quarta-feira, 18 de maio de 2011
Da memória
Hoje foram conhecidos os primeiros dados da nova série de emprego do INE. Não sei se estão recordados de uma discussão que ocorreu em Portugal quando se soube da alteração de metodologia do inquérito ao emprego. Entre vários argumentos bastante patetas (é uma questão de procurarem no google), o ponto essencial era que estávamos perante uma forma do governo manipular as estatísticas e fazer descer o desemprego administrativamente. Não sei se deram pelos dados conhecidos hoje.
terça-feira, 17 de maio de 2011
É possível não simpatizar com este tipo?

“That’s not an endorsement. He’s not my favorite person, but he’s a fascinating character.”
Barack Obama on Omar Little, enquanto elege Wire como a sua série favorita (notícia completa aqui; som aqui).
via vasco.
O que tenho andado a ler
- sobre a biografia da mãe de Obama, recentemente publicada, um texto na NY Review of Books que, contando a história de vida da sua mãe, nos ajuda a perceber melhor o Presidente norte-americano.
- Bin Laden’s death and the debate over torture, um artigo de John
McCain crítico do recurso à tortura. Alguém que pode falar com propriedade sobre o assunto e que é, acima de tudo, um homem decente.
- ainda sobre a tortura, Aryeh Neier tem um argumento certeiro: como não temos forma de avaliar a eficácia da recolha de informação através de tortura, a única forma de discutir o assunto é no plano dos princípios.
- o provedor do NY Times sugere que o jornal abandone os eufemismos e passe a utilizar a palavra tortura quando o que está em causa é mesmo tortura.
- Niall Ferguson sobre o novo livro de Henry Kissinger, On China, escrito aos 87 anos. E a recensão do NY Times.
- Robert Samuelson contraria a ideia feita de que a idade e a passagem a pensionista se traduz em empobrecimento. O argumento é muito centrado em evidências do caso norte-americano, mas há elementos que estão também presentes em Portugal.
- uma longa entrevista ao Robin Pecknold na qual, infelizmente, não são referidas as 'Acid Tapes'.
- Bin Laden’s death and the debate over torture, um artigo de John
McCain crítico do recurso à tortura. Alguém que pode falar com propriedade sobre o assunto e que é, acima de tudo, um homem decente.
- ainda sobre a tortura, Aryeh Neier tem um argumento certeiro: como não temos forma de avaliar a eficácia da recolha de informação através de tortura, a única forma de discutir o assunto é no plano dos princípios.
- o provedor do NY Times sugere que o jornal abandone os eufemismos e passe a utilizar a palavra tortura quando o que está em causa é mesmo tortura.
- Niall Ferguson sobre o novo livro de Henry Kissinger, On China, escrito aos 87 anos. E a recensão do NY Times.
- Robert Samuelson contraria a ideia feita de que a idade e a passagem a pensionista se traduz em empobrecimento. O argumento é muito centrado em evidências do caso norte-americano, mas há elementos que estão também presentes em Portugal.
- uma longa entrevista ao Robin Pecknold na qual, infelizmente, não são referidas as 'Acid Tapes'.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Discos Perdidos
O boato já tinha quase quatro décadas. Em 1970, após a edição de Déjà Vu, Crosby, Stills, Nash & Young ter-se-ão juntado a Brian Wilson para gravarem cerca de dez temas. Durante muito tempo, a existência das míticas 'Acid Tapes' não passou disso mesmo, de um mito. Apesar de ter havido quem tenha jurado ter ouvido uns originais durante um sit-in em Berkeley, não mais se ouviu falar das 'Acid Tapes'. Há cerca de dez anos, na sua auto-biografia - Memories from the Airplane - , escrita a meias com Greil Marcus, Grace Slick não só reconhecia a existência das gravações, como contava ter feito backing vocal em dois temas. Neil Young e Brian Wilson, sempre que foram confrontados com as 'Acid Tapes', afirmaram não se recordarem da existência de tais gravações. Há cerca de um ano, o assunto regressou. Numa visita a uma clínica de reabilitação onde tinha passado uma parte importante do ano de 1972, foram devolvidas a Graham Nash umas fitas de que o próprio já não se recordava. Desde então, a história é mais ou menos conhecida. As 'Acid Tapes', de facto, existiam. Contudo, Young e Wilson recusaram-se que estas vissem a luz do dia. O som era irrecuperável, em alguns momentos tornava-se penoso ouvir as fitas e o estado dos cinco aquando da gravação, algures em San Diego, estava longe de ser o apropriado. Que fazer? A ideia terá sido de Brian Wilson: oferecer as 'Acid Tapes' a uma banda que se comprometesse a regravá-las, alterando pouco os arranjos iniciais, e destruindo as fitas originais no fim. A escolha da banda era mais ou menos óbvia e o resultado foi conhecido há um par de semanas e pode ser integralmente escutado aqui. Ontem, tive o privilégio de ouvir ao vivo a interpretação quase integral das 'Acid Tapes'. Não me recordo de assistir a uma homenagem tão conseguida e sentida a uma música vinda directamente do passado.
sábado, 14 de maio de 2011
Nunca suficientemente humanos

“Robert, é provável que percas um ou mais dos teus fuzileiros, se é que isso não aconteceu já. Não deixes que os teus homens se deprimam ou fiquem presos às perdas... Nunca deixes que eles tirem prazer do ato de matar ou que odeiem o inimigo. É impossível retirar toda a emoção, mas tenta que tudo se mantenha o mais impessoal e mecânico possível. Os Talibãs têm o seu objectivo e nós o nosso. Isto é... o combate é tão desumano; tens de ajudar os teus homens a manterem a humanidade, bem como um sentido de perspectiva e de proporção”. Este excerto é parte de uma carta do general John Kelly, o militar de patente mais elevada a perder um filho no Afeganistão. Escrita dias antes da morte, é um eco notável da moralidade que, ainda assim, é possível encontrar na guerra.
No noite de domingo, terminado o anúncio do Presidente Obama, por momentos, quando a televisão começou a mostrar as primeiras pessoas que festejavam na rua a morte de Bin Laden, senti-me inclinado a percorrer a meia-dúzia de quarteirões que me separam da Casa Branca. Um misto de cansaço e de desconforto com o ambiente celebratório prenderam-me em casa. E, porventura por ser pai, os estranhos caminhos da memória reenviaram-me para o general Kelly. Foi nessa história, lida num jornal meses atrás, que encontrei o conforto moral que sempre nos parece fugir perante a morte, mesmo daqueles que, personificando o mal, desprezamos.
Mas em nenhum outro sítio como numa fotografia, entretanto muito reproduzida, encontrei a humanidade que procuramos face à morte e a humildade que devemos revelar perante o mal. Numa imagem libertada pela Casa Branca, podemos testemunhar o ambiente da ‘situation room’, enquanto era acompanhada a operação militar através de imagens enviadas em direto desde o Afeganistão. Em torno de uma mesa, vemos, num tempo suspenso, Hillary com a mão a tapar a boca, Biden recostado e Obama, prostrado a um canto, com os ombros encolhidos e a tez cingida pelos acontecimentos que não vemos, mas cuja violência podemos imaginar. Naquela fotografia, que faz parte dos poderosos mecanismos de construção simbólica da presidência norte-americana, é-nos sugerida uma moralidade que ajuda a contrariar o relativismo com que a rua, no mundo árabe, mas também no Ocidente, celebra a morte.
Naquele momento, fui capaz de entrever a liderança pelo exemplo que Obama prometeu. Um Presidente que tem perto de dois metros de altura nunca teve aos meus olhos uma estatura moral tão elevada como no ar angustiado e no corpo retraído com que seguia a operação militar. Naquele olhar, encontrei uma ressonância profunda das palavras do general Kelly: a guerra é necessariamente desumana e não lhe podemos retirar toda a emoção, mas é precisamente por isso que devemos manter sempre a humanidade. Se, por absurdo, em algum momento duvidar da superioridade moral do Ocidente, posso encontrá-la na humildade do rosto daquele homem e nas palavras do chefe militar ao seu filho, em tudo contrastantes com a cultura da morte que caracteriza a Al-Qaeda e o fundamentalismo islâmico.
publicado no Expresso de 7 de Maio
sexta-feira, 13 de maio de 2011
E as vezes que esta ideia me passa pela cabeça

"Se pudesse ir de férias para um lugar onde não tivesse ninguém, onde tratassem de mim, eu até escrevia o dia todo. Mas não escrevia nada. É um sonho."
José Rentes de Carvalho que pode ser lido aqui, hoje no Público.
Se não gostarem, nós mudamos
Para além da confusão interna que tem reinado, agora ficou-se a saber uma outra coisa: quando o programa do PSD desagradar, Passos promete melhorá-lo para satisfazer os interesses dos atingidos. Como forma de defender o interesse comum face a interesses particulares, não me recordo assim de nenhuma atitude mais perniciosa. Esta peça da TSF a propósito do lançamento de um livro de um professor, apresentado e prefaciado por Passos Coelho, é paradigmática do que não pode ser um candidato a primeiro-ministro. Eu começo a achar que alguém tem mesmo de ajudar o PSD a acabar a campanha com dignidade.
quinta-feira, 12 de maio de 2011
O que tenho andado a ler
- Mark Weisbrot, Why Greece should say no the the Euro (um argumento que tenderá a intensificar-se muito nos próximos meses e que acabará inevitavelmente por alargar-se a Portugal).
- Uma conversa com Stan Lee no Washington Post, onde este oferece uma explicação para o sucesso dos super-heróis, que não passa de moda.
- Ainda sobre o sucesso dos super-heróis, um argumento mais sofisticado, mas, também, mais convincente neste artigo, a propósito do flop que está a ser o Spider-Man na Broadway.
- Algumas lições da Argentina para os países da periferia da Zona Euro, por Domingo Cavallo, ex-ministro das finanças argentino (um artigo com um ano, mas que mantém a actualidade).
- Como é que evoluiu a popularidade dos vários gadgets nos últimos trinta anos.
- Thomas Friedman explica, com meridiana clareza, como, apesar da morte de Bin Laden, a estrutura que tem tornado a Al-Qaeda, entre outras coisas, financeiramente sustentável se mantém intacta.
- Uma conversa com Stan Lee no Washington Post, onde este oferece uma explicação para o sucesso dos super-heróis, que não passa de moda.
- Ainda sobre o sucesso dos super-heróis, um argumento mais sofisticado, mas, também, mais convincente neste artigo, a propósito do flop que está a ser o Spider-Man na Broadway.
- Algumas lições da Argentina para os países da periferia da Zona Euro, por Domingo Cavallo, ex-ministro das finanças argentino (um artigo com um ano, mas que mantém a actualidade).
- Como é que evoluiu a popularidade dos vários gadgets nos últimos trinta anos.
- Thomas Friedman explica, com meridiana clareza, como, apesar da morte de Bin Laden, a estrutura que tem tornado a Al-Qaeda, entre outras coisas, financeiramente sustentável se mantém intacta.
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Sem retorno
Quando se pensava que a saída de cena de Leite Campos serviria para baixar o nível de intensidade dos disparates vindos da São Caetano, eis que Catroga resolveu ocupar o lugar deixado vago. Depois da criminalização do PS, veio uma comparação insultuosa com a Alemanha Nazi. Não há justificação possível para o que Catroga disse hoje ao Público. É o tipo de fronteira que deve ser mesmo intransponível. Quanto a isso, já não há nada a fazer. O que me preocupa agora é mesmo o day-after. São declarações como esta que, ganhe quem ganhar, vão tornar o país literalmente ingovernável após as eleições. Não vai ser nada bonito e Catroga, nas últimas semanas, resolveu juntar-se ao coro de irresponsáveis. É uma tristeza e é indesculpável.
Sei onde é que estavas em 1990

Poucas coisas contribuíram tanto para a minha "identidade de género" como esta série. Deixou o que se costuma chamar de marca indelével, naturalmente irreversível. Ontem, antes dos T.O.D., os Surfer Blood, entre umas quatro canções novas (todas muito doolitlleanas e weezerianas), tocaram Twin Peaks. O lugar não poderia ser mais apropriado. O Rock & Roll Hotel, na outra "margem" de Washington, não se chega a perceber se é saído do universo de Lynch ou se, pelo contrário, foi Lynch que saiu daquele universo.
terça-feira, 10 de maio de 2011
O que tenho andado a ler
-Woody Allen sobre cinco livros que o inspiraram (eu só li um).
-Benjamin Wallace-Wells na New York Mag, what's left of the left (a propósito de Paul Krugman, mas onde se pode ler uma frase de Barack Obama que devia estar escrita num post-it na testa de todos os líderes partidários portugueses: "I don’t expect the details in any final agreement to look exactly like the approach I laid out today. This is a democracy; that’s not how things work.”
- David Brooks, the politics of solipsism - (a tensão entre República e Democracia e a forma como os valores associados à segunda se têm sobreposto aos da primeira com consequências negativas em termos de políticas).
- Paul Krugman, The Unswidom of Elites (uma explicação da crise internacional e também da crise da zona Euro que, surpreendentemente, não responsabiliza José Sócrates).
- Ken Johnson, The power of the situation room photograph (ainda a propósito da foto da equipa presidencial a assistir ao desenrolar dos acontecimentos no Paquistão).
- Gordon S. Wood, Those sentimental Americans (sobre Abigail e John Adams - a primeira primeira família -, que nos deixaram uma notável troca epistolar, onde fica revelada a importância dos sentimentos na fundação da democracia norte-americana).
- Quem são e como treinam os SEALS (a força especial do exército norte-americano que matou Bin Laden), na Vanity Fair.
-Benjamin Wallace-Wells na New York Mag, what's left of the left (a propósito de Paul Krugman, mas onde se pode ler uma frase de Barack Obama que devia estar escrita num post-it na testa de todos os líderes partidários portugueses: "I don’t expect the details in any final agreement to look exactly like the approach I laid out today. This is a democracy; that’s not how things work.”
- David Brooks, the politics of solipsism - (a tensão entre República e Democracia e a forma como os valores associados à segunda se têm sobreposto aos da primeira com consequências negativas em termos de políticas).
- Paul Krugman, The Unswidom of Elites (uma explicação da crise internacional e também da crise da zona Euro que, surpreendentemente, não responsabiliza José Sócrates).
- Ken Johnson, The power of the situation room photograph (ainda a propósito da foto da equipa presidencial a assistir ao desenrolar dos acontecimentos no Paquistão).
- Gordon S. Wood, Those sentimental Americans (sobre Abigail e John Adams - a primeira primeira família -, que nos deixaram uma notável troca epistolar, onde fica revelada a importância dos sentimentos na fundação da democracia norte-americana).
- Quem são e como treinam os SEALS (a força especial do exército norte-americano que matou Bin Laden), na Vanity Fair.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Surpreendente mas compreensível
"Há um ano e meio, Passos Coelho exigia a Ferreira Leite uma vitória com maioria absoluta. Num artigo no Jornal de Negócios, escreveria mesmo que “é necessário lutar por um resultado mais largo (...). Para não haver dúvidas sobre o caminho a seguir nem sobre a vontade de mudança do país.” O apelo fazia sentido. O PSD havia vencido as europeias e com o desemprego em alta, a economia com um comportamento medíocre e a imagem do primeiro-ministro desgastada, todos os factores determinantes do voto jogavam a favor de Ferreira Leite. Contudo, uma campanha em que abandonou as questões económicas para se centrar num tema que se autodestruía (a ‘claustrofobia democrática’), uma liderança que se empenhou em dividir o partido e uma candidata sem carisma e que nunca chegou a apresentar um programa eleitoral levariam o PSD a uma improvável derrota. Passos tinha razão, o PSD devia ter ganho as últimas legislativas. E agora?
Ano e meio depois, a exigência do agora líder do PSD faz ainda mais sentido. Todas as variáveis que deveriam ter levado Ferreira Leite à vitória não só continuam presentes como se intensificaram. O desemprego não parou de subir, a economia entrou em recessão, o primeiro-ministro é muito impopular e o Governo perdeu a sua narrativa dominante, acabando por pedir um resgate que sempre defendera não ser necessário. O normal seria que o PSD liderasse confortavelmente as sondagens. Estranhamente, a maioria absoluta parece estar fora do alcance de Passos Coelho, uma maioria com o CDS está também em risco e, ainda mais surpreendente, a possibilidade de vitória de Sócrates não se encontra afastada. O cenário tem tanto de improvável como de compreensível.(...)"
no meu artigo de 30 de Abril no Expresso tentei encontrar algumas explicações para a incapacidade do PSD em descolar nas sondagens. O resto pode ser lido aqui.
Ano e meio depois, a exigência do agora líder do PSD faz ainda mais sentido. Todas as variáveis que deveriam ter levado Ferreira Leite à vitória não só continuam presentes como se intensificaram. O desemprego não parou de subir, a economia entrou em recessão, o primeiro-ministro é muito impopular e o Governo perdeu a sua narrativa dominante, acabando por pedir um resgate que sempre defendera não ser necessário. O normal seria que o PSD liderasse confortavelmente as sondagens. Estranhamente, a maioria absoluta parece estar fora do alcance de Passos Coelho, uma maioria com o CDS está também em risco e, ainda mais surpreendente, a possibilidade de vitória de Sócrates não se encontra afastada. O cenário tem tanto de improvável como de compreensível.(...)"
no meu artigo de 30 de Abril no Expresso tentei encontrar algumas explicações para a incapacidade do PSD em descolar nas sondagens. O resto pode ser lido aqui.
A monomania da renovação
Os partidos vivem obcecados com a renovação, de preferência se esta assentar numa contabilidade em torno da extensão do rejuvenescimento dos órgãos partidários. A ideia de que os partidos se renovam substituindo uns maduros por uns jovens, mais ou menos turcos, é naturalmente bem acompanhada pelos jornalistas, que tendem a avaliar o que se passa em cada congresso contando quantas pessoas saíram dos órgãos centrais (normalmente, as saídas são classificadas de 'purgas') e quantas entraram. O disparate é sempre garantido e vai-se perpetuando o mito de que os partidos se renovam através do rejuvenescimento (o resultado tende a ser precisamente o contrário, como se prova pelo caso extremo do PCP).
A propósito, leia-se este pedaço de uma notícia do Público de hoje:"Dos 65 membros eleitos, 20 estreiam-se neste órgão.
Sem grandes novidades e com pouca renovação, o actual quadro dirigente saiu reforçado da reunião magna dos bloquistas."
Estamos perante o último período de um parágrafo e o primeiro do parágrafo imediatamente a seguir. Não sei exactamente o que é que significa para o Público renovação, mas, pelos critérios que os jornais costumam aplicar a estas coisas, não me parece que a estreia de 20 dirigentes em 65 possa significar ausência de novidades e pouca renovação.
A propósito, leia-se este pedaço de uma notícia do Público de hoje:"Dos 65 membros eleitos, 20 estreiam-se neste órgão.
Sem grandes novidades e com pouca renovação, o actual quadro dirigente saiu reforçado da reunião magna dos bloquistas."
Estamos perante o último período de um parágrafo e o primeiro do parágrafo imediatamente a seguir. Não sei exactamente o que é que significa para o Público renovação, mas, pelos critérios que os jornais costumam aplicar a estas coisas, não me parece que a estreia de 20 dirigentes em 65 possa significar ausência de novidades e pouca renovação.
sábado, 7 de maio de 2011
sexta-feira, 6 de maio de 2011
A pobreza da opinião

Ontem fui convidado do Delito de Opinião, onde publiquei um post a propósito das diferenças entre a opinião que se publica nos jornais norte-americanos e a que se publica em Portugal. Pode ser lido aqui.
quinta-feira, 5 de maio de 2011
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Benfiquista como nós
O álbum novo do Panda Bear não é um 'Person Pitch', mas 'last night at the jetty' entra directamente para o top-10 das canções escritas por Brian Wilson. É só pena Benfica não ser a canção mais conseguida do disco. Tem, ainda assim, a força da ideia.
adenda: Oliver Platt na New York Magazine - "‘Holy crap! What is that?’ Because it’s at once familiar—so freaking Beach Boys—and yet wildly original. And Panda Bear sounds so much like Brian Wilson; he’s got a natural gift for harmony. If there ever was a type of music that you could label as ‘channeled’ on some level, it’s [Panda Bear’s]. I love Animal Collective, but I find his [solo] stuff … I don’t want to say more accessible, but it goes quicker to that place at the back of your neck where your brain stem starts to buzz. And the next thing you know, you’re flinging yourself around the room, crying with the thrill of living.” (entrevista aqui.)
adenda: Oliver Platt na New York Magazine - "‘Holy crap! What is that?’ Because it’s at once familiar—so freaking Beach Boys—and yet wildly original. And Panda Bear sounds so much like Brian Wilson; he’s got a natural gift for harmony. If there ever was a type of music that you could label as ‘channeled’ on some level, it’s [Panda Bear’s]. I love Animal Collective, but I find his [solo] stuff … I don’t want to say more accessible, but it goes quicker to that place at the back of your neck where your brain stem starts to buzz. And the next thing you know, you’re flinging yourself around the room, crying with the thrill of living.” (entrevista aqui.)
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Onde é que estavas quando se soube da morte do Bin Laden?
Nas primeiras filas do Merriweather Post-Pavilion (um sítio que vale bem o nome de um grande álbum)
o inferno é a Europa
"Quando há umas semanas Cavaco Silva corrigia os portugueses dizendo que já não se dizia FMI, mas FEEF, estava, no seu tom professoral, a tocar numa questão nevrálgica. Hoje, o inferno deixou de ser, como no passado, o FMI e passou a ser o fundo europeu de estabilização financeira. Não é por isso surpreendente que, na negociação do nosso resgate, o FMI queira um empréstimo mais dilatado, com juros mais baixos, de modo a atenuar os efeitos recessivos do pacote financeiro, enquanto a Europa prossegue a sua cruzada moral, com juros mais elevados e prazos mais curtos, sem cuidar dos efeitos económicos das suas exigências.
Ainda a semana passada, o director do FMI, Strauss-Kahn, chamava a atenção para a necessidade de ajustamentos orçamentais sensíveis ao emprego e à distribuição de rendimentos, alicerces da prosperidade económica e da estabilidade política. Enquanto o FMI muda, a Europa encontra-se politicamente fragmentada, com uma economia em cacos e um sistema financeiro que não resistirá a nenhum teste de stress sério. O que trouxe a Europa até aqui não foi nenhum desvio moral, mas problemas na arquitetura institucional do Euro que, enquanto dificultaram a modernização das economias periféricas, incentivaram comportamentos patológicos, aos quais nem Governos, nem sector financeiro souberam ou quiseram responder. A criação de um mercado comum, primeiro, e de uma moeda única, depois, sem política orçamental coordenada e sem integração política, foi uma tentativa de construir um arranha-céus sem fundações. Uma vez chegada a intempérie, a opção tem sido deixar ruir o edifício, em lugar de reforçar as fundações. Estamos a ver os primeiros andares a ruírem um a um. (...)"
o resto do meu artigo do Expresso de 22 de Abril pode ser lido aqui.
Ainda a semana passada, o director do FMI, Strauss-Kahn, chamava a atenção para a necessidade de ajustamentos orçamentais sensíveis ao emprego e à distribuição de rendimentos, alicerces da prosperidade económica e da estabilidade política. Enquanto o FMI muda, a Europa encontra-se politicamente fragmentada, com uma economia em cacos e um sistema financeiro que não resistirá a nenhum teste de stress sério. O que trouxe a Europa até aqui não foi nenhum desvio moral, mas problemas na arquitetura institucional do Euro que, enquanto dificultaram a modernização das economias periféricas, incentivaram comportamentos patológicos, aos quais nem Governos, nem sector financeiro souberam ou quiseram responder. A criação de um mercado comum, primeiro, e de uma moeda única, depois, sem política orçamental coordenada e sem integração política, foi uma tentativa de construir um arranha-céus sem fundações. Uma vez chegada a intempérie, a opção tem sido deixar ruir o edifício, em lugar de reforçar as fundações. Estamos a ver os primeiros andares a ruírem um a um. (...)"
o resto do meu artigo do Expresso de 22 de Abril pode ser lido aqui.
sábado, 30 de abril de 2011
O melhor é pedir já asilo
A tentativa de criminalização do PS não começou ontem, nem sequer se iniciou com Sócrates. Mas, na verdade, tem, nos últimos anos, atingido proporções impensáveis e encontrado activistas entre protagonistas improváveis. Hoje, acordei e fiquei estupefacto com as declarações que li de Catroga (que é o senador que Passos Coelho tem para apresentar). Estou suficientemente à vontade, pois tenho a meu favor um número suficiente de discordâncias com o Governo de Sócrates e o que tem sido a sua linha de actuação (e, aliás, não vejo dificuldade em, à direita, se definir uma linha programática coerente que, além do mais, deveria permitir uma vitória eleitoral folgada), mas, confesso, que esta insistência do PSD na criminalização, por todos os meios possíveis, da acção de Sócrates, sendo, no imediato, uma confissão da incapacidade de vencer politicamente o actual primeiro-ministro (que começa a assumir contornos patológicos), tornou-se um passo que nos envia a todos para terrenos muito perigosos – dos quais teremos muita dificuldade em sair durante demasiado tempo. Perante o nível do nosso “debate”, não posso deixar de pensar que se eu, que sou politizado (provavelmente demasiado), só tenho vontade de me manter afastado do país e da nossa política, que pensarão os outros portugueses que seguem com salutar distância o quotidiano político? Depois admirem-se do resultado eleitoral que vão ter e da sepultura que, pelo caminho, estão a cavar para todos nós.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
quinta-feira, 28 de abril de 2011
A riot of my own
Note to self: vamos cometendo muitos erros, o menor dos quais não foi certamente ter-me afastado do pós-punk 'camusiano' (The Fall), do hard-core como 'cosa mentale' (Naked City), nem do punk regado a Guiness (Pogues) ou pura e simplesmente daquele que encontrava a energia primitiva no baixo materialismo (Clash). Ontem, regressei a tudo isso e tive a certeza da dimensão do erro. Os Double Dagger reconciliaram-me com os Fall e com os Titus Andronicus assisti (e participei com a moderação possível), durante os cerca de vinte minutos da sequência "the battle of hampton roads" e "a more perfect union", a uma descarga de energia e de suor que me fez andar para trás. Mas, em dia de programa de governo, nada como voltar a erguer o punho e, emocionado, gritar "white riot. I wanna a riot of my own", durante a breve citação dos Clash durante "fear and loathing in Mahwah, NJ". Se não é para isto que serve o rock'n'roll.
Para os resistentes, aqui fica a actuação dos Titus Andronicus no Coachella este ano (com luz do dia e palco festivo a estragar a festa) e ainda os Double Dagger (um trio de voz, baixo e bateria que parece resultar das frustrações de três teses de doutoramento sobre o idealismo alemão).
para os menos resistentes, 'the battle of hampton roads' em todo o seu esplendor.
Para os resistentes, aqui fica a actuação dos Titus Andronicus no Coachella este ano (com luz do dia e palco festivo a estragar a festa) e ainda os Double Dagger (um trio de voz, baixo e bateria que parece resultar das frustrações de três teses de doutoramento sobre o idealismo alemão).
para os menos resistentes, 'the battle of hampton roads' em todo o seu esplendor.
Titus Andronicus | FOR NO ONE from FOR NO ONE on Vimeo.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
sábado, 23 de abril de 2011
Pescado à linha
"Após o surpreendente resultado de Fernando Nobre nas presidenciais, fiquei com uma certeza. Hoje, se o “Rato Mickey” se candidatar a eleições em Portugal, com uma plataforma programática suficientemente confusa e centrar o essencial do seu discurso na crítica aos partidos, arrisca-se a ter 10% dos votos. O terreno está fértil para quem ataque ou parodie o sistema político e, como se tem visto nas últimas semanas, com o triste espectáculo de cacofonia em torno do resgate financeiro, os partidos não perdem uma oportunidade para confirmar a má opinião que deles se faz. Nobre foi mais um a pôr-se de fora e a lucrar eleitoralmente com essa atitude. Mas se há quinze dias sabíamos que Nobre era crítico dos partidos, esta semana ficámos a saber que, no fundo, o problema dos partidos era simples: nunca o haviam convidado para um cargo à sua altura.
(...)
O problema não são as contradições de Nobre ou as posições divergentes face ao PSD, o que é lamentável é que os partidos pesquem independentes à linha, interiorizando as críticas que lhes são feitas, enquanto, ao fazerem-no, aproveitam para não enfrentarem nenhum dos problemas estruturais que levam a que cada vez menos as pessoas reconheçam os partidos como seus representantes legítimos.(...)"
o resto do meu artigo publicado no Expresso de 16 de Abril pode ser lido aqui.
(...)
O problema não são as contradições de Nobre ou as posições divergentes face ao PSD, o que é lamentável é que os partidos pesquem independentes à linha, interiorizando as críticas que lhes são feitas, enquanto, ao fazerem-no, aproveitam para não enfrentarem nenhum dos problemas estruturais que levam a que cada vez menos as pessoas reconheçam os partidos como seus representantes legítimos.(...)"
o resto do meu artigo publicado no Expresso de 16 de Abril pode ser lido aqui.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
No princípio, era o ritmo

Há perto de três décadas, um nova-iorquino adoptivo deixava um conselho: “se dançarem, vão perceber a música melhor”. As palavras de David Byrne no início dos oitenta têm sido seguidas à letra por muita gente, mas dificilmente se encontrará um evangelizador tão dedicado como James Murphy. Primeiro como DJ e produtor na editora DFA, depois como líder dos LCD Soundsystem, Murphy colocou o ritmo como centro gravitacional da música – enquanto rompia os espartilhos que segmentavam a música de dança em vários sub-géneros, com poucos vasos comunicantes. A ambição dos LCD Soundsystem era promover uma síntese de (quase) todos os ritmos, vindos de (quase) todos os lados, num pastiche assumido, feito de citações e colagens. Foi com sentimento de missão cumprida que Murphy decidiu colocar fim à sua banda, com cinco concertos em Nova Iorque na semana passada.
Os funerais podem ser momentos de celebração e de evocação do passado. Durante uma maratona em que os LCD Soundsystem percorreram os seus três álbuns de originais, e ainda ‘45:33’ (uma peculiar encomenda da NIKE), não se sentiu nem nostalgia em relação a uma década que já não se repete, nem sentimento de perda, nem receio do vazio que se poderá seguir. Nada disso. Como se podia ler nas t-shirts à venda à entrada do recinto, a palavra de ordem foi mesmo “dançar, dançar, dançar, dançar”. Depois de três horas e meia de concerto, olhando para os rostos exauridos que iam abandonando a gigantesca pista de dança em que se transformou o Terminal 5, o que custa a perceber é como é que é possível que tanta gente dance ininterruptamente durante tanto tempo.
Quem esteve em palco não foi a formação tradicional dos LCD Soundsystem. Aliás, contabilizar o número de músicos que ia alternando de canção em canção foi um exercício difícil. Nunca menos de oito músicos em cena, aos quais se juntaram dois coros, um masculino e um feminino, separados fisicamente. Em muitos momentos, a banda foi aditivada por uma secção de metais (que deu um músculo extra, por exemplo, a ‘Sound of Silver’) e por vários convidados ao longo da noite (Phil Mossman, guitarrista na formação inicial, fez parte do trio de guitarras encarregue de pegar na linha melódica que David Bowie nos deixou em ‘Heroes’ e trazê-la até hoje, numa notável versão de ‘All I Want’, já perto do final do concerto).
Após um início frenético com ‘Dance Yrself Clean’, acompanhado por um chuva de pauzinhos florescentes, previamente distribuídos ao público, que voaram de todos os lados no preciso momento em que a batida se fez sentir pela primeira vez, os LCD foram andando para a frente e para trás na sua carreira: ‘Movement’ revelou-se a canção definitiva do electro-clash; ‘North American Scum’ soou como se fizesse parte do repertório dos White Stripes; ‘All my Friends’, provavelmente o momento da noite, foi reapropriado pela banda, expurgando o tema de qualquer elemento que remetesse para a versão indie-rock dos Franz Ferdinand, e tocado com uma pujança rítmica que se desconhecia; e ‘New York I Love You, But You're Bringing Me Down’, a encerrar o concerto, apelou ao sentimentalismo dos nova-iorquinos, uma cidade onde cosmopolitismo e solidão andam de mãos-dadas.
Mas nenhuma canção espelha de modo tão preciso o conceito que levou Murphy a formar a banda como o primeiro single, ‘Losing my Edge’, uma declaração de intenções. Quando, na fase final do concerto, Murphy, na frente do palco, de microfone bem junto à boca, ia enumerando, sobre uma batida viciante, um sem número de bandas do passado, ‘Losing my Edge’ ia-se transformando num legado para o futuro. Todo o tema é movido pela ‘ansiedade da influência’: por um lado, uma tentativa de consolidar o cânone da música de dança, expurgado de influências negras; por outro, o temor de perder o passo para as novas gerações, capazes de desbravar novos territórios. Por isso mesmo, foi só aí que o concerto soou a fim e a passagem de testemunho. Quando se ouvia, “I was there at the first Can show in Cologne” não era possível não pensar que, afinal, o projecto dos LCD Soundsystem só ganhará sentido se, daqui a uma década, um daqueles miúdos que dançou freneticamente durante três horas e meia, for capaz de reinventar de novo uma parte da música contemporânea e pegar no microfone para cantar: “eu estive lá, no último concerto dos LCD Soundsystem, em Nova Iorque”.
texto publicado no Atual (Expresso) de 9 de Abril.
reparem no que aconteceu ao minuto 4 deste video, que foi também o minuto 4 do concerto.
LCD Soundsystem T5 3/30/2011 from Michael Williams on Vimeo.
domingo, 17 de abril de 2011
Um congresso de silêncios
"(...) As circunstâncias e a convergência táctica vão, mais uma vez, adiar debates nucleares.
Como consequência da opção por apenas governar em maioria absoluta ou isolado, no último ano e meio o PS afastou-se do arco da governabilidade. Como as maiorias absolutas são uma excepção no nosso sistema eleitoral, o PS tem de ter uma estratégia alternativa. Uma coligação com o PSD não é sustentável e coligações à esquerda não são programaticamente viáveis. Resta crescer eleitoralmente à esquerda. O que implica, por um lado, uma estratégia que esvazie o PCP autárquico – a âncora do poder do partido – e, por outro, romper com a ilusão de que é possível a um partido social-democrata viver de costas voltadas para o movimento sindical (um efeito colateral do deslumbramento sistemático com tudo o que é moderno).
Do ponto de vista programático há uma prioridade que se sobrepõe a todas as outras: abandonar a língua de pau em que se transformou o discurso sobre a Europa. Hoje, o consenso europeísta não representa nada. No passado, esse era um ponto de união entre PS e PSD, agora a linha de demarcação depende dos temas europeus. O dilema é simples: ou a social-democracia se reergue através de uma nova política europeia ou não tem futuro. Actualmente, o mantra do europeísmo não passa de uma encenação do fim.
Finalmente, o fechamento partidário. Nos últimos anos, o PS foi alternando entre simulacros de debate e silêncios ensurdecedores. A combinação de centralismo democrático com uma direcção focada na figura do líder é um factor de enfraquecimento. O PS não sabe promover debate orgânico e vive desconfortável com as vozes autónomas. Essa atitude diminui o pluralismo, tem enfraquecido a capacidade do partido para representar a sociedade e, ainda mais grave, reproduz uma volatilidade programática, particularmente notória desde o início da crise. Sem programa estável e sem novos protagonistas, o PS constrói o seu próprio declínio.
Talvez fosse útil ao PS discutir estes ou outros assuntos durante o fim-de-semana. Mas temo bem que seja pedir de mais."
a versão integral do meu artigo publicado no Expresso da semana passada pode ser lida aqui.
Como consequência da opção por apenas governar em maioria absoluta ou isolado, no último ano e meio o PS afastou-se do arco da governabilidade. Como as maiorias absolutas são uma excepção no nosso sistema eleitoral, o PS tem de ter uma estratégia alternativa. Uma coligação com o PSD não é sustentável e coligações à esquerda não são programaticamente viáveis. Resta crescer eleitoralmente à esquerda. O que implica, por um lado, uma estratégia que esvazie o PCP autárquico – a âncora do poder do partido – e, por outro, romper com a ilusão de que é possível a um partido social-democrata viver de costas voltadas para o movimento sindical (um efeito colateral do deslumbramento sistemático com tudo o que é moderno).
Do ponto de vista programático há uma prioridade que se sobrepõe a todas as outras: abandonar a língua de pau em que se transformou o discurso sobre a Europa. Hoje, o consenso europeísta não representa nada. No passado, esse era um ponto de união entre PS e PSD, agora a linha de demarcação depende dos temas europeus. O dilema é simples: ou a social-democracia se reergue através de uma nova política europeia ou não tem futuro. Actualmente, o mantra do europeísmo não passa de uma encenação do fim.
Finalmente, o fechamento partidário. Nos últimos anos, o PS foi alternando entre simulacros de debate e silêncios ensurdecedores. A combinação de centralismo democrático com uma direcção focada na figura do líder é um factor de enfraquecimento. O PS não sabe promover debate orgânico e vive desconfortável com as vozes autónomas. Essa atitude diminui o pluralismo, tem enfraquecido a capacidade do partido para representar a sociedade e, ainda mais grave, reproduz uma volatilidade programática, particularmente notória desde o início da crise. Sem programa estável e sem novos protagonistas, o PS constrói o seu próprio declínio.
Talvez fosse útil ao PS discutir estes ou outros assuntos durante o fim-de-semana. Mas temo bem que seja pedir de mais."
a versão integral do meu artigo publicado no Expresso da semana passada pode ser lida aqui.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Em inglês técnico
Não sei se leram hoje o NY Times.
"Portugal's plea for help with its debts from the International Monetary Fund and the European Union last week should be a warning to democracies everywhere." ler o resto aqui.
"Portugal's plea for help with its debts from the International Monetary Fund and the European Union last week should be a warning to democracies everywhere." ler o resto aqui.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Quem é que estava à rasca?
"(...) o ‘ai, ai, ai, ai’ que se gerou em torno dos cortes das pensões foi o que desencadeou a crise política surreal que vivemos. De tal modo que o PSD, depois de meses e meses a insurgir-se contra subidas de impostos, logo se apressou a trocar os cortes nas pensões por um aumento do IVA. Para quem defendia redistribuição a favor da ‘geração à rasca’, estamos conversados.
O tema das pensões é terreno fértil para todas as demagogias. Vale a pena recordar duas coisas.
Havendo grande concentração de pobreza entre os pensionistas, nem todos os reformados com pensões baixas são pobres. Pelo contrário, por força da deslegitimação, que durou décadas, dos descontos para a segurança social, muitos deles encontraram formas de poupança que explicam que, hoje, o seu rendimento disponível seja superior. Ao mesmo tempo que muitos reformados acumulam pensões, nomeadamente por terem feito descontos como emigrantes.
Não faz sentido tomar o valor das pensões mínimas como sendo o rendimento dos pensionistas pobres. Com a introdução do completamento solidário para idosos, os pensionistas com rendimentos inferiores a 419 euros têm uma prestação diferencial que perfaz esse montante (sim, é muito pouco). Aliás, hoje, as pensões mínimas não sujeitas a condição de recursos são mecanismos de reprodução de desigualdades – o que justificaria que, por exemplo, se acabasse com a pensão social.
Se o discurso da redistribuição de recursos a favor dos jovens é para ser levado a sério, era bom debater seriamente as pensões (nomeadamente as não contributivas), em lugar de se embarcar numa espiral de demagogia desbragada a que ninguém resiste. Mas a explicação para que isso aconteça é singela: os pensionistas votam, os ‘jovens à rasca’ deixam-se ficar em casa. Enquanto assim for, não esperem muito."
o resto do meu artigo publicado no Expresso de 2 de Abril pode ser lido aqui.
O tema das pensões é terreno fértil para todas as demagogias. Vale a pena recordar duas coisas.
Havendo grande concentração de pobreza entre os pensionistas, nem todos os reformados com pensões baixas são pobres. Pelo contrário, por força da deslegitimação, que durou décadas, dos descontos para a segurança social, muitos deles encontraram formas de poupança que explicam que, hoje, o seu rendimento disponível seja superior. Ao mesmo tempo que muitos reformados acumulam pensões, nomeadamente por terem feito descontos como emigrantes.
Não faz sentido tomar o valor das pensões mínimas como sendo o rendimento dos pensionistas pobres. Com a introdução do completamento solidário para idosos, os pensionistas com rendimentos inferiores a 419 euros têm uma prestação diferencial que perfaz esse montante (sim, é muito pouco). Aliás, hoje, as pensões mínimas não sujeitas a condição de recursos são mecanismos de reprodução de desigualdades – o que justificaria que, por exemplo, se acabasse com a pensão social.
Se o discurso da redistribuição de recursos a favor dos jovens é para ser levado a sério, era bom debater seriamente as pensões (nomeadamente as não contributivas), em lugar de se embarcar numa espiral de demagogia desbragada a que ninguém resiste. Mas a explicação para que isso aconteça é singela: os pensionistas votam, os ‘jovens à rasca’ deixam-se ficar em casa. Enquanto assim for, não esperem muito."
o resto do meu artigo publicado no Expresso de 2 de Abril pode ser lido aqui.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Bankrobber

Daddy was a bankrobber
But he never hurt nobody
He just loved to live that way
And he loved to steal your money
para ouvir aqui.
Algumas instruções gerais
"(...) Do not be defeated by the
Feeling that there is too much for you to know. That
Is a myth of the oppressor. You are
Capable of understanding life. And it is yours alone
And only this time (...)"
Seria uma pena que não aproveitassem algum tempo para ler as 233 linhas deste poema do Kenneth Koch, sempre ficam a saber como é que se prepara um polvo morto.
Feeling that there is too much for you to know. That
Is a myth of the oppressor. You are
Capable of understanding life. And it is yours alone
And only this time (...)"
Seria uma pena que não aproveitassem algum tempo para ler as 233 linhas deste poema do Kenneth Koch, sempre ficam a saber como é que se prepara um polvo morto.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
O João Lopes
"(...) Sócrates capitulou... — é tanto mais interessante quanto ilustra, de forma muito directa e reveladora, o processo de delirante fulanização com que, em quase todos os espaços dos meios de comunicação (com especial intensidade nas televisões), tem sido tratada a gestão-Sócrates. Há, por certo, diferenças significativas entre os vários meios de comunicação. Em todo o caso, por todos eles perpassa quase sempre uma crença banalmente teológica: se não existir mais nada para descrever ou explicar os nossos problemas, use-se a palavra "sócrates"."
ler o resto aqui (custa-me muito dizer, mas é literalmente uma das poucas formas de vida inteligente que resta nos media em Portugal).
ler o resto aqui (custa-me muito dizer, mas é literalmente uma das poucas formas de vida inteligente que resta nos media em Portugal).
Country Disappeared
Wilco - Country Disappeared | A Take Away Show from La Blogotheque on Vimeo.
Wake up we're here
It's so much worse than we feared
There's nothing left here
The country has disappeared
If the winter trees bleeding, leave red blood
The summer sweet dreaming, april blush
But none of that is ever gonna mean as much to me again.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
All sound like a dream to me
Para quem cresceu a ouvir música nos anos oitenta, é reconfortante saber que há quem não se envergonhe por fazer um disco que se parece tal e qual com a 'música de dança para ouvir sentado na esplanada ao fim da tarde' que se fazia então. Os Destroyer de Dan Bejar têm um disco novo que soa a música de dança gramsciana (os Scritti Polliti), com os coros femininos e o baixo ondulante dos Prefab Sprout, tudo condimentado pela melancolia pós-festiva dos Blue Nile. Mas se em disco agora são assim, em palco o regresso ao passado é ainda mais assumido: solos de saxofone e de trompete, raparigas saídas da 'smash hits' de cabelo descolorado nas teclas e coros e a dose q.b. de piroseira. Ontem à noite, foi só pena ninguém ter dançado.
terça-feira, 5 de abril de 2011
Eu não peço desculpa
Andam para aí uns gajos que dizem que são do Glorioso a falar em fair-play e que devíamos ter pago uns minutos extra de electricidade no Domingo. Fazem parte de um conjunto de gente que se formou nos pedidos de desculpas e que confunde futebol com ginástica rítmica. Quero que se lixem e que vão jogar bridge ou golf. Não faço ideia do que se passou no Domingo. O Maxi não jogava, eu estava noutro lado do mundo, e não quis saber. Mas suspendo momentaneamente o meu black-out para dizer que tenho uma grande satisfação por ver o meu clube dirigido por um conjunto de tipos que renunciaram ao registo totó. Do Rui ao Jorge, passando pelo Presidente. Assim, vamos lá. Só falta arranjar finalmente uns tipos do Benfica para porem em sentido os avençados dos outros clubes nos programas de debate na TV.
(11.740)
(11.740)
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Uma intervenção surreal no meio de um processo político de loucos
Para quem tenha paciência, a partir do minuto 6 dou a minha opinião sobre o que se está a passar em Portugal (com particular "enfoque" no papel de Cavaco Silva).
A loucura de Março

"(...) À distância, a sensação com que fico é que ‘a loucura de Março’ atravessou o Atlântico e instalou-se definitivamente em Portugal, mas com consequências materiais graves. Na semana em que a Europa debatia uma solução sofrível, mas que pouparia o país a um desastre imediato, a opção foi inviabilizá-la. Estávamos à beira do precipício e, de braços dados, optámos por dar um passo em frente. As responsabilidades são repartidas.(...)"
o resto do meu artigo do Expresso de 26 de Março pode ser lido aqui.
quinta-feira, 31 de março de 2011
terça-feira, 29 de março de 2011
Não é difícil reconhecer um génio.
"songs are just really very interesting things to be doing with the air."
Prestar atenção

"A atenção é a atitude espiritual mais importante. E muitas das coisas que aprendemos em si mesmas, não têm um valor por aí e além, mas servem para nos treinar para a atenção. Lembro-me de um texto de Simone Weil, sobre o estudo escolar. Há muita coisa na nossa formação que se revela sem grande utilidade, mas naquele momento ajudou-nos a construir uma atenção. E isso é o grande valor que cada um de nós transporta. Acredito muito naquilo que os padres do deserto diziam, que o grande pecado é a distracção."
José Tolentino Mendonça, aqui.
segunda-feira, 28 de março de 2011
Dylanesco

Há quatro tipos de relação com os Mountain Goats: desconhecimento (“quem?”); indiferença (“não vejo nada de especial nestes gajos”); irritação (“este gajo tem uma voz insuportável e não sabe cantar”) e depois há os die-hard fans. Aqueles que, quando os ouvem, sentem-se os miúdos que tiveram um banda de death metal em denton (nunca tendo gostado do género ou estado em denton), que julgam ter feito parte de um casal disfuncional de alcoólicos (nunca tendo sido um casal ou disfuncional), que experimentam ter passado por uma cura de desintoxicação por metadona (não sabendo o que é intoxicação), que encontram salvação na bíblia (desconhecendo a diferença entre o antigo e o novo testamento). Darnielle, um pouco como Dylan, conta histórias nas canções e como acontecia com as histórias de Dylan, por mais improvável que possa parecer, nós pensamos ser os protagonistas. (nunca tinha pensado nisto, mas dylanesco é o qualificativo mais adequado - gosto muito da palavra dylanesco).
Mas mesmo um ‘die-hard fan’ tem dificuldade em acompanhar a produção de John Darnielle: um número sem fim de álbuns (ninguém sabe exactamente quantos), de colaborações, projectos paralelos, torna o completismo uma tarefa impossível. Há quem diga que Darnielle publicou mais de 500 canções. É bem provável que assim seja. Mas há uma outra linha divisória, esta entre os ‘die-hard’. Há quem tenha abandonado os Mountain Goats quando passaram a ser uma banda que grava discos, com uma produção minimamente cuidada, em lugar de Darnielle soprar canções em catadupa para um gravador caseiro. E há quem goste deles como banda, com músculo em palco, com guitarras, baixo e bateria, por cima da ironia ácida, que continua lá, e que nem por isso ficou mais escondida. Os últimos discos, na verdade desde que assinaram com a 4AD, são álbuns de uma banda. Mas onde imagino que a diferença se faça sentir é mesmo ao vivo. Vi duas vezes os Mountain Goats (uma há 3 anos, no lançamento de Herectic Pride) e na sexta-feira passada. Ao vivo, só os conheço como banda. E não percebo como é que se pode não gostar. Quem discordar, escusa de regressar aqui.
Quanto ao concerto, telegraficamente (e para os 3 ou 4 que se possam interessar), tocaram o ‘all eternal decks’ quase integralmente (lá está, um disco em que soam mais do que nunca como banda e que tem a produção que as bandas têm – e as canções estão lá todas na mesma e ‘it grows on you’). Mais umas quantas coisas pelo caminho (‘broom people’ foi muito bom; ‘wake up new’ também). Mas o que eu queria mesmo era falar dos dois encores. Foi assim: ‘this year’; ‘no children’; ‘the best ever death metal band in denton’; ‘the sign’ (sim, a dos ace of base); ‘southwood plantation road’ e ‘going to georgia’. Acho que está tudo dito.
Gabo muito as capacidades de quem faz isto. Registar tudo, ficando imóvel.
O pote armadilhado
"(...) Agora, todos convergem para eleições. O que não só não resolverá nenhum problema, como se encarregará de demonstrar que o nosso ajustamento depende também de uma coligação política, estável e previsível, que envolva, pelo menos, o PS e o PSD.
Sócrates colocou-se na menos má das posições que pode ambicionar para os próximos anos. Conseguiu um resgate menos desfavorável do que o da Grécia e Irlanda e ainda não será eleitoralmente devastado pela impopularidade das medidas muito duras, que, apenas agora, começam a ser implementadas. É o único momento em que pode disputar eleições – mesmo que seja muito penalizado por ter nacionalizado sistematicamente a crise, abdicando de fazer pedagogia sobre a austeridade e dourando a realidade para além de todas as evidências.
Passos Coelho está preso num nó cego. Não pode pedir de novo desculpas e os seus apoiantes não lhe perdoariam mais um adiamento. Mas apresentar-se-á aos portugueses sem programa político e a rejeitar políticas que nos são impostas pela Europa e que sua família política (o PPE) diz serem necessárias. Para utilizar a sua expressão, Passos Coelho pode chegar ao pote, o problema é que vai encontrar o pote armadilhado e terá de aplicar a mesma dieta que agora rejeita, ou, alternativamente, uma ainda mais dura.
Os dados estão lançados. Passos Coelho afirmou que “a peça de teatro chegou ao fim”. Tem, em parte, razão. Doravante, assistiremos a outros actos da mesma tragédia, mas com novos actores. É bem provável que um dos próximos seja a experiência inédita de termos uma juventude partidária a governar o país. Com uma agravante: tal irá acontecer no pior dos momentos para experimentalismos adolescentes."
o resto do meu artigo publicado no Expresso da semana passada pode ser lido aqui.
Sócrates colocou-se na menos má das posições que pode ambicionar para os próximos anos. Conseguiu um resgate menos desfavorável do que o da Grécia e Irlanda e ainda não será eleitoralmente devastado pela impopularidade das medidas muito duras, que, apenas agora, começam a ser implementadas. É o único momento em que pode disputar eleições – mesmo que seja muito penalizado por ter nacionalizado sistematicamente a crise, abdicando de fazer pedagogia sobre a austeridade e dourando a realidade para além de todas as evidências.
Passos Coelho está preso num nó cego. Não pode pedir de novo desculpas e os seus apoiantes não lhe perdoariam mais um adiamento. Mas apresentar-se-á aos portugueses sem programa político e a rejeitar políticas que nos são impostas pela Europa e que sua família política (o PPE) diz serem necessárias. Para utilizar a sua expressão, Passos Coelho pode chegar ao pote, o problema é que vai encontrar o pote armadilhado e terá de aplicar a mesma dieta que agora rejeita, ou, alternativamente, uma ainda mais dura.
Os dados estão lançados. Passos Coelho afirmou que “a peça de teatro chegou ao fim”. Tem, em parte, razão. Doravante, assistiremos a outros actos da mesma tragédia, mas com novos actores. É bem provável que um dos próximos seja a experiência inédita de termos uma juventude partidária a governar o país. Com uma agravante: tal irá acontecer no pior dos momentos para experimentalismos adolescentes."
o resto do meu artigo publicado no Expresso da semana passada pode ser lido aqui.
sexta-feira, 25 de março de 2011
Sinusite Crónica

Há pouco mais de um ano, resolvi, finalmente, o meu problema, mas eles voltaram para me recordar como era.
quarta-feira, 23 de março de 2011
Um ataque de Zombies
![]()
Acabei de assistir a um seminário em que Daniel Drezner apresentava o seu último livro - 'Theories of International Politics and Zombies'. Num registo provocatório, Drezner faz um exercício intelectualmente estimulante: prever como é que as vários teorias dominantes das relações internacionais lidariam com um ataque de Zombies. Uma ameaça crescente, comparável a muitas outras que enfrentamos. Durante a conferência, temi que acontecesse o que sucedeu a semana passada quando David Cameron (o outro), enquanto discorria sobre os bloqueios do euro, perguntou se havia algum português na sala. Na altura, hesitei, mas acabei por timidamente levantar a mão, o que me obrigaria a explicar em pouco tempo a 'especificidade nacional'. Se Drezner tem perguntado se alguém conhecia um ataque em curso promovido por Zombies, eu, hoje, seria obrigado a levantar a mão, dando o exemplo de Portugal.
terça-feira, 22 de março de 2011
Quem é que disse que Portugal não tem futuro?
Como sugere o Lourenço aqui, é só pena as raparigas do teledisco não tocarem também. Mas estes tipos fazem mais por nós do que qualquer resgate negociado ou imposto. 1,2,3,4.
Há resgates e resgates
O País enfrenta um impasse político. O Governo demite-se se o PEC IV for chumbado, a oposição garante que o chumbará. É possível evitarmos eleições?
Possível é, mas, como estava escrito desde as últimas eleições, não irá acontecer. Os vários actores políticos não souberam estar à altura da responsabilidade do momento dramático que vivemos em Portugal e no conjunto da Zona Euro.
Quem são os responsáveis?
O primeiro-ministro que, enquanto conseguiu um resgate menos desfavorável que o da Grécia e da Irlanda, continua a demonizar a ajuda externa que de facto já existe e teve sempre reservas em relação a uma coligação; o Presidente da República que, após o inenarrável episódio das escutas ficou tolhido, permitiu a formação de um governo minoritário e depois, na tomada de posse, não lhe ocorreu melhor do que recusar ‘mais sacrifícios’, quando sabia que eles eram inevitáveis e faziam parte de uma negociação em curso com a Comissão e o BCE; e o líder da oposição que, enquanto vai alimentando umas vacuidades sobre os consumos intermédios e sabendo que terá de aplicar a mesma dieta que agora recusa, é movido pela pressão do aparelho que o elegeu, que quer o mais rapidamente possível ir “ao pote”.
Hoje Jean Claude Juncker disse que Portugal assumiu compromissos e que tem de os cumprir. Não cai por terra a ideia do Governo de que todas as medidas são negociáveis?
A margem de manobra que nos resta é quase inexistente e, nesta fase, sem que haja uma revisão profunda da arquitectura da Zona Euro, afirmações como, “distribuir os sacríficios” ou “não penalizar os do costume” não passam de slogans sem qualquer exequibilidade.
Corremos o risco de, se tivermos eleições, não termos um Governo maioritário e enfrentamos exactamente os mesmos bloqueios?
As eleições vão servir apenas para revelar a insustentabilidade da nossa situação. Medidas de austeridade como as que temos de implementar só são possíveis com uma coligação que envolva, pelo menos, o PS e o PSD e que tenha suporte de Belém. Isso não aconteceu até agora, não vejo porque vá acontecer no futuro. Desde logo, porque se criou um clima de antagonismo militante em Portugal que demorará a ser superado.
Ainda acredita que é possível evitarmos um resgate internacional?
Neste momento já não nos financiamos autonomamente no mercado primário. Logo, já estamos a ser resgatados. Mas a solução que foi encontrada é melhor do que a da Grécia e da Irlanda. Há resgates e resgates e o tempo tem sido e continuará a ser um factor decisivo.
aqui fica a a micro-entrevista que dei ao Económico de hoje (com um título meu, diferente do escolhido)
Possível é, mas, como estava escrito desde as últimas eleições, não irá acontecer. Os vários actores políticos não souberam estar à altura da responsabilidade do momento dramático que vivemos em Portugal e no conjunto da Zona Euro.
Quem são os responsáveis?
O primeiro-ministro que, enquanto conseguiu um resgate menos desfavorável que o da Grécia e da Irlanda, continua a demonizar a ajuda externa que de facto já existe e teve sempre reservas em relação a uma coligação; o Presidente da República que, após o inenarrável episódio das escutas ficou tolhido, permitiu a formação de um governo minoritário e depois, na tomada de posse, não lhe ocorreu melhor do que recusar ‘mais sacrifícios’, quando sabia que eles eram inevitáveis e faziam parte de uma negociação em curso com a Comissão e o BCE; e o líder da oposição que, enquanto vai alimentando umas vacuidades sobre os consumos intermédios e sabendo que terá de aplicar a mesma dieta que agora recusa, é movido pela pressão do aparelho que o elegeu, que quer o mais rapidamente possível ir “ao pote”.
Hoje Jean Claude Juncker disse que Portugal assumiu compromissos e que tem de os cumprir. Não cai por terra a ideia do Governo de que todas as medidas são negociáveis?
A margem de manobra que nos resta é quase inexistente e, nesta fase, sem que haja uma revisão profunda da arquitectura da Zona Euro, afirmações como, “distribuir os sacríficios” ou “não penalizar os do costume” não passam de slogans sem qualquer exequibilidade.
Corremos o risco de, se tivermos eleições, não termos um Governo maioritário e enfrentamos exactamente os mesmos bloqueios?
As eleições vão servir apenas para revelar a insustentabilidade da nossa situação. Medidas de austeridade como as que temos de implementar só são possíveis com uma coligação que envolva, pelo menos, o PS e o PSD e que tenha suporte de Belém. Isso não aconteceu até agora, não vejo porque vá acontecer no futuro. Desde logo, porque se criou um clima de antagonismo militante em Portugal que demorará a ser superado.
Ainda acredita que é possível evitarmos um resgate internacional?
Neste momento já não nos financiamos autonomamente no mercado primário. Logo, já estamos a ser resgatados. Mas a solução que foi encontrada é melhor do que a da Grécia e da Irlanda. Há resgates e resgates e o tempo tem sido e continuará a ser um factor decisivo.
aqui fica a a micro-entrevista que dei ao Económico de hoje (com um título meu, diferente do escolhido)
segunda-feira, 21 de março de 2011
O bom gigante
Antes do Bon Iver e dos Megafaun (que vão abrir para os Mountain Goats na sexta-feira e eu vou estar lá para ver!), houve em tempos os DeYarmond Edison. Agora, reuniram-se em Austin e fizeram isto ao James Taylor e à Carole King.
"Poesia é voar fora da asa"

"Eu só não queria significar. Porque significar limita a imaginação."
Soube que Manoel de Barros tem agora uma conta no twitter (via Júlio). Imagino que esteja a chegar a altura de abrir uma para o poder seguir.
Agora em inglês técnico
"(...) Indeed, a broad coalition for change would improve the political legitimacy of such a program as well as current market perceptions of Portugal’s risk."
de um comunicado do PPD/PSD
(agora é que já perdi definitivamente o fio à meada, mas espero que seja apenas por causa do fuso horário.)
de um comunicado do PPD/PSD
(agora é que já perdi definitivamente o fio à meada, mas espero que seja apenas por causa do fuso horário.)
domingo, 20 de março de 2011
Se isto é um Presidente
"(...) Cavaco Silva foi certeiro no apelo a um programa estratégico de médio prazo, sustentado num alargado consenso. Na situação em que nos encontramos, um pacto entre os partidos do arco da governabilidade, envolvendo parceiros sociais, que conferisse estabilidade e previsibilidade a um conjunto de opções, para durar para além do tempo deste Governo e/ou desta legislatura, reforçaria as nossas condições negociais na Europa e contribuiria para resolver alguns dos problemas. Mas, com o antagonismo militante que grassa na política portuguesa, a proposta é utópica. A menos que o Presidente se oferecesse como desbloqueador do processo. Acontece que depois de quarta-feira, é impossível olhar para este Presidente como alguém acima das partes, preocupado em unir. (...)"
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lido aqui.
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lido aqui.
sexta-feira, 18 de março de 2011
Em defesa do 3º anel
O David Brooks explica aqui as razões porque devemos manter a pressão alta sobre os árbitros e assobiar tanto quanto possível. Ontem como hoje, a diferença pode mesmo estar no tradicional insulto ao bandeirinha.
quinta-feira, 17 de março de 2011
quarta-feira, 16 de março de 2011
Catástrofes em perspectiva
De uma leitura rápida das notícias do dia (para mim ainda é de manhã), posso concluir que o ciclo noticioso está a ser marcado por 5 temas:
- Eleições no Sporting;
- PEC IV e crise política - com várias declinações;
- Desastre nuclear no Japão;
- Promiscuidade entre poder judicial e poder político;
- Reconquista de território por Khadafi.
Se bem me parece, daqui a 5/10 anos, os dois primeiros temas revelar-se-ão como tendo sido os menos relevantes (e estou a pensar em Portugal).
(inspirado neste post)
- Eleições no Sporting;
- PEC IV e crise política - com várias declinações;
- Desastre nuclear no Japão;
- Promiscuidade entre poder judicial e poder político;
- Reconquista de território por Khadafi.
Se bem me parece, daqui a 5/10 anos, os dois primeiros temas revelar-se-ão como tendo sido os menos relevantes (e estou a pensar em Portugal).
(inspirado neste post)
terça-feira, 15 de março de 2011
Três simples
O artigo de Mário Soares no DN de hoje pode bem estar para Sócrates como o artigo de Cavaco no Expresso esteve para Santana.
Se o Japão não é capaz, imaginem Portugal

"(...) Japan's nuclear power stations were designed with the same care and precision as everything else in the country. More to the point, Japan is the only country in the world to have experienced true nuclear catastrophe. They had an incentive to build well, in other words, as well as the capability, the laws, and regulations to do so. Which leads to the unavoidable question: If the competent and technologically brilliant Japanese can't build a completely safe reactor, who can?"
vale a pena ler o resto do artigo da Anne Applebaum na Slate.
domingo, 13 de março de 2011
Uma missão impossível
"(...) O que demonstra que a austeridade unilateral é contraproducente se a Europa não fizer a sua parte. E a Europa não tem feito a sua parte. Como se não bastasse não reconhecer que o problema dos países da periferia é fruto de uma arquitectura institucional incapaz de lidar com choques assimétricos e dos desequilíbrios de uma moeda única sem política fiscal comum e sem compensação para os excedentes nas trocas comerciais internas, a Europa entregou-se a uma anomia política devastadora. Como escreveu Wolfgang Münchau no Financial Times, “esta crise é tanto alemã como espanhola. Este reconhecimento deve ser o ponto de partida para qualquer sistema eficaz de resolução”.
Deve, mas não tem sido. Percebe-se que os países do centro resistam a aceitar a natureza sistémica da crise do euro como pressuposto negocial, já não se compreende a capitulação política dos países da periferia. Não devemos exagerar o papel das lideranças no curso da história, mas se considerarmos que os países que podiam comandar a reforma da zona euro estão entregues a uma inexistência política (Zapatero) e a um tresloucado (Berlusconi), torna-se mais fácil entender como chegámos aqui. Serve de pouco, mas não se pode deixar de pensar como seria a gestão desta crise com Kohl na Alemanha, González em Espanha e Delors em Bruxelas."
o resto do meu artigo publicado no Expresso de 5 de Março, pode ser lido aqui.
Deve, mas não tem sido. Percebe-se que os países do centro resistam a aceitar a natureza sistémica da crise do euro como pressuposto negocial, já não se compreende a capitulação política dos países da periferia. Não devemos exagerar o papel das lideranças no curso da história, mas se considerarmos que os países que podiam comandar a reforma da zona euro estão entregues a uma inexistência política (Zapatero) e a um tresloucado (Berlusconi), torna-se mais fácil entender como chegámos aqui. Serve de pouco, mas não se pode deixar de pensar como seria a gestão desta crise com Kohl na Alemanha, González em Espanha e Delors em Bruxelas."
o resto do meu artigo publicado no Expresso de 5 de Março, pode ser lido aqui.
Sabemos muito pouco
"(...) a principal lição é mesmo que o Ocidente não se deve entreter a aprofundar relações com ditaduras. E quando isso acontece, precisamente em nome do realismo, é aconselhável procurar conhecer de facto as realidades locais. O indisfarçável entusiasmo comercial do Estado português com o regime brutal e bizarro de Kadhafi é, a este propósito, um aviso para o futuro. Precisamos de conhecer melhor o mundo antes de nos expormos tanto às suas contingências."
o resto do meu artigo publicado no Expresso de 26 de Fevereiro pode ser lido aqui.
o resto do meu artigo publicado no Expresso de 26 de Fevereiro pode ser lido aqui.
sexta-feira, 11 de março de 2011
Velhos movimentos sociais
Power In A Union from JD on Vimeo.
ou de como, quando me falam de mobilizações inorgânicas, pego logo no revólver.
quinta-feira, 3 de março de 2011
quarta-feira, 2 de março de 2011
factos
A saída da águia vitória continua a revelar-se estratégica - sem ela, 18 jogos a vencer (a massacrar, melhor dizendo);
Deixámos de ser uma equipa de totós - a atitude do JJ e do Rui no fim dos jogos é decisiva. Os estádios assépticos deram uma machadada no futebol, era o que mais faltava juntar a monomania do fair-play e dos salamaleques entre jogadores;
O Messi e o Ronaldo são extraordinários, mas gostava que me dissessem quem é que é capaz de parar o Fábio Coentrão quando acelera. Desde o Roberto Carlos que não se via nada assim;
Os gajos que 'crasharam' os jogos de futebol e os disponibilizam online merecem uma estátua. Palavra de emigrante;
Agora vou ver a Benfica TV (a verdade a que temos direito), daqui a bocado poderei ser avistado no Capitólio.
Deixámos de ser uma equipa de totós - a atitude do JJ e do Rui no fim dos jogos é decisiva. Os estádios assépticos deram uma machadada no futebol, era o que mais faltava juntar a monomania do fair-play e dos salamaleques entre jogadores;
O Messi e o Ronaldo são extraordinários, mas gostava que me dissessem quem é que é capaz de parar o Fábio Coentrão quando acelera. Desde o Roberto Carlos que não se via nada assim;
Os gajos que 'crasharam' os jogos de futebol e os disponibilizam online merecem uma estátua. Palavra de emigrante;
Agora vou ver a Benfica TV (a verdade a que temos direito), daqui a bocado poderei ser avistado no Capitólio.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Um futuro incerto

"(...) o mais provável é continuarmos incapazes de compreender de modo inteligível o que nos rodeia. Como recordava há semanas António Costa Silva, parecemo-nos com Fabrizio del Dongo (personagem da "Cartuxa de Parma", de Stendhal), quando, nas arrebatadoras cem primeiras páginas do romance, num único dia, atravessa a batalha de Waterloo, é ferido, cruza-se sem saber com o próprio pai, sempre com perceção escassa do contexto que o envolve. Como ele, navegamos movidos por um conjunto de ambições românticas e, em lugar de proclamações definitivas sobre o futuro, assentes em modelos fechados, precisamos de mais factos e menos asserções teóricas. É a única forma de lidarmos com a contingência que nos rodeia e contrariarmos o del Dongo que tem estado demasiadamente presente nos olhos com que olhamos para o mundo. Seja em relação à crise, ao Médio Oriente ou ao PIB português."
o resto do meu artigo publicado na edição do Expresso de 19 de fevereiro pode ser lido aqui.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Um bom debate
para seguir aqui. muitas explicações convincentes sobre a incapacidade de antecipar acontecimentos como os das últimas semanas.
Ironias da história
A crer no Washington Post (não encontrei a notícia online), Farouk Hosni está proibido de sair do Egipto, no que aparenta ser o início de uma investigação criminal ao ex-ministro. Não sei se estão a ver quem é.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Os velhos são o futuro
O Martinho aqui, diz tudo o que há a dizer sobre isto (que se aplica a outras parvoíces): "Podemos acreditar em telhados e céus azuis, mas é no chão com o pé a bater que a fricção da juventude se solta, desamparada e livre. Siga."
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
O Josh Lyman ganhou

A vida continua a imitar a ficção e Chicago tem um novo Mayor. Rahm Emanuel (ou Josh Lyman) era, por várias idiosincracias, um improvável candidato à vitória numa eleição uninominal. Mas ganhou e, no fundo, tudo se pode resumir às palavras de um empresário que o apoiava que, mantendo o anonimato, dizia sobre Emanuel, numa reportagem neste fim-de-semana no NYT, qualquer coisa como: "do I like him? it's not about liking".
Escolher em quem se vota raramente é uma questão de "gostar". Com optimismo, podemos ter a sorte de uma ou duas vezes votarmos em alguém de quem gostamos. Não podendo votar no Josh, eu gostava de ter votado neste gajo, que tem manifesto mau feitio, que desagradava a gregos e a troianos e que fez serviço militar em Israel durante a guerra do golfo. Um tipo que não era 'likable'.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
A cantiga é uma arma

Os The National deram um concerto surpresa há duas semanas no Webster Hall em NY. A MTV (aparentemente ainda existe como canal de música) filmou e pode ver-se aqui.
sábado, 19 de fevereiro de 2011
A instabilidade endémica
"(...) A corrida para ver quem censura primeiro dá um retrato fiel do país político: os partidos envolvidos num jogo tático confrangedor, em que, de um lado, temos um Governo com um programa que não é o seu e, de outro, uma oposição que escolheu o caminho da fulanização anti-Sócrates como forma de esconder as suas vacuidades programáticas.
Ora, em lugar desta tensão tática primária, com o espectro de ingovernabilidade sempre a pairar, o que o conjunto dos partidos nos poderia oferecer era capacidade negocial de facto, institucionalizando uma prática de diálogo que teimamos em não ter. Os ajustamentos que necessariamente teremos de fazer só são exequíveis com um pacto social alargado, que dê sustentabilidade e previsibilidade às opções - à imagem do que aconteceu em Espanha. O que temos é um jogo de póquer, desfasado da realidade, no qual nem Governo, nem oposições se mostram disponíveis para abandonar a rigidez das suas posições de partida.
No fundo, torna-se claro que, se as dificuldades não forem suficientes, temos sempre uma garantia: o sistema político cá estará para somar problemas. Talvez assim se perceba a especificidade do mal português e o crescente desajustamento entre partidos e país."
o resto do meu texto publicado na edição do Expresso de 12 de fevereiro de 2011, pode ser lido aqui.
Ora, em lugar desta tensão tática primária, com o espectro de ingovernabilidade sempre a pairar, o que o conjunto dos partidos nos poderia oferecer era capacidade negocial de facto, institucionalizando uma prática de diálogo que teimamos em não ter. Os ajustamentos que necessariamente teremos de fazer só são exequíveis com um pacto social alargado, que dê sustentabilidade e previsibilidade às opções - à imagem do que aconteceu em Espanha. O que temos é um jogo de póquer, desfasado da realidade, no qual nem Governo, nem oposições se mostram disponíveis para abandonar a rigidez das suas posições de partida.
No fundo, torna-se claro que, se as dificuldades não forem suficientes, temos sempre uma garantia: o sistema político cá estará para somar problemas. Talvez assim se perceba a especificidade do mal português e o crescente desajustamento entre partidos e país."
o resto do meu texto publicado na edição do Expresso de 12 de fevereiro de 2011, pode ser lido aqui.
A cantiga também é uma arma
Chico, não sei se o teu argumento resiste a muitos testes empíricos. Até porque o problema é simples e resume-se assim: a canção dos Deolinda é uma merda. Escreverias o mesmo a propósito deste gajo? (aqui, em pleno colaboracionismo, a cantar na DDR em 1986)
e aqui já rendido aos encantos das pequenas burguesas
e aqui já rendido aos encantos das pequenas burguesas
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Fazer implodir as escolas

"(...) se a aprendizagem for feita através dos instrumentos que, de facto, motivam e concentram, a aprendizagem é garantida. Substituamos, portanto, a escola por jogos de computador e atribuamos à indústria do entretenimento a responsabilidade por adequar os conteúdos programáticos aos interesses das crianças.
Quem quer que tenha visto uma criança a resolver dilemas complexos num jogo de estratégia percebe bem que dificilmente se encontraria melhor forma de ensinar História, Literatura ou Matemática. A indústria do entretenimento é o novo sistema educativo.
Mas, estranhamente, enquanto os Ministérios da Educação gerem com mão de ferro escolas e currículos, têm escassa intervenção nos meios que, hoje, de facto, educam. Ora, com maior regulação, as empresas que produzem jogos ver-se-ão obrigadas a contratar os melhores filósofos e matemáticos para enriquecer os seus conteúdos.
Como conclui Gough, a escola é uma chatice porque é muito aborrecida, não porque seja muito desafiante. Logo, o objetivo não passa por tornar a aprendizagem mais fácil, mas, sim, mais difícil. Coloquem um cronómetro em contagem decrescente e façam um aluno perder vidas de cada vez que falhar e vão ver uma criança motivada. Depois, resta acrescentar bons conteúdos. Uma tarefa que pode bem ser feita sem escola, mas que precisa de um Ministério da Educação que lhe confira sentido."
o resto do meu texto publicado na edição do Expresso de 5 de fevereiro de 2011, pode ser lido aqui e o artigo de Nigel Gough que cito, aqui.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Moções e fogachos
"(...) A moção de censura que o PCP queria preparar para a Primavera visava condicionar toda a gente. A que o BE vai apresentar no Carnaval é um fogacho de circunstância. Entre uma e outra há toda a diferença que resulta de o PCP sonhar com o derrube de um regime e o BE querer apenas a crista da onda. O hino da moção do PCP seria a centenária Internacional, o da do BE será a instantânea "parva que sou"
como sempre, o que o Paulo escreve vale a pena ser lido (integralmente aqui).
como sempre, o que o Paulo escreve vale a pena ser lido (integralmente aqui).
O regresso do excepcionalismo português
Pode bem dar-se o caso de, daqui a uns meses, termos a aterrar no aeroporto da Portela dezenas de cientistas políticos, interessados em saber como é que um primeiro-ministro que enfrentava uma tempestade perfeita (desemprego nos 10%, dificuldades de financiamento da economia, défice de credibilidade e falta de confiança), reconquistou a maioria em eleições antecipadas, sendo eleito para um terceiro mandato. As explicações podem, naturalmente, ser procuradas em dias como os de hoje.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Explicar o Tony Wilson e os Joy Division às crianças
Um video que vai fazer muito pela pedagogia doméstica.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Pensem Nisto
"(...) Carlos Silvino, uma das testemunhas centrais do 'caso Casa Pia' e a quem no passado foi atribuída uma inusitada credibilidade, deu uma entrevista, após ter deixado de ter como advogado um ex-inspetor da Judiciária, em que, no essencial, afirma que a prova foi fabricada e que não só não conhecia os locais onde teriam sido praticados os crimes, como o reconhecimento que fez foi todo realizado previamente com inspetores da Judiciária. Independentemente das nossas convicções subjetivas sobre os vários protagonistas, o mínimo que podemos exigir é que seja, finalmente, feita uma investigação à investigação. Desde o seu início, o 'caso Casa Pia' tem demasiadas semelhanças com o que envolveu Elio di Rupo e com o 'affaire d'Outreau'. Com uma diferença assinalável: na Bélgica e em França, o sistema foi capaz de se questionar a si próprio, procurando a verdade, mesmo que isso implicasse perder a face. Pensem nisto."
o resto do meu artigo publicado na edição do Expresso de 29 de janeiro de 2011 pode ser lido aqui
o resto do meu artigo publicado na edição do Expresso de 29 de janeiro de 2011 pode ser lido aqui
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Libertem o Andy Bell
Faz por esta altura vinte anos que os Ride lançaram o Nowhere - o disco que, entre outros atributos, tem porventura a melhor capa da década de noventa. O essencial da história está resumida aqui. Desfizeram-se rapidamente e enquanto se perdeu o rasto do Mark Gardener, o Andy Bell passou a coadjuvar os irmãos Gallagher em sucessivas aventuras. É um enigma sem resposta: Andy Bell fez dois discos que deixam tudo o que os Oasis fizeram a milhas e depois entreteve-se a tocar baixo na banda. Acho que se podia lançar um movimento a apelar à sua libertação. E já que andamos numa de hinos geracionais, aqui fica mais um.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Losing my edge
Já não é a primeira vez, nem será a última, que se tenta encontrar um hino geracional cantado em português. Se bem interpretei o que o Rui Tavares escreveu no Público há um par de dias, o hino agora encontrado é feito à medida da geração imediatamente a seguir à minha - que é também a dele. Retomando a formulação que o Ivan Nunes (ou ex-Ivan) encontrou no início da década de noventa, desta feita é que estamos perante uma "geração à rasca" e os Deolinda deram voz aos problemas de quem tem entre vinte e trinta anos (ou talvez um pouco mais). Os problemas, não vale a pena iludir, não são poucos, bem pelo contrário, e são também de uma natureza diferente dos que enfrentávamos no passado. Tudo isto porque fui espreitar a tal música dos Deolinda e só me veio à cabeça a frase do Caetano, há quatro décadas quando foi vaiado enquanto cantava o "é proibido proibir", perante uma plateia que esperava mais um cantor de protesto: "se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos".
O problema deve ser meu, que já estou a perder o passo, mas a única coisa que me imagino a cantar de punho erguido, como hino geracional, é mesmo isto.
O problema deve ser meu, que já estou a perder o passo, mas a única coisa que me imagino a cantar de punho erguido, como hino geracional, é mesmo isto.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Vitória

Poucas decisões estratégicas se revelaram tão acertadas na história recente do Benfica como a de descartar a águia Vitória. O Benfica não pode depender de amuletos e superstições. Bem pelo contrário. Depois da má experiência da capela da senhora Prieto, estávamos agora nas mãos de uma águia amestrada, ainda mais por um espanhol. E factos são factos: desde que nos vimos livres da águia só conhecemos um resultado.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
campanha tem de nascer duas vezes
"(...) Naquilo que é uma marca da liderança de José Sócrates no PS, assistiu-se mais uma vez à secundarização de eleições que não as legislativas. Aliás, num facto que deve ser motivo de reflexão, Sócrates venceu duas eleições legislativas e averbou várias derrotas eleitorais entre autárquicas, europeias e presidenciais. Este desinvestimento nas vários atos eleitorais tem sido um mecanismo de fragilização do exercício do poder executivo, cuja legitimidade e energia não radicam apenas nas eleições para o parlamento. A este propósito, o modo como o PS se deixou amarrar a uma candidatura contraditória com o posicionamento ideológico que escolheu nos últimos anos torna-se difícil de compreender. Não por acaso, assiste-se a um sentimento de orfandade política entre muito do eleitorado que votou PS e que se reviu na estratégia reformista seguida na segurança social, saúde e educação (para dar três exemplos de áreas onde, independentemente da avaliação substantiva que possamos fazer, Sócrates e Alegre não podiam estar mais distantes).
Alegre, que nas últimas presidenciais se revelou um candidato competitivo enquanto maverick e corpo estranho ao próprio sistema partidário, desta feita foi incapaz de gerir a evidente contradição da sua base de apoio. Pensar que era possível, numa primeira volta, fazer convergir as narrativas políticas do PS e do BE e mobilizar ambos os eleitorados revelou-se um lirismo sem adesão à realidade. Ao mesmo tempo que serviu para empurrar Alegre para uma campanha sem orientação estratégica. A entrada tardia, mas impetuosa, de alguns ministros na campanha, não só não terá contribuído para compensar o défice de mobilização (que tem de assentar num envolvimento prolongado), como serviu para expor o modo extemporâneo como o PS lidou com o seu candidato.(...)"
o resto do meu artigo publicado no Expresso da semana passada, pode ser lido aqui.
Alegre, que nas últimas presidenciais se revelou um candidato competitivo enquanto maverick e corpo estranho ao próprio sistema partidário, desta feita foi incapaz de gerir a evidente contradição da sua base de apoio. Pensar que era possível, numa primeira volta, fazer convergir as narrativas políticas do PS e do BE e mobilizar ambos os eleitorados revelou-se um lirismo sem adesão à realidade. Ao mesmo tempo que serviu para empurrar Alegre para uma campanha sem orientação estratégica. A entrada tardia, mas impetuosa, de alguns ministros na campanha, não só não terá contribuído para compensar o défice de mobilização (que tem de assentar num envolvimento prolongado), como serviu para expor o modo extemporâneo como o PS lidou com o seu candidato.(...)"
o resto do meu artigo publicado no Expresso da semana passada, pode ser lido aqui.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
"(...) Eram centenas e centenas, as verdades, e todas elas eram bonitas.
E então vieram as pessoas. Cada uma delas assim que aparecia agarrava uma das verdades e algumas que eram mais fortes apoderavam-se de uma dúzia delas.
Foram as verdades que tornaram as pessoas grotescas. O velho tinha uma teoria bastante elaborada a tal propósito. Era ideia dele que no momento em que uma pessoa tomava uma das verdades para si própria, chamando-lhe a sua verdade, e se esforçava por conduzir a sua vida de acordo com essa verdade, a pessoa tornava-se grotesca e a verdade que abraçava tornava-se numa mentira. (...)"
Sherwood Anderson, Winesburg, Ohio (se só lerem um livro nos próximos, vá lá, dois anos, leiam este)
E então vieram as pessoas. Cada uma delas assim que aparecia agarrava uma das verdades e algumas que eram mais fortes apoderavam-se de uma dúzia delas.
Foram as verdades que tornaram as pessoas grotescas. O velho tinha uma teoria bastante elaborada a tal propósito. Era ideia dele que no momento em que uma pessoa tomava uma das verdades para si própria, chamando-lhe a sua verdade, e se esforçava por conduzir a sua vida de acordo com essa verdade, a pessoa tornava-se grotesca e a verdade que abraçava tornava-se numa mentira. (...)"
Sherwood Anderson, Winesburg, Ohio (se só lerem um livro nos próximos, vá lá, dois anos, leiam este)
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Um Presidente mísero
Já tínhamos tido o "sisudo", o "bonacheirão" e o "piegas". Depois dos discursos de ontem, passamos a ter o "rancoroso".
sábado, 22 de janeiro de 2011
Olhem que chamo o FMI
"(...) mais uma vez, ficou exposta a natureza surreal do debate político português. É natural que as oposições procurem responsabilizar os governos pelos impactos nacionais da crise, mas em lado nenhum da Europa se assiste a uma discussão que não parta do pressuposto de que estamos perante um ataque ao euro, que começou nas periferias, e que se intensificou a partir do momento em que a Alemanha começou a hesitar nas garantias. No entanto, quem olhe apenas para Portugal, poderia convencer-se que as razões para as nossas dificuldades de financiamento resultam exclusivamente dos nossos erros.
Não há, contudo, prova mais acabada da natureza sistémica da crise do euro do que a diferença entre o que nos foi sendo dito aquando dos sucessivos resgates e o que acabou por suceder. Os apoios foram apresentados como uma forma eficaz de estancar a crise das dívidas soberanas. Está à vista que assim não foi: o efeito-dominó não tem parado. Agora somos nós que estamos sob pressão, mas, se viermos a ser resgatados, a pressão limitar-se-á a deslocar-se em direção a Espanha. Com uma agravante, como os casos grego e irlandês revelam: a diferença entre as taxas de juro nos mercados e dos empréstimos obtidos com a intervenção UE/FMI não é significativa. A Irlanda paga hoje 5,8%, quando Portugal se financiou a 6,7%. O que nos deixa uma certeza: com as políticas de austeridade vigentes na zona euro, o risco de incumprimento é uma realidade quer num país intervencionado quer num que vá mantendo uma ilusão de soberania. (...)"
o resto do meu texto publicado no Expresso da semana passada pode ser lido aqui.
Não há, contudo, prova mais acabada da natureza sistémica da crise do euro do que a diferença entre o que nos foi sendo dito aquando dos sucessivos resgates e o que acabou por suceder. Os apoios foram apresentados como uma forma eficaz de estancar a crise das dívidas soberanas. Está à vista que assim não foi: o efeito-dominó não tem parado. Agora somos nós que estamos sob pressão, mas, se viermos a ser resgatados, a pressão limitar-se-á a deslocar-se em direção a Espanha. Com uma agravante, como os casos grego e irlandês revelam: a diferença entre as taxas de juro nos mercados e dos empréstimos obtidos com a intervenção UE/FMI não é significativa. A Irlanda paga hoje 5,8%, quando Portugal se financiou a 6,7%. O que nos deixa uma certeza: com as políticas de austeridade vigentes na zona euro, o risco de incumprimento é uma realidade quer num país intervencionado quer num que vá mantendo uma ilusão de soberania. (...)"
o resto do meu texto publicado no Expresso da semana passada pode ser lido aqui.
Subscrever:
Mensagens (Atom)










