"(...) Um
titular do cargo de ministro da Justiça zela pela garantia de coisas
elementares num Estado de direito, à cabeça de todas, a presunção de inocência,
e não pode nunca pactuar com condenações baseadas em percepções públicas sobre
corrupção, alimentadas por uma comunicação social que cavalga a insatisfação
social. Quando tudo parece ruir, a última coisa de que precisávamos era de
políticos que buscam a sua salvação pessoal na exploração dos sentimentos mais
negativos sobre a classe a que pertencem, ultrapassando levianamente a
fronteira que separa a barbárie da civilização e do Estado de direito. Até
prova em contrário, os políticos são todos corruptos, é-nos sugerido
diariamente; no fundo, Paula Teixeira da Cruz, ao afirmar que acabou o tempo da
impunidade (para bom entendedor, o tempo em que a corrupção não era punida),
vem confirmá-lo."
o resto do meu artigo do Expresso de 29 de Setembro pode ser lido aqui.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
"a lazy bastard, living in a suit"
Na véspera do regresso a Portugal de Leonard Cohen, a zona de conforto terá uma emissão especial dedicada à carreira do canadiano. Ao longo de uma hora, ouviremos algumas (e apenas algumas) das versões de originais de Cohen.
So Long Marianne - Bill Callahan The Songs of Leonard Cohen Covered
Suzanne - Fabrizio De André Canzoni
Avalanche IV - Jean-Louis Murat I'm Your Fan: The Songs Of Leonard Cohen
Chelsea Hotel #2 - Lambchop OH (Ohio)
Winter Lady - Palace Songs Hope
Bird On A Wire - Johnny Cash American Recordings
Famous Blue Raincoat - The Handsome Family Mojo Presents Cohen Covered
Hallelujah - John Cale I'm Your Fan: The Songs Of Leonard Cohen
Hey, That's No Way To Say Goodbye - Ian McCulloch I'm Your Fan: The Songs Of Leonard Cohen
para escutar aqui.terça-feira, 2 de outubro de 2012
O poder na rua
"(...) O
primeiro-ministro estabeleceu uma relação com os portugueses sem distância e onde
os mecanismos de mediação no exercício do poder foram aliviados. Não se deu ao
respeito e, à primeira oportunidade, os portugueses responderam-lhe no mesmo
tom. Procurou fazer assentar a sua legitimidade numa popularidade assente na
rua, numa relação “tu cá, tu lá” com os portugueses, apresentando-se como o
homem banal que nunca pode ser enquanto é primeiro-ministro e o país respondeu-lhe
na mesma moeda. Perante um justificado descontentamento, os portugueses saíram em
massa à rua, ao mesmo tempo que perdiam o respeito de forma irreversível ao
chefe do Governo. Pelo caminho, acentuou-se a degradação institucional, que
segue a um ritmo imparável.
Chegados
a este ponto, quando a situação económica se deteriora e o Governo está preso
nas armadilhas que colocou a si mesmo (à cabeça, a ideia peregrina de “ir além
da Troika”), todos os cenários apontam para o fim político da coligação
Passos/Portas: se o Governo inverter a trajetória, empurrado pela pressão da
rua, são dados incentivos objectivos para que a contestação social cresça; se
tudo continuar na mesma, o descontentamento continuará a crescer.
É-nos
dito, com razão, que a democracia radica numa legitimidade formal e não pode
cair na rua. O drama é precisamente esse: o primeiro-ministro foi à procura da
rua e, no Sábado passado, esta regressou a galope. Agora, já nada há a fazer. É
apenas uma questão de tempo. No fundo, “a rua” sabe que este governo acabou, só
não sabe quando é que vai ser removido."
o resto do meu artigo do Expresso de 22 de Setembro pode ser lido aqui.
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Alinhamento zona de conforto
Para ouvir, hoje, entre as 23 e as 24 horas, na TSF (streaming disponível aqui)
Angels - The xx Coexist
Angels - The xx Coexist
There Is A Valley - Bill Fay Life Is People
Either Way - Wilco Sky Blue Sky
Travelling Shoes - Lawrence Arabia The Sparrow
Forget The Song - Beachwood Sparks The Tarnished Gold
Benediction – Thurston Moore Demolished Thoughts
There's No Leaving Now - The Tallest Man On
Earth There's No Leaving Now
Uncle Albert/Admiral Halsey - Paul
McCartney Ram
Diamonds On The Soles Of Her Shoes - Paul
Simon Graceland (25th Anniversary
Edition)
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Palindrome Hunches
Neil Halstead: Hey Daydreamer on Nowness.com.
por aqui já não se sente o ambiente ensimesmado dos slowdive, nem a produção em colectivo dos mojave3. ao terceiro disco, é mesmo o neil halstead a solo. umas vezes mais nick drake, outra apenas apenas mais um cantor folk indiferenciado. no fim, resta a partilha das mesmas fixações. o video é uma tentativa conseguida de consolidar todos os fétiches e clichés e só há razões para elogiar este tipo. pena mesmo é só on-shore que se vislumbra.
por aqui já não se sente o ambiente ensimesmado dos slowdive, nem a produção em colectivo dos mojave3. ao terceiro disco, é mesmo o neil halstead a solo. umas vezes mais nick drake, outra apenas apenas mais um cantor folk indiferenciado. no fim, resta a partilha das mesmas fixações. o video é uma tentativa conseguida de consolidar todos os fétiches e clichés e só há razões para elogiar este tipo. pena mesmo é só on-shore que se vislumbra.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Regresso à zona de conforto
A zona de conforto regressa hoje à TSF, com horário novo (depois do noticiário das 23 horas) e em versão mais longa (sem interrupção para notícias à meia-hora). Por esta emissão passarão algumas das novidades, regressos,
concertos e também despedidas que marcaram o verão. A abrir, o extraordinário regresso dos Dirty Projectors, um disco que brilhará bem alto na lista dos melhores do ano.
Alinhamento
a emissão pode ser escutada aqui (fazer scroll down, link do lado direito)
Alinhamento
Dance for you – Dirty Projectors
Under the Westway – Blur
Let it be – Beatles
Be Good - Gregory Porter
You’ve Got Me – The Roots feat. Erika Badhu
Love Interruption - Jack White
Shine a Light - Rolling Stones
Where are you now - Dylan Le Blanc
All that I can- Sharon Van Ettena emissão pode ser escutada aqui (fazer scroll down, link do lado direito)
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Uma coligação de gente perigosa
"(...) Desde Vasco Gonçalves que Portugal não era
governado por gente tão perigosa. O trio Passos/Gaspar/Borges vê-se a si próprio
como uma nova vanguarda, a quem a verdade foi revelada e que julga representar os
interesses objectivos do país. Acontece que se continuarmos a insistir no ir
para além da troika, se não combatermos politicamente as exigências que nos são
feitas, se “não berrarmos” nas instâncias internacionais (para usar a feliz
expressão de Ferreira Leite), daqui a um ano teremos, de novo, metas do défice
revistas e mais anúncios de cortes e aumento dos impostos. Não é preciso nenhum
modelo para prever que a receita que falhou no último ano falhará num patamar
ainda mais elevado no próximo ano. (...)"
a versão integral do meu artigo do Expresso desta semana pode ser lida aqui.
a versão integral do meu artigo do Expresso desta semana pode ser lida aqui.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Tanto Mar na Magic Quiver
No próximo Sábado, dia 15, pelas 19 horas, eu e o João Catarino faremos um lançamento do Tanto Mar, com apresentação do João Valente, director da SurfPortugal, na Magic Quiver na Ericeira (junto ao largo do Jogo da Bola). Será uma oportunidade para conhecerem a surf shop com melhor gosto do país (talvez chamar-lhe surf shop seja redutor) e ver uma exposição das ilustrações que compõem o livro. São todos bem vindos.
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Those surfing days may well return
O Fugas do Público tem um bom texto sobre o Tanto Mar, com direito a fotogaleria, e aqui estão os artigos que foram saindo no Expresso durante o mês de Agosto.
Those surfing days are over
e o David Byrne continua a dançar em grande estilo, de tal forma que já conquistou a Annie Clark
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
domingo, 29 de julho de 2012
De surpresa em surpresa
"Basta recuarmos um ano para recordarmos as loas que eram tecidas ao memorando de entendimento. A troika, foi-nos dito, apresentava-nos o programa com as reformas estruturais que o país esperava há décadas. Por cá, num momento em que o patriotismo atingiu mínimos históricos, faziam-se sentir ondas de júbilo com o regresso dos salvíficos homens de negro. Um ano passado, chega a ser penoso assistir à troika a avaliar-se a si própria, tentando salvar a face perante uma solução que está a falhar.
O último relatório do FMI é exemplar da estratégia em curso. Colocada a Grécia de quarentena, Portugal tem de ser oferecido como exemplo de sucesso, dê por onde der: a aplicação do memorando é avaliada positivamente, mesmo que a execução orçamental esteja a falhar, o mercado de trabalho se afunde e ninguém faça ideia de como atingir as metas do défice para este ano e, pior, para o próximo. Até porque uma coisa é a realidade, outra a narrativa. E esta é simples. (...)"
o resto do meu artigo do Expresso de 21 de Julho pode ser lido aqui.
terça-feira, 24 de julho de 2012
quarta-feira, 18 de julho de 2012
A culpa é do Constitucional
"Primeiro foram os malandros do rendimento mínimo, mas não falei por não ser pobre. Depois, perseguiram os pensionistas. Nada disse então, por não ser velho. Em seguida, castigaram os funcionários públicos. Decidi não falar porque não sou funcionário público. Então, um dia, vieram tirar-me o meu subsídio de férias. Por essa altura, já não restava nenhuma voz que, em meu nome, se fizesse ouvir. O conhecido poema de Martin Niemoller, escrito num contexto brutal que nada tem a ver com a nossa realidade, é ainda assim uma boa metáfora para os riscos da ação política baseada na exploração do ressentimento.
Quando, no Orçamento de 2012, o governo optou por discriminar negativamente os pensionistas e os funcionários públicos, a estratégia tinha um objectivo: colocar trabalhadores do sector privado contra funcionários públicos. No fundo, a ideia era simples e passava por dar corpo ao sentimento difuso de que os funcionários públicos são uns preguiçosos com emprego protegido. Contudo, como quase sempre acontece com as ideias populistas, o que parece ter um fascínio inicial encarrega-se de trazer complicações sérias mais tarde. Essas complicações acabam de chegar com o acórdão do Tribunal Constitucional. (...)"
o resto do meu artigo do Expresso da semana passada pode ser lido aqui.
sábado, 7 de julho de 2012
segunda-feira, 2 de julho de 2012
terça-feira, 19 de junho de 2012
sexta-feira, 8 de junho de 2012
As previsões dos porcos-espinhos
"(...) partindo de uma parábola grega popularizada pelo filósofo Isaiah Berlin, Tetlock divide os especialistas em dois tipos: as raposas e os porcos-espinhos. A distinção assenta na ideia de que enquanto as raposas trabalham em várias frentes e procuram olhar para o mundo em toda a sua complexidade, evitando integrar as suas mundivisões num conceito geral unificador, os porcos-espinhos simplificam a realidade através de uma leitura organizadora baseada num conceito unificador, capaz de tudo traduzir em nexos causais lineares. No fundo, a raposa sabe muitas coisas enquanto o porco-espinho sabe uma grande coisa.
É precisamente essa a conclusão de Tetlock: os especialistas nos quais devemos acreditar são os que se aproximam das raposas – capazes da auto-crítica, ecléticos e disponíveis para actualizar as suas crenças face a novos factos. Já os especialistas que tendem a desempenhar pior o papel de cassandras são os que se aproximam dos porcos-espinhos – têm uma grande ideia, normalmente convincente e articulada, mas que aplicam a todos os acontecimentos. Tetlock acrescenta que os media preferem os porcos-espinhos. (...)"
o resto do meu artigo do Expresso de 26 de Maio pode ser lido aqui.
domingo, 3 de junho de 2012
Saudações do Parque da Bela Vista

A última emissão da zona de conforto foi dedicada em exclusivo à carreira de Bruce Springsteen. Pode ser escutada aqui (link do lado direito, emissão de 2 de Junho)
quarta-feira, 30 de maio de 2012
terça-feira, 22 de maio de 2012
O século XX recordado
"(...)Hoje, perante a catástrofe social e as consequências políticas que eram previsíveis, resta saber se a Grécia funcionará como vacina, obrigando a mudanças na Europa que impeçam o contágio e a dissolução dos sistemas partidários como os conhecemos, ou se, pelo contrário, estamos face ao início de uma epidemia que acabará por alastrar a toda a Europa, partindo das periferias, mas atingindo também o centro. Está nas mãos dos governos europeus escolher. Até agora têm cometido demasiados erros e, pior, têm insistido na trajectória falhada que ameaça os regimes.
Estamos a viver um momento crucial para a Europa e convém recordar lições da História que não devem ser esquecidas. A primeira das quais é que “não podemos ser inocentes outra vez” e pensar que a irracionalidade e o mal absoluto não são ameaças que estão sempre ao virar da esquina."
a versão integral do meu artigo de 12 de Maio do Expresso pode ser lida aqui.
a versão integral do meu artigo de 12 de Maio do Expresso pode ser lida aqui.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
E se nada mudar?
"(...) Apesar deste contexto, o centro-esquerda ainda não conseguiu desenvolver uma leitura partilhada da crise e articulá-la com uma resposta política coerente. Não há sinais de que Hollande seja capaz de responder a estes dois desafios.
Há, antes de mais, um problema estrutural. A esquerda democrática encontra-se em declínio ideológico porque ou foi incapaz de se readaptar a um contexto económico, social e demográfico muito diferente do do seu apogeu ou, quando o fez, como com a Terceira Via, teve os resultados conhecidos. Convém não esquecer que a crise que hoje enfrentamos resulta de uma arquitectura institucional da zona euro desenhada quando a maioria dos países europeus era governada por partidos social-democratas.
Hoje, o que o centro-esquerda tem para oferecer, desde a França com Hollande a Portugal com Seguro, é apenas um acto adicional ao estrangulamento político europeu. Talvez nenhum outro acontecimento cristalize esta dificuldade como a discussão em torno do Tratado de Estabilidade. Perante um conjunto de disposições que representa uma capitulação política da social-democracia, o que nos é proposto é mantê-las e juntar-lhes uma aposta no crescimento, que nunca se percebe bem em que instrumentos assentará. Hollande alterará o clima político e funcionará como um contrapeso. Espero estar enganado, mas, para além disso, pouco mudará."
a versão integral do meu artigo do Expresso de 5 de Maio pode ser lida aqui.
Há, antes de mais, um problema estrutural. A esquerda democrática encontra-se em declínio ideológico porque ou foi incapaz de se readaptar a um contexto económico, social e demográfico muito diferente do do seu apogeu ou, quando o fez, como com a Terceira Via, teve os resultados conhecidos. Convém não esquecer que a crise que hoje enfrentamos resulta de uma arquitectura institucional da zona euro desenhada quando a maioria dos países europeus era governada por partidos social-democratas.
Hoje, o que o centro-esquerda tem para oferecer, desde a França com Hollande a Portugal com Seguro, é apenas um acto adicional ao estrangulamento político europeu. Talvez nenhum outro acontecimento cristalize esta dificuldade como a discussão em torno do Tratado de Estabilidade. Perante um conjunto de disposições que representa uma capitulação política da social-democracia, o que nos é proposto é mantê-las e juntar-lhes uma aposta no crescimento, que nunca se percebe bem em que instrumentos assentará. Hollande alterará o clima político e funcionará como um contrapeso. Espero estar enganado, mas, para além disso, pouco mudará."
a versão integral do meu artigo do Expresso de 5 de Maio pode ser lida aqui.
sábado, 12 de maio de 2012
Your House
O Walter Benjamin esteve na zona de conforto a semana passada. Aqui fica uma interpretação despojada de Your House, uma das canções de The Extraordinary Life of Rosemary and Me.
terça-feira, 8 de maio de 2012
Até aqui, tudo bem
"(...) É uma ilusão pensar que tudo se manterá igual no sistema político com um período longo em que o comportamento da economia alterna entre o anémico e a recessão. Pura e simplesmente, o amor do povo pela liberdade não será suficiente para que daqui, por exemplo, a quatro anos, os portugueses se dirijam ordeiramente e em massa às urnas para depositar o seu voto nos partidos em que necessariamente deixarão de confiar.
A queda que vivemos começou por ser financeira, económica e social, mas a aterragem será inevitavelmente política e colocará em causa o regime. Como nos ensina a história europeia, a legitimidade dos regimes democráticos depende do pluralismo e da defesa do Estado de direito, mas estes valores só são politicamente sustentáveis se se alicerçarem em níveis de bem-estar suficientes, que funcionem como cimento das relações sociais. A questão não é apenas de privação material hoje, é também o modo como o regime gere expectativas sociais. Em “A classe média: ascensão e queda”, Elísio Estanque escreve que “enquanto numa trajectória ascensional se tende a antecipar a condição de chegada, na situação inversa procura-se a toda o custo negar a realidade, mesmo quando já se mergulhou nela até ao pescoço”. Ou seja, enquanto nas trajectórias ascendentes as expectativas vão sempre um passo à frente da posição individual, perante um fim abrupto desse percurso, a intensidade da frustração dispara, mas ao retardador. Um pouco como no filme de Mathieu Kassovitz: quando caímos, como agora acontece, primeiro negamos a sensação de perda, para depois chocarmos com a dura realidade da desilusão. Só então perceberemos que a solução para a crise deveria ter sido outra. Pode ser, contudo, demasiado tarde.
a versão integral do meu artigo do Expresso de 28 de Abril pode ser lida aqui.
domingo, 6 de maio de 2012
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Venus in Furs
Nunca saberemos se era nisto que estavam a pensar o Leopold von Sacher-Masoch, primeiro, e o Lou Reed e o John Cale, mais tarde, quando escreveram o Venus in Furs. Mas pode bem ser o caso. St. Vincent em todo o seu esplendor, ontem à noite no programa do Jools Holland (John Cale já havia abordado o tema, no mesmo programa, há uns anos).
também publicado aqui (onde tenho estado bem mais activo)
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Presos numa encruzilhada
"(...) Este Tratado visa consagrar a hegemonia da direita liberal à custa da capitulação política das restantes mundividências. Há uma diferença significativa entre um consenso desejável em torno da necessidade de consolidação das contas públicas e uma homogeneização que afasta as possibilidades dos Estados-membros decidirem o modo como alcançam a disciplina orçamental e que tipo de Estado social desejam. As consequências são evidentes: se o Tratado for para levar a sério, os Estados-membros menos desenvolvidos ficam privados dos mecanismos de política económica que tornam possível recuperar atrasos, ao mesmo tempo que continuam a não ter os instrumentos financeiros desejáveis, característicos de um sistema federal. No fundo, alienamos soberania, sem qualquer tipo de contrapartidas. Ainda assim, há uma réstia de esperança. No essencial, estamos perante uma institucionalização da hipocrisia: não só os preceitos do Tratado não visam responder às dificuldades que enfrenta a zona euro hoje, como não vão ser cumpridos pelos mesmos governos que agora os subscrevem (dos 25 Estados, apenas quatro cumprem, neste momento, o número mágico para o défice estrutural – sendo que Alemanha e França não fazem parte do grupo). No seu livro póstumo, Thinking the Twentieth Century, Tony Judt, numa conversa com o também historiador Timothy Snyder, deixa-nos uma espécie de lamento céptico: “é provável que, enquanto intelectuais e filósofos políticos, estejamos perante uma situação em que a nossa tarefa principal não é imaginar mundos melhores, mas, antes, pensar como é que podemos prevenir mundos piores”. No fundo, como mostra a discussão política na Europa de hoje, é isso que nos resta."
o resto do meu artigo do Expresso de 14 de Abril pode ser lido aqui.
terça-feira, 17 de abril de 2012
A tempestade perfeita no PS

"A sucessão de mini-crises no Partido Socialista, que teve esta semana o seu apogeu, pode ser lida como fruto da incapacidade de afirmação de António José Seguro, mas é bem mais do que isso. O PS enfrenta uma tempestade perfeita onde dificuldades estruturais se conjugam com obstáculos conjunturais e incapacidade da actual direcção.
Acima de todos os problemas circunstanciais, os socialistas enfrentam um de natureza estrutural, que dura já há algumas décadas. O sucesso político da esquerda democrática durante a segunda metade do século XX foi fruto de um contexto social, demográfico e económico que se alterou profundamente. No mundo de hoje, já distante do ‘liberalismo protegido’ do pós-guerra, a social-democracia passou a ter enormes dificuldades de afirmação. Não por acaso, a sua hegemonia em meados da década de noventa assentou numa agenda modernizadora que rompeu com a tradição e que aparentava ter sido desenhada para um novo contexto. Perante a crise da zona euro e a iminente consagração nos tratados de uma leitura da crise que institucionaliza o projecto político da direita, assistimos a uma capitulação política da esquerda democrática e vivemos as consequências das escolhas feitas pelos governos europeus há perto de uma década, que eram maioritariamente da terceira via.
Independentemente da leitura que possamos fazer das opções recentes, a verdade é que não há uma resposta coerente, do lado da esquerda, aos desafios que hoje se colocam. Até existir esta resposta, torna-se difícil construir um discurso programático consistente onde quer que seja. Portugal não é excepção. A crise, que aparentava ser uma oportunidade para reinventar a esquerda, transformou-se num poderoso mecanismo desagregador. (...)"
a versão integral do meu artigo do Expresso de 6 de Abril pode ser lida aqui.
sábado, 14 de abril de 2012
You Can't Win, Charlie Brown
Os You Can't Win, Charlie Brown passaram pela emissão da semana passada da Zona de Conforto, onde interpretaram Sad Song. Aqui fica o video. A emissão do programa está disponível aqui.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Airports and broken hearts you see,
Aqui há uns tempos tropecei numa música. Parecia-me que o Leonard Cohen tinha, por momentos, despertado de um longo sonho tropical para nos contar os desamores de que tomamos consciência em esperas demoradas em aeroportos. O nome do cantor não podia ser mais desconcertante: Walter Benjamin. Para quem, naquela canção em concreto, cantava sobre a consciência das perdas em viagem, até fazia sentido - tendo em conta que Walter Benjamin, o outro, se suicidou a caminho de Portugal, quando tentava fugir para os EUA, e foi obrigado a regressar à alemanha nazi. Depois, descobri que por detrás de Walter Benjamin se escondia um português radicado em Londres, Luís Nunes, e logo esqueci o pessimismo antropológico ao qual não conseguimos escapar quando nos recordamos da vida e do mundo de Walter Benjamin. Quando, por fim, ouvi na íntegra "The Imaginary Life of Rosemary and Me" tive a certeza que é possível sermos resgatados pelas canções. O disco é curto, pouco mais de 25 minutos para 8 canções, e, desde que o tenho, escuto-o em loop contínuo. Há, na simplicidade destas 8 canções, mesmo que cantadas em inglês, uma espécie de eco longínquo de "um país de bondade e de bruma", que parece encontrar raízes num imaginário doméstico, de onde partem todas as esperanças. Como canta Walter Benjamin a encerrar o disco: "your tiny dances should rule the outside world". É mesmo isso.
também publicado aqui, onde tenho estado bem mais activo.
também publicado aqui, onde tenho estado bem mais activo.
terça-feira, 10 de abril de 2012
Olhar para trás
"(...) Talvez um princípio avisado para o reformismo seja não cair na tentação do excesso de experimentalismo. Portugal tem muito a aprender com as soluções dos outros países, com os seus erros e sucessos. Ora, se nada mais, o facto de não existir rigorosamente nenhum país europeu com exames no 4º ano deveria ser motivo para ponderação. Mas, para o governo português, isso parece pouco importar.
É claro que os exames são um mecanismo fundamental para a aferição de conhecimentos e não podemos conceber ensino sem avaliação. Contudo, não são os exames que, por si só, garantem a qualidade da aprendizagem. Ora, hoje já existem provas para aferir os conhecimentos das crianças de nove anos que terminam o 4º ano (com uma avaliação qualitativa).
Esta fixação examinadora, que visaria contrariar a alegada cultura de facilitismo que terá contagiado todo o ensino em Portugal, esbarra nas evidências. Para além dos países que melhores resultados têm nas comparações internacionais serem aqueles que menos e mais tarde examinam, Portugal é também um caso de não facilitismo, apresentando uma das maiores percentagem de jovens até aos 15 anos que chumbou pelo menos uma vez. Os números impressionam: 35% dos jovens portugueses reprovaram, valor bem acima da média da OCDE (13%).
Nesta como em muitas outras matérias, talvez fosse preferível que o Governo, em lugar de encontrar resguardo em diatribes ideológicas, ainda para mais de carácter saudosista, e num maniqueísmo retórico, que só serve para esconder fragilidades programáticas, procurasse aproximar Portugal das boas práticas europeias. Ao olhar para trás, a estratégia do Governo só agudizará a natureza dos nossos problemas e contribuirá para focar o debate político em dicotomias redutoras e extremistas."
a versão integral do meu artigo do Expresso de 31 de Março pode ser lida aqui.
É claro que os exames são um mecanismo fundamental para a aferição de conhecimentos e não podemos conceber ensino sem avaliação. Contudo, não são os exames que, por si só, garantem a qualidade da aprendizagem. Ora, hoje já existem provas para aferir os conhecimentos das crianças de nove anos que terminam o 4º ano (com uma avaliação qualitativa).
Esta fixação examinadora, que visaria contrariar a alegada cultura de facilitismo que terá contagiado todo o ensino em Portugal, esbarra nas evidências. Para além dos países que melhores resultados têm nas comparações internacionais serem aqueles que menos e mais tarde examinam, Portugal é também um caso de não facilitismo, apresentando uma das maiores percentagem de jovens até aos 15 anos que chumbou pelo menos uma vez. Os números impressionam: 35% dos jovens portugueses reprovaram, valor bem acima da média da OCDE (13%).
Nesta como em muitas outras matérias, talvez fosse preferível que o Governo, em lugar de encontrar resguardo em diatribes ideológicas, ainda para mais de carácter saudosista, e num maniqueísmo retórico, que só serve para esconder fragilidades programáticas, procurasse aproximar Portugal das boas práticas europeias. Ao olhar para trás, a estratégia do Governo só agudizará a natureza dos nossos problemas e contribuirá para focar o debate político em dicotomias redutoras e extremistas."
a versão integral do meu artigo do Expresso de 31 de Março pode ser lida aqui.
terça-feira, 3 de abril de 2012
Olhar para trás
"this program provided for a joint metropolitan committee to examine unemployed relief applications and to separate respectable workmen temporarily unemployed from 'ordinary paupers'. For the former, it was hoped that relief work and several rural labor colonies would be provided, although no Exchequer grant was involved and major reliance was placed on private charity.
It was in reaction against this inherited policy that British impetus for labor exchanges and unemployment insurance developed"
Hugh Heclo, a escrever em 1974, sobre o Unemployed Workman Act de 1905 (que viria a ser revogado pelas propostas de Beveridge - aliás apoiado activamente por Churchill-, em 1911, e que criariam o primeiro subsídio de desemprego, tal como o conhecemos hoje)
It was in reaction against this inherited policy that British impetus for labor exchanges and unemployment insurance developed"
Hugh Heclo, a escrever em 1974, sobre o Unemployed Workman Act de 1905 (que viria a ser revogado pelas propostas de Beveridge - aliás apoiado activamente por Churchill-, em 1911, e que criariam o primeiro subsídio de desemprego, tal como o conhecemos hoje)
sexta-feira, 30 de março de 2012
quarta-feira, 28 de março de 2012
um exemplo de manual escolar
"Quando precisar de um exemplo do estado de degradação a que chegou o debate político em Portugal, não terei grandes hesitações. Escolherei a discussão em torno da Parque Escolar. É difícil encontrar outro caso tão paradigmático da pulsão a que os governos não resistem para diabolizar o que foi feito pelos seus antecessores, combinada com incapacidade de escrutínio por parte da comunicação social, e que culmina numa timidez exasperante da oposição na defesa do seu próprio legado. Um trágico retrato do país político. (...)"
o resto do meu artigo do Expresso de 17 de Março pode ser lido aqui.
o resto do meu artigo do Expresso de 17 de Março pode ser lido aqui.
segunda-feira, 26 de março de 2012
Amigos em Portugal
A notícia tem já vários meses, mas só agora me chegou: Vini Reilly, a alma dos Durutti Column, sofreu um AVC que o limitou fisicamente. Se bem que já tenha voltado a tocar e, inclusivamente, a compor, é ainda incerto se recuperará totalmente.
Uma das bandas mais importantes da Factory Records (na verdade, a primeira a “assinar” com Tony Wilson), os Durutti Column foram responsáveis por alguns dos discos mais singulares da década de oitenta. The Return of the Durutti Column, LC, Another Setting e Circuses and Bread são, ainda hoje, álbuns parcimoniosos, mas assentes numa complexidade que encontra poucos ou nenhuns paralelos na cena pós-punk britânica. O dedilhar único da guitarra de Vini Reilly, a fragilidade da sua voz, usada apenas a espaços, e a bateria de Bruce Mitchell deixavam o campo aberto para sonhos bucólicos. Acima de tudo, pairava uma capacidade melódica presa a ambientes capazes de, por vezes, ofuscar toda a tristeza que encerrava aquela música. Quando as músicas dos Durutti Column se entranham, nunca mais nos podemos sentir abandonados. Sobre a banda, Miguel Esteves Cardoso escreveu, já lá vão quase trinta anos: “esta música não é uma coisa prosaica e ingénua; não é papel-de-parede para tapar os buracos verdadeiros. Aqui há também uma luta. O que é preciso é raspar levemente a superfície da pintura, para encontrar a sua base de tintas negras e feias, o seu medonho inconsciente. Não há beleza sem contraponto, nem harmonia sem contraste. E a música de Vini Reilly é só isso.” É mesmo só isso.
A versão ao vivo da Jacqueline que aqui se vê (de 1988) é superior à versão mais curta do LC (ou da LC). Aliás, o tema sempre ganhou em versões ao vivo, com o solo do Bruce Mitchell (tão impressionante como a sua expressividade) a criar o contexto certo para que a guitarra volte a cair no tema.
texto também publicado aqui.
Uma das bandas mais importantes da Factory Records (na verdade, a primeira a “assinar” com Tony Wilson), os Durutti Column foram responsáveis por alguns dos discos mais singulares da década de oitenta. The Return of the Durutti Column, LC, Another Setting e Circuses and Bread são, ainda hoje, álbuns parcimoniosos, mas assentes numa complexidade que encontra poucos ou nenhuns paralelos na cena pós-punk britânica. O dedilhar único da guitarra de Vini Reilly, a fragilidade da sua voz, usada apenas a espaços, e a bateria de Bruce Mitchell deixavam o campo aberto para sonhos bucólicos. Acima de tudo, pairava uma capacidade melódica presa a ambientes capazes de, por vezes, ofuscar toda a tristeza que encerrava aquela música. Quando as músicas dos Durutti Column se entranham, nunca mais nos podemos sentir abandonados. Sobre a banda, Miguel Esteves Cardoso escreveu, já lá vão quase trinta anos: “esta música não é uma coisa prosaica e ingénua; não é papel-de-parede para tapar os buracos verdadeiros. Aqui há também uma luta. O que é preciso é raspar levemente a superfície da pintura, para encontrar a sua base de tintas negras e feias, o seu medonho inconsciente. Não há beleza sem contraponto, nem harmonia sem contraste. E a música de Vini Reilly é só isso.” É mesmo só isso.
A versão ao vivo da Jacqueline que aqui se vê (de 1988) é superior à versão mais curta do LC (ou da LC). Aliás, o tema sempre ganhou em versões ao vivo, com o solo do Bruce Mitchell (tão impressionante como a sua expressividade) a criar o contexto certo para que a guitarra volte a cair no tema.
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