Num belo texto sobre os 20 anos do Definitely Maybe (prefiro nem pensar na efeméride), o Noel é citado dizendo que "nunca devemos ter medo do óbvio pois tudo já foi feito antes". Como já andava há umas semanas para falar sobre isto, foi o pretexto adequado. O isto é o concerto de tributo ao disco do Gene Clark, "No Other". Quem é o Gene Clark? e o que é o "No Other"? Até há umas semanas, não fazia ideia. Foi um dos membros dos The Byrds que, ao contrário do Roger McGuinn, teve uma carreira mais discreta. Já o "No Other" é um disco meio perdido, produto de uma daquelas excentricidades de estúdio em que os setenta foram profíquos, e que a editora pouco promoveu. Pois o disco é uma pérola e foi (re)tocado na íntegra por um combo de all-stars. Está aqui para audição/visionamento integral e, no essencial, é isto: serve para mostrar que muitos dos disquinhos que agora incensamos já foram feitos e não trazem nada de novo (não vejo nisso nenhum problema). Moral da história: razão tem o Noel com a sua sabedoria popular.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
quarta-feira, 21 de maio de 2014
É bonita a festa, pá!
Não há nenhuma racionalidade
nisto: a verdade é que não sou entusiasta do novo Estádio da Luz. É
indiscutível que ganha em conforto e segurança, que se entra e sai com mais facilidade.
Ninguém duvida. Mas tenho nostalgia do banco de pedra corrido, da chuva que nos
apanhava desprevenidos e, claro, do célebre movimento dos “sócios de avançada”,
que ao intervalo se deslocavam de um lado para outro da bancada para acompanhar
os ataques da equipa.
O
velho estádio já não existe, mas guardo um fascínio por essa ruína de um
passado que não volta. Sei bem o que procuro nessa memória: o que lá vi –
caminhadas hegemónicas do Glorioso rumo a títulos – e o que lá vivi. Havia um
miúdo (na verdade éramos muitos) que esperava na ponte que dava acesso à
entrada do 3º anel para entrar no estádio à boleia de um adulto. Quando vou ao
futebol, vou sempre à procura daquela criança que, na velha Catedral, descobriu
uma mão-cheia de super-heróis e se deixou prender para sempre às camisolas
vermelhas.
Hoje,
ninguém me tira o prazer das idas religiosas ao Benfica, mas em nenhum outro
estádio me reencontro com o futebol que descobri na infância como no Jamor.
A Taça tem um encanto
particular por ser o culminar da época, por alimentar os sonhos dos “tomba
gigantes” e pelo prazer de traçar um perímetro na mata e, depois, durante horas,
ficar por ali a antecipar o início do jogo, em patuscadas sem fim. Parte
importante da festa da Taça está nessa inclinação democrática e popular. Mas não
é apenas isso que explica o fascínio que guarda quem já esteve no Jamor e, mais
ainda, viu a sua equipa a trazer o “caneco”.
A Taça é a Taça porque a
final é disputada no Estádio Nacional, um lugar como já não há – memória viva
de um ambiente cénico que, em duas décadas, desapareceu do futebol. É também isso
que me faz levar o meu filho, pela mão, ao Jamor. É a forma que tenho de lhe
mostrar o futebol como o conheci no início da década de oitenta.
publicado no Record hoje.
terça-feira, 13 de maio de 2014
Rumo à vitória
O
que fizeram este ano foi notável. Após um final de temporada traumático, foram
capazes de se manter unidos e, contra as expectativas de muitos, conquistar
títulos. Estou certo que a vitória no campeonato teve para vocês o mesmo travo
inesquecível que teve para nós, adeptos - não foi uma conquista como outras,
foi o antídoto para uma desilusão colossal. O melhor ainda está para vir.
Amanhã
é um dos momentos da vossa vida. Não passará um dia em que não se recordarão
deste jogo. Podem conquistar muitas vitórias nas vossas carreiras, poucas terão
o sabor de uma final europeia. Quando olharem para trás, guardarão a memória
daquele dia em que subiram ao relvado da Juventus, uma segunda vez consecutiva,
com o manto sagrado do Glorioso vestido. Não se tratará apenas de uma reminiscência
do passado, fará parte da vossa identidade.
Aqueles
de vós que perderam com o Chelsea querem vingar o sabor da derrota do ano
passado. Para nós benfiquistas, é bem mais do que isso que está em causa. O
nosso capitão, o Luisão, já vos deve ter feito sentir o peso que carregamos de
tantas finais europeias perdidas. O Shéu Han, que transporta a memória do
Benfica, pode bem ter-vos contado da maldição que, diz-se, foi deixada pelo Béla
Guttmann. Mas vocês sabem que os jogos não se ganham com fé ou superstições.
Ganha sempre a equipa que for mais inteligente e, por que não dizê-lo, mais
dura. Em Turim, usufruam do momento, mas tornem-no também inesquecível.
Este
ano já nos encheram de alegria, contudo, o dia de amanhã fará a diferença: para
mim, que vou estar na curva sud com
alguns bons amigos, para os outros milhares que vos acompanharão a Turim, e
também para todos os que ficaram em Portugal ou que estão espalhados pela
diáspora a sofrer convosco. Vamos ser o vosso suplemento de alma, a fonte de
energia extra e um reforço de confiança. Joguem por nós e corram com o nosso
apoio. Mas ganhem por vocês. É a retribuição que podem dar pelo talento que têm
e pela graça que vos fez futebolistas do grande Benfica.
publicado hoje no Record
quarta-feira, 7 de maio de 2014
Jogar com o Manel
Sei bem qual é o sonho de quem
assiste ao jogo desde a bancada: ver em cada jogador um reflexo de si próprio.
O jogador ideal é um adepto como nós, mas com uma grande diferença – tem
talento. É por isso que sonhamos todos com jogadores com amor à camisola,
disponíveis para dar tudo pelo clube e que na derrota derramam lágrimas de
tristeza, da mesma forma que não escondem a emoção (e as lágrimas) na vitória.
Aqueles que pisaram os relvados de
Turim, numa noite heroica que nos acompanhará por muitos anos, revelaram o
perfil ideal para o adepto fervoroso. Quando regressarmos àquela jornada, que já
está guardada ao lado de outros empates míticos (sim, estou a pensar nos 4 a 4
de Leverkusen há 20 anos), o que recordaremos é a resistência daqueles bravos,
a forma como se mantiveram unidos e honraram as camisolas do Benfica.
Mas será que o que explica o
sucesso do Glorioso este ano é a atitude combativa que vimos na quinta-feira? Não.
A atitude combativa é, ela própria, consequência de outros fatores e não a
causa explicativa do sucesso. Depois do falhanço traumático de Maio passado, e
das hesitações do início de temporada, a equipa está hoje unida, mas a coesão é
fruto de um contexto que faz sobressair talentos individuais e que aumenta a
intensidade com que jogamos.
O Benfica que pode ganhar tudo não
é apenas uma equipa forte nas transições, mas com problemas para gerir a posse
de bola ou que apresenta fragilidades quando chamada a defender. Pelo
contrário, chegamos ao final de época muito organizados em todas as fases do
jogo, exibindo um notável trabalho de treino. Ao contrário do que acontecia, este ano somos muito competentes a defender e a controlar o jogo a
meio-campo, mesmo que já não revelemos o carrossel atacante do passado. Somos
por isso uma equipa melhor. Uma equipa preparada para vencer e,
sintomaticamente, capaz de jogar com 10, 9 ou até, se for caso disso, na feliz
expressão do treinador, com o “Manel” a titular.
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Mas é trágico
A euforia da vitória não seria possível se, à espreita, não
estivesse sempre uma derrota de contornos épicos. As conquistas do nosso Benfica
este ano não teriam o mesmo sabor sem a tragédia de Maio. Há, no entanto, algo
de assustador num desporto que consegue causar tantos estragos na derrota e
tanta emoção na vitória.
Lembrei-me disto quando, entre escalas de aviões, vi o
Liverpool-Chelsea no aeroporto de Frankfurt. Ao meu lado, um camarada sofredor,
adepto com “red pass” em Anfield, com uma viagem de trabalho que o impedia de
estar no estádio, dizia-me ao intervalo, antes de se dirigir para a porta de
embarque: “de todos os jogadores, isto tinha de acontecer com o Gerrard. Tenho
a certeza de que ele vai marcar na segunda parte”. Eu fiquei a torcer por ele.
Mas, no futebol, um espelho da vida em tons grandiloquentes, não há justiça
poética. O Liverpool perdeu.
O momento: meio campo defensivo, Gerrard tem a jogada
controlada, num instante de descontracção deixa passar a bola, ainda tenta
recuperar, escorrega, abrindo uma auto-estrada para Demba Ba marcar. O futebol
é, no essencial, um jogo colectivo, mas está cheio de tragédias individuais – o
super-capitão com paixão de adepto, que não escondeu as lágrimas após a vitória
contra o City, para logo juntar os companheiros, unindo-os num apelo
carismático, deitava tudo a perder.
Já no avião, regresso ao livro de Geoff Dyer, ‘Mas é bonito’,
um comovente tributo a algumas lendas marginais, fundadoras do jazz. Aí se
descreve a história de Bud Powell, pianista de intuição perfeita, mestre do
bebop, mas também génio desgraçado por uma vida de dependências. A certa
altura, Powell tenta voltar a tocar, mas é ultrapassado pela hesitação nas
notas, perde o equilíbrio e abandona o palco. Tudo se desmorona. Dyer escreve
que “era como ver um ginasta e ter como certas aquela agilidade e força até que
ele cometia um pequeno erro e caía no chão. Só aí é que te apercebias de que
fizera parecer banal o que era praticamente impossível. E de que, mais do que
os mortais perfeitos, é a queda que exprime a verdade, a essência do movimento;
é essa memória que guardas para sempre.”
É caso para dizer que, aconteça o que acontecer no fim da temporada, Gerrard não caminhará sozinho. A forma como caiu no domingo ficar-me-á na memória, da uma forma grandiosa que supera os seus feitos.
(versão não editada - e mais longa - do texto ontem publicado no Record)
quarta-feira, 23 de abril de 2014
o meu campeonato
No Domingo, na ressaca de
horas de tensão emocional, telefonaram-me da TSF para reagir ao regresso do
campeão. Não tenho bem presente a pergunta do Mário Fernando, mas terá sido
qualquer coisa como: “o que é que destacas no título deste ano?”
Se
não sei bem o que me foi perguntado, sei o que respondi: “foi o primeiro
campeonato que celebrei no estádio com o meu filho”. Quando chamado a fazer uma
análise ponderada sobre o percurso atribulado que trouxe o Benfica de novo às
vitórias, o que me veio à cabeça foi, de forma imparável, a minha relação com o
futebol.
Podemos
bem enredar-nos em análises do sistema de jogo, olhar para as estatísticas,
avaliar se é mais eficaz jogar em 4x4x2 ou 4x3x2x1; no fim, quando o tema é
futebol, somos remetidos para um território de suspensão da razão. Fechados num
estádio para ver um jogo e, depois, para contemplar a felicidade infantil dos
jogadores que correm sem sentido em volta do relvado, num momento de partilha
com todos os sofredores de bancada, estamos numa espécie de reserva emocional, ausente
no resto da vida.
Há
muito que sei quão fascinante é poder participar daquela alegria. Julgo que o
intuí primeiro quando, ainda bem miúdo, via, desde a janela, as filas de carros
estacionados à porta de casa, com adeptos que se dirigiam para a Luz. Não sei
se por ter sido vizinho do estádio, mas quando comecei a assistir aos jogos
desde a bancada tive a confirmação do prazer que se encontra vitórias do nosso
clube. Mas, devo dizer-vos, uma coisa é sermos nós a ver a partida; outra, bem
distinta, é olhá-la desde os olhos dos nossos filhos e, naquele momento de
exaltação absoluta – a celebração do golo, os cânticos da glória do título – podermos
abraçar-nos e sentirmos neles a alegria que é também a nossa.
Este
campeonato é do nosso capitão, o Luisão; do Presidente; do Jesus; do Enzo – que
põe a equipa toda a pensar futebol. É também de todos os adeptos que sofreram
em maio. Mas, para mim, este é o campeonato em que celebrei os golos do Lima
abraçado ao Vicente, depois de ter ganho por 10 a zero ao Sporting numa
peladinha imaginada pela Leonor, que fazia de Cardozo.
publicado no Record de ontem.
quarta-feira, 16 de abril de 2014
O clube do povo
As primeiras mágoas são as
mais duras e ficam para a vida. Eu sei quando o meu mundo futebolístico
primeiro desabou: num verão quente de 82, quando o escrete de Telê Santana – um
compêndio de poesia – foi derrubado pelo cinismo italiano e, depois, ao ver, em
duas temporadas consecutivas, o Liverpool de Dalglish, Rush e Souness destratar
o Benfica na Luz (numa das noites com uma exibição trágica do grande Bento).
Se o tempo não cura as
feridas inaugurais, a maturidade ensina-nos a olhar de outra forma para as suas
causas. Hoje, o futebol romântico das equipas de Telê continua a ser a medida
de todas as equipas, mas não desdenho a organização racional das equipas
italianas do início dos 80. E aprendi a admirar o Liverpool que vi esmagar o Benfica.
Não é o facto de o Liverpool
ter sido o clube mais forte nos meus anos formativos como adepto de futebol que
fez a diferença. Mesmo durante duas décadas de declínio, não deixei de
vislumbrar na cultura reds a ideia
que faço de um clube perfeito: paixão incondicional; ambiente marcadamente
popular e um clube que pertence a todos.
Bill Shankly, escocês,
filho de mineiros, herói da classe operária e manager mítico do Liverpool, disse um dia que a “palavra
fantásticos tem sido usada muitas vezes, por isso tenho de inventar outra para
descrever com precisão os espectadores em Anfield. É mais do que fanatismo, é
uma religião. Para os muitos milhares que aqui vêm em adoração, Anfield não é
um campo de futebol, é uma espécie de santuário. Estas pessoas não são apenas
adeptos, são membros de uma família alargada”. Os cânticos arrepiantes entoados
desde o kop e acompanhados por todas
as bancadas continuam a ser sinal dessa unidade de propósitos.
As tragédias de
Heysel e Hillsborough deram uma intensidade dramática acrescida ao Liverpool,
mas puseram fim à senda vitoriosa. Foi por isso um ato de emocionante justiça
poética que, 25 anos passados sobre Hillsborough, o Liverpool tenha voltado a depender
de si próprio para ser campeão. Em Lisboa, celebrei a vitória contra o City
quase como se de um jogo do Glorioso se tratasse. Como o meu Benfica, o
Liverpool é o clube do povo. Só não é português.
publicado ontem no Record.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Medo Cénico
Na primeira metade da década
de oitenta, a história repetia-se. O Real Madrid perdia os jogos fora na Taça
dos Campeões Europeus, para depois realizar remontadas inesquecíveis no
Santiago Bernabéu. Num desses jogos, após um
derrota por 3-0 em Bruxelas, contra um super-Anderlecht, onde brilhavam, entre
outros, Scifo e Vercauteren, o Real venceria por 6-1, em Madrid, com hat-trick de Butragueño, um golo de
Sanchís e ... dois golos de Valdano. Butragueño foi o homem do jogo, mas foi
nesse momento que Valdano se fez escritor. Antes do desafio, o avançado argentino
tinha deixado um aviso: “o adversário sofrerá com o medo cénico do Bernabéu”. E
assim foi contra os belgas. À época, os adversários temiam os jogadores do
Real, mas, acima de tudo, o público nas bancadas.
Valdano utilizou
primeiro a expressão para se referir ao palco que via a Quinta del Buitre actuar, mas a ideia de que há um temor irracional a
pairar sobre um jogo de futebol, que pode contaminar os 22 jogadores em campo,
está presente em todos os estádios.
O Benfica iniciou esta época a necessitar de lidar com um verdadeiro medo
cénico: as três mortes na praia do fim da temporada passada surgiram como um
espectro, que empurrou a equipa para uma espiral recessiva. Depois de um início
aos soluços, o Benfica renasceu e recuperou de uma forma que parecia impensável,
afastando os seus fantasmas.
Vencido o estado de ansiedade do início da época, e recomposta a equipa
ao longo da temporada, restava saber se o Benfica resistia ao regresso da
ansiedade que teria de chegar com os últimos jogos. Tão difícil como o início,
seria a reta final do campeonato, em que era necessário afastar os fantasmas de
Maio. A vitória ontem contra o Rio Ave tem, por isso, um significado especial,
que vai bem para além dos três pontos que nos aproximam do título. A exibição
avassaladora, a trazer de volta o carrossel atacante, afastou de vez qualquer
medo cénico pré-vitórias finais.
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