"this program provided for a joint metropolitan committee to examine unemployed relief applications and to separate respectable workmen temporarily unemployed from 'ordinary paupers'. For the former, it was hoped that relief work and several rural labor colonies would be provided, although no Exchequer grant was involved and major reliance was placed on private charity.
It was in reaction against this inherited policy that British impetus for labor exchanges and unemployment insurance developed"
Hugh Heclo, a escrever em 1974, sobre o Unemployed Workman Act de 1905 (que viria a ser revogado pelas propostas de Beveridge - aliás apoiado activamente por Churchill-, em 1911, e que criariam o primeiro subsídio de desemprego, tal como o conhecemos hoje)
terça-feira, 3 de abril de 2012
sexta-feira, 30 de março de 2012
quarta-feira, 28 de março de 2012
um exemplo de manual escolar
"Quando precisar de um exemplo do estado de degradação a que chegou o debate político em Portugal, não terei grandes hesitações. Escolherei a discussão em torno da Parque Escolar. É difícil encontrar outro caso tão paradigmático da pulsão a que os governos não resistem para diabolizar o que foi feito pelos seus antecessores, combinada com incapacidade de escrutínio por parte da comunicação social, e que culmina numa timidez exasperante da oposição na defesa do seu próprio legado. Um trágico retrato do país político. (...)"
o resto do meu artigo do Expresso de 17 de Março pode ser lido aqui.
o resto do meu artigo do Expresso de 17 de Março pode ser lido aqui.
segunda-feira, 26 de março de 2012
Amigos em Portugal
A notícia tem já vários meses, mas só agora me chegou: Vini Reilly, a alma dos Durutti Column, sofreu um AVC que o limitou fisicamente. Se bem que já tenha voltado a tocar e, inclusivamente, a compor, é ainda incerto se recuperará totalmente.
Uma das bandas mais importantes da Factory Records (na verdade, a primeira a “assinar” com Tony Wilson), os Durutti Column foram responsáveis por alguns dos discos mais singulares da década de oitenta. The Return of the Durutti Column, LC, Another Setting e Circuses and Bread são, ainda hoje, álbuns parcimoniosos, mas assentes numa complexidade que encontra poucos ou nenhuns paralelos na cena pós-punk britânica. O dedilhar único da guitarra de Vini Reilly, a fragilidade da sua voz, usada apenas a espaços, e a bateria de Bruce Mitchell deixavam o campo aberto para sonhos bucólicos. Acima de tudo, pairava uma capacidade melódica presa a ambientes capazes de, por vezes, ofuscar toda a tristeza que encerrava aquela música. Quando as músicas dos Durutti Column se entranham, nunca mais nos podemos sentir abandonados. Sobre a banda, Miguel Esteves Cardoso escreveu, já lá vão quase trinta anos: “esta música não é uma coisa prosaica e ingénua; não é papel-de-parede para tapar os buracos verdadeiros. Aqui há também uma luta. O que é preciso é raspar levemente a superfície da pintura, para encontrar a sua base de tintas negras e feias, o seu medonho inconsciente. Não há beleza sem contraponto, nem harmonia sem contraste. E a música de Vini Reilly é só isso.” É mesmo só isso.
A versão ao vivo da Jacqueline que aqui se vê (de 1988) é superior à versão mais curta do LC (ou da LC). Aliás, o tema sempre ganhou em versões ao vivo, com o solo do Bruce Mitchell (tão impressionante como a sua expressividade) a criar o contexto certo para que a guitarra volte a cair no tema.
texto também publicado aqui.
Uma das bandas mais importantes da Factory Records (na verdade, a primeira a “assinar” com Tony Wilson), os Durutti Column foram responsáveis por alguns dos discos mais singulares da década de oitenta. The Return of the Durutti Column, LC, Another Setting e Circuses and Bread são, ainda hoje, álbuns parcimoniosos, mas assentes numa complexidade que encontra poucos ou nenhuns paralelos na cena pós-punk britânica. O dedilhar único da guitarra de Vini Reilly, a fragilidade da sua voz, usada apenas a espaços, e a bateria de Bruce Mitchell deixavam o campo aberto para sonhos bucólicos. Acima de tudo, pairava uma capacidade melódica presa a ambientes capazes de, por vezes, ofuscar toda a tristeza que encerrava aquela música. Quando as músicas dos Durutti Column se entranham, nunca mais nos podemos sentir abandonados. Sobre a banda, Miguel Esteves Cardoso escreveu, já lá vão quase trinta anos: “esta música não é uma coisa prosaica e ingénua; não é papel-de-parede para tapar os buracos verdadeiros. Aqui há também uma luta. O que é preciso é raspar levemente a superfície da pintura, para encontrar a sua base de tintas negras e feias, o seu medonho inconsciente. Não há beleza sem contraponto, nem harmonia sem contraste. E a música de Vini Reilly é só isso.” É mesmo só isso.
A versão ao vivo da Jacqueline que aqui se vê (de 1988) é superior à versão mais curta do LC (ou da LC). Aliás, o tema sempre ganhou em versões ao vivo, com o solo do Bruce Mitchell (tão impressionante como a sua expressividade) a criar o contexto certo para que a guitarra volte a cair no tema.
texto também publicado aqui.
quinta-feira, 22 de março de 2012
Zona de conforto
Há um par de semanas, passei a fazer um programa de música na antena da TSF. Chama-se Zona de Conforto e vai para o ar, semanalmente, nas madrugadas de sexta para sábado, entre a meia-noite e a uma da manhã. O programa tem também um blog - onde, entre outras coisas, é possível ouvir as emissões anteriores (fazendo scroll down na página, encontram o link do lado direito). São todos muito bem vindos.
quarta-feira, 21 de março de 2012
Banhos de Mar, no dia da morte de Tonino Guerra

Há um par de anos, tive o privilégio de jantar em Lisboa com Tonino Guerra, poeta, argumentista e co-responsável pela criação do universo que atribuímos exclusivamente a Fellini. Durante um fim de tarde e noite, partilhei, com não mais de vinte pessoas, as palavras de um contador de histórias admirável, que aos oitenta e muitos anos mantinha os olhos vivos de quem vive numa infância exuberantemente reinventada – como aquela que se vê no Amarcord de Fellini e Guerra. Sei que guardarei muitas das palavras simples ditas por Tonino Guerra. Mas, de tudo o que ouvi, há uma lição de que não me esqueço e que arrisco citar de cor: “Os adultos têm sempre as mãos limpas. Eu tenho oitenta anos e lavo-as muitas vezes ao dia. Mas só quando as tenho sujas me recordo de quando era criança”.
Não pude deixar de me recordar de Tonino Guerra ao ler recentemente um pequeno e espantoso texto da escritora brasileira, Clarice Lispector, Banhos de Mar. Aquilo que para Tonino são “as mãos sujas”, são para Lispector “os banhos de mar”: metáforas para um regresso a um paraíso perdido, a uma infância absoluta de sensações e à qual somos capazes de regressar, num caso, através da sujidade das brincadeiras, noutro, com os mergulhos no mar e o cheiro a sal no corpo. “Somos crianças feitas para grandes férias”, escreveu Ruy Belo num dos mais magníficos poemas em língua portuguesa (A orla marítima). É essa a nossa natureza: buscar incessantemente a felicidade num feixe de luz que nos transporta para um passado que até pode não ter existido como o vemos hoje. Pouco importa. É esse passado, rescrito e reinventado, que recordamos. O correr dos tempos intensifica esse retorno difuso às sensações de quando estávamos crianças, surpreendidos com a descoberta. O sentimento tende a agravar-se com a chegada dos filhos, quando, ao olharmos para eles, vemos nos seus sorrisos deslumbrantes a nossa própria felicidade.
Clarice Lispector conduz-nos com palavras doces para uma infância de tranquilidade, feita de banhos madrugadores no mar do Recife, levada pela mão do pai: “O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas e trazia um pouco de mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele”. O lugar era onde a felicidade começava e tudo era assombrosamente novo: “essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro”. A impressão táctil desse passado resistiu, a roupa e os cabelos impregnados de sal que iam secando no regresso a casa. E, no fim, uma crença que ficou para a vida, que era também a partilha de um léxico familiar: “meu pai acreditava que não se devia tomar logo banho de água doce: o mar devia ficar na nossa pele por algumas horas. Era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpida e sem o mar”.
Leio e releio o texto de Clarice Lispector e quase que sinto o cheiro da infância – a t-shirt que se colava ao corpo com o sal que a costa atlântica portuguesa nos dá em doses generosas; as noites bem dormidas; os dias feitos de mergulhos e carreirinhas infindáveis nas ondas de verão que pareciam maiores do que realmente eram; as correrias; o bicicletar sem rumo; e mais tarde os primeiros take-offs, partilhados com um par de amigos. Tudo se torna nítido, como é próprio dos prazeres iniciais.
Mas o texto de Clarice tem um tom sombrio no final, a impossibilidade de regressar a esses tempos de banhos de mar: “A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais? Nunca mais. Nunca.”
Pois eu sei como se reencontra esse tempo. Pego na prancha, remo para o outside e, mesmo que não sorria como faz o meu filho, em cada onda que apanho fico perto do seu mundo fácil. É também para isso que serve o surf, para recuarmos ao tempo da ingenuidade, às suas sensações, aos seus prazeres e à sua libertinagem. Dentro de água tudo o resto desaparece e podemos beber, nas ondas, o mar. Depois, no regresso à Terra, o peso delicado do sal no corpo ajuda a sedimentar a memória da infância.
texto publicado em 2007 na SurfPortugal e entretanto editado no "Sal na Terra".
terça-feira, 20 de março de 2012
Faça-se ao lado
"(...)como a realidade tem muita força, os problemas não poderiam deixar de surgir e passou a ser necessário lidar com eles. E, neste aspecto, o primeiro-ministro não hesitou e, parafraseando-o, “recuperou velhos comportamentos preguiçosos”. Santos Pereira é incapaz de gerir as relações com os parceiros sociais? encontra-se um negociador fora do governo; Santos Pereira é incapaz de dar conta da internacionalização da economia? entrega-se a matéria aos Negócios Estrangeiros; Santos Pereira é incapaz de acompanhar as privatizações? convida-se uma figura de prestígio para acompanhar o processo; Santos Pereira é incapaz de responder ao flagelo do desemprego juvenil? forma-se uma comissão presidida por outro ministro; Santos Pereira é um empecilho para a execução dos fundos comunitários? institui-se uma “comissão chapéu”, coordenada por um colega de governo. No fundo, o primeiro-ministro optou pela solução simples. Santos Pereira não tem competências políticas? o Ministério é ingovernável? recorra-se ao velho: “faça-se ao lado”.
Perante este cenário, não há, como bem referiu Passos Coelho, desmantelamento dos ministérios. De facto, a orgânica do governo mantém-se inalterada – e, aliás, por concluir. Há, contudo, uma outra coisa, bem pior: do ponto de vista institucional, fica tudo na mesma, mas criam-se estruturas paralelas, escassamente formalizadas e menos sujeitas ao escrutínio político (desde logo do parlamento), para compensar a inoperância da estrutura orgânica existente. É um procedimento habitual no Estado português e que tem dado contributos bastante negativos para a implementação das políticas públicas. Aliás, pode bem dar-se o caso de estarmos como estamos, não por força de opções substantivas erradas dos sucessivos governos, mas como consequência de práticas institucionais contraproducentes. A história do Álvaro é, no fundo, mais um episódio de uma trajectória de degradação do Estado.
a versão integral do meu artigo do Expresso de 10 de Março pode ser lida aqui.
Perante este cenário, não há, como bem referiu Passos Coelho, desmantelamento dos ministérios. De facto, a orgânica do governo mantém-se inalterada – e, aliás, por concluir. Há, contudo, uma outra coisa, bem pior: do ponto de vista institucional, fica tudo na mesma, mas criam-se estruturas paralelas, escassamente formalizadas e menos sujeitas ao escrutínio político (desde logo do parlamento), para compensar a inoperância da estrutura orgânica existente. É um procedimento habitual no Estado português e que tem dado contributos bastante negativos para a implementação das políticas públicas. Aliás, pode bem dar-se o caso de estarmos como estamos, não por força de opções substantivas erradas dos sucessivos governos, mas como consequência de práticas institucionais contraproducentes. A história do Álvaro é, no fundo, mais um episódio de uma trajectória de degradação do Estado.
a versão integral do meu artigo do Expresso de 10 de Março pode ser lida aqui.
quinta-feira, 15 de março de 2012
quarta-feira, 14 de março de 2012
No fundo, não importa nem o tempo, nem o lugar, é isto
Why I Am Leaving Goldman Sachs
"(...) My proudest moments in life — getting a full scholarship to go from South Africa to Stanford University, being selected as a Rhodes Scholar national finalist, winning a bronze medal for table tennis at the Maccabiah Games in Israel, known as the Jewish Olympics — have all come through hard work, with no shortcuts. Goldman Sachs today has become too much about shortcuts and not enough about achievement. It just doesn’t feel right to me anymore.(...)"
um artigo que deve (tem de) ser lido na integralidade, aqui.
"(...) My proudest moments in life — getting a full scholarship to go from South Africa to Stanford University, being selected as a Rhodes Scholar national finalist, winning a bronze medal for table tennis at the Maccabiah Games in Israel, known as the Jewish Olympics — have all come through hard work, with no shortcuts. Goldman Sachs today has become too much about shortcuts and not enough about achievement. It just doesn’t feel right to me anymore.(...)"
um artigo que deve (tem de) ser lido na integralidade, aqui.
segunda-feira, 12 de março de 2012
Um Estado Sindical
"(...)A natureza do que é dito pelos responsáveis sindicais do Ministério Público já não surpreende, acontece que passou a ser tolerada. Parece-me que há boas razões para ficarmos preocupados. Estamos perante uma pulsão que visa contrariar os equilíbrios de poder no regime e, em última análise, condicionar a acção dos poderes executivo e legislativo. Não é nada de novo, convenhamos, e a ambição é clara: o que antes acontecia através de coligações entre péssimas investigações judiciais e mau jornalismo, com acusações na praça pública, assentes em violações selectivas ao segredo de justiça, tem, agora, de ser institucionalizado. (...)
Neste contexto, é particularmente preocupante a complacência da actual ministra em relação ao conjunto de poderes fácticos que vai ganhando espaço na justiça. Uma complacência que não encontra paralelo em nenhum governo anterior, independentemente da cor política. Quando o que era necessário era um alargamento do espaço de influência do Ministério da Justiça, através de acordos parlamentares e envolvendo o Presidente da República, o que assistimos é uma opção que rompe com essa tradição e procura sustentação política nas organizações sindicais do sector. Não são necessários grandes poderes de previsão para antecipar que este namoro acabará mal. Até lá, vai sendo alimentado o sonho de ter no topo da hierarquia do MP um procurador escolhido pelos seus pares. Pior que um Estado corporativo, só mesmo um Estado sindical."
a versão integral do meu artigo do Expresso de 3 de Março está aqui.
Neste contexto, é particularmente preocupante a complacência da actual ministra em relação ao conjunto de poderes fácticos que vai ganhando espaço na justiça. Uma complacência que não encontra paralelo em nenhum governo anterior, independentemente da cor política. Quando o que era necessário era um alargamento do espaço de influência do Ministério da Justiça, através de acordos parlamentares e envolvendo o Presidente da República, o que assistimos é uma opção que rompe com essa tradição e procura sustentação política nas organizações sindicais do sector. Não são necessários grandes poderes de previsão para antecipar que este namoro acabará mal. Até lá, vai sendo alimentado o sonho de ter no topo da hierarquia do MP um procurador escolhido pelos seus pares. Pior que um Estado corporativo, só mesmo um Estado sindical."
a versão integral do meu artigo do Expresso de 3 de Março está aqui.
quarta-feira, 7 de março de 2012
segunda-feira, 5 de março de 2012
Suicídio assistido
"Acabar com o Carnaval ou com feriados não nos torna melhores trabalhadores. A menos que o desígnio estratégico seja a chinização do mercado de trabalho, o que Portugal precisa é de gestores que administrem melhor, de alterar o padrão de especialização da nossa economia (em lugar de aprofundarmos as suas debilidades, que é, de facto, a consequência da estratégia de empobrecimento) e continuar a investir na qualificação (em vez de, por exemplo, desmantelar as “novas oportunidades”). Uma evidência, menos para o Governo, que insiste na ideia de que a resposta aos problemas da economia política portuguesa passa por trabalharmos mais horas.
A estratégia é reveladora de uma incompreensão do momento que vivemos. O que enfrentamos é uma crise da procura – ainda esta semana, por exemplo, soube-se que as indústrias portuguesas estão entre as que registaram uma maior queda nas encomendas recebidas. Ou seja, a capacidade utilizada da economia está em mínimos, logo, se continuamos a insistir no aumento do número de horas de trabalho, não escaparemos a um crescimento ainda maior do desemprego.
Há dias, o primeiro-ministro espanhol, Rajoy, considerou um suicídio a diminuição do défice a que a Espanha estava obrigada este ano (de 8% para 4.4%). É difícil encontrar outra expressão que descreva de modo tão exacto o que se está a passar em Portugal. Uma contracção da economia que vai para além do razoável e que, acompanhada pela insistência no aumento de número de horas de trabalho, vai ter um efeito devastador sobre o emprego. Estamos perante um suicídio provocado pelo governo português, mas assistido pelas obsessões ideológicas da troika."
a versão integral do meu artigo do Expresso da semana passada está aqui.
A estratégia é reveladora de uma incompreensão do momento que vivemos. O que enfrentamos é uma crise da procura – ainda esta semana, por exemplo, soube-se que as indústrias portuguesas estão entre as que registaram uma maior queda nas encomendas recebidas. Ou seja, a capacidade utilizada da economia está em mínimos, logo, se continuamos a insistir no aumento do número de horas de trabalho, não escaparemos a um crescimento ainda maior do desemprego.
Há dias, o primeiro-ministro espanhol, Rajoy, considerou um suicídio a diminuição do défice a que a Espanha estava obrigada este ano (de 8% para 4.4%). É difícil encontrar outra expressão que descreva de modo tão exacto o que se está a passar em Portugal. Uma contracção da economia que vai para além do razoável e que, acompanhada pela insistência no aumento de número de horas de trabalho, vai ter um efeito devastador sobre o emprego. Estamos perante um suicídio provocado pelo governo português, mas assistido pelas obsessões ideológicas da troika."
a versão integral do meu artigo do Expresso da semana passada está aqui.
domingo, 4 de março de 2012
sexta-feira, 2 de março de 2012
Regresso à normalidade
Nos cinco minutos em que não se queixam de pressões políticas ou do modo como os cortes nas remunerações podem colocar em causa a sua independência, os magistrados do ministério público aproveitaram para organizar um congresso que começou hoje. O site merece bem uma visita. Para além de um número alargado de media partners (não sei se, por exemplo, no congresso do PSD que se realiza no próximo mês também existirão media partners), é também supreendente o número de instituições bancárias que patrocina a iniciativa (quatro mais uma seguradora). O Público, ao menos, assume que viajou pago pelo sindicato. Imaginem se a ideia faz escola.
quinta-feira, 1 de março de 2012
A modo mio avrei bisogno di sognare anch'io.
Morreu o Lucio Dalla e eu não posso deixar de sentir saudades do país com as praças mais bonitas do mundo. Entre elas esta de Bolonha.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
hoje a Grécia, amanhã Portugal
"(...) A última versão da nacionalização da crise da zona euro aponta uma nova saída. Perante a incapacidade do governo grego em estrangular a sua própria economia, sociedade e país, a única solução que resta é avançar para o que até há semanas era impensável: isolar a Grécia, deixando-a caminhar para a bancarrota. Para os mesmos optimistas que acreditam no pensamento mágico, de algum modo seria possível traçar uma fronteira entre a Grécia e os restantes países, à cabeça o próximo na linha de abate – Portugal. No fundo, a Grécia funcionaria como o Lehman Brothers e Portugal seria a AIG. Como sabemos, mesmo resgatada a AIG, não foi possível estancar o efeito de contágio do Lehman Brothers. Agora imaginemos o que será um default de um país dentro de uma zona monetária única. Um assustador salto no vazio que nada terá de ordenado.
Bem sei que falar em solidariedade europeia é pedir demasiado aos políticos míopes que nos lideram, mas, ao menos, era de esperar que se movessem pelo interesse próprio. A Grécia de hoje seremos nós amanhã. Depois, é uma questão de ordenar os restantes países europeus."
o resto do meu artigo do Expresso de 18 de Fevereiro pode ser lido aqui.
Bem sei que falar em solidariedade europeia é pedir demasiado aos políticos míopes que nos lideram, mas, ao menos, era de esperar que se movessem pelo interesse próprio. A Grécia de hoje seremos nós amanhã. Depois, é uma questão de ordenar os restantes países europeus."
o resto do meu artigo do Expresso de 18 de Fevereiro pode ser lido aqui.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
and so it goes

I love to speak with Leonard
He’s a sportsman and a shepherd
He’s a lazy bastard
Living in a suit
A culpa é da preguiça

"(...) o argumento da preguiça revela uma interpretação desadequada da natureza da crise. No fundo, estamos perante uma interiorização depurada da crise como “culpa moral”, que faz certamente rejubilar a Srª Merkel. Para Passos Coelho, pelos vistos, os problemas do euro são uma espécie de fábula: certos povos têm uma propensão incontrolável para o ócio, pelo que têm de mudar de atitude, expiando o mal e abandonando “velhas tradições” (começando pelo paradigma de hedonismo que dá pelo nome de Carnaval). É verdade que há muito literatura que procura explicar a diversidade do capitalismo e as suas diferentes trajectórias, mas desconheço tentativas de explicar atrasos económicos com base em feriados e pontes. Devo estar a ficar preguiçoso."
o resto do meu artigo do Expresso de 11 de Fevereiro pode ser lido aqui.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Síndrome de Stendhal

"Absorbed in the contemplation of sublime beauty ... I reached the point where one encounters celestial sensations ... Everything spoke so vividly to my soul. Ah, if I could only forget. I had palpitations of the heart, what in Berlin they call 'nerves.' Life was drained from me. I walked with the fear of falling.''
Stendhal
Abaixo de PIGS
"(...) Depois do acrónimo PIGS e da crise como culpa moral, a requerer uma resposta assente no empobrecimento, o corolário lógico é colocar os países da periferia sob tutela política, tratando-os, de facto, abaixo de PIGS.
A proposta é coerente com a resposta à crise que tem sido dada pela Europa mas, também, com a postura dos governos das periferias. Como sublinhava com clareza o economista grego Yanis Varoufakis, a partir do momento que os governos aceitam empréstimos assentes em pacotes de austeridade que aprofundam a insolvência dos seus próprios países, e que automaticamente exigem mais empréstimos, chegará o momento em que os responsáveis políticos internacionais quererão ter poderes executivos. É apenas uma questão de tempo.
Contudo, se o momento chegar, seremos todos, da Alemanha à periferia, confrontados com a inviabilidade política e económica do caminho europeu. Até lá, valha-nos ao menos o conforto das palavras do nosso primeiro-ministro: “vamos cumprir o programa, custe o que custar”. Custe o que custar."
o resto do meu artigo do Expresso de 4 de Fevereiro pode ser lido aqui.
A proposta é coerente com a resposta à crise que tem sido dada pela Europa mas, também, com a postura dos governos das periferias. Como sublinhava com clareza o economista grego Yanis Varoufakis, a partir do momento que os governos aceitam empréstimos assentes em pacotes de austeridade que aprofundam a insolvência dos seus próprios países, e que automaticamente exigem mais empréstimos, chegará o momento em que os responsáveis políticos internacionais quererão ter poderes executivos. É apenas uma questão de tempo.
Contudo, se o momento chegar, seremos todos, da Alemanha à periferia, confrontados com a inviabilidade política e económica do caminho europeu. Até lá, valha-nos ao menos o conforto das palavras do nosso primeiro-ministro: “vamos cumprir o programa, custe o que custar”. Custe o que custar."
o resto do meu artigo do Expresso de 4 de Fevereiro pode ser lido aqui.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
No fundo, é isto

“Hope is not the conviction that something will turn out well, but the certainty that something makes sense, regardless of how it turns out.”
Václav Havel (lido aqui.)
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Oh Yeah
Não são precisos grandes filmes para que o cinema sirva para alguma coisa. Uma dúzia de euros e quatro horas já valeram a pena só para descobrir que a Charlize Theron ouvia a mesma música que eu quando tinha uns dezoito anos (já para não falar do que fazia a ouvir a música) e que o George Clooney tem uma coleção irrepreensível de camisas (já para não falar da filha mais velha).


Uma lenta agonia
"(...) A capitulação negocial da UGT é aparentemente uma benesse para a CGTP: por um lado, fica com o monopólio da contestação social organizada; por outro, deixa o campo aberto à afirmação de um novo secretário-geral, com a difícil tarefa de substituir um líder carismático. Estamos perante uma ilusão. O que assistiremos, muito provavelmente, é um crescente entrincheiramento da CGTP e um reforço da tutela política do Partido Comunista. Apesar da convergência estratégica, Carvalho da Silva garantia alguma autonomia táctica da CGTP face ao PC e promovia um mínimo de pluralismo interno. Com Arménio Carlos, a CGTP pode ter a ilusão de que representa o descontentamento social, mas ficará ainda mais presa ao PC, condenando-se a um lento definhamento, assente numa retórica sindical que não tem aderência ao mercado de trabalho de hoje.
Ainda assim, há um espaço de manobra possível para o movimento sindical inverter a tendência de declínio: romper com a agenda dominante, centrada em temas que nem sequer são vistos como os mais relevantes pelos trabalhadores portugueses, e libertar-se das tutelas partidárias, que asfixiam a sua capacidade de representação. Num cenário de degradação económica, não se vê como é que será possível iniciar este caminho."
o resto do meu artigo do Expresso de 28 de Janeiro está aqui.
Ainda assim, há um espaço de manobra possível para o movimento sindical inverter a tendência de declínio: romper com a agenda dominante, centrada em temas que nem sequer são vistos como os mais relevantes pelos trabalhadores portugueses, e libertar-se das tutelas partidárias, que asfixiam a sua capacidade de representação. Num cenário de degradação económica, não se vê como é que será possível iniciar este caminho."
o resto do meu artigo do Expresso de 28 de Janeiro está aqui.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Continua a festim
Anda por aí uma fúria - mais uma - de covers do Leonard Cohen. Se fossem necessárias outras razões para recebermos de braços abertas as 'ideias antigas', só o facto de ter precipitado algumas destas versões já justificou o regresso. Ontem o Bill Callahan, hoje foi o John Darnielle, a fazer seu o 'Smokey Life' - (sem a Jennifer Warnes).
(obrigado ao antónio pela dica)
(obrigado ao antónio pela dica)
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
da modernização da social-democracia
tenho ouvido e lido que, nos últimos tempos, o SPD tem mudado de posição em relação aos temas europeus. Infelizmente não leio alemão, mas, a crer nas declarações que o Público atribui hoje a Martin Schulz, presidente em exercício do Parlamento Europeu e social-democrata alemão, não me parece que assim seja: "a Grécia deverá viver com o facto de que os que dão muito dinheiro para sanear o país deverão ser melhor incluídos nas decisões" (sobre a utilização desse dinheiro), o que significa "seguramente uma limitação temporária da sua soberania".
Uma coisa parece sempre cada vez mais clara: "a única coisa que a história ensina é que as pessoas não aprendem com a história".
Uma coisa parece sempre cada vez mais clara: "a única coisa que a história ensina é que as pessoas não aprendem com a história".
Como dar 10 a zero à Lana del Rey
(2012 já tem dois grandes discos, Tramp da Sharon van Etten e Mr. M dos Lambchop.)
Matar o mensageiro
"(...) uma coisa é a avaliação política do papel das agências de rating, outra, bem diferente, é o que nos têm dito sobre a crise europeia. Na semana passada, quando a Standard & Poor’s reviu em baixa a notação de várias Estados europeus, retirando a nota máxima à dívida francesa e remetendo Portugal para a categoria de lixo, a reacção foi matar o mensageiro e não ouvir a mensagem. É um erro. Vale a pena prestar atenção às razões invocadas pela S&P.
Para além de não individualizar os casos, tratando a zona euro conjuntamente, a S&P sublinha que a descida dos ratings decorre, no essencial, da avaliação feita sobre as decisões políticas europeias – vistas como insuficientes para responder à natureza sistémica da crise do euro. Aliás, é expressamente dito que não só as disputas prolongadas e abertas entre líderes europeus são um factor de risco, como os resultados da última cimeira não representaram uma ruptura suficiente. Esta conclusão decorre, aliás, de uma interpretação da natureza da crise: os problemas financeiros que enfrentamos são, principalmente, consequência de desequilíbrios macroeconómicos entre países do centro e da periferia, pelo que um processo de reforma assente na austeridade pode tornar-se contraproducente.
No fundo, é-nos dito que a Europa não compreendeu a crise, que não vale a pena continuar a individualizar casos, como se não houvesse risco sistémico, e que, enquanto não existir uma resposta conjunta, a sucessão de pacotes de austeridade limitar-se-á a empurrar todas as economias para uma espiral depressiva. Para a S&P, a Europa parece ter assinado um ‘pacto de suicídio’.
Perante estas conclusões, Merkel fingiu não ter percebido e afirmou que era preciso reforçar a disciplina orçamental. Monti, primeiro-ministro italiano, desdobrou-se em declarações, defendendo que “enquanto a obsessão com a austeridade persistir, a crise não acabará”, acrescentando, ao Financial Times, que concordava com “quase tudo o que é dito na análise da S&P” e que poderia ter sido ele a escrever o relatório. O Governo, pela voz sempre pausada do ministro Vítor Gaspar, repetiu, em português, a posição alemã: revelou perplexidade com a baixa da notação, reforçou o compromisso com a austeridade e com os resultados da última cimeira europeia.
A questão só pode ser uma: não terá chegado a altura de deixarmos as colagens às posições alemãs e de nos alinharmos politicamente com os nossos parceiros naturais, os que enfrentam problemas semelhantes? Que as agências de rating possam dar um contributo para esse objectivo, não deixa de ser irónico."
a versão integral do meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lida aqui.
Para além de não individualizar os casos, tratando a zona euro conjuntamente, a S&P sublinha que a descida dos ratings decorre, no essencial, da avaliação feita sobre as decisões políticas europeias – vistas como insuficientes para responder à natureza sistémica da crise do euro. Aliás, é expressamente dito que não só as disputas prolongadas e abertas entre líderes europeus são um factor de risco, como os resultados da última cimeira não representaram uma ruptura suficiente. Esta conclusão decorre, aliás, de uma interpretação da natureza da crise: os problemas financeiros que enfrentamos são, principalmente, consequência de desequilíbrios macroeconómicos entre países do centro e da periferia, pelo que um processo de reforma assente na austeridade pode tornar-se contraproducente.
No fundo, é-nos dito que a Europa não compreendeu a crise, que não vale a pena continuar a individualizar casos, como se não houvesse risco sistémico, e que, enquanto não existir uma resposta conjunta, a sucessão de pacotes de austeridade limitar-se-á a empurrar todas as economias para uma espiral depressiva. Para a S&P, a Europa parece ter assinado um ‘pacto de suicídio’.
Perante estas conclusões, Merkel fingiu não ter percebido e afirmou que era preciso reforçar a disciplina orçamental. Monti, primeiro-ministro italiano, desdobrou-se em declarações, defendendo que “enquanto a obsessão com a austeridade persistir, a crise não acabará”, acrescentando, ao Financial Times, que concordava com “quase tudo o que é dito na análise da S&P” e que poderia ter sido ele a escrever o relatório. O Governo, pela voz sempre pausada do ministro Vítor Gaspar, repetiu, em português, a posição alemã: revelou perplexidade com a baixa da notação, reforçou o compromisso com a austeridade e com os resultados da última cimeira europeia.
A questão só pode ser uma: não terá chegado a altura de deixarmos as colagens às posições alemãs e de nos alinharmos politicamente com os nossos parceiros naturais, os que enfrentam problemas semelhantes? Que as agências de rating possam dar um contributo para esse objectivo, não deixa de ser irónico."
a versão integral do meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lida aqui.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
o capitalismo no Estado

"(...) mesmo quando vendemos os dedos e os anéis, alienando o que resta da nossa soberania, há uma dimensão estrutural que persiste e sai reforçada: o Estado bem pode sair das empresas, mas as empresas não saem do Estado.
Para quem falou em “democratização da economia” ou andou a proclamar um liberalismo de pacotilha, apreendido em três lições apressadas na contracapa de meia dúzia de livros, o caminho seguido, ainda assim, surpreende. O que Portugal está a fazer é contribuir, de modo não negligenciável, para a entrada e afirmação na Europa, num sector estratégico como o das energias, de um modelo de capitalismo que não tem nenhuma preocupação com a concorrência, que desrespeita as mais elementares regras de mercado e é socialmente insustentável. As grandes empresas chinesas são braços armados da afirmação geopolítica do Estado chinês e visam, através da expansão, garantir o crescimento e a estabilidade social, de modo a reproduzir um sistema político deplorável.
No fundo, a China sabe que pode contar com Portugal: um país em dificuldades financeiras, e por isso exposto e permeável, e que tem um lastro de promiscuidade entre poder político e económico que gera um terreno fértil ao desenvolvimento do capitalismo assente no Estado. Para liberalismo e “democratização da economia”, estamos conversados."
o resto do meu artigo do Expresso de 14 de Janeiro está aqui.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
A desigualdade está a passar por aqui
"Em Março de 2010, quando foi dado o tiro de partida para a austeridade, o governo começou os cortes por onde nunca o deveria ter feito – limitando as transferências para a segurança social e, em particular, o financiamento da rede de mínimos sociais. A tomar à letra o que Sócrates e Teixeira dos Santos anunciavam com o PEC I, os nossos desequilíbrios orçamentais resultavam de uma generosidade excessiva da protecção social para os mais carenciados, que se resolvia com uma disciplina férrea nos apoios aos mais pobres. Passado um par de meses, Passos Coelho juntou-se para dançar o tango e desde então os PEC têm-se sucedido a um ritmo difícil de acompanhar.
Mesmo os mais pessimistas, contudo, podem ter ficado resignados e ter-se-ão deixado convencer que o processo que iniciámos vai para dois anos tinha, do ponto de vista das desigualdades, um efeito essencialmente simbólico e que, acima de tudo, não destoava do que se passava um pouco por toda a Europa. Acontece que não é de facto assim. (...)
Poderá alguma coisa mudar entretanto? Não há motivos para estarmos optimistas. Com uma distribuição dos sacrifícios que é ainda mais iníqua (focada nos desempregados, pensionistas e funcionários públicos), a tendência só se pode intensificar. Numa das sociedades mais desiguais da Europa, temos uma distribuição do esforço de austeridade muito desigual. O que terá consequências profundas: não apenas as sociedades mais igualitárias funcionam quase sempre melhor, como a aceitação política do esforço de consolidação depende de uma distribuição o mais equitativa possível. Exactamente o que não está a acontecer em Portugal."
o resto do meu artigo do Expresso de 7 de Janeiro está aqui.
Mesmo os mais pessimistas, contudo, podem ter ficado resignados e ter-se-ão deixado convencer que o processo que iniciámos vai para dois anos tinha, do ponto de vista das desigualdades, um efeito essencialmente simbólico e que, acima de tudo, não destoava do que se passava um pouco por toda a Europa. Acontece que não é de facto assim. (...)
Poderá alguma coisa mudar entretanto? Não há motivos para estarmos optimistas. Com uma distribuição dos sacrifícios que é ainda mais iníqua (focada nos desempregados, pensionistas e funcionários públicos), a tendência só se pode intensificar. Numa das sociedades mais desiguais da Europa, temos uma distribuição do esforço de austeridade muito desigual. O que terá consequências profundas: não apenas as sociedades mais igualitárias funcionam quase sempre melhor, como a aceitação política do esforço de consolidação depende de uma distribuição o mais equitativa possível. Exactamente o que não está a acontecer em Portugal."
o resto do meu artigo do Expresso de 7 de Janeiro está aqui.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Futurologia
As minhas previsões para Portugal em 2012 estão aqui, em "empobrecimento e três rupturas", um artigo que escrevi para o anuário do Expresso/Economist, "O mundo em 2012"
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
E nada muda

Por causa de um livro que estou a terminar, peguei no Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico de Orlando Ribeiro, que nunca tinha lido. Na edição que encontrei em casa, alguém colocou, imagino que tenha sido o meu avô, vá lá saber-se porquê, um recorte de um editorial do International Herald Tribune de 1963 (curiosamente de 11 de Setembro). Tirando o facto de JFK ainda ser vivo (e também Salazar), tudo parece relativamente imutável. O poder crescente da China, a ameaça paquistanesa e Portugal - que iniciou algumas reformas, mas que podem ser insuficientes e tardias.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
A tragédia portuguesa

"(...) Na tragédia grega, dava-se um nome a esta tentativa arrogante de tudo querer compreender e tudo explicar – a húbris. A tragédia portuguesa é também essa: a dos que vivem a ilusão de que há um só culpado para a crise e que é possível cristalizar as suas causas em dois ou três bordões de belo efeito e com resultados imediatos. Vale a pena recordar que, na tragédia grega, o protagonista era invariavelmente vítima da húbris, da sua inclinação para desprezar a realidade e deixar-se levar pelo excesso de confiança nas suas capacidades. Os deuses castigavam o protagonista com um pathos de sofrimento, numa nêmesis que castigava a insolência, e que tinha como efeito fazer o indivíduo regressar aos limites que transgrediu.
A tragédia portuguesa vai ser mesmo essa: daqui a um ano estaremos bem pior do que hoje e já não teremos à mão as desculpas que hoje são usadas e que têm tanto de fácil como de ilusórias. Talvez então, sejamos capazes de olhar para a nossa ‘tragédia’ em todas as suas matizes. Nessa altura, vamos descobrir que a ilusão da culpa e dos culpados é apenas isso: uma ilusão."
o resto do meu artigo do Expresso de 30 de Dezembro está aqui.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
"We could steal time just for one day"
parabéns ao Senhor David Robert Jones, nos seus 65 anos. Estou-lhe muito agradecido.
Da generosidade
Provavelmente por culpa minha (que vi poucos), 2011 em filmes foi pior do que em discos. Assim de repente, só houve um filme de que gostei sinceramente.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Livros 2011 (não necessariamente publicados em 2011) (e já que ninguém pergunta)

Livros que gostei mais de ler em 2011: On Chesil Beach – Ian McEwan; Prosas Apátridas - Julio Ramón Ribeyro e Just Kids – Patti Smith
Menção Honrosa: The Finkler Question - Howard Jacobson
Livro de 2011 de que gostei mais em 2011: The Sense of an Ending – Julian Barnes
Decepções relativas lidas em 2011: Freedom – Jonathan Franzen e Império – Gore Vidal
Acontecimento editorial do ano: Poesia Completa de Manoel de Barros
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
A troika do Benfica

"(...) O mais provável é que o governo resista e se mantenha surpreendentemente popular porque existe a percepção de que quem governa de facto é a troika. O governo é apenas um executor, com escassa margem de manobra, de um memorando ao qual estamos presos. As visitas da troika, com as sistemáticas conferências de imprensa em que um conjunto de técnicos age como governantes, só reforçam a sensação. Esta narrativa tem um efeito imediato: ao mesmo tempo que desresponsabiliza Passos Coelho pelas medidas impopulares, funciona como auxiliar externo para uma agenda ideológica que de outro modo seria impossível de aplicar. A ideia que passa é que a culpa é da troika e a austeridade é imposta desde fora. O governo vai fazendo pela vida.
Se acharmos que a publicidade é ao mesmo tempo um bom barómetro e um mecanismo reprodutor do sentimento colectivo, temos vários exemplos que revelam que a ‘troika é quem mais ordena’. Desde a troika que fala à nação a propósito da campanha de um banco, passando por grandes superfícies onde é possível ‘troikar’ vales por serviços, culminando na ‘troika do Benfica’, que se apresenta nas rádios com uma promoção que tem a paradoxal ‘missão de alegrar o nosso Natal’.
O problema é que o memorando com a troika é, também, o que dele quisermos fazer. Pode ser alterado (já o foi diversas vezes), tende a ser utilizado como um instrumento de reforço da legitimidade do governo e funciona como cortina de fumo – permitindo ao executivo realizar o desejo nunca escondido de ir para além da troika, sem ser penalizado. Acontece que os efeitos económicos e sociais desta receita serão tão dramáticos que chegará o momento em que à troika deixará de estar associada boa publicidade. Nessa altura, o governo ficará sem a protecção de que agora tem gozado. Por sua conta e risco, a ilusão de popularidade evaporar-se-á."
a versão integral do meu artigo do Expresso de 23 de Dezembro está aqui.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
A crise veio a calhar
"A crise é uma oportunidade, ouvimos dizer constantemente. É verdade. Esta crise tem sido uma oportunidade para implementar uma agenda ideológica que de outro modo não seria possível concretizar. (...)
E oportunidade é mesmo a expressão adequada. No preciso momento em que a segurança social pública contraía mais responsabilidades, o ministro da tutela regressava à velha proposta de limitar o valor das pensões. Estamos face a um eufemismo para se dizer uma outra coisa – queremos diminuir a base contributiva, logo colocar em causa a sustentabilidade financeira do sistema. É uma ideia que pode bem ser classificada como sendo de criança: a menos que se explique como se financiam os custos de transição, não se vê como é que é possível evoluir de um sistema de repartição, em que os descontos de hoje pagam as pensões de hoje, para um que limita os descontos hoje para limitar o valor das pensões amanhã. Talvez aumentando a dívida pública. O mais provável é que tudo não passe de uma oportunidade histórica para se desmantelar o Estado Social.
A crise veio mesmo a calhar."
a versão integral do meu artigo do Expresso de 16 de Dezembro pode ser lida aqui.
E oportunidade é mesmo a expressão adequada. No preciso momento em que a segurança social pública contraía mais responsabilidades, o ministro da tutela regressava à velha proposta de limitar o valor das pensões. Estamos face a um eufemismo para se dizer uma outra coisa – queremos diminuir a base contributiva, logo colocar em causa a sustentabilidade financeira do sistema. É uma ideia que pode bem ser classificada como sendo de criança: a menos que se explique como se financiam os custos de transição, não se vê como é que é possível evoluir de um sistema de repartição, em que os descontos de hoje pagam as pensões de hoje, para um que limita os descontos hoje para limitar o valor das pensões amanhã. Talvez aumentando a dívida pública. O mais provável é que tudo não passe de uma oportunidade histórica para se desmantelar o Estado Social.
A crise veio mesmo a calhar."
a versão integral do meu artigo do Expresso de 16 de Dezembro pode ser lida aqui.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Listinhas musicais
2011 não foi assim um ano de encher as medidas. Andei a olhar para as listas que fui fazendo noutros anos e estão lá vários discos que ainda me acompanham. Não sei se poderei dizer o mesmo dos deste ano. Pode ser que a música venha a ser uma das poucas coisas de que vamos ter saudades em 2012. Ainda assim, há coisas de que gostei particularmente: canções óptimas em discos não brilhantes (estou a pensar no 'last night at the jetty' do Panda Bear, por exemplo), discos fantásticos de 2010 que só ouvi em 2011 (o Saint Bartlett do Damian Jurado - se ainda procuram um presente de Natal, é este) e remasterizações absolutamente necessárias (à cabeça os álbuns dos Smiths, em particular os primeiros três, que parecem discos novos, com o baixo mais ondulante puxado para a frente e com as guitarras do Marr que deixaram de soar como se estivessem no fundo de uma caixa de sapatos). Já quanto a concertos, a história é outra: 5 meses em Washington deram direito a dezenas de concertos: a energia dos Titus Andronicus; os Strokes que mal acabaram de tocar foram seguidos pelo anúncio da morte de Bin Laden; dose dupla de Mountain Goats; a despedida dos LCD em NY e muitas outras coisas. Acima de todos, um concerto extraordinário do Damian Jurado a abrir para o John Vanderslice e que me deixou marcas indeléveis.
Para o ano, do que se anuncia, não sei o que será, de facto, entusiasmante. Mas uma coisa posso desde já anunciar: para mim, haverá uma mudança tectónica no que toca à música. Quanto a isso, na primeira semana de Janeiro darei notícias
melhor video do ano: Fucked Up - Queen of Hearts
disco que o Axl Rose gostaria de ter feito e não foi capaz de fazer: Girls - Father, Son, Holy Ghost (ainda não tenho opinião definitiva sobre o disco - tem coisas muito boas e uns solos de guitarra cheesy que quase deitam tudo a perder)
canção com 'linha' mais sugestiva do ano: 'I caught you streaking in your Birkenstocks', Stephen Malkmus, Tigers
concerto mais chato do ano: Echo & the Bunnymen no 9:30
melhor disco de 2010 ao qual só dei a devida importância em 2011: Damian Jurado, Saint Bartlett
disco desilusão do ano (um álbum assim bastante para o soporífero): Fleet Foxes, Helplessness Blues
concerto mais inesperado do ano: Damian Jurado na primeira parte de John Vanderslice no Black Cat
concerto do ano: 3 horas e meia a dançar com os LCD Soundsystem no Terminal 5
concerto em solo nacional do ano: Bonnie Prince Billy no Maria Matos
acontecimento musical do ano: remasterização dos Smiths pelas mãos de Sir Johnny Marr
10 discos do ano (por ordem alfabética)
Bonnie “Prince” Billy - Wolfroy Goes to Town
James Blake - James Blake
Bill Callahan - Apocalypse
Bon Iver - Bon Iver
Mountain Goats - All Eternals Deck
Marissa Nadler - Marissa Nadler
St. Vincent - Strange Mercy
The Strange Boys - Live Music
John Vanderslice and the Magik*Magik Orchestra - White Wilderness
The Wave Pictures - Beer in the Breakers
Para o ano, do que se anuncia, não sei o que será, de facto, entusiasmante. Mas uma coisa posso desde já anunciar: para mim, haverá uma mudança tectónica no que toca à música. Quanto a isso, na primeira semana de Janeiro darei notícias
melhor video do ano: Fucked Up - Queen of Hearts
disco que o Axl Rose gostaria de ter feito e não foi capaz de fazer: Girls - Father, Son, Holy Ghost (ainda não tenho opinião definitiva sobre o disco - tem coisas muito boas e uns solos de guitarra cheesy que quase deitam tudo a perder)
canção com 'linha' mais sugestiva do ano: 'I caught you streaking in your Birkenstocks', Stephen Malkmus, Tigers
concerto mais chato do ano: Echo & the Bunnymen no 9:30
melhor disco de 2010 ao qual só dei a devida importância em 2011: Damian Jurado, Saint Bartlett
disco desilusão do ano (um álbum assim bastante para o soporífero): Fleet Foxes, Helplessness Blues
concerto mais inesperado do ano: Damian Jurado na primeira parte de John Vanderslice no Black Cat
concerto do ano: 3 horas e meia a dançar com os LCD Soundsystem no Terminal 5
concerto em solo nacional do ano: Bonnie Prince Billy no Maria Matos
acontecimento musical do ano: remasterização dos Smiths pelas mãos de Sir Johnny Marr
10 discos do ano (por ordem alfabética)
Bonnie “Prince” Billy - Wolfroy Goes to Town
James Blake - James Blake
Bill Callahan - Apocalypse
Bon Iver - Bon Iver
Mountain Goats - All Eternals Deck
Marissa Nadler - Marissa Nadler
St. Vincent - Strange Mercy
The Strange Boys - Live Music
John Vanderslice and the Magik*Magik Orchestra - White Wilderness
The Wave Pictures - Beer in the Breakers
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Um pouco mais de compaixão e de pedagogia
"Quando, numa conferência de imprensa, a ministra italiana do trabalho bloqueou na palavra ‘sacrifícios’ e irrompeu em lágrimas fiquei, a um tempo, perplexo com a fragilidade que não desejo nos políticos perante a adversidade e solidário com alguém incapaz de conter a expressão do seu humanismo. Do mesmo modo que, dias depois, ao ver a mensagem ao país do primeiro-ministro irlandês, após a apresentação do orçamento, não consegui conter a surpresa ao ouvi-lo, dirigindo-se aos irlandeses, dizer com uma clareza quase soletrada, “vocês não são responsáveis”, enquanto explicava a natureza da crise, o papel dos sacrifícios e sugeria um horizonte para o futuro – “recuperar a soberania económica”.
A compaixão que descobrimos no bloqueio emocional da ministra italiana ou a atitude pedagógica do primeiro-ministro irlandês são dois factores que podem fazer diferença perante uma crise da dimensão daquela que enfrentemos. E compaixão e pedagogia são duas coisas que têm faltado ao governo português. (...)"
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lido aqui.
A compaixão que descobrimos no bloqueio emocional da ministra italiana ou a atitude pedagógica do primeiro-ministro irlandês são dois factores que podem fazer diferença perante uma crise da dimensão daquela que enfrentemos. E compaixão e pedagogia são duas coisas que têm faltado ao governo português. (...)"
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lido aqui.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Race to the bottom
Há uma competição feroz para tornar uma das músicas mais tristes e amargas do mundo ainda mais triste. A forma mais eficaz parece ser entregá-la à voz de mulheres muito bonitas. A Marissa Nadler e a Nina Persson levam avanço nesta(s) competição. Ainda assim, fiquei muito impressionado pela forma como o Lloyd Cole cantou esta música, já lá vão muitos anos, na Aula Magna. O youtube é o mais fiel guardião da memória e não nos permite reconstruí-la. Está aí para nos dificultar a vida.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Parabéns, Dr. Mário Soares

“A intuição é uma disciplina que não foi à escola”, disse um dia o escritor brasileiro Millôr Fernandes. A frase não pode deixar de ecoar enquanto se lê a autobiografia que Mário Soares lançou esta semana, “Um Político Assume-se”, que tive o privilégio de apresentar. Nas quinhentas páginas, que cobrem o longo século XX e que chegam até aos nossos dias, apesar de todas as alterações nas circunstâncias, há um aspecto muito constante: um protagonista que se moveu frequentemente por intuições.
Podemos todos já ter discordado de Mário Soares em vários momentos, mas todos lhe reconhecemos uma intuição política rara, uma espécie de ‘astúcia da razão’ que não se aprende. Este elemento intuitivo choca com a ideia hoje prevalecente de que a ação política mais eficaz é baseada na racionalidade informada – através da leitura de sondagens e de ‘focus groups’. Ora, se pensarmos bem, nas grandes opções – quando afrontou o Estado Novo e rompeu com a unidade da oposição; quando defendeu a opção europeia e a democracia liberal contra a deriva totalitária; e, mais recentemente, quando criticou a colonização ideológica da social-democracia – Mário Soares arriscou e teve as intuições certas.
Esta propensão ao risco serve, aliás, para contrariar uma ideia feita em relação a Soares. Ao contrário do que é muitas vezes sugerido, não foi um político que, ao longo da sua vida, interpretou o sentimento da maioria e o procurou representar. O que se passou foi quase sempre o oposto. Não estamos perante alguém que se limitou a gerir silêncios e expectativas, aguardando que as suas posições se tornassem maioritárias. Pelo contrário, o percurso de Soares revela uma interpretação da ação política ao arrepio da visão calculista. Os exemplos em que provocou rupturas e contrariou o ambiente político da época são muitos. Foi essa atitude que lhe permitiu transformar ideias incertas e minoritárias em posições maioritárias e até hegemónicas.
Não por acaso, as suas tomadas de posição causaram muitas vezes incompreensão, mesmo no seu espaço político. Com o passar do tempo, acabaram por se revelar certeiras. Steve Jobs, que tinha uma conhecida desconfiança dos estudos de mercado, disse que “as pessoas não sabem o que querem até tu lhes mostrares”. A asserção, aplicada à política, não poderia ser mais verdadeira. Até porque é essa a função dos líderes: procurar mudar as sondagens, em lugar de as cavalgar, através de uma visão do que as pessoas querem, mesmo antes de estas estarem conscientes das suas ambições políticas.
Há, hoje, uma manifesta impaciência face aos políticos. Julgo que tal não resulta, no essencial, de uma ausência de consciência colectiva dos desafios que enfrentamos. Resulta, em importante medida, da ausência de líderes que sigam as intuições, que arrisquem e se assumam, para além das circunstâncias. Podemos ter discordado de Mário Soares e do seu percurso, mas não podemos negar a notável atualidade da forma como vê a atividade política.
artigo publicado no Expresso do passado Sábado.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Para que serve uma greve?
"(...) Uma greve geral tem um impacto económico directo escasso e a sua função principal é procurar alterar as relações de poder, influenciando o que em Portugal é, de facto, o actor principal – o Governo. Bem sei que a amostra é reduzida, pois entre nós só ocorreram duas greves gerais da CGTP com a UGT (1988 e 2010), mas, em ambos os casos, as greves produziram efeitos: abriram as portas à negociação, obrigaram a cedências, culminando em acordos de concertação.
A grande questão agora é saber de que modo o Governo interpreta a greve. Se opta por prosseguir o caminho de rupturas sociais e económicas, sem alargar a base de apoio político e social, ou se, pelo contrário, procura negociar e concertar interesses. A opção seguida terá, certamente, efeitos económicos e sociais, mas nela jogar-se-á uma questão política decisiva e que poderá mudar o mapa das relações de poder em Portugal.
O radicalismo que move o Governo não augura nada de bom. Mas uma coisa é clara, se o executivo optar por continuar a avançar sozinho provocará, para além do empobrecimento, uma alteração estrutural no sistema de representação de interesses em Portugal. Com consequências imediatas: coloca a UGT nos braços da CGTP e empurra o PS para a rua. No curto prazo, a táctica pode fazer sentido para o Governo, mas revelar-se-á dramática para o país. À ruptura económica e social juntar-se-á a ruptura política."
a versão integral do meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lida aqui.
A grande questão agora é saber de que modo o Governo interpreta a greve. Se opta por prosseguir o caminho de rupturas sociais e económicas, sem alargar a base de apoio político e social, ou se, pelo contrário, procura negociar e concertar interesses. A opção seguida terá, certamente, efeitos económicos e sociais, mas nela jogar-se-á uma questão política decisiva e que poderá mudar o mapa das relações de poder em Portugal.
O radicalismo que move o Governo não augura nada de bom. Mas uma coisa é clara, se o executivo optar por continuar a avançar sozinho provocará, para além do empobrecimento, uma alteração estrutural no sistema de representação de interesses em Portugal. Com consequências imediatas: coloca a UGT nos braços da CGTP e empurra o PS para a rua. No curto prazo, a táctica pode fazer sentido para o Governo, mas revelar-se-á dramática para o país. À ruptura económica e social juntar-se-á a ruptura política."
a versão integral do meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lida aqui.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
ir para além da Merkel
"(...) É assustador descobrir que Passos Coelho está convencido de que é possível solucionar o problema português com ajustamentos austeros não acompanhados por uma intervenção radicalmente diferente do BCE e uma política orçamental expansionista nos países com excedentes na balança de transacções correntes. Prosseguir neste caminho é insistir no pré-anúncio do fim do euro.
Este padrão, aliás, é apenas uma versão extrema do que tem sido a opção política de todas as economias intervencionadas. Primeiro, procura-se a diferenciação face ao vizinho do lado – que, é-nos dito, está numa posição mais complexa (o “nós não somos a Grécia”) –, para, depois, se afirmar que sozinhos somos capazes de enfrentar os problemas. Na verdade, esta estratégia tem sido seguida em toda a periferia, levando ao isolamento dos casos, secundarizando a dimensão partilhada dos problemas e promovendo uma neutralização da posição negocial dos países ‘fracos’. O que sugere que o problema político talvez seja também de incapacidade do sul e não apenas de falta de vontade alemã.
Como propunha esta semana, num artigo no Irish Times, Daragh McDowell, em lugar de aceitarem as soluções que lhes estão a ser impostas, o que os PIIGS deveriam fazer era optar por uma posição negocial conjunta, ameaçando, em último caso, com a utilização da ‘bomba atómica’ ao seu dispor: um default coordenado de todas as economias da periferia. Talvez assim, o eixo Merkozy percebesse o risco sistémico e a impossibilidade política de impor sacrifícios até que os PIIGS passem a competir, pelos baixos salários, com a China e a Índia."
a versão integral do meu artigo do Expresso de 17 de Novembro pode ser lida aqui.
Este padrão, aliás, é apenas uma versão extrema do que tem sido a opção política de todas as economias intervencionadas. Primeiro, procura-se a diferenciação face ao vizinho do lado – que, é-nos dito, está numa posição mais complexa (o “nós não somos a Grécia”) –, para, depois, se afirmar que sozinhos somos capazes de enfrentar os problemas. Na verdade, esta estratégia tem sido seguida em toda a periferia, levando ao isolamento dos casos, secundarizando a dimensão partilhada dos problemas e promovendo uma neutralização da posição negocial dos países ‘fracos’. O que sugere que o problema político talvez seja também de incapacidade do sul e não apenas de falta de vontade alemã.
Como propunha esta semana, num artigo no Irish Times, Daragh McDowell, em lugar de aceitarem as soluções que lhes estão a ser impostas, o que os PIIGS deveriam fazer era optar por uma posição negocial conjunta, ameaçando, em último caso, com a utilização da ‘bomba atómica’ ao seu dispor: um default coordenado de todas as economias da periferia. Talvez assim, o eixo Merkozy percebesse o risco sistémico e a impossibilidade política de impor sacrifícios até que os PIIGS passem a competir, pelos baixos salários, com a China e a Índia."
a versão integral do meu artigo do Expresso de 17 de Novembro pode ser lida aqui.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Aimar com sabor a Aimar

Quando há três anos e meio o Rui Costa foi a Saragoça oferecer a sua camisola 10 ao Pablo Aimar sabia o que estava a fazer. Jogar a 10 não é só jogar a 10 e a mística não se conquista apenas nos escalões jovens dos clube. Há mais mística em meia perna do Aimar ou num corte limpo do Ricardo ou num passe adocicado do Valdo do que em carradas de portugueses esforçados. Ontem, no fim daquele empate amargo, vi a imagem que marcou o meu jogo. Partida terminada, rápido flash das câmaras pelo relvado e o Aimar, já de fato treino, barba desleixada a dar uma lição de masculinidade aos CR da vida, sorri de língua de fora. Naquele sorriso encontrei todos os miúdos que subiram fim-de-semana após fim-de-semana o 3º anel para verem o Glorioso. O Aimar naquele momento éramos todos nós. Mas, depois, na flash interview, o nosso 10 explicaria tudo. “empate com sabor a vitória”, questiona o jornalista, mobilizando todos os vícios da profissão, para logo Aimar responder com calma irónica, “não, empate com sabor a empate”.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
I swam out to greet you
Os The Wave Pictures são dos mais conseguidos repositórios da música alternativa britânica das últimas duas décadas. Tresandam as guitarras do Johnny Marr, o ambiente DIY dos Hefner, a voz que faz lembrar os extraordinários The Band of Holy Joy e músicas que encontram inspiração nos primeiros anos londrinos dos Go-Betweens. É difícil não se gostar de uma banda que toca as coisas que ouvimos. Mas torna-se muito mais fácil quando, por cima do bom gosto, estão as canções facilmente trauteáveis e que não nos largam. O último, 'beer in the breakers', vai estar no topo da lista dos melhores de 2011.
coisas mais antigas
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Um tecnocrata em cada esquina
"(...) Pensar que vai ser possível resolver os problemas europeus penalizando moral e materialmente os cidadãos, libertando os executivos do controlo democrático e afastando os cidadãos do processo de decisão é uma ilusão, além do mais, muito perigosa. Um tecnocrata em cada governo é, no fundo, uma visão suavizada da pulsão autoritária que está sempre à espreita, ao virar da esquina."
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lido aqui.
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lido aqui.
terça-feira, 15 de novembro de 2011
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
O inferno é o euro
"“Vós que aqui entrais, abandonai toda a esperança”. A frase com que Dante nos recebe no Inferno é uma metáfora exacta para a zona euro. Um projecto político moribundo, que amarrou os países da periferia a uma escalada de austeridade, enquanto se mostra relutante em reconhecer a natureza sistémica da crise e avançar para uma solução que reveja as fundações institucionais em que assenta. Uma vez mais, após uma cimeira que resolveria todos os problemas, bastou esperar um par de dias para o mundo voltar a mudar. Primeiro com o efeito de contágio a chegar a Itália, com réplicas a atingir França e, depois, com o precipitar da crise política grega.
Se é verdade que o anúncio do referendo grego veio baralhar as contas ou, nas palavras da senhora Merkel, “alterou profundamente a situação psicológica”, no essencial serviu para mostrar que a crise da dívida soberana é uma verdadeira arma de destruição maciça. Está a destruir, como se fossem peças de um jogo de dominó, as economias europeias e está a destruir, um a um, governos nacionais, sem escolher cor política. (...)"
o resto do meu artigo do Expresso de 5 de Novembro pode ser lido aqui.
Se é verdade que o anúncio do referendo grego veio baralhar as contas ou, nas palavras da senhora Merkel, “alterou profundamente a situação psicológica”, no essencial serviu para mostrar que a crise da dívida soberana é uma verdadeira arma de destruição maciça. Está a destruir, como se fossem peças de um jogo de dominó, as economias europeias e está a destruir, um a um, governos nacionais, sem escolher cor política. (...)"
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quarta-feira, 9 de novembro de 2011
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
será que eles sabem o que faço ao fim-de-semana?
hoje recebi um sms simpático da tmn a informar-me que haviam melhorado a rede em alagoachos. fico contente, alagoachos fica mesmo ao lado do lugar onde passo muitos fim-de-semana e grande parte das férias. nunca havia dado por falta de rede por aqueles lados (o que, já agora, não acontece na faculdade onde dou aulas). pouco importa. mas, como imagino que nem todos os assinantes da tmn receberam este sms, fiquei preocupado. qual a razão para me enviarem a mim este sms? só vejo uma: a tmn sabe o que faço e segue os meus passos. sinceramente, preferia bem ter pouca rede do que ter, através do meu telemóvel, um dispositivo de espionagem.
Viver abaixo das possibilidades
"(...) A lógica perversa de compressão salarial na função pública vai produzir efeitos nefastos. Para além da desmotivação, os incentivos para a saída dos mais qualificados são tantos que a capacidade da administração para defender o interesse público ficará ainda mais fragilizada e a degradação progressiva dos serviços será inevitável. Não por acaso, esta semana já pairou a ameaça de uma debandada geral de médicos que estão em exclusividade no SNS.
Esta reforma do Estado irracional e feita ad hoc esconde objectivos políticos. Por um lado, é-nos dito que a via para a competitividade do país passa pelo empobrecimento generalizado na função pública; por outro, é recuperado, com trinta anos de atraso e particular intensidade, um conjunto de ideias muito populares nos meios académicos sobre as ‘falhas de Estado’ e a forma como os funcionários de topo, em última análise, se apropriam dos recursos públicos, promovendo uma lógica despesista extravagante. Só isso pode explicar a ambição de desmantelar os serviços públicos que está na base da acção deste Governo. Que Portugal tenha sido escolhido para laboratório de um radicalismo académico anquilosado é, se nada mais, assustador."
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada está aqui.
Esta reforma do Estado irracional e feita ad hoc esconde objectivos políticos. Por um lado, é-nos dito que a via para a competitividade do país passa pelo empobrecimento generalizado na função pública; por outro, é recuperado, com trinta anos de atraso e particular intensidade, um conjunto de ideias muito populares nos meios académicos sobre as ‘falhas de Estado’ e a forma como os funcionários de topo, em última análise, se apropriam dos recursos públicos, promovendo uma lógica despesista extravagante. Só isso pode explicar a ambição de desmantelar os serviços públicos que está na base da acção deste Governo. Que Portugal tenha sido escolhido para laboratório de um radicalismo académico anquilosado é, se nada mais, assustador."
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada está aqui.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Mais vale tarde do que nunca
"(...) a opção de Vítor Gaspar é intensificar a estratégia seguida até aqui, com um optimismo cego em relação aos efeitos recessivos dos cortes. Acontece que o orçamento para 2011 não era exequível, do mesmo modo que o memorando assenta em pressupostos errados e este orçamento só agrava estes problemas. O que nos traz de novo a Cavaco Silva. O Presidente tem inteira razão, mas ainda não extraiu um corolário lógico do seu discurso. Um político realista estaria a lutar pela reavaliação do memorando e a renegociar os prazos da sua aplicação. Todas as alternativas a esta opção assentam num voluntarismo ideológico contraproducente. Agora, o governo ainda pode responsabilizar Sócrates, daqui a um ano estará na mesmo lugar, mas em pior situação orçamental e sem poder recorrer ao bode expiatório que agora está mesmo à mão de semear. Já em Portugal, estaremos mais pobres e sem termos resolvido o problema da dívida e do défice."
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lido aqui.
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terça-feira, 25 de outubro de 2011
Um concerto em apneia

Lembro-me bem do meu primeiro contacto com o Bonnie Prince Billy. Por uma recomendação na Contraverso – ainda do tempo em que os discos eram comprados e recomendados em discotecas – comprei o primeiro dos Palace Brothers, já lá vão uns vinte anos. O disco era sujo, fragmentado, arrastado em alguns instantes, mas tinha também momentos cheios de luz, acima de todos um notável ‘king me’ (“I can't hear it play fast no more” era uma espécie de mantra para o slow-core que então conquistava espaço). Não aderi logo, longe disso. Mas foi há vinte anos e o Bonnie Prince Billy de hoje (na verdade o de ontem no Maria Matos) está suficientemente distante do de há duas décadas. O que se viu ontem foi um cantor rendido a uma placidez country, com arranjos limpos, emparelhados por harmonias vocais femininas, que só em breves fogachos regressa às canções por construir do passado. A este propósito, o percurso de Bonnie Prince Billy é uma espécie de reverso do de Tom Waits: enquanto o último se foi afastando das canções, fechando-se num ensimesmamento que tem tanto de genial como de claustrofóbico e desconfortável, Will Oldham foi encontrando progressivamente nas canções depuradas o seu espaço. Ontem, enquanto tocava várias músicas do novo Wolfroy Goes to Town (um óptimo disco e provavelmente o mais coerente entre os últimos, mas que ao vivo já é muito diferente da versão de estúdio que acabou de sair), revelava-se um cantor cada vez mais canónico, perfeitamente integrado no cancioneiro norte-americano. Mas, depois, por breves instantes, regressava uma tensão dramática e desintegradora, à qual não escapava quase nenhuma canção. Em pouco mais de duas horas, viveu-se sempre o conflito entre, por um lado, os espaços abertos pela tranquilidade das canções conservadores e, por outro, o fechamento e a negritude que espreitavam quando se descobriam as guitarras a puxar para o lado errado e a destruir as canções que se queriam revelar destiladas. Não foi sempre assim, mas houve longos períodos em que foi necessário suster a respiração para seguir a música do princípio até ao fim. “You want that picture”, “another day full of dread” e “after I made love to me” foram exercícios de apneia que vão deixar marcas em quem esteve ontem no Maria Matos. Não é muito difícil identificar um génio.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Por favor, apoiem-nos
"A notícia é do final da semana passada e a indiferença com que foi recebida é um sintoma grave da passividade reinante. Em comunicado, o gabinete do primeiro-ministro anunciou, deixando transpirar um tom de satisfação, a criação de um “grupo de apoio a Portugal” com vista a “assessorar o executivo português na agilização dos fundos comunitários”. No mesmo comunicado ficámos a saber que a equipa teria cinco pessoas em permanência em Lisboa a trabalhar junto do Ministério das Finanças e da Esame (a estrutura que acompanha a implementação do memorando), coordenadas desde Bruxelas.
No fundo, depois da perda de soberania com o memorando de entendimento, o governo acaba de assumir a falência técnico-administrativa do Estado. O que nos é dito é que há uma equipa de peritos estrangeiros que vem fazer agora o que fomos capazes de fazer durante décadas: programar, gerir e implementar fundos comunitários. Que isto seja requerido pelo governo e aceite silenciosamente por todos é revelador do pouco respeito que temos pela nossa própria soberania. Pelos vistos, a nossa administração pública perdeu as suas capacidades e ninguém o fez notar.(...)"
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada está aqui.
No fundo, depois da perda de soberania com o memorando de entendimento, o governo acaba de assumir a falência técnico-administrativa do Estado. O que nos é dito é que há uma equipa de peritos estrangeiros que vem fazer agora o que fomos capazes de fazer durante décadas: programar, gerir e implementar fundos comunitários. Que isto seja requerido pelo governo e aceite silenciosamente por todos é revelador do pouco respeito que temos pela nossa própria soberania. Pelos vistos, a nossa administração pública perdeu as suas capacidades e ninguém o fez notar.(...)"
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada está aqui.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
only the truth and nothing but the truth

"Morrissey is as arrogant as they come! Even to this day, he thinks we're all beneath him. And Johnny Marr believed he was the best because he is the best."
Noel Gallagher dixit
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Afundar o Estado
"O papel estratégico do Estado precisa de ser repensado. É uma evidência que salta aos olhos de qualquer um – por força do défice de sustentabilidade financeira, por alterações profundas do contexto para o qual foram pensadas muitas das políticas públicas e, não menos importante, por existirem demasiados casos de péssima gestão, nomeadamente no sector empresarial do Estado. Mas uma coisa é contrariar o imobilismo dos que fingem que tudo vai bem, outra, bem diferente, é aproveitar o actual contexto para inviabilizar a reabilitação do Estado. Infelizmente, são demasiados os exemplos em que se evita repensar as funções do Estado, optando por deslegitimar a sua acção, fazendo com que ele não aja de boa fé. É um caminho soez para concretizar o projecto ideológico de um Estado mínimo. Há muitos exemplos deste tipo de actuação. (...)"
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada está aqui.
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada está aqui.
sábado, 15 de outubro de 2011
Já somos a Grécia
Até há dias, a estratégia do governo passava por diferenciar Portugal da Grécia. Paradoxalmente, para evitar sermos vistos como a Grécia, a solução agora proposta é a mesma que levou ao descalabro económico e social que se vive nas ruas de Atenas. O fim dos subsídios de férias e de Natal, a somar a todos os outros cortes salariais e aumentos de impostos, terá inevitavelmente duas consequências: o colapso da procura interna e uma recessão ainda mais profunda do que o previsto. Entrámos definitivamente numa espiral recessiva que nos deixa apenas uma garantia – ao fundo do túnel, encontraremos um túnel ainda mais longo e escuro. Com o que se anuncia para o Orçamento de 2012, Portugal passou a ser a Grécia.
O primeiro-ministro justificou os cortes bem para além da Troika com base num conjunto de surpresas que terá encontrado. Nenhum dos documentos de execução orçamental conhecidos dá cobertura às afirmações de Passos Coelho. O único desvio conhecido resulta da Madeira, do BPN e da degradação da receita fiscal, fruto da austeridade adicional. Até prova em contrário, o elemento de surpresa é o conjunto de mitos em que assentou a campanha eleitoral do PSD. Recuperar as justificações de Passos Coelho para chumbar o PECIV é penoso e fragiliza hoje a capacidade política do primeiro-ministro. Da austeridade que era excessiva passámos, como por arte mágica, para uma austeridade necessária. Para quem se alcandorou na verdade, estamos falados.
A receita que nos é oferecida é um caminho para o desastre e assenta num voluntarismo que recupera o pior dos amanhãs que cantam. Não é possível vislumbrar nenhum círculo virtuoso nesta solução: as receitas do Estado só poderão retrair-se, o défice e a dívida tenderão a crescer em % do PIB, a economia colapsará e as famílias ficarão bem mais pobres, com o desemprego a disparar para valores que não encontram paralelo na sociedade portuguesa das últimas décadas. Tudo em nome de uma austeridade expansionista que não passa de uma ambição ideológica, desprovida de sustentação empírica – particularmente num contexto de crise económica que nos deixa dependentes de exportações que nunca poderão compensar todas as outras perdas.
comentário ao que se conhece do Orçamento para 2012, publicado hoje no Expresso.
O primeiro-ministro justificou os cortes bem para além da Troika com base num conjunto de surpresas que terá encontrado. Nenhum dos documentos de execução orçamental conhecidos dá cobertura às afirmações de Passos Coelho. O único desvio conhecido resulta da Madeira, do BPN e da degradação da receita fiscal, fruto da austeridade adicional. Até prova em contrário, o elemento de surpresa é o conjunto de mitos em que assentou a campanha eleitoral do PSD. Recuperar as justificações de Passos Coelho para chumbar o PECIV é penoso e fragiliza hoje a capacidade política do primeiro-ministro. Da austeridade que era excessiva passámos, como por arte mágica, para uma austeridade necessária. Para quem se alcandorou na verdade, estamos falados.
A receita que nos é oferecida é um caminho para o desastre e assenta num voluntarismo que recupera o pior dos amanhãs que cantam. Não é possível vislumbrar nenhum círculo virtuoso nesta solução: as receitas do Estado só poderão retrair-se, o défice e a dívida tenderão a crescer em % do PIB, a economia colapsará e as famílias ficarão bem mais pobres, com o desemprego a disparar para valores que não encontram paralelo na sociedade portuguesa das últimas décadas. Tudo em nome de uma austeridade expansionista que não passa de uma ambição ideológica, desprovida de sustentação empírica – particularmente num contexto de crise económica que nos deixa dependentes de exportações que nunca poderão compensar todas as outras perdas.
comentário ao que se conhece do Orçamento para 2012, publicado hoje no Expresso.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Por agora abstenho-me, amanhã já não o farei
Ainda estou a tentar refazer-me do choque, pelo que comentários sobre o orçamento ficam para amanhã às 22 horas na SIC-n, Sábado no Expresso ao pequeno-almoço e às 11 horas da manhã na TSF.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Christa Päffgen (aka Nico)

Nenhuma Lana del Rey alguma vez será capaz de inspirar algo que se assemelhe a isto.
Desde a Jessica Rabbit que não se via nada assim
Quando há um mês ou assim pela primeira vez ouvi e vi (as duas coisas aconteceram necessariamente em simultâneo) a Lana del Rey, tive a reacção que todos devem ter tido. Fiquei suspenso pela entrada da música, pela voz e aspecto da rapariga e pela sequência de imagens que, enquanto sugeriam elementos de modernidade (o skater que cai), remetiam - se nada mais cromaticamente - para um passado mitificado de festas, glamour e mulheres bonitas (que provavelmente nunca existiu nos termos que são sugeridos). O problema vinha logo depois (ainda a música ia a meio): tudo aquilo é tão construído (desde logo a boca da rapariga) que rapidamente assume um lado de caricatura. Esta semana, a Lana del Rey reapareceu, em versão musicalmente despida, no Jools Holland. E a sensação que fica é a mesma: um entusiasmo inicial que logo se desvanece. A ideia é de facto boa, mas temo bem que não chegue com a força necessária ao disco e à carreira que se deveria seguir. A fatalidade sustentável precisa de uma certa dose de autenticidade. A que falta à Lana e que, por exemplo, a Margo Timmins e a Cat Power têm. No fundo, não tem a autenticidade fatal que tinha a Nico quem quer.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
o que tenho andado a ler
- e se as inclinações políticas individuais forem explicáveis pelas ciências neurológicas? Andrea Kuszewski deixa algumas pistas (em todo o caso, continuo convencido da validade da hipótese de Woody Allen em 'everyone says I love you') .
- como é que a Grécia pode escapar ao euro? No NY Times, Floyd Norris descreve os vários cenários.
- E Bonnie Prince Billy deu uma única entrevista a propósito do novo 'wolfroy goes to town' (um óptimo disco que passará por lisboa daqui a umas semanas). a entrevista abre com a justificação que eu procurava para o facto de ouvir música em permanência (It keeps the voices quiet in the head).
- Richard Prince escreve sobre o pintor Bob Dylan, a propósito de uma exposição recente ("the reclining figure in a painting of his called Opium looks that way because there’s a limitation in Dylan’s ability to draw and paint the figure. And that’s why it’s good. He doesn’t try to hide what’s limited and instead uses that limitation to try to make it his own, to try to make it look different and new. Remember that Dylan once said he could sing as well as Caruso.").
- como é que a Grécia pode escapar ao euro? No NY Times, Floyd Norris descreve os vários cenários.
- E Bonnie Prince Billy deu uma única entrevista a propósito do novo 'wolfroy goes to town' (um óptimo disco que passará por lisboa daqui a umas semanas). a entrevista abre com a justificação que eu procurava para o facto de ouvir música em permanência (It keeps the voices quiet in the head).
- Richard Prince escreve sobre o pintor Bob Dylan, a propósito de uma exposição recente ("the reclining figure in a painting of his called Opium looks that way because there’s a limitation in Dylan’s ability to draw and paint the figure. And that’s why it’s good. He doesn’t try to hide what’s limited and instead uses that limitation to try to make it his own, to try to make it look different and new. Remember that Dylan once said he could sing as well as Caruso.").
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Eu tenho um sonho: a recessão
"(...) Numa entrevista posterior à Forbes, Rastani confessou-se estupefacto com as ondas de choque da sua aparição televisiva – “eu estava convencido de que toda a gente tinha presente este tipo de coisas”. Pelos vistos, não. Até porque é difícil encontrar três minutos e meio tão eficazes na demonstração de que os mercados são agentes racionais (procuram maximizar as oportunidades de lucro) mas que da soma das suas acções não resulta nenhuma racionalidade (a natureza sistémica da crise) e de que a actos individuais racionais não correspondem necessariamente comportamentos movidos pela ética."
o meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lido aqui.
o meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lido aqui.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
um parágrafo que vale bem um Nobel
MADRIGAL
Herdei uma floresta obscura, onde raramente vou. Porém, há-de chegar o dia em que os mortos e os vivos trocam os seus lugares. Então, a floresta põe-se em movimento. Nós não existimos sem esperança. Os maiores crimes ficam por esclarecer, apesar da mobilização de tantos polícias. Da mesma maneira, há algures, na nossa vida, um grande amor que fica por esclarecer.
Herdei uma floresta obscura, porém, hoje vou à outra floresta, que é clara. Tudo está vivo, tudo canta, serpenteia, abana e rasteja. É Primavera , o ar é robusto. Fiz os meus exames na universidade do esquecimento, tenho as mãos vazias como uma camisa num cordão de estender roupa.
[versão de Luís Costa, descoberta no blog do Zé Mário]
Herdei uma floresta obscura, onde raramente vou. Porém, há-de chegar o dia em que os mortos e os vivos trocam os seus lugares. Então, a floresta põe-se em movimento. Nós não existimos sem esperança. Os maiores crimes ficam por esclarecer, apesar da mobilização de tantos polícias. Da mesma maneira, há algures, na nossa vida, um grande amor que fica por esclarecer.
Herdei uma floresta obscura, porém, hoje vou à outra floresta, que é clara. Tudo está vivo, tudo canta, serpenteia, abana e rasteja. É Primavera , o ar é robusto. Fiz os meus exames na universidade do esquecimento, tenho as mãos vazias como uma camisa num cordão de estender roupa.
[versão de Luís Costa, descoberta no blog do Zé Mário]
Custa-me muito tirar o Morrissey daqui
mas recomendo vivamente a audição desta entrevista do Pedro Silva Pereira. Em particular a parte sobre a Madeira (bem como as restantes).
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
o que tenho andado a ler
- Tim Parks descreve a tarefa hercúlea e também absurda que é escolher o Nobel da literatura. Provavelmente, atribuir o prémio a um poeta sueco é a escolha mais racional para os membros da academia.
- uma exaustiva reflexão de Bill Wyman em torno do documentário de Martin Scorcese sobre George Harrison, que estreia por estes dias na HBO.
- Um notável artigo de George Soros no NY Review of Books, na primeira parte, uma excelente descrição da crise da zona euro e, a terminar, uma saída possível, assente na recapitalização da banca, na protecção de todos os depósitos em euros (mesmo nos países em que o default é uma possibilidade real - Soros não coloca de fora essa possibilidade para Portugal) e na necessidade imperiosa de passar a supervisão bancária para a esfera europeia (e pelo caminho, Passos Coelho já pode levar para casa uma medalha: aparece numa foto no NYRB).
- No Washington Post, John Kornblum (ex-embaixador norte-americano na Alemanha) mostra, mais uma vez, que quem olha para a Europa desde os Estados Unidos tem hoje mais lucidez do que a ortodoxia europeia. O título é sugestivo: "Without the euro, would Europe have turned to war?"
- uma exaustiva reflexão de Bill Wyman em torno do documentário de Martin Scorcese sobre George Harrison, que estreia por estes dias na HBO.
- Um notável artigo de George Soros no NY Review of Books, na primeira parte, uma excelente descrição da crise da zona euro e, a terminar, uma saída possível, assente na recapitalização da banca, na protecção de todos os depósitos em euros (mesmo nos países em que o default é uma possibilidade real - Soros não coloca de fora essa possibilidade para Portugal) e na necessidade imperiosa de passar a supervisão bancária para a esfera europeia (e pelo caminho, Passos Coelho já pode levar para casa uma medalha: aparece numa foto no NYRB).
- No Washington Post, John Kornblum (ex-embaixador norte-americano na Alemanha) mostra, mais uma vez, que quem olha para a Europa desde os Estados Unidos tem hoje mais lucidez do que a ortodoxia europeia. O título é sugestivo: "Without the euro, would Europe have turned to war?"
Ele era o meu amigo de todos os dias

O meu trabalho é profundamente solitário. Já lá vão bastantes anos desde que comecei a trabalhar em casa. Estou mesmo convencido que já não serei capaz de trabalhar de outro modo. Adiante. Acontece que, ao longo destes anos, houve alguém que esteve presente todos os dias e em todos os momentos: o Steve Jobs. Trabalho num Mac – que me ensinou a utilizar o computador de outro modo -, ouço música no iTunes, em playlists aleatórias, seleccionadas entre as 10599 canções que neste momento tenho no disco externo, e nos transportes públicos não dispenso o Ipod – para mim a melhor invenção desde que o Jack O’Neill inventou os fatos de neoprene -, de há meses para cá, tornei-me dependente do iPad, onde pela primeira vez leio jornais e revistas como se os estivesse a ler no papel. O Steve Jobs reinventou a minha forma de escrever, de ler e de ouvir música. Muito provavelmente, sem ele eu não tinha conseguido habituar-me tão facilmente a trabalhar sozinho. Também por causa dele, sei que dificilmente voltarei a não trabalhar sozinho.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Nas costas do povo, mas na antena da TSF
Alberto João Jardim relacionou os ataques à Madeira com um acordo de Bloco Central feito nas costas do Povo. À boleia de Jardim, aproveito para anunciar que o Bloco Central, onde eu e o Pedro Marques Lopes nos juntamos, moderados pelo Paulo Tavares, regressou à TSF, com novo horário - ao Sábado, às 11 da manhã, com repetição à meia-noite. A última edição pode ser escutada aqui.
Coisas que, ainda assim, me dão alguma esperança

Se até a justiça italiana é capaz de fazer um mea culpa, quem sabe a portuguesa, também neste aspecto, não seguirá, um dia, na sua esteira.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
custa a perceber
"Custa muito a perceber a razão por que os candidatos a primeiro-ministro se empenham em fragilizar as condições em que mais tarde vão exercer o cargo. Infelizmente, nunca saberemos se o fazem movidos por puro eleitoralismo ou se se trata apenas de impreparação."
a versão integral do meu artigo do Expresso da semana passada está aqui.
a versão integral do meu artigo do Expresso da semana passada está aqui.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
terça-feira, 27 de setembro de 2011
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Dívida e castigo
"A história está repleta de eventos estruturais desencadeados por acontecimentos secundários. A da Europa não é exceção. Quando o jovem Gavrilo Princip disparou sobre o arquiduque Francisco Fernando, poucos antecipariam o início de uma ‘era de catástrofe’ que duraria três longas décadas. Há atos que têm o condão de revelar todas as tensões de um momento e com isso colocam a história em movimento. Por vezes para o bem, na maior parte das vezes para o mal.
As declarações do Comissário europeu Guenther Oettinger, afirmando que “as bandeiras dos pecadores da dívida deveriam ser colocadas a meia haste”, podem bem ser um destes eventos. O que o Comissário fez foi dar voz ao pensamento dominante na Alemanha: a crise do euro deve ser lida à luz de um conto moral em que o descontrolo das dívidas soberanas se resolve com atos punitivos. A narrativa é apelativa, os governos endividaram-se excessivamente, têm de pagar um preço e a austeridade é a única resposta. Fica sugerida a necessidade de uma punição moral para responder a uma década de desvario hedonista.
Perante o poder avassalador deste conto moral, os países “pecadores” têm optado por apontar o dedo ao vizinho do lado, convencidos que assim expiam o crime e aliviam o castigo. “Nós não somos a Grécia” é um mantra que tem sido usado à exaustão, procurando criar a ilusão de que não nos acontecerá o que foi acontecendo à Grécia no último ano e meio. Ora de cada vez que os países da periferia da zona Euro se procuram distanciar da Grécia estão, de facto, a colocar as suas bandeiras a meia-haste (...)"
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lido aqui.
As declarações do Comissário europeu Guenther Oettinger, afirmando que “as bandeiras dos pecadores da dívida deveriam ser colocadas a meia haste”, podem bem ser um destes eventos. O que o Comissário fez foi dar voz ao pensamento dominante na Alemanha: a crise do euro deve ser lida à luz de um conto moral em que o descontrolo das dívidas soberanas se resolve com atos punitivos. A narrativa é apelativa, os governos endividaram-se excessivamente, têm de pagar um preço e a austeridade é a única resposta. Fica sugerida a necessidade de uma punição moral para responder a uma década de desvario hedonista.
Perante o poder avassalador deste conto moral, os países “pecadores” têm optado por apontar o dedo ao vizinho do lado, convencidos que assim expiam o crime e aliviam o castigo. “Nós não somos a Grécia” é um mantra que tem sido usado à exaustão, procurando criar a ilusão de que não nos acontecerá o que foi acontecendo à Grécia no último ano e meio. Ora de cada vez que os países da periferia da zona Euro se procuram distanciar da Grécia estão, de facto, a colocar as suas bandeiras a meia-haste (...)"
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lido aqui.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Uma monumental dose de lata
Não deixa de ter a sua ironia assistir a um ex-vereador da Câmara de Mafra a papaguear uma colagem de citações de artigos meus no plenário da Assembleia da República, sem sequer se dar ao trabalho de citar e chegando mesmo a afirmar, a determinada altura, que algumas das opiniões eram dele. Como quem faz surf sabe, foi preciso Peniche para haver Ericeira e a câmara de Mafra sempre se esteve literalmente borrifando para o potencial do surf para o concelho. Com protagonistas destes e colocada a questão deste modo, o surf prestou-se ao ridículo.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Estávamos empatados com a Grécia e agora fugimos
Lidas estas declarações de Miguel Relvas fico com a dúvida se estamos perante um exercício de novilíngua ou apenas face a um gerador automático de palavras que aparentam soar bem. Em todo o caso, remetendo as declarações para a Grécia, não há dúvida de que se trata de um caso evidente de Húbris. Como ensina a história, atitudes destas tendem a ser devidamente castigadas pelos deuses, numa Nêmesis que terá contornos de tragédia. Infelizmente, mais para nós todos do que para este personagem de ópera-bufa.
"I sit at my table and wage war on myself"
Os REM acabaram ontem. Uma notícia que chegou com uns dezasseis anos de atraso. Os REM acabaram para mim com o Monster, tendo o funeral decorrido num concerto para esquecer no Pavilhão Atlântico, não sei bem quando. Tudo o que ouvi deles nos últimos tempos foi penoso, o que é estranho. Tenho, na minha relação com eles, um conjunto de memórias afectivas que deviam ter feito com que os meus níveis de tolerância à banda fossem bem superiores. Lembro-me como se fosse hoje de um dia, algures em 1987/88, ter chegado a casa com os vinis todos dos REM, que me haviam emprestado, e ter durante uns quantos dias gravado tudo para K7 e, não menos importante, de ter feito uma compilação longa das melhores músicas. Quando o Green chegou, eu estava devidamente preparado. A capa do LP da Manuela Paraíso, com o Stipe, acabou por resistir algum tempo afixada nas paredes do meu quarto (não sei aliás se não foi um dos primeiros números do jornal). Durante uns tempos, o Green e depois o Out of Time foram a alternativa solar às músicas que então me dominavam. Tudo isto porque me lembrei que de todas as bandas que ouvi muito por essa altura, os REM são a única que nunca tenho vontade de voltar a ouvir. Hoje vou abrir uma excepção.
afinal, por exemplo estas duas músicas continuam a ser do caraças.
adenda: o Ricardo conhece alguém (além de mim) que escolheria a mesma música. No entanto, a versão que ele encontrou é bem melhor do que esta que está aqui. Pelo menos é mais próxima de como ela era quando primeiro a ouvi. Vale a pena ir vê-la.
afinal, por exemplo estas duas músicas continuam a ser do caraças.
adenda: o Ricardo conhece alguém (além de mim) que escolheria a mesma música. No entanto, a versão que ele encontrou é bem melhor do que esta que está aqui. Pelo menos é mais próxima de como ela era quando primeiro a ouvi. Vale a pena ir vê-la.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
O que tenho andado a ler
- A lista das quinze melhores ideias do ano para a Atlantic;
- um brinquedo muito útil, que serve para colocar cada país em perspectiva.
- Brian Eno, um optimista incansável, dá-nos, através do "sonema", mais um exemplo do seu experimentalismo.
- Jon Stewart reconhece na Rolling Stone que o Daily Show, tal como a Fox News, é um produto da insatisfação.
- ainda sobre a "batalha da mãe-tigre" (o livro de Amy Chua que é um best-seller, pelo menos em polémica nos EUA), um artigo que reflecte sobre a rejeição do "facilitismo" na educação dos filhos.
- e dois artigos bem pessimistas sobre o futuro da Europa. Um de Roubini e outro de Bret Stephens.
- um brinquedo muito útil, que serve para colocar cada país em perspectiva.
- Brian Eno, um optimista incansável, dá-nos, através do "sonema", mais um exemplo do seu experimentalismo.
- Jon Stewart reconhece na Rolling Stone que o Daily Show, tal como a Fox News, é um produto da insatisfação.
- ainda sobre a "batalha da mãe-tigre" (o livro de Amy Chua que é um best-seller, pelo menos em polémica nos EUA), um artigo que reflecte sobre a rejeição do "facilitismo" na educação dos filhos.
- e dois artigos bem pessimistas sobre o futuro da Europa. Um de Roubini e outro de Bret Stephens.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
E Deus criou Nova Iorque
e eventualmente também as miúdas frescas (talvez excessivamente frescas) e a música cheesy (talvez excessivamente cheesy).
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
As tentações do PS
"(...) A combinação de voluntarismo ideológico com a convicção de que a austeridade pode ser expansionista tem empurrado o governo para além da troika. Este contexto cria uma oportunidade: o PS tornar-se no guardião do memorando de entendimento. É evidente que os socialistas não podem, agora, estar na oposição como se não tivessem estado no poder, mas, também, não podem cavar uma trincheira em torno da defesa das propostas da troika. O exercício é difícil, mas seria um erro manter uma atitude defensiva, abdicando da iniciativa, ainda para mais em torno de opções programáticas que violentam o património programático do centro-esquerda.
Ter vida para além da troika implica que o PS recupere a inclinação reformista e não ceda ao conservadorismo da defesa do status quo ou, pior, que descambe para a mitificação de um passado inexistente (seja no Serviço Nacional de Saúde ou na regulação do mercado de trabalho). Não se deve contrapor à narrativa liberal que Passos Coelho utilizou, uma outra, com as mesmas características formais. O mais certo seria essa tentação descambar no mesmo exercício pueril em que resultou o liberalismo de blogosfera do primeiro-ministro.
Desde logo, é necessário saber resistir aos temas populares (à cabeça, a demagogia em torno do combate à corrupção, que empurrará os partidos para um beco sem saída), mas, também, aos que têm a ver com o sistema político (das leis eleitorais ao voto dos deputados, passando pela obsessão rotativista com nomeações de boys). Centrar a iniciativa nos temas económicos e sociais é exigente e implica romper com o vício da politiquice, uma herança do processo formativo nas juventudes partidárias.(...)"
o resto do meu artigo do Expresso de 10 de Setembro pode ser lido aqui.
Ter vida para além da troika implica que o PS recupere a inclinação reformista e não ceda ao conservadorismo da defesa do status quo ou, pior, que descambe para a mitificação de um passado inexistente (seja no Serviço Nacional de Saúde ou na regulação do mercado de trabalho). Não se deve contrapor à narrativa liberal que Passos Coelho utilizou, uma outra, com as mesmas características formais. O mais certo seria essa tentação descambar no mesmo exercício pueril em que resultou o liberalismo de blogosfera do primeiro-ministro.
Desde logo, é necessário saber resistir aos temas populares (à cabeça, a demagogia em torno do combate à corrupção, que empurrará os partidos para um beco sem saída), mas, também, aos que têm a ver com o sistema político (das leis eleitorais ao voto dos deputados, passando pela obsessão rotativista com nomeações de boys). Centrar a iniciativa nos temas económicos e sociais é exigente e implica romper com o vício da politiquice, uma herança do processo formativo nas juventudes partidárias.(...)"
o resto do meu artigo do Expresso de 10 de Setembro pode ser lido aqui.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
O Sócrates expiatório
Foi, de facto, muito importante termo-nos visto livres de José Sócrates. De repente, em lugar de gorduras do Estado e de moralismo masoquista, passámos a ter um debate normalizado no espaço público sobre a crise e a Europa. Com Sócrates, quem arriscasse afirmar duas ou três coisas simples e insofismáveis sobre o que se está a passar na Europa e em Portugal era tratado como um delinquente mental. Não por acaso, o espaço público estava inundado de mentes sofisticadas. As mesmas que entretanto ou deixaram de aparecer ou balbuciam um raciocínio errático e escassamente coerente.
(lembrei-me disto ao assistir ao expresso da meia-noite, um debate que suspeito era impensável há seis meses atrás)
(lembrei-me disto ao assistir ao expresso da meia-noite, um debate que suspeito era impensável há seis meses atrás)
Agora sim, é possível falar com propriedade do "modelo escandinavo"

A social democrata Helle Thorning-Schmidt, de 44 anos, torna-se a primeira mulher a governar a Dinamarca.
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