quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Pouca Pedalada
No lançamento da partida de ontem, e a propósito das contratações do mercado de inverno, Jorge Jesus deixou, com razão, um aviso aos novos jogadores: para entrar na equipa era preciso ter "muita pedalada". Imagino que o treinador estivesse a pensar na organização coletiva e na intensidade com que o Benfica joga. Ora o Benfica de ontem foi uma equipa com muito pouca pedalada.
Desde logo, o nervo com que o Benfica se tem apresentado em todos os jogos faltou. Estranhamente, a derrota do FC Porto na véspera, que deveria ter dado uma confiança extra, acabou por se revelar contraproducente. Em particular na segunda parte, viu-se um Benfica enervado com a responsabilidade. Exatamente o contrário do que tem sido hábito esta temporada, em que, sob pressão, o Benfica não falha e, em muitos momentos, supera mesmo as suas insuficiências (uma delas, aliás, sobejamente conhecida - a forma como defende do lado esquerdo).
Mas
não foi apenas uma estranha nervoseira que marcou a partida de ontem. O
que tem sido uma das mais-valias do Benfica, e que torna a equipa
particularmente poderosa face a adversários muito fechados, é a força do
seu jogo interior, que permite em situações de ataque organizado
colocar vários jogadores em posição privilegiada entre o meio-campo e a
defesa adversários. Ontem, isso aconteceu pouco: seja porque Talisca
andou perdido, seja porque a saída de Samaris expôs a equipa, seja
porque Lima não mais se encontrou após desperdiçar o penálti.
No fim, sobram as palavras motivadoras de Luisão: "Continuamos com o nosso trabalho". É que os campeões fazem-se de talento, mas, também, de muito trabalho.
P.S.: A propósito da grande penalidade favorável ao Benfica, cabe dizer uma coisa: no futebol de hoje, fazer tiro ao braço dentro da área arrisca tornar-se a mais eficaz das jogadas. Um absurdo, a menos que os árbitros defendam a amputação dos braços dos defensores.
publicado no Record de ontem
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Bernardo: jogador adepto
Terá sido Tony Adams, mítico capitão do Arsenal, que
disse que "se jogares pelo nome inscrito na frente da camisola, os
adeptos recordarão o nome inscrito nas costas". A frase fixa uma visão
romântica do futebol, de um jogo que já não existe, onde a figura do
jogador-adepto era uma possibilidade realista.
Os tempos "desportivos" já não estão para isso. Nós,
benfiquistas, não mais devemos esperar exemplos como os daqueles que
resistiram às propostas materialmente tentadoras de clubes mais (novos)
ricos, no momento da fundação - mantendo o espírito popular, definido
pelo grande Cosme Damião na Farmácia Franco.
Vivemos por isso uma tensão permanente: queremos
perpetuar uma visão romântica do futebol, própria do adepto, mas a
realidade chama-nos de forma sistemática.
O Bernardo era uma raridade e um resquício de um
passado que teima em nos abandonar. Jogador adepto como nós, mas com o
talento com que todos sonhamos. Uma predisposição natural para jogar
futebol (que, como é sabido, é daquelas coisas que não se aprende, nem
se ensina, mas que se vislumbra logo no primeiro toque na bola) e, a
pairar sobre isso, um amor filial ao Glorioso.
Há mais de um ano, escrevi no Record que "de quando em
quando surge um jogador adepto como nós, mas com o talento que
ambicionámos ter. Um sofredor que tem a sorte de poder sofrer no
relvado, de camisola ao peito. Há jogadores profissionais que honram a
camisola; mas uma coisa é jogar com afinco, outra é jogar com afinco com
a camisola do clube do coração. Momentos há em que, numa espécie de
epifania, ao adepto se junta o empenho e o talento. É desta conjugação
que nascem os jogadores que nos fazem sonhar".
O texto era sobre o Bernardo. O mesmo Bernardo que, num
desfecho anunciado, mas que nos procuraram esconder de forma tosca,
deixa agora o Benfica, onde na verdade nunca chegou a jogar.
Bem sei que, nos tempos modernos, o que nos prende a um
clube são as camisolas, a ideia de equipa e os jogadores que (muito)
transitoriamente as vestem com profissionalismo. Sei também que um clube
português não tem condições financeiras para rejeitar ofertas de 15
milhões por projetos de jogador (por muito que gostemos do Bernardo, é
ainda o que ele é). Mas, o adepto que há em mim vive com frustração os
choques com a realidade.
No prolongamento da infância e fuga ao real, que são as
formas como vivo o futebol, o Bernardo seria o nosso capitão, marcaria
golos atrás de golos e o seu pé-esquerdo resgataria a memória infantil que guardo
do Chalana. Sei bem que nada será como eu sonhei, mas
sei também que teremos cá o Maxi e o Luisão para mostrarem como o amor à
camisola também se aprende; o Talisca para alimentar fantasias; o
Gaitán para nos fazer crer que podemos ambicionar toda a grandeza e o
Gonçalo Guedes para fazer de Bernardo. De resto, podemos sempre manter a
esperança de que, um dia, o Bernardo se cansará do sucesso desportivo e
material e, como o nosso Rui Costa, nos concederá (e conceder-se-á) a
Glória de regressar à Luz.
publicado no Expresso online de ontem.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
O Capitão
Quando não há Gaitán, ganha-se com Salvio, quando não mesmo com Ola John. Foi assim no Caldeirão e a máxima pode aplicar-se a qualquer jogo do Benfica deste ano. À primeira vista, a explicação para a facilidade com que se substitui um jogador por outro está num plantel com mais talentos do que parecia, que aguardam a oportunidade para se afirmarem.
Mas, como é sabido, talento não chega. A grande vantagem do Benfica reside na organização coletiva – em princípios de jogo de tal forma trabalhados que, jogue quem jogar, já sabe o que deve fazer. Regressamos ao mesmo: não joga Gaitán, joga Salvio; não joga Salvio, joga Ola John e se o Ola John não puder jogar, joga o “Manel”.
No fundo, a equação vitoriosa resumir-se-ia a uma soma de talento com organização coletiva. É em parte verdade, mas está longe de ser toda a verdade. Não basta talento e organização para vencer, é preciso também liderança.
Na Madeira, o Benfica foi, por força do talento dos jogadores e da organização trabalhada pelo treinador, avassaladoramente dominante, mas vale a pena recordar a liderança decisiva do capitão Luisão.
Os
números são de outro tempo: 11 temporadas de águia ao peito, 440 jogos,
que fazem dele o 9º jogador que mais jogou pelo Benfica, igualando
Eusébio. São poucos os que, no futebol de hoje, jogam tanto tempo pelo
mesmo clube. Mas é mais do que isso que está em causa.
Ao longo de 11 anos, Luisão viveu o suficiente no Benfica para poder liderar. Perdeu, venceu, mudou de treinador. Acumulou experiência. O que lhe dá uma voz de comando única. Mas nada disto seria possível sem a inteligência prática que resumiu bem, numa já longínqua entrevista ao “Expresso”, definindo o que compete a um central: “não está ali para fazer salada, mas sim arroz com feijão”. Jogar simples é uma forma de inteligência prática. Luisão lidera pela experiência e pela sabedoria que coloca em campo.
publicado no Record de ontem.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
A diferença que faz
É tentador pensar que um grande guarda-redes se avalia pelo número de defesas extraordinárias que faz. Julgo tratar-se de um equívoco. Um grande guarda-redes vale não tanto pelo que defende, mas pelo que não chega sequer a precisar de defender e o que oferece taticamente à equipa. É precisamente isto que faz de Júlio César, aos 35 anos, um extraordinário guarda-redes, à medida de um clube grande.
Talvez valha a pena recuar à temporada transacta ou ao início desta para se perceber o que está em causa.
O ano passado, por esta altura, depois de um jogo em sofrimento em Olhão, uma lesão providencial de Artur afastou o brasileiro da baliza e deu, finalmente, a titularidade a Oblak. O Benfica, com a mesma defesa, baixou drasticamente o número de golos sofridos, ao mesmo tempo que o esloveno não fazia mais do que um par de defesas por jogo. Com Artur, a equipa tremia que nem varas verdes, recuava no terreno e os defesas só em último recurso atrasavam a bola ao guardião. Oblak acabaria por se revelar decisivo ao tranquilizar a equipa. Este verão, a saga regressou, ao ponto do Benfica ter dado literalmente dois pontos em casa ao Sporting, apenas porque a equipa não podia confiar no guarda-redes.
Tudo isto se tornou, de novo, mais claro com a titularidade de Júlio César. Com a chegada do internacional brasileiro, a defesa tranquilizou-se, pôde avançar no terreno vários metros e, acima de tudo, o guarda-redes ofereceu um controlo da profundidade notável. Já no ocaso da carreira, talvez Júlio César não seja um guardião tão espetacular a defender como Oblak, mas com ele o Benfica ganha um jogador de campo extra que confere grande qualidade na primeira fase de construção. Com a bola nos pés, Júlio César distingue-se pouco dos defesas centrais.
A diferença que faz num clube grande um guarda-redes taticamente maduro, tranquilo e que sabe jogar com os pés.
publicado no Record de terça-feira
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
"boring though, in a joan baez sorta way"
este foi um dos discos que mais ouvi em 2014. Nos comentários a esta sessão no Tiny Desk da NPR, aparece a descrição mais precisa da música que os Luluc fazem: "boring though, in a joan baez sorta way". Julgo tratar-se de um elogio.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
A hora de Gaitán
O futebol é fantástico. De onde quer que o observemos, revela-nos sempre um ângulo interessante. O futebol baseado numa vertigem atacante fascina, mas podemos bem desfrutar com igual entusiasmo do ataque organizado em toada lenta – da mesma forma que não devemos menosprezar uma organização defensiva monotonamente compacta. Quem só aprecia um estilo de futebol e se convence que a virtude está, apenas, em ataques estonteantes, ainda não entrou na maturidade da relação com o desporto rei.
Todas as vitórias têm um encanto particular. Sim, deixei-me levar pelo título ganho pelo carrossel alucinante montado por Jesus no primeiro ano; mas guardo igual memória de campeonatos conquistados por equipas burocráticas que exibiam um modo administrativo de jogar: uma tarefa para cumprir (vencer jogos), alcançada com o máximo de eficiência. Foi assim em 86/87, aquando da segunda passagem de Mortimore; em 04/05 com Trappatoni e, sejamos, realistas, é este o caminho possível para o título este ano.
Bem sei que as vitórias trazem confiança e uma margem pontual confortável é o tónico perfeito para boas exibições. Tudo isso é verdade, mas o Benfica de 14/15, em reconstrução permanente, só será ganhador se for uma equipa em modo administrativo.
Há, contudo, mais paralelismos entre esta temporada e as de 86/87 e 04/05. Agora como então, a organização burocrática da equipa exigiu de um só jogador um esforço adicional. Diamantino e Simão tiveram de ser jogadores desequilibradores, capazes de dar o suplemento de criatividade que as equipas não tinham. Hoje, o Benfica dependerá de Gaitán para a mesma função. O que exige mais do argentino. Não lhe bastará ser o extremo talentoso que conhecemos. Nesta segunda metade do campeonato, Gaitán terá de ter maior versatilidade tática e a responsabilidade acrescida de ligar sectores. Com a saída de Enzo e com um plantel menos forte, é a hora de Gaitán.
publicado hoje no Record
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
A vida que sonhei
No meio de arrumações,
encontrei um recorte de jornal de 1985 com uma longa entrevista ao Diamantino,
ilustrada por uma fotografia de um jovem adepto a pedir-lhe um autógrafo. Tenho
boas razões para guardar com cuidado religioso aquelas páginas amareladas. O
Diamantino é responsável por alguns dos meus primeiros momentos de felicidade
absoluta.
Se, em algum momento, tenho
uma ligeira hesitação em relação ao meu benfiquismo ou, o que acaba por ser a
mesma coisa, suspendo, por instantes, a paixão pelo futebol, logo recorro à
memória bem definida de um par de jogadas formativas. Em muitas delas, surge um
jogador de técnica destilada e com a arrogância só acessível àqueles que têm uma
classe superlativa. Quando fecho os olhos, sou capaz de recordar a memória
vivida de um Benfica-Porto em que o Diamantino, de tanto fintar o pobre do
Laureta, o deixou sentado no chão.
Há uns tempos, um bom amigo comum, o Manolo Bello, apresentou-me o Diamantino, e eu, reduzido à condição de adepto, não queria acreditar que o meu ídolo de infância sabia quem eu era e que a altivez que exibia em campo coexistia com um homem simples.
Mas não se iludam. Não é por ser, hoje, amigo do Diamantino que o vejo à minha imagem. Pelo contrário, o Diamante Vermelho continua a ser a medida de todas as coisas. Posso bem comentar os superiores assuntos da política, dar aulas na universidade ou fazer outras coisas às quais se atribui, por erro de avaliação, alguma grandeza. Aconteça o que acontecer, eu serei apenas um tipo que falhou no essencial, enquanto ele será sempre o Diamantino, que esbanjou classe no Benfica e marcou golos sem fim com a camisola do Glorioso. Na verdade, o Diamantino é a corporização da vida com a qual sonhei quando era criança. Tudo o resto que eu faça, é apenas porque não pude ser jogador de futebol no meu Benfica. Essa grandeza que me está vedada é a matéria de que é feita a vida do Diamantino.
Já agora, o miúdo fotografado a pedir um autógrafo ao seu ídolo, à porta de um treino, no velho Estádio da Luz, nessa velha página de jornal, é o autor destas linhas.
(uma versão editada deste texto foi publicada no Record de ontem)
quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
O Pós-Enzo
Após um "tiro no porta-aviões" dado pelo Braga e uma vitória com uma exibição sofrível face a um adversário medíocre, talvez valha a pena refletir sobre o que será o Benfica pós-Enzo. Até ver, as alternativas ao argentino para a posição 8 têm sido, para ser generoso, remediadas.
Talvez a questão se prenda mesmo com a posição 8. No modelo de Jesus, estamos a falar de um lugar muito exigente, onde participação nos momentos de organização ofensiva tem de estar articulada com grande intensidade nas transições defensivas. O número 8 do Benfica de Jesus é um autêntico pêndulo: está sempre presente a atacar e também a defender. Quer táctica, quer técnica, quer fisicamente, jogar naquele lugar está ao alcance de poucos. Na verdade, nos anos de Jesus, só Enzo e Witsel o fizeram com mestria (no primeiro ano, as circunstâncias eram diferentes, pois Ramires oferecia um grande equilíbrio à equipa desde as alas).
O que fazer agora? Se bem se percebe, o próprio Jesus parece hesitar. Quando parecia que Pizzi seria a alternativa ao argentino, recuperou a solução Talisca. A questão é que nenhum dos dois é, nem poderá ser, um clone de Enzo e todas as alternativas obrigarão o Benfica a mudar o seu sistema.
É
mesmo caso para afirmar, parafraseando Jesus sobre Matic, que "para
render Enzo, só nascendo dez vezes". Com uma agravante, Enzo é um
jogador mais influente e determinante do que era Matic (o que não quer
dizer que seja melhor jogador do que o sérvio).
Na impossibilidade de contratar um jogador de classe e maturidade, talvez seja preferível encontrar um modelo mais flexível, onde a equipa se adapte também ao perfil dos jogadores do plantel, em lugar de se forçar jogadores a serem o que não são. No fim, sobra uma certeza: uma vez mais, o caminho para o título dependerá da competência do treinador para ultrapassar dificuldades.
publicado no Record de ontem.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
Antes e Depois
Há um antes e um depois do clássico de Domingo. Basta que se recupere um pouco do que se dizia até ao jogo e o que se pode hoje afirmar. No lançamento da partida, era voz corrente que, superada a inexplicável rotatividade dos titulares e a fase de adaptação de jogadores e treinador ao futebol português, o FC Porto estava num crescendo de forma e que a pressão estaria toda do lado do Benfica.
Afinal, apesar de liderar, o Glorioso soçobraria no Dragão face a um FC Porto com mais talentos individuais. Mais: era-nos dito que a equipa de Jesus, não podendo pôr em prática o carrossel atacante que está na base do seu modelo de jogo, tinha invariavelmente dificuldades em gerir as partidas contra equipas mais fortes, como ficara visível nos jogos da Champions. No fundo, o Benfica sairia derrotado do Dragão e a liderança do campeonato era sol de pouca dura. Viu-se. Contra todas as expectativas, o Benfica venceu e, mais importante, fê-lo com uma exibição incomum.
Quase tão importante como ter vencido, foi tê-lo feito contrariando a asserção que parecia mais sólida em relação ao modelo de jogo de Jesus: o Benfica é incapaz de controlar um jogo, ocupando espaços sem posse de bola. Ora o que se viu no Dragão foi uma equipa muito competente, a fazer pressão alta, com uma defesa subida (uma manobra de risco face ao talento individual dos portistas) e com uma organização coletiva notável nos (muitos) momentos em que não teve bola.
É
evidente que nada disto seria possível sem talento individual, mas foi
claramente mais importante a forma como cada jogador (mesmo um artista
como Gaitán) soube participar nas tarefas da equipa. E é também nisso
que reside a grande diferença entre Benfica e FC Porto. Enquanto o
Benfica tem um modelo e uma organização de jogo que condicionam o lugar
de cada jogador; o FC Porto que tem talentos de sobra para formar uma
superequipa, continua a não funcionar enquanto tal. Como é sabido, são
as equipas que ganham campeonatos.
publicado no Record de terça-feira
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
Os 10 melhores discos de 2014
A minha escolha dos 10 melhores discos de 2014 pode ser vista aqui e escutada aqui.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
E serve para quê?
Este fim-de-semana, Benfica, FC Porto e Sporting tiveram passeios no campeonato. Foi assim nesta jornada e o mesmo ocorrerá muitas vezes até ao final da temporada. As equipas pequenas limitam-se a resistir, não procuram jogar futebol e, contra os grandes, o máximo que ambicionam é esperar que, estacionando um autocarro em frente à área, sejam capazes de não sofrer golos. Até aqui, nada de novo: o desequilíbrio é a marca do campeonato português.
O
que é novo é que o fosso entre os três grandes e mais uma mão-cheia de
clubes capazes de jogar futebol e as restantes equipas cresceu. Doze
jornadas cumpridas, há sete clubes que têm menos do que oito golos
marcados e menos pontos do que jogos disputados - ou seja, são incapazes
de pontuar mesmo contra clubes do "seu campeonato". Com a ideia
peregrina de termos um campeonato com 18 equipas, o nivelamento por
baixo passou a ser a regra. A 1.ª Liga tem demasiados clubes que
praticam um futebol medíocre, não formam jogadores e não têm adeptos nos
estádios. Ou seja, não cumprem nenhum dos requisitos necessários para
disputar um campeonato profissional. Servem exatamente para quê estas
equipas na 1.ª Liga?
O problema é que a presença na 1.ª Liga destes clubes tem um efeito negativo sobre todo o futebol português. Desde logo porque torna-o menos atrativo para jovens estrangeiros de qualidade (que Benfica e FC Porto têm sabido contratar e valorizar nos últimos anos); depois porque enquanto os grandes se arrastam em jogos desinteressantes, mas fisicamente desgastantes, a sua capacidade de ir longe nas provas europeias diminui. Finalmente porque Benfica, FC Porto e até Sporting, ao esmagarem clubes que, há uns anos, teriam dificuldades na Divisão de Honra, alimentam a ilusão de que são equipas fortes. Infelizmente, com uma Liga com 18 clubes, o futebol português será cada vez mais fraco na Europa.
publicado no Record de terça-feira
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
Bye-Bye Europa
Depois de ter estado uns tempos em banho-maria, regressou em força a ideia de que o Benfica de Jesus não tem dimensão europeia. Bem sei que a relação dos adeptos com o futebol é ciclotímica: variando entre a euforia e a depressão profunda. Mas convém, de quando em vez, racionalizar e colocar as coisas em perspetiva.
É uma evidência que a participação na Champions este ano alternou entre o medíocre e o sofrível. O Benfica podia e devia ter feito melhor. Apesar de estar num grupo muito equilibrado, pelo menos Zenit e Mónaco são equipas ao alcance do Glorioso. Mais: os sinais dados pelo treinador, nomeadamente em Leverkusen, indiciaram um desinvestimento na competição que teve consequências. Mas daí a concluir que o Benfica dos últimos anos não tem tido pedalada para as noites europeias vai um passo de gigante.
Talvez
valha a pena avivar a memória de alguns. Num passado não muito distante
o Benfica nem sequer se apurava para a Champions (não sei se têm
presente, mas nas 5 últimas temporadas o Benfica esteve sempre presente
na fase de grupos). Depois, em dois anos fizemos duas finais da Liga
Europa – há 24 anos que não marcávamos presença numa final europeia. E,
claro está, por muitas contratações que tenham sido feitas – e este ano
estão ainda por justificar os investimentos avultados em Samaris e
Cristante, já para não falar de Bebé, Benito e César –, nos palcos
europeus os orçamentos contam. Se olharmos para a folha salarial do
Benfica e a compararmos com a de outros clubes europeus, talvez se
perceba melhor a diferença competitiva.
O problema do Benfica não é ter ficado de fora da Europa em Dezembro. Aliás, com menos jogos para disputar, pode ser uma equipa bem mais forte no campeonato. O que é motivo de preocupação é que, ao dizer adeus à Europa, o Benfica pode estar a dizer adeus a jogadores fundamentais, já em janeiro.
publicado esta semana no Record.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Nick Drake – um desconhecido entre nós
“if songs
were lines in a conversation/the situation would be fine”.
Hazey Jane II
25 de Novembro de 1974. Em
Tanworth-in-Arden, uma pequena vila nas midlands
britânicas, morria aos 26 anos Nick Drake. Com uma existência reclusa, sem
reconhecimento em vida, deixou um legado mais influente do que popular. Quarenta
anos passados da sua morte, não é possível compreender a folk das últimas
décadas sem escutar a sua música.
Ao contrário de outros génios musicais
atormentados, desaparecidos tragicamente antes dos 30 anos, não há registos
filmados de Drake, são escassas as gravações áudio e quase inexistentes os
depoimentos. Tudo o que resta para o recordar é um conjunto de fotografias,
relatos de amigos e familiares e a sua música. Mas, mesmo essa, limita-se a duas
horas, divididas entre 31 canções, repartidas por três álbuns, lançados entre
os 20 e os 24 anos de idade. O culto em torno de Drake baseia-se, por isso,
numa combinação entre o reconhecimento da sua voz única e o mistério em torno
de alguém que permanece um desconhecido.
É tentador ver a música de Drake como uma demorada
nota de suicídio. Há, de facto, uma dimensão de fatalismo em tudo o que fez. Fruit Tree, uma das canções do seu
primeiro disco, pode ser lida como uma profecia que se autorrealiza (Forgotten while you’re here/remembered for a
while/they’ll all know/that you were here when you’re gone). Mas Drake
não pode ser reduzido a um “Santo Padroeiro dos deprimidos”, como por vezes é
sugerido. Tirando o período posterior à gravação de Pink Moon, em que esteve internado em instituições psiquiátricas, a
sua timidez e introspeção não significavam que estava enredado na depressão que
haveria de o fazer desistir da vida. As próprias letras das suas canções, se
bem que repletas de alusões depressivas, deixavam também entrever fogachos de
luz, num contraclamor. Como recorda o seu produtor Joe Boyd, “Drake sofria de
depressão, mas a sua música não era função dessa depressão”.
Criador de uma folk idiossincrática,
musicalmente é a expressão de uma contradição: um conservador radicalmente
inovador. Quando lançou o seu primeiro disco, em 1969, Dylan tinha entrado na
fase eléctrica e Tim Buckley abraçado uma folk de pendor psicadélico (para
referir duas das suas grandes influências). Drake manter-se-ia preso a uma
visão tradicionalista, fixando uma leitura britânica da folk. O seu
conservadorismo não deve ser confundido com um olhar estático e não o impediu
de ser um radical – na forma como combinou um cantar quase respirado, sem
vibrato, de uma fragilidade que parece a ponto de se quebrar, com um dedilhar
de guitarra complexo, num compasso atípico, por cima de uma capacidade lírica
que parecia encerrar toda a tristeza do mundo. Na Pitchfork, Jayson Green definiu-o como “dolorosamente
inglês”. Talvez seja essa a marca mais profunda da sua música – um cântico de além-memória que se encadeia
na paisagem bucólica da Inglaterra rural.
Nick Drake é um produto do seu meio e
do seu tempo e o epítome da cultura posh britânica
de tendências artísticas. Nascido num dos pontos mais longínquos do Império, na
Birmânia, onde o seu pai trabalhava, mudar-se-ia para o Reino Unido aos seis
anos, vivendo num ambiente rural, com todos os confortos, numa família com
particular sensibilidade cultural (o talento musical tê-lo-á herdado da mãe,
também ela cantora e escritora de canções, e a sua irmã foi uma actriz reconhecida
– aliás, Nick foi muito tempo “o irmão de Gabrielle Drake”). Esse ambiente
familiar está bem retratado em Family
Tree, registo editado em 2007, onde se escutam pequenas experiências
musicais em família, que antecipam a sua sonoridade.
Foi enquanto estudante universitário de
literatura inglesa que a sua identidade criativa se revelou. Em Cambridge viveu
dividido entre os círculos de classe média alta a que pertencia e o universo de
contracultura que começava a ganhar espaço e encontrou na poesia mística de
Blake e Yeats o mesmo espelho do universo pastoral que lhe era familiar. Chegou
a partilhar uma banda com Chris de Burgh e um sobrinho neto de John Maynard
Keynes, os Perfumed Gardeners, mas
foi a solo que consolidou a combinação singular de um dedilhar único da
guitarra com uma voz recolhida e profunda.
Estudante cada vez mais relapso, trocaria
Cambridge pelo circuito de bares londrinos, onde seria descoberto por um dos
membros dos Fairport Convention e
apresentado ao produtor Joe Boyd (que se tornaria colaborador permanente e um
conservador do seu legado). Com 20 anos, grava o seu primeiro disco e, para
surpresa dos músicos consagrados que o acompanham em estúdio (entre eles,
Richard Thompson), impõe a presença do seu colega de faculdade e amigo, Robert
Kirby, que fica responsável pelos arranjos. Kirby é quem cria as texturas
sonoras que, muitas das vezes, funcionam como uma contra-melodia para a
guitarra e a voz de Drake. Five Leaves
Left, lançado em 1969, era ao mesmo tempo um disco de estreia e a obra
muito inovadora de um autor com maturidade. Uma estreia promissora que
anunciava uma carreira de glória.
Começam também aí os problemas
psicológicos. Desconfortável em palco, incapaz de dar entrevistas ou participar
em ações promocionais, as vendas do disco de estreia revelam-se medíocres. Regressa,
no entanto, a estúdio para gravar Bryter
Layter. De novo acompanhado por um conjunto de parceiros notáveis – entre
eles, um multi-instrumentista galês, acabado de regressar de Nova Iorque, onde
tinha mudado a face da música de vanguarda e o rock alternativo. Com John Cale
grava duas faixas e tem uma ajuda preciosa na complexificação da sua sonoridade,
audível, em particular, em Northern Sky.
Uma vez mais, um disco que tinha tudo para dar certo, não vende. Segue-se, em
1972, Pink Moon, um álbum ainda mais
curto do que os anteriores, fruto de uma sessão de estúdio rápida e a solo e
que tem a curiosidade de ter sido parcialmente escrito em Portugal, durante a
estadia em casa do seu editor, Chris Blackwell, fundador da Island Records.
A sua situação material degrada-se e retorna
a Far Leys, a casa dos pais. No regresso, leva com ele todas as promessas por
cumprir. Havia vendido pouco mais de 15 mil discos e a sua vida parece, cada
vez mais, decalcada das experiências mentais e pessoais dos grandes autores do
romantismo. Uma sensibilidade extrema, uma inclinação para a introspeção,
muitas das vezes tomada como misantropismo, mas que no fundo revelava uma
capacidade única de observar, e o falhanço em vida. A sua irmã conta que ele se
tornou “mais silencioso à medida que viu mais” e uma amiga próxima, Lady Victoria
Waymouth, descreve-o como, “a pessoa mais espectral que alguma vez conheci”.
O Drake atormentado por dilemas
existenciais, ensombrado por uma depressão crescente, que hoje conhecemos, é o
desse período. A mãe, Molly Drake, classifica a sua retirada lenta como uma
“rejeição do mundo”. Joe Boyd sustenta, no entanto, que, no final da sua vida,
Drake vivia também uma insatisfação com o falhanço comercial. Inicia-se, então,
uma espiral de degradação, que assume contornos físicos. Enclausurado em casa, torna-se
monossilábico, não comunica e começa a depender de antidepressivos.
No verão de 1974, regressa a Londres para
uma última sessão de estúdio, do que poderia ter sido o seu quarto álbum de
originais. Por essa altura é incapaz de tocar guitarra e cantar ao mesmo tempo.
Dessa sessão, sobrariam quatro canções, onde se entrevê ainda o toque de génio.
Entre estas, Black Eyed Dog,
inspirada na descrição de Churchill para as depressões.
Ao contrário de outros mitos da música
contemporânea, desaparecidos precocemente, não resta nada por editar do espólio
de Drake – não há bootlegs, nem
registos ao vivo, muito menos colaborações mitificadas. Tuck Box, lançado este ano, encerra o mundo das reedições: a
discografia completa, remasterizada, dentro de uma caixa que é uma réplica da que
a sua mãe utilizava para enviar bolos semanalmente para o filho, então interno
no Marlborough College.
É poderoso o mito do rapaz nascido em
berço dourado enredado numa depressão e que deixou uma obra promissora e não
reconhecida em vida. Drake foi, nessa medida, um herói romântico dos nossos
dias. Mas, por si só, essa reminiscência do romantismo não seria suficiente
para explicar a atualidade do seu legado musical. Na sua toada lenta e cantar
delicado, manifesta-se uma confissão profunda das coisas primeiras, capaz de
cruzar, no seu dramatismo existencial, o universal com o singular, como só a
melhor arte consegue. Como defende o crítico musical Ian MacDonald no seu
ensaio seminal, Exiled from Heaven, a
música de Drake reaproxima-nos de partes de nós que a vida moderna tende a
erodir.
Preso às tormentas da
passagem para a vida adulta, o que perdura
é a memória de um rapaz que se deixaria levar por uma dose excessiva de
antidepressivos, na noite de 25 de Novembro de 1974. Drake viveu isolado e
morreu sozinho, em casa dos pais, demonstrando que ninguém é capaz de proteger
ninguém do sofrimento.
(publicado no Atual do Expresso de 29 de Novembro. A zona de conforto de 21 de Novembro foi dedicada em exclusivo a Nick Drake e pode ser escutada aqui)
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Drama Queen
(dilemas - o que será melhor: a voz insegura e trémula da marianne faithfull ou o solo de guitarra final da anna calvi?)
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
O atrevimento
Costuma dizer-se, com razão, que “a ignorância é muito atrevida”. De tal forma que eu, que todo o conhecimento que tenho sobre futebol resulta da experiência de ver jogos vai para 40 anos (como disse Jorge Jesus, “o que é o conhecimento? Conhecimento é experiência”), não hesito em escrever, contra toda a prudência, semanalmente nas páginas do Record.
Talvez, ao contrário do que acontece no resto da vida, a prudência não seja uma qualidade que deva estar presente em doses excessivas quando o tema é futebol. Lembrei-me disto a propósito da exibição de Salvio este fim de semana.
O argentino é um jogador que divide opiniões: não tanto entre adeptos de bancada (o que acontecia, por exemplo, de forma chocante com Cardozo), mas entre quem tem uma abordagem científica ao futebol. No blog “Lateral Esquerdo”, um dos espaços onde mais se aprende sobre futebol, não passa uma semana sem que Salvio seja criticado. Não está em causa o seu talento, mas o modo como o seu jogo desequilibra a equipa.
Não é preciso ter muito conhecimento sobre o que é futebol para se perceber que Salvio abusa das jogadas individuais, que fá-lo muitas das vezes sem critério, buscando situações de 1x2, quando não de 1x3 ou até 1x4, o que leva a que tenha uma taxa de insucesso muito alta. No fundo, Salvio seria um jogador pouco eficiente – isto é, com uma fraca relação entre os recursos empregues e os resultados obtidos. Mais, a ineficiência de Salvio coloca a equipa em apuros, pois as suas perdas de bola obrigam os colegas a um esforço acrescido para o compensar.
É tudo verdade. No entanto, Salvio oferece coisas únicas ao jogo: é um jogador capaz de romper com a gramática rígida e previsível que por vezes existe em excesso no futebol. Precisamos de jogadores criteriosos, capazes de introduzir racionalidade no jogo. Mas o que seria o futebol sem o atrevimento serpenteante de jogadores como Salvio?
publicado no Record ontem (e teve direito a resposta convincente no excelente lateral esquerdo, um sítio onde se aprende mesmo - lá está, cheio de conhecimento acumulado)
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
A literatura como insulto
tenho memória, bastante exacta, aliás, de ter gostado muito do Closer. Devo ter visto o filme na altura certa e com a idade adequada. agora que o Mike Nichols morreu, lembrei-me que, entre muitas outras coisas, o Closer tem uma das "linhas" de que gosto mais no cinema. O momento em que o Clive Owen aconselha o Jude Law a fazer o seguinte:
"Go fuck yourself! You writer! You liar!"
"Go fuck yourself! You writer! You liar!"
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