"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Regresso à zona de conforto

A zona de conforto regressa hoje à TSF, com horário novo (depois do noticiário das 23 horas) e em versão mais longa (sem interrupção para notícias à meia-hora). Por esta emissão passarão algumas das novidades, regressos, concertos e também despedidas que marcaram o verão. A abrir, o extraordinário regresso dos Dirty Projectors, um disco que brilhará bem alto na lista dos melhores do ano.



Alinhamento

Dance for you – Dirty Projectors
Under the Westway – Blur
Let it be – Beatles 
Be Good - Gregory Porter
You’ve Got Me – The Roots feat. Erika Badhu
Love Interruption - Jack White
Shine a Light - Rolling Stones
Where are you now - Dylan Le Blanc
All that I can- Sharon Van Etten

a emissão pode ser escutada aqui (fazer scroll down, link do lado direito) 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Uma coligação de gente perigosa

"(...)  Desde Vasco Gonçalves que Portugal não era governado por gente tão perigosa. O trio Passos/Gaspar/Borges vê-se a si próprio como uma nova vanguarda, a quem a verdade foi revelada e que julga representar os interesses objectivos do país. Acontece que se continuarmos a insistir no ir para além da troika, se não combatermos politicamente as exigências que nos são feitas, se “não berrarmos” nas instâncias internacionais (para usar a feliz expressão de Ferreira Leite), daqui a um ano teremos, de novo, metas do défice revistas e mais anúncios de cortes e aumento dos impostos. Não é preciso nenhum modelo para prever que a receita que falhou no último ano falhará num patamar ainda mais elevado no próximo ano. (...)"
a versão integral do meu artigo do Expresso desta semana pode ser lida aqui.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Foi bonita a festa, pá

as fotos.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Tanto Mar na Magic Quiver

No próximo Sábado, dia 15, pelas 19 horas, eu e o João Catarino faremos um lançamento do Tanto Mar, com apresentação do João Valente, director da SurfPortugal, na Magic Quiver na Ericeira (junto ao largo do Jogo da Bola). Será uma oportunidade para conhecerem a surf shop com melhor gosto do país (talvez chamar-lhe surf shop seja redutor) e ver uma exposição das ilustrações que compõem o livro. São todos bem vindos.


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Those surfing days may well return

O Fugas do Público tem um bom texto sobre o Tanto Mar, com direito a fotogaleria, e aqui estão os artigos que foram saindo no Expresso durante o mês de Agosto.

Those surfing days are over

e o David Byrne continua a dançar em grande estilo, de tal forma que já conquistou a Annie Clark


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Free Pussy Riot


não sentia tanta solidariedade com a causa das liberdades desde o movimento 'Free Winona'.

domingo, 29 de julho de 2012


De surpresa em surpresa

"Basta recuarmos um ano para recordarmos as loas que eram tecidas ao memorando de entendimento. A troika, foi-nos dito, apresentava-nos o programa com as reformas estruturais que o país esperava há décadas. Por cá, num momento em que o patriotismo atingiu mínimos históricos, faziam-se sentir ondas de júbilo com o regresso dos salvíficos homens de negro. Um ano passado, chega a ser penoso assistir à troika a avaliar-se a si própria, tentando salvar a face perante uma solução que está a falhar.
O último relatório do FMI é exemplar da estratégia em curso. Colocada a Grécia de quarentena, Portugal tem de ser oferecido como exemplo de sucesso, dê por onde der: a aplicação do memorando é avaliada positivamente, mesmo que a execução orçamental esteja a falhar, o mercado de trabalho se afunde e ninguém faça ideia de como atingir as metas do défice para este ano e, pior, para o próximo. Até porque uma coisa é a realidade, outra a narrativa. E esta é simples. (...)"
o resto do meu artigo do Expresso de 21 de Julho pode ser lido aqui.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Still clinging to the old dreams


quarta-feira, 18 de julho de 2012

A culpa é do Constitucional

"Primeiro foram os malandros do rendimento mínimo, mas não falei por não ser pobre. Depois, perseguiram os pensionistas. Nada disse então, por não ser velho. Em seguida, castigaram os funcionários públicos. Decidi não falar porque não sou funcionário público. Então, um dia, vieram tirar-me o meu subsídio de férias. Por essa altura, já não restava nenhuma voz que, em meu nome, se fizesse ouvir. O conhecido poema de Martin Niemoller, escrito num contexto brutal que nada tem a ver com a nossa realidade, é ainda assim uma boa metáfora para os riscos da ação política baseada na exploração do ressentimento.
Quando, no Orçamento de 2012, o governo optou por discriminar negativamente os pensionistas e os funcionários públicos, a estratégia tinha um objectivo: colocar trabalhadores do sector privado contra funcionários públicos. No fundo, a ideia era simples e passava por dar corpo ao sentimento difuso de que os funcionários públicos são uns preguiçosos com emprego protegido. Contudo, como quase sempre acontece com as ideias populistas, o que parece ter um fascínio inicial encarrega-se de trazer complicações sérias mais tarde. Essas complicações acabam de chegar com o acórdão do Tribunal Constitucional. (...)"
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lido aqui

sábado, 7 de julho de 2012

Sejam bons

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Tanto Mar

Amanhã, terça-feira, às 18.30, na Bertrand do Chiado, o Fernando Alves apresenta o Tanto Mar, o meu livro com o João Catarino. São bem-vindos. Mas, até lá, aqui podem ver dois leigos no mais mulher, da SIC-mulher

terça-feira, 26 de junho de 2012

Tanto Mar


terça-feira, 19 de junho de 2012

I was the Duke of Earl



passei aqui só para vos dizer que esta é a melhor música do ano.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

As previsões dos porcos-espinhos


"(...) partindo de uma parábola grega popularizada pelo filósofo Isaiah Berlin, Tetlock divide os especialistas em dois tipos: as raposas e os porcos-espinhos. A distinção assenta na ideia de que enquanto as raposas trabalham em várias frentes e procuram olhar para o mundo em toda a sua complexidade, evitando integrar as suas mundivisões num conceito geral unificador, os porcos-espinhos simplificam a realidade através de uma leitura organizadora baseada num conceito unificador, capaz de tudo traduzir em nexos causais lineares. No fundo, a raposa sabe muitas coisas enquanto o porco-espinho sabe uma grande coisa.
É precisamente essa a conclusão de Tetlock: os especialistas nos quais devemos acreditar são os que se aproximam das raposas – capazes da auto-crítica, ecléticos e disponíveis para actualizar as suas crenças face a novos factos. Já os especialistas que tendem a desempenhar pior o papel de cassandras são os que se aproximam dos porcos-espinhos – têm uma grande ideia, normalmente convincente e articulada, mas que aplicam a todos os acontecimentos. Tetlock acrescenta que os media preferem os porcos-espinhos. (...)"
o resto do meu artigo do Expresso de 26 de Maio pode ser lido aqui.

domingo, 3 de junho de 2012

Saudações do Parque da Bela Vista


A última emissão da zona de conforto foi dedicada em exclusivo à carreira de Bruce Springsteen. Pode ser escutada aqui (link do lado direito, emissão de 2 de Junho)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Os tempos já mudaram

terça-feira, 22 de maio de 2012

O século XX recordado

"(...)Hoje, perante a catástrofe social e as consequências políticas que eram previsíveis, resta saber se a Grécia funcionará como vacina, obrigando a mudanças na Europa que impeçam o contágio e a dissolução dos sistemas partidários como os conhecemos, ou se, pelo contrário, estamos face ao início de uma epidemia que acabará por alastrar a toda a Europa, partindo das periferias, mas atingindo também o centro. Está nas mãos dos governos europeus escolher. Até agora têm cometido demasiados erros e, pior, têm insistido na trajectória falhada que ameaça os regimes. Estamos a viver um momento crucial para a Europa e convém recordar lições da História que não devem ser esquecidas. A primeira das quais é que “não podemos ser inocentes outra vez” e pensar que a irracionalidade e o mal absoluto não são ameaças que estão sempre ao virar da esquina."
a versão integral do meu artigo de 12 de Maio do Expresso pode ser lida aqui

quarta-feira, 16 de maio de 2012

E se nada mudar?

"(...) Apesar deste contexto, o centro-esquerda ainda não conseguiu desenvolver uma leitura partilhada da crise e articulá-la com uma resposta política coerente. Não há sinais de que Hollande seja capaz de responder a estes dois desafios.
Há, antes de mais, um problema estrutural. A esquerda democrática encontra-se em declínio ideológico porque ou foi incapaz de se readaptar a um contexto económico, social e demográfico muito diferente do do seu apogeu ou, quando o fez, como com a Terceira Via, teve os resultados conhecidos. Convém não esquecer que a crise que hoje enfrentamos resulta de uma arquitectura institucional da zona euro desenhada quando a maioria dos países europeus era governada por partidos social-democratas.
Hoje, o que o centro-esquerda tem para oferecer, desde a França com Hollande a Portugal com Seguro, é apenas um acto adicional ao estrangulamento político europeu. Talvez nenhum outro acontecimento cristalize esta dificuldade como a discussão em torno do Tratado de Estabilidade. Perante um conjunto de disposições que representa uma capitulação política da social-democracia, o que nos é proposto é mantê-las e juntar-lhes uma aposta no crescimento, que nunca se percebe bem em que instrumentos assentará. Hollande alterará o clima político e funcionará como um contrapeso. Espero estar enganado, mas, para além disso, pouco mudará."
 a versão integral do meu artigo do Expresso de 5 de Maio pode ser lida aqui.

sábado, 12 de maio de 2012

Your House

O Walter Benjamin esteve na zona de conforto a semana passada. Aqui fica uma interpretação despojada de Your House, uma das canções de The Extraordinary Life of Rosemary and Me.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Até aqui, tudo bem

"(...) É uma ilusão pensar que tudo se manterá igual no sistema político com um período longo em que o comportamento da economia alterna entre o anémico e a recessão. Pura e simplesmente, o amor do povo pela liberdade não será suficiente para que daqui, por exemplo, a quatro anos, os portugueses se dirijam ordeiramente e em massa às urnas para depositar o seu voto nos partidos em que necessariamente deixarão de confiar. A queda que vivemos começou por ser financeira, económica e social, mas a aterragem será inevitavelmente política e colocará em causa o regime. Como nos ensina a história europeia, a legitimidade dos regimes democráticos depende do pluralismo e da defesa do Estado de direito, mas estes valores só são politicamente sustentáveis se se alicerçarem em níveis de bem-estar suficientes, que funcionem como cimento das relações sociais. A questão não é apenas de privação material hoje, é também o modo como o regime gere expectativas sociais. Em “A classe média: ascensão e queda”, Elísio Estanque escreve que “enquanto numa trajectória ascensional se tende a antecipar a condição de chegada, na situação inversa procura-se a toda o custo negar a realidade, mesmo quando já se mergulhou nela até ao pescoço”. Ou seja, enquanto nas trajectórias ascendentes as expectativas vão sempre um passo à frente da posição individual, perante um fim abrupto desse percurso, a intensidade da frustração dispara, mas ao retardador. Um pouco como no filme de Mathieu Kassovitz: quando caímos, como agora acontece, primeiro negamos a sensação de perda, para depois chocarmos com a dura realidade da desilusão. Só então perceberemos que a solução para a crise deveria ter sido outra. Pode ser, contudo, demasiado tarde. a versão integral do meu artigo do Expresso de 28 de Abril pode ser lida aqui.

domingo, 6 de maio de 2012

Listen all of y'all this is Sabotage


ide ler o obituário do Adam Yauch pelo Sasha Frere-Jones.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Venus in Furs

Nunca saberemos se era nisto que estavam a pensar o Leopold von Sacher-Masoch, primeiro, e o Lou Reed e o John Cale, mais tarde, quando escreveram o Venus in Furs. Mas pode bem ser o caso. St. Vincent em todo o seu esplendor, ontem à noite no programa do Jools Holland (John Cale já havia abordado o tema, no mesmo programa, há uns anos). também publicado aqui (onde tenho estado bem mais activo)

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Presos numa encruzilhada

"(...) Este Tratado visa consagrar a hegemonia da direita liberal à custa da capitulação política das restantes mundividências. Há uma diferença significativa entre um consenso desejável em torno da necessidade de consolidação das contas públicas e uma homogeneização que afasta as possibilidades dos Estados-membros decidirem o modo como alcançam a disciplina orçamental e que tipo de Estado social desejam. As consequências são evidentes: se o Tratado for para levar a sério, os Estados-membros menos desenvolvidos ficam privados dos mecanismos de política económica que tornam possível recuperar atrasos, ao mesmo tempo que continuam a não ter os instrumentos financeiros desejáveis, característicos de um sistema federal. No fundo, alienamos soberania, sem qualquer tipo de contrapartidas. Ainda assim, há uma réstia de esperança. No essencial, estamos perante uma institucionalização da hipocrisia: não só os preceitos do Tratado não visam responder às dificuldades que enfrenta a zona euro hoje, como não vão ser cumpridos pelos mesmos governos que agora os subscrevem (dos 25 Estados, apenas quatro cumprem, neste momento, o número mágico para o défice estrutural – sendo que Alemanha e França não fazem parte do grupo). No seu livro póstumo, Thinking the Twentieth Century, Tony Judt, numa conversa com o também historiador Timothy Snyder, deixa-nos uma espécie de lamento céptico: “é provável que, enquanto intelectuais e filósofos políticos, estejamos perante uma situação em que a nossa tarefa principal não é imaginar mundos melhores, mas, antes, pensar como é que podemos prevenir mundos piores”. No fundo, como mostra a discussão política na Europa de hoje, é isso que nos resta." o resto do meu artigo do Expresso de 14 de Abril pode ser lido aqui.

terça-feira, 17 de abril de 2012

A tempestade perfeita no PS


"A sucessão de mini-crises no Partido Socialista, que teve esta semana o seu apogeu, pode ser lida como fruto da incapacidade de afirmação de António José Seguro, mas é bem mais do que isso. O PS enfrenta uma tempestade perfeita onde dificuldades estruturais se conjugam com obstáculos conjunturais e incapacidade da actual direcção.
Acima de todos os problemas circunstanciais, os socialistas enfrentam um de natureza estrutural, que dura já há algumas décadas. O sucesso político da esquerda democrática durante a segunda metade do século XX foi fruto de um contexto social, demográfico e económico que se alterou profundamente. No mundo de hoje, já distante do ‘liberalismo protegido’ do pós-guerra, a social-democracia passou a ter enormes dificuldades de afirmação. Não por acaso, a sua hegemonia em meados da década de noventa assentou numa agenda modernizadora que rompeu com a tradição e que aparentava ter sido desenhada para um novo contexto. Perante a crise da zona euro e a iminente consagração nos tratados de uma leitura da crise que institucionaliza o projecto político da direita, assistimos a uma capitulação política da esquerda democrática e vivemos as consequências das escolhas feitas pelos governos europeus há perto de uma década, que eram maioritariamente da terceira via.
Independentemente da leitura que possamos fazer das opções recentes, a verdade é que não há uma resposta coerente, do lado da esquerda, aos desafios que hoje se colocam. Até existir esta resposta, torna-se difícil construir um discurso programático consistente onde quer que seja. Portugal não é excepção. A crise, que aparentava ser uma oportunidade para reinventar a esquerda, transformou-se num poderoso mecanismo desagregador. (...)"

a versão integral do meu artigo do Expresso de 6 de Abril pode ser lida aqui.

sábado, 14 de abril de 2012

You Can't Win, Charlie Brown

Os You Can't Win, Charlie Brown passaram pela emissão da semana passada da Zona de Conforto, onde interpretaram Sad Song. Aqui fica o video. A emissão do programa está disponível aqui.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Airports and broken hearts you see,

Aqui há uns tempos tropecei numa música. Parecia-me que o Leonard Cohen tinha, por momentos, despertado de um longo sonho tropical para nos contar os desamores de que tomamos consciência em esperas demoradas em aeroportos. O nome do cantor não podia ser mais desconcertante: Walter Benjamin. Para quem, naquela canção em concreto, cantava sobre a consciência das perdas em viagem, até fazia sentido - tendo em conta que Walter Benjamin, o outro, se suicidou a caminho de Portugal, quando tentava fugir para os EUA, e foi obrigado a regressar à alemanha nazi. Depois, descobri que por detrás de Walter Benjamin se escondia um português radicado em Londres, Luís Nunes, e logo esqueci o pessimismo antropológico ao qual não conseguimos escapar quando nos recordamos da vida e do mundo de Walter Benjamin. Quando, por fim, ouvi na íntegra "The Imaginary Life of Rosemary and Me" tive a certeza que é possível sermos resgatados pelas canções. O disco é curto, pouco mais de 25 minutos para 8 canções, e, desde que o tenho, escuto-o em loop contínuo. Há, na simplicidade destas 8 canções, mesmo que cantadas em inglês, uma espécie de eco longínquo de "um país de bondade e de bruma", que parece encontrar raízes num imaginário doméstico, de onde partem todas as esperanças. Como canta Walter Benjamin a encerrar o disco: "your tiny dances should rule the outside world". É mesmo isso.

também publicado aqui, onde tenho estado bem mais activo.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Olhar para trás

"(...) Talvez um princípio avisado para o reformismo seja não cair na tentação do excesso de experimentalismo. Portugal tem muito a aprender com as soluções dos outros países, com os seus erros e sucessos. Ora, se nada mais, o facto de não existir rigorosamente nenhum país europeu com exames no 4º ano deveria ser motivo para ponderação. Mas, para o governo português, isso parece pouco importar.
É claro que os exames são um mecanismo fundamental para a aferição de conhecimentos e não podemos conceber ensino sem avaliação. Contudo, não são os exames que, por si só, garantem a qualidade da aprendizagem. Ora, hoje já existem provas para aferir os conhecimentos das crianças de nove anos que terminam o 4º ano (com uma avaliação qualitativa).
Esta fixação examinadora, que visaria contrariar a alegada cultura de facilitismo que terá contagiado todo o ensino em Portugal, esbarra nas evidências. Para além dos países que melhores resultados têm nas comparações internacionais serem aqueles que menos e mais tarde examinam, Portugal é também um caso de não facilitismo, apresentando uma das maiores percentagem de jovens até aos 15 anos que chumbou pelo menos uma vez. Os números impressionam: 35% dos jovens portugueses reprovaram, valor bem acima da média da OCDE (13%).
Nesta como em muitas outras matérias, talvez fosse preferível que o Governo, em lugar de encontrar resguardo em diatribes ideológicas, ainda para mais de carácter saudosista, e num maniqueísmo retórico, que só serve para esconder fragilidades programáticas, procurasse aproximar Portugal das boas práticas europeias. Ao olhar para trás, a estratégia do Governo só agudizará a natureza dos nossos problemas e contribuirá para focar o debate político em dicotomias redutoras e extremistas."
a versão integral do meu artigo do Expresso de 31 de Março pode ser lida aqui.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Olhar para trás

"this program provided for a joint metropolitan committee to examine unemployed relief applications and to separate respectable workmen temporarily unemployed from 'ordinary paupers'. For the former, it was hoped that relief work and several rural labor colonies would be provided, although no Exchequer grant was involved and major reliance was placed on private charity.
It was in reaction against this inherited policy that British impetus for labor exchanges and unemployment insurance developed"
Hugh Heclo, a escrever em 1974, sobre o Unemployed Workman Act de 1905 (que viria a ser revogado pelas propostas de Beveridge - aliás apoiado activamente por Churchill-, em 1911, e que criariam o primeiro subsídio de desemprego, tal como o conhecemos hoje)

sexta-feira, 30 de março de 2012

Homens em tempos sombrios

quarta-feira, 28 de março de 2012

um exemplo de manual escolar

"Quando precisar de um exemplo do estado de degradação a que chegou o debate político em Portugal, não terei grandes hesitações. Escolherei a discussão em torno da Parque Escolar. É difícil encontrar outro caso tão paradigmático da pulsão a que os governos não resistem para diabolizar o que foi feito pelos seus antecessores, combinada com incapacidade de escrutínio por parte da comunicação social, e que culmina numa timidez exasperante da oposição na defesa do seu próprio legado. Um trágico retrato do país político. (...)"
o resto do meu artigo do Expresso de 17 de Março pode ser lido aqui.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Amigos em Portugal

A notícia tem já vários meses, mas só agora me chegou: Vini Reilly, a alma dos Durutti Column, sofreu um AVC que o limitou fisicamente. Se bem que já tenha voltado a tocar e, inclusivamente, a compor, é ainda incerto se recuperará totalmente.
Uma das bandas mais importantes da Factory Records (na verdade, a primeira a “assinar” com Tony Wilson), os Durutti Column foram responsáveis por alguns dos discos mais singulares da década de oitenta. The Return of the Durutti Column, LC, Another Setting e Circuses and Bread são, ainda hoje, álbuns parcimoniosos, mas assentes numa complexidade que encontra poucos ou nenhuns paralelos na cena pós-punk britânica. O dedilhar único da guitarra de Vini Reilly, a fragilidade da sua voz, usada apenas a espaços, e a bateria de Bruce Mitchell deixavam o campo aberto para sonhos bucólicos. Acima de tudo, pairava uma capacidade melódica presa a ambientes capazes de, por vezes, ofuscar toda a tristeza que encerrava aquela música. Quando as músicas dos Durutti Column se entranham, nunca mais nos podemos sentir abandonados. Sobre a banda, Miguel Esteves Cardoso escreveu, já lá vão quase trinta anos: “esta música não é uma coisa prosaica e ingénua; não é papel-de-parede para tapar os buracos verdadeiros. Aqui há também uma luta. O que é preciso é raspar levemente a superfície da pintura, para encontrar a sua base de tintas negras e feias, o seu medonho inconsciente. Não há beleza sem contraponto, nem harmonia sem contraste. E a música de Vini Reilly é só isso.” É mesmo só isso.



A versão ao vivo da Jacqueline que aqui se vê (de 1988) é superior à versão mais curta do LC (ou da LC). Aliás, o tema sempre ganhou em versões ao vivo, com o solo do Bruce Mitchell (tão impressionante como a sua expressividade) a criar o contexto certo para que a guitarra volte a cair no tema.

texto também publicado aqui.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Zona de conforto

Há um par de semanas, passei a fazer um programa de música na antena da TSF. Chama-se Zona de Conforto e vai para o ar, semanalmente, nas madrugadas de sexta para sábado, entre a meia-noite e a uma da manhã. O programa tem também um blog - onde, entre outras coisas, é possível ouvir as emissões anteriores (fazendo scroll down na página, encontram o link do lado direito). São todos muito bem vindos.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Banhos de Mar, no dia da morte de Tonino Guerra



Há um par de anos, tive o privilégio de jantar em Lisboa com Tonino Guerra, poeta, argumentista e co-responsável pela criação do universo que atribuímos exclusivamente a Fellini. Durante um fim de tarde e noite, partilhei, com não mais de vinte pessoas, as palavras de um contador de histórias admirável, que aos oitenta e muitos anos mantinha os olhos vivos de quem vive numa infância exuberantemente reinventada – como aquela que se vê no Amarcord de Fellini e Guerra. Sei que guardarei muitas das palavras simples ditas por Tonino Guerra. Mas, de tudo o que ouvi, há uma lição de que não me esqueço e que arrisco citar de cor: “Os adultos têm sempre as mãos limpas. Eu tenho oitenta anos e lavo-as muitas vezes ao dia. Mas só quando as tenho sujas me recordo de quando era criança”.
Não pude deixar de me recordar de Tonino Guerra ao ler recentemente um pequeno e espantoso texto da escritora brasileira, Clarice Lispector, Banhos de Mar. Aquilo que para Tonino são “as mãos sujas”, são para Lispector “os banhos de mar”: metáforas para um regresso a um paraíso perdido, a uma infância absoluta de sensações e à qual somos capazes de regressar, num caso, através da sujidade das brincadeiras, noutro, com os mergulhos no mar e o cheiro a sal no corpo. “Somos crianças feitas para grandes férias”, escreveu Ruy Belo num dos mais magníficos poemas em língua portuguesa (A orla marítima). É essa a nossa natureza: buscar incessantemente a felicidade num feixe de luz que nos transporta para um passado que até pode não ter existido como o vemos hoje. Pouco importa. É esse passado, rescrito e reinventado, que recordamos. O correr dos tempos intensifica esse retorno difuso às sensações de quando estávamos crianças, surpreendidos com a descoberta. O sentimento tende a agravar-se com a chegada dos filhos, quando, ao olharmos para eles, vemos nos seus sorrisos deslumbrantes a nossa própria felicidade.
Clarice Lispector conduz-nos com palavras doces para uma infância de tranquilidade, feita de banhos madrugadores no mar do Recife, levada pela mão do pai: “O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas e trazia um pouco de mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele”. O lugar era onde a felicidade começava e tudo era assombrosamente novo: “essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro”. A impressão táctil desse passado resistiu, a roupa e os cabelos impregnados de sal que iam secando no regresso a casa. E, no fim, uma crença que ficou para a vida, que era também a partilha de um léxico familiar: “meu pai acreditava que não se devia tomar logo banho de água doce: o mar devia ficar na nossa pele por algumas horas. Era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpida e sem o mar”.
Leio e releio o texto de Clarice Lispector e quase que sinto o cheiro da infância – a t-shirt que se colava ao corpo com o sal que a costa atlântica portuguesa nos dá em doses generosas; as noites bem dormidas; os dias feitos de mergulhos e carreirinhas infindáveis nas ondas de verão que pareciam maiores do que realmente eram; as correrias; o bicicletar sem rumo; e mais tarde os primeiros take-offs, partilhados com um par de amigos. Tudo se torna nítido, como é próprio dos prazeres iniciais.
Mas o texto de Clarice tem um tom sombrio no final, a impossibilidade de regressar a esses tempos de banhos de mar: “A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais? Nunca mais. Nunca.”
Pois eu sei como se reencontra esse tempo. Pego na prancha, remo para o outside e, mesmo que não sorria como faz o meu filho, em cada onda que apanho fico perto do seu mundo fácil. É também para isso que serve o surf, para recuarmos ao tempo da ingenuidade, às suas sensações, aos seus prazeres e à sua libertinagem. Dentro de água tudo o resto desaparece e podemos beber, nas ondas, o mar. Depois, no regresso à Terra, o peso delicado do sal no corpo ajuda a sedimentar a memória da infância.

texto publicado em 2007 na SurfPortugal e entretanto editado no "Sal na Terra".

terça-feira, 20 de março de 2012

Faça-se ao lado

"(...)como a realidade tem muita força, os problemas não poderiam deixar de surgir e passou a ser necessário lidar com eles. E, neste aspecto, o primeiro-ministro não hesitou e, parafraseando-o, “recuperou velhos comportamentos preguiçosos”. Santos Pereira é incapaz de gerir as relações com os parceiros sociais? encontra-se um negociador fora do governo; Santos Pereira é incapaz de dar conta da internacionalização da economia? entrega-se a matéria aos Negócios Estrangeiros; Santos Pereira é incapaz de acompanhar as privatizações? convida-se uma figura de prestígio para acompanhar o processo; Santos Pereira é incapaz de responder ao flagelo do desemprego juvenil? forma-se uma comissão presidida por outro ministro; Santos Pereira é um empecilho para a execução dos fundos comunitários? institui-se uma “comissão chapéu”, coordenada por um colega de governo. No fundo, o primeiro-ministro optou pela solução simples. Santos Pereira não tem competências políticas? o Ministério é ingovernável? recorra-se ao velho: “faça-se ao lado”.
Perante este cenário, não há, como bem referiu Passos Coelho, desmantelamento dos ministérios. De facto, a orgânica do governo mantém-se inalterada – e, aliás, por concluir. Há, contudo, uma outra coisa, bem pior: do ponto de vista institucional, fica tudo na mesma, mas criam-se estruturas paralelas, escassamente formalizadas e menos sujeitas ao escrutínio político (desde logo do parlamento), para compensar a inoperância da estrutura orgânica existente. É um procedimento habitual no Estado português e que tem dado contributos bastante negativos para a implementação das políticas públicas. Aliás, pode bem dar-se o caso de estarmos como estamos, não por força de opções substantivas erradas dos sucessivos governos, mas como consequência de práticas institucionais contraproducentes. A história do Álvaro é, no fundo, mais um episódio de uma trajectória de degradação do Estado.

a versão integral do meu artigo do Expresso de 10 de Março pode ser lida aqui.

quinta-feira, 15 de março de 2012

We're all strangers here


como diria o Álvaro, "tão bom que nem parece português".

quarta-feira, 14 de março de 2012

No fundo, não importa nem o tempo, nem o lugar, é isto

Why I Am Leaving Goldman Sachs
"(...) My proudest moments in life — getting a full scholarship to go from South Africa to Stanford University, being selected as a Rhodes Scholar national finalist, winning a bronze medal for table tennis at the Maccabiah Games in Israel, known as the Jewish Olympics — have all come through hard work, with no shortcuts. Goldman Sachs today has become too much about shortcuts and not enough about achievement. It just doesn’t feel right to me anymore.(...)"
um artigo que deve (tem de) ser lido na integralidade, aqui.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Um Estado Sindical

"(...)A natureza do que é dito pelos responsáveis sindicais do Ministério Público já não surpreende, acontece que passou a ser tolerada. Parece-me que há boas razões para ficarmos preocupados. Estamos perante uma pulsão que visa contrariar os equilíbrios de poder no regime e, em última análise, condicionar a acção dos poderes executivo e legislativo. Não é nada de novo, convenhamos, e a ambição é clara: o que antes acontecia através de coligações entre péssimas investigações judiciais e mau jornalismo, com acusações na praça pública, assentes em violações selectivas ao segredo de justiça, tem, agora, de ser institucionalizado. (...)
Neste contexto, é particularmente preocupante a complacência da actual ministra em relação ao conjunto de poderes fácticos que vai ganhando espaço na justiça. Uma complacência que não encontra paralelo em nenhum governo anterior, independentemente da cor política. Quando o que era necessário era um alargamento do espaço de influência do Ministério da Justiça, através de acordos parlamentares e envolvendo o Presidente da República, o que assistimos é uma opção que rompe com essa tradição e procura sustentação política nas organizações sindicais do sector. Não são necessários grandes poderes de previsão para antecipar que este namoro acabará mal. Até lá, vai sendo alimentado o sonho de ter no topo da hierarquia do MP um procurador escolhido pelos seus pares. Pior que um Estado corporativo, só mesmo um Estado sindical."
a versão integral do meu artigo do Expresso de 3 de Março está aqui.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Zona de conforto

segunda-feira, 5 de março de 2012

Suicídio assistido

"Acabar com o Carnaval ou com feriados não nos torna melhores trabalhadores. A menos que o desígnio estratégico seja a chinização do mercado de trabalho, o que Portugal precisa é de gestores que administrem melhor, de alterar o padrão de especialização da nossa economia (em lugar de aprofundarmos as suas debilidades, que é, de facto, a consequência da estratégia de empobrecimento) e continuar a investir na qualificação (em vez de, por exemplo, desmantelar as “novas oportunidades”). Uma evidência, menos para o Governo, que insiste na ideia de que a resposta aos problemas da economia política portuguesa passa por trabalharmos mais horas.
A estratégia é reveladora de uma incompreensão do momento que vivemos. O que enfrentamos é uma crise da procura – ainda esta semana, por exemplo, soube-se que as indústrias portuguesas estão entre as que registaram uma maior queda nas encomendas recebidas. Ou seja, a capacidade utilizada da economia está em mínimos, logo, se continuamos a insistir no aumento do número de horas de trabalho, não escaparemos a um crescimento ainda maior do desemprego.
Há dias, o primeiro-ministro espanhol, Rajoy, considerou um suicídio a diminuição do défice a que a Espanha estava obrigada este ano (de 8% para 4.4%). É difícil encontrar outra expressão que descreva de modo tão exacto o que se está a passar em Portugal. Uma contracção da economia que vai para além do razoável e que, acompanhada pela insistência no aumento de número de horas de trabalho, vai ter um efeito devastador sobre o emprego. Estamos perante um suicídio provocado pelo governo português, mas assistido pelas obsessões ideológicas da troika."
a versão integral do meu artigo do Expresso da semana passada está aqui.

domingo, 4 de março de 2012

Zona de conforto