"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Eu não o vi jogar



Com uma lucidez exata, o poeta Ruy Belo disse um dia que “Fernando Pessoa nunca seria conhecido por tanta gente como Eusébio”, para logo acrescentar que “achava bem”. Numa curta resposta numa entrevista, Ruy Belo, que é juntamente com Pessoa o nome maior da poesia portuguesa do século XX, mas era, em igual medida, um benfiquista apaixonado, esclarecia o ponto: “a poesia é por natureza difícil. Como o futebol. (mas no futebol encontramos) o êxito.”
Faz sentido colocar lado a lado duas artes maiores: a poesia e o futebol. Nas duas, entrevemos a mesma capacidade de tornar simples o complexo. Há numa partida de futebol demasiadas variáveis e obstáculos que aparentam ser intransponíveis, e o segredo está em saber simplificar o jogo. Um grande jogador é isso que faz: encontra escapes fáceis, que nenhum outro foi capaz de vislumbrar. O propósito da poesia não é diferente, através de palavras concretas, atentas ao pormenor, revelar-nos resquícios da verdade. Em poucos sítios como no futebol e na poesia podemos avistar uma glória absoluta.
Eu nunca vi Eusébio jogar, mas é como se o tivesse visto. Sei bem o que uma jogada deslumbrante, uma cavalgada monumental, com uma força que parecia estranha a todos os outros, ou um remate explosivo, podem fazer pela revelação da verdade. Sei, por isso, que um grande jogador em nada se distingue de um grande poeta. Sei que há tanta verdade nos dribles serpenteantes do Maradona como nas palavras enigmáticas de Borges; na perfeição clássica de Pelé como na afinação suprema da voz de João Gilberto; na altivez superior de Beckenbauer como no romantismo da poesia de Goethe. A diferença está, como bem notou Ruy Belo, que um poeta terá menos possibilidade de alcançar o êxito, revelar essa verdade a um maior número de pessoas.
Eusébio aproximou-nos a todos nós, portugueses, por escassos instantes, com os seus golos, um pouco mais do absoluto. É essa a matéria de que são feitos os génios. Como é sabido, não se repetem, mas é também o que lhes oferece a eternidade.

publicado no Record de hoje

domingo, 5 de janeiro de 2014

eu nunca vi Eusébio jogar, mas é como se o tivesse visto


“Fernando Pessoa nunca será conhecido por tanta gente como Eusébio. E acho bem. O êxito”.
Ruy Belo 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Fim da linha


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A Christmas Carol

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Os melhores discos de 2013


1. Bill Callahan – Dream River (Drag City)

Pode alguém cantar a mesma canção anos a fio e surpreender-nos sempre ao revelar um ângulo (ainda) mais intenso e dramático? Bill Callahan prova que sim e deixa-nos com Dream River aquele que é o ponto alto da sua longa carreira – o que não é pouco. Ao ponto de, com suprema ironia, declarar, “I've got limitations like Marvin Gaye”.

2. Vampire Weekend – Modern Vampires Of The City (XL)

Com o seu pop-rock de travo fácil e sofisticado, estes quatro rapazes de nova-iorque, presos entre o hype global e os ritmos africanos como interpretados por Paul Simon em Graceland, pareciam correr o risco de se repetir, tornando-se redundantes. Mas, ao terceiro álbum, resolveram baralhar (foi-se o imediatismo rock) e voltar a dar (ganhou-se sofisticação formal). Um disco que, sendo uma evolução na continuidade, surpreende e que se vai entranhando.

3. Laura Marling - Once I Was an Eagle (Ribbon Music)

São aparentemente limitados os caminhos da folk e, por vezes, parece que o espaço para rupturas já foi todo ocupado. Mas esta jovem aristocrática britânica arrebata pela sua maturidade e não hesita em dialogar com os grandes. O tom dylanesco é evidente e um disco descarnado, no osso, pode mesmo voar alto e ser um soco no estômago.

4. Jim James - Regions of Light and Sound of God (ATO)

Para quem está convencido que “nada muda”, a estreia a solo de Jim James, líder dos míticos My Morning Jacket, funciona como poderoso argumento de sentido contrário. Por aqui não há resquícios do guitar-hero inspirado em Neil Young, mas apenas uma soul orquestral, poderosa e empurrada por algumas das canções do ano. Nunca se ouviu um Jim James tão inspirado.

5. Prefab Sprout – Crimson/Red (Icebreaker Records)

Dez anos passados, a pop volta ao lugar onde foi mais feliz. Paddy McAloon, o “velho mágico” da canção pop, redescobre os seus Prefab Sprout e leva-os de volta ao sítio onde havíamos ficado: canções trauteáveis, arranjos imaculados e lampejos de utopias melódicas como as que herdámos de “Steve McQueen” e “From Langley Park to Memphis”. Um disco irresistivelmente conservador.

6. Julia Holter – Loud City Song (Domino)

Ao terceiro disco, Julia Holter encontra a dose certa de vanguardismo formal e enlevo pop e oferece-nos um álbum que precisa de tempo para ser apreciado. Esta californiana pega no legado de experimentalismo pop, onde Laurie Andersen e Kate Bush o deixaram, e devolve-nos canções de filigrana, que refletem uma ingenuidade de natureza lynchiana. A certa altura Holter canta “I don't understand falling leaves. A tree's a tree", e por detrás da complexidade da sua música emerge esse mesmo lado essencial.

7. The National – Trouble Will Find Me (4AD)

Patronos da legião mundial de auto-depreciativos, capazes de combinar guitarras abrasivas com cadência melódica e porta-vozes da geração sobre-30 urbano-depressiva, os The National continuam a revelar, álbum após álbum, as mesmas “canções tristes para amantes sujos”. Trouble Will Find Me não destoa. Não tem a energia primitiva de Boxer, nem os hinos para cantar de punho erguido no recato do quarto de Alligator, nem sequer o apelo mainstream de High Violet. Mas é possível resistir ao apelo por conforto de Matt Berninger quando se descreve (ou nos descreve?) como “a television version of a person with a broken heart”?

8. Alela Diane – About Farewell (Burnside)

Há poucos desafios tão difíceis como cantar com contenção o desalento do fim de uma relação – a  linha a separar o bom gosto da pura lamechice é muito ténue. Alela Diane enfrenta o desafio com sucesso e About Farewell, sendo um retrato do fim, é também um início, que combina frustração com uma esperança desalentada, e por isso mesmo realista. A intimidade que se ouve neste disco é de tal forma vivida que somos capazes de, ao escutá-la, vivê-la como nossa. Poucos discos soaram tão autênticos este ano.

9. Nick Cave & the Bad Seeds – Push the Sky Away (Bad Seed Ltd.)

Se tirarmos Leonard Cohen, ninguém canta de forma tão exata a combinação de amor, religião, poder e sexo que nos forma como Nick Cave. Mas se, no início da carreira, a marca do australiano era o negrume e a atração pelo abismo, com a maturidade a sua música foi-se revelando crescentemente suave, como que para encobrir os temas de sempre. O disco deste ano, o 15º da banda, marca o fim da parceria de décadas com Mick Harvey e tem nos loops incessantes de Warren Ellis uma base sonora que funciona como uma tempestade tranquila e que faz emergir uma mão-cheia de canções que fará parte do cancioneiro de Cave.

10. Volcano Choir - Repave (Jagjaguwar)

O que começou por ser um projecto paralelo e experimentalista de Justin Vernon (Bon Iver) com membros dos Collections of Colonies of Bees, soa, ao segundo álbum, como uma combinação das duas dimensões de Bon Iver: o lado mais bucólico e intimista do disco de estreia com a natureza grandiloquente do segundo álbum. Para os fãs do Bon Iver mais recente, o disco de Volcano Choir enche as medidas, para os nostálgicos da sua estreia, sempre serve para matar saudades.

para ouvir aqui.


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O Bernardo



A forma como avaliamos um jogador do nosso clube é sempre uma projeção de nós próprios como adeptos. É isso que faz com que queiramos jogadores que suem a camisola com a intensidade com que sofremos pelas nossas cores. É tanto assim que os anos vão passando e continuamos a alimentar ilusões infantis: podemos nunca ter tido qualidades técnicas, mas, quando fechamos os olhos, vemo-nos a agarrar a bola para marcar o golo decisivo, sob os aplausos do estádio. Quem sofre com futebol, sofre com o seu clube e, nessa indistinção, exigimos dos jogadores o que nós daríamos se, por fortuna, pudéssemos estar no seu lugar.

De quando em quando surge um jogador adepto como nós, mas com o talento que ambicionámos ter. Um sofredor que tem a sorte de poder sofrer no relvado, de camisola ao peito. Há jogadores profissionais que honram a camisola; mas uma coisa é jogar com afinco, outra é jogar com afinco com a camisola do clube do coração. Momentos há em que, numa espécie de epifania, ao adepto se junta o empenho e o talento. É desta conjugação que nascem os jogadores que nos fazem sonhar.

No futebol em que as equipas são cada vez mais “seleções do resto do mundo”, o jogador-adepto é uma raridade. É essa natureza rara que o torna precioso.

O Bernardo Silva é ainda um projeto de jogador, que deve ser acarinhado e protegido. Mas é um jogador-adepto como, nós benfiquistas, não víamos há muito. Não só a sua paixão pelo Glorioso é, em tudo, igual à de quem se senta nas bancadas, como tem um virtuosismo como aquele que idealizámos para nós, caso vestíssemos as camisolas vermelhas. Com o Bernardo, a bola parece ter sido feita para o servir, colando-se-lhe aos pés para ganhar um sentido que não vislumbrávamos. No meio da monotonia mecânica em que se tornam os jogos, as suas jogadas são fragmentos poéticos que simplificam tudo, revelando como o futebol pode ser fácil.

O Bernardo é a matéria de que são feitos, hoje, os sonhos benfiquistas. Ora se o futebol não servir para alimentar sonhos, serve exatamente para quê?

publicado no Record de ontem.