Nos próximos dias, andarei por aqui, em Austin no Texas. Para quem quiser ir sabendo o que por lá se passa, a partir de quarta-feira, farei uma crónica diária na TSF (entre as 18.30 e o noticiário das 19, com repetição antes do noticiário das 23). A realidade regressa daqui a uma semana.
quinta-feira, 7 de março de 2013
O novo mundo do protesto
"(...) há um conjunto de ilusões associadas a estas novas formas de participação.
A
primeira das quais é a ilusão criada pelas redes sociais. O facebook, os
blogues e o twitter potenciam formas de expressão política ambicionadas há
séculos – não intermediadas, diretas e individualizadas. Mas se estas formas de
participação podem ser muito expressivas, não são, no entanto, capazes de
funcionar como válvulas de escape para o descontentamento. Pelo contrário, as
redes sociais acabam por funcionar como repositórios de tensões e
ressentimentos, em lugar de promoverem a sua superação.
Mas,
talvez, a maior das ilusões se prenda com o efeito das novas manifestações.
Seja nas redes sociais ou, hoje, nas ruas do país, a força dos protestos não se
traduz em mudança política efetiva. Não apenas porque há contradições
politicamente insuperáveis entre quem se manifesta, mas, no essencial, porque
não há (ainda) quem interprete os protestos e quem os traduza num programa
político alternativo.
Não
nego a importância do protesto baseado na recusa do que existe, mas, sem alguém
que o represente organicamente, a sua eficácia é reduzida. Ora o problema é
precisamente esse: as formas tradicionais de representação de interesses já não
são vistas como representativas, mas ainda não foram encontradas novas formas
capazes de organizar a mudança. O que só consolida a natureza radicalmente nova
da crise que enfrentamos."
o resto do meu artigo do Expresso de 2 de Março está aqui.
Destruir para criar
"“É
impossível aumentar impostos, desastroso continuar a pedir emprestado, e cortar
despesa é simplesmente desadequado”. As palavras podiam ter sido escritas hoje
e revelam com precisão os dilemas que Portugal enfrenta. Contudo, fazem parte
de um memorando redigido em 1786 por Charles-Alexandre de Calonne, ministro das
Finanças de França, dirigido a Luís XVI. Na sequência deste texto, o monarca
aceitou convocar uma assembleia de notáveis para discutir um plano de reformas.
A assembleia falhou e, por sugestão do Marquês de Lafayette, foram convocados
uns estados gerais (os últimos tinham sido em 1614). Como sabemos, bastaram
três anos para a degradação financeira, económica e social se traduzir no
colapso político do antigo regime.
Se conto
este episódio é porque ele é um bom retrato da situação de Portugal hoje – não
podemos aumentar impostos, é desastroso continuar a pedir emprestado, os
limites para os cortes na despesa já foram ultrapassados e não há apelos aos
consensos que nos salvem. Com uma agravante: os dois caminhos dominantes que
nos têm sido oferecidos para lidar com o beco sem saída em que nos encontramos
têm um lado mimético.(...)"
o resto do meu artigo do Expresso de 23 de Fevereiro está aqui.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
A desfazer-se no ar
"(...) Ainda
no Manifesto, Marx, a outro propósito, é verdade, chamava a atenção que “todas
as relações enferrujadas, com o seu cortejo de vetustas representações e
intuições, são dissolvidas”, para depois alertar que os homens serão “por fim
obrigados a encarar com olhos prosaicos a sua posição na vida, as suas ligações
recíprocas”. O alerta parece feito à medida dos partidos portugueses: ou encaram
de outra forma a sua posição ou correm o sério risco de se tornarem
irrelevantes, desfazendo-se no ar."
o resto do meu artigo do Expresso de 16 de Fevereiro pode ser lido aqui.
o resto do meu artigo do Expresso de 16 de Fevereiro pode ser lido aqui.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
A revolta dos paradas
"Esqueçam o que a ciência política tem
dito sobre declínio da participação política em Portugal. Ao contrário do que
se pensa, há por aí um vigor militante que opera subterraneamente. A crer no
jornal i, desde as últimas legislativas, os partidos não têm parado de
conquistar militantes. Todos viram aumentar o número de filiados, mas o que mais
impressiona são os valores para PSD e PS. Com a vitória de Passos Coelho, juntaram-se
ao PSD 9900 novos militantes, um valor que, ainda assim, compara mal com os
19552 que se filiaram no PS no último ano e meio.
o meu artigo do Expresso de 9 de Fevereiro pode ser lido aqui.
É interessante procurar saber o que
motivou estes milhares de portugueses, numa altura em que a imagem dos partidos
anda pelas ruas da amargura. Em todo o caso, esta pujança militante talvez
seja, no essencial, importante para revelar como se estrutura hoje o poder
partidário. (...)"
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Tenham medo, digo eu
o artigo de Ricardo Sá Fernandes ontem no Público é aparentemente sobre Carlos Cruz; na verdade, é sobre todos nós.
"(...) Tudo se resume, pois, às declarações incongruentes de alguns jovens que, alimentados por uma imprensa sedenta de escândalo, uma provedora deslumbrada e investigadores malévolos, inventaram uma história inverosímil, na qual três juízes descortinaram alguns segmentos daquilo a que chamaram "ressonância de veracidade" (sic).
Foi neste contexto que, durante o julgamento, se tornou decisivo confrontar essas alegadas vítimas, verdadeiros impostores, com o que haviam dito durante o inquérito, de forma a evidenciar a flagrante contradição das duas narrativas. Por exemplo, os locais dos abusos de Cruz - Av. Forças Armadas e Elvas - começaram por não existir aquando do início das denúncias, aparecendo mais tarde à medida da sincronização de versões antagónicas até à reconstituição de um quadro aparentemente credível.
Todavia, o elementaríssimo direito da defesa de confrontar os impostores com o percurso do seu discurso anterior ao julgamento esbarrou com a oposição deles próprios, assistentes no processo, porque a lei portuguesa o impede sem a sua autorização (!). Não se duvida que o acesso às declarações prestadas em inquérito deve ser excepcional e estar condicionado a "filtros" mais ou menos apertados. Mas é intolerável que não se consagre uma "válvula de escape" que, no limite, quando for crucial para os interesses em presença, assegure a supremacia do princípio da verdade material. Como se verifica em todo o mundo civilizado (da Espanha à Alemanha, da Itália aos EUA, etc., etc.).
Porém, em Portugal, o inacreditável ocorreu. Para o Tribunal Constitucional, nesta matéria, o princípio da imediação vale sempre mais - em qualquer situação, aconteça o que acontecer - do que o apuramento da verdade e o exercício da defesa, em benefício da qual nenhuma ponderação de interesses pode ser observada. (...)"
o resto, podem ler aqui (só para assinantes).
"(...) Tudo se resume, pois, às declarações incongruentes de alguns jovens que, alimentados por uma imprensa sedenta de escândalo, uma provedora deslumbrada e investigadores malévolos, inventaram uma história inverosímil, na qual três juízes descortinaram alguns segmentos daquilo a que chamaram "ressonância de veracidade" (sic).
Foi neste contexto que, durante o julgamento, se tornou decisivo confrontar essas alegadas vítimas, verdadeiros impostores, com o que haviam dito durante o inquérito, de forma a evidenciar a flagrante contradição das duas narrativas. Por exemplo, os locais dos abusos de Cruz - Av. Forças Armadas e Elvas - começaram por não existir aquando do início das denúncias, aparecendo mais tarde à medida da sincronização de versões antagónicas até à reconstituição de um quadro aparentemente credível.
Todavia, o elementaríssimo direito da defesa de confrontar os impostores com o percurso do seu discurso anterior ao julgamento esbarrou com a oposição deles próprios, assistentes no processo, porque a lei portuguesa o impede sem a sua autorização (!). Não se duvida que o acesso às declarações prestadas em inquérito deve ser excepcional e estar condicionado a "filtros" mais ou menos apertados. Mas é intolerável que não se consagre uma "válvula de escape" que, no limite, quando for crucial para os interesses em presença, assegure a supremacia do princípio da verdade material. Como se verifica em todo o mundo civilizado (da Espanha à Alemanha, da Itália aos EUA, etc., etc.).
Porém, em Portugal, o inacreditável ocorreu. Para o Tribunal Constitucional, nesta matéria, o princípio da imediação vale sempre mais - em qualquer situação, aconteça o que acontecer - do que o apuramento da verdade e o exercício da defesa, em benefício da qual nenhuma ponderação de interesses pode ser observada. (...)"
o resto, podem ler aqui (só para assinantes).
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Um navio magnífico
"(...) após uma comissão política absurda, várias vozes não hesitaram em afirmar que o PS tinha saído reforçado e que se tinha tratado de uma “reunião magnífica”, como se fosse possível esquecer o processo que tinha conduzido até ali e a persistência ensurdecedora dos problemas. De facto, com tanta “unidade” e força para “enfrentar desafios”, o PS faz lembrar o Titanic, um navio imparável e magnífico no momento em que soltou amarras. Sabemos bem para onde se dirigia."
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada está aqui.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Levantar o pé do chão
depois de uma mão-cheia de discos em registo alt-country delicodoce (quem não se emocionou com o Bermuda Highway?) com os My Morning Jacket, o Jim James resolveu dar uma volta a solo por caminhos mais soul e ondulantes. Há um par de dias, passou pelo Fallon e com os Roots pôs-nos a todos a levantar o pé do chão e a clamar por mais.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Estro in Watts
A zona de conforto de hoje terá como convidado João Menezes Ferreira,
que foi autor do mítico programa de rádio do final da década de 70, "a
idade do rock" (emitido na RDP). Pretexto para uma conversa em torno da
poesia da idade do rock, a propósito do lançamento da antologia com 563 poemas
traduzidos para português, "Estro in Watts". Para ouvir, canções da
época, entre elas este Golden Hours, de Brian Eno. A canção que todas as
semanas servia de genérico ao programa.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
Regressar à casa de partida
"(...) O que
aconteceu é que, em lugar de serem os mercados a acreditarem na estratégia
seguida, foram os próprios proponentes a fazê-lo, preenchendo as lacunas institucionais
que existiam. E se tal aconteceu é por o caminho seguido até aqui ter falhado e
não por ter sido um sucesso. Se, por absurdo, se acredita que este regresso aos
mercados é resultado das políticas de austeridade, então é porque se continua a
não compreender a natureza da crise da dívida soberana.
Alguma
coisa mudou na Europa e, ainda que de forma oficiosa, o papel do BCE alterou-se,
empurrado pela degradação da situação de Espanha e Itália. Com um inaceitável
legado de destruição económica e de barbárie social (é disso que falamos quando
se assiste à destruição em massa de postos de trabalho), a Europa criou as
condições de viabilidade financeira de curto prazo para a sua própria
estratégia.
Regressámos
à casa de partida, mas acompanhados por uma enorme alteração nos equilíbrios de
poder, que tem um efeito positivo na capacidade de financiamento dos países.
Antes, a condicionalidade era negociada com a Troika (FMI, Comissão e BCE), no
futuro passará a depender, cada vez mais, do BCE. Um novo monarca absoluto na
política europeia, que centraliza as decisões e imporá condições, passando a
deter o monopólio da violência económica e social. Que a estrutura de poder se
altere de forma tão profunda e ninguém cuide de garantir níveis mínimos de
legitimidade é elucidativo do desvario político que impera na Europa."
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada está aqui.
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