"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

terça-feira, 17 de maio de 2011

O que tenho andado a ler

- sobre a biografia da mãe de Obama, recentemente publicada, um texto na NY Review of Books que, contando a história de vida da sua mãe, nos ajuda a perceber melhor o Presidente norte-americano.

- Bin Laden’s death and the debate over torture, um artigo de John
McCain crítico do recurso à tortura. Alguém que pode falar com propriedade sobre o assunto e que é, acima de tudo, um homem decente.

- ainda sobre a tortura, Aryeh Neier tem um argumento certeiro: como não temos forma de avaliar a eficácia da recolha de informação através de tortura, a única forma de discutir o assunto é no plano dos princípios.

- o provedor do NY Times sugere que o jornal abandone os eufemismos e passe a utilizar a palavra tortura quando o que está em causa é mesmo tortura.

- Niall Ferguson sobre o novo livro de Henry Kissinger, On China, escrito aos 87 anos. E a recensão do NY Times.

- Robert Samuelson contraria a ideia feita de que a idade e a passagem a pensionista se traduz em empobrecimento. O argumento é muito centrado em evidências do caso norte-americano, mas há elementos que estão também presentes em Portugal.

- uma longa entrevista ao Robin Pecknold na qual, infelizmente, não são referidas as 'Acid Tapes'.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Discos Perdidos


O boato já tinha quase quatro décadas. Em 1970, após a edição de Déjà Vu, Crosby, Stills, Nash & Young ter-se-ão juntado a Brian Wilson para gravarem cerca de dez temas. Durante muito tempo, a existência das míticas 'Acid Tapes' não passou disso mesmo, de um mito. Apesar de ter havido quem tenha jurado ter ouvido uns originais durante um sit-in em Berkeley, não mais se ouviu falar das 'Acid Tapes'. Há cerca de dez anos, na sua auto-biografia - Memories from the Airplane - , escrita a meias com Greil Marcus, Grace Slick não só reconhecia a existência das gravações, como contava ter feito backing vocal em dois temas. Neil Young e Brian Wilson, sempre que foram confrontados com as 'Acid Tapes', afirmaram não se recordarem da existência de tais gravações. Há cerca de um ano, o assunto regressou. Numa visita a uma clínica de reabilitação onde tinha passado uma parte importante do ano de 1972, foram devolvidas a Graham Nash umas fitas de que o próprio já não se recordava. Desde então, a história é mais ou menos conhecida. As 'Acid Tapes', de facto, existiam. Contudo, Young e Wilson recusaram-se que estas vissem a luz do dia. O som era irrecuperável, em alguns momentos tornava-se penoso ouvir as fitas e o estado dos cinco aquando da gravação, algures em San Diego, estava longe de ser o apropriado. Que fazer? A ideia terá sido de Brian Wilson: oferecer as 'Acid Tapes' a uma banda que se comprometesse a regravá-las, alterando pouco os arranjos iniciais, e destruindo as fitas originais no fim. A escolha da banda era mais ou menos óbvia e o resultado foi conhecido há um par de semanas e pode ser integralmente escutado aqui. Ontem, tive o privilégio de ouvir ao vivo a interpretação quase integral das 'Acid Tapes'. Não me recordo de assistir a uma homenagem tão conseguida e sentida a uma música vinda directamente do passado.

sábado, 14 de maio de 2011

Nunca suficientemente humanos


“Robert, é provável que percas um ou mais dos teus fuzileiros, se é que isso não aconteceu já. Não deixes que os teus homens se deprimam ou fiquem presos às perdas... Nunca deixes que eles tirem prazer do ato de matar ou que odeiem o inimigo. É impossível retirar toda a emoção, mas tenta que tudo se mantenha o mais impessoal e mecânico possível. Os Talibãs têm o seu objectivo e nós o nosso. Isto é... o combate é tão desumano; tens de ajudar os teus homens a manterem a humanidade, bem como um sentido de perspectiva e de proporção”. Este excerto é parte de uma carta do general John Kelly, o militar de patente mais elevada a perder um filho no Afeganistão. Escrita dias antes da morte, é um eco notável da moralidade que, ainda assim, é possível encontrar na guerra.
No noite de domingo, terminado o anúncio do Presidente Obama, por momentos, quando a televisão começou a mostrar as primeiras pessoas que festejavam na rua a morte de Bin Laden, senti-me inclinado a percorrer a meia-dúzia de quarteirões que me separam da Casa Branca. Um misto de cansaço e de desconforto com o ambiente celebratório prenderam-me em casa. E, porventura por ser pai, os estranhos caminhos da memória reenviaram-me para o general Kelly. Foi nessa história, lida num jornal meses atrás, que encontrei o conforto moral que sempre nos parece fugir perante a morte, mesmo daqueles que, personificando o mal, desprezamos.
Mas em nenhum outro sítio como numa fotografia, entretanto muito reproduzida, encontrei a humanidade que procuramos face à morte e a humildade que devemos revelar perante o mal. Numa imagem libertada pela Casa Branca, podemos testemunhar o ambiente da ‘situation room’, enquanto era acompanhada a operação militar através de imagens enviadas em direto desde o Afeganistão. Em torno de uma mesa, vemos, num tempo suspenso, Hillary com a mão a tapar a boca, Biden recostado e Obama, prostrado a um canto, com os ombros encolhidos e a tez cingida pelos acontecimentos que não vemos, mas cuja violência podemos imaginar. Naquela fotografia, que faz parte dos poderosos mecanismos de construção simbólica da presidência norte-americana, é-nos sugerida uma moralidade que ajuda a contrariar o relativismo com que a rua, no mundo árabe, mas também no Ocidente, celebra a morte.
Naquele momento, fui capaz de entrever a liderança pelo exemplo que Obama prometeu. Um Presidente que tem perto de dois metros de altura nunca teve aos meus olhos uma estatura moral tão elevada como no ar angustiado e no corpo retraído com que seguia a operação militar. Naquele olhar, encontrei uma ressonância profunda das palavras do general Kelly: a guerra é necessariamente desumana e não lhe podemos retirar toda a emoção, mas é precisamente por isso que devemos manter sempre a humanidade. Se, por absurdo, em algum momento duvidar da superioridade moral do Ocidente, posso encontrá-la na humildade do rosto daquele homem e nas palavras do chefe militar ao seu filho, em tudo contrastantes com a cultura da morte que caracteriza a Al-Qaeda e o fundamentalismo islâmico.

publicado no Expresso de 7 de Maio

sexta-feira, 13 de maio de 2011

E as vezes que esta ideia me passa pela cabeça



"Se pudesse ir de férias para um lugar onde não tivesse ninguém, onde tratassem de mim, eu até escrevia o dia todo. Mas não escrevia nada. É um sonho."
José Rentes de Carvalho que pode ser lido aqui, hoje no Público.

Se não gostarem, nós mudamos

Para além da confusão interna que tem reinado, agora ficou-se a saber uma outra coisa: quando o programa do PSD desagradar, Passos promete melhorá-lo para satisfazer os interesses dos atingidos. Como forma de defender o interesse comum face a interesses particulares, não me recordo assim de nenhuma atitude mais perniciosa. Esta peça da TSF a propósito do lançamento de um livro de um professor, apresentado e prefaciado por Passos Coelho, é paradigmática do que não pode ser um candidato a primeiro-ministro. Eu começo a achar que alguém tem mesmo de ajudar o PSD a acabar a campanha com dignidade.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

O que tenho andado a ler

- Mark Weisbrot, Why Greece should say no the the Euro (um argumento que tenderá a intensificar-se muito nos próximos meses e que acabará inevitavelmente por alargar-se a Portugal).

- Uma conversa com Stan Lee no Washington Post, onde este oferece uma explicação para o sucesso dos super-heróis, que não passa de moda.

- Ainda sobre o sucesso dos super-heróis, um argumento mais sofisticado, mas, também, mais convincente neste artigo, a propósito do flop que está a ser o Spider-Man na Broadway.

- Algumas lições da Argentina para os países da periferia da Zona Euro, por Domingo Cavallo, ex-ministro das finanças argentino (um artigo com um ano, mas que mantém a actualidade).

- Como é que evoluiu a popularidade dos vários gadgets nos últimos trinta anos.

- Thomas Friedman explica, com meridiana clareza, como, apesar da morte de Bin Laden, a estrutura que tem tornado a Al-Qaeda, entre outras coisas, financeiramente sustentável se mantém intacta.

Má fortuna

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Sem retorno

Quando se pensava que a saída de cena de Leite Campos serviria para baixar o nível de intensidade dos disparates vindos da São Caetano, eis que Catroga resolveu ocupar o lugar deixado vago. Depois da criminalização do PS, veio uma comparação insultuosa com a Alemanha Nazi. Não há justificação possível para o que Catroga disse hoje ao Público. É o tipo de fronteira que deve ser mesmo intransponível. Quanto a isso, já não há nada a fazer. O que me preocupa agora é mesmo o day-after. São declarações como esta que, ganhe quem ganhar, vão tornar o país literalmente ingovernável após as eleições. Não vai ser nada bonito e Catroga, nas últimas semanas, resolveu juntar-se ao coro de irresponsáveis. É uma tristeza e é indesculpável.

Sei onde é que estavas em 1990


Poucas coisas contribuíram tanto para a minha "identidade de género" como esta série. Deixou o que se costuma chamar de marca indelével, naturalmente irreversível. Ontem, antes dos T.O.D., os Surfer Blood, entre umas quatro canções novas (todas muito doolitlleanas e weezerianas), tocaram Twin Peaks. O lugar não poderia ser mais apropriado. O Rock & Roll Hotel, na outra "margem" de Washington, não se chega a perceber se é saído do universo de Lynch ou se, pelo contrário, foi Lynch que saiu daquele universo.

Eu nunca estive no deserto, mas é que como se lá tivesse estado



Os Trail of Dead, ontem, no Rock & Roll Hotel, como se fosse o deserto de Mojave.

terça-feira, 10 de maio de 2011

O que tenho andado a ler

-Woody Allen sobre cinco livros que o inspiraram (eu só li um).

-Benjamin Wallace-Wells na New York Mag, what's left of the left (a propósito de Paul Krugman, mas onde se pode ler uma frase de Barack Obama que devia estar escrita num post-it na testa de todos os líderes partidários portugueses: "I don’t expect the details in any final agreement to look exactly like the approach I laid out today. This is a democracy; that’s not how things work.”

- David Brooks, the politics of solipsism - (a tensão entre República e Democracia e a forma como os valores associados à segunda se têm sobreposto aos da primeira com consequências negativas em termos de políticas).

- Paul Krugman, The Unswidom of Elites (uma explicação da crise internacional e também da crise da zona Euro que, surpreendentemente, não responsabiliza José Sócrates).

- Ken Johnson, The power of the situation room photograph (ainda a propósito da foto da equipa presidencial a assistir ao desenrolar dos acontecimentos no Paquistão).

- Gordon S. Wood, Those sentimental Americans (sobre Abigail e John Adams - a primeira primeira família -, que nos deixaram uma notável troca epistolar, onde fica revelada a importância dos sentimentos na fundação da democracia norte-americana).

- Quem são e como treinam os SEALS (a força especial do exército norte-americano que matou Bin Laden), na Vanity Fair.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Surpreendente mas compreensível

"Há um ano e meio, Passos Coelho exigia a Ferreira Leite uma vitória com maioria absoluta. Num artigo no Jornal de Negócios, escreveria mesmo que “é necessário lutar por um resultado mais largo (...). Para não haver dúvidas sobre o caminho a seguir nem sobre a vontade de mudança do país.” O apelo fazia sentido. O PSD havia vencido as europeias e com o desemprego em alta, a economia com um comportamento medíocre e a imagem do primeiro-ministro desgastada, todos os factores determinantes do voto jogavam a favor de Ferreira Leite. Contudo, uma campanha em que abandonou as questões económicas para se centrar num tema que se autodestruía (a ‘claustrofobia democrática’), uma liderança que se empenhou em dividir o partido e uma candidata sem carisma e que nunca chegou a apresentar um programa eleitoral levariam o PSD a uma improvável derrota. Passos tinha razão, o PSD devia ter ganho as últimas legislativas. E agora?
Ano e meio depois, a exigência do agora líder do PSD faz ainda mais sentido. Todas as variáveis que deveriam ter levado Ferreira Leite à vitória não só continuam presentes como se intensificaram. O desemprego não parou de subir, a economia entrou em recessão, o primeiro-ministro é muito impopular e o Governo perdeu a sua narrativa dominante, acabando por pedir um resgate que sempre defendera não ser necessário. O normal seria que o PSD liderasse confortavelmente as sondagens. Estranhamente, a maioria absoluta parece estar fora do alcance de Passos Coelho, uma maioria com o CDS está também em risco e, ainda mais surpreendente, a possibilidade de vitória de Sócrates não se encontra afastada. O cenário tem tanto de improvável como de compreensível.(...)"
no meu artigo de 30 de Abril no Expresso tentei encontrar algumas explicações para a incapacidade do PSD em descolar nas sondagens. O resto pode ser lido aqui.

A monomania da renovação

Os partidos vivem obcecados com a renovação, de preferência se esta assentar numa contabilidade em torno da extensão do rejuvenescimento dos órgãos partidários. A ideia de que os partidos se renovam substituindo uns maduros por uns jovens, mais ou menos turcos, é naturalmente bem acompanhada pelos jornalistas, que tendem a avaliar o que se passa em cada congresso contando quantas pessoas saíram dos órgãos centrais (normalmente, as saídas são classificadas de 'purgas') e quantas entraram. O disparate é sempre garantido e vai-se perpetuando o mito de que os partidos se renovam através do rejuvenescimento (o resultado tende a ser precisamente o contrário, como se prova pelo caso extremo do PCP).
A propósito, leia-se este pedaço de uma notícia do Público de hoje:"Dos 65 membros eleitos, 20 estreiam-se neste órgão.
Sem grandes novidades e com pouca renovação, o actual quadro dirigente saiu reforçado da reunião magna dos bloquistas."
Estamos perante o último período de um parágrafo e o primeiro do parágrafo imediatamente a seguir. Não sei exactamente o que é que significa para o Público renovação, mas, pelos critérios que os jornais costumam aplicar a estas coisas, não me parece que a estreia de 20 dirigentes em 65 possa significar ausência de novidades e pouca renovação.

sábado, 7 de maio de 2011

Nunca suficientemente humanos


o meu artigo no Expresso de hoje percebe-se melhor olhando para esta foto e lendo este texto.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A pobreza da opinião


Ontem fui convidado do Delito de Opinião, onde publiquei um post a propósito das diferenças entre a opinião que se publica nos jornais norte-americanos e a que se publica em Portugal. Pode ser lido aqui.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Por absurdo que possa parecer, é possível ter pena de não estar em Lisboa



Hoje, em particular, lembro-me de que o gosto mesmo é de ciclismo e que o Bartali é um super-herói.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Benfiquista como nós

O álbum novo do Panda Bear não é um 'Person Pitch', mas 'last night at the jetty' entra directamente para o top-10 das canções escritas por Brian Wilson. É só pena Benfica não ser a canção mais conseguida do disco. Tem, ainda assim, a força da ideia.



adenda: Oliver Platt na New York Magazine - "‘Holy crap! What is that?’ Because it’s at once familiar—so freaking Beach Boys—and yet wildly original. And Panda Bear sounds so much like Brian Wilson; he’s got a natural gift for harmony. If there ever was a type of music that you could label as ‘channeled’ on some level, it’s [Panda Bear’s]. I love Animal Collective, but I find his [solo] stuff … I don’t want to say more accessible, but it goes quicker to that place at the back of your neck where your brain stem starts to buzz. And the next thing you know, you’re flinging yourself around the room, crying with the thrill of living.” (entrevista aqui.)

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Onde é que estavas quando se soube da morte do Bin Laden?



Nas primeiras filas do Merriweather Post-Pavilion (um sítio que vale bem o nome de um grande álbum)

o inferno é a Europa

"Quando há umas semanas Cavaco Silva corrigia os portugueses dizendo que já não se dizia FMI, mas FEEF, estava, no seu tom professoral, a tocar numa questão nevrálgica. Hoje, o inferno deixou de ser, como no passado, o FMI e passou a ser o fundo europeu de estabilização financeira. Não é por isso surpreendente que, na negociação do nosso resgate, o FMI queira um empréstimo mais dilatado, com juros mais baixos, de modo a atenuar os efeitos recessivos do pacote financeiro, enquanto a Europa prossegue a sua cruzada moral, com juros mais elevados e prazos mais curtos, sem cuidar dos efeitos económicos das suas exigências.
Ainda a semana passada, o director do FMI, Strauss-Kahn, chamava a atenção para a necessidade de ajustamentos orçamentais sensíveis ao emprego e à distribuição de rendimentos, alicerces da prosperidade económica e da estabilidade política. Enquanto o FMI muda, a Europa encontra-se politicamente fragmentada, com uma economia em cacos e um sistema financeiro que não resistirá a nenhum teste de stress sério. O que trouxe a Europa até aqui não foi nenhum desvio moral, mas problemas na arquitetura institucional do Euro que, enquanto dificultaram a modernização das economias periféricas, incentivaram comportamentos patológicos, aos quais nem Governos, nem sector financeiro souberam ou quiseram responder. A criação de um mercado comum, primeiro, e de uma moeda única, depois, sem política orçamental coordenada e sem integração política, foi uma tentativa de construir um arranha-céus sem fundações. Uma vez chegada a intempérie, a opção tem sido deixar ruir o edifício, em lugar de reforçar as fundações. Estamos a ver os primeiros andares a ruírem um a um. (...)"

o resto do meu artigo do Expresso de 22 de Abril pode ser lido aqui.

Há coisas muito bonitas, não há?