
quinta-feira, 12 de maio de 2011
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Sem retorno
Quando se pensava que a saída de cena de Leite Campos serviria para baixar o nível de intensidade dos disparates vindos da São Caetano, eis que Catroga resolveu ocupar o lugar deixado vago. Depois da criminalização do PS, veio uma comparação insultuosa com a Alemanha Nazi. Não há justificação possível para o que Catroga disse hoje ao Público. É o tipo de fronteira que deve ser mesmo intransponível. Quanto a isso, já não há nada a fazer. O que me preocupa agora é mesmo o day-after. São declarações como esta que, ganhe quem ganhar, vão tornar o país literalmente ingovernável após as eleições. Não vai ser nada bonito e Catroga, nas últimas semanas, resolveu juntar-se ao coro de irresponsáveis. É uma tristeza e é indesculpável.
Sei onde é que estavas em 1990

Poucas coisas contribuíram tanto para a minha "identidade de género" como esta série. Deixou o que se costuma chamar de marca indelével, naturalmente irreversível. Ontem, antes dos T.O.D., os Surfer Blood, entre umas quatro canções novas (todas muito doolitlleanas e weezerianas), tocaram Twin Peaks. O lugar não poderia ser mais apropriado. O Rock & Roll Hotel, na outra "margem" de Washington, não se chega a perceber se é saído do universo de Lynch ou se, pelo contrário, foi Lynch que saiu daquele universo.
terça-feira, 10 de maio de 2011
O que tenho andado a ler
-Woody Allen sobre cinco livros que o inspiraram (eu só li um).
-Benjamin Wallace-Wells na New York Mag, what's left of the left (a propósito de Paul Krugman, mas onde se pode ler uma frase de Barack Obama que devia estar escrita num post-it na testa de todos os líderes partidários portugueses: "I don’t expect the details in any final agreement to look exactly like the approach I laid out today. This is a democracy; that’s not how things work.”
- David Brooks, the politics of solipsism - (a tensão entre República e Democracia e a forma como os valores associados à segunda se têm sobreposto aos da primeira com consequências negativas em termos de políticas).
- Paul Krugman, The Unswidom of Elites (uma explicação da crise internacional e também da crise da zona Euro que, surpreendentemente, não responsabiliza José Sócrates).
- Ken Johnson, The power of the situation room photograph (ainda a propósito da foto da equipa presidencial a assistir ao desenrolar dos acontecimentos no Paquistão).
- Gordon S. Wood, Those sentimental Americans (sobre Abigail e John Adams - a primeira primeira família -, que nos deixaram uma notável troca epistolar, onde fica revelada a importância dos sentimentos na fundação da democracia norte-americana).
- Quem são e como treinam os SEALS (a força especial do exército norte-americano que matou Bin Laden), na Vanity Fair.
-Benjamin Wallace-Wells na New York Mag, what's left of the left (a propósito de Paul Krugman, mas onde se pode ler uma frase de Barack Obama que devia estar escrita num post-it na testa de todos os líderes partidários portugueses: "I don’t expect the details in any final agreement to look exactly like the approach I laid out today. This is a democracy; that’s not how things work.”
- David Brooks, the politics of solipsism - (a tensão entre República e Democracia e a forma como os valores associados à segunda se têm sobreposto aos da primeira com consequências negativas em termos de políticas).
- Paul Krugman, The Unswidom of Elites (uma explicação da crise internacional e também da crise da zona Euro que, surpreendentemente, não responsabiliza José Sócrates).
- Ken Johnson, The power of the situation room photograph (ainda a propósito da foto da equipa presidencial a assistir ao desenrolar dos acontecimentos no Paquistão).
- Gordon S. Wood, Those sentimental Americans (sobre Abigail e John Adams - a primeira primeira família -, que nos deixaram uma notável troca epistolar, onde fica revelada a importância dos sentimentos na fundação da democracia norte-americana).
- Quem são e como treinam os SEALS (a força especial do exército norte-americano que matou Bin Laden), na Vanity Fair.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Surpreendente mas compreensível
"Há um ano e meio, Passos Coelho exigia a Ferreira Leite uma vitória com maioria absoluta. Num artigo no Jornal de Negócios, escreveria mesmo que “é necessário lutar por um resultado mais largo (...). Para não haver dúvidas sobre o caminho a seguir nem sobre a vontade de mudança do país.” O apelo fazia sentido. O PSD havia vencido as europeias e com o desemprego em alta, a economia com um comportamento medíocre e a imagem do primeiro-ministro desgastada, todos os factores determinantes do voto jogavam a favor de Ferreira Leite. Contudo, uma campanha em que abandonou as questões económicas para se centrar num tema que se autodestruía (a ‘claustrofobia democrática’), uma liderança que se empenhou em dividir o partido e uma candidata sem carisma e que nunca chegou a apresentar um programa eleitoral levariam o PSD a uma improvável derrota. Passos tinha razão, o PSD devia ter ganho as últimas legislativas. E agora?
Ano e meio depois, a exigência do agora líder do PSD faz ainda mais sentido. Todas as variáveis que deveriam ter levado Ferreira Leite à vitória não só continuam presentes como se intensificaram. O desemprego não parou de subir, a economia entrou em recessão, o primeiro-ministro é muito impopular e o Governo perdeu a sua narrativa dominante, acabando por pedir um resgate que sempre defendera não ser necessário. O normal seria que o PSD liderasse confortavelmente as sondagens. Estranhamente, a maioria absoluta parece estar fora do alcance de Passos Coelho, uma maioria com o CDS está também em risco e, ainda mais surpreendente, a possibilidade de vitória de Sócrates não se encontra afastada. O cenário tem tanto de improvável como de compreensível.(...)"
no meu artigo de 30 de Abril no Expresso tentei encontrar algumas explicações para a incapacidade do PSD em descolar nas sondagens. O resto pode ser lido aqui.
Ano e meio depois, a exigência do agora líder do PSD faz ainda mais sentido. Todas as variáveis que deveriam ter levado Ferreira Leite à vitória não só continuam presentes como se intensificaram. O desemprego não parou de subir, a economia entrou em recessão, o primeiro-ministro é muito impopular e o Governo perdeu a sua narrativa dominante, acabando por pedir um resgate que sempre defendera não ser necessário. O normal seria que o PSD liderasse confortavelmente as sondagens. Estranhamente, a maioria absoluta parece estar fora do alcance de Passos Coelho, uma maioria com o CDS está também em risco e, ainda mais surpreendente, a possibilidade de vitória de Sócrates não se encontra afastada. O cenário tem tanto de improvável como de compreensível.(...)"
no meu artigo de 30 de Abril no Expresso tentei encontrar algumas explicações para a incapacidade do PSD em descolar nas sondagens. O resto pode ser lido aqui.
A monomania da renovação
Os partidos vivem obcecados com a renovação, de preferência se esta assentar numa contabilidade em torno da extensão do rejuvenescimento dos órgãos partidários. A ideia de que os partidos se renovam substituindo uns maduros por uns jovens, mais ou menos turcos, é naturalmente bem acompanhada pelos jornalistas, que tendem a avaliar o que se passa em cada congresso contando quantas pessoas saíram dos órgãos centrais (normalmente, as saídas são classificadas de 'purgas') e quantas entraram. O disparate é sempre garantido e vai-se perpetuando o mito de que os partidos se renovam através do rejuvenescimento (o resultado tende a ser precisamente o contrário, como se prova pelo caso extremo do PCP).
A propósito, leia-se este pedaço de uma notícia do Público de hoje:"Dos 65 membros eleitos, 20 estreiam-se neste órgão.
Sem grandes novidades e com pouca renovação, o actual quadro dirigente saiu reforçado da reunião magna dos bloquistas."
Estamos perante o último período de um parágrafo e o primeiro do parágrafo imediatamente a seguir. Não sei exactamente o que é que significa para o Público renovação, mas, pelos critérios que os jornais costumam aplicar a estas coisas, não me parece que a estreia de 20 dirigentes em 65 possa significar ausência de novidades e pouca renovação.
A propósito, leia-se este pedaço de uma notícia do Público de hoje:"Dos 65 membros eleitos, 20 estreiam-se neste órgão.
Sem grandes novidades e com pouca renovação, o actual quadro dirigente saiu reforçado da reunião magna dos bloquistas."
Estamos perante o último período de um parágrafo e o primeiro do parágrafo imediatamente a seguir. Não sei exactamente o que é que significa para o Público renovação, mas, pelos critérios que os jornais costumam aplicar a estas coisas, não me parece que a estreia de 20 dirigentes em 65 possa significar ausência de novidades e pouca renovação.
sábado, 7 de maio de 2011
sexta-feira, 6 de maio de 2011
A pobreza da opinião

Ontem fui convidado do Delito de Opinião, onde publiquei um post a propósito das diferenças entre a opinião que se publica nos jornais norte-americanos e a que se publica em Portugal. Pode ser lido aqui.
quinta-feira, 5 de maio de 2011
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Benfiquista como nós
O álbum novo do Panda Bear não é um 'Person Pitch', mas 'last night at the jetty' entra directamente para o top-10 das canções escritas por Brian Wilson. É só pena Benfica não ser a canção mais conseguida do disco. Tem, ainda assim, a força da ideia.
adenda: Oliver Platt na New York Magazine - "‘Holy crap! What is that?’ Because it’s at once familiar—so freaking Beach Boys—and yet wildly original. And Panda Bear sounds so much like Brian Wilson; he’s got a natural gift for harmony. If there ever was a type of music that you could label as ‘channeled’ on some level, it’s [Panda Bear’s]. I love Animal Collective, but I find his [solo] stuff … I don’t want to say more accessible, but it goes quicker to that place at the back of your neck where your brain stem starts to buzz. And the next thing you know, you’re flinging yourself around the room, crying with the thrill of living.” (entrevista aqui.)
adenda: Oliver Platt na New York Magazine - "‘Holy crap! What is that?’ Because it’s at once familiar—so freaking Beach Boys—and yet wildly original. And Panda Bear sounds so much like Brian Wilson; he’s got a natural gift for harmony. If there ever was a type of music that you could label as ‘channeled’ on some level, it’s [Panda Bear’s]. I love Animal Collective, but I find his [solo] stuff … I don’t want to say more accessible, but it goes quicker to that place at the back of your neck where your brain stem starts to buzz. And the next thing you know, you’re flinging yourself around the room, crying with the thrill of living.” (entrevista aqui.)
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Onde é que estavas quando se soube da morte do Bin Laden?
Nas primeiras filas do Merriweather Post-Pavilion (um sítio que vale bem o nome de um grande álbum)
o inferno é a Europa
"Quando há umas semanas Cavaco Silva corrigia os portugueses dizendo que já não se dizia FMI, mas FEEF, estava, no seu tom professoral, a tocar numa questão nevrálgica. Hoje, o inferno deixou de ser, como no passado, o FMI e passou a ser o fundo europeu de estabilização financeira. Não é por isso surpreendente que, na negociação do nosso resgate, o FMI queira um empréstimo mais dilatado, com juros mais baixos, de modo a atenuar os efeitos recessivos do pacote financeiro, enquanto a Europa prossegue a sua cruzada moral, com juros mais elevados e prazos mais curtos, sem cuidar dos efeitos económicos das suas exigências.
Ainda a semana passada, o director do FMI, Strauss-Kahn, chamava a atenção para a necessidade de ajustamentos orçamentais sensíveis ao emprego e à distribuição de rendimentos, alicerces da prosperidade económica e da estabilidade política. Enquanto o FMI muda, a Europa encontra-se politicamente fragmentada, com uma economia em cacos e um sistema financeiro que não resistirá a nenhum teste de stress sério. O que trouxe a Europa até aqui não foi nenhum desvio moral, mas problemas na arquitetura institucional do Euro que, enquanto dificultaram a modernização das economias periféricas, incentivaram comportamentos patológicos, aos quais nem Governos, nem sector financeiro souberam ou quiseram responder. A criação de um mercado comum, primeiro, e de uma moeda única, depois, sem política orçamental coordenada e sem integração política, foi uma tentativa de construir um arranha-céus sem fundações. Uma vez chegada a intempérie, a opção tem sido deixar ruir o edifício, em lugar de reforçar as fundações. Estamos a ver os primeiros andares a ruírem um a um. (...)"
o resto do meu artigo do Expresso de 22 de Abril pode ser lido aqui.
Ainda a semana passada, o director do FMI, Strauss-Kahn, chamava a atenção para a necessidade de ajustamentos orçamentais sensíveis ao emprego e à distribuição de rendimentos, alicerces da prosperidade económica e da estabilidade política. Enquanto o FMI muda, a Europa encontra-se politicamente fragmentada, com uma economia em cacos e um sistema financeiro que não resistirá a nenhum teste de stress sério. O que trouxe a Europa até aqui não foi nenhum desvio moral, mas problemas na arquitetura institucional do Euro que, enquanto dificultaram a modernização das economias periféricas, incentivaram comportamentos patológicos, aos quais nem Governos, nem sector financeiro souberam ou quiseram responder. A criação de um mercado comum, primeiro, e de uma moeda única, depois, sem política orçamental coordenada e sem integração política, foi uma tentativa de construir um arranha-céus sem fundações. Uma vez chegada a intempérie, a opção tem sido deixar ruir o edifício, em lugar de reforçar as fundações. Estamos a ver os primeiros andares a ruírem um a um. (...)"
o resto do meu artigo do Expresso de 22 de Abril pode ser lido aqui.
sábado, 30 de abril de 2011
O melhor é pedir já asilo
A tentativa de criminalização do PS não começou ontem, nem sequer se iniciou com Sócrates. Mas, na verdade, tem, nos últimos anos, atingido proporções impensáveis e encontrado activistas entre protagonistas improváveis. Hoje, acordei e fiquei estupefacto com as declarações que li de Catroga (que é o senador que Passos Coelho tem para apresentar). Estou suficientemente à vontade, pois tenho a meu favor um número suficiente de discordâncias com o Governo de Sócrates e o que tem sido a sua linha de actuação (e, aliás, não vejo dificuldade em, à direita, se definir uma linha programática coerente que, além do mais, deveria permitir uma vitória eleitoral folgada), mas, confesso, que esta insistência do PSD na criminalização, por todos os meios possíveis, da acção de Sócrates, sendo, no imediato, uma confissão da incapacidade de vencer politicamente o actual primeiro-ministro (que começa a assumir contornos patológicos), tornou-se um passo que nos envia a todos para terrenos muito perigosos – dos quais teremos muita dificuldade em sair durante demasiado tempo. Perante o nível do nosso “debate”, não posso deixar de pensar que se eu, que sou politizado (provavelmente demasiado), só tenho vontade de me manter afastado do país e da nossa política, que pensarão os outros portugueses que seguem com salutar distância o quotidiano político? Depois admirem-se do resultado eleitoral que vão ter e da sepultura que, pelo caminho, estão a cavar para todos nós.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
quinta-feira, 28 de abril de 2011
A riot of my own
Note to self: vamos cometendo muitos erros, o menor dos quais não foi certamente ter-me afastado do pós-punk 'camusiano' (The Fall), do hard-core como 'cosa mentale' (Naked City), nem do punk regado a Guiness (Pogues) ou pura e simplesmente daquele que encontrava a energia primitiva no baixo materialismo (Clash). Ontem, regressei a tudo isso e tive a certeza da dimensão do erro. Os Double Dagger reconciliaram-me com os Fall e com os Titus Andronicus assisti (e participei com a moderação possível), durante os cerca de vinte minutos da sequência "the battle of hampton roads" e "a more perfect union", a uma descarga de energia e de suor que me fez andar para trás. Mas, em dia de programa de governo, nada como voltar a erguer o punho e, emocionado, gritar "white riot. I wanna a riot of my own", durante a breve citação dos Clash durante "fear and loathing in Mahwah, NJ". Se não é para isto que serve o rock'n'roll.
Para os resistentes, aqui fica a actuação dos Titus Andronicus no Coachella este ano (com luz do dia e palco festivo a estragar a festa) e ainda os Double Dagger (um trio de voz, baixo e bateria que parece resultar das frustrações de três teses de doutoramento sobre o idealismo alemão).
para os menos resistentes, 'the battle of hampton roads' em todo o seu esplendor.
Para os resistentes, aqui fica a actuação dos Titus Andronicus no Coachella este ano (com luz do dia e palco festivo a estragar a festa) e ainda os Double Dagger (um trio de voz, baixo e bateria que parece resultar das frustrações de três teses de doutoramento sobre o idealismo alemão).
para os menos resistentes, 'the battle of hampton roads' em todo o seu esplendor.
Titus Andronicus | FOR NO ONE from FOR NO ONE on Vimeo.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
sábado, 23 de abril de 2011
Pescado à linha
"Após o surpreendente resultado de Fernando Nobre nas presidenciais, fiquei com uma certeza. Hoje, se o “Rato Mickey” se candidatar a eleições em Portugal, com uma plataforma programática suficientemente confusa e centrar o essencial do seu discurso na crítica aos partidos, arrisca-se a ter 10% dos votos. O terreno está fértil para quem ataque ou parodie o sistema político e, como se tem visto nas últimas semanas, com o triste espectáculo de cacofonia em torno do resgate financeiro, os partidos não perdem uma oportunidade para confirmar a má opinião que deles se faz. Nobre foi mais um a pôr-se de fora e a lucrar eleitoralmente com essa atitude. Mas se há quinze dias sabíamos que Nobre era crítico dos partidos, esta semana ficámos a saber que, no fundo, o problema dos partidos era simples: nunca o haviam convidado para um cargo à sua altura.
(...)
O problema não são as contradições de Nobre ou as posições divergentes face ao PSD, o que é lamentável é que os partidos pesquem independentes à linha, interiorizando as críticas que lhes são feitas, enquanto, ao fazerem-no, aproveitam para não enfrentarem nenhum dos problemas estruturais que levam a que cada vez menos as pessoas reconheçam os partidos como seus representantes legítimos.(...)"
o resto do meu artigo publicado no Expresso de 16 de Abril pode ser lido aqui.
(...)
O problema não são as contradições de Nobre ou as posições divergentes face ao PSD, o que é lamentável é que os partidos pesquem independentes à linha, interiorizando as críticas que lhes são feitas, enquanto, ao fazerem-no, aproveitam para não enfrentarem nenhum dos problemas estruturais que levam a que cada vez menos as pessoas reconheçam os partidos como seus representantes legítimos.(...)"
o resto do meu artigo publicado no Expresso de 16 de Abril pode ser lido aqui.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
No princípio, era o ritmo

Há perto de três décadas, um nova-iorquino adoptivo deixava um conselho: “se dançarem, vão perceber a música melhor”. As palavras de David Byrne no início dos oitenta têm sido seguidas à letra por muita gente, mas dificilmente se encontrará um evangelizador tão dedicado como James Murphy. Primeiro como DJ e produtor na editora DFA, depois como líder dos LCD Soundsystem, Murphy colocou o ritmo como centro gravitacional da música – enquanto rompia os espartilhos que segmentavam a música de dança em vários sub-géneros, com poucos vasos comunicantes. A ambição dos LCD Soundsystem era promover uma síntese de (quase) todos os ritmos, vindos de (quase) todos os lados, num pastiche assumido, feito de citações e colagens. Foi com sentimento de missão cumprida que Murphy decidiu colocar fim à sua banda, com cinco concertos em Nova Iorque na semana passada.
Os funerais podem ser momentos de celebração e de evocação do passado. Durante uma maratona em que os LCD Soundsystem percorreram os seus três álbuns de originais, e ainda ‘45:33’ (uma peculiar encomenda da NIKE), não se sentiu nem nostalgia em relação a uma década que já não se repete, nem sentimento de perda, nem receio do vazio que se poderá seguir. Nada disso. Como se podia ler nas t-shirts à venda à entrada do recinto, a palavra de ordem foi mesmo “dançar, dançar, dançar, dançar”. Depois de três horas e meia de concerto, olhando para os rostos exauridos que iam abandonando a gigantesca pista de dança em que se transformou o Terminal 5, o que custa a perceber é como é que é possível que tanta gente dance ininterruptamente durante tanto tempo.
Quem esteve em palco não foi a formação tradicional dos LCD Soundsystem. Aliás, contabilizar o número de músicos que ia alternando de canção em canção foi um exercício difícil. Nunca menos de oito músicos em cena, aos quais se juntaram dois coros, um masculino e um feminino, separados fisicamente. Em muitos momentos, a banda foi aditivada por uma secção de metais (que deu um músculo extra, por exemplo, a ‘Sound of Silver’) e por vários convidados ao longo da noite (Phil Mossman, guitarrista na formação inicial, fez parte do trio de guitarras encarregue de pegar na linha melódica que David Bowie nos deixou em ‘Heroes’ e trazê-la até hoje, numa notável versão de ‘All I Want’, já perto do final do concerto).
Após um início frenético com ‘Dance Yrself Clean’, acompanhado por um chuva de pauzinhos florescentes, previamente distribuídos ao público, que voaram de todos os lados no preciso momento em que a batida se fez sentir pela primeira vez, os LCD foram andando para a frente e para trás na sua carreira: ‘Movement’ revelou-se a canção definitiva do electro-clash; ‘North American Scum’ soou como se fizesse parte do repertório dos White Stripes; ‘All my Friends’, provavelmente o momento da noite, foi reapropriado pela banda, expurgando o tema de qualquer elemento que remetesse para a versão indie-rock dos Franz Ferdinand, e tocado com uma pujança rítmica que se desconhecia; e ‘New York I Love You, But You're Bringing Me Down’, a encerrar o concerto, apelou ao sentimentalismo dos nova-iorquinos, uma cidade onde cosmopolitismo e solidão andam de mãos-dadas.
Mas nenhuma canção espelha de modo tão preciso o conceito que levou Murphy a formar a banda como o primeiro single, ‘Losing my Edge’, uma declaração de intenções. Quando, na fase final do concerto, Murphy, na frente do palco, de microfone bem junto à boca, ia enumerando, sobre uma batida viciante, um sem número de bandas do passado, ‘Losing my Edge’ ia-se transformando num legado para o futuro. Todo o tema é movido pela ‘ansiedade da influência’: por um lado, uma tentativa de consolidar o cânone da música de dança, expurgado de influências negras; por outro, o temor de perder o passo para as novas gerações, capazes de desbravar novos territórios. Por isso mesmo, foi só aí que o concerto soou a fim e a passagem de testemunho. Quando se ouvia, “I was there at the first Can show in Cologne” não era possível não pensar que, afinal, o projecto dos LCD Soundsystem só ganhará sentido se, daqui a uma década, um daqueles miúdos que dançou freneticamente durante três horas e meia, for capaz de reinventar de novo uma parte da música contemporânea e pegar no microfone para cantar: “eu estive lá, no último concerto dos LCD Soundsystem, em Nova Iorque”.
texto publicado no Atual (Expresso) de 9 de Abril.
reparem no que aconteceu ao minuto 4 deste video, que foi também o minuto 4 do concerto.
LCD Soundsystem T5 3/30/2011 from Michael Williams on Vimeo.
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