segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Um governo em dissonância cognitiva
Já agora, e a propósito do link para o que escrevi no Expresso a semana passada e que está aqui em baixo, é impressão minha ou a declaração de Teixeira dos Santos aqui (cujo intuito é incompreensível, a menos que seja um pedido público para sair do governo) é absolutamente incompatível com o que Sócrates disse em entrevista à TV há duas semanas, sendo que a "saturação" de Luís Amado também não é compaginável com a "energia reforçada" de que fala Vieira da Silva aqui. Um governo em dissonância cognitiva é também um governo em processo de implosão. Mas que dizer quando, depois, o mesmo ministro Teixeira dos Santos diz à Reuters que o que disse ao FT não é para ser levado a sério. Uma coisa é clara: isto não vai acabar nada bem.
Um país em dissonância cognitiva
"(...) Quem, ingenuamente, tinha ficado convencido que o acordo entre Governo e PSD era um primeiro passo para o consenso político necessário para reequilibrar as contas públicas, perdeu as ilusões. Esta semana, assistimos em força ao regresso do antagonismo militante que tem caracterizado a política portuguesa. Quando eram necessários entendimentos, é-nos oferecida uma repetição dos debates quinzenais, com os mesmos truques, a costumeira agressividade e total incapacidade de diálogo. Os portugueses, como bem intuiu o político profissional Cavaco Silva no twitter, só podem assistir com impaciência aos debates políticos.
Não é preciso ser psicólogo para se identificar a patologia de que o país padece. Chama-se 'dissonância cognitiva' e resulta da tensão entre cognições que são incompatíveis entre si. É a isso que assistimos: uma incompatibilidade lógica entre, por um lado, uma crença de nível mais primário (o corte na despesa) e, por outro, o desconforto com as consequências concretas desses cortes. Como se não bastasse, essa inconsistência é acompanhada por uma dissonância crescente entre a classe política e a expectativa que os portugueses têm sobre o seu comportamento."
o resto do meu artigo no Expresso da semana passada pode ser lido aqui.
Não é preciso ser psicólogo para se identificar a patologia de que o país padece. Chama-se 'dissonância cognitiva' e resulta da tensão entre cognições que são incompatíveis entre si. É a isso que assistimos: uma incompatibilidade lógica entre, por um lado, uma crença de nível mais primário (o corte na despesa) e, por outro, o desconforto com as consequências concretas desses cortes. Como se não bastasse, essa inconsistência é acompanhada por uma dissonância crescente entre a classe política e a expectativa que os portugueses têm sobre o seu comportamento."
o resto do meu artigo no Expresso da semana passada pode ser lido aqui.
Meninos de coro
Entre as várias bandas de "betos como nós" que têm surgido nos últimos anos, para além da notável amplitude vocal do Hamilton e de, durante os concertos, nunca trocarem os instrumentos com mais de 40 anos que usam, os Walkmen tentam diferenciar-se por ostentarem alianças que conferem respeitabilidade e por terem recuperado o guarda-roupa que os Warsaw haviam emprestado aos Joy Division. Não vale a pena tentar encontrar grandes explicações. Andaram todos nesta escola e foi lá que a coisa começou. E, sim, o concerto foi exactamente como se esperava: muito bom (pensando bem, não foi exactamente como se esperava. não tocaram o "another one goes by", uma música que da primeira vez que ouvi pensei ser mesmo do bob dylan).
(o video é tirado à Susana Pomba, que acrescenta várias fotos do concerto de ontem)
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Número dois na minha lista de Vicentes
De tempos a tempos, lembro-me de procurar os Durutti Column no youtube. O tempo vai passando e aparece sempre alguma coisa nova, mas invariavelmente mais antiga. Desta feita, uma alma caridosa passou para a rede excertos de um concerto de 1985 no Japão. Se seguirem este link, podem ver mais coisas. Isto pode não interessar mesmo nada, mas o primeiro CD que comprei foi desta rapaziada (a somar a alguns vinis que tinha). Há mais de vinte anos que me perseguem e não é nada mau ser perseguido. Ah, o Vini Reilly continua a ser o melhor guitarrista do mundo.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Um jornal de parede
por razões que me escapam, mas com assinalável generosidade, o meu amigo Tiago Tibúrcio e o Miguel Gomes Coelho enviaram para este blog uns dardos. Acontece que isto não é bem um blog, mas uma versão "moderna" de jornal de parede, em que que tento espreitar, através do computador, e com notável preguiça, aqui para "casa". Aliás, com o espectro do twitter e do facebook por perto, tenho cada vez mais vontade de acabar com o blog e regressar ao jornal de parede que havia na minha escola primária. Quando se descobrir forma de linkar videos e músicas, é isso que farei. É até onde vai a minha capacidade de interacção.
Partir a espinha
Através dessa fonte de conhecimento inesgotável que é o site da associação sindical dos juízes portugueses, fiquei a saber que o despacho que me haviam feito chegar por mail (e que tive esperança fosse falso), de um juiz que decidiu diminuir o seu tempo de trabalho por força dos cortes na remuneração que só sentirá em 2011, é mesmo verdadeiro. Para fazer face a compromissos financeiros assumidos, o senhor magistrado, que é juiz-presidente do Tribunal de Alenquer, vai dedicar menos tempo ao seu trabalho. Não se percebe bem qual é a ideia: será que vai aproveitar para fazer uns biscates por fora na economia paralela?
terça-feira, 9 de novembro de 2010
And when the promise was broken, I cashed in a few of my own dreams
Artista que se preze tem o seu álbum perdido. Chegou agora a altura de o "álbum negro" de Bruce Springsteen ver a luz do dia. Entalado entre as gravações de darkness on the edge of town, the promise não é um conjunto de out-takes, vocacionado para incondicionais, mas um disco com princípio, meio e fim, que fica bem ao lado de nebraska, the river e do resto que foi feito até born in the usa. Muitas das canções já eram bastante conhecidas - umas ao vivo (fire e racing in the street), outras também em versões (because the night por patti smith). Acima de todas elas soa, contudo, a canção título, The Promise. Ando a ouvi-la em repeat há umas semanas e emociono-me do mesmo modo com que, passados todos estes anos, me emociono com born to run. Acho que é tudo.
o disco (e também o documentário que já passou na HBO) sai para a semana e, até lá, pode ser ouvido aqui.
save my love também não está nada mal. nada mesmo.
e vale a pena ler este texto do princípio ao fim.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Rebenta a Bolha
"Em trinta e seis anos de democracia, nunca um Governo português foi capaz de fazer cortes na despesa como aqueles que estão propostos no Orçamento para 2011. Como recordava Bruno Faria Lopes no "i", só uma vez, em 1983, com o Bloco Central, acompanhado pelo FMI, é que a despesa pública total desceu de modo significativo (-1.9%). Desde então, o país foi alternando entre anos em que a despesa cresceu muito (2009); em que diminuiu de modo impercetível (1994); ou em que o crescimento foi controlado (2006). Em 2011, sem uma maioria política que crie condições efetivas para aplicar medidas de austeridade, o Governo propõe-se alcançar um objetivo inédito: cortar cerca de 5% da despesa das administrações públicas.
Com este propósito em pano de fundo, Governo e PSD entretêm-se a jogar uma longa partida de poker aberto, com o país a assistir incrédulo. Tem sido um belo retrato do sistema partidário português. Incapazes de fazer alianças pós-eleitorais, com uma quase total ausência de cultura negocial, o que os partidos fazem é, em lugar de procurar acordos, tentar salvar a face e avaliar a extensão dos recuos de cada uma das partes. Esta semana, quando, com o devido beneplácito presidencial, tudo parecia encaminhado para um acordo essencialmente político e com escasso impacto orçamental, a bolha voltou a rebentar, como se estivéssemos no recreio de uma escola.
No fundo, não é surpreendente: em Portugal, os partidos têm pouca ancoragem social (ou seja, não representam de modo mais ou menos orgânico interesses sociais específicos) e também não se movem propriamente pela defesa estável de um conjunto de políticas. Sobra portanto a tática e o objetivo de chegar o mais cedo possível ao poder - com todas as jogadas devidamente medidas pelas sondagens, que funcionam como uma espécie de oráculo de uma realidade cada vez mais distante. Neste contexto, a existência de entendimentos depende apenas de se encontrarem jogos de soma positiva, no qual todas as partes podem surgir como vencedoras. Ninguém quer assumir os custos da impopularidade. (...)"
o resto do meu artigo da semana passada no Expresso pode ser lido aqui.
Com este propósito em pano de fundo, Governo e PSD entretêm-se a jogar uma longa partida de poker aberto, com o país a assistir incrédulo. Tem sido um belo retrato do sistema partidário português. Incapazes de fazer alianças pós-eleitorais, com uma quase total ausência de cultura negocial, o que os partidos fazem é, em lugar de procurar acordos, tentar salvar a face e avaliar a extensão dos recuos de cada uma das partes. Esta semana, quando, com o devido beneplácito presidencial, tudo parecia encaminhado para um acordo essencialmente político e com escasso impacto orçamental, a bolha voltou a rebentar, como se estivéssemos no recreio de uma escola.
No fundo, não é surpreendente: em Portugal, os partidos têm pouca ancoragem social (ou seja, não representam de modo mais ou menos orgânico interesses sociais específicos) e também não se movem propriamente pela defesa estável de um conjunto de políticas. Sobra portanto a tática e o objetivo de chegar o mais cedo possível ao poder - com todas as jogadas devidamente medidas pelas sondagens, que funcionam como uma espécie de oráculo de uma realidade cada vez mais distante. Neste contexto, a existência de entendimentos depende apenas de se encontrarem jogos de soma positiva, no qual todas as partes podem surgir como vencedoras. Ninguém quer assumir os custos da impopularidade. (...)"
o resto do meu artigo da semana passada no Expresso pode ser lido aqui.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
"Mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar caminha para o mar pelo verão"
O Andy Irons morreu, os juros da dívida batem recordes, mas hoje estiveram umas ondas e ainda há quem, passado todos estes anos, não tenha receio de soar como soavam os Talking Heads
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
"I have lots of inner demons"
Andy Irons (3x campeão do mundo) morreu ontem, aos 32 anos, alegadamente de febre de dengue. A.I. era o lado mais sombrio do circuito mundial. Sem ele, o Slater dos últimos anos nunca teria existido. Um dos muitos elogios que lhe poderia ser feito.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
It's just New Jersey
"(...) Because we know instinctively as a people that if we are to get through the darkness and back into the light we have to work together. And the truth is, there will always be darkness. And sometimes the light at the end of the tunnel isn’t the promised land. Sometimes it’s just New Jersey. But we do it anyway, together. (...)"
Jon Stewart
sábado, 30 de outubro de 2010
E acabou a dançar sozinho
"(...) Passos Coelho anda há vários anos a preparar-se para ser líder do PSD. Olhando para o seu passado, podemos intuir que o objetivo foi traçado há muito tempo. Entretanto, desenvolveu todas as qualidades de um político profissional, mas traz consigo todos os defeitos de uma vida construída nas juventudes partidárias. Os últimos meses têm servido para revelar essas características.
O exercício do poder numa juventude partidária obedece a regras particulares e tem um elemento distintivo: depende apenas de variáveis internas às organizações, ao mesmo tempo que a tática é tudo. A realidade que existe fora do circuito fechado das secções, concelhias e distritais é irrelevante. Em lugar de estratégias políticas, o que predomina é uma disputa tática, feita de cenários, alinhamentos e realinhamentos, zangas e pazes, tudo ao telemóvel. É uma experiência formativa, que dá treino específico para ganhar poder interno, mas que se pode revelar desastrosa para afirmar externamente as lideranças. Ganhar um partido não é exatamente a mesma coisa que ganhar um país.
Desde logo porque numa juventude partidária, quando a tática empurra as lideranças para um beco sem saída, há formas conhecidas para superar o problema: um discurso inflamado, que vira uma comissão política e serve para afirmar o carisma do líder; uma aliança improvável com um inimigo figadal da véspera ou uma alteração estatutária feita ad hoc. Ou seja, um conjunto de saídas que não estão disponíveis para alguém que procura ser primeiro-ministro. Ainda assim, esta semana, uma das saídas ensaiadas por Passos Coelho passou por uma emenda constitucional que permitiria realizar eleições em janeiro. Numa juventude partidária, a proposta seria levada a sério; no mundo dos adultos, quem faz tal proposta não pode ser levado a sério. O líder do PSD tem agido como se ainda fosse líder da JSD e hoje corre o risco de não ser levado a sério. (...)"
o resto do meu artigo no Expresso da semana passada pode ser lido aqui.
O exercício do poder numa juventude partidária obedece a regras particulares e tem um elemento distintivo: depende apenas de variáveis internas às organizações, ao mesmo tempo que a tática é tudo. A realidade que existe fora do circuito fechado das secções, concelhias e distritais é irrelevante. Em lugar de estratégias políticas, o que predomina é uma disputa tática, feita de cenários, alinhamentos e realinhamentos, zangas e pazes, tudo ao telemóvel. É uma experiência formativa, que dá treino específico para ganhar poder interno, mas que se pode revelar desastrosa para afirmar externamente as lideranças. Ganhar um partido não é exatamente a mesma coisa que ganhar um país.
Desde logo porque numa juventude partidária, quando a tática empurra as lideranças para um beco sem saída, há formas conhecidas para superar o problema: um discurso inflamado, que vira uma comissão política e serve para afirmar o carisma do líder; uma aliança improvável com um inimigo figadal da véspera ou uma alteração estatutária feita ad hoc. Ou seja, um conjunto de saídas que não estão disponíveis para alguém que procura ser primeiro-ministro. Ainda assim, esta semana, uma das saídas ensaiadas por Passos Coelho passou por uma emenda constitucional que permitiria realizar eleições em janeiro. Numa juventude partidária, a proposta seria levada a sério; no mundo dos adultos, quem faz tal proposta não pode ser levado a sério. O líder do PSD tem agido como se ainda fosse líder da JSD e hoje corre o risco de não ser levado a sério. (...)"
o resto do meu artigo no Expresso da semana passada pode ser lido aqui.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Memory boy
Imaginem que o George tinha continuado a ganhar preponderância, que o John tinha tomado as drogas certas e que o Paul continuava com uma capacidade melódica sem paralelo. Mais de quarenta anos passados desde tomorrow never knows, seria qualquer coisa como isto que os Beatles estariam a fazer.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Um retrato do país
Está um negociador do PSD a falar ininterruptamente no telejornal da RTP1. Começou por dizer que Eduardo Catroga era um grande economista, que ele próprio não dormia há três dias e que tinha feito um grande trabalho técnico. Depois disse que tinha vivido 11 anos no estrangeiro e que tinha muitos contactos nos mercados internacionais. Presunção e água benta, cada qual toma a que quer. Mas no fundo, quem tem razão é o meu filho, que com a sabedoria de quem vai fazer 5 anos, disse que ele tinha voz de gripe.
Tenho uma proposta
e não é de natureza orçamental. Do mesmo modo que o Lloyd Cole olhou para a sua carreira através dos hotéis onde foi ficando, que tal fazer o mesmo exercício a propósito dos programas televisivos por onde foi passando. Aqui podemos vê-lo por altura de um dos melhores álbuns que fez (aí por volta de 1994, não sei precisar bem), num programa que aparenta ser particularmente inspirador e tudo ocorre, ficamos a saber, às 7.58 da manhã. O que vale é que hoje, provavelmente, já nem o convidam para ir à TV. (é tão bom que nem dá para fazer embed, pelo que têm mesmo de seguir o link)
Dúvida metódica
Há certamente uma boa discussão para termos sobre os consumos intermédios e as gorduras do Estado, mas continuo sem perceber se quem, agora, quer reduzir o défice orçamental para 4.6% do PIB em 2011 (no que é já a maior redução de despesa que Portugal fez em democracia) com base nesses cortes na despesa inútil (mas convinha que se dissesse exactamente qual) está iludido ou nos quer iludir a todos.
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