"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

quarta-feira, 23 de abril de 2014

o meu campeonato


No Domingo, na ressaca de horas de tensão emocional, telefonaram-me da TSF para reagir ao regresso do campeão. Não tenho bem presente a pergunta do Mário Fernando, mas terá sido qualquer coisa como: “o que é que destacas no título deste ano?”
            Se não sei bem o que me foi perguntado, sei o que respondi: “foi o primeiro campeonato que celebrei no estádio com o meu filho”. Quando chamado a fazer uma análise ponderada sobre o percurso atribulado que trouxe o Benfica de novo às vitórias, o que me veio à cabeça foi, de forma imparável, a minha relação com o futebol.
            Podemos bem enredar-nos em análises do sistema de jogo, olhar para as estatísticas, avaliar se é mais eficaz jogar em 4x4x2 ou 4x3x2x1; no fim, quando o tema é futebol, somos remetidos para um território de suspensão da razão. Fechados num estádio para ver um jogo e, depois, para contemplar a felicidade infantil dos jogadores que correm sem sentido em volta do relvado, num momento de partilha com todos os sofredores de bancada, estamos numa espécie de reserva emocional, ausente no resto da vida.
            Há muito que sei quão fascinante é poder participar daquela alegria. Julgo que o intuí primeiro quando, ainda bem miúdo, via, desde a janela, as filas de carros estacionados à porta de casa, com adeptos que se dirigiam para a Luz. Não sei se por ter sido vizinho do estádio, mas quando comecei a assistir aos jogos desde a bancada tive a confirmação do prazer que se encontra vitórias do nosso clube. Mas, devo dizer-vos, uma coisa é sermos nós a ver a partida; outra, bem distinta, é olhá-la desde os olhos dos nossos filhos e, naquele momento de exaltação absoluta – a celebração do golo, os cânticos da glória do título – podermos abraçar-nos e sentirmos neles a alegria que é também a nossa.
            Este campeonato é do nosso capitão, o Luisão; do Presidente; do Jesus; do Enzo – que põe a equipa toda a pensar futebol. É também de todos os adeptos que sofreram em maio. Mas, para mim, este é o campeonato em que celebrei os golos do Lima abraçado ao Vicente, depois de ter ganho por 10 a zero ao Sporting numa peladinha imaginada pela Leonor, que fazia de Cardozo.


publicado no Record de ontem.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O clube do povo



As primeiras mágoas são as mais duras e ficam para a vida. Eu sei quando o meu mundo futebolístico primeiro desabou: num verão quente de 82, quando o escrete de Telê Santana – um compêndio de poesia – foi derrubado pelo cinismo italiano e, depois, ao ver, em duas temporadas consecutivas, o Liverpool de Dalglish, Rush e Souness destratar o Benfica na Luz (numa das noites com uma exibição trágica do grande Bento).
Se o tempo não cura as feridas inaugurais, a maturidade ensina-nos a olhar de outra forma para as suas causas. Hoje, o futebol romântico das equipas de Telê continua a ser a medida de todas as equipas, mas não desdenho a organização racional das equipas italianas do início dos 80. E aprendi a admirar o Liverpool que vi esmagar o Benfica.
Não é o facto de o Liverpool ter sido o clube mais forte nos meus anos formativos como adepto de futebol que fez a diferença. Mesmo durante duas décadas de declínio, não deixei de vislumbrar na cultura reds a ideia que faço de um clube perfeito: paixão incondicional; ambiente marcadamente popular e um clube que pertence a todos.
Bill Shankly, escocês, filho de mineiros, herói da classe operária e manager mítico do Liverpool, disse um dia que a “palavra fantásticos tem sido usada muitas vezes, por isso tenho de inventar outra para descrever com precisão os espectadores em Anfield. É mais do que fanatismo, é uma religião. Para os muitos milhares que aqui vêm em adoração, Anfield não é um campo de futebol, é uma espécie de santuário. Estas pessoas não são apenas adeptos, são membros de uma família alargada”. Os cânticos arrepiantes entoados desde o kop e acompanhados por todas as bancadas continuam a ser sinal dessa unidade de propósitos.
As tragédias de Heysel e Hillsborough deram uma intensidade dramática acrescida ao Liverpool, mas puseram fim à senda vitoriosa. Foi por isso um ato de emocionante justiça poética que, 25 anos passados sobre Hillsborough, o Liverpool tenha voltado a depender de si próprio para ser campeão. Em Lisboa, celebrei a vitória contra o City quase como se de um jogo do Glorioso se tratasse. Como o meu Benfica, o Liverpool é o clube do povo. Só não é português.

publicado ontem no Record.


quarta-feira, 9 de abril de 2014

Medo Cénico



Na primeira metade da década de oitenta, a história repetia-se. O Real Madrid perdia os jogos fora na Taça dos Campeões Europeus, para depois realizar remontadas inesquecíveis no Santiago Bernabéu. Num desses jogos, após um derrota por 3-0 em Bruxelas, contra um super-Anderlecht, onde brilhavam, entre outros, Scifo e Vercauteren, o Real venceria por 6-1, em Madrid, com hat-trick de Butragueño, um golo de Sanchís e ... dois golos de Valdano. Butragueño foi o homem do jogo, mas foi nesse momento que Valdano se fez escritor. Antes do desafio, o avançado argentino tinha deixado um aviso: “o adversário sofrerá com o medo cénico do Bernabéu”. E assim foi contra os belgas. À época, os adversários temiam os jogadores do Real, mas, acima de tudo, o público nas bancadas.
Valdano utilizou primeiro a expressão para se referir ao palco que via a Quinta del Buitre actuar, mas a ideia de que há um temor irracional a pairar sobre um jogo de futebol, que pode contaminar os 22 jogadores em campo, está presente em todos os estádios.
O Benfica iniciou esta época a necessitar de lidar com um verdadeiro medo cénico: as três mortes na praia do fim da temporada passada surgiram como um espectro, que empurrou a equipa para uma espiral recessiva. Depois de um início aos soluços, o Benfica renasceu e recuperou de uma forma que parecia impensável, afastando os seus fantasmas.
Vencido o estado de ansiedade do início da época, e recomposta a equipa ao longo da temporada, restava saber se o Benfica resistia ao regresso da ansiedade que teria de chegar com os últimos jogos. Tão difícil como o início, seria a reta final do campeonato, em que era necessário afastar os fantasmas de Maio. A vitória ontem contra o Rio Ave tem, por isso, um significado especial, que vai bem para além dos três pontos que nos aproximam do título. A exibição avassaladora, a trazer de volta o carrossel atacante, afastou de vez qualquer medo cénico pré-vitórias finais. 

publicado no Record de ontem.

sábado, 5 de abril de 2014

Posse de Bola: o caso do BPN

o meu artigo do Expresso de hoje percebe-se melhor com este video.

sábado, 29 de março de 2014

Manifesto 74

A Assembleia da República é o espaço institucional por excelência para desencadear um debate democrático alargado sobre as condições gerais a que deve obedecer a eficaz reestruturação da dívida pública. Uma deliberação da Assembleia da República sobre tais condições genéricas não será um factor de fragilidade. Pelo contrário, reforçará a legitimidade das instituições democráticas, e ao mesmo tempo, fortalecerá a posição negocial do Estado português junto das instâncias europeias.

Neste sentido, e nos termos da Lei que regula o direito de petição, os peticionários pedem à Assembleia da República que aprove uma resolução recomendando ao governo o desenvolvimento de um processo preparatório tendente à reestruturação honrada e responsável da dívida, com os fundamentos constantes do manifesto: “Preparar a Reestruturação da Divida para Crescer Sustentadamente” que se anexa. Mais pedem à Assembleia da República que desencadeie um processo parlamentar de audição pública de personalidades relevantes para o objectivo em causa.

é seguir o link, divulgar e assinar.

terça-feira, 18 de março de 2014

A Glória do Benfica




Se tivesse de identificar o aspecto mais positivo da atual direção do Benfica, escolheria a forma como tem sabido preservar a memória do clube. A recuperação do estatuto das velhas glórias, a construção do museu e as homenagens a Eusébio e a Coluna fazem parte de um processo mais longo, assente num princípio correto: as instituições só têm futuro quando sabem cuidar da sua história. Depois de demasiado tempo em que as glórias do passado eram figuras secundárias, nos últimos anos passaram a ter um estatuto mais condizente com a identidade do Glorioso.
Lembrei-me disto quando vi o treinador do Benfica a empurrar de forma descabelada o Shéu Han – depois de um episódio a todos os títulos lamentável com Tim Sherwood.
Quando comecei a ver o Benfica a jogar, já o Shéu era uma figura da equipa, com muitos anos de clube. Por essa altura, Jorge Jesus era um obscuro jogador, formado no Sporting. Agora que o Eusébio nos deixou, e como Shéu está há 44 anos no clube, provavelmente não resta ninguém ligado há tanto tempo ao Benfica como ele. Não é uma questão menor. O Benfica foi construído e constrói-se com o cavalheirismo do Senhor Mário Coluna; o desportivismo do Eusébio; a bonomia do Toni; a paixão do Rui Costa e, claro, a sobriedade do Shéu.
E uma coisa eu sei: o clube ao qual devoto toda a minha admiração não pode fazer das vitórias momentos de arrogância, nem exibir altivez perante os adversários. Muito menos pode fazer das provocações ordinárias e do descontrolo emocional a sua marca. A nossa grandeza fez-se com gente de outra estirpe e podemos bem deixar para os nossos adversários a incapacidade de revelar humildade na vitória.
Por mais qualidades técnico-tácticas que um treinador tenha, nunca no Benfica um funcionário transitório pode desrespeitar a nossa memória coletiva: feita de jogadores que honraram as camisolas vermelhas com elevação. Há valores que se sobrepõem a todos os outros – à cabeça, o respeito reverencial perante aqueles que tornaram o Benfica no Glorioso.

A Luz Intensa, no Record de hoje.

o pleno das más notícias


Quem são os verdadeiros responsáveis pelas medidas de austeridade? Estamos melhor ou pior? A austeridade veio para ficar? E qual é a melhor saída para Portugal no pós-troika? As respostas que os portugueses dão a estas questões espelham bem os nossos dilemas políticos e não deixarão de influenciar as decisões políticas que Portugal terá de tomar nos próximos tempos. 
Os portugueses continuam a fazer uma avaliação esmagadoramente negativa da execução do memorando de entendimento, mas, na sua maioria, responsabilizam mais a troika do que o Governo português pela austeridade. Os sacrifícios continuam a estar associados a uma determinação externa e as escolhas políticas internas parecem ser vistas como menos relevantes. Se esta avaliação pode dar algum conforto ao executivo, o mesmo já não é verdade quando olhamos para a resposta à questão que marcou o último congresso do PSD: Portugal está melhor ou pior?
Perto de 70% dos portugueses considera que o País está pior e um valor superior sublinha que a sua situação ou da sua família se degradou (77%). Aparentemente, as pessoas não concebem que a situação do país possa estar a melhorar quando sentem a sua vida a piorar. 
O pessimismo pelos vistos veio mesmo para ficar. Não apenas a libertação nacional do Dr. Portas, o novo 1640, um momento a partir do qual tudo seria diferente, não existe na cabeça dos portugueses - apenas 6,5% acreditam que as medidas de austeridade vão diminuir, terminada a execução do memorando - como já há uma maioria a preferir um programa cautelar (ou seja, a continuação da condicionalidade) em lugar de uma saída limpa, como aconteceu na Irlanda.
No fundo, os portugueses interiorizaram uma narrativa em que é sugerido que nada podemos fazer, que o que tem acontecido é algo que nos é imposto, que não há qualquer margem política para reconquistarmos a nossa autonomia e que a austeridade e as suas consequências sociais e económicas vieram para ficar. Como as sondagens medem as percepções e a interpretação que é feita da discussão pública, fica também demonstrado que há um défice de debate político sobre o passado recente, mas, também, sobre as possibilidades para o futuro. Enquanto não for claro que as escolhas internas são relevantes, não há, de facto, grande margem para mudança. 
Para já, estamos face ao pleno das más notícias para os líderes partidários: ao contrário do que diz Passos Coelho, poucos acreditam que o país esteja melhor; ao contrário do que promete Paulo Portas, ninguém crê que a situação melhorará no pós-troika; ao contrário do que sugere Seguro, os portugueses não vislumbram alternativas.


o meu comentário no Expresso à sondagem da Eurosondagem para o Fórum das Políticas Públicas

terça-feira, 11 de março de 2014

Fórum das Políticas Públicas 2014



quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Sagrado

 
 
"I've got limitations/Like Marvin Gaye"
 
Bill Callahan

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Still life


(em português técnico: ainda a vida)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

um neo-kantiano



crítica da razão pura/prática explicada aos néscios

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A angústia do adepto



Há umas semanas, Miguel Esteves Cardoso escrevia, no Público, um artigo notável sobre a dificuldade que havia encontrado para saber a que hora se realizava o Benfica-Sporting de ... domingo. Depois de questionar vários benfiquistas, acabaria por encontrar a resposta definitiva quando perguntou ao irmão: este não só lhe disse que “claro que não sabia a hora”, como lhe adiantou que “nenhum benfiquista digno desse nome queria saber da hora”. Mais, acrescentou que “nenhum benfiquista deixaria de ir à Luz ou de ver o jogo e perguntou, com gentileza, ‘Ou tu julgas que um benfiquista quer saber a hora para ver se ainda dá para ir ao cinema?".
Eu não preciso de saber a que hora o Benfica joga para organizar as minhas semanas em torno de dois momentos: o último jogo do Benfica e o próximo jogo do Benfica. Se estas são as balizas do meu quotidiano, fui-me habituando, com dificuldade, a gerir as angústias do pós-jogo e do pré-jogo. Sei o que faço com as vitórias, mas sei também que não as saboreio o tempo suficiente, pois logo começo a sofrer com a ansiedade da próxima partida do glorioso. Já as derrotas, mesmo com o passar do anos, não sei que fazer delas.
Não só não desvalorizo uma partida perdida pelo Benfica, como não suporto que relativizem a importância do sucedido. Para mim, a questão tem a importância que tem – ou seja, muita – e só é ultrapassada com nova vitória e uma exibição redentora. Aliás, há derrotas que nunca ultrapasso. Gosto mais de olhar para elas como traumas insuperáveis, com os quais tenho de aprender a viver.
Pois, em quase 4 décadas de benfiquismo, nunca tinha sentido o que senti quando desci as escadarias do estádio no domingo. Um vazio existencial, um anticlímax, uma sensação que desconhecia: o Benfica não ganhou, nem empatou, nem perdeu. Foi uma outra coisa: um buraco na organização do meu quotidiano. Por uma vez, o Benfica não esteve lá à hora prevista.
Espero que hoje os nossos jogadores encontrem, neste vazio de adeptos como eu, uma responsabilidade acrescida e que, na vontade de o preencherem, tenham o suplemento de motivação para ganhar.

publicado, hoje de manhã, no Record.