terça-feira, 11 de março de 2014
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
A angústia do adepto
Há umas semanas, Miguel
Esteves Cardoso escrevia, no Público, um artigo notável sobre a dificuldade que
havia encontrado para saber a que hora se realizava o Benfica-Sporting de ... domingo.
Depois de questionar vários benfiquistas, acabaria por encontrar a resposta
definitiva quando perguntou ao irmão: este não só lhe disse que “claro que não
sabia a hora”, como lhe adiantou que “nenhum benfiquista digno desse nome
queria saber da hora”. Mais, acrescentou que “nenhum benfiquista deixaria de ir
à Luz ou de ver o jogo e perguntou, com gentileza, ‘Ou tu julgas que um
benfiquista quer saber a hora para ver se ainda dá para ir ao cinema?".
Eu não preciso de saber a
que hora o Benfica joga para organizar as minhas semanas em torno de dois
momentos: o último jogo do Benfica e o próximo jogo do Benfica. Se estas são as
balizas do meu quotidiano, fui-me habituando, com dificuldade, a gerir as
angústias do pós-jogo e do pré-jogo. Sei o que faço com as vitórias, mas sei
também que não as saboreio o tempo suficiente, pois logo começo a sofrer com a
ansiedade da próxima partida do glorioso. Já as derrotas, mesmo com o passar do
anos, não sei que fazer delas.
Não só não desvalorizo uma
partida perdida pelo Benfica, como não suporto que relativizem a importância do
sucedido. Para mim, a questão tem a importância que tem – ou seja, muita – e só
é ultrapassada com nova vitória e uma exibição redentora. Aliás, há derrotas
que nunca ultrapasso. Gosto mais de olhar para elas como traumas insuperáveis,
com os quais tenho de aprender a viver.
Pois, em quase 4 décadas de
benfiquismo, nunca tinha sentido o que senti quando desci as escadarias do
estádio no domingo. Um vazio existencial, um anticlímax, uma sensação que
desconhecia: o Benfica não ganhou, nem empatou, nem perdeu. Foi uma outra
coisa: um buraco na organização do meu quotidiano. Por uma vez, o Benfica não
esteve lá à hora prevista.
Espero que hoje os nossos
jogadores encontrem, neste vazio de adeptos como eu, uma responsabilidade
acrescida e que, na vontade de o preencherem, tenham o suplemento de motivação
para ganhar.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Just be simple
Não há bolsas da FCT suficientes para o número de teses que se podia fazer sobre esta música.
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Derrotar o cinismo
O Pete Seeger morreu. Tinha 94 anos e uma vida inteira de activismo (radical). É, para mim, mais um muito cá de casa que se vai. Ouvi-o - e ouvi falar dele - desde que nasci e mais tarde redescobri-o via Bruce. Há 5 anos, num dia gelado, num dos momentos mais emocionantes da minha vida (vá, das nossas vidas), cantou uma versão integral (sem censuras) do This Land is Your Land para Obama. Imagino que a vida dele tenha ficado, na medida do possível, cumprida naquele momento. Devemos-lhe um dos combates mais difíceis: a luta diária contra o cinismo.
O extraordinário da vida do
Pete Seeger é que morreu aos 94 anos e, tudo somado, ganhou. É um daqueles
(poucos) casos em que no fim ganham os bons.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Num mundo perfeito
We're gonna live in Nashville and I'll make a career
Out of writing sad songs and getting paid by the tear
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Um momento
Deixem-me, a propósito do Benfica-Porto, recuperar a
explicação do escritor britânico Martim Amis para o fascínio exercido pelo
futebol: “é o único desporto que, normalmente, se decide por um golo, por isso
a pressão do momento é mais intensa do que em qualquer outra modalidade”. Os
jogos discutem-se numa lenta monotonia, organizada e por vezes de pendor
burocrático – médios que pautam o ritmo do jogo, outros, com cultura táctica,
que conferem disciplina nos “processos defensivos” – mas não fora os momentos de
desorganização, em que o sentido que os treinadores deram à equipa se perde, os
estádios estariam vazios.
Lazar Markovic. Ninguém que sinta a paixão pelo futebol
precisou de ver mais do que dois minutos do sérvio com uma bola nos pés para
logo ter a certeza que estávamos perante a matéria de que se fazem os sonhos
dos adeptos. A bola como prolongamento de um corpo ziguezagueante e uma
aproximação romântica a cada jogada. Com o jovem sérvio não há nunca terceira
via – a opção é irremediavelmente entre uma perda de bola incompreensível,
seguida de um baixar de braços, como se estivesse a gerir uma derrota
individual, ou uma arrancada de génio, daquelas que ninguém sentado na bancada
foi capaz de antecipar.
Um instante pode ser mesmo a eternidade e dura no tempo quem
tudo apostou no momento. Quando, aos 13 minutos de jogo, vi Markovic, com
elegância principesca, a cavalgar pelo centro do terreno, com os jogadores
adversários a desabarem à sua passagem, tive a certeza que o Benfica estava a
construir a sua vitória, mas mais certo fiquei de que, passados uns anos, não
guardarei memória do resto do jogo, mas aquele momento, feito de rasgo de
talento, perdurará para sempre nas minhas recordações.
Nota:
O Benfica dos últimos anos foi irrepreensível com Eusébio. Em vida e na última
semana, o Rei teve todas as homenagens devidas e muitas mais terá para honrar a
sua memória. Mas os gostos discutem-se e a estátua de Eusébio não merecia ter
sido presa dentro de uma marquise.
publicado no Record de hoje.
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Eu não o vi jogar
Com uma lucidez exata, o
poeta Ruy Belo disse um dia que “Fernando Pessoa nunca seria conhecido por
tanta gente como Eusébio”, para logo acrescentar que “achava bem”. Numa curta
resposta numa entrevista, Ruy Belo, que é juntamente com Pessoa o nome maior da
poesia portuguesa do século XX, mas era, em igual medida, um benfiquista
apaixonado, esclarecia o ponto: “a poesia é por natureza difícil. Como o
futebol. (mas no futebol encontramos) o êxito.”
Faz sentido colocar lado a
lado duas artes maiores: a poesia e o futebol. Nas duas, entrevemos a mesma
capacidade de tornar simples o complexo. Há numa partida de futebol demasiadas
variáveis e obstáculos que aparentam ser intransponíveis, e o segredo está em
saber simplificar o jogo. Um grande jogador é isso que faz: encontra escapes
fáceis, que nenhum outro foi capaz de vislumbrar. O propósito da poesia não é
diferente, através de palavras concretas, atentas ao pormenor, revelar-nos
resquícios da verdade. Em poucos sítios como no futebol e na poesia podemos avistar
uma glória absoluta.
Eu nunca vi Eusébio jogar,
mas é como se o tivesse visto. Sei bem o que uma jogada deslumbrante, uma
cavalgada monumental, com uma força que parecia estranha a todos os outros, ou
um remate explosivo, podem fazer pela revelação da verdade. Sei, por isso, que
um grande jogador em nada se distingue de um grande poeta. Sei que há tanta
verdade nos dribles serpenteantes do Maradona como nas palavras enigmáticas de
Borges; na perfeição clássica de Pelé como na afinação suprema da voz de João
Gilberto; na altivez superior de Beckenbauer como no romantismo da poesia de
Goethe. A diferença está, como bem notou Ruy Belo, que um poeta terá menos
possibilidade de alcançar o êxito, revelar essa verdade a um maior número de
pessoas.
Eusébio aproximou-nos a
todos nós, portugueses, por escassos instantes, com os seus golos, um pouco
mais do absoluto. É essa a matéria de que são feitos os génios. Como é sabido,
não se repetem, mas é também o que lhes oferece a eternidade.
publicado no Record de hoje
domingo, 5 de janeiro de 2014
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Os melhores discos de 2013
1. Bill
Callahan – Dream River (Drag City)
Pode
alguém cantar a mesma canção anos a fio e surpreender-nos sempre ao revelar um
ângulo (ainda) mais intenso e dramático? Bill Callahan prova que sim e
deixa-nos com Dream River aquele que é o ponto alto da sua longa carreira – o
que não é pouco. Ao ponto de, com suprema ironia, declarar, “I've got limitations like Marvin Gaye”.
2. Vampire
Weekend – Modern Vampires Of The City
(XL)
Com
o seu pop-rock de travo fácil e sofisticado, estes quatro rapazes de nova-iorque,
presos entre o hype global e os
ritmos africanos como interpretados por Paul Simon em Graceland, pareciam
correr o risco de se repetir, tornando-se redundantes. Mas, ao terceiro álbum,
resolveram baralhar (foi-se o imediatismo rock) e voltar a dar (ganhou-se
sofisticação formal). Um disco que, sendo uma evolução na continuidade,
surpreende e que se vai entranhando.
3. Laura
Marling - Once I Was an Eagle (Ribbon Music)
São
aparentemente limitados os caminhos da folk e, por vezes, parece que o espaço
para rupturas já foi todo ocupado. Mas esta jovem aristocrática britânica arrebata
pela sua maturidade e não hesita em dialogar com os grandes. O tom dylanesco é
evidente e um disco descarnado, no osso, pode mesmo voar alto e ser um soco no
estômago.
4. Jim
James - Regions of Light and Sound of God (ATO)
Para
quem está convencido que “nada muda”, a estreia a solo de Jim James, líder dos
míticos My Morning Jacket, funciona como poderoso argumento de sentido
contrário. Por aqui não há resquícios do guitar-hero inspirado em Neil Young,
mas apenas uma soul orquestral, poderosa e empurrada por algumas das canções do
ano. Nunca se ouviu um Jim James tão inspirado.
5. Prefab
Sprout – Crimson/Red (Icebreaker Records)
Dez
anos passados, a pop volta ao lugar onde foi mais feliz. Paddy McAloon,
o “velho mágico” da canção pop, redescobre os seus Prefab Sprout e leva-os de
volta ao sítio onde havíamos ficado: canções trauteáveis, arranjos imaculados e
lampejos de utopias melódicas como as que herdámos de “Steve McQueen” e “From
Langley Park to Memphis”. Um disco irresistivelmente conservador.
6. Julia
Holter – Loud City Song (Domino)
Ao
terceiro disco, Julia Holter encontra a dose certa de vanguardismo formal e
enlevo pop e oferece-nos um álbum que precisa de tempo para ser apreciado. Esta
californiana pega no legado de experimentalismo pop, onde Laurie Andersen e
Kate Bush o deixaram, e devolve-nos canções de filigrana, que refletem uma
ingenuidade de natureza lynchiana. A certa altura Holter canta “I don't understand falling leaves. A tree's a tree", e
por detrás da complexidade da sua música emerge esse mesmo lado essencial.
7. The
National – Trouble Will Find Me (4AD)
Patronos
da legião mundial de auto-depreciativos, capazes de combinar guitarras
abrasivas com cadência melódica e porta-vozes da geração sobre-30
urbano-depressiva, os The National continuam a revelar, álbum após álbum, as
mesmas “canções tristes para amantes sujos”. Trouble Will Find Me não destoa.
Não tem a energia primitiva de Boxer, nem os hinos para cantar de punho erguido
no recato do quarto de Alligator, nem sequer o apelo mainstream de High Violet. Mas é possível resistir ao apelo por conforto
de Matt Berninger quando se descreve (ou nos descreve?) como “a television version of a person with a broken heart”?
8. Alela
Diane – About Farewell (Burnside)
Há
poucos desafios tão difíceis como cantar com contenção o desalento do fim de
uma relação – a linha a separar o bom
gosto da pura lamechice é muito ténue. Alela Diane enfrenta o desafio com
sucesso e About Farewell, sendo um retrato do fim, é também um início, que
combina frustração com uma esperança desalentada, e por isso mesmo realista. A
intimidade que se ouve neste disco é de tal forma vivida que somos capazes de,
ao escutá-la, vivê-la como nossa. Poucos discos soaram tão autênticos este ano.
9. Nick
Cave & the Bad Seeds – Push the Sky Away (Bad Seed Ltd.)
Se
tirarmos Leonard Cohen, ninguém canta de forma tão exata a combinação de amor, religião,
poder e sexo que nos forma como Nick Cave. Mas se, no início da carreira, a
marca do australiano era o negrume e a atração pelo abismo, com a maturidade a
sua música foi-se revelando crescentemente suave, como que para encobrir os
temas de sempre. O disco deste ano, o 15º da banda, marca o fim da parceria de
décadas com Mick Harvey e tem nos loops incessantes de Warren Ellis uma base
sonora que funciona como uma tempestade tranquila e que faz emergir uma
mão-cheia de canções que fará parte do cancioneiro de Cave.
10. Volcano
Choir - Repave (Jagjaguwar)
O
que começou por ser um projecto paralelo e experimentalista de Justin Vernon
(Bon Iver) com membros dos Collections of Colonies of Bees, soa, ao segundo álbum, como uma combinação das duas
dimensões de Bon Iver: o lado mais bucólico e intimista do disco de estreia com
a natureza grandiloquente do segundo álbum. Para os fãs do Bon Iver mais
recente, o disco de Volcano Choir enche as medidas, para os nostálgicos da sua
estreia, sempre serve para matar saudades.
para ouvir aqui.
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