"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Will you walk with me out on the wire


"He was my great friend, my partner and with Clarence at my side, my band and I were able to tell a story far deeper than those simply contained in our music.".

Um partido incoligável

"O PS começou a perder as eleições no momento em que formou um governo minoritário em 2009. Após a magra vitória nas legislativas e perante a necessidade de fazer ajustamentos muito impopulares, governar em maioria relativa com acordos de curtíssimo alcance levaria inevitavelmente à derrocada eleitoral do último domingo. Poderia ter sido diferente? Muito provavelmente não, o que revela a encruzilhada em que se encontram os socialistas. Com a resiliência eleitoral da esquerda do pré-25 de Novembro, o PS dificilmente conquista uma maioria absoluta, ao mesmo tempo que é um partido incoligável: não pode realizar entendimentos programáticos à sua esquerda e fica dependente de acordos à direita que duram enquanto PSD e CDS os considerarem oportunos.(...)"

o resto do meu artigo publicado no Expresso de 10 de Junho pode ser lido aqui.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

I'm truly sorry - but it sounds like a wonderful thing


O The Queen is Dead faz hoje 25 anos. Os caminhos da memória são selectivos e reveladores. Já me esqueci de muitas coisas que entretanto aconteceram, algumas delas bem "importantes". Mas sei quem me mostrou pela primeira vez uma música dos Smiths, sei qual era a música e sei em casa de quem vi e ouvi pela primeira vez o The Queen is Dead. Se tiver de escolher duas ou três coisas que me tenham moldado, o conjunto de revelações que me chegou com este álbum estará entre elas. Quando os ouvi, pensei que era a melhor coisa que alguma vez me tinha sido dado a ouvir. Não mudei de opinião.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

"Subversive ideas can get through if you wrap them up in a great pop tune"

"I wrote This Charming Man for a John Peel session. I just leapt out of bed and wrote it. It was the culmination of trying to find a way of playing that was non-rock but still expressed my personality. I felt we needed something more upbeat in a different key and was miffed that Aztec Camera's Roddy Frame was getting on the radio and we weren't. That's why it's got that sunny disposition; my usual default setting was Manchester in the rain."
Johnny Marr, no Guardian de ontem, num artigo do próprio a propósito da estreia dos Smiths no Top of the Pops. Isto e muito mais pode ser "lido" numa viciante timeline da música explorável no site do Guardian. E sempre se fica a saber o que é que se passou no Lesser Free Hall a 4 de Junho de 1976.

Os The Smiths em plena subversão no TOTP

Nobre foi ao ar

Sempre se poupa à humilhação e poupa-nos a todos à humilhação.

adenda: afinal é pior do que eu havia entendido. Portas não apoia Nobre para Presidente da AR, mas incita Passos a fazê-lo. Ou seja, o número dois do futuro executivo aproveita para ver se o primeiro-ministro do governo de que vai fazer parte se espeta logo na primeira curva. Vai ser bonito de se ver.

O que tenho andado a ler

- David Byrne fala do dvd da digressão "songs of David Byrne and Brian Eno" e compara todas as tournées que fez com 'Stop making sense' - um albatroz que não se pode ignorar, mas com o qual também não é possível competir.

- Nicholas Kristof especula como seria um país com um governo limitado às funções de soberania e com uma reduzida pressão fiscal.

- Michael Kazin, num artigo sobre a esquerda radical norte-americana, sublinha que esta conseguiu fazer a diferença nos momentos em que foi um parceiro menor em coligações lideradas por reformistas do establishment.

- Peter A. Diamond, prémio nobel da economia no ano passado, explica como nos tempos actuais, um nobel, ainda para mais premiando os trabalhos do autor sobre mercado de trabalho e protecção social, não qualifica para fazer parte do board da reserva federal. Um belo e deprimente retrato dos tempos.

- o perfil de Justin Vernon (aka Bon Iver), de 'lost in the woods' a buddy do Kanye.

terça-feira, 14 de junho de 2011

NSFW



Se eu mandasse no mundo, o porno seria tal e qual como este video: o Hendrix reencarnado em mulher a tocar covers dos Beatles.

o bom e o mau aparelhismo

“Sei que há milhares de militantes por esse país fora que se queixam de nos últimos 15 a 20 anos estarem sem participação. São militantes que não são ouvidos, porque há concelhias e federações distritais onde o partido tem estado fechado, excessivamente colonizado pela administração central ou pelos aparelhos autárquicos, incapaz de se abrir e de discutir”

Francisco Assis que é apoiado pela federação do Porto, um farol de abertura e de autonomia face à administração desconcentrada e ao aparelho autárquico, em declarações hoje à LUSA.

O mundo de Tony Judt


o texto sobre Tony Judt que escrevi para o Atual do Expresso de 3 de Junho pode ser lido aqui.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Uma competição entre iguais

Quando os líderes dos dois principais partidos políticos têm percursos políticos, profissionais e académicos decalcados um do outro, ficamos a saber mais sobre os partidos do que sobre quem ocupa as lideranças.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Quem é que disse que já não se faziam boas canções de protesto?



a melhor música sobre a guerra do Iraque.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O que tenho andado a ler

- Richard Cohen desmonta o argumento de que com as crises económicas se tende a assistir a um aumento da criminalidade.

- Ariel Levy (uma 'huge jew') sobre a queda de Berslusconi, um artigo que expõe a dimensão grotesca do 'il cavalieri' (que, ainda assim, temo bem, não está em declínio por força do seu hedonismo muito particular).

- Russell Baker explica como do "fim" do casamento entre Eleanor e F.D. Roosevelt nasceu um novo equilíbrio de poder na família presidencial, que tornou Eleanor uma das primeiras mulheres com poder efectivo na política norte-americana.

- as razões porque Paul Scholes não tendo sido o jogador que os miúdos queriam imitar, foi o jogador que todos os super-jogadores quiseram imitar.

- o que faz de um best-seller um best-seller é provavelmente apenas o facto de vender muito. ainda assim, a natureza dos best-sellers foi alterando-se ao longo dos tempos. Ruth Franklin no Book Forum.

Reformas? não, obrigado

"Cavaco Silva deixou-nos as reformas da década; Guterres reformou o país com as pessoas primeiro; Barroso ameaçou reformar, percebeu que o lugar queimava e foi para Bruxelas; Sócrates insiste que até à crise internacional fez reformas profundas; a Troika exige-nos que reformemos o país de alto a baixo; e, finalmente, Passos Coelho, com a impetuosidade própria das juventudes partidárias, promete-nos reformas mais radicais do que as da Troika. A conclusão é clara: em Portugal há um ímpeto reformista difícil de acompanhar. As consequências de tanta reforma é que não têm sido as melhores.
Estamos perante um caso no qual a retórica política corresponde à realidade empírica. O ‘projecto manifesto’ – uma base de dados muito exaustiva sobre política europeia – revela um facto singelo: Portugal é o país europeu que mais altera as suas políticas públicas. Ou seja, o nosso reformismo não encontra paralelo. De cada vez que muda o Governo, mudam as políticas e, arrisco acrescentar, de cada vez que muda o ministro, o mesmo acontece. Ora, pode bem dar-se o caso de estarmos como estamos, não por falta de reformas, mas por termos feito reformas a mais, com fraca estabilização de políticas, pouca cooperação na sua implementação e escassa monitorização de impactos.(...)"

o resto do meu artigo do Expresso de 28 de Maio pode ser lido aqui.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O mundo de Tony Judt



o meu texto de hoje no Atual do Expresso percebe-se melhor vendo este video.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Do que vi em Washington, o que mais me impressionou foi


isto.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O que tenho andado a ler

- ao lado de quem nos sentamos quando chegamos a um sítio que nos é estranho? uma resposta possível aqui.

- como é que a ciência política pode ajudar o jornalismo político. um texto a ler em especial nas redações que usam e abusam dos comentários de politólogos.

- os caminhos do optimismo, um texto bem adequado ao Portugal de hoje.

- o perfil de Tyler Cowen na Business Week. Os séculos passam e continuam a existir homens saídos do renascimento por aí.

- David Ignatius sobre a Primavera árabe: entre a vingança e a reconciliação.

- um óptimo perfil de Gil Scott-Heron por Alec Wilkinson escrito há um ano e, entretanto, o obituário.

O Obama também lamenta

"Lamento não me ter cruzado com o Presidente Obama em Varsóvia, mas o planeamento da sua viagem não chegou a tempo ao meu conhecimento. Obama esteve em Londres antes de eu chegar e, quando eu cheguei a Londres, estava ele rumo a Varsóvia. (...)"
João Carlos Espada (Director do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa; titular da cátedra European Parliament/Bronislaw Geremek in European Civilization no Colégio da Europa, Campus de Natolin, Varsóvia), hoje no Público.

sábado, 28 de maio de 2011

Não temos mais oportunidades

"(...) Há uma forte probabilidade de Passos Coelho vir a ser primeiro-ministro. Ora uma coisa básica que um candidato ao cargo devia saber é que, contrariamente ao que a língua-de-pau sugere, não se governa nenhum sector se nos deixarmos capturar pelos interesses da área. O líder do PSD deu um passo de gigante para ficar capturado pelos professores. Não tardará muito a pagar com juros elevados a ilusão de popularidade que agora julga conquistar.(...)"

o resto do meu artigo de Sábado passado no Expresso pode ser lido aqui.

1,2,3,4


gone.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

As finais da NBA


Dirk Nowitski, 32 anos; Jason Kidd, 38 anos

As finais das duas conferências da NBA terminaram do mesmo modo. No Oeste, anteontem, Oklahoma liderava no quarto período com uma diferença confortável e Dallas recuperou de modo surpreendente no último par de minutos. Ontem, no Leste, aconteceu o mesmo, em Chicago, com os Bulls a delapidarem a vantagem no final do jogo, com os Miami Heat a fazerem dois triplos decisivos, no derradeiro minuto. Oklahoma e Chicago têm dois pares de jogadores muito talentosos, mas, também, bastante jovens (Durant e Westbrook nos Thunder e Rose e Noah nos Bulls), Dallas e Miami assentam o seu jogo em dois pares de jogadores bem mais maduros e experimentados (Nowitski e Kidd nos Mavericks, James e Wade nos Heat). Mesmo com uma vantagem que aparentava ser confortável, nos minutos finais, os jovens lobos soçobraram, não souberam lidar com a pressão e deitaram a perder o que parecia garantido - cometendo erros, que a experiência dos adversários soube explorar. Num jogo em que a pressão emocional conta tanto como a perícia técnica, a final vai reunir os mais experientes. Será que esta história se vai repetir, em Portugal, com outros protagonistas, na semana final da campanha para as eleições mais disputadas das duas últimas décadas?

quinta-feira, 26 de maio de 2011

contributos para a definição de cowboy

quarta-feira, 25 de maio de 2011

terça-feira, 24 de maio de 2011

Fim-de-semana alucinante



Eu também gosto muito do fim-de-semana alucinante.

Já que ninguém pergunta



as minhas dez músicas preferidas são:

- My Back Pages (1964)
- Queen Jane Approximately (1965)
- Like a Rolling Stone (1965)
- I Want You (1966)
- Sad-Eyed Lady Of The Lowlands (1966)
- I Dreamed I Saw St. Augustine (1968)
- The Ballad Of Frankie Lee And Judas Priest (1968)
- Forever Young (1974)
- Simple Twist of Fade (1975)
- Hurricane (1976)

obrigado e parabéns.
(post em reconstrução permanente)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Os paquistaneses da Almirante Reis

Os imigrantes arrebanhados para a caravana do PS são um ponto baixo das campanhas eleitorais em Portugal. É uma daquelas imagens que é suficientemente degradante para precisar de comentários adicionais e que não pode deixar de envergonhar o PS. Infelizmente, não estamos perante um episódio isolado, faz parte de uma tendência de declínio da mobilização política tradicional. Os partidos – mas também os sindicatos – são cada vez menos capazes de produzir grandes momentos de (auto-)mobilização popular. De modo mais ou menos assumido, grande parte da mobilização depende de formas contratualizadas (não por acaso, a mobilização partidária e sindical passa, hoje, muito pelo poder autárquico, assentando em mecanismos de troca de favores, materiais ou não). O estranho é que, enquanto a mobilização espontânea tradicional quase desapareceu, as encenações mediáticas continuam a exigir uma envolvente popular que os partidos já não são capazes de produzir. Sem serem capazes de superar esta exigência, hoje, as maquinas partidárias vivem uma tensão permanente entre construir encenações que satisfaçam as coberturas mediáticas e a revelação do carácter encenado dos momentos populares das campanhas. Não seria possível romper com este ciclo vicioso?
também aqui.

O que tenho andado a ler

- David Ignatius defende que a comparação adequada para a 'Primavera árabe' não é nem com as revoluções de 1848, nem com 1989. A analogia indicada é com 1815 e com o declínio da estrutura de poder hegemónica que existia antes de Waterloo. Tal como então, estamos perante um período de transição, que implicará uma nova definição do poder. O que fazer num contexto de incerteza?

- o mundo pode ser bem melhor se não nos viciarmos em gadgets, Chris Williams, que não tem Ipad, Ipod, LCD, explica porquê aqui.

- Paul Graham tenta compreender qual a razão para os nerds serem, simultaneamente, os mais espertos e os mais impopulares das escolas secundárias.

- George Orwell na intimidade, através dos seus diários e das suas cartas.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O diabo está na implementação

"(...) Após as eleições, teremos um parlamento fragmentado e um primeiro-ministro que iniciará o mandato fragilizado, depois de uma campanha na qual os partidos se têm entretido a perpetuar uma guerrilha táctica com escasso conteúdo estratégico, minando as condições negociais futuras. O problema é que todos serão obrigados a negociar com os parceiros que agora diabolizam. Há semanas, na apresentação do orçamento norte-americano, Obama dizia “não esperar que os detalhes do acordo final se parecessem exatamente com a sua proposta. Isto é uma democracia; e é assim que as coisas funcionam”. Aí está uma frase que deveria ser colada num post-it à frente de todos os líderes partidários, como forma de socialização com uma cultura negocial que não temos e que nos faz bem mais falta do que diagnósticos ou medidas concretas."

o resto do meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lido aqui.

Entre Antonio Gramsci e Green Gartside


Nas próximas semanas andarei, em boa companhia, pelo Escrita Política da TSF.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Jurado+Vanderslice

Por muito que possamos pensar estar preparados, nunca o estamos verdadeiramente. Ontem, quando o Damien Jurado se debruçou sobre a viola e começou a cantar, eu não estava preparado. Um homem grande, encolhido num palco minúsculo, sentado num banco baixo, acompanhado por uma mulher com uma voz expressiva (a fazer lembrar a Hope Sandoval), mostrava que há músicas que não são feitas para os frios. Damien Jurado está para Neil Young como Bill Callahan está para Johnny Cash: as suas canções partem da reverência ao cancioneiro folk, destilando-o, para nos devolverem as emoções primeiras. Há em todas elas um eco de um lugar negro, mas a tristeza que nelas se sente não nos arrasta, pelo contrário, é reveladora. Quem não for capaz de se emocionar com isto:



Depois, John Vanderslice deu o concerto mais familiar a que já assisti (e já vi o Matt Berninger a chocar com a mãe e a irmã quando desceu do palco no Mr. November). Acompanhado apenas por um baterista (que era um dois em um, pois, num número de circo, tocava as linhas de baixo num moog com a mão direita, enquanto tocava bateria com a esquerda), em palco as suas canções não perderam a combinação entre contenção e grandiloquência que as caracterizam em disco. Houve de tudo um pouco: declarações à mãe que assistia, ‘parade’ dedicado aos Mountain Goats (que já produziu e com quem colabora frequentemente), membros do público que cantaram no palco e, para terminar, ‘white dove’ e ‘time to leave’ cantados sem amplificação, no meio do público, acompanhado por Damien Jurado. No início do concerto, Vanderslice – que passará por Lisboa depois do Verão para actuar no Santiago Alquimista e que se confessou grande fã da cidade – prometeu um concerto divertido. Cumpriu a promessa, e depois da experiência intensa de Jurado, nada como uma mão-cheia de óptimas canções (óptimas mesmo) para descomprimir. John Vanderslice arrisca-se a ganhar o campeonato de músico mais simpático do mundo.

John Vanderslice @ Chasing The Moon 10.04.09 from Scott McDowell on Vimeo.





Damien Jurado - Live @ Brighton Music Hall, 05-15-2011 by adrianfward

O que tenho andado a ler

- um pouco por todo o lado, o debate político tem-se tornado crescentemente extremado, Portugal não é excepção. Mas será que a raiva como factor de mobilização é assim tão negativa? e como é que opera? algumas respostas aqui.

- nada como uma boa história para combater o cinismo que ameaça tornar-se hegemónico.

- Sasha Frere-Jones na New Yorker sobre Bill Callahan.

- a inclinação para a leitura de romances longos pode bem ser explicada por uma espécie de síndrome de Estocolmo literário. Para ler aqui.

- Steven Pearlstein, enquanto se revela crítico da solução encontrada pelo FMI e BCE para a crise da dívida soberana (que está a empurrar os países para uma espiral imparável de crescimento da dívida e do défice, acompanhadas de doses sucessivas de austeridade), sugere uma estratégia alternativa que passa pela recapitalização da banca do centro, em lugar de bail-outs à periferia.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Da memória

Hoje foram conhecidos os primeiros dados da nova série de emprego do INE. Não sei se estão recordados de uma discussão que ocorreu em Portugal quando se soube da alteração de metodologia do inquérito ao emprego. Entre vários argumentos bastante patetas (é uma questão de procurarem no google), o ponto essencial era que estávamos perante uma forma do governo manipular as estatísticas e fazer descer o desemprego administrativamente. Não sei se deram pelos dados conhecidos hoje.

Luz


Outside of a dog, a book is a man’s best friend. Inside of a dog, it’s too dark to read.
Groucho Marx

terça-feira, 17 de maio de 2011

É possível não simpatizar com este tipo?


“That’s not an endorsement. He’s not my favorite person, but he’s a fascinating character.”
Barack Obama on Omar Little, enquanto elege Wire como a sua série favorita (notícia completa aqui; som aqui).
via vasco.

O que tenho andado a ler

- sobre a biografia da mãe de Obama, recentemente publicada, um texto na NY Review of Books que, contando a história de vida da sua mãe, nos ajuda a perceber melhor o Presidente norte-americano.

- Bin Laden’s death and the debate over torture, um artigo de John
McCain crítico do recurso à tortura. Alguém que pode falar com propriedade sobre o assunto e que é, acima de tudo, um homem decente.

- ainda sobre a tortura, Aryeh Neier tem um argumento certeiro: como não temos forma de avaliar a eficácia da recolha de informação através de tortura, a única forma de discutir o assunto é no plano dos princípios.

- o provedor do NY Times sugere que o jornal abandone os eufemismos e passe a utilizar a palavra tortura quando o que está em causa é mesmo tortura.

- Niall Ferguson sobre o novo livro de Henry Kissinger, On China, escrito aos 87 anos. E a recensão do NY Times.

- Robert Samuelson contraria a ideia feita de que a idade e a passagem a pensionista se traduz em empobrecimento. O argumento é muito centrado em evidências do caso norte-americano, mas há elementos que estão também presentes em Portugal.

- uma longa entrevista ao Robin Pecknold na qual, infelizmente, não são referidas as 'Acid Tapes'.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Discos Perdidos


O boato já tinha quase quatro décadas. Em 1970, após a edição de Déjà Vu, Crosby, Stills, Nash & Young ter-se-ão juntado a Brian Wilson para gravarem cerca de dez temas. Durante muito tempo, a existência das míticas 'Acid Tapes' não passou disso mesmo, de um mito. Apesar de ter havido quem tenha jurado ter ouvido uns originais durante um sit-in em Berkeley, não mais se ouviu falar das 'Acid Tapes'. Há cerca de dez anos, na sua auto-biografia - Memories from the Airplane - , escrita a meias com Greil Marcus, Grace Slick não só reconhecia a existência das gravações, como contava ter feito backing vocal em dois temas. Neil Young e Brian Wilson, sempre que foram confrontados com as 'Acid Tapes', afirmaram não se recordarem da existência de tais gravações. Há cerca de um ano, o assunto regressou. Numa visita a uma clínica de reabilitação onde tinha passado uma parte importante do ano de 1972, foram devolvidas a Graham Nash umas fitas de que o próprio já não se recordava. Desde então, a história é mais ou menos conhecida. As 'Acid Tapes', de facto, existiam. Contudo, Young e Wilson recusaram-se que estas vissem a luz do dia. O som era irrecuperável, em alguns momentos tornava-se penoso ouvir as fitas e o estado dos cinco aquando da gravação, algures em San Diego, estava longe de ser o apropriado. Que fazer? A ideia terá sido de Brian Wilson: oferecer as 'Acid Tapes' a uma banda que se comprometesse a regravá-las, alterando pouco os arranjos iniciais, e destruindo as fitas originais no fim. A escolha da banda era mais ou menos óbvia e o resultado foi conhecido há um par de semanas e pode ser integralmente escutado aqui. Ontem, tive o privilégio de ouvir ao vivo a interpretação quase integral das 'Acid Tapes'. Não me recordo de assistir a uma homenagem tão conseguida e sentida a uma música vinda directamente do passado.

sábado, 14 de maio de 2011

Nunca suficientemente humanos


“Robert, é provável que percas um ou mais dos teus fuzileiros, se é que isso não aconteceu já. Não deixes que os teus homens se deprimam ou fiquem presos às perdas... Nunca deixes que eles tirem prazer do ato de matar ou que odeiem o inimigo. É impossível retirar toda a emoção, mas tenta que tudo se mantenha o mais impessoal e mecânico possível. Os Talibãs têm o seu objectivo e nós o nosso. Isto é... o combate é tão desumano; tens de ajudar os teus homens a manterem a humanidade, bem como um sentido de perspectiva e de proporção”. Este excerto é parte de uma carta do general John Kelly, o militar de patente mais elevada a perder um filho no Afeganistão. Escrita dias antes da morte, é um eco notável da moralidade que, ainda assim, é possível encontrar na guerra.
No noite de domingo, terminado o anúncio do Presidente Obama, por momentos, quando a televisão começou a mostrar as primeiras pessoas que festejavam na rua a morte de Bin Laden, senti-me inclinado a percorrer a meia-dúzia de quarteirões que me separam da Casa Branca. Um misto de cansaço e de desconforto com o ambiente celebratório prenderam-me em casa. E, porventura por ser pai, os estranhos caminhos da memória reenviaram-me para o general Kelly. Foi nessa história, lida num jornal meses atrás, que encontrei o conforto moral que sempre nos parece fugir perante a morte, mesmo daqueles que, personificando o mal, desprezamos.
Mas em nenhum outro sítio como numa fotografia, entretanto muito reproduzida, encontrei a humanidade que procuramos face à morte e a humildade que devemos revelar perante o mal. Numa imagem libertada pela Casa Branca, podemos testemunhar o ambiente da ‘situation room’, enquanto era acompanhada a operação militar através de imagens enviadas em direto desde o Afeganistão. Em torno de uma mesa, vemos, num tempo suspenso, Hillary com a mão a tapar a boca, Biden recostado e Obama, prostrado a um canto, com os ombros encolhidos e a tez cingida pelos acontecimentos que não vemos, mas cuja violência podemos imaginar. Naquela fotografia, que faz parte dos poderosos mecanismos de construção simbólica da presidência norte-americana, é-nos sugerida uma moralidade que ajuda a contrariar o relativismo com que a rua, no mundo árabe, mas também no Ocidente, celebra a morte.
Naquele momento, fui capaz de entrever a liderança pelo exemplo que Obama prometeu. Um Presidente que tem perto de dois metros de altura nunca teve aos meus olhos uma estatura moral tão elevada como no ar angustiado e no corpo retraído com que seguia a operação militar. Naquele olhar, encontrei uma ressonância profunda das palavras do general Kelly: a guerra é necessariamente desumana e não lhe podemos retirar toda a emoção, mas é precisamente por isso que devemos manter sempre a humanidade. Se, por absurdo, em algum momento duvidar da superioridade moral do Ocidente, posso encontrá-la na humildade do rosto daquele homem e nas palavras do chefe militar ao seu filho, em tudo contrastantes com a cultura da morte que caracteriza a Al-Qaeda e o fundamentalismo islâmico.

publicado no Expresso de 7 de Maio

sexta-feira, 13 de maio de 2011

E as vezes que esta ideia me passa pela cabeça



"Se pudesse ir de férias para um lugar onde não tivesse ninguém, onde tratassem de mim, eu até escrevia o dia todo. Mas não escrevia nada. É um sonho."
José Rentes de Carvalho que pode ser lido aqui, hoje no Público.

Se não gostarem, nós mudamos

Para além da confusão interna que tem reinado, agora ficou-se a saber uma outra coisa: quando o programa do PSD desagradar, Passos promete melhorá-lo para satisfazer os interesses dos atingidos. Como forma de defender o interesse comum face a interesses particulares, não me recordo assim de nenhuma atitude mais perniciosa. Esta peça da TSF a propósito do lançamento de um livro de um professor, apresentado e prefaciado por Passos Coelho, é paradigmática do que não pode ser um candidato a primeiro-ministro. Eu começo a achar que alguém tem mesmo de ajudar o PSD a acabar a campanha com dignidade.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

O que tenho andado a ler

- Mark Weisbrot, Why Greece should say no the the Euro (um argumento que tenderá a intensificar-se muito nos próximos meses e que acabará inevitavelmente por alargar-se a Portugal).

- Uma conversa com Stan Lee no Washington Post, onde este oferece uma explicação para o sucesso dos super-heróis, que não passa de moda.

- Ainda sobre o sucesso dos super-heróis, um argumento mais sofisticado, mas, também, mais convincente neste artigo, a propósito do flop que está a ser o Spider-Man na Broadway.

- Algumas lições da Argentina para os países da periferia da Zona Euro, por Domingo Cavallo, ex-ministro das finanças argentino (um artigo com um ano, mas que mantém a actualidade).

- Como é que evoluiu a popularidade dos vários gadgets nos últimos trinta anos.

- Thomas Friedman explica, com meridiana clareza, como, apesar da morte de Bin Laden, a estrutura que tem tornado a Al-Qaeda, entre outras coisas, financeiramente sustentável se mantém intacta.

Má fortuna

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Sem retorno

Quando se pensava que a saída de cena de Leite Campos serviria para baixar o nível de intensidade dos disparates vindos da São Caetano, eis que Catroga resolveu ocupar o lugar deixado vago. Depois da criminalização do PS, veio uma comparação insultuosa com a Alemanha Nazi. Não há justificação possível para o que Catroga disse hoje ao Público. É o tipo de fronteira que deve ser mesmo intransponível. Quanto a isso, já não há nada a fazer. O que me preocupa agora é mesmo o day-after. São declarações como esta que, ganhe quem ganhar, vão tornar o país literalmente ingovernável após as eleições. Não vai ser nada bonito e Catroga, nas últimas semanas, resolveu juntar-se ao coro de irresponsáveis. É uma tristeza e é indesculpável.

Sei onde é que estavas em 1990


Poucas coisas contribuíram tanto para a minha "identidade de género" como esta série. Deixou o que se costuma chamar de marca indelével, naturalmente irreversível. Ontem, antes dos T.O.D., os Surfer Blood, entre umas quatro canções novas (todas muito doolitlleanas e weezerianas), tocaram Twin Peaks. O lugar não poderia ser mais apropriado. O Rock & Roll Hotel, na outra "margem" de Washington, não se chega a perceber se é saído do universo de Lynch ou se, pelo contrário, foi Lynch que saiu daquele universo.

Eu nunca estive no deserto, mas é que como se lá tivesse estado



Os Trail of Dead, ontem, no Rock & Roll Hotel, como se fosse o deserto de Mojave.

terça-feira, 10 de maio de 2011

O que tenho andado a ler

-Woody Allen sobre cinco livros que o inspiraram (eu só li um).

-Benjamin Wallace-Wells na New York Mag, what's left of the left (a propósito de Paul Krugman, mas onde se pode ler uma frase de Barack Obama que devia estar escrita num post-it na testa de todos os líderes partidários portugueses: "I don’t expect the details in any final agreement to look exactly like the approach I laid out today. This is a democracy; that’s not how things work.”

- David Brooks, the politics of solipsism - (a tensão entre República e Democracia e a forma como os valores associados à segunda se têm sobreposto aos da primeira com consequências negativas em termos de políticas).

- Paul Krugman, The Unswidom of Elites (uma explicação da crise internacional e também da crise da zona Euro que, surpreendentemente, não responsabiliza José Sócrates).

- Ken Johnson, The power of the situation room photograph (ainda a propósito da foto da equipa presidencial a assistir ao desenrolar dos acontecimentos no Paquistão).

- Gordon S. Wood, Those sentimental Americans (sobre Abigail e John Adams - a primeira primeira família -, que nos deixaram uma notável troca epistolar, onde fica revelada a importância dos sentimentos na fundação da democracia norte-americana).

- Quem são e como treinam os SEALS (a força especial do exército norte-americano que matou Bin Laden), na Vanity Fair.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Surpreendente mas compreensível

"Há um ano e meio, Passos Coelho exigia a Ferreira Leite uma vitória com maioria absoluta. Num artigo no Jornal de Negócios, escreveria mesmo que “é necessário lutar por um resultado mais largo (...). Para não haver dúvidas sobre o caminho a seguir nem sobre a vontade de mudança do país.” O apelo fazia sentido. O PSD havia vencido as europeias e com o desemprego em alta, a economia com um comportamento medíocre e a imagem do primeiro-ministro desgastada, todos os factores determinantes do voto jogavam a favor de Ferreira Leite. Contudo, uma campanha em que abandonou as questões económicas para se centrar num tema que se autodestruía (a ‘claustrofobia democrática’), uma liderança que se empenhou em dividir o partido e uma candidata sem carisma e que nunca chegou a apresentar um programa eleitoral levariam o PSD a uma improvável derrota. Passos tinha razão, o PSD devia ter ganho as últimas legislativas. E agora?
Ano e meio depois, a exigência do agora líder do PSD faz ainda mais sentido. Todas as variáveis que deveriam ter levado Ferreira Leite à vitória não só continuam presentes como se intensificaram. O desemprego não parou de subir, a economia entrou em recessão, o primeiro-ministro é muito impopular e o Governo perdeu a sua narrativa dominante, acabando por pedir um resgate que sempre defendera não ser necessário. O normal seria que o PSD liderasse confortavelmente as sondagens. Estranhamente, a maioria absoluta parece estar fora do alcance de Passos Coelho, uma maioria com o CDS está também em risco e, ainda mais surpreendente, a possibilidade de vitória de Sócrates não se encontra afastada. O cenário tem tanto de improvável como de compreensível.(...)"
no meu artigo de 30 de Abril no Expresso tentei encontrar algumas explicações para a incapacidade do PSD em descolar nas sondagens. O resto pode ser lido aqui.

A monomania da renovação

Os partidos vivem obcecados com a renovação, de preferência se esta assentar numa contabilidade em torno da extensão do rejuvenescimento dos órgãos partidários. A ideia de que os partidos se renovam substituindo uns maduros por uns jovens, mais ou menos turcos, é naturalmente bem acompanhada pelos jornalistas, que tendem a avaliar o que se passa em cada congresso contando quantas pessoas saíram dos órgãos centrais (normalmente, as saídas são classificadas de 'purgas') e quantas entraram. O disparate é sempre garantido e vai-se perpetuando o mito de que os partidos se renovam através do rejuvenescimento (o resultado tende a ser precisamente o contrário, como se prova pelo caso extremo do PCP).
A propósito, leia-se este pedaço de uma notícia do Público de hoje:"Dos 65 membros eleitos, 20 estreiam-se neste órgão.
Sem grandes novidades e com pouca renovação, o actual quadro dirigente saiu reforçado da reunião magna dos bloquistas."
Estamos perante o último período de um parágrafo e o primeiro do parágrafo imediatamente a seguir. Não sei exactamente o que é que significa para o Público renovação, mas, pelos critérios que os jornais costumam aplicar a estas coisas, não me parece que a estreia de 20 dirigentes em 65 possa significar ausência de novidades e pouca renovação.

sábado, 7 de maio de 2011

Nunca suficientemente humanos


o meu artigo no Expresso de hoje percebe-se melhor olhando para esta foto e lendo este texto.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A pobreza da opinião


Ontem fui convidado do Delito de Opinião, onde publiquei um post a propósito das diferenças entre a opinião que se publica nos jornais norte-americanos e a que se publica em Portugal. Pode ser lido aqui.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Por absurdo que possa parecer, é possível ter pena de não estar em Lisboa



Hoje, em particular, lembro-me de que o gosto mesmo é de ciclismo e que o Bartali é um super-herói.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Benfiquista como nós

O álbum novo do Panda Bear não é um 'Person Pitch', mas 'last night at the jetty' entra directamente para o top-10 das canções escritas por Brian Wilson. É só pena Benfica não ser a canção mais conseguida do disco. Tem, ainda assim, a força da ideia.



adenda: Oliver Platt na New York Magazine - "‘Holy crap! What is that?’ Because it’s at once familiar—so freaking Beach Boys—and yet wildly original. And Panda Bear sounds so much like Brian Wilson; he’s got a natural gift for harmony. If there ever was a type of music that you could label as ‘channeled’ on some level, it’s [Panda Bear’s]. I love Animal Collective, but I find his [solo] stuff … I don’t want to say more accessible, but it goes quicker to that place at the back of your neck where your brain stem starts to buzz. And the next thing you know, you’re flinging yourself around the room, crying with the thrill of living.” (entrevista aqui.)

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Onde é que estavas quando se soube da morte do Bin Laden?



Nas primeiras filas do Merriweather Post-Pavilion (um sítio que vale bem o nome de um grande álbum)

o inferno é a Europa

"Quando há umas semanas Cavaco Silva corrigia os portugueses dizendo que já não se dizia FMI, mas FEEF, estava, no seu tom professoral, a tocar numa questão nevrálgica. Hoje, o inferno deixou de ser, como no passado, o FMI e passou a ser o fundo europeu de estabilização financeira. Não é por isso surpreendente que, na negociação do nosso resgate, o FMI queira um empréstimo mais dilatado, com juros mais baixos, de modo a atenuar os efeitos recessivos do pacote financeiro, enquanto a Europa prossegue a sua cruzada moral, com juros mais elevados e prazos mais curtos, sem cuidar dos efeitos económicos das suas exigências.
Ainda a semana passada, o director do FMI, Strauss-Kahn, chamava a atenção para a necessidade de ajustamentos orçamentais sensíveis ao emprego e à distribuição de rendimentos, alicerces da prosperidade económica e da estabilidade política. Enquanto o FMI muda, a Europa encontra-se politicamente fragmentada, com uma economia em cacos e um sistema financeiro que não resistirá a nenhum teste de stress sério. O que trouxe a Europa até aqui não foi nenhum desvio moral, mas problemas na arquitetura institucional do Euro que, enquanto dificultaram a modernização das economias periféricas, incentivaram comportamentos patológicos, aos quais nem Governos, nem sector financeiro souberam ou quiseram responder. A criação de um mercado comum, primeiro, e de uma moeda única, depois, sem política orçamental coordenada e sem integração política, foi uma tentativa de construir um arranha-céus sem fundações. Uma vez chegada a intempérie, a opção tem sido deixar ruir o edifício, em lugar de reforçar as fundações. Estamos a ver os primeiros andares a ruírem um a um. (...)"

o resto do meu artigo do Expresso de 22 de Abril pode ser lido aqui.

Há coisas muito bonitas, não há?

sábado, 30 de abril de 2011

O melhor é pedir já asilo

A tentativa de criminalização do PS não começou ontem, nem sequer se iniciou com Sócrates. Mas, na verdade, tem, nos últimos anos, atingido proporções impensáveis e encontrado activistas entre protagonistas improváveis. Hoje, acordei e fiquei estupefacto com as declarações que li de Catroga (que é o senador que Passos Coelho tem para apresentar). Estou suficientemente à vontade, pois tenho a meu favor um número suficiente de discordâncias com o Governo de Sócrates e o que tem sido a sua linha de actuação (e, aliás, não vejo dificuldade em, à direita, se definir uma linha programática coerente que, além do mais, deveria permitir uma vitória eleitoral folgada), mas, confesso, que esta insistência do PSD na criminalização, por todos os meios possíveis, da acção de Sócrates, sendo, no imediato, uma confissão da incapacidade de vencer politicamente o actual primeiro-ministro (que começa a assumir contornos patológicos), tornou-se um passo que nos envia a todos para terrenos muito perigosos – dos quais teremos muita dificuldade em sair durante demasiado tempo. Perante o nível do nosso “debate”, não posso deixar de pensar que se eu, que sou politizado (provavelmente demasiado), só tenho vontade de me manter afastado do país e da nossa política, que pensarão os outros portugueses que seguem com salutar distância o quotidiano político? Depois admirem-se do resultado eleitoral que vão ter e da sepultura que, pelo caminho, estão a cavar para todos nós.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Greetings from Asbury Park (revisitado)



Em estreia mundial para Portugal.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

A riot of my own

Note to self: vamos cometendo muitos erros, o menor dos quais não foi certamente ter-me afastado do pós-punk 'camusiano' (The Fall), do hard-core como 'cosa mentale' (Naked City), nem do punk regado a Guiness (Pogues) ou pura e simplesmente daquele que encontrava a energia primitiva no baixo materialismo (Clash). Ontem, regressei a tudo isso e tive a certeza da dimensão do erro. Os Double Dagger reconciliaram-me com os Fall e com os Titus Andronicus assisti (e participei com a moderação possível), durante os cerca de vinte minutos da sequência "the battle of hampton roads" e "a more perfect union", a uma descarga de energia e de suor que me fez andar para trás. Mas, em dia de programa de governo, nada como voltar a erguer o punho e, emocionado, gritar "white riot. I wanna a riot of my own", durante a breve citação dos Clash durante "fear and loathing in Mahwah, NJ". Se não é para isto que serve o rock'n'roll.

Para os resistentes, aqui fica a actuação dos Titus Andronicus no Coachella este ano (com luz do dia e palco festivo a estragar a festa) e ainda os Double Dagger (um trio de voz, baixo e bateria que parece resultar das frustrações de três teses de doutoramento sobre o idealismo alemão).





para os menos resistentes, 'the battle of hampton roads' em todo o seu esplendor.

Titus Andronicus | FOR NO ONE from FOR NO ONE on Vimeo.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Encenação do fim


É mesmo caso para perguntar: "are you ready for this?"

sábado, 23 de abril de 2011

Pescado à linha

"Após o surpreendente resultado de Fernando Nobre nas presidenciais, fiquei com uma certeza. Hoje, se o “Rato Mickey” se candidatar a eleições em Portugal, com uma plataforma programática suficientemente confusa e centrar o essencial do seu discurso na crítica aos partidos, arrisca-se a ter 10% dos votos. O terreno está fértil para quem ataque ou parodie o sistema político e, como se tem visto nas últimas semanas, com o triste espectáculo de cacofonia em torno do resgate financeiro, os partidos não perdem uma oportunidade para confirmar a má opinião que deles se faz. Nobre foi mais um a pôr-se de fora e a lucrar eleitoralmente com essa atitude. Mas se há quinze dias sabíamos que Nobre era crítico dos partidos, esta semana ficámos a saber que, no fundo, o problema dos partidos era simples: nunca o haviam convidado para um cargo à sua altura.
(...)
O problema não são as contradições de Nobre ou as posições divergentes face ao PSD, o que é lamentável é que os partidos pesquem independentes à linha, interiorizando as críticas que lhes são feitas, enquanto, ao fazerem-no, aproveitam para não enfrentarem nenhum dos problemas estruturais que levam a que cada vez menos as pessoas reconheçam os partidos como seus representantes legítimos.(...)"
o resto do meu artigo publicado no Expresso de 16 de Abril pode ser lido aqui.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

No princípio, era o ritmo


Há perto de três décadas, um nova-iorquino adoptivo deixava um conselho: “se dançarem, vão perceber a música melhor”. As palavras de David Byrne no início dos oitenta têm sido seguidas à letra por muita gente, mas dificilmente se encontrará um evangelizador tão dedicado como James Murphy. Primeiro como DJ e produtor na editora DFA, depois como líder dos LCD Soundsystem, Murphy colocou o ritmo como centro gravitacional da música – enquanto rompia os espartilhos que segmentavam a música de dança em vários sub-géneros, com poucos vasos comunicantes. A ambição dos LCD Soundsystem era promover uma síntese de (quase) todos os ritmos, vindos de (quase) todos os lados, num pastiche assumido, feito de citações e colagens. Foi com sentimento de missão cumprida que Murphy decidiu colocar fim à sua banda, com cinco concertos em Nova Iorque na semana passada.
Os funerais podem ser momentos de celebração e de evocação do passado. Durante uma maratona em que os LCD Soundsystem percorreram os seus três álbuns de originais, e ainda ‘45:33’ (uma peculiar encomenda da NIKE), não se sentiu nem nostalgia em relação a uma década que já não se repete, nem sentimento de perda, nem receio do vazio que se poderá seguir. Nada disso. Como se podia ler nas t-shirts à venda à entrada do recinto, a palavra de ordem foi mesmo “dançar, dançar, dançar, dançar”. Depois de três horas e meia de concerto, olhando para os rostos exauridos que iam abandonando a gigantesca pista de dança em que se transformou o Terminal 5, o que custa a perceber é como é que é possível que tanta gente dance ininterruptamente durante tanto tempo.
Quem esteve em palco não foi a formação tradicional dos LCD Soundsystem. Aliás, contabilizar o número de músicos que ia alternando de canção em canção foi um exercício difícil. Nunca menos de oito músicos em cena, aos quais se juntaram dois coros, um masculino e um feminino, separados fisicamente. Em muitos momentos, a banda foi aditivada por uma secção de metais (que deu um músculo extra, por exemplo, a ‘Sound of Silver’) e por vários convidados ao longo da noite (Phil Mossman, guitarrista na formação inicial, fez parte do trio de guitarras encarregue de pegar na linha melódica que David Bowie nos deixou em ‘Heroes’ e trazê-la até hoje, numa notável versão de ‘All I Want’, já perto do final do concerto).
Após um início frenético com ‘Dance Yrself Clean’, acompanhado por um chuva de pauzinhos florescentes, previamente distribuídos ao público, que voaram de todos os lados no preciso momento em que a batida se fez sentir pela primeira vez, os LCD foram andando para a frente e para trás na sua carreira: ‘Movement’ revelou-se a canção definitiva do electro-clash; ‘North American Scum’ soou como se fizesse parte do repertório dos White Stripes; ‘All my Friends’, provavelmente o momento da noite, foi reapropriado pela banda, expurgando o tema de qualquer elemento que remetesse para a versão indie-rock dos Franz Ferdinand, e tocado com uma pujança rítmica que se desconhecia; e ‘New York I Love You, But You're Bringing Me Down’, a encerrar o concerto, apelou ao sentimentalismo dos nova-iorquinos, uma cidade onde cosmopolitismo e solidão andam de mãos-dadas.
Mas nenhuma canção espelha de modo tão preciso o conceito que levou Murphy a formar a banda como o primeiro single, ‘Losing my Edge’, uma declaração de intenções. Quando, na fase final do concerto, Murphy, na frente do palco, de microfone bem junto à boca, ia enumerando, sobre uma batida viciante, um sem número de bandas do passado, ‘Losing my Edge’ ia-se transformando num legado para o futuro. Todo o tema é movido pela ‘ansiedade da influência’: por um lado, uma tentativa de consolidar o cânone da música de dança, expurgado de influências negras; por outro, o temor de perder o passo para as novas gerações, capazes de desbravar novos territórios. Por isso mesmo, foi só aí que o concerto soou a fim e a passagem de testemunho. Quando se ouvia, “I was there at the first Can show in Cologne” não era possível não pensar que, afinal, o projecto dos LCD Soundsystem só ganhará sentido se, daqui a uma década, um daqueles miúdos que dançou freneticamente durante três horas e meia, for capaz de reinventar de novo uma parte da música contemporânea e pegar no microfone para cantar: “eu estive lá, no último concerto dos LCD Soundsystem, em Nova Iorque”.

texto publicado no Atual (Expresso) de 9 de Abril.

reparem no que aconteceu ao minuto 4 deste video, que foi também o minuto 4 do concerto.

LCD Soundsystem T5 3/30/2011 from Michael Williams on Vimeo.

domingo, 17 de abril de 2011

Um congresso de silêncios

"(...) As circunstâncias e a convergência táctica vão, mais uma vez, adiar debates nucleares.
Como consequência da opção por apenas governar em maioria absoluta ou isolado, no último ano e meio o PS afastou-se do arco da governabilidade. Como as maiorias absolutas são uma excepção no nosso sistema eleitoral, o PS tem de ter uma estratégia alternativa. Uma coligação com o PSD não é sustentável e coligações à esquerda não são programaticamente viáveis. Resta crescer eleitoralmente à esquerda. O que implica, por um lado, uma estratégia que esvazie o PCP autárquico – a âncora do poder do partido – e, por outro, romper com a ilusão de que é possível a um partido social-democrata viver de costas voltadas para o movimento sindical (um efeito colateral do deslumbramento sistemático com tudo o que é moderno).
Do ponto de vista programático há uma prioridade que se sobrepõe a todas as outras: abandonar a língua de pau em que se transformou o discurso sobre a Europa. Hoje, o consenso europeísta não representa nada. No passado, esse era um ponto de união entre PS e PSD, agora a linha de demarcação depende dos temas europeus. O dilema é simples: ou a social-democracia se reergue através de uma nova política europeia ou não tem futuro. Actualmente, o mantra do europeísmo não passa de uma encenação do fim.
Finalmente, o fechamento partidário. Nos últimos anos, o PS foi alternando entre simulacros de debate e silêncios ensurdecedores. A combinação de centralismo democrático com uma direcção focada na figura do líder é um factor de enfraquecimento. O PS não sabe promover debate orgânico e vive desconfortável com as vozes autónomas. Essa atitude diminui o pluralismo, tem enfraquecido a capacidade do partido para representar a sociedade e, ainda mais grave, reproduz uma volatilidade programática, particularmente notória desde o início da crise. Sem programa estável e sem novos protagonistas, o PS constrói o seu próprio declínio.
Talvez fosse útil ao PS discutir estes ou outros assuntos durante o fim-de-semana. Mas temo bem que seja pedir de mais."

a versão integral do meu artigo publicado no Expresso da semana passada pode ser lida aqui.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Em inglês técnico

Não sei se leram hoje o NY Times.

"Portugal's plea for help with its debts from the International Monetary Fund and the European Union last week should be a warning to democracies everywhere." ler o resto aqui.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Quem é que estava à rasca?

"(...) o ‘ai, ai, ai, ai’ que se gerou em torno dos cortes das pensões foi o que desencadeou a crise política surreal que vivemos. De tal modo que o PSD, depois de meses e meses a insurgir-se contra subidas de impostos, logo se apressou a trocar os cortes nas pensões por um aumento do IVA. Para quem defendia redistribuição a favor da ‘geração à rasca’, estamos conversados.
O tema das pensões é terreno fértil para todas as demagogias. Vale a pena recordar duas coisas.
Havendo grande concentração de pobreza entre os pensionistas, nem todos os reformados com pensões baixas são pobres. Pelo contrário, por força da deslegitimação, que durou décadas, dos descontos para a segurança social, muitos deles encontraram formas de poupança que explicam que, hoje, o seu rendimento disponível seja superior. Ao mesmo tempo que muitos reformados acumulam pensões, nomeadamente por terem feito descontos como emigrantes.
Não faz sentido tomar o valor das pensões mínimas como sendo o rendimento dos pensionistas pobres. Com a introdução do completamento solidário para idosos, os pensionistas com rendimentos inferiores a 419 euros têm uma prestação diferencial que perfaz esse montante (sim, é muito pouco). Aliás, hoje, as pensões mínimas não sujeitas a condição de recursos são mecanismos de reprodução de desigualdades – o que justificaria que, por exemplo, se acabasse com a pensão social.
Se o discurso da redistribuição de recursos a favor dos jovens é para ser levado a sério, era bom debater seriamente as pensões (nomeadamente as não contributivas), em lugar de se embarcar numa espiral de demagogia desbragada a que ninguém resiste. Mas a explicação para que isso aconteça é singela: os pensionistas votam, os ‘jovens à rasca’ deixam-se ficar em casa. Enquanto assim for, não esperem muito."
o resto do meu artigo publicado no Expresso de 2 de Abril pode ser lido aqui.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Bankrobber



Daddy was a bankrobber
But he never hurt nobody
He just loved to live that way
And he loved to steal your money

para ouvir aqui.

Algumas instruções gerais

"(...) Do not be defeated by the
Feeling that there is too much for you to know. That
Is a myth of the oppressor. You are
Capable of understanding life. And it is yours alone
And only this time (...)"

Seria uma pena que não aproveitassem algum tempo para ler as 233 linhas deste poema do Kenneth Koch, sempre ficam a saber como é que se prepara um polvo morto.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O João Lopes

"(...) Sócrates capitulou... — é tanto mais interessante quanto ilustra, de forma muito directa e reveladora, o processo de delirante fulanização com que, em quase todos os espaços dos meios de comunicação (com especial intensidade nas televisões), tem sido tratada a gestão-Sócrates. Há, por certo, diferenças significativas entre os vários meios de comunicação. Em todo o caso, por todos eles perpassa quase sempre uma crença banalmente teológica: se não existir mais nada para descrever ou explicar os nossos problemas, use-se a palavra "sócrates"."
ler o resto aqui (custa-me muito dizer, mas é literalmente uma das poucas formas de vida inteligente que resta nos media em Portugal).

Country Disappeared

Wilco - Country Disappeared | A Take Away Show from La Blogotheque on Vimeo.


Wake up we're here
It's so much worse than we feared
There's nothing left here
The country has disappeared
If the winter trees bleeding, leave red blood
The summer sweet dreaming, april blush
But none of that is ever gonna mean as much to me again.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

All sound like a dream to me



Para quem cresceu a ouvir música nos anos oitenta, é reconfortante saber que há quem não se envergonhe por fazer um disco que se parece tal e qual com a 'música de dança para ouvir sentado na esplanada ao fim da tarde' que se fazia então. Os Destroyer de Dan Bejar têm um disco novo que soa a música de dança gramsciana (os Scritti Polliti), com os coros femininos e o baixo ondulante dos Prefab Sprout, tudo condimentado pela melancolia pós-festiva dos Blue Nile. Mas se em disco agora são assim, em palco o regresso ao passado é ainda mais assumido: solos de saxofone e de trompete, raparigas saídas da 'smash hits' de cabelo descolorado nas teclas e coros e a dose q.b. de piroseira. Ontem à noite, foi só pena ninguém ter dançado.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Eu não peço desculpa

Andam para aí uns gajos que dizem que são do Glorioso a falar em fair-play e que devíamos ter pago uns minutos extra de electricidade no Domingo. Fazem parte de um conjunto de gente que se formou nos pedidos de desculpas e que confunde futebol com ginástica rítmica. Quero que se lixem e que vão jogar bridge ou golf. Não faço ideia do que se passou no Domingo. O Maxi não jogava, eu estava noutro lado do mundo, e não quis saber. Mas suspendo momentaneamente o meu black-out para dizer que tenho uma grande satisfação por ver o meu clube dirigido por um conjunto de tipos que renunciaram ao registo totó. Do Rui ao Jorge, passando pelo Presidente. Assim, vamos lá. Só falta arranjar finalmente uns tipos do Benfica para porem em sentido os avençados dos outros clubes nos programas de debate na TV.
(11.740)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Uma intervenção surreal no meio de um processo político de loucos

Para quem tenha paciência, a partir do minuto 6 dou a minha opinião sobre o que se está a passar em Portugal (com particular "enfoque" no papel de Cavaco Silva).

A loucura de Março


"(...) À distância, a sensação com que fico é que ‘a loucura de Março’ atravessou o Atlântico e instalou-se definitivamente em Portugal, mas com consequências materiais graves. Na semana em que a Europa debatia uma solução sofrível, mas que pouparia o país a um desastre imediato, a opção foi inviabilizá-la. Estávamos à beira do precipício e, de braços dados, optámos por dar um passo em frente. As responsabilidades são repartidas.(...)"
o resto do meu artigo do Expresso de 26 de Março pode ser lido aqui.

quinta-feira, 31 de março de 2011

LCD state of mind

terça-feira, 29 de março de 2011

Não é difícil reconhecer um génio.



"songs are just really very interesting things to be doing with the air."

Prestar atenção


"A atenção é a atitude espiritual mais importante. E muitas das coisas que aprendemos em si mesmas, não têm um valor por aí e além, mas servem para nos treinar para a atenção. Lembro-me de um texto de Simone Weil, sobre o estudo escolar. Há muita coisa na nossa formação que se revela sem grande utilidade, mas naquele momento ajudou-nos a construir uma atenção. E isso é o grande valor que cada um de nós transporta. Acredito muito naquilo que os padres do deserto diziam, que o grande pecado é a distracção."
José Tolentino Mendonça, aqui.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Dylanesco



Há quatro tipos de relação com os Mountain Goats: desconhecimento (“quem?”); indiferença (“não vejo nada de especial nestes gajos”); irritação (“este gajo tem uma voz insuportável e não sabe cantar”) e depois há os die-hard fans. Aqueles que, quando os ouvem, sentem-se os miúdos que tiveram um banda de death metal em denton (nunca tendo gostado do género ou estado em denton), que julgam ter feito parte de um casal disfuncional de alcoólicos (nunca tendo sido um casal ou disfuncional), que experimentam ter passado por uma cura de desintoxicação por metadona (não sabendo o que é intoxicação), que encontram salvação na bíblia (desconhecendo a diferença entre o antigo e o novo testamento). Darnielle, um pouco como Dylan, conta histórias nas canções e como acontecia com as histórias de Dylan, por mais improvável que possa parecer, nós pensamos ser os protagonistas. (nunca tinha pensado nisto, mas dylanesco é o qualificativo mais adequado - gosto muito da palavra dylanesco).
Mas mesmo um ‘die-hard fan’ tem dificuldade em acompanhar a produção de John Darnielle: um número sem fim de álbuns (ninguém sabe exactamente quantos), de colaborações, projectos paralelos, torna o completismo uma tarefa impossível. Há quem diga que Darnielle publicou mais de 500 canções. É bem provável que assim seja. Mas há uma outra linha divisória, esta entre os ‘die-hard’. Há quem tenha abandonado os Mountain Goats quando passaram a ser uma banda que grava discos, com uma produção minimamente cuidada, em lugar de Darnielle soprar canções em catadupa para um gravador caseiro. E há quem goste deles como banda, com músculo em palco, com guitarras, baixo e bateria, por cima da ironia ácida, que continua lá, e que nem por isso ficou mais escondida. Os últimos discos, na verdade desde que assinaram com a 4AD, são álbuns de uma banda. Mas onde imagino que a diferença se faça sentir é mesmo ao vivo. Vi duas vezes os Mountain Goats (uma há 3 anos, no lançamento de Herectic Pride) e na sexta-feira passada. Ao vivo, só os conheço como banda. E não percebo como é que se pode não gostar. Quem discordar, escusa de regressar aqui.
Quanto ao concerto, telegraficamente (e para os 3 ou 4 que se possam interessar), tocaram o ‘all eternal decks’ quase integralmente (lá está, um disco em que soam mais do que nunca como banda e que tem a produção que as bandas têm – e as canções estão lá todas na mesma e ‘it grows on you’). Mais umas quantas coisas pelo caminho (‘broom people’ foi muito bom; ‘wake up new’ também). Mas o que eu queria mesmo era falar dos dois encores. Foi assim: ‘this year’; ‘no children’; ‘the best ever death metal band in denton’; ‘the sign’ (sim, a dos ace of base); ‘southwood plantation road’ e ‘going to georgia’. Acho que está tudo dito.
Gabo muito as capacidades de quem faz isto. Registar tudo, ficando imóvel.



O pote armadilhado

"(...) Agora, todos convergem para eleições. O que não só não resolverá nenhum problema, como se encarregará de demonstrar que o nosso ajustamento depende também de uma coligação política, estável e previsível, que envolva, pelo menos, o PS e o PSD.
Sócrates colocou-se na menos má das posições que pode ambicionar para os próximos anos. Conseguiu um resgate menos desfavorável do que o da Grécia e Irlanda e ainda não será eleitoralmente devastado pela impopularidade das medidas muito duras, que, apenas agora, começam a ser implementadas. É o único momento em que pode disputar eleições – mesmo que seja muito penalizado por ter nacionalizado sistematicamente a crise, abdicando de fazer pedagogia sobre a austeridade e dourando a realidade para além de todas as evidências.
Passos Coelho está preso num nó cego. Não pode pedir de novo desculpas e os seus apoiantes não lhe perdoariam mais um adiamento. Mas apresentar-se-á aos portugueses sem programa político e a rejeitar políticas que nos são impostas pela Europa e que sua família política (o PPE) diz serem necessárias. Para utilizar a sua expressão, Passos Coelho pode chegar ao pote, o problema é que vai encontrar o pote armadilhado e terá de aplicar a mesma dieta que agora rejeita, ou, alternativamente, uma ainda mais dura.
Os dados estão lançados. Passos Coelho afirmou que “a peça de teatro chegou ao fim”. Tem, em parte, razão. Doravante, assistiremos a outros actos da mesma tragédia, mas com novos actores. É bem provável que um dos próximos seja a experiência inédita de termos uma juventude partidária a governar o país. Com uma agravante: tal irá acontecer no pior dos momentos para experimentalismos adolescentes."
o resto do meu artigo publicado no Expresso da semana passada pode ser lido aqui.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Sinusite Crónica


Há pouco mais de um ano, resolvi, finalmente, o meu problema, mas eles voltaram para me recordar como era.

Um gajo que partiu tudo, meu

quarta-feira, 23 de março de 2011

Um ataque de Zombies


Acabei de assistir a um seminário em que Daniel Drezner apresentava o seu último livro - 'Theories of International Politics and Zombies'. Num registo provocatório, Drezner faz um exercício intelectualmente estimulante: prever como é que as vários teorias dominantes das relações internacionais lidariam com um ataque de Zombies. Uma ameaça crescente, comparável a muitas outras que enfrentamos. Durante a conferência, temi que acontecesse o que sucedeu a semana passada quando David Cameron (o outro), enquanto discorria sobre os bloqueios do euro, perguntou se havia algum português na sala. Na altura, hesitei, mas acabei por timidamente levantar a mão, o que me obrigaria a explicar em pouco tempo a 'especificidade nacional'. Se Drezner tem perguntado se alguém conhecia um ataque em curso promovido por Zombies, eu, hoje, seria obrigado a levantar a mão, dando o exemplo de Portugal.

terça-feira, 22 de março de 2011

Quem é que disse que Portugal não tem futuro?



Como sugere o Lourenço aqui, é só pena as raparigas do teledisco não tocarem também. Mas estes tipos fazem mais por nós do que qualquer resgate negociado ou imposto. 1,2,3,4.

Há resgates e resgates

O País enfrenta um impasse político. O Governo demite-se se o PEC IV for chumbado, a oposição garante que o chumbará. É possível evitarmos eleições?

Possível é, mas, como estava escrito desde as últimas eleições, não irá acontecer. Os vários actores políticos não souberam estar à altura da responsabilidade do momento dramático que vivemos em Portugal e no conjunto da Zona Euro.


Quem são os responsáveis?

O primeiro-ministro que, enquanto conseguiu um resgate menos desfavorável que o da Grécia e da Irlanda, continua a demonizar a ajuda externa que de facto já existe e teve sempre reservas em relação a uma coligação; o Presidente da República que, após o inenarrável episódio das escutas ficou tolhido, permitiu a formação de um governo minoritário e depois, na tomada de posse, não lhe ocorreu melhor do que recusar ‘mais sacrifícios’, quando sabia que eles eram inevitáveis e faziam parte de uma negociação em curso com a Comissão e o BCE; e o líder da oposição que, enquanto vai alimentando umas vacuidades sobre os consumos intermédios e sabendo que terá de aplicar a mesma dieta que agora recusa, é movido pela pressão do aparelho que o elegeu, que quer o mais rapidamente possível ir “ao pote”.

Hoje Jean Claude Juncker disse que Portugal assumiu compromissos e que tem de os cumprir. Não cai por terra a ideia do Governo de que todas as medidas são negociáveis?

A margem de manobra que nos resta é quase inexistente e, nesta fase, sem que haja uma revisão profunda da arquitectura da Zona Euro, afirmações como, “distribuir os sacríficios” ou “não penalizar os do costume” não passam de slogans sem qualquer exequibilidade.

Corremos o risco de, se tivermos eleições, não termos um Governo maioritário e enfrentamos exactamente os mesmos bloqueios?

As eleições vão servir apenas para revelar a insustentabilidade da nossa situação. Medidas de austeridade como as que temos de implementar só são possíveis com uma coligação que envolva, pelo menos, o PS e o PSD e que tenha suporte de Belém. Isso não aconteceu até agora, não vejo porque vá acontecer no futuro. Desde logo, porque se criou um clima de antagonismo militante em Portugal que demorará a ser superado.

Ainda acredita que é possível evitarmos um resgate internacional?

Neste momento já não nos financiamos autonomamente no mercado primário. Logo, já estamos a ser resgatados. Mas a solução que foi encontrada é melhor do que a da Grécia e da Irlanda. Há resgates e resgates e o tempo tem sido e continuará a ser um factor decisivo.

aqui fica a a micro-entrevista que dei ao Económico de hoje (com um título meu, diferente do escolhido)

A minha batalha de gigantes preferida



segunda-feira, 21 de março de 2011

O bom gigante


Antes do Bon Iver e dos Megafaun (que vão abrir para os Mountain Goats na sexta-feira e eu vou estar lá para ver!), houve em tempos os DeYarmond Edison. Agora, reuniram-se em Austin e fizeram isto ao James Taylor e à Carole King.

"Poesia é voar fora da asa"


"Eu só não queria significar. Porque significar limita a imaginação."

Soube que Manoel de Barros tem agora uma conta no twitter (via Júlio). Imagino que esteja a chegar a altura de abrir uma para o poder seguir.

Agora em inglês técnico

"(...) Indeed, a broad coalition for change would improve the political legitimacy of such a program as well as current market perceptions of Portugal’s risk."
de um comunicado do PPD/PSD
(agora é que já perdi definitivamente o fio à meada, mas espero que seja apenas por causa do fuso horário.)

domingo, 20 de março de 2011

Se isto é um Presidente

"(...) Cavaco Silva foi certeiro no apelo a um programa estratégico de médio prazo, sustentado num alargado consenso. Na situação em que nos encontramos, um pacto entre os partidos do arco da governabilidade, envolvendo parceiros sociais, que conferisse estabilidade e previsibilidade a um conjunto de opções, para durar para além do tempo deste Governo e/ou desta legislatura, reforçaria as nossas condições negociais na Europa e contribuiria para resolver alguns dos problemas. Mas, com o antagonismo militante que grassa na política portuguesa, a proposta é utópica. A menos que o Presidente se oferecesse como desbloqueador do processo. Acontece que depois de quarta-feira, é impossível olhar para este Presidente como alguém acima das partes, preocupado em unir. (...)"
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lido aqui.

Miúdas Giras (do final do século XIX)

sexta-feira, 18 de março de 2011

Em defesa do 3º anel

O David Brooks explica aqui as razões porque devemos manter a pressão alta sobre os árbitros e assobiar tanto quanto possível. Ontem como hoje, a diferença pode mesmo estar no tradicional insulto ao bandeirinha.

Se fumarem bananas


a Alice no país das maravilhas nunca mais será a mesma coisa.

quinta-feira, 17 de março de 2011

We'll always have Paris

quarta-feira, 16 de março de 2011

Catástrofes em perspectiva

De uma leitura rápida das notícias do dia (para mim ainda é de manhã), posso concluir que o ciclo noticioso está a ser marcado por 5 temas:
- Eleições no Sporting;
- PEC IV e crise política - com várias declinações;
- Desastre nuclear no Japão;
- Promiscuidade entre poder judicial e poder político;
- Reconquista de território por Khadafi.
Se bem me parece, daqui a 5/10 anos, os dois primeiros temas revelar-se-ão como tendo sido os menos relevantes (e estou a pensar em Portugal).
(inspirado neste post)

terça-feira, 15 de março de 2011

Coisas verdadeiramente importantes

isto.

Três simples

O artigo de Mário Soares no DN de hoje pode bem estar para Sócrates como o artigo de Cavaco no Expresso esteve para Santana.

Se o Japão não é capaz, imaginem Portugal


"(...) Japan's nuclear power stations were designed with the same care and precision as everything else in the country. More to the point, Japan is the only country in the world to have experienced true nuclear catastrophe. They had an incentive to build well, in other words, as well as the capability, the laws, and regulations to do so. Which leads to the unavoidable question: If the competent and technologically brilliant Japanese can't build a completely safe reactor, who can?"
vale a pena ler o resto do artigo da Anne Applebaum na Slate.

domingo, 13 de março de 2011

Uma missão impossível

"(...) O que demonstra que a austeridade unilateral é contraproducente se a Europa não fizer a sua parte. E a Europa não tem feito a sua parte. Como se não bastasse não reconhecer que o problema dos países da periferia é fruto de uma arquitectura institucional incapaz de lidar com choques assimétricos e dos desequilíbrios de uma moeda única sem política fiscal comum e sem compensação para os excedentes nas trocas comerciais internas, a Europa entregou-se a uma anomia política devastadora. Como escreveu Wolfgang Münchau no Financial Times, “esta crise é tanto alemã como espanhola. Este reconhecimento deve ser o ponto de partida para qualquer sistema eficaz de resolução”.
Deve, mas não tem sido. Percebe-se que os países do centro resistam a aceitar a natureza sistémica da crise do euro como pressuposto negocial, já não se compreende a capitulação política dos países da periferia. Não devemos exagerar o papel das lideranças no curso da história, mas se considerarmos que os países que podiam comandar a reforma da zona euro estão entregues a uma inexistência política (Zapatero) e a um tresloucado (Berlusconi), torna-se mais fácil entender como chegámos aqui. Serve de pouco, mas não se pode deixar de pensar como seria a gestão desta crise com Kohl na Alemanha, González em Espanha e Delors em Bruxelas."
o resto do meu artigo publicado no Expresso de 5 de Março, pode ser lido aqui.

Sabemos muito pouco

"(...) a principal lição é mesmo que o Ocidente não se deve entreter a aprofundar relações com ditaduras. E quando isso acontece, precisamente em nome do realismo, é aconselhável procurar conhecer de facto as realidades locais. O indisfarçável entusiasmo comercial do Estado português com o regime brutal e bizarro de Kadhafi é, a este propósito, um aviso para o futuro. Precisamos de conhecer melhor o mundo antes de nos expormos tanto às suas contingências."
o resto do meu artigo publicado no Expresso de 26 de Fevereiro pode ser lido aqui.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Velhos movimentos sociais

Power In A Union from JD on Vimeo.



ou de como, quando me falam de mobilizações inorgânicas, pego logo no revólver.

quinta-feira, 3 de março de 2011

O futuro da esquerda

quarta-feira, 2 de março de 2011

factos

A saída da águia vitória continua a revelar-se estratégica - sem ela, 18 jogos a vencer (a massacrar, melhor dizendo);
Deixámos de ser uma equipa de totós - a atitude do JJ e do Rui no fim dos jogos é decisiva. Os estádios assépticos deram uma machadada no futebol, era o que mais faltava juntar a monomania do fair-play e dos salamaleques entre jogadores;
O Messi e o Ronaldo são extraordinários, mas gostava que me dissessem quem é que é capaz de parar o Fábio Coentrão quando acelera. Desde o Roberto Carlos que não se via nada assim;
Os gajos que 'crasharam' os jogos de futebol e os disponibilizam online merecem uma estátua. Palavra de emigrante;
Agora vou ver a Benfica TV (a verdade a que temos direito), daqui a bocado poderei ser avistado no Capitólio.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Um futuro incerto


"(...) o mais provável é continuarmos incapazes de compreender de modo inteligível o que nos rodeia. Como recordava há semanas António Costa Silva, parecemo-nos com Fabrizio del Dongo (personagem da "Cartuxa de Parma", de Stendhal), quando, nas arrebatadoras cem primeiras páginas do romance, num único dia, atravessa a batalha de Waterloo, é ferido, cruza-se sem saber com o próprio pai, sempre com perceção escassa do contexto que o envolve. Como ele, navegamos movidos por um conjunto de ambições românticas e, em lugar de proclamações definitivas sobre o futuro, assentes em modelos fechados, precisamos de mais factos e menos asserções teóricas. É a única forma de lidarmos com a contingência que nos rodeia e contrariarmos o del Dongo que tem estado demasiadamente presente nos olhos com que olhamos para o mundo. Seja em relação à crise, ao Médio Oriente ou ao PIB português."

o resto do meu artigo publicado na edição do Expresso de 19 de fevereiro pode ser lido aqui.