"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

sexta-feira, 25 de março de 2011

Um gajo que partiu tudo, meu

quarta-feira, 23 de março de 2011

Um ataque de Zombies


Acabei de assistir a um seminário em que Daniel Drezner apresentava o seu último livro - 'Theories of International Politics and Zombies'. Num registo provocatório, Drezner faz um exercício intelectualmente estimulante: prever como é que as vários teorias dominantes das relações internacionais lidariam com um ataque de Zombies. Uma ameaça crescente, comparável a muitas outras que enfrentamos. Durante a conferência, temi que acontecesse o que sucedeu a semana passada quando David Cameron (o outro), enquanto discorria sobre os bloqueios do euro, perguntou se havia algum português na sala. Na altura, hesitei, mas acabei por timidamente levantar a mão, o que me obrigaria a explicar em pouco tempo a 'especificidade nacional'. Se Drezner tem perguntado se alguém conhecia um ataque em curso promovido por Zombies, eu, hoje, seria obrigado a levantar a mão, dando o exemplo de Portugal.

terça-feira, 22 de março de 2011

Quem é que disse que Portugal não tem futuro?



Como sugere o Lourenço aqui, é só pena as raparigas do teledisco não tocarem também. Mas estes tipos fazem mais por nós do que qualquer resgate negociado ou imposto. 1,2,3,4.

Há resgates e resgates

O País enfrenta um impasse político. O Governo demite-se se o PEC IV for chumbado, a oposição garante que o chumbará. É possível evitarmos eleições?

Possível é, mas, como estava escrito desde as últimas eleições, não irá acontecer. Os vários actores políticos não souberam estar à altura da responsabilidade do momento dramático que vivemos em Portugal e no conjunto da Zona Euro.


Quem são os responsáveis?

O primeiro-ministro que, enquanto conseguiu um resgate menos desfavorável que o da Grécia e da Irlanda, continua a demonizar a ajuda externa que de facto já existe e teve sempre reservas em relação a uma coligação; o Presidente da República que, após o inenarrável episódio das escutas ficou tolhido, permitiu a formação de um governo minoritário e depois, na tomada de posse, não lhe ocorreu melhor do que recusar ‘mais sacrifícios’, quando sabia que eles eram inevitáveis e faziam parte de uma negociação em curso com a Comissão e o BCE; e o líder da oposição que, enquanto vai alimentando umas vacuidades sobre os consumos intermédios e sabendo que terá de aplicar a mesma dieta que agora recusa, é movido pela pressão do aparelho que o elegeu, que quer o mais rapidamente possível ir “ao pote”.

Hoje Jean Claude Juncker disse que Portugal assumiu compromissos e que tem de os cumprir. Não cai por terra a ideia do Governo de que todas as medidas são negociáveis?

A margem de manobra que nos resta é quase inexistente e, nesta fase, sem que haja uma revisão profunda da arquitectura da Zona Euro, afirmações como, “distribuir os sacríficios” ou “não penalizar os do costume” não passam de slogans sem qualquer exequibilidade.

Corremos o risco de, se tivermos eleições, não termos um Governo maioritário e enfrentamos exactamente os mesmos bloqueios?

As eleições vão servir apenas para revelar a insustentabilidade da nossa situação. Medidas de austeridade como as que temos de implementar só são possíveis com uma coligação que envolva, pelo menos, o PS e o PSD e que tenha suporte de Belém. Isso não aconteceu até agora, não vejo porque vá acontecer no futuro. Desde logo, porque se criou um clima de antagonismo militante em Portugal que demorará a ser superado.

Ainda acredita que é possível evitarmos um resgate internacional?

Neste momento já não nos financiamos autonomamente no mercado primário. Logo, já estamos a ser resgatados. Mas a solução que foi encontrada é melhor do que a da Grécia e da Irlanda. Há resgates e resgates e o tempo tem sido e continuará a ser um factor decisivo.

aqui fica a a micro-entrevista que dei ao Económico de hoje (com um título meu, diferente do escolhido)

A minha batalha de gigantes preferida



segunda-feira, 21 de março de 2011

O bom gigante


Antes do Bon Iver e dos Megafaun (que vão abrir para os Mountain Goats na sexta-feira e eu vou estar lá para ver!), houve em tempos os DeYarmond Edison. Agora, reuniram-se em Austin e fizeram isto ao James Taylor e à Carole King.

"Poesia é voar fora da asa"


"Eu só não queria significar. Porque significar limita a imaginação."

Soube que Manoel de Barros tem agora uma conta no twitter (via Júlio). Imagino que esteja a chegar a altura de abrir uma para o poder seguir.

Agora em inglês técnico

"(...) Indeed, a broad coalition for change would improve the political legitimacy of such a program as well as current market perceptions of Portugal’s risk."
de um comunicado do PPD/PSD
(agora é que já perdi definitivamente o fio à meada, mas espero que seja apenas por causa do fuso horário.)

domingo, 20 de março de 2011

Se isto é um Presidente

"(...) Cavaco Silva foi certeiro no apelo a um programa estratégico de médio prazo, sustentado num alargado consenso. Na situação em que nos encontramos, um pacto entre os partidos do arco da governabilidade, envolvendo parceiros sociais, que conferisse estabilidade e previsibilidade a um conjunto de opções, para durar para além do tempo deste Governo e/ou desta legislatura, reforçaria as nossas condições negociais na Europa e contribuiria para resolver alguns dos problemas. Mas, com o antagonismo militante que grassa na política portuguesa, a proposta é utópica. A menos que o Presidente se oferecesse como desbloqueador do processo. Acontece que depois de quarta-feira, é impossível olhar para este Presidente como alguém acima das partes, preocupado em unir. (...)"
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lido aqui.

Miúdas Giras (do final do século XIX)

sexta-feira, 18 de março de 2011

Em defesa do 3º anel

O David Brooks explica aqui as razões porque devemos manter a pressão alta sobre os árbitros e assobiar tanto quanto possível. Ontem como hoje, a diferença pode mesmo estar no tradicional insulto ao bandeirinha.

Se fumarem bananas


a Alice no país das maravilhas nunca mais será a mesma coisa.

quinta-feira, 17 de março de 2011

We'll always have Paris

quarta-feira, 16 de março de 2011

Catástrofes em perspectiva

De uma leitura rápida das notícias do dia (para mim ainda é de manhã), posso concluir que o ciclo noticioso está a ser marcado por 5 temas:
- Eleições no Sporting;
- PEC IV e crise política - com várias declinações;
- Desastre nuclear no Japão;
- Promiscuidade entre poder judicial e poder político;
- Reconquista de território por Khadafi.
Se bem me parece, daqui a 5/10 anos, os dois primeiros temas revelar-se-ão como tendo sido os menos relevantes (e estou a pensar em Portugal).
(inspirado neste post)

terça-feira, 15 de março de 2011

Coisas verdadeiramente importantes

isto.

Três simples

O artigo de Mário Soares no DN de hoje pode bem estar para Sócrates como o artigo de Cavaco no Expresso esteve para Santana.

Se o Japão não é capaz, imaginem Portugal


"(...) Japan's nuclear power stations were designed with the same care and precision as everything else in the country. More to the point, Japan is the only country in the world to have experienced true nuclear catastrophe. They had an incentive to build well, in other words, as well as the capability, the laws, and regulations to do so. Which leads to the unavoidable question: If the competent and technologically brilliant Japanese can't build a completely safe reactor, who can?"
vale a pena ler o resto do artigo da Anne Applebaum na Slate.

domingo, 13 de março de 2011

Uma missão impossível

"(...) O que demonstra que a austeridade unilateral é contraproducente se a Europa não fizer a sua parte. E a Europa não tem feito a sua parte. Como se não bastasse não reconhecer que o problema dos países da periferia é fruto de uma arquitectura institucional incapaz de lidar com choques assimétricos e dos desequilíbrios de uma moeda única sem política fiscal comum e sem compensação para os excedentes nas trocas comerciais internas, a Europa entregou-se a uma anomia política devastadora. Como escreveu Wolfgang Münchau no Financial Times, “esta crise é tanto alemã como espanhola. Este reconhecimento deve ser o ponto de partida para qualquer sistema eficaz de resolução”.
Deve, mas não tem sido. Percebe-se que os países do centro resistam a aceitar a natureza sistémica da crise do euro como pressuposto negocial, já não se compreende a capitulação política dos países da periferia. Não devemos exagerar o papel das lideranças no curso da história, mas se considerarmos que os países que podiam comandar a reforma da zona euro estão entregues a uma inexistência política (Zapatero) e a um tresloucado (Berlusconi), torna-se mais fácil entender como chegámos aqui. Serve de pouco, mas não se pode deixar de pensar como seria a gestão desta crise com Kohl na Alemanha, González em Espanha e Delors em Bruxelas."
o resto do meu artigo publicado no Expresso de 5 de Março, pode ser lido aqui.

Sabemos muito pouco

"(...) a principal lição é mesmo que o Ocidente não se deve entreter a aprofundar relações com ditaduras. E quando isso acontece, precisamente em nome do realismo, é aconselhável procurar conhecer de facto as realidades locais. O indisfarçável entusiasmo comercial do Estado português com o regime brutal e bizarro de Kadhafi é, a este propósito, um aviso para o futuro. Precisamos de conhecer melhor o mundo antes de nos expormos tanto às suas contingências."
o resto do meu artigo publicado no Expresso de 26 de Fevereiro pode ser lido aqui.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Velhos movimentos sociais

Power In A Union from JD on Vimeo.



ou de como, quando me falam de mobilizações inorgânicas, pego logo no revólver.

quinta-feira, 3 de março de 2011

O futuro da esquerda

quarta-feira, 2 de março de 2011

factos

A saída da águia vitória continua a revelar-se estratégica - sem ela, 18 jogos a vencer (a massacrar, melhor dizendo);
Deixámos de ser uma equipa de totós - a atitude do JJ e do Rui no fim dos jogos é decisiva. Os estádios assépticos deram uma machadada no futebol, era o que mais faltava juntar a monomania do fair-play e dos salamaleques entre jogadores;
O Messi e o Ronaldo são extraordinários, mas gostava que me dissessem quem é que é capaz de parar o Fábio Coentrão quando acelera. Desde o Roberto Carlos que não se via nada assim;
Os gajos que 'crasharam' os jogos de futebol e os disponibilizam online merecem uma estátua. Palavra de emigrante;
Agora vou ver a Benfica TV (a verdade a que temos direito), daqui a bocado poderei ser avistado no Capitólio.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Um futuro incerto


"(...) o mais provável é continuarmos incapazes de compreender de modo inteligível o que nos rodeia. Como recordava há semanas António Costa Silva, parecemo-nos com Fabrizio del Dongo (personagem da "Cartuxa de Parma", de Stendhal), quando, nas arrebatadoras cem primeiras páginas do romance, num único dia, atravessa a batalha de Waterloo, é ferido, cruza-se sem saber com o próprio pai, sempre com perceção escassa do contexto que o envolve. Como ele, navegamos movidos por um conjunto de ambições românticas e, em lugar de proclamações definitivas sobre o futuro, assentes em modelos fechados, precisamos de mais factos e menos asserções teóricas. É a única forma de lidarmos com a contingência que nos rodeia e contrariarmos o del Dongo que tem estado demasiadamente presente nos olhos com que olhamos para o mundo. Seja em relação à crise, ao Médio Oriente ou ao PIB português."

o resto do meu artigo publicado na edição do Expresso de 19 de fevereiro pode ser lido aqui.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Um bom debate

para seguir aqui. muitas explicações convincentes sobre a incapacidade de antecipar acontecimentos como os das últimas semanas.

Ironias da história

A crer no Washington Post (não encontrei a notícia online), Farouk Hosni está proibido de sair do Egipto, no que aparenta ser o início de uma investigação criminal ao ex-ministro. Não sei se estão a ver quem é.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Os velhos são o futuro



O Martinho aqui, diz tudo o que há a dizer sobre isto (que se aplica a outras parvoíces): "Podemos acreditar em telhados e céus azuis, mas é no chão com o pé a bater que a fricção da juventude se solta, desamparada e livre. Siga."

Uma acclaimed band aqui em casa


O Letterman não se cansa de apresentar "critically acclaimed bands". Esta, contudo, é bem cá de casa.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O Josh Lyman ganhou



A vida continua a imitar a ficção e Chicago tem um novo Mayor. Rahm Emanuel (ou Josh Lyman) era, por várias idiosincracias, um improvável candidato à vitória numa eleição uninominal. Mas ganhou e, no fundo, tudo se pode resumir às palavras de um empresário que o apoiava que, mantendo o anonimato, dizia sobre Emanuel, numa reportagem neste fim-de-semana no NYT, qualquer coisa como: "do I like him? it's not about liking".
Escolher em quem se vota raramente é uma questão de "gostar". Com optimismo, podemos ter a sorte de uma ou duas vezes votarmos em alguém de quem gostamos. Não podendo votar no Josh, eu gostava de ter votado neste gajo, que tem manifesto mau feitio, que desagradava a gregos e a troianos e que fez serviço militar em Israel durante a guerra do golfo. Um tipo que não era 'likable'.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A cantiga é uma arma





Os The National deram um concerto surpresa há duas semanas no Webster Hall em NY. A MTV (aparentemente ainda existe como canal de música) filmou e pode ver-se aqui.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

A instabilidade endémica

"(...) A corrida para ver quem censura primeiro dá um retrato fiel do país político: os partidos envolvidos num jogo tático confrangedor, em que, de um lado, temos um Governo com um programa que não é o seu e, de outro, uma oposição que escolheu o caminho da fulanização anti-Sócrates como forma de esconder as suas vacuidades programáticas.
Ora, em lugar desta tensão tática primária, com o espectro de ingovernabilidade sempre a pairar, o que o conjunto dos partidos nos poderia oferecer era capacidade negocial de facto, institucionalizando uma prática de diálogo que teimamos em não ter. Os ajustamentos que necessariamente teremos de fazer só são exequíveis com um pacto social alargado, que dê sustentabilidade e previsibilidade às opções - à imagem do que aconteceu em Espanha. O que temos é um jogo de póquer, desfasado da realidade, no qual nem Governo, nem oposições se mostram disponíveis para abandonar a rigidez das suas posições de partida.
No fundo, torna-se claro que, se as dificuldades não forem suficientes, temos sempre uma garantia: o sistema político cá estará para somar problemas. Talvez assim se perceba a especificidade do mal português e o crescente desajustamento entre partidos e país."
o resto do meu texto publicado na edição do Expresso de 12 de fevereiro de 2011, pode ser lido aqui.

A cantiga também é uma arma

Chico, não sei se o teu argumento resiste a muitos testes empíricos. Até porque o problema é simples e resume-se assim: a canção dos Deolinda é uma merda. Escreverias o mesmo a propósito deste gajo? (aqui, em pleno colaboracionismo, a cantar na DDR em 1986)



e aqui já rendido aos encantos das pequenas burguesas

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Namorar é legal



(e a Mallu Magalhães já tem mais de 18 anos)
video roubado ao Ricardo.

Fazer implodir as escolas



"(...) se a aprendizagem for feita através dos instrumentos que, de facto, motivam e concentram, a aprendizagem é garantida. Substituamos, portanto, a escola por jogos de computador e atribuamos à indústria do entretenimento a responsabilidade por adequar os conteúdos programáticos aos interesses das crianças.
Quem quer que tenha visto uma criança a resolver dilemas complexos num jogo de estratégia percebe bem que dificilmente se encontraria melhor forma de ensinar História, Literatura ou Matemática. A indústria do entretenimento é o novo sistema educativo.
Mas, estranhamente, enquanto os Ministérios da Educação gerem com mão de ferro escolas e currículos, têm escassa intervenção nos meios que, hoje, de facto, educam. Ora, com maior regulação, as empresas que produzem jogos ver-se-ão obrigadas a contratar os melhores filósofos e matemáticos para enriquecer os seus conteúdos.
Como conclui Gough, a escola é uma chatice porque é muito aborrecida, não porque seja muito desafiante. Logo, o objetivo não passa por tornar a aprendizagem mais fácil, mas, sim, mais difícil. Coloquem um cronómetro em contagem decrescente e façam um aluno perder vidas de cada vez que falhar e vão ver uma criança motivada. Depois, resta acrescentar bons conteúdos. Uma tarefa que pode bem ser feita sem escola, mas que precisa de um Ministério da Educação que lhe confira sentido."

o resto do meu texto publicado na edição do Expresso de 5 de fevereiro de 2011, pode ser lido aqui e o artigo de Nigel Gough que cito, aqui.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Um tempo que garantidamente já não regressa



morreu aos 93 anos, Leroy Grannis.

Terá chegado a altura de uma segunda democracia liberal no Médio Oriente?

Reafirmar convicções



quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Moções e fogachos

"(...) A moção de censura que o PCP queria preparar para a Primavera visava condicionar toda a gente. A que o BE vai apresentar no Carnaval é um fogacho de circunstância. Entre uma e outra há toda a diferença que resulta de o PCP sonhar com o derrube de um regime e o BE querer apenas a crista da onda. O hino da moção do PCP seria a centenária Internacional, o da do BE será a instantânea "parva que sou"
como sempre, o que o Paulo escreve vale a pena ser lido (integralmente aqui).

O regresso do excepcionalismo português

Pode bem dar-se o caso de, daqui a uns meses, termos a aterrar no aeroporto da Portela dezenas de cientistas políticos, interessados em saber como é que um primeiro-ministro que enfrentava uma tempestade perfeita (desemprego nos 10%, dificuldades de financiamento da economia, défice de credibilidade e falta de confiança), reconquistou a maioria em eleições antecipadas, sendo eleito para um terceiro mandato. As explicações podem, naturalmente, ser procuradas em dias como os de hoje.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Explicar o Tony Wilson e os Joy Division às crianças



Um video que vai fazer muito pela pedagogia doméstica.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

80 anos



Um teledisco que envelheceu um pouco pior do que o James Dean teria envelhecido.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Pensem Nisto

"(...) Carlos Silvino, uma das testemunhas centrais do 'caso Casa Pia' e a quem no passado foi atribuída uma inusitada credibilidade, deu uma entrevista, após ter deixado de ter como advogado um ex-inspetor da Judiciária, em que, no essencial, afirma que a prova foi fabricada e que não só não conhecia os locais onde teriam sido praticados os crimes, como o reconhecimento que fez foi todo realizado previamente com inspetores da Judiciária. Independentemente das nossas convicções subjetivas sobre os vários protagonistas, o mínimo que podemos exigir é que seja, finalmente, feita uma investigação à investigação. Desde o seu início, o 'caso Casa Pia' tem demasiadas semelhanças com o que envolveu Elio di Rupo e com o 'affaire d'Outreau'. Com uma diferença assinalável: na Bélgica e em França, o sistema foi capaz de se questionar a si próprio, procurando a verdade, mesmo que isso implicasse perder a face. Pensem nisto."
o resto do meu artigo publicado na edição do Expresso de 29 de janeiro de 2011 pode ser lido aqui

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Libertem o Andy Bell

Faz por esta altura vinte anos que os Ride lançaram o Nowhere - o disco que, entre outros atributos, tem porventura a melhor capa da década de noventa. O essencial da história está resumida aqui. Desfizeram-se rapidamente e enquanto se perdeu o rasto do Mark Gardener, o Andy Bell passou a coadjuvar os irmãos Gallagher em sucessivas aventuras. É um enigma sem resposta: Andy Bell fez dois discos que deixam tudo o que os Oasis fizeram a milhas e depois entreteve-se a tocar baixo na banda. Acho que se podia lançar um movimento a apelar à sua libertação. E já que andamos numa de hinos geracionais, aqui fica mais um.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Losing my edge

Já não é a primeira vez, nem será a última, que se tenta encontrar um hino geracional cantado em português. Se bem interpretei o que o Rui Tavares escreveu no Público há um par de dias, o hino agora encontrado é feito à medida da geração imediatamente a seguir à minha - que é também a dele. Retomando a formulação que o Ivan Nunes (ou ex-Ivan) encontrou no início da década de noventa, desta feita é que estamos perante uma "geração à rasca" e os Deolinda deram voz aos problemas de quem tem entre vinte e trinta anos (ou talvez um pouco mais). Os problemas, não vale a pena iludir, não são poucos, bem pelo contrário, e são também de uma natureza diferente dos que enfrentávamos no passado. Tudo isto porque fui espreitar a tal música dos Deolinda e só me veio à cabeça a frase do Caetano, há quatro décadas quando foi vaiado enquanto cantava o "é proibido proibir", perante uma plateia que esperava mais um cantor de protesto: "se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos".
O problema deve ser meu, que já estou a perder o passo, mas a única coisa que me imagino a cantar de punho erguido, como hino geracional, é mesmo isto.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Vitória


Poucas decisões estratégicas se revelaram tão acertadas na história recente do Benfica como a de descartar a águia Vitória. O Benfica não pode depender de amuletos e superstições. Bem pelo contrário. Depois da má experiência da capela da senhora Prieto, estávamos agora nas mãos de uma águia amestrada, ainda mais por um espanhol. E factos são factos: desde que nos vimos livres da águia só conhecemos um resultado.

Unruly boys

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Golias


Até sempre.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

John Barry Forever

Novo IP



até ao regresso do Verão, este blog passa a emitir desde aqui (ainda que com as habituais intermitências)

campanha tem de nascer duas vezes

"(...) Naquilo que é uma marca da liderança de José Sócrates no PS, assistiu-se mais uma vez à secundarização de eleições que não as legislativas. Aliás, num facto que deve ser motivo de reflexão, Sócrates venceu duas eleições legislativas e averbou várias derrotas eleitorais entre autárquicas, europeias e presidenciais. Este desinvestimento nas vários atos eleitorais tem sido um mecanismo de fragilização do exercício do poder executivo, cuja legitimidade e energia não radicam apenas nas eleições para o parlamento. A este propósito, o modo como o PS se deixou amarrar a uma candidatura contraditória com o posicionamento ideológico que escolheu nos últimos anos torna-se difícil de compreender. Não por acaso, assiste-se a um sentimento de orfandade política entre muito do eleitorado que votou PS e que se reviu na estratégia reformista seguida na segurança social, saúde e educação (para dar três exemplos de áreas onde, independentemente da avaliação substantiva que possamos fazer, Sócrates e Alegre não podiam estar mais distantes).
Alegre, que nas últimas presidenciais se revelou um candidato competitivo enquanto maverick e corpo estranho ao próprio sistema partidário, desta feita foi incapaz de gerir a evidente contradição da sua base de apoio. Pensar que era possível, numa primeira volta, fazer convergir as narrativas políticas do PS e do BE e mobilizar ambos os eleitorados revelou-se um lirismo sem adesão à realidade. Ao mesmo tempo que serviu para empurrar Alegre para uma campanha sem orientação estratégica. A entrada tardia, mas impetuosa, de alguns ministros na campanha, não só não terá contribuído para compensar o défice de mobilização (que tem de assentar num envolvimento prolongado), como serviu para expor o modo extemporâneo como o PS lidou com o seu candidato.(...)"

o resto do meu artigo publicado no Expresso da semana passada, pode ser lido aqui.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

"(...) Eram centenas e centenas, as verdades, e todas elas eram bonitas.
E então vieram as pessoas. Cada uma delas assim que aparecia agarrava uma das verdades e algumas que eram mais fortes apoderavam-se de uma dúzia delas.
Foram as verdades que tornaram as pessoas grotescas. O velho tinha uma teoria bastante elaborada a tal propósito. Era ideia dele que no momento em que uma pessoa tomava uma das verdades para si própria, chamando-lhe a sua verdade, e se esforçava por conduzir a sua vida de acordo com essa verdade, a pessoa tornava-se grotesca e a verdade que abraçava tornava-se numa mentira. (...)"
Sherwood Anderson, Winesburg, Ohio (se só lerem um livro nos próximos, vá lá, dois anos, leiam este)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Monstro Sagrado



O malato habilitou-se a levar um par de estalos do Senhor Mário Coluna.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Um Presidente mísero

Já tínhamos tido o "sisudo", o "bonacheirão" e o "piegas". Depois dos discursos de ontem, passamos a ter o "rancoroso".

sábado, 22 de janeiro de 2011

Olhem que chamo o FMI

"(...) mais uma vez, ficou exposta a natureza surreal do debate político português. É natural que as oposições procurem responsabilizar os governos pelos impactos nacionais da crise, mas em lado nenhum da Europa se assiste a uma discussão que não parta do pressuposto de que estamos perante um ataque ao euro, que começou nas periferias, e que se intensificou a partir do momento em que a Alemanha começou a hesitar nas garantias. No entanto, quem olhe apenas para Portugal, poderia convencer-se que as razões para as nossas dificuldades de financiamento resultam exclusivamente dos nossos erros.
Não há, contudo, prova mais acabada da natureza sistémica da crise do euro do que a diferença entre o que nos foi sendo dito aquando dos sucessivos resgates e o que acabou por suceder. Os apoios foram apresentados como uma forma eficaz de estancar a crise das dívidas soberanas. Está à vista que assim não foi: o efeito-dominó não tem parado. Agora somos nós que estamos sob pressão, mas, se viermos a ser resgatados, a pressão limitar-se-á a deslocar-se em direção a Espanha. Com uma agravante, como os casos grego e irlandês revelam: a diferença entre as taxas de juro nos mercados e dos empréstimos obtidos com a intervenção UE/FMI não é significativa. A Irlanda paga hoje 5,8%, quando Portugal se financiou a 6,7%. O que nos deixa uma certeza: com as políticas de austeridade vigentes na zona euro, o risco de incumprimento é uma realidade quer num país intervencionado quer num que vá mantendo uma ilusão de soberania. (...)"
o resto do meu texto publicado no Expresso da semana passada pode ser lido aqui.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

May the good Lord



May the good Lord shine a light on you,
Make every song (you sing) your favorite tune.
May the good Lord shine a light on you,
Warm like the evening sun.

(demorei uns vinte anos e tive de insistir muito para entrar nisto. não sei o que se terá passado. agora, resta-me agradecer ao vasco o empurrão definitivo, dado aqui há uns seis meses, para comprar o exile on main street - um disco que, aliás, eu já conhecia através do pastiche que os primal scream fizeram há quinze anos).

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A Anna Calvi que espere



Pitchfork: A few years ago, you told me in in an interview that the best indie-rock guitarist is not fit to carry strings for a B-list death metal dude.

John Darnielle: It remains true. Although I gotta say, Annie Clark from St. Vincent can shred. So can Kaki King. So there are people-- only women, that I know of-- who would be qualified to go work with death metal dudes at their level.

ler o resto, aqui.
e ouvir a Anna Calvi aqui.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Aprender com o caso Lewinsky

"(...) resta saber se há ganhos eleitorais quando se centram as disputas políticas em temas que remetem para o carácter dos candidatos, ao mesmo tempo que secundarizam a diferenciação política. Com as devidas ressalvas, o caso Lewinsky pode bem ser tomado como um exemplo para avaliar dos ganhos eleitorais das campanhas que, em última análise, visam avaliar caracteres.
A esse propósito, num notável artigo, "Monica Lewinsky's Contribution to Political Science", John Zaller chamava a atenção para alguns factos singelos. Desde logo, a popularidade de Clinton não foi afetada pelo escândalo: após um embate negativo, recuperou e acabou por superar a posição inicial. Depois, os eleitores são capazes de discernir além do que é sugerido nos media e os fatores que levam à formação do sentido de voto são relativamente independentes da agenda mediática. Finalmente, a substância política sobrepõe-se à política mediática. O que serve para recordar que, sendo importante que Cavaco esclareça a sua relação com o BPN, do mesmo modo que Sócrates deveria ter esclarecido prontamente a sua relação com a Universidade Independente, o tema será pouco relevante para as escolhas eleitorais no dia 23 de janeiro."
o resto do meu artigo publicado no Expresso de dia 8 de Janeiro pode ser lido aqui.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Depois de mim virá a quem o mesmo acontecerá

Quão iludido está quem com isto espera comprar a imunidade futura.

Há coisas que podiam ter aparecido entre o Caroline no e o hang on to your ego

Assassino ainda vá, agora paneleiro

Carlos Castro não me era indiferente. Pelo contrário, personalizava muitas coisas de que não gosto e que se tornaram muito populares (a histeria mundana; a vulgaridade mediática e a coscuvilhice de sarjeta promovida a jornalismo). Mas o modo condescendente como tem sido tratado o seu bárbaro assassinato, com reflexo nos media e nesse esgoto a céu aberto que são as caixas de comentários e os diversos fóruns, é um fiel retrato do país. Tudo o resto igual, estivéssemos perante um heterossexual sexagenário, castrado pela amante (modelo de vinte anos criada num programa de telelixo e devidamente insuflada), num quarto de hotel em Nova Iorque, ouviríamos um clamor generalizado contra uma “puta” que queria “subir na horizontal” e “sacar dinheiro ao velho”. Em lugar disso, temos o justificacionismo e uma família que, face a uma morte brutal, se tem ocupado em garantir que o filho não era homossexual – trazendo à memória Bernarda Alba quando garantia que a sua filha tinha morrido virgem. O que está em causa é apenas um homicídio particularmente violento e sem qualquer justificação, mas que, pelo caminho, nos revela até onde pode ir a homofobia privada do país, devidamente amplificada nos novos espaços públicos.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Can you beat Victoria Secret?

The Colbert ReportMon - Thurs 11:30pm / 10:30c
MeTunes - Grammy Vote - Dan Auerbach, Patrick Carney & Ezra Koenig<a>
www.colbertnation.com
Colbert Report Full EpisodesPolitical Humor & Satire Blog</a>Video Archive

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

As derradeiras surfadas

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Juízes em causa própria

"(...) estamos a assistir a sucessivas e paulatinas tentativas de usurpação das funções executivas e legislativas por parte do poder judicial. O mecanismo deste feita é claro: o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público apresenta uma queixa e quem vai julgar é, naturalmente, um juiz. Há bons motivos para estarmos preocupados, até porque o que move os juízes não é segredo.
No texto de apresentação do último congresso da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, a ambição não era escondida. Começando por constatar que "o poder judicial (...) corre o risco de se vir a assumir-se como verdadeiro poder", depois do "século XIX (ter sido) do poder legislativo e o século XX o do poder executivo", o sindicato dos juízes não hesita em assumir "anular medidas do poder executivo (...) como exemplo claro de um novo modo de exercício do judiciário". Tudo para culminar no que qualificam como "uma transferência de legitimidade dos poderes legislativo e executivo para o judicial", um processo cuja "visibilidade densifica a sua dimensão política".
Pode bem dar-se o caso da maioria dos magistrados não se rever nem nas atitudes, nem no pensamento estratégico das associações que os representam. Mas enquanto os tolerarem passivamente, temo bem dizê-lo, são coniventes com a pulsão hegemónica do poder judiciário. Podemos concordar ou discordar do PEC, da austeridade e do OE-2011, mas não é isso que está em causa. É, sim, saber se a função dos magistrados é substituírem-se a políticos eleitos. Uma ambição que os sindicatos dos magistrados não escondem."

o resto do meu texto publicado na edição do Expresso de 30 de dezembro de 2010 pode ser lido aqui.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

As lições de Monica Lewinsky

O Tiago diz aqui, com razão, que cada país tem o escândalo Lewinsky que merece. O que me recorda que talvez valha a pena voltar a olhar para as lições que o caso Lewinsky deu à ciência política. Talvez assim se possa antecipar um pouco do que vai acabar por acontecer com a centralidade que o BPN adquiriu na campanha presidencial.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Três tenores ao vivo em Los Angeles



e, a propósito, vale a pena ler esta conversa entre Caetano e Beck:
"I remember clearly the first time I heard somebody talk about you before I saw or heard your music. It was my ex-wife. She saw you on TV and she told me, “You’re going to like this.” It was some awards show I think. Like the Grammys or whatever. I don’t know. Something she saw on TV. I was recording and I came back home and she told me, “There’s this guy Beck. Don’t forget this name because you’re going to like him.” She was explaining to me the way you danced and moved and the suit you were wearing and you were very white! (laughs) She was very precise about that. “The fact that he’s so white is very important when he moves the way he does.” And I was curious so I saw you and I told her she was right. It was very revealing."
que continua aqui.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Imperdoável



Passou 2010 e isto passou por mim.

Um país crisófilo

"(...) Ao contrário do que nos foi sugerido ao longo de anos a fio no espaço público, há mudanças que fazem a diferença. O que nos obriga a introduzir racionalidade no debate público e a encontrar instrumentos para autonomamente identificarmos quais as políticas que respondem aos nossos défices estruturais, sob pena de estas se tornarem, nuns casos, invisíveis, noutros, serem destruídas às mãos das corporações. É que pode bem dar-se o caso de existirem muitas áreas onde as coisas estão a mudar sem que sejamos capazes de nos aperceber. (...)
O drama é que tudo é ofuscado por uma realidade que vive perdida numa tensão insuportável entre, por um lado, quem vê reformas profundas em todas as medidas governativas e, por outro, o totalitarismo do cinismo de quem acha que o país já está condenado. Para superarmos esta dicotomia temos de começar por reformatar o debate público e contrariar o que Alex Ellis classificou de 'crisofilia'. Em Portugal, é uma tarefa hercúlea."
o resto do meu artigo publicado no Expresso de 23 de dezembro de 2010, pode ser lido aqui.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010


''I will be as harsh as truth and as uncompromising as justice. On this subject, I do not wish to speak, or think, or write with moderation. I am in earnest. I will not equivocate, I will not excuse, I will not retreat a single inch, and I will be heard."

William Lloyd Garrison, "To The Public" primeira edição do The Liberator, Janeiro 1831

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Para os pobres, os restos



"(...) Nas últimas semanas, primeiro, com mais uma campanha do Banco Alimentar contra a Fome e, depois, com a iniciativa "direito à alimentação", foi-nos revelado o esforço solidário que, de tempos a tempos, emerge em Portugal. Num país onde o Estado é, simultaneamente, visto como a raiz de todos os males e como o recurso a que todos, sem exceção, recorrem, há boas razões para se elogiar estas ações. Contudo, nada nos obriga a suspender o espírito crítico apenas porque estamos perante um esforço solidário da sociedade civil.
A questão não é tanto discutir a bondade intrínseca das iniciativas, é saber se são de facto eficazes para quebrarmos a espinha à pobreza. É que uma coisa é potenciarmos um conjunto de ações que visa aliviar as formas mais brutais de privação (como faz, e bem, o Banco Alimentar contra a Fome), outra, bem diferente, é intervir para que a pobreza não se reproduza geracionalmente e não se caracterize por ter uma inscrição social tão marcada.
É uma vergonha que, numa sociedade democrática, haja quem tenha fome; mas não é por combatermos a fome que combatemos a pobreza. E o problema é que é-nos frequentemente sugerido que as iniciativas da sociedade civil assentam numa estratégia de substituição do Estado. Ora estas iniciativas têm um carácter supletivo e só são eficazes se as políticas públicas contrariarem os fatores que causam o nosso padrão de desigualdades.
Nada contra que a sociedade civil se organize para combater a fome - ainda que distribuir restos de restaurantes e apresentar a iniciativa num casino tenha uma carga simbólica negativa -, mas não deixa de ser surpreendente que o consenso público em torno do assistencialismo alimentar coexista com uma incapacidade de consensualizar políticas redistributivas que aliviem a privação e políticas educativas que contrariem as assimetrias de origem social. Dá que pensar quando o Presidente da República oferece o seu patrocínio à distribuição de sobras de restaurantes e, ao mesmo tempo, o país discute o aumento do salário mínimo para 500 euros, tolera ataques demagógicos aos "malandros do rendimento mínimo" ou confunde massificação da escola pública com facilitismo. No fundo, permanecemos no exato lugar em que estávamos quando Ruy Belo escreveu: "é tão suave ter bons sentimentos/consola tanto a alma de quem os tem/que as boas ações são inesquecíveis momentos/e é um prazer fazer bem"."

o resto do meu artigo, publicado na edição do Expresso de 18 de Dezembro de 2010, pode ser lido aqui.

com um agradecimento especial ao zé luís que me enviou esta tira da Mafalda.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Já que ninguém pergunta (agora os livros)

Em 2010 não li muitos livros escritos ou traduzidos em 2010. Aliás, nunca percebi bem a dinâmica das listas de livros do ano, quando comparada com a dos discos ou filmes do ano. Ando sempre atrasado nas leituras e, este ano, li óptimos livros escritos há demasiado tempo. Pouco importa. Mais do que as listas de discos, as listas de livros têm apenas um propósito: convencer os outros a lerem os livros que gostámos de ler. Pensando bem, o propósito é outro: convencer os outros a lerem os livros que gostávamos de ter escrito. Se os discos de que gostamos dizem alguma coisa sobre nós, a asserção é ainda mais válida para os livros. Os dois livros de que gostei mais este ano, até podem não ser os dois melhores livros que li este ano, mas são dois livros que eu, caso tivesse alguma inclinação ou engenho, gostaria de ter escrito. Pensando bem, têm traços em comum: são totalmente desprovidos de artifícios, escritos num estilo conciso e nunca caem na tentação de justificar ou explicar. Pensando melhor, são sobre o mesmo tema.



P.S.
Vai chegar o dia em que lerei um livro publicado pela Ahab que não será excelente. Esse dia ainda não chegou. José Rentes de Carvalho tem também um blog que é um erro não ser lido.

O Padre, a Puta e o Atirador Furtivo


Nada se compara ao cinema que não inventa rigorosamente nada.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A democracia capturada

"(...) A generosidade dos caciques que pagam quotas produz vários efeitos. Enquanto fecha os partidos à entrada de novos militantes, reproduz lógicas perversas de poder interno. Por um lado, a perpetuação de uma determinada estrutura de poder é mais fácil de sustentar se não existirem novos militantes; por outro, quem paga quotas vence eleições e quem vence eleições passa a ter mais recursos para, depois, pagar mais quotas.
Perante isto, as direções partidárias tendem a defender que o problema existe a um nível local, mas depois as estruturas nacionais vão encontrando formas de compensar estas disfuncionalidades. É isso que explica que as lideranças, quando confrontadas com a questão, reajam com condescendência - ao ponto do líder da federação do Porto afirmar à "Sábado" que "as quotas são um problema individual de cada militante". Infelizmente, não é assim, são um problema coletivo, que mina a democracia na base e que não deve ser tolerado. Se nada mais, porque o sinal dado é claro: se os partidos não são capazes nem de basear os seus mecanismos de poder interno no cumprimento da lei, nem de torná-los verdadeiramente pluralistas, não há razão para acreditarmos que, uma vez no governo, serão capazes de o fazer no Estado."

o resto do meu artigo publicado na edição do Expresso de 11 de dezembro de 2010 e escrito a propósito disto, pode ser lido aqui

Um texto que um português seria incapaz de escrever

Entre muitas outras qualidades, o Alex Ellis, que por estes dias deixará de ser embaixador do Reino Unido em Portugal, revela uma qualidade que se tem tornada rara por cá: contraria a "crisofilia" lusa. O texto que escreveu este fds no Expresso e que já se pode ler aqui é exemplar.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010



If you're losing your wings
Feather by feather
Love the way they whip away
On the wind

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Jornalismo lelé da cuca

assim em jeito preemptive, para que não haja segundas interpretações, e muito resumidamente (tenho de voltar ao trabalho), o que penso sobre os dois assuntos que marcam as notícias do dia é o seguinte: a) a eventual passagem por Portugal de voos não autorizados para (sublinho o para) Guantánamo é muito grave e se tiver de facto existido algum procedimento menos claro e alguma participação deste ou de anteriores governos em actos ilegais, é motivo suficiente para a demissão do governo. b) o pacote de medidas ontem apresentados, designadamente na componente de indemnizações compensatórias de despedimento não terá grande efeito para combater a crise que hoje enfrentamos. dito isto, estava a ler o público de hoje e nem sei o que dizer.
em primeiro lugar a manchete, em letras garrafais lemos: "cortes nas indemnizações não vão ter grandes efeitos no combate à crise". ou seja, o Público torna uma opinião, aliás ouviu dois advogados dois, não apenas em notícia, mas em manchete. Parece-me um bom caminho para o jornalismo. Não sei mesmo se o melhor não seria tornar os jornais aglomerados de opiniões e acabar de vez com as notícias. Se calhar já é isso que acontece e não fomos avisados.
depois, o mais surpreendente. em mais uma notícia mal amanhada com base nos cables da WikiLeaks, e em dois parágrafos quase seguidos, o Público consegue escrever, primeiro, "Sócrates aceitou permitir o repatriamento de combatentes inimigos de Guantánamo através da base das Lajes", escreve em telegrama de 7 de Setembro de 2007 o chefe da representação diplomática dos EUA em Lisboa, Alfred Hoffman.", para logo depois escrever, "alguns meses depois, questionado no Parlamento por Francisco Louçã sobre se o Governo autorizara ou tivera conhecimento "de qualquer transporte de prisioneiros da CIA por território português para o gulag de Guantánamo", assegurou: "Consultei todos os membros do Governo com responsabilidades neste domínio e devo dizer que o Governo nunca foi consultado sobre essa possibilidade nem nunca autorizou [o sobrevoo do espaço aéreo ou a aterragem na base das Lajes de aviões destinados ao transporte ou transferência de prisioneiros]. Posso responder-lhe em nome deste Governo que nunca aconteceu termos sido consultados e termos autorizado. Estes dois actos nunca existiram."
não sei se estão a ver, mas os dois parágrafos falam de coisas diferentes, enquanto se sugere que se está a falar da mesma coisa.
vou mesmo é trabalhar.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

While my guitar gently weeps (revisited)


terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Now we're talking politics



(com a devida vénia ao francisco mendes da silva, um já velho amigo que, do outro lado da barricada política, conheci por causa do nowhere dos ride)

O maior escritor de surf do mundo


A escrita é o prolongamento da vida por outros meios. Apesar disso, sabemos quem é o melhor surfista do mundo, mas nunca discutimos quem melhor escreve sobre surf. A questão é igualmente importante. Temos as fotografias, os vídeos e os relatos orais, mas só na palavra escrita conseguimos de facto encontrar uma continuação da experiência de surfar uma onda, com todas as suas sensações e matizes. Só no surf escrito conseguimos com detalhe isolar os traços mais marcantes do surf surfado. Ainda assim, escreve-se pouco sobre surf e ainda menos sobre surf em português. Mas, se me perguntarem quem é o melhor escritor de surf do mundo, eu não hesito na resposta. É mulher, é portuguesa e nunca escreveu sobre surf. Mais, se alguma vez reparou num de nós, de prancha no mar, é coisa que infelizmente nunca saberemos.
José Tolentino Mendonça, numa entrevista recente à LER, sugeria que a poesia, depois de escrita, é apropriada por quem a lê. Ganha uma vida nova, tem uma consciência superior, inclusive, à do próprio autor. Eu, sempre que leio os textos de Sophia de Mello Breyner Andresen, tenho essa exacta noção. Aqueles poemas logo se libertam do mar parado da Grécia, da calmaria tranquilizadora e do seu calor límpido, vindo de um jardim inicial. Aproprio-me deles: é o mundo do surf que neles entrevejo e não hesito em dizer que nunca ninguém escreveu sobre surf assim. Sophia sabia do que falava quando escreveu que “o poema sabe mais do que o poeta”. Os seus poemas sabem mais sobre surf do que Sophia podia algum dia ter imaginado.
A ideia já me perseguia, mas tive a certeza que havia em Sophia alguém que escrevia como ninguém sobre o nosso mundo ao ler um assombroso texto de Maria Velho da Costa, sua amiga, em “Evocação de Sophia”. “Sophie en rose”, assim se chama o curto relato de um banho de mar onde o Atlântico se mescla com o Mediterrâneo. Quem escreve é Maria Velho da Costa, mas o que lemos é a paixão de Sophia pelo mar: “poucas coisas são tão alegres como o egoísmo de duas crianças síntonas no seu brinquedo, que era o mar”. A alegria absoluta e infantil é o traço mais marcante do surf e ninguém, como Sophia, olha para esse passado com uma luz cristalina mas marcada a mar. O mar é a sua biografia poética, do mesmo modo que é a nossa.
Percorramos a antologia Mar, onde se juntam os seus poemas que têm o elemento marítimo como referência e neles nos descobrimos, surfistas.
Os nossos temas mais marcantes estão todos lá: a presença obsessiva do mar (“Mar, metade da minha alma é feita de maresia”); o espaço dos encontros connosco mesmos (“As ondas quebravam uma a uma/Eu estava só com a areia e com a espuma/Do mar que cantava só para mim”); um território do mundo mas também manifestação do sagrado (“Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim/(...) Que momentos há em que eu suponho/Seres um milagre criado só para mim”); uma exaltação da liberdade absoluta (“Aqui nesta praia onde/Não há nenhum vestígio de impureza,/Aqui onde há somente/Ondas tombando ininterruptamente/Puro espaço e lúcida unidade,/Aqui o tempo apaixonadamente/Encontra a própria liberdade”); o lugar de contemplação (“Foi no mar que aprendi o gosto da forma bela”); e a recondução a um lugar de origem (“O cântico da longa vasta praia/Atlântica e sagrada/Onde para sempre a minha alma foi criada”).
Não tenho dúvidas, o melhor livro sobre surf alguma vez escrito é a Antologia temática de Sophia, dedicada ao Mar. Nestes textos encontramos uma dicção exacta, que nos guia com uma desarmante simplicidade através do mar, das ondas, das praias e que nos permite elevar os nossos olhares sobre o mundo e a experiência do surf. Nunca nenhuma voz conseguiu, de modo tão preciso, combinar o dramatismo próprio da experiência marítima com um olhar branco e imaculado sobre a satisfação absoluta que dela resulta.
Gosto de pensar que nós, surfistas, somos todos concretizações materiais da experiência abstracta descrita por Sophia. Não por acaso, a sua inscrição final é a que, de algum modo, todos os surfistas têm tatuada no espírito: “quando eu morrer voltarei para buscar/Os instantes que não vivi junto do mar”. É essa a nossa secreta ambição, um dia voltarmos para viver todos os momentos em que não pudemos surfar ondas. Uma forma que encontrámos para compensar os pequenos demónios quotidianos.

publicado na coluna 'Sal na Terra' da SurfPortugal de Julho e republicado aqui, no dia em que é apresentada a antologia poética de Sophia de Mello Breyner Andresen.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Cohen, Darnielle & Jobs

sábado, 11 de dezembro de 2010

O Euro fim



"Estamos a assistir ao desenrolar da história europeia, mesmo diante dos nossos olhos, agora como tragédia. A recomendação do eurogrupo para Portugal fazer reformas estruturais, designadamente no seu mercado de trabalho, é mais um passo no delírio político europeu. É uma intromissão (sem cobertura nos tratados) politicamente errada (em contexto recessivo esta não deveria ser a prioridade da zona euro) e socialmente iníqua (precisamos de reformar o mercado de trabalho, mas não no sentido sugerido). Acima de tudo, é reveladora do precipício para o qual caminhamos e que pode bem destruir o euro e décadas de laboriosa integração europeia.
(...) As recomendações a Portugal, em linha com o imposto à Irlanda, revelam que a maioria política que domina o conselho não percebeu a natureza da crise. Tudo aponta para que a Europa esteja empenhada em fazer com que a economia, não tendo morrido da doença (a crise que nasceu no sistema financeiro), morra da cura. Só assim se compreende que, perante a falência do modelo irlandês, todo ele fundado no desenraizamento social das instituições que gerem a economia (do mercado de trabalho ao sistema financeiro), a Europa obrigue a Irlanda a liberalizar ainda mais. No fundo, estamos face a uma posição semelhante à dos comunistas ortodoxos que insistem que o socialismo real falhou porque não foi verdadeiramente adotado. Trata-se, apenas, de uma aspiração ideológica, contrária às evidências empíricas.
Portugal precisa de modernizar o seu mercado de trabalho. Mas não será por aí que sairemos da situação em que nos encontramos e o que a Europa sugere não é a reforma necessária. A ladainha da excessiva rigidez da nossa regulação laboral esconde várias realidades: a proteção legal foi um contraponto a um sistema de proteção social pouco eficaz e à ausência de mecanismos de autorregulação; a nossa legislação já não é tão rígida como se quer fazer crer; e, no que é a dimensão mais relevante, a rigidez formal coexiste com flexibilidade de facto, o que nos torna um dos países europeus com maior precariedade. O PPE que domina a Europa quer, e muita gente por cá, flexibilizar o despedimento. Muito bem, avancemos nesse sentido, mas, para o fazermos, temos de enfrentar simultaneamente a precariedade. Logo, acabemos também com todas as formas de subcontratação (por exemplo, pondo fim aos recibos verdes) e tornemos o acesso ao subsídio de desemprego mais fácil (reduzindo o número de dias de trabalho necessário para ter direito à prestação)."

o resto do meu artigo publicado na edição do Expresso de 4 de dezembro de 2010 pode ser lido aqui.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Homens de todo o mundo, uni-vos


acho lamentável muito do que tem sido feito pela wikileaks (se tivesse tempo, explicava a parte que não acho lamentável); e acho lamentável a resposta que tem sido dada à wikileaks (desde logo pelos EUA, como escreveria o maradona, depois explico). mas, no meio de tudo isto, fico sem palavras quando se torna possível alguém ser acusado de violação por um preservativo se ter rompido. até porque já vimos todos demasiadas vezes esta história: acções políticas contra os EUA acabam por ter como resposta acusações por crimes sexuais.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Já que ninguém pergunta

E os 10 melhores discos do ano foram:

The National - High Violet
Deerhunter – Halcyon Digest
The Walkmen - Lisbon
Titus Andronicus - The Monitor
Beach House - Teen Dream
Twin Shadow - Forget
Spoon – Transference
LCD Soundsystem – This Is Happening
Extra Lens - Undercard
The Roots – How I Got Over

(sendo que ainda não ouvi o Kanye integralmente)

canção do ano que não está num dos discos do ano: Avi Buffalo - what's in it for you?
maior desilusão do ano: Arcade Fire (logo seguidos de Belle & Sebastian);
por mais que tente não gosto do ano: Black Keys
reedição do ano: Galaxie 500 - On Fire
concerto do ano: National+Pavement (Paris) e Divine Comedy (Lisboa)

moral da lista: só há um estreante (Twin Shadow). o que quer dizer uma de duas coisas: ou não apareceu nada de novo entusiasmante ou eu já não me entusiasmo com nada de novo.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Uma Greve Reveladora



"(...) Uma greve geral de base nacional, hoje, só serve para expor a ineficácia das formas de representação política tradicionais. Há uma enorme descoincidência entre o nível a que continua a ser feita a mobilização (nacional) e o nível das decisões políticas (no mínimo, europeu). Esta descoincidência tem um efeito desmobilizador e revela como esta crise é destruidora económica e socialmente, mas tem também um efeito devastador para os mecanismos de representação. O movimento sindical continua a ter capacidade de resistência, mas revela também impotência para mudar as políticas.
A situação em Portugal será particularmente delicada: sem poder recorrer ao capital que decorre de uma tradição negocial enraizada, restará a memória da contestação política contra os Governos, numa altura em que o poder de decisão já não está nas suas mãos. Quando era necessária uma verdadeira internacionalização das formas de mobilização política, é-nos oferecido um movimento sindical preso às suas idiossincrasias nacionais e que opera num quadro que já não existe. É triste, mas a revelação desta tendência será o principal legado desta greve."

o resto do meu artigo, publicado na edição do Expresso de 27 de novembro de 2010, pode ser lido aqui.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Old Albion

"I'd prefer the plague to the Eton rifles"
Paul Weller (circa 1979)

"David Cameron, stop saying that you like The Smiths, no you don't. I forbid you to like it."
Johnny Marr, (circa 2010) no twitter.

Ainda a vaca fria

Vale bem a pena ler este artigo de Joschka Fischer. Afinal os políticos alemães não desistiram todos de pensar na Europa.
Este é o corolário do artigo, mas não é certamente o mais importante.
"(...)Any eurozone political leader whose primary consideration now is re-election will face certain failure by meeting this historical challenge. But European priorities have to be the primary concern in this crisis – even at the price of losing office. On the other hand, taking this historic initiative would, relative to fainthearted tactical maneuvering, substantially increase politicians’ chances of re-election later.
But Europe has no shortage of politicians. What is urgently required now are genuine statesmen and stateswomen."

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Já esta é excelente, vá lá, superlativamente excelente


Há uma grande discussão para apurar se esta música é melhor cantada pela Jill Scott (tenho de reouvir um velhinho disco dela de que gosto muito), que a escreveu com os Roots mas não a gravou - os mais pacientes podem espreitar aqui - ou se, pelo contrário, esta versão, a mais popular, cantada com a Erykah Badu é superior. Eu não hesito e voto pela contenção. E esta versão, de 1999, revela uma Erykah Badu incrivelmente skinny, bem diferente da de hoje.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Cinco

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Grandes irlandeses



andava a ver se encontrava uma expressão para descrever a música do Neil Hannon e só me ocorre "uplifting".

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Nós Somos a Irlanda

"Há uns meses, Portugal não era a Grécia; entretanto é a Irlanda que não quer ser a Grécia; Portugal que não quer ser a Irlanda; a Espanha que não quer ser Portugal; a Itália que não quer ser a Espanha e, para citar João César Monteiro a outro propósito, mas com o mesmo sentido, "e assim sucessivamente". Há nisto um fundo de verdade: a Grécia tinha contas públicas fraudulentas, a Irlanda um problema gravíssimo no sistema financeiro, Portugal um potencial de crescimento económico medíocre, a Espanha uma bolha imobiliária e a Itália um problema de endividamento público. Nessa medida, cada caso é um caso, com problemas singulares que têm de ter, com urgência, respostas específicas. Mas, ainda assim, este mantra repetido nos vários países da periferia é apenas uma forma de cada um caminhar isoladamente, oferecendo-se como um cordeiro para um sacrifício que dificilmente terá bons resultados. Os países podem, através de medidas de austeridade brutais, tentar resolver os seus problemas, mas não só é duvidoso que isso seja eficaz, como persistirá um problema que está na génese do mal europeu.
(...)
Moral da história: os países da periferia têm um problema comum para enfrentar, sendo que é da sua resolução que nascerá a capacidade para responder com eficácia às singularidades que caracterizam a síndrome económica e financeira de cada país. Se, no curto prazo, a repetição incansável pelos países que se encontram em situação mais frágil de que o seu caso é distinto daquele que está prestes a sucumbir pode funcionar como um balão de oxigénio, não passará muito tempo para que a situação mude. Para estancar o efeito dominó acelerado que destruirá o euro, só há uma alternativa e é de natureza política. Os países da periferia têm de se coligar para dizer: 'nós somos a Irlanda'."

o resto do meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lido aqui.

Resultados do fim-de-semana


Justiça, 1 - Judiciário, 0

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Tão mau e ao mesmo tão bom, vá lá, excelente

Há mais de dez anos na minha short-list

The Colbert ReportMon - Thurs 11:30pm / 10:30c
Robert Reich
www.colbertnation.com
Colbert Report Full Episodes2010 ElectionMarch to Keep Fear Alive

"Uma cara que está a rir"

Se calhar é, para citar o João Catarino, apenas uma questão de "predisposição". ver aqui.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Portugal não é a Espanha/Irlanda (escolha a opção que mais lhe convém)

Um cheirinho do que o Economist escreve sobre Espanha, o tal país que é "too big to fall" e onde se fala das contas dos governos regionais, que provavelmente se tornarão o tema central da agenda política europeia daqui a 2/8 semanas (escolha a opção que lhe parece mais provável).

"Unemployment is stuck at over 20%, while inflation is higher than in Germany. Public debt is low, but the debts of Spanish households and firms are far above the European average. They are being financed from abroad: the current-account deficit is still over 4% of GDP. The banks and the cajas have yet to own up to the full extent of losses on property loans; the impenetrable accounts of regional governments invite suspicion."
o resto pode ser lido aqui.


Tudo começou a passar-se do outro lado
De uma montanha que desconheço
De todo


Alberto de Lacerda

Um país desenhado



Fez no Verão um ano, o João Catarino percorreu a EN2 com o Buggy e um caderno de desenhos. Na altura, chamei a atenção para o erro que era o serviço público não fazer da viagem um programa de TV. Mas enquanto esse dia não chega, o João lança amanhã um livro que é um caderno da viagem.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A grande depressão e a "prenda para a mais nova"

Coisas como esta fazem parecer as citações a despropósito e o deslumbramento tecnológico como fragilidades aceitáveis, com as quais temos de ser condescendentes. Quando o miserabilismo se junta com o mau gosto (peço imensa desculpa, mas não estamos condenados a, individualmente, considerar a foleirice como uma opção estética como outra qualquer) para culminar num discurso económico errado, podemos anunciar o futuro: uma grande depressão.