentes daqueles que conhecem ou projectam. O mantra "menos Estado" tornou-se, aliás, um novo "amanhã que canta", combinando as mesmas doses de optimismo e de normatividade com uma subjugação da realidade aos arquétipos de partida. Mas a realidade tem sempre razão. Talvez tenha sido o choque com a realidade que levou Passos Coelho a dizer, primeiro, que esperava que o PSD não recuasse nas suas insólitas propostas de revisão constitucional (o que, vindo do líder do partido, não deixa de ser estranho) e, já esta semana, que no fundo tudo isto não tinha passado de um teste - imagina-se para ver se o país estava preparado para o receber, devidamente acompanhado da sua doutrina. Há, contudo, um risco. Passos Coelho, que encontrou circunstâncias muito favoráveis para se afirmar politicamente, com um governo frágil e uma situação económica débil, arrisca-se ele próprio a ser apenas mais um piloto de testes, juntando-se à longa lista de líderes do PSD que nunca chegaram a primeiros-ministros.
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sexta-feira, 30 de julho de 2010
O cancro Freeport
Tem sido sugerido que, uma vez conhecida a acusação do processo Freeport, era devido um pedido de desculpas a Sócrates. Se pensarmos no que foram as manchetes dos media nos últimos seis anos, sopradas por "operadores" do sistema de justiça, e na utilização política que foi feita do processo, há boas razões para uma penitência colectiva de muitos jornalistas portugueses, acompanhados por parte significativa da classe política. Mas é um erro olhar para o que se passou como uma questão com Sócrates. No essencial, a presença mediática do processo Freeport nunca foi uma diatribe contra o primeiro-ministro. O que esteve sempre em causa foi bem mais grave: a exposição de um cancro que está a destruir a democracia portuguesa e que resulta da coligação perversa entre péssimas investigações e jornalismo medíocre. Uma coligação que radica numa justiça que compensa a incapacidade de produzir prova com disseminação de pseudo-factos nos media e numa comunicação social que se revela incapaz de avaliar a idoneidade das suas fontes, tomando como válida qualquer informação proveniente do sistema de justiça. Os resultados estão à vista. Uma degradação generalizada da vida pública e um sentimento de total impunidade - que impossibilita que tenhamos certezas quando alguém é condenado, ao mesmo tempo que fica sempre a pairar uma dúvida sobre a inocência de quem algum dia tenha visto o seu nome envolvido num processo. Na verdade, não é a José Sócrates que é devido um pedido de desculpas. É a todos nós, que assistimos impotentes a este cancro que está a degradar a democracia portuguesa.
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quarta-feira, 28 de julho de 2010
terça-feira, 27 de julho de 2010
Não interrompas um erro
"(...)o aspecto mais extraordinário desta proposta, apresentada antes do Verão e a tempo de eclodir em plena pré-campanha presidencial, são as oportunidades que Passos criou aos seus adversários políticos. Numa altura em que o Governo se encontrava em manifestas dificuldades, Sócrates passou a ter uma oportunidade para fazer uma afirmação ideológica com a qual nem o próprio sonhava; e quando Portas se encontrava encostado às cordas, por força do crescimento do PSD, pôde voltar a vestir o fato de homem de Estado e revelar razoabilidade. No fundo, a Sócrates e a Portas resta fazer o que Passos Coelho não conseguiu: seguir a velha máxima de Napoleão que aconselhava a nunca interromper um inimigo quando ele está a cometer um erro."
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
domingo, 25 de julho de 2010
sábado, 24 de julho de 2010
Passos e Cavaco: uma luta diferente
Há quem diga que as questões afectivas tendem a ser desvalorizadas quando se analisa a política. É provavelmente verdade. Basta pensar na proposta de revisão constitucional apresentada por Passos Coelho. Tem sido dito que representa um ataque ao código genético do regime, pondo em causa os seus alicerces (o ataque descabelado ao Estado Social), ao mesmo tempo que promove instabilidade política (ao mexer inoportunamente no equilíbrio de poderes). Se procurarmos alguma racionalidade nas propostas de Passos, faz sentido olhar para elas assim. Mas talvez valha a pena pôr a razão de lado. Cada semana que passa, mais me convenço que o inimigo de Passos não é o povo (através do fim da gratuitidade no acesso à educação e à saúde), nem sequer Sócrates. Não é segredo que Ca-vaco não morre de amores por Passos - no que é retribuído. Ora se olharmos para as últimas iniciativas do PSD, começa a ficar claro que, no fundo, podem não passar de um acerto de contas com Cavaco. Primeiro foi o tema da acumulação de pensões, em que o PSD obrigou Cavaco a justificar a sua posição, enquanto se envolvia numa enorme trapalhada sobre o que estava em causa; depois a ameaça de chumbo do OE, que poderá ocorrer em plena campanha presidencial - a última coisa que Cavaco deseja; esta semana chegou a alteração dos poderes presidenciais, causando natural desconforto ao Presidente em exercício que mais de uma vez se confessou confortável com os actuais poderes. Mas, já que estamos no domínio da emoção, não sei porquê, parece-me que este frenesim de iniciativas acabará por trazer mais problemas a Passos do que a Cavaco.
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sexta-feira, 23 de julho de 2010
A TINA precisa de amigos

A TINA (There is no alternative) é uma rapariga incompreendida. Mas hoje o que nos resta é a TINA e ela precisa de amigos. Ainda na semana passada, Paulo Portas lhe quis fazer um arranjinho. Acontece que a TINA, rapariga avisada, sabe que as relações a três, mesmo que escondam um secreto fascínio, tendem a não acabar bem. O que a TINA precisava mesmo era de uma relação previsível, de um ambiente estável que lhe desse tranquilidade durante uns quantos anos. Se isso acontecesse, a TINA estaria disposta a sair de cena daqui a uns tempos, deixando o campo aberto para que todos pudessem escolher uma rapariga à sua medida. Mas a TINA teme que isso não aconteça. Inveja, por isso, as relações que vai conhecendo na Europa, onde os partidos se juntam, com documento escrito e assinado. Por cá, ela tem pouca esperança de que algo semelhante aconteça. Esta semana, aliás, ficou muito preocupada quando percebeu que Passos Coelho, rapaz com quem até dançaria um tango, afinal estava mais preocupado com os poderes do Presidente e do Parlamento. A TINA sabe que ninguém gosta que lhe seja dito que não há alternativa e que pouco resta a fazer além de um conjunto de cortes que vão deprimir ainda mais a economia. A esses, a TINA diz, e com justiça, que se vão queixar à Europa que há um ano e pouco não anda a tratar nada bem dos seus. A questão é que a TINA também sabe que hoje a única alternativa à sua presença é o caos financeiro, económico e social. E a TINA está consciente de que, se não lhe encontrarem parceiros fiéis, a alternativa vai ser mesmo essa. Só nessa altura, os que hoje a desprezam lhe saberão reconhecer valor.
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quinta-feira, 22 de julho de 2010
Barely Legal
é impossível encontrar um texto sobre os Avi Buffalo que não comece logo por referir a idade de Avigdor Zahner-Isenberg (como se vê, não é só no West Side Soweto que imperam os judeus a fazer rock'n'roll). o rapaz Avi começou a fazer músicas no fim do liceu e tudo aconteceu antes de completar vinte anos (assinou pela sub-pop e o resto é mais ou menos (des)conhecido). o disco é mesmo bom para o (meu) verão, mas o que me inquieta mais não é a idade hoje, mas, sim, o que acontecerá a alguém que com esta idade já faz música assim. Será possível envelhecer e continuar a fazer músicas que soam velhas e novas ao mesmo tempo?
Only fools rush in
Um tipo que está aí para provar que o talento resiste a tudo (ou a quase tudo), uma música antiga, que me faz regressar mais uma vez a um disco ao qual estou sempre a regressar, em versão assombrosa, e um festival sem calor, sem pó e com raparigas que dançam escandinavamente. (o resto pode ser visto aqui)
sábado, 17 de julho de 2010
Uma questão de timing
No debate do Estado da Nação, José Sócrates cavalgou os dados sobre a pobreza revelados nesse mesmo dia. Tem boas razões para o fazer. Há muito que se esperava que a pobreza diminuísse entre 2005 e 2008 e o INE veio prová-lo. É a confirmação de que as políticas fazem a diferença. O efeito combinado dos aumentos do salário mínimo, da diferenciação das prestações familiares e do complemento solidário para idosos aliviou a situação dos mais desfavorecidos. Contudo, estes factos colidem com o que foi a realidade política do período a que os dados dizem respeito. Não é preciso procurar muito para encontrar declarações dos vários líderes políticos a afirmarem que “a pobreza está a aumentar em Portugal”. Contra todas as evidências, Passos Coelho foi o último intérprete desta linhagem, tendo afirmado esta semana que “hoje temos três vezes mais pobres que há 15 anos”. Ou seja, os dados do INE vieram revelar que há mesmo muita gente em Portugal com um problema profundo de relação com a realidade. A questão é que os dados reportam a 2008, mas são utilizados politicamente hoje. E do mesmo modo que, contra tudo o que se afirmava na altura, era manifesto que a pobreza não podia estar a aumentar em Portugal, também hoje há sinais de que a pobreza está a aumentar em 2010 - consequência do aumento do desemprego, da tendência para a diminuição do número de desempregados protegidos e das novas escalas de equivalência, que diminuirão em muito o rendimento das famílias mais pobres. O que serve para demonstrar que, em política, os factos são quase tudo, mas o timing também. E a relação com a realidade depende da capacidade para alinhar com os dados, no momento certo.
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sexta-feira, 16 de julho de 2010
Esquizofrenia múltipla
A política portuguesa vive num estado de esquizofrenia múltipla, em choque permanente com a realidade. O debate do estado da nação apenas tornou a síndrome mais visível. A situação singular em que nos encontramos, com o único governo de maioria relativa da Europa, serve para revelar como a crise política estará sempre à espreita, como um vírus oportunista, e é o primeiro dos sintomas de esquizofrenia. Depois temos um governo que tinha um discurso eleitoral e que de facto foi obrigado a abandoná-lo para fazer exactamente o contrário do que propunha como resposta à crise (do investimento aos pacotes de estímulo à economia e ao emprego). Como se não bastasse, o governo precisou do PSD para viabilizar as medidas de austeridade e, quando houver uma moção de censura do CDS, dependerá do apoio do BE e do PCP. No mínimo confuso. Finalmente, temos um Presidente que alterna entre um discurso vago sobre a insustentabilidade da nossa situação orçamental e a necessidade de mais respostas sociais, mas que, de facto, desistiu de promover quer esforços concretos para disciplinar as contas públicas (quando retirou o apoio a Correia de Campos), quer mecanismos que permitam proteger mais os "novos pobres" (a oposição ao novo Código Contributivo). Com tantos níveis de esquizofrenia, resta uma certeza: vamos ter uma séria crise política a somar à crise económica e social. A única questão é saber quando. Por uma vez, talvez não fosse má ideia alinhar a experiência interna da política com a realidade e agir preventivamente, procurando uma solução política estável e, não menos importante, previsível.
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quinta-feira, 15 de julho de 2010
quarta-feira, 14 de julho de 2010
terça-feira, 13 de julho de 2010
Demasiado distantes
"(...) todas as políticas precisam de aliados e a política educativa encontrou, no passado recente, fortes aliados nas associações de pais e nos directores de escolas. Aliás, o novo modelo de gestão, como quase todas as reformas relevantes dos últimos tempos, foi aprovado com a oposição dos sindicatos de professores (cuja agenda é invariavelmente centrada em questões de carreiras ou salariais, ao mesmo tempo que secundariza o que tem a ver com a escola e os alunos). Ora a criação destes mega-agrupamentos tem também um outro efeito: aliena os principais aliados da política educativa recente, sem que crie novos.
O que está em causa é, de facto, um bom princípio: agrupar escolas. Mas os bons princípios, para serem postos em prática, precisam de tempo, de aliados e não ganham nada com a definição de muitas regras que, soando bem na lei, tendem a chocar com a realidade. Uma asserção que é válida para todas as políticas públicas e que encontra no processo de agrupamento de escolas agora iniciado um mau exemplo."
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
O que está em causa é, de facto, um bom princípio: agrupar escolas. Mas os bons princípios, para serem postos em prática, precisam de tempo, de aliados e não ganham nada com a definição de muitas regras que, soando bem na lei, tendem a chocar com a realidade. Uma asserção que é válida para todas as políticas públicas e que encontra no processo de agrupamento de escolas agora iniciado um mau exemplo."
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Afinal a culpa não é das Lisbon sisters

"We took two trips to Lisbon over the course of writing this record," Leithauser adds. "None of us had ever been there, and we were really blown away by the place. The topography and architecture are stunningly handsome. Even when we were there for the rainy season — it literally never stopped raining — it was a trip that outshone a lot of others. We've never had much luck at all in Europe, and the Portuguese were surprisingly accommodating. I think those two trips really helped keep us motivated while making this record. We named the record Lisbon as sort of a 'thank you' and a small tribute."
daqui, onde já se pode ir ouvindo um tema de Lisbon, o novo disco dos Walkmen.
we went dutch, dutch, dutch,dutch
era nisto que o Stephen Malkmus estava a pensar quando, há uns doze anos, escreveu o Shady Lane.
sábado, 10 de julho de 2010
A vingança de Telê

Vivemos agarrados aos nossos mitos fundadores e o futebol não é excepção. Eu sei exactamente quando comecei a gostar de futebol: em 1982, com a avalanche ofensiva da selecção brasileira de Zico, Sócrates, Falcão, Júnior e Cerezzo, comandada por um treinador, dizia-se, excessivamente atacante, Telê Santana. Jogaram como nunca e pelo caminho perderam face ao cinismo da Itália. Foi a minha primeira paixão e também o meu primeiro desgosto. A partir daí, nunca mais se viu nada assim em mundiais. Em parte, é isso que explica o mantra tantas vezes repetido, que nos convence que os mundiais já não são como eram. Pois o Mundial que amanhã termina foi bem melhor que os anteriores. Quem gosta de futebol pode deixar-se fascinar por equipas ganhadoras com pouca posse de bola (as equipas de Mourinho), mas o deslumbramento só chega mesmo com o futebol atacante, enredado em passes curtos, que nos devolve a um romantismo que é, ao mesmo tempo, ingénuo e infantil. O futebol do "escrete" de 1982 é a minha medida e foi preciso chegar a 2010 para ver na final de um Mundial duas equipas dominadoras, quase sem réstia de cinismo. Entre a posse de bola e a vontade de atacar da Holanda e o "tiki-taka" ofuscante que a Espanha pediu emprestado ao Barcelona, e que o Barcelona importou da Holanda com Cruijff, haverá amanhã uma garantia: ganhe quem ganhar, eu poderei de facto regressar à minha infância e o Telê Santana será finalmente vingado. Não mais se poderá dizer que para ganhar um Mundial é preciso esperar pelo adversário, jogar em contenção e só depois arriscar partir para o contra-ataque. Na África do Sul, o futebol voltou a proteger os audazes.
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sexta-feira, 9 de julho de 2010
A caixa de Pandora das SCUTS
O meu comentário sobre as Scuts e o que elas revelam sobre a política portuguesa na TVI24 (e também sobre o negócio Telefónica/PT e ainda sobre os agrupamentos escolares).
A questão política e ideológica
Para Durão Barroso, não há nada de ideológico nem de político na proibição de golden shares. Trata-se de uma questão jurídica. Claro que é uma questão jurídica, mas é também evidente que não é. Os Tratados vinculam os Estados-membros e era previsível que o Tribunal de Justiça Europeu decidisse pela ilegalidade das acções com direitos especiais na PT, por violação do princípio da livre circulação de capitais. Mas o direito é também um reflexo de opções ideológicas e políticas e não uma codificação de escolhas neutras. E a decisão de impedir os Estados de formalmente deterem direitos especiais em empresas de sectores estratégicos é tudo menos neutra. Serve, aliás, para revelar como a Europa optou por evitar confrontar-se com os problemas do edifício regulatório que estava a construir. Hoje, os Estados têm menos direitos que o mercado e, consequentemente, os poderes políticos nacionais encontram-se feridos de morte, sem que exista uma entidade europeia que desempenhe as funções que no passado cabiam ao Estado. Em muitos aspectos, a solução é boa: os mercados criam riqueza e geram competição; o problema são os sectores estratégicos (dos recursos naturais às telecomunicações). Aí, não podemos esperar que o interesse nacional seja a soma de interesses privados, mesmo que racionais. O bem comum precisa de mercados livres, mas, como provam muitos exemplos pela Europa fora, requer também uma dose de proteccionismo. A menos que a Europa passe a desempenhar a função protectora que no passado desempenharam os Estados-nação. No fundo, a questão política e ideológica que não tem sido debatida.
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quinta-feira, 8 de julho de 2010
O fim da minha primeira rádio
Quando me perguntam o que mais gosto de fazer na comunicação social, não hesito: rádio. Não vale a pena repetir os conhecidos chavões, mas a rádio é mesmo especial. Desde logo porque, ao contrário do que acontece na TV – onde as pessoas no essencial vêem-nos – ou nos jornais – onde há cada vez menos gente que de facto lê o que se escreve –, na rádio somos mesmo escutados. Hoje aconteceu o que estava escrito há bastante tempo. O Rádio Clube fechou e agora não vale a pena discutir sobre o que correu mal. Foi no Rádio Clube que me estreei na rádio e, durante mais de dois anos, por lá fiz de tudo um pouco: comentário político diário, entrevistas e também um programa de música (talvez de todas as coisas que fiz na comunicação social, a que me deu maior satisfação). Foi, também por isso, a redacção onde estive mais embedded e só guardo boas recordações da estação. Aliás, também nas redacções as rádios parecem ser diferentes dos outros media, com uma relação que é única entre jornalistas, animadores e técnicos de som. O pouco que sei sobre como se fala na rádio, foi lá que comecei a aprender, pelo que é com tristeza que sei do fim do Rádio Clube, mas, acima de tudo, é com tristeza que sei que haverá um conjunto de pessoas, nas quais vi sempre muito empenho, competência e talento, que estarão numa situação bem difícil. É para eles o meu abraço.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Determinismo sociológico
Mesmo com todo este calor, a minha escolha vai para tipos que usam camisas - e tudo o resto - assim. (o que me recorda que alguém devia fazer um filme desta música)
segunda-feira, 5 de julho de 2010
domingo, 4 de julho de 2010
O maior gajo do mundo agora passou a ser este

Um tipo como os que havia no futebol antigamente e além do mais tem o melhor dos nomes próprios.
sábado, 3 de julho de 2010
Fazer a diferença
"Depois de mim virá quem de mim bom fará." A asserção é particularmente verdadeira quando falamos da política portuguesa. É sabido que um ministro impopular, que tenha revelado coragem para enfrentar os interesses da sua área de actuação, será tão vilipendiado enquanto estiver no poder, como elogiado assim que o deixar. De Leonor Beleza a Correia de Campos, há muitos exemplos de ministros muito impopulares que, uma vez feitos ex-minis- tros, passaram a ser exemplos a seguir, o que diz muito sobre as condições políticas efectivas para reformar as políticas públicas. Maria de Lurdes Rodrigues é talvez um dos exemplos mais acabados desta tendência. Seis meses após ter saído do governo, o que era ontem a sua marca mais distintiva - a incapacidade negocial - desapareceu, para ser agora ocupada por uma nova qualidade - coragem política. Muitas das vezes toma-se por reforma uma medida que desencadeie contestação política e social. Mas o que distingue uma reforma é, acima de tudo, a irreversibilidade. No fundo, para parafrasear o título do livro lançado este semana por Maria de Lurdes Rodrigues, a irreversibilidade é que "pode fazer a diferença". E o legado da ex-ministra da Educação fez certamente a diferença na defesa da escola pública. Por muita contestação que tenha havido, uma coisa é certa: não regressaremos a um tempo em que não havia escola a tempo inteiro, nem aulas de substituição ou em que os professores não eram avaliados e, de facto, não havia diferenciação na progressão na carreira ou existia complacência com o défice de certificação escolar dos adultos. O que fará a diferença é que os próximos governos não revogarão estes progressos.
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sexta-feira, 2 de julho de 2010
O desemprego mensal
A propósito do que hoje se foi dizendo sobre os dados mensais do Eurostat (que na verdade não existem), o que me ocorre dizer é isto.
Puxar da pistola
Há um par de anos, um grupo de empresários portugueses lançou um movimento para defender os centros de decisão nacionais. Ricardo Salgado, por exemplo, aquando da OPA do BCP ao BPI, e a propósito do papel do banco espanhol La Caixa, afirmava que o BES "está sempre pronto a colaborar no que se refere à construção de uma solução nacional de oposição a eventuais take overs hostis de estrangeiros". Depois do que se passou na quarta-feira, com a disponibilidade revelada por alguns desses mesmos empresários para enviar a PT para as distritais do campeonato mundial das telecomunicações, fica aqui uma promessa: da próxima vez que me falarem em centros de decisão nacionais "puxo logo da pistola". A questão é suficientemente séria. O que está em causa não é a sustentabilidade das contas públicas, é a sustentabilidade do estado-nação, que depende da existência de empresas nacionais internacionalizadas como a PT. E o que fica provado é que não há ninguém com capacidade para defender os interesses do país. É sabido que o mercado é a soma de um conjunto de acções racionais individuais que não resultam necessariamente numa opção estratégica racional. No caso da oferta pela Vivo, é de facto racional para os accionistas privados, a precisarem de liquidez, vender à Telefónica. Mas a consequência desta soma de acções individuais é só uma: amputar a manutenção da PT como empresa com escala e dimensão. O Estado pode usar a golden share para bloquear o negócio, mas o mais provável é a opção ser ineficaz. No fundo, a situação do país é mesmo insustentável: com empresários a apostarem no curto prazo e a desprezarem o interesse estratégico e um Estado frágil, que age com uma ilusão de poder que já não tem, podemos mesmo estar condenados.
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quarta-feira, 30 de junho de 2010
Tacuara resolve

Larissa Riquelme, por esta altura não há ninguém minimamente desperto para o mundo que não saiba quem é (mas, sim, a primeira pessoa que sinalizou o fenómeno foi o Manel), promete despir-se se o Paraguai passar às meias-finais. Eis um trabalho para o Tacuara.
terça-feira, 29 de junho de 2010
Águia de ouro
O Panda Bear vai ter disco novo lá para o Outono. O António Manuel Ribeiro que se cuide: uma das músicas vai chamar-se Benfica.
Uma relação insustentável
"(...) O mais dramático é que Sócrates tem razão quando diz que o dever de um primeiro-ministro é puxar pelas energias positivas do país e Cavaco tem razão quando diz que a situação das nossas contas públicas é insustentável. Mas uma coisa são as proclamações retóricas, outra, bem diferente, é o contributo que de facto a relação Belém/São Bento dá para enfrentar os problemas do país. E se não precisamos de uma gestão excessivamente optimista das expectativas, também não serve de nada um pessimismo militante.
Não está de facto no ‘site' de Belém, mas, no essencial, a cooperação estratégica entre Presidência e Executivo pressupunha uma convergência, quer quanto aos objectivos políticos para o país, quer quanto aos meios para os alcançar. E é aí que se joga de facto a sustentabilidade das políticas públicas.
Ora, o essencial da nossa despesa pública é muito rígido e concentra-se em áreas onde é complexo fazer reformas: salários, prestações sociais, despesas com saúde e educação. E nessas áreas não precisamos de proclamações retóricas, mas sim de disciplina concreta. A este propósito, convém não esquecer que o esforço de Correia de Campos para conter o crescimento da despesa na saúde não encontrou cooperação em Belém (aliás, bem pelo contrário) e o de Maria de Lurdes Rodrigues para diferenciar o crescimento salarial dos professores foi entretanto suspenso, com um silêncio complacente do Presidente. O que só prova que há uma grande diferença entre falar de sustentabilidade e cooperar para a sustentabilidade."
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excerto do meu artigo de hoje no DE.
Não está de facto no ‘site' de Belém, mas, no essencial, a cooperação estratégica entre Presidência e Executivo pressupunha uma convergência, quer quanto aos objectivos políticos para o país, quer quanto aos meios para os alcançar. E é aí que se joga de facto a sustentabilidade das políticas públicas.
Ora, o essencial da nossa despesa pública é muito rígido e concentra-se em áreas onde é complexo fazer reformas: salários, prestações sociais, despesas com saúde e educação. E nessas áreas não precisamos de proclamações retóricas, mas sim de disciplina concreta. A este propósito, convém não esquecer que o esforço de Correia de Campos para conter o crescimento da despesa na saúde não encontrou cooperação em Belém (aliás, bem pelo contrário) e o de Maria de Lurdes Rodrigues para diferenciar o crescimento salarial dos professores foi entretanto suspenso, com um silêncio complacente do Presidente. O que só prova que há uma grande diferença entre falar de sustentabilidade e cooperar para a sustentabilidade."
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excerto do meu artigo de hoje no DE.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Derrotar a Alemanha

Estou a chegar àquela fase dos mundiais em que tenho uma prioridade: concentrar-me na derrota da Alemanha. Este ano, como se fossem necessários mais contributos, há uma razão adicional para que isso aconteça. As roupas à "foda-se" que os gajos que estão no banco usam.
sábado, 26 de junho de 2010
Democracia ferida de morte
“O país é governado por uma coligação de procuradores e jornais”, afirmou esta semana Henrique Granadeiro em entrevista ao Jornal de Negócios. Temo que “governado” não seja o termo adequado. Seria mais correcto dizer que o país se vai tornar progressivamente ingovernável por força de uma coligação entre péssimas investigações e jornalismo tablóide. Não são só os desequilíbrios orçamentais, a nossa situação política é também insustentável porque a justiça, nos processos mediáticos, compensa frequentemente a sua incapacidade de produzir prova com a disseminação de informação falsa e a conta-gotas em órgãos de comunicação que se têm prestado a essa função. Com consequências: fica sempre a pairar uma nuvem de suspeição sobre todos – inocentes e culpados – combinada com uma total incapacidade de apurar a verdade. Se, por um lado, ser político passou a ser uma profissão de risco, por outro a imagem dos agentes da justiça deteriorou-se a um ritmo só comparável com a dos políticos. Deveria ser uma prioridade quebrar a espinha a esta coligação indomável entre alguns procuradores incompetentes e péssimos jornalistas que está a ferir de morte a democracia. Mas é duvidoso que tal seja possível. A classe política não o pode fazer pois não só nenhum partido está imune a processos mediáticos, como os políticos se degradaram progressivamente. Resta uma possibilidade. Um Presidente da República que use a sua gravitas para liderar este combate, até porque esta missão é a única relevante que resta a um chefe de Estado. Mas também aqui é escusado depositar quaisquer expectativas. Tanto o Presidente como os candidatos que se perfilam, para além de nunca terem relevado vontade política nesse sentido, têm sido complacentes com o desvario justicialista acomodado pelos media.
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Com dedicatória
no concerto que os Spoon deram na aula magna há uns anos, o Britt Daniel dedicou esta música à avó.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Uma história exemplar
Há dois anos, os chips das matrículas foram apresentados pelo governo como uma solução virtuosa para todos. Em mais um arremedo de deslumbramento tecnológico, falava-se em "potenciar um cluster na telemática rodoviária", num "aumento da segurança rodoviária", tudo com o objectivo de "fiscalizar veículos e não pessoas". Claro está que o essencial era o não dito. Era necessário criar um mecanismo que permitisse cobrar portagens nas Scut, onde não foram inicialmente construídas praças para o efeito. Dois anos passados, estamos mais ou menos na mesma situação. O governo não conseguiu encontrar uma solução alternativa à obrigatoriedade dos chips e continuamos a aceitar dois princípios insólitos: que é possível existirem auto-estradas sem custos adicionais para os utilizadores e, pior, que é adequado fazer política redistributiva através da rede rodoviária. Para ajudar à festa, enquanto o governo quer monitorizar através de um conjunto de indicadores socioeconómicos as Scut que se devem manter gratuitas, o PSD contrapropõe com isenções para os moradores e agentes económicos das regiões. Entretanto, o PSD a norte e o PS a sul ameaçam com contestação à introdução de portagens, ainda que de intensidades diferentes. Tudo isto serve para revelar que, quando era necessário uma simplificação e racionalização das políticas públicas, caminhamos sempre no sentido da sua complexificação. Que esta complexificação tenha chegado a um domínio aparentemente tão material como o modelo de financiamento das auto-estradas é revelador do monstro que está a ser construído.
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quinta-feira, 24 de junho de 2010
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Uma coligação indomável
Não sei se governado é o termo adequado, mas a afirmação de Granadeiro hoje ao Jornal de Negócios, quando diz que ""o país é governado por uma coligação de procuradores e jornais", corresponde à verdade. A questão é que ou alguém quebra a espinha a essa coligação ou o País pura e simplesmente não poderá ser governado.Temo bem que ninguém tenha a força política para o fazer. O que só servirá para provar que o que torna, de facto, a nossa situação insustentável é esta coligação perversa, mas, acima de tudo, indomável.
Regressos e amiguismo

Eu na verdade nunca regresso nem aos Açores, nem ao Brel. Mas o Nuno fez regressar o Brel aos Açores, para contar a história do encontro e da amizade de Brel com o médico Decq Mota. Entre Quinta e Sábado no São Luiz. Pensando bem, há uma semana que não ouço Brel e não tarda vão passar dois anos desde a última das vezes que estive em São Miguel.
terça-feira, 22 de junho de 2010
segunda-feira, 21 de junho de 2010
The marvellous Coentrão
"The left-back Coentrao, who has been a real threat going forward, beats Cha Jong Hyok drives a dangerous, deflected cross towards the near post where Almeida,
Ronaldo finds the overlapping Coentrao down the left and he drives his cross low towards the six-yard box
The excellent Fabio Coentrao burst into space down the left onto a lovely pass from Tiago and then swung back a perfect cross to Almeida
going forward Coentrao has been a revelation.
The marvellous Coentrao crossed from the left edge of the box ..."
Há pouco disse na TSF que o melhor em campo tinha sido o Coentrão e que podíamos imaginar o que teria sido este jogo com o Carlos Martins. As reacções dos portistas não se fizeram esperar. Nada como um farol da imprensa livre como tira teimas. Estas citações são todas retiradas do relato online do The Guardian.
Ronaldo finds the overlapping Coentrao down the left and he drives his cross low towards the six-yard box
The excellent Fabio Coentrao burst into space down the left onto a lovely pass from Tiago and then swung back a perfect cross to Almeida
going forward Coentrao has been a revelation.
The marvellous Coentrao crossed from the left edge of the box ..."
Há pouco disse na TSF que o melhor em campo tinha sido o Coentrão e que podíamos imaginar o que teria sido este jogo com o Carlos Martins. As reacções dos portistas não se fizeram esperar. Nada como um farol da imprensa livre como tira teimas. Estas citações são todas retiradas do relato online do The Guardian.
sábado, 19 de junho de 2010
Diz que é uma espécie de fetiche
Há um vírus sazonal que nos faz crer que os problemas do nosso mercado de trabalho se resolvem através da flexibilização das relações laborais. De tempos a tempos o vírus volta a atacar e encontra ambiente propício ao desenvolvimento na rigidez formal da nossa legislação. Esta semana foi o PSD a fazer regressar o tema, propondo o fim do limite à renovação dos contratos a termo e diminuindo a sua duração. O problema é a realidade. Portugal tem de facto uma legislação do trabalho comparativamente rígida (ainda que já não tanto como no passado), mas a rigidez formal coexiste com a enorme flexibilidade de facto. Não por acaso, os níveis de precariedade são superiores à média europeia e, mesmo com toda a rigidez, o ritmo de crescimento do desemprego não encontra paralelo na Europa. Hoje, aliás, mais de 80% dos novos vínculos laborais são a prazo, o que não é necessariamente um problema se evoluírem para relações de trabalho sem termo. Mas uma coisa é valorizar a flexibilidade na entrada no mercado de trabalho e outra, bem diferente, é pensar que a flexibilidade deve ser a regra ao longo da carreira ou, pior, que os níveis de regulação do trabalho devem ser mínimos. Tudo isto sugere que em Portugal, como na Europa, a crise está a tornar-se um cavalo de Tróia de uma agenda desregulamentadora. E, convém não esquecer, não foi a rigidez dos mercados de trabalho que fez deflagrar esta crise. Era bom que os nossos problemas se resolvessem, de algum modo, com maior flexibilidade na contratação ou combatendo armadilhas de inactividade, mas, com o desemprego a 10% e a economia deprimida, pensar que se combate o desemprego com uma agenda flexibilizadora não passa de um fetiche.
publicado no i.
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sexta-feira, 18 de junho de 2010
E porque não os idosos?
O velho slogan político exige que os ricos paguem a crise. Mas, para além da retórica, há a realidade e as crises são mais duras para os mais pobres. Esta não é excepção e em Portugal, um país onde as desigualdades são muito marcadas, os mais desfavorecidos serão as principais vítimas. É, por isso, numa altura como esta que mais necessária é uma rede de mínimos sociais eficaz. Desde a primeira versão do PEC sabíamos que o esforço de contenção começaria por onde não deveria - pelas prestações não contributivas, o conjunto de benefícios sociais que protege quem nada mais tem. É verdade que existem muitas irracionalidades nas condições de acesso a estas prestações, que o diploma aprovado esta semana resolve: escalas de equivalência não uniformes; rendimentos relevantes que variam de prestação para prestação e exigências aos beneficiários inconstantes. Mas nada disto é novo. Dirão que nunca é má altura para corrigir o que está errado e aumentar a eficácia das prestações. Certo, mas, politicamente, alterações nestes domínios, nesta altura, sugerem que os nossos desequilíbrios orçamentais resultam de uma generosidade excessiva com a protecção dos mais pobres, o que está longe de ser verdade. Aliás, se assim fosse, o que faria verdadeiramente sentido era uniformizar as condições de recursos para todas as prestações com uma componente não contributiva, à cabeça a pensão social e os complementos sociais das pensões. Se o objectivo é poupar dinheiro, é duro dizê-lo, há muito mais margem para poupança no acesso indevido às pensões não contributivas do que com os "malandros do rendimento mínimo". Se se pretende, e bem, uniformizar as condições de recursos, não há razão para excluir os idosos das novas regras.
publicado hoje no i.
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quinta-feira, 17 de junho de 2010
Só Deus salva

Hoje é mais um dia igual a muitos dos últimos sete anos. Eu, que não sou crente, já só acredito mesmo na justiça divina.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
terça-feira, 15 de junho de 2010
A "crescer"
Os Titus Andronicus aconselham a destruir tudo o que não nos faça parecer mais como o Bruce Springsteen. O conselho é justo e hoje aproveitei uma longa viagem de carro para agir em conformidade e ouvir o primeiro dos três CD ao vivo do Springsteen (1975-1985 Live). É triste, mas já não me recordava da fabulosa versão do Growin' up que nele se ouve, que é superior a todas as que se encontram no youtube (e são muitas). Para quem se recorda, é a de um concerto onde a mãe e a irmã estão entre o público (o melhor mesmo é recuperarem o disco ou comprarem-no, que o dinheiro é muito bem empregue). Mas esta versão, de 1972, revela um Springsteen que nunca tinha visto e que quase ninguém chegou a ver.
Já aqui, vemo-lo maduro e crescido e, ironia, a fazer uma versão dylanesca do tema. Uma coisa eu hoje sei, a Newark que aparece em vários momentos no universo do Roth torna-se muito mais familiar se antes se tiver ouvido tudo isto.
Já aqui, vemo-lo maduro e crescido e, ironia, a fazer uma versão dylanesca do tema. Uma coisa eu hoje sei, a Newark que aparece em vários momentos no universo do Roth torna-se muito mais familiar se antes se tiver ouvido tudo isto.
Demagogia nas pensões
"não se chega a perceber se o que o PSD está a dizer é que não quer pagar pensões acima de um determinado tecto para os actuais pensionistas, para os futuros, para os que agora começam a contribuir, ou se a discussão serve apenas para abrir a porta para a introdução de tectos nos descontos. Das duas uma: ou é mais uma ideia pouco maturada ou é apenas uma tirada demagógica, que serve para iludir o facto de a evolução de um sistema como o nosso para um com tectos nos descontos ter custos de transição que, por si só, o tornam inviável."
do meu artigo no Diário Económico.
do meu artigo no Diário Económico.
domingo, 13 de junho de 2010
Mata e esfola
A campanha presidencial já começou de facto e não vai correr bem ao governo. Há uns dias, Alegre sugeria que o economista da cooperação estratégica não tinha servido para nada. Tem razão. O Professor Doutor de Inglaterra, político não-profissional, que colocou toda a sua sapiência indiscutível ao serviço da pátria, chega ao fim do primeiro mandato com um País económica e financeiramente em pior estado. Não por acaso, e porque sabe que Alegre tocou na ferida que dói eleitoralmente, Cavaco logo se apressou a responder no discurso do 10 de Junho. Primeiro, referiu que não valem a pena "divisões estéreis" (uma versão revisitada da sua velha máxima pessoal, segundo a qual, no fundo, a política não leva a lado nenhum) - e ele bem avisou o que aí vinha. Depois, chamou a atenção para uma verdade insofismável: "quanto mais se exigir do povo, mais o povo exigirá dos que o governam". A leitura é simples: Cavaco coloca-se do lado de fora. Já não era político, agora também não é responsabilizável. Para Alegre a mensagem fica clara: não vale a pena juntar o Presidente à lista dos culpados, que isso da cooperação estratégica acabou com a saída do Dr. Menezes. Estamos assim em Junho. Imaginem depois do Verão. De cada vez que Alegre disser "mata", Cavaco apressar-se-á a dizer "esfola". Sócrates ficará a falar sozinho.
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sexta-feira, 11 de junho de 2010
A suspensão da democracia
Há um ano, Manuela Ferreira Leite, com o tacto político que lhe é reconhecido, aventou a hipótese de se suspender a democracia. Temo dizê-lo, mas o que era uma possibilidade remota passou a ser cada vez mais real. Na semana passada, o Ministro das Finanças descobriu um novo dilema: entre a prioridade aos formalismos legais e a economia. Vai daí, não hesitou em secundarizar as garantias constitucionais, o que não deixa de ser revelador se nos lembrarmos que este Governo tem defendido com unhas e dentes o primado da Lei e do Estado de Direito. A meio da semana foi a vez de um Comissário Europeu demonstrar que a inclinação para suspender a democracia não é um exclusivo nacional e confirmar – como se ainda fosse necessário – que a Europa está completamente louca. Mostrando desconhecimento acerca das reformas entretanto feitas no sistema de pensões ou na regulação do mercado de trabalho, Olli Rehn pronunciou-se, sem qualquer cobertura dos Tratados (lá está, um formalismo que garante a democracia), sobre o que deve estar na agenda política de um Estado-membro. Isto apesar de a Europa se ter sempre sentido inibida, por ausência de competências, para intervir no modo como os Estados-membros regulavam o seu mercado de trabalho ou arquitectavam os seus sistemas de pensões. Agora, no exacto momento em que a construção europeia se está a tornar numa ficção política, assistimos a claras ameaças ao que resta de soberania. Como lembrou Cavaco Silva, “nenhuma entidade exterior pode colocar questões dessas na agenda nacional”. E, já agora, não há um único exemplo histórico de que algum problema se tenha resolvido com suspensão da democracia.
publicado hoje no i.
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quarta-feira, 9 de junho de 2010
Baterista também é músico
não sei porquê, isto parece-me tirado dum concerto no São Luiz aí há não sei quantos anos.
sábado, 5 de junho de 2010
A hegemonia dos duros
Os duros tornaram-se hegemónicos no espaço público. Mas as suas receitas são no essencial preguiçosas. Para uns os males do país resolvem-se cortando salários (em percentagens variáveis) e prestações sociais (para combater os "malandros dos subsídio-dependentes"), para outros tudo se soluciona aumentando a carga fiscal (essencialmente sobre os "malandros de cartola", na caracterização de Francisco Louçã). Os dois caminhos revelam a incapacidade do Estado de lidar com a despesa. Para o governo, é possível cortar salários e aumentar impostos, já racionalizar políticas públicas é invariavelmente mais difícil. Cada tentativa de mudar o que quer que seja choca com a mobilização do coro de descontentamentos locais. Já os que clamam por coragem reformista, quando se fala em fecho de escolas ou maternidades, na diminuição do número de freguesias ou na introdução de critérios para avaliar os professores, aproveitam para se remeter a um comprometedor silêncio. Há, claro, boas razões para que surjam vozes de protesto. Desde logo porque fica sempre a ideia que o que é proposto surge do nada, com pouca partilha prévia da informação em que assentam as decisões. O Estado não consegue racionalizar a própria rede administrativa, mas também não procura criar condições para isso. Com processos de decisão públicos e transparentes talvez fosse possível criar coligações sociais favoráveis à modernização das políticas públicas; com opacidade nas decisões e informação estatística remetida para a penumbra administrativa, estamos condenados a fazer ajustamentos cortando salários, diminuindo prestações sociais ou aumentando a carga fiscal.
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sexta-feira, 4 de junho de 2010
Ser irrealista, exigir o impossível
Ontem, daniel Cohn-Bendit era realista e exigia o impossível; hoje, no Parlamento Europeu, o mesmo "Dany le Rouge" é realista e diz que "não devemos pedir à Grécia o impossível". Num notável discurso em Bruxelas, e em rápidos seis minutos, Cohn-Bendit explicava, há umas semanas, como exigir um exercício de disciplina orçamental violento, assente em cortes brutais sem qualquer expectativa de crescimento económico, é pedir que a Grécia faça uma autêntica quadratura do círculo. O resultado na Grécia, e em todas as economias europeias, só poderá ser uma espiral de desemprego, quebra da receita, mais desequilíbrio orçamental e recessão profunda. O que é pedido à Grécia, como lembrou Cohn-Bendit, é que faça, por exemplo, alterações no seu sistema de pensões que, um pouco por toda a Europa, levaram à queda de governos (em França e em Itália, num passado recente) ou se revelaram politicamente inviáveis. É por isso que, hoje, o perigo grego reside não apenas no risco de contaminação do profundo desequilíbrio orçamental, mas também na ideia de que ajustamentos abruptos são política e socialmente possíveis. Não são. Haver quem pense que vai ser possível ultrapassar a presente crise assim serve apenas para revelar como "a Europa está completamente louca". Que seja preciso Cohn-Bendit para dizer isso, não deixa de ter ironia. Uma ironia só ultrapassada pela forma como, enquanto ouve as palavras do eurodeputado, José Manuel Barroso acena que não, que ele nunca perdeu eleições. Já suspeitávamos.
publicado no i, onde se pode ver o video do Cohn-Bendit, que vi, em primeiro lugar, nos ladrões de bicicletas.
publicado no i, onde se pode ver o video do Cohn-Bendit, que vi, em primeiro lugar, nos ladrões de bicicletas.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Grandes escoceses
Os Teenage fanclub voltaram. Uma banda subvalorizada e que fez, pelo menos, uma das maiores canções de sempre. Até o Nick Hornby concordou comigo.
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Já devia ter explicado isto (ou se calhar não).
"Noi siamo cinque fratelli. Abitiamo in città diverse, alcuni di noi stanno all'estero: e non ci scriviamo spesso. Quando ci incontriamo, possiamo essere, l'uno con l'altro, indifferenti o distratti, ma basta, fra noi, una parola. Basta una parola, una frase: una di quelle frasi antiche, sentite e ripetute infinite volte nella nostra infanzia. Ci basta dire: "Non siamo venuti a Bergamo per fare campagna" o "De cosa spussa l'acido solfidrico", per ritrovare ad un tratto i nostri antichi rapporti, e la nostra infanzia e giovinezza, legata indissolubilmente a quelle frasi, a quelle parole."
Natalia Ginzburg, Lessico Famigliare
terça-feira, 1 de junho de 2010
Afinidades electivas
And I tell you with my tongue between your toes
If there's ever anyone else
Don't let them do this
And I'll laugh and revel
As you scratch and crawl
If there's ever anyone else
Just show them the ugly mess
Stuart Staples, Jism
Karen, put me in a chair, fuck me and make me a drink
I've lost direction, and I'm past my peak
I'm telling you this isn't me
No, this isn't me
Karen, believe me, you just haven't seen my good side yet
Matt Berninger, Karen
If there's ever anyone else
Don't let them do this
And I'll laugh and revel
As you scratch and crawl
If there's ever anyone else
Just show them the ugly mess
Stuart Staples, Jism
Karen, put me in a chair, fuck me and make me a drink
I've lost direction, and I'm past my peak
I'm telling you this isn't me
No, this isn't me
Karen, believe me, you just haven't seen my good side yet
Matt Berninger, Karen
Um apoio bipolar
Sócrates apoiou Alegre a contragosto, mas não tinha alternativa, porque não a construiu. Entretanto, todos os nomes que se perfilam como eventuais sucessores (de António Costa a António José Seguro, passando por Assis e Carlos César) já haviam apoiado Alegre e uma não-posição, como sugeriam alguns, era um absurdo político, com consequências devastadoras. Mas o apoio burocrático dado pelo aparelho coexiste com uma desmobilização de figuras de relevo na actual hierarquia partidária. O PS apoiar formalmente, mas depois o terceiro, o quinto e o sétimo da hierarquia não apoiarem, revela a natureza bipolar do envolvimento do aparelho com a candidatura. O que não deixará de ter consequências na campanha - criando uma dinâmica fraccionária - e no resultado eleitoral. Acima de tudo, consolida o que tem sido uma tendência no modo como Sócrates tem gerido o PS: a secundarização de todas as eleições, com excepção das legislativas.
Esta secundarização poderá bem, no caso das presidenciais, colocar fim ao actual ciclo político. Sócrates, independentemente do resultado, já perdeu as presidenciais. Sócrates perde, quer seja Cavaco, quer seja Alegre a ganhar. Se Cavaco reforçar o seu resultado, o lugar de primeiro-ministro passará a estar sujeito a uma tutela política ainda mais apertada; se Alegre perder, mas com um resultado muito elevado, encontrará um equivalente ao "milhão de votos" de há quatro anos para pressionar o PS; e se Alegre vencer, estaremos perante a disputa entre duas visões diametralmente opostas do que deve ser um governo do PS. Que Sócrates se tenha deixado colocar nesta posição permanece um mistério político.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
Esta secundarização poderá bem, no caso das presidenciais, colocar fim ao actual ciclo político. Sócrates, independentemente do resultado, já perdeu as presidenciais. Sócrates perde, quer seja Cavaco, quer seja Alegre a ganhar. Se Cavaco reforçar o seu resultado, o lugar de primeiro-ministro passará a estar sujeito a uma tutela política ainda mais apertada; se Alegre perder, mas com um resultado muito elevado, encontrará um equivalente ao "milhão de votos" de há quatro anos para pressionar o PS; e se Alegre vencer, estaremos perante a disputa entre duas visões diametralmente opostas do que deve ser um governo do PS. Que Sócrates se tenha deixado colocar nesta posição permanece um mistério político.
do meu artigo de hoje no Diário Económico.
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