"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Desde a Jessica Rabbit que não se via nada assim



Quando há um mês ou assim pela primeira vez ouvi e vi (as duas coisas aconteceram necessariamente em simultâneo) a Lana del Rey, tive a reacção que todos devem ter tido. Fiquei suspenso pela entrada da música, pela voz e aspecto da rapariga e pela sequência de imagens que, enquanto sugeriam elementos de modernidade (o skater que cai), remetiam - se nada mais cromaticamente - para um passado mitificado de festas, glamour e mulheres bonitas (que provavelmente nunca existiu nos termos que são sugeridos). O problema vinha logo depois (ainda a música ia a meio): tudo aquilo é tão construído (desde logo a boca da rapariga) que rapidamente assume um lado de caricatura. Esta semana, a Lana del Rey reapareceu, em versão musicalmente despida, no Jools Holland. E a sensação que fica é a mesma: um entusiasmo inicial que logo se desvanece. A ideia é de facto boa, mas temo bem que não chegue com a força necessária ao disco e à carreira que se deveria seguir. A fatalidade sustentável precisa de uma certa dose de autenticidade. A que falta à Lana e que, por exemplo, a Margo Timmins e a Cat Power têm. No fundo, não tem a autenticidade fatal que tinha a Nico quem quer.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

o que tenho andado a ler

- e se as inclinações políticas individuais forem explicáveis pelas ciências neurológicas? Andrea Kuszewski deixa algumas pistas (em todo o caso, continuo convencido da validade da hipótese de Woody Allen em 'everyone says I love you') .

- como é que a Grécia pode escapar ao euro? No NY Times, Floyd Norris descreve os vários cenários.

- E Bonnie Prince Billy deu uma única entrevista a propósito do novo 'wolfroy goes to town' (um óptimo disco que passará por lisboa daqui a umas semanas). a entrevista abre com a justificação que eu procurava para o facto de ouvir música em permanência (It keeps the voices quiet in the head).

- Richard Prince escreve sobre o pintor Bob Dylan, a propósito de uma exposição recente ("the reclining figure in a painting of his called Opium looks that way because there’s a limitation in Dylan’s ability to draw and paint the figure. And that’s why it’s good. He doesn’t try to hide what’s limited and instead uses that limitation to try to make it his own, to try to make it look different and new. Remember that Dylan once said he could sing as well as Caruso.").

Coisas que nem um Camões é capaz de mudar

um filho da puta será sempre um filho da puta.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Once there was a way to get back home (again)

Eu tenho um sonho: a recessão

"(...) Numa entrevista posterior à Forbes, Rastani confessou-se estupefacto com as ondas de choque da sua aparição televisiva – “eu estava convencido de que toda a gente tinha presente este tipo de coisas”. Pelos vistos, não. Até porque é difícil encontrar três minutos e meio tão eficazes na demonstração de que os mercados são agentes racionais (procuram maximizar as oportunidades de lucro) mas que da soma das suas acções não resulta nenhuma racionalidade (a natureza sistémica da crise) e de que a actos individuais racionais não correspondem necessariamente comportamentos movidos pela ética."

o meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lido aqui.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

um parágrafo que vale bem um Nobel

MADRIGAL

Herdei uma floresta obscura, onde raramente vou. Porém, há-de chegar o dia em que os mortos e os vivos trocam os seus lugares. Então, a floresta põe-se em movimento. Nós não existimos sem esperança. Os maiores crimes ficam por esclarecer, apesar da mobilização de tantos polícias. Da mesma maneira, há algures, na nossa vida, um grande amor que fica por esclarecer.
Herdei uma floresta obscura, porém, hoje vou à outra floresta, que é clara. Tudo está vivo, tudo canta, serpenteia, abana e rasteja. É Primavera , o ar é robusto. Fiz os meus exames na universidade do esquecimento, tenho as mãos vazias como uma camisa num cordão de estender roupa.

[versão de Luís Costa, descoberta no blog do Zé Mário]

Custa-me muito tirar o Morrissey daqui

mas recomendo vivamente a audição desta entrevista do Pedro Silva Pereira. Em particular a parte sobre a Madeira (bem como as restantes).

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Estranhamente, mais uma vez preterido

o que tenho andado a ler

- Tim Parks descreve a tarefa hercúlea e também absurda que é escolher o Nobel da literatura. Provavelmente, atribuir o prémio a um poeta sueco é a escolha mais racional para os membros da academia.

- uma exaustiva reflexão de Bill Wyman em torno do documentário de Martin Scorcese sobre George Harrison, que estreia por estes dias na HBO.

- Um notável artigo de George Soros no NY Review of Books, na primeira parte, uma excelente descrição da crise da zona euro e, a terminar, uma saída possível, assente na recapitalização da banca, na protecção de todos os depósitos em euros (mesmo nos países em que o default é uma possibilidade real - Soros não coloca de fora essa possibilidade para Portugal) e na necessidade imperiosa de passar a supervisão bancária para a esfera europeia (e pelo caminho, Passos Coelho já pode levar para casa uma medalha: aparece numa foto no NYRB).

- No Washington Post, John Kornblum (ex-embaixador norte-americano na Alemanha) mostra, mais uma vez, que quem olha para a Europa desde os Estados Unidos tem hoje mais lucidez do que a ortodoxia europeia. O título é sugestivo: "Without the euro, would Europe have turned to war?"

Ele era o meu amigo de todos os dias


O meu trabalho é profundamente solitário. Já lá vão bastantes anos desde que comecei a trabalhar em casa. Estou mesmo convencido que já não serei capaz de trabalhar de outro modo. Adiante. Acontece que, ao longo destes anos, houve alguém que esteve presente todos os dias e em todos os momentos: o Steve Jobs. Trabalho num Mac – que me ensinou a utilizar o computador de outro modo -, ouço música no iTunes, em playlists aleatórias, seleccionadas entre as 10599 canções que neste momento tenho no disco externo, e nos transportes públicos não dispenso o Ipod – para mim a melhor invenção desde que o Jack O’Neill inventou os fatos de neoprene -, de há meses para cá, tornei-me dependente do iPad, onde pela primeira vez leio jornais e revistas como se os estivesse a ler no papel. O Steve Jobs reinventou a minha forma de escrever, de ler e de ouvir música. Muito provavelmente, sem ele eu não tinha conseguido habituar-me tão facilmente a trabalhar sozinho. Também por causa dele, sei que dificilmente voltarei a não trabalhar sozinho.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Nas costas do povo, mas na antena da TSF

Alberto João Jardim relacionou os ataques à Madeira com um acordo de Bloco Central feito nas costas do Povo. À boleia de Jardim, aproveito para anunciar que o Bloco Central, onde eu e o Pedro Marques Lopes nos juntamos, moderados pelo Paulo Tavares, regressou à TSF, com novo horário - ao Sábado, às 11 da manhã, com repetição à meia-noite. A última edição pode ser escutada aqui.

Coisas que, ainda assim, me dão alguma esperança



Se até a justiça italiana é capaz de fazer um mea culpa, quem sabe a portuguesa, também neste aspecto, não seguirá, um dia, na sua esteira.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

custa a perceber

"Custa muito a perceber a razão por que os candidatos a primeiro-ministro se empenham em fragilizar as condições em que mais tarde vão exercer o cargo. Infelizmente, nunca saberemos se o fazem movidos por puro eleitoralismo ou se se trata apenas de impreparação."

a versão integral do meu artigo do Expresso da semana passada está aqui.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A minha Troika


(já só falta escolher o terceiro elemento)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

o cancro explicado às crianças



ou a crise explicada aos néscios com particular candura.

Agora sim, é possível falar com propriedade do "modelo escandinavo"



aproveitando as réplicas da vitória da esquerda na Dinamarca.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Dívida e castigo

"A história está repleta de eventos estruturais desencadeados por acontecimentos secundários. A da Europa não é exceção. Quando o jovem Gavrilo Princip disparou sobre o arquiduque Francisco Fernando, poucos antecipariam o início de uma ‘era de catástrofe’ que duraria três longas décadas. Há atos que têm o condão de revelar todas as tensões de um momento e com isso colocam a história em movimento. Por vezes para o bem, na maior parte das vezes para o mal.
As declarações do Comissário europeu Guenther Oettinger, afirmando que “as bandeiras dos pecadores da dívida deveriam ser colocadas a meia haste”, podem bem ser um destes eventos. O que o Comissário fez foi dar voz ao pensamento dominante na Alemanha: a crise do euro deve ser lida à luz de um conto moral em que o descontrolo das dívidas soberanas se resolve com atos punitivos. A narrativa é apelativa, os governos endividaram-se excessivamente, têm de pagar um preço e a austeridade é a única resposta. Fica sugerida a necessidade de uma punição moral para responder a uma década de desvario hedonista.
Perante o poder avassalador deste conto moral, os países “pecadores” têm optado por apontar o dedo ao vizinho do lado, convencidos que assim expiam o crime e aliviam o castigo. “Nós não somos a Grécia” é um mantra que tem sido usado à exaustão, procurando criar a ilusão de que não nos acontecerá o que foi acontecendo à Grécia no último ano e meio. Ora de cada vez que os países da periferia da zona Euro se procuram distanciar da Grécia estão, de facto, a colocar as suas bandeiras a meia-haste (...)"

o resto do meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lido aqui.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Uma monumental dose de lata



Não deixa de ter a sua ironia assistir a um ex-vereador da Câmara de Mafra a papaguear uma colagem de citações de artigos meus no plenário da Assembleia da República, sem sequer se dar ao trabalho de citar e chegando mesmo a afirmar, a determinada altura, que algumas das opiniões eram dele. Como quem faz surf sabe, foi preciso Peniche para haver Ericeira e a câmara de Mafra sempre se esteve literalmente borrifando para o potencial do surf para o concelho. Com protagonistas destes e colocada a questão deste modo, o surf prestou-se ao ridículo.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Estávamos empatados com a Grécia e agora fugimos

Lidas estas declarações de Miguel Relvas fico com a dúvida se estamos perante um exercício de novilíngua ou apenas face a um gerador automático de palavras que aparentam soar bem. Em todo o caso, remetendo as declarações para a Grécia, não há dúvida de que se trata de um caso evidente de Húbris. Como ensina a história, atitudes destas tendem a ser devidamente castigadas pelos deuses, numa Nêmesis que terá contornos de tragédia. Infelizmente, mais para nós todos do que para este personagem de ópera-bufa.

"I sit at my table and wage war on myself"

Os REM acabaram ontem. Uma notícia que chegou com uns dezasseis anos de atraso. Os REM acabaram para mim com o Monster, tendo o funeral decorrido num concerto para esquecer no Pavilhão Atlântico, não sei bem quando. Tudo o que ouvi deles nos últimos tempos foi penoso, o que é estranho. Tenho, na minha relação com eles, um conjunto de memórias afectivas que deviam ter feito com que os meus níveis de tolerância à banda fossem bem superiores. Lembro-me como se fosse hoje de um dia, algures em 1987/88, ter chegado a casa com os vinis todos dos REM, que me haviam emprestado, e ter durante uns quantos dias gravado tudo para K7 e, não menos importante, de ter feito uma compilação longa das melhores músicas. Quando o Green chegou, eu estava devidamente preparado. A capa do LP da Manuela Paraíso, com o Stipe, acabou por resistir algum tempo afixada nas paredes do meu quarto (não sei aliás se não foi um dos primeiros números do jornal). Durante uns tempos, o Green e depois o Out of Time foram a alternativa solar às músicas que então me dominavam. Tudo isto porque me lembrei que de todas as bandas que ouvi muito por essa altura, os REM são a única que nunca tenho vontade de voltar a ouvir. Hoje vou abrir uma excepção.





afinal, por exemplo estas duas músicas continuam a ser do caraças.

adenda: o Ricardo conhece alguém (além de mim) que escolheria a mesma música. No entanto, a versão que ele encontrou é bem melhor do que esta que está aqui. Pelo menos é mais próxima de como ela era quando primeiro a ouvi. Vale a pena ir vê-la.