terça-feira, 23 de setembro de 2014
Eu estive lá
Tenho mais de 30 anos de Estádio da Luz. Tempo suficiente para já ter visto de tudo: conquistas gloriosas, derrotas formativas e jogadas mágicas. De todas guardo igual memória. Aprendi a gostar do Benfica com vitórias como as da caminhada rumo à final da UEFA com Eriksson; com derrocadas como a sofrida com o Liverpool, em meados dos oitenta, às mãos de Bento, que era um gigante; ou com dribles como os do Diamantino, que num jogo contra o Porto, de tanto fintar o Laureta, acabou por deixá-lo sentado.
O futebol é uma ficção que podemos viver, sentados na bancada. Mas não há nisto nada de contemplativo. Quem vê futebol com paixão no estádio, participa do jogo. Sei que é assim. Os medos dos adeptos (a ansiedade que sentimos numa bola mal atrasada para o guarda-redes, as dúvidas em relação a um defesa que teima em deixar-nos mal), bem como a nossa confiança (traduzida na alegria que vislumbramos no extremo a quem as fintas saem sempre), ligam-nos ao jogo, mas transmitem-se também ao jogo. O Benfica é a continuação do que se passa nas bancadas da Luz.
De tudo o que vivi, não me recordo de uma noite como a de 16 de setembro de 2014. Escrevo por extenso a data dessa terça-feira, em que perdemos com o Zenit, pois passará a estar inscrita na minha memória, lado a lado com outros momentos formativos de benfiquismo.
Para trás vai ficar a sonolência coletiva do início da partida e a história esquecerá o resultado. Quando olharmos para este dia, recordar-nos-emos, todos os que lá estiveram, do cântico espontâneo e prolongado. Sei de certeza firme que o que se passou naquela noite vai ser o suplemento de alma para grandes conquistas e que, no fim da época, quando o Luisão levantar a taça, o fará com a força de todos nós, que empurramos o Benfica para as vitórias. A cantar.
publicado no Record
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Nós, os da diáspora
agora que o L. C. regressou, queremos acreditar que não vamos ter de aguardar pelos oitenta anos do David Berman para escutá-lo de novo.
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
O Benfica Reconstruído
Depois da avalanche de saídas e de incertezas que marcou o defeso, o Benfica podia ter optado por uma resolução dos seus problemas assente na mudança de ciclo. Não o fez e escolheu a solução conservadora. Manteve os princípios de jogo e procurou encontrar para cada posição jogadores que fossem clones dos que deixaram o clube. A opção está a resultar. Claro é que até ao fecho do mercado houve vários espectros a pairar: as saídas de jogadores-chave e as entradas demasiado tardias de alternativas competentes, para não falar de uma mão-cheia de contratações inexplicáveis. O atraso no planeamento teve, aliás, consequências: esbanjámos dois pontos contra o Sporting, em importante medida porque os reforços não vieram a tempo.
O otimismo com que podemos hoje encarar a temporada não é fruto de uma leitura ciclotímica, sensível à marcha do marcador. Pelo contrário, a solução conservadora dá garantias em relação ao Benfica reconstruído para esta temporada. No balanço de saídas e entradas, o Benfica só está mais frágil no centro da defesa. Não há na equipa equivalente para o que Garay oferecia, nomeadamente as saídas a jogar, de forma muito vertical, que permitiam galgar metros na primeira fase de construção. De resto, há sectores onde a equipa estabilizou e outros onde até está mais forte.
No ataque, Rodrigo tem mais potencial do que Jonas, mas, hoje, Jonas não é inferior a Rodrigo e há, claro, o surpreendente Talisca. Nas alas, perdemos a aceleração de Markovic, mas a equipa teve um reforço tremendo – Salvio –, e existem alternativas competentes no banco (Sulejmani, Ola John e Bebé). No centro do terreno, a lesão de Ruben é uma perda importante, pelo sem-número de soluções que oferecia, mas Samaris tem mais recursos do que Fejsa, e Cristante pode ser o jóquer que André Gomes foi. Sobra a baliza, onde Artur garante a tremedeira de sempre, mas Júlio César pode dar a mesma estabilidade de Oblak. Para consumo interno, o Benfica reconstruído chega e sobra. Resta saber se o mesmo será verdade na Champions.
publicado ontem no Record.
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Pensem nisso
A paixão clubística é um dos aspetos mais estáveis da nossa identidade. A vida vai e vem, o clube fica. Sempre. Isso mesmo recordava Eduardo Sacheri. Adepto fanático do Independiente, escritor argentino, vencedor de um Óscar para melhor filme estrangeiro com “O Segredo dos seus Olhos” (a ordem não é aleatória), reconheceu numa entrevista que, por melhor que lhe estivesse a correr a vida, sobre a felicidade do momento pairava sempre um risco: e se o Independiente perde?
O escritor argentino conta mesmo que, na noite em que recebeu o Óscar, enquanto esperava no hotel em Las Vegas, o filho ia-lhe mandando SMS com a marcha do marcador de uma partida com o River. A certa altura, a equipa de Avellaneda perdia por 2-0 com os “milionários”, mas, no fim, deu a volta e venceu. Sacheri confessa que, se o seu clube tem perdido, em algum momento dessa noite de consagração teria esquecido o fervor e a alegria de receber um Óscar e ter-se-ia encostado a um canto a pensar: “Estes filhos da mãe, como é que perderam hoje?”
Podemos tomar esta disponibilidade para nos deixarmos afetar pelos resultados da nossa equipa como sinal de uma inclinação muito masculina para querer ensombrar qualquer lampejo de felicidade absoluta. Talvez, mas não há volta a dar. Por melhor que nos esteja a correr a vida, tudo pode soar a um enorme falhanço se o nosso clube perde. Da mesma forma, que nos momentos de maior angústia, uma vitória surge como um lampejo de esperança, capaz de iluminar tudo.
Hoje já não sou o miúdo que chorava com uma infelicidade absoluta com as derrotas do Benfica, mas, por mais controlo que finja, o meu estado de espírito depende dos resultados do meu clube. Sei bem que se, por absurdo, estivesse a minutos de receber um Óscar, a minha alegria estaria condicionada pelo momento do Benfica. Nisso, julgo não ser diferente de milhões de benfiquistas. É por isso que, como adepto, exijo aos jogadores que, de cada vez que subam ao relvado, não se esqueçam de que o que sentimos depende do que vocês fazem. Pensem nisso.
publicado hoje no Record
Uma (muito boa) descrição
Filmlyfe">http://vimeo.com/104458064">Filmlyfe: Beren Hall
from STABhttp://vimeo.com/user977493">STAB> on Vimeo.https://vimeo.com">Vimeo.>
from STABhttp://vimeo.com/user977493">STAB> on Vimeo.https://vimeo.com">Vimeo.>
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
O complexo de Artur
Dia 7 de julho. Há quase dois meses. Foi aí que o Benfica começou a construir o empate em casa com o Sporting. Logo no arranque da temporada, foi noticiado que Oblak abandonaria o clube. Como se demorou demasiado tempo a encontrar alternativa ao esloveno, estávamos condenados a jogar com Artur – que é hoje um guarda-redes totalmente incapaz para defender as redes do Benfica.
Foi Valdano, a propósito do temor que na década de 80 o público do Santiago Bernabéu inspirava nos adversários do Real, que primeiro falou de “medo cénico” aplicado ao futebol. Artur padece de “medo cénico”, é incapaz de resistir à pressão das grandes partidas e não há psicanalista capaz de resolver o problema. Não se percebe por isso a insistência no brasileiro, para além de todos os limites.
O problema não foi o erro inexplicável que ofereceu o golo ao Sporting. A questão é outra: Artur não oferece rigorosamente nada do que é exigido a um guarda-redes de uma equipa grande. É certo que tem talento para defender grandes penalidades, mas como futebol não é andebol (em que se podem fazer substituições a todo o momento), não se trata de um atributo particularmente importante.
O que se espera de um guarda-redes de um grande é, no essencial, que tranquilize a defesa, que jogando bem com os pés permita à equipa avançar uns metros no terreno, que dê segurança nas bolas paradas (de onde vem o essencial do perigo das equipas adversárias) e que tenha resistência psicológica para os jogos decisivos. Em qualquer destes itens, Artur não é mau, é péssimo e não é por fazer uma defesa aparatosa que o deixa de ser.
Quando o Benfica estava em vantagem, tinha o jogo controlado, foi o complexo de Artur, devidamente potenciado pelos adeptos (que estupidamente não resistem à dinâmica do assobio), que deu cabo do jogo e ofereceu o empate ao Sporting. Sentiu-se na equipa e ainda mais nas bancadas. O que exaspera é que estava escrito que isto iria acontecer. O que só torna mais incompreensível a insistência no erro.
publicado ontem no Record.
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
"Manéis" a mais
O aspeto mais positivo da exibição do Benfica contra o Boavista é que, a partir de agora, a equipa só pode melhorar.
É um facto que a organização defensiva foi, uma vez mais, muito competente, mas, também, talvez valha a pena recordar, a qualidade da equipa do Boavista só é comparável à da equipa de arbitragem. O que se anuncia, aliás, é um campeonato nacional nivelado por baixo, com um decréscimo de qualidade evidente – a provar o absurdo desta sucessão de alargamentos.
Por muita capacidade que Salvio e Gaitán tenham de acelerar e verticalizar o jogo, não há milagres. Uma equipa que no corredor central joga, em simultâneo, com Talisca, Jara e André Almeida terá sempre dificuldades em controlar as partidas. Uma coisa é jogar com um “Manel”, outra, diferente, é jogar com três ou quatro em simultâneo. O Benfica tem andado a abusar da sorte e a jogar com demasiados “Manéis”.
Já se percebeu, se dúvidas existissem, que Jorge Jesus não alterará a sua ideia de jogo. O treinador benfiquista é fiel ao seu sistema, mesmo quando lhe faltam jogadores capazes de o interpretar na plenitude. Entre jogar, por exemplo, com Gaitán atrás de Lima ou manter o argentino nas alas, Jesus optará sempre pela solução conservadora, mais fiel à sua ideia de jogo. A opção é legítima, mas é também mais exigente.
No fundo, o Benfica 2014/15, para funcionar, vai precisar de encontrar clones dos jogadores que tiveram sucesso no passado. Talisca (ainda?) não é, nem de perto nem de longe, um clone de Enzo, e muito menos de Rodrigo. Tem dificuldades gritantes para manter a posse de bola (é, a este propósito, o anti-Enzo) e falta-lhe a capacidade de verticalizar o jogo de Rodrigo. Já Jara começa a ser uma opção difícil de compreender: esteve em Espanha, voltou à Argentina e regressou com a mesma incompreensão em relação ao jogo de futebol.
Com Enzo e com um outro avançado, é certo, tudo mudará de figura. Mas o que custa perceber é como é que se demorou tanto tempo a planear uma época que tem um dérbi já no domingo.
publicado no Record de terça-feira
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
Uma ilusão
Uma das transformações mais surpreendentes do futebol português nos últimos anos é de natureza lexical: a palavra “ilusão” (que significa, em português, um engano dos sentidos ou do pensamento) passou a ser utilizada também, e de forma indiscriminada, com o seu sentido castelhano (que é sensivelmente o contrário, uma esperança colocada em algo positivo). Não passa um dia sem que se leia, num jornal desportivo, um jogador a dizer que tem uma grande ilusão em relação ao seu futuro no clube A ou B.
Pois a estreia do Benfica no campeonato pode ser descrita como uma combinação do significado português e castelhano de ilusão. Há motivos para esperança, mas também há indícios de que podemos estar equivocados em relação à temporada que agora se iniciou.
A esperança alicerça-se nos sinais que foram de novo dados de que temos uma organização já consolidada, com princípios de jogo interiorizados e com jogadores capazes de os colocarem em prática. Percebe-se, em muitos momentos do jogo e, essencialmente, na dinâmica entre alguns jogadores (por exemplo, na forma como Salvio e Maxi atacam), que há muito trabalho já feito que não começou ontem. Mais, quando é preciso promover ruturas, a classe da Gaitán, Salvio e Lima emerge; da mesma forma que quando é necessário equilibrar a equipa, Luisão, Rúben e Enzo surgem.
Mas, não nos iludamos, as razões para ceticismo mantêm-se.
Continuamos com uma equipa curta. Há posições chave onde há um verdadeiro vazio – basta recordar que o ano passado tínhamos três avançados com características muito distintas, mas todos de muita qualidade (Cardozo, Rodrigo e Lima), sendo que este ano temos apenas um (Derley pode revelar-se uma aposta interessante, mas ainda não o é); até ver, os reforços não reforçaram, limitaram-se a compensar, com diminuição de qualidade, algumas das saídas; finalmente, há poucas alternativas para muitas posições.
Este Benfica chegou para o Paços de Ferreira, mas o Benfica que vimos, durante o período em que Jara e Talisca coexistiram no corredor central ofensivo, dificilmente vencerá contra adversários mais fortes.
Para já, não nos iludamos, mas continuemos com a ilusão de sempre.
publicado no Record de terça-feira
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
e o carrossel voltou?
Na
primeira parte da Supertaça fomos devolvidos ao Benfica da última
temporada. Uma equipa com uma organização defensiva coerente com a forma
como ataca e com princípios de jogo bem consolidados. Quem tenha visto
aqueles primeiros 45 minutos ficou com a sensação de que o campeão tinha
voltado e com ele o carrossel atacante. Será mesmo assim ou as razões
para estarmos preocupados mantêm-se?
Se bem que o Rio Ave não seja a bitola pela qual o Benfica se deva medir, a verdade é que, depois de uma pré-temporada deprimente, bastou apresentar um onze praticamente só com jogadores da época anterior para regressar uma equipa que parecia uma memória distante. Este facto é, ao mesmo tempo, motivo de tranquilidade e preocupação.
Tranquilidade porque, apesar de todas as convulsões, há uma base que garante qualidade (pelo menos para consumo interno); preocupação porque o sistema de Jesus, que requer muita aprendizagem, precisa de jogadores habituados a pô-lo em prática. Ora, há ainda um risco de perder jogadores dos nove que foram titulares e que vinham da época passada. E, como se viu em Aveiro, a posição 8 é nuclear – e de enorme exigência física, técnica e tática –, pelo que a saída de Enzo é a maior ameaça a pairar sobre a forma como o Benfica joga.
Aliás, já se notaram alguns sintomas de um dilema tático que se colocará ao longo da temporada. Talisca, que durante a pré-temporada jogou na posição de Enzo, apareceu mais avançado. Este sistema, com três jogadores no meio-campo, enquanto equilibra a equipa, retira eficácia na hora de marcar. Não por acaso, não houve capacidade de transformar em golos o carrossel ofensivo.
Mas a maior preocupação continua a ser a ausência de reforços para posições-chaves. Enquanto se andou a comprar Candeias, Djavans e Luís Filipes, não se cuidou de contratar jogadores de qualidade (à cabeça um guarda-redes). Seguindo outros exemplos, uma boa resolução seria transferir vários jogadores para o banco mau e com o seu salário dar um aumento significativo a Enzo. Resolvíamos grande parte dos nossos problemas e podia ser que o carrossel atacante voltasse para ficar.
publicado no Record de ontem
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
Estou chocado
A semana passada escrevi aqui que estava assustado com o que a pré-temporada do Benfica anunciava. Apontei três motivos: a incerteza quanto ao que seria o plantel e a ausência de soluções para lugares-chave; a falta de qualidade dos reforços em relação aos jogadores que haviam saído; e ainda um défice de maturidade na equipa. Uma semana depois, nenhum destes problemas foi resolvido (aliás, agudizaram-se) e surgiram novos.
Se a semana passada estava assustado, esta semana declaro-me chocado. Não consigo perceber como é que, a apenas seis dias do início da temporada, o Benfica tem tantos problemas por resolver, sem que se vislumbre uma explicação para a paralisia que se vive na Luz.
O que me surpreende não são as vendas. O que me deixa estupefacto é não terem sido encontradas alternativas em tempo útil. Reparem: desde maio que se sabe que Fejsa não é solução até 2015 e não se cuidou de encontrar um substituto para a posição 6; há um mês que não temos guarda-redes e, desde que Rodrigo foi vendido, em Janeiro, que devíamos ter uma alternativa. Esta ausência de planeamento afigura-se incompreensível.
Entre os reforços, há alguns com qualidade. Mas, convenhamos, uma coisa é integrar Derley, Talisca, Bebé ou Benito numa equipa estável e equilibrada, outra, bem diferente, é lançá-los no meio do caos que é o jogo do Benfica agora. Isto é tanto mais difícil quanto Jesus pede às suas equipas uma organização defensiva que não se aprende no espaço de dias.
No fim, o mais insólito de tudo isto: a crer no que se tem passado, o porta-voz do Benfica é Jorge Jesus. Nas últimas semanas tem sido o único a dar a cara. É altura de os dirigentes explicarem o que se está a passar. Se temos de fazer uma reestruturação financeira, que nos seja dito. Se perdemos ao mesmo tempo três parceiros estratégicos (o BES, Jorge Mendes e o Real Madrid – será que é a venda de Garay que explica a ida de Casemiro para o Porto?), é bom que nos seja explicado. O que não é aceitável é nada sabermos e andar-se a fingir que a senda vitoriosa da temporada transata é para continuar.
publicado ontem no Record.
Ele era perigoso
Quem se senta nas bancadas do Estádio da Luz sabe bem
como, ao longo de sete anos, Óscar Cardozo dividiu os adeptos. Não
passava um jogo sem que se escutassem críticas pela lentidão com que o
paraguaio jogava; pela forma como, alegadamente, estragava a nota
artística do jogo ofensivo do Benfica; ou pelo sem número de
oportunidades fáceis desperdiçadas. Ora, raro era o jogo em que Cardozo
não silenciava os críticos, marcando golos atrás de golos. Temo bem que,
nos próximos tempos, os mesmos que não se cansaram de criticar o
Tacuara chorem e lamentem a sua ausência.
O futebol, como o resto da vida, é muito ingrato. No
caso de Cardozo parece-me, contudo, que era algo mais do que isso que
esteve sempre em causa. Criticar o paraguaio era revelador da
incapacidade de muitos para compreender um jogo de futebol e, acima de
tudo, esquecer o essencial. Cardozo era lento, sim, é verdade, mas
digam-me um jogador com a sua estatura que não o seja; Cardozo falhava
muitos golos, pois sim, na exata medida em que criava para si muitas
oportunidades; Cardozo prejudicava a nota artística, talvez – mas o que
conta no futebol é quem marca mais golos, e o paraguaio estava lá para
isso, com um registo que fala por si (e que não será ultrapassado nos
próximos tempos).
Para mim, Cardozo é, no entanto, mais do que isso. É o
avançado perigoso, que provocava medo nos adversários, e que marcava
golos, com o seu pé esquerdo canhão e infalível, enquanto eu formava os
meus filhos no benfiquismo. Sei que para o Vicente e para a Leonor, o
Cardozo vai ser o que para mim foram o Filipovic e o Nené. Uma memória
inicial dos golos do Glorioso. Também por isso fico-lhe agradecido para a
vida.
(resposta à questão, "vai ter saudades de Cardozo?", publicada ontem no Expresso Digital)
quinta-feira, 31 de julho de 2014
terça-feira, 29 de julho de 2014
Estou assustado
Na semana passada, Jorge Jesus tentou tranquilizar-nos, dizendo para não estarmos “assustados por terem saído muitos jogadores, pois vamos fazer uma equipa com a dimensão e a exigência do Benfica”, para acrescentar que “claro que demora um pouco mais de tempo do que o normal”. Percebo o otimismo da vontade do treinador, mas por mais voltas que dê, não consigo deixar de estar assustado. Podia enunciar muitas razões, destaco três.
Incerteza: estamos a 12 dias do primeiro jogo oficial e há demasiadas questões em aberto – desde jogadores para posições-chave que ainda se terão de juntar ao grupo (pelo menos um 6 e um guarda-redes), como muitos outros que podem ainda sair. Este contexto de incerteza faz parte do futebol de hoje, em que grande parte dos passes de jogadores é detida por fundos. Mas, convenhamos, a razia que temos sofrido, bem como o tempo que se tem demorado a encontrar substitutos, tem poucos paralelismos e leva-nos a questionar a capacidade de planeamento do clube.
Imaturidade: a ideia de que se pode construir uma equipa para ganhar campeonatos apenas com jogadores jovens é peregrina. Numa época longa e exigente é necessário talento, mas são igualmente precisos alguns cabelos brancos em lugares decisivos. Por mais futuro que tenham os atletas da formação ou os jovens estrangeiros, sem jogadores capazes de estabilizar emocionalmente a equipa e de ter voz de comando em campo, não se vai lá. Ora, neste momento, só Luisão, Maxi, Rúben e Lima reúnem estas características. A permanência de Enzo é, por isso, fulcral para oferecer maturidade ao meio-campo.
Qualidade: vender é uma lei de ferro do futebol moderno. O problema não foram os jogadores que saíram, mas, sim, o facto de, até ver, os jogadores que saíram serem individualmente muito superiores aos que entraram (Rodrigo por Derley; Garay por César; ou, pior, Enzo por Talisca; já para não referir que Candeias e Pizzi juntos não fazem um Markovic). Como bem sublinhou Jorge Jesus, “só trabalho não chega, tem de haver qualidade”.
publicado no Record
quarta-feira, 23 de julho de 2014
O tempo urge
Das duas uma, ou o planeamento de uma temporada não serve para nada, e
então não há nenhum problema na forma como o Benfica preparou 2014/15,
ou, de facto, é fundamental preparar com tempo cada época e o que se
anuncia é motivo para muitas preocupações.
Parece-me que era uma inevitabilidade o Benfica ver a sua equipa desmantelada após o sucesso da temporada anterior. Tirando a “venda” que continua por explicar de Garay, todos os outros negócios eram irresistíveis. O que espanta não é a corrida à equipa titular do Benfica, mas, sim, o facto de estarmos a caminhar rapidamente para o início da nova época e não se ter cuidado de encontrar substitutos à altura com tempo. Há demasiadas incertezas em relação a quem fica e, pior, lacunas gritantes para lugares chaves. Se é possível começar a trabalhar com um guarda-redes a uma semana do início da competição ou formar um meio-campo novo em dez dias, então tudo o que se diz sobre planeamento no futebol é falso. Por este andar, vamos ter de esperar pela véspera da Supertaça para ter um jogador para a posição 6 e outro para a 8 (Talisca, sejamos realistas, é, apenas, um projeto de jogador).
Já tivemos plantéis desequilibrados e repletos de jogadores de qualidade duvidosa. O que não me lembro é de termos assistido a uma debandada tão grande da equipa titular e a uma diminuição tão significativa da qualidade individual dos jogadores do Benfica, como está a acontecer neste defeso. Se nada mudar nos próximos dias, a nota artística do último ano ficará guardada no baú das memórias.
Este quadro é tão mais preocupante quanto o que nos foi sendo dito é que para quebrar a hegemonia do FC Porto era necessário vencer o campeonato mais do que um ano seguido. Se estamos perante uma reestruturação financeira, que terá evidentes implicações desportivas, era preferível assumi-lo. O silêncio da direção do Benfica em relação ao que se está a passar nesta pré-temporada é ensurdecedor – a menos que esteja a ser preparada a tirada de dois ou três craques da cartola nos próximos dias. O tempo urge.
publicado no Record de ontem
Parece-me que era uma inevitabilidade o Benfica ver a sua equipa desmantelada após o sucesso da temporada anterior. Tirando a “venda” que continua por explicar de Garay, todos os outros negócios eram irresistíveis. O que espanta não é a corrida à equipa titular do Benfica, mas, sim, o facto de estarmos a caminhar rapidamente para o início da nova época e não se ter cuidado de encontrar substitutos à altura com tempo. Há demasiadas incertezas em relação a quem fica e, pior, lacunas gritantes para lugares chaves. Se é possível começar a trabalhar com um guarda-redes a uma semana do início da competição ou formar um meio-campo novo em dez dias, então tudo o que se diz sobre planeamento no futebol é falso. Por este andar, vamos ter de esperar pela véspera da Supertaça para ter um jogador para a posição 6 e outro para a 8 (Talisca, sejamos realistas, é, apenas, um projeto de jogador).
Já tivemos plantéis desequilibrados e repletos de jogadores de qualidade duvidosa. O que não me lembro é de termos assistido a uma debandada tão grande da equipa titular e a uma diminuição tão significativa da qualidade individual dos jogadores do Benfica, como está a acontecer neste defeso. Se nada mudar nos próximos dias, a nota artística do último ano ficará guardada no baú das memórias.
Este quadro é tão mais preocupante quanto o que nos foi sendo dito é que para quebrar a hegemonia do FC Porto era necessário vencer o campeonato mais do que um ano seguido. Se estamos perante uma reestruturação financeira, que terá evidentes implicações desportivas, era preferível assumi-lo. O silêncio da direção do Benfica em relação ao que se está a passar nesta pré-temporada é ensurdecedor – a menos que esteja a ser preparada a tirada de dois ou três craques da cartola nos próximos dias. O tempo urge.
publicado no Record de ontem
quarta-feira, 9 de julho de 2014
Um quotidiano previsível
Adepto que se preze gosta do defeso. É por esta altura que todos os sonhos são possíveis: que vislumbramos no “8” que vimos no YouTube o craque que, lá para abril, vai decidir o título; que fantasiamos com o ponta-de-lança letal, mas de técnica apurada, que finalmente chegará; e que temos a certeza de que vamos descobrir a próxima pérola africana, um avançado explosivo, de remate potente. Este presente de ilusões artificiais alimenta, como poucas outras coisas, a paixão pelo futebol. Por esta altura, deixamos que as manchetes de jornais nos mintam, como que para prolongar um sonho que sabemos que nos afasta da realidade.
Eu quero acreditar em todas as contratações do Benfica, mover-me por uma fé que anuncia um futuro de novas glórias e de novos talentos. Mas é também chegado o momento de reclamar por uma pré-temporada que se inicie com uma estrutura estável, com os mesmos jogadores do ano anterior. Como benfiquista tenho direito a, exijo mesmo, um quotidiano previsível.
Reparem, não estou a dizer que gostava que os jornais desportivos parassem de me iludir. Quanto a isso, a minha disposição é a de sempre: prefiro ser o último a descobrir a verdade. Para que vejam, ainda acredito que o Klinsmann vai jogar no Benfica e que é desta que o Ulf Kirsten assina. A questão é outra. Podem entrar jogadores e, com alguma razoabilidade, até estou disponível para aceitar algumas vendas – desde que, claro está, acima dos 20 milhões. O que não aceito é que se desmantele uma equipa de um momento para outro.
O assunto é bem sério. Como muitos outros pais, tenho responsabilidades acrescidas. Estou a educar duas crianças no benfiquismo e preciso de referências estáveis, que lhes transmitam valores seguros. Não posso garantir aos meus filhos que o Oblak vai ser o melhor guarda-redes do Mundo, explicar-lhe que devemos confiar sempre nas decisões do Enzo e anunciar-lhes que este vai ser o ano da afirmação do Markovic e, subitamente, a minha palavra perder valor, porque nada do que lhes prometi se vai confirmar.Senhor presidente, pense também nisto.
publicado ontem no Record
segunda-feira, 7 de julho de 2014
O Johnny Cash teria gostado muito disto
passou-me completamente ao lado o disco de estreia do John Murry - não quero que vos suceda o mesmo
terça-feira, 1 de julho de 2014
Anos de imaturidade
Nasci em 74, pouco antes do verão. Cumpro por estes dias 11 anos. Talvez esta seja a melhor explicação para todas as coisas. Não somos a idade que temos, mas o número de Mundiais que vivemos.
Já intuía que assim era, mas a confirmação tive-a num vídeo da revista espanhola “Líbero”. Uma revista notável, com uma campanha notável, organizada sob o lema “se te explicam com futebol, percebes”.
No último dos vídeos da série, em breves 70 segundos, veem-se homens infantilizados, que choram de tristeza, esbracejam, choram de alegria e se revelam insensíveis a tudo o que os rodeia. Toda a atenção está centrada num televisor onde, somos levados a crer, passa um jogo de futebol. Enquanto percorrem as imagens, uma voz em tom de lamento, como se estivesse a admitir uma falha de comportamento que não tenciona superar, reconhece: “Há uma coisa que nos diferencia substancialmente das mulheres: amadurecemos mais devagar. Até quando somos adultos, somos menos adultos. Aceitemo-lo, vivemos de Mundial em Mundial. Por isso amadurecemos mais devagar. Quatro anos mais devagar.”
Se amadurecemos ao ritmo dos Mundiais, o mês que estes duram é de celebração dos nossos aniversários – são semanas de festa, desprovidas de sofrimento. A dor e a ansiedade regressarão não tarda, com os campeonatos nacionais e a paixão clubística. Este momento é distinto: é um mês de prazeres pueris, de horas roubadas ao trabalho, à família e ao sono. Um mês em que nos celebramos e nos entregamos com deleite egoísta ao televisionamento de todos os jogos.
Peço desculpa, as contas da “Líbero” nem sequer estão corretas. Em teoria, nasci em maio de 74, pelo que não estava ainda desperto para o Mundo durante o Mundial da Alemanha e não guardo memória do que se passou na Argentina. Para todos os efeitos, nasci em Espanha, em 1982, ao longo de tardes de verão, e fui formado na derrota da aproximação romântica que o Telé Santana ofereceu ao futebol, com o escrete onde coexistiam Zico, Falcão, Sócrates, Cerezo, Júnior e Éder. Desde então, não falhei um único Mundial.
Sendo assim, estou a cumprir 9 anos. O que ajuda a compreender tudo o resto.
publicado hoje no Record.
(entrenta a Líbero desenvolveu o teste que faltava: quantos mundiais de vida te restam?)
Subscrever:
Mensagens (Atom)



