para além da sua própria eleição, o Obamacare, uma resposta diferente à crise financeira, a morte de Bin Laden, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e, acima de tudo, pôs uma rapariga texana, de muitos talentos, a cantar assim, num "crazy day (legally)".
segunda-feira, 29 de junho de 2015
quarta-feira, 24 de junho de 2015
Que fazer?
Estranha-se esta sensação de estar em celebração
interior e ser atacado pela perda de peças que foram “chave” no
bicampeonato e, pior, perceber que tenho de me preparar para mais
baixas. Por mais apelos à razão, não é fácil. Podem dizer-me que no
futebol moderno a fidelidade clubística é território exclusivo dos
adeptos. Sei de tudo isso, mas custa saber que o jogador que vi fazer
juras de amor eterno à camisola do Glorioso será o primeiro a trocar
essa paixão por um compreensível conforto material.
Não
se trata apenas do desejo sempre adiado de um defeso tranquilo, sem
vendas, trocas ou empréstimos. É mais do que isso. É também a
necessidade de resistir a uma captura do futebol pelas forças da razão.
Chegará
um novo ponta-de-lança entusiasmante para substituir o ídolo de hoje e a
admiração pelo centro campista de toque subtil que nos abandonou
revelar-se-á efémera assim que o jovem talento tiver espaço para se
afirmar. Pouco importa: se deixarmos que se transforme num território
onde a irracionalidade e as paixões absolutas perdem todo o espaço para a
gestão rigorosa e a sustentabilidade financeira, para que é que servirá
exatamente o futebol?
Que
fazer, então? Encontrar um equilíbrio entre racionalidade e paixão na
forma como se gere um clube, até porque no Benfica os principais
dividendos a distribuir são as vitórias.
Basta
ver o futebol poético do Bernardo no Europeu sub-21 para se ter a
certeza que nenhuma análise custo-benefício é capaz de calcular o valor
patrimonial da paixão benfiquista daquele miúdo. Nunca, em circunstância
alguma, podia ter sido vendido.
Já Maxi,
depois de todas as exigências e das ameaças de sair para um rival,
delapidou o capital que tinha e perdeu a mística de outros tempos. Faço
minhas as palavras do grande Toni: “Por mim, já tinha marchado”.
publicado no Record de terça-feira.
quarta-feira, 17 de junho de 2015
O anti-Jesus?
O maior erro que Rui Vitória podia cometer na sua
afirmação como treinador do Benfica seria surgir como o anti-Jesus,
alguém que se pretendia afirmar renegando o modelo que foi consolidado
nos últimos anos. Por muito que um treinador tenha uma ideia de jogo que
deseja imprimir, esta não se pode traduzir numa rutura radical.
Principalmente quando pega numa equipa que vem de campanhas vitoriosas.
Num
dos poucos momentos em que foi convidado a falar sobre futebol ontem,
Rui Vitória disse isso mesmo. Entre perguntas sobre contratações,
confiança, renovações e aposta em jovens, o novo treinador do Benfica lá
conseguiu dizer alguma coisa sobre o que pretende fazer
futebolisticamente. Na entrevista à Benfica TV sublinhou que não ia
"cortar com o passado", nem "estragar nada", mas acrescentou uma ideia
diferenciadora: "vamos trabalhar para ter solução para as diversas
competições" e desenvolver "alternativas táticas", que tornem o Benfica
"mais versátil".
Para
bom entendedor, estas palavras bastam. Jorge Jesus tem muitas
qualidades como treinador, mas o Benfica dos últimos anos tinha também
uma debilidade, arriscaria dizer, estrutural. Era uma equipa com um
sistema de jogo quase único, com pouca versatilidade tática: ou
apresentava um carrossel atacante estonteante ou sofria a bom sofrer
para controlar as partidas. Não por acaso, contra equipas do seu nível, o
Benfica ficou aquém das suas possibilidades (na Champions, mas, também,
nos jogos com os principais rivais).
Se
Vitória conseguir manter-se fiel a um modelo de jogo de clube grande,
atacante e de posse, mas for capaz de acrescentar uma versatilidade
tática que Jesus, de facto, nunca imprimiu, concretizará o que prometeu.
Continuará o trabalho feito até aqui, mas juntará uma dimensão que
faltou nos últimos anos. Versatilidade é a palavra-chave para continuar o
percurso ganhador já iniciado.
publicado no Record de terça-feira
quarta-feira, 10 de junho de 2015
Virar a página?
Jesus é um óptimo treinador e foi um funcionário que
prestou grandes serviços ao Benfica. Com ele, o Glorioso voltou a ser
um clube ganhador com uma ideia de jogo coerente com os desafios do
campeonato. Na minha visão do Benfica, no momento em que Jesus terminou o
seu vínculo, seria esta a mensagem que deveria ter sido repetida.
Independentemente do clube pelo qual assinou.
E aqui começam os equívocos da situação em que o Benfica se encontra.
Se
a direção pensava que era altura de virar a página e traçar um novo
rumo, devia ter tomado as decisões planeadas e contratar Rui Vitória.
Ora parece que o que está a influenciar a escolha do treinador não é uma
indefinição estratégica, mas o facto de Jesus ter saído para o
Sporting. Um clube como o Benfica não se deixa condicionar pelas opções
dos outros clubes. É um erro que, aliás, nos pode fazer recuar a um
período em que estávamos mais preocupados com o que os nossos rivais
faziam do que em organizar autonomamente uma estrutura vencedora.
Depois
a sempiterna aposta na formação. Há, a este propósito, um outro
equívoco. Nos últimos anos, o Benfica formou uma mão-cheia de jogadores
(David Luiz, Di María, Matic, Markovic, André Gomes) que chegaram com
pouco cartel e saíram valorizados. Será que, com a exceção de Bernardo
Silva, houve algum jovem talento subaproveitado?
A
questão não é saber se se vai apostar na formação, mas, sim, que ideia
de jogo um novo treinador pode trazer. Virar de página implica
continuarmos a ser capazes de exibir o carrossel atacante nos jogos em
casa e, ao mesmo tempo, termos um sistema alternativo que permita
controlar um jogo em posse organizada (a principal insuficiência de
Jesus).
Contratar um novo treinador devia
depender mais de uma opção em torno do modelo de jogo desejável e menos
do que fazem os nossos rivais ou do papel que os jovens talentos devem
ter.
publicado no Record de terça-feira.
quarta-feira, 3 de junho de 2015
Maxi, renova
Tem sido sublinhado que o sucesso
do Benfica se deve à combinação da liderança de Luís Filipe Vieira com a
competência de Jorge Jesus. A afirmação é verdadeira, mas esquece o
papel crucial dos capitães de equipa. Sem o Luisão e o Maxi, o Benfica
não seria o clube vencedor que é de novo.
O
Luisão e o Maxi são grandes jogadores, mas o que os distingue não é a
mais-valia técnica. A importância dos capitães mede-se pela capacidade
de liderança, dentro e fora do campo, e por um passado de vitórias e de
derrotas que lhes confere uma experiência acumulada que se faz sentir
nos momentos decisivos. Não por acaso, o Benfica voltou a ganhar quando
passou a ter referências no balneário, que se foram mantendo de ano para
ano, enquanto o Porto perdeu esses mesmos exemplos.
Verdade
seja dita, se fosse feita uma avaliação puramente individual, não faria
muito sentido manter Luisão e Maxi no plantel. São jogadores acima dos
30, com salários elevados e que terão prestações piores nos próximos
anos. Mais, jogando ambos do lado direito da defesa, a sua coexistência
pode antecipar problemas. Afinal, nenhum será capaz de compensar a perda
de velocidade do outro.
Acontece que o
futebol é um jogo de equipa, onde talento e disponibilidade física
individuais são apenas uma das várias variáveis relevantes. O que o
Luisão e o Maxi não têm hoje compensam com atributos de valor
incalculável.
Num
momento em que o Benfica vai apostar na formação, a renovação de Maxi é
ainda mais imperiosa. O sucesso do Gonçalo Guedes, do Renato Sanches,
do Nuno Santos ou do Jonathan vai depender de terem quem compense a sua
inexperiência e impetuosidade juvenil. Ora, no futuro próximo, o Maxi
pode ser um digno sucessor do Luisão. E, como sabemos da experiência com
o Luisão, considerando o que nosso capitão oferece ao Benfica, dentro e
fora de campo, o seu salário até é baixo.
publicado no Record de terça-feira
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Jesus, fica
"Com ele passei a ter uma visão geral do futebol.
Com os outros, treinávamos o ataque, a defesa, mas não havia essa ideia
de conjunto. Todos os jogadores deviam ter a oportunidade de treinar com
um treinador assim." Cito de cor, mas julgo estar a ser fiel às
palavras de Jonas a propósito de Jorge Jesus, aos microfones da TSF, no
final do Benfica-Marítimo. Jonas, esse mesmo, que, quando parecia ter
chegado ao ocaso da sua carreira, redescobriu o prazer pelo futebol e
ajudou a decidir o título.
Notem bem, foi
Jonas que o disse, mas poderia ter sido qualquer outro jogador - e nem
precisava de ter nome de profeta. Há, aliás, uma estranha unanimidade:
tenham jogado muito, pouco ou até quase nada, pouco importa, todos os
jogadores que passaram pelas mãos de Jesus elogiam a sua visão singular
sobre o futebol.
Podia, é um facto, não
passar de um treinador com capacidade de inovação, mas Jesus traduz a
sua ideia de jogo em resultados e, não menos importante, em
espetacularidade. Tem, é claro, defeitos (à cabeça a teimosia e a
dificuldade em montar uma equipa também capaz de controlar o jogo com
bola), contudo, no Benfica dos últimos tempos, há um antes e depois de
Jesus.
A equipa hoje tem uma ideia de jogo,
uma organização coletiva com poucos paralelos e uma identidade de tal
forma robusta que vão mudando os jogadores e, com auxílio de dois pares
de líderes no balneário, a diferença quase não se sente, mesmo quando
joga o "Manel". Nos últimos seis anos, o Benfica só se encontrou em duas
situações: vencer títulos ou disputá-los até ao fim.
Com
Jesus como treinador, o Benfica arrisca-se a continuar a ganhar.
Sabemos nós, benfiquistas, e sabem-no também adeptos e dirigentes dos
nossos rivais. Para que Porto e Sporting vençam o Benfica, já não basta
terem jogadores talentosos, precisam, também, de apresentar uma enorme
solidez coletiva. O suplemento que Jesus oferece ao Benfica.
publicado no Record de terça-feira
quinta-feira, 21 de maio de 2015
Desorientados
Recuemos
ao início da temporada. O Benfica era uma equipa em desagregação: o plantel que
havia vencido o triplete com nota artística parecia ferido de morte e as
alternativas tardavam a aparecer. Já não havia Oblak, Rodrigo, Garay e Siqueira
e ainda não havia nem Júlio César, nem Samaris, para não falar de Jonas. Enquanto
se anunciava a saída iminente de Enzo Pérez, os jogos de preparação, disputados
por uma mão-cheia de novas contratações entre o sofrível e o medíocre, tornavam
o bicampeonato uma miragem distante.
No
Dragão, a história era outra. Depois de uma temporada para esquecer,
apostava-se forte e não vencer era uma impossibilidade. Um treinador novo, com
um voto de confiança inusitado por aquelas bandas (3 anos de vínculo), contratações
em catadupa, empréstimos a peso de ouro e qualidade em todos os sectores – a
contrastar com o leque de jogadores que Paulo Fonseca tinha tido ao dispor.
O Benfica
iniciou a temporada derrotado e o Porto tinha tudo para vencer o campeonato. Mas
não foi assim.
Jesus
compensou fraquezas com a força da organização colectiva e fez do “Manel” um
jogador ao serviço de uma ideia de jogo consolidada. Depois, claro está, Júlio
César ofereceu a segurança defensiva que a equipa não havia tido nos últimos
anos e Jonas foi um autêntico joker –
importante pelos golos que marcou, fundamental pela forma como participou no
jogo atacante.
O
Porto, pelo contrário, viu a temporada pautada pela desorientação. A abrir,
Lopetegui entregou-se ao experimentalismo, mudando a equipa jogo sim, jogo sim,
até à 16ª jornada. As coisas começam a correr mal e não surge o campo inclinado
a que os portistas se habituaram. Resultado, a “estrutura” não compreende as
razões do falhanço e coloca o treinador a dar o corpo às balas.
Tudo
somado, a grande novidade desta temporada foi a desorientação revelada pelo
Porto.
publicado no Record de terça-feira
A vitória anunciada que afinal não o foi
Agosto de
2014, pelas bandas do Estádio da Luz assiste-se a uma debandada. A equipa que
conquistou o triplete com nota artística está a sofrer uma sangria com poucos
paralelos. Depois de perdidos Rodrigo, André Gomes e Garay, em poucos dias
partem Siqueira, Oblak, Markovic, Cardozo e, percebe-se, Enzo acabará por sair.
Entre saídas, a equipa faz uma pré-temporada medíocre, na qual maus resultados
se combinam com a apresentação de uma meia-dúzia de jogadores sofríveis. O campeonato
inicia-se sem uma solução para a baliza, sem um avançado para compensar a saída
de Rodrigo e Cardozo, sem opções para o lugar 6 (posição chave no esquema de
Jorge Jesus) e com uma defesa que parece uma manta de retalhos. Como se não
bastasse, Rúben Amorim lesiona-se gravemente na 2ª jornada e junta-se a Fejsa.
Repetir 2013-14 era uma miragem distante e o campeonato parecia entregue à
partida. Desta feita, tudo dependia mesmo da capacidade de Jesus formar uma
equipa e jogar com muitos “manéis”.
No Dragão
a história era toda outra. Depois de uma época para esquecer, a equipa mantinha
os jogadores de maior qualidade (Jackson, Danilo e Alex Sandro) e contrata
meia-dúzia de talentos indiscutíveis. Dinheiro parece não faltar: para
empréstimos luxuosos (Casemiro e Óliver) e para contratações proibitivas para o
nosso campeonato (Adrián Lopez). Um treinador desconhecido não se limita a ter
um voto de confiança incomum naquelas paragens (um contrato de 3 anos), como
tem um plantel bem distante dos Licás, Carlos Eduardos e Josués que Paulo
Fonseca havia tido ao seu dispor.
Em teoria,
o campeonato iniciava-se com o terreno inclinado a favor do Porto, que não
podia perder, enquanto o Benfica tinha tudo para entregar o ‘caneco’ nas
jornadas iniciais. Como sabemos hoje, não foi assim que as coisas se passaram.
O Benfica assumiu a liderança à 5ª jornada para, contra todas as
probabilidades, nunca mais largar o comando. Já o Porto, habituado a gerir a
sua posição hegemónica com todo o tipo de ajudas fora de campo, não compreende
o que se está a passar, começa a ficar desorientado, e saca do discurso do
“colinho”.
Na
política costuma dizer-se que as eleições não se ganham, perdem-se. Talvez, na
realidade, não seja bem assim e os resultados sejam sempre uma combinação particular
de derrota com vitória. No futebol é um pouco o mesmo que acontece. O Benfica
ganhou porque foi mais forte coletivamente e porque revelou estatura de
campeão, resistindo psicologicamente. Mas o Porto também foi responsável pelo
34º campeonato do Benfica, na medida em que perdeu, quando tinha tudo para
ganhar. Essa é, aliás, a grande novidade deste campeonato, quando comparado com
os das últimas duas décadas.
Publicado no
Expresso no Domingo às 20 horas.
quarta-feira, 13 de maio de 2015
A importância do 34
Tem sido dito que a conquista do 34.º título do
Benfica será muito importante pois desde 1982-84, sob o comando de
Eriksson, que o Benfica não ganha um bicampeonato. A vencer este ano, o
clube inverte a tendência de hegemonia do Porto, que se fez sentir, em
particular, desde a década de noventa.
Na
verdade, há um outro aspeto tão ou mais importante do que ganhar dois
títulos seguidos. Nos últimos campeonatos que o Benfica venceu, o
adversário direto nunca foi o Porto. De facto, quando os campeonatos
foram disputados até ao fim entre Benfica e Porto, os dragões acabaram
por se sagrar campeões. Tendo em conta o legado psicológico de 2012-13 e
2013-14, a vitória deste ano pode anunciar uma mudança importante.
Senão
vejamos: o último campeonato que o Benfica venceu, depois de uma
competição ombro a ombro com o Porto, foi em 1990-91, já lá vão 24 anos.
Na época passada, o 2.º classificado foi o Sporting e em 2009-10, o
Braga. É um facto que quer em 1993-94, quer em 2004-05, o Benfica foi
campeão com o Porto a sagrar-se vice-campeão. No entanto, ambos os
campeonatos foram disputados entre Benfica e Sporting, com o clube de
Alvalade a capitular na reta final (num caso, com a derrota por 6-3;
noutro com o golo de Luisão quase ao cair do pano na luz).
Este
ano, o Benfica não só parece ter o título à mão de semear, como
resistiu na liderança desde a 5.ª jornada, com o Porto à ilharga, nunca
claudicando. É também por isso que estamos perante uma conquista que, a
concretizar-se, é tão importante. Tanto mais que o Porto investiu muito,
com empréstimos a preços impraticáveis (Casemiro), contratações de
valores proibitivos para o campeonato português (Adrián López) e uma
aposta de médio-prazo num treinador desconhecido. Convém recordar que
este era o ano em que o Porto não podia falhar e em que o Benfica
iniciou a época quase derrotado.
publicado no Record de ontem.
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Bloqueio Psicológico
Com o aproximar da reta da meta, é natural que
qualidade técnica, consistência defensiva e criatividade ofensiva
continuem a contar, mas o que faz mesmo a diferença é a capacidade
psicológica. Saber lidar com a tremideira que vem com o momento em que o
título se começa a vislumbrar de forma nítida no horizonte é, agora,
decisivo.
Em Barcelos, para além de uma
exibição vistosa, com o futebol massacrante a que o Benfica nos habituou
nos jogos em casa, viu-se uma equipa desbloqueada psicologicamente, a
transbordar confiança. A atitude intimida os adversários, mas serve
também para enviar sinais para o competidor direto.
A
sensação com que se fica é que, depois de ultrapassado o teste decisivo
do confronto direto com o Porto, a equipa libertou-se de um peso
psicológico que, por vezes, e na ausência do colinho oferecido pelos
adeptos no Estádio da Luz, parecia retirar confiança e tolhia os
movimentos atacantes dos comandados por Jorge Jesus.
E,
como se verá no final da temporada, num campeonato disputado até ao
fim, a dimensão psicológica acabará por se revelar decisiva. E, até ver,
também aí o Benfica leva vantagem. Nos momentos decisivos, o Benfica
falhou em Paços de Ferreira, quando devia ter acabado com o campeonato,
mas o Porto falhou na Madeira, contra o Nacional, quando podia ter
aproveitado o deslize do Benfica em Vila do Conde, e revelou-se incapaz
de ultrapassar a teia tática montada por Jesus na Luz - o que aliás
explica o descontrolo emocional que Lopetegui tem revelado desde então.
Nas
próximas três jornadas, ao Benfica cabe, por isso, continuar a gerir a
vantagem pontual, mas, claro está, fá-lo-á alavancado por uma vantagem
psicológica que dá um suplemento de confiança e coloca o "caneco" a uma
distância cada vez mais curta.
publicado no Record de terça-feira
quarta-feira, 6 de maio de 2015
Para os sobreviventes
“No matter how dark the storm gets overhead/They say someone’s watching from the calm at the edge".
O Jason Molina morreu há dois anos e não deixou grande legado que se visse (isto é, não há por aí quase nada para ver com qualidade decente). O mesmo não é verdade quanto ao legado para ouvir. À boleia das reedições que, lentamente, a secretly canadian tem promovido é possível recuperar o tempo perdido sem o escutar. Tudo isto porque encontrei 20 minutos online que podem ser vistos e ouvidos.
o resto está aqui.
O Jason Molina morreu há dois anos e não deixou grande legado que se visse (isto é, não há por aí quase nada para ver com qualidade decente). O mesmo não é verdade quanto ao legado para ouvir. À boleia das reedições que, lentamente, a secretly canadian tem promovido é possível recuperar o tempo perdido sem o escutar. Tudo isto porque encontrei 20 minutos online que podem ser vistos e ouvidos.
o resto está aqui.
terça-feira, 28 de abril de 2015
Um nome: soberba
"O que há num simples nome?", questionava-se
Julieta, no drama de Shakespeare. A pergunta é-nos devolvida todos os
dias e regressou em força na ressaca do Benfica-Porto. Custa a crer,
mas, de acordo com os relatos, é mesmo verdade: a altercação entre Jesus
e, vamos lá ter cuidado a grafar, Lo-pe-te-gui não se deveu ao calor da
luta, mas ao basco ter ficado enxofrado com as constantes trocas do seu
apelido pelo treinador do Benfica.
A coisa
parece ter contornos de drama shakespeariano, e pode bem ter. Diria que
estamos perante o derradeiro sinal da soberba com que o técnico do Porto
encarou a sua passagem por Portugal, e que o faz acumular falhanços
atrás de falhanços, aproximando-o da queda.
Podia
encher esta coluna com "variações Jesus" de nomes e apelidos. A tarefa
era fácil. Das últimas semanas, e fazendo um exercício de memória,
recordo-me do "Wiliams", do "Ola Jonas", do Jonathan rebatizado de
"Xavier" e, claro está, do magnífico "Lotopegui" (a coisa é de tal
forma, que hoje tenho dificuldade em acertar com o nome do basco).
Jorge
Jesus pode ter muitos defeitos, mas qualquer pessoa com um módico de
sensatez percebe que as trocas de nomes, se nos dizem alguma coisa sobre
o técnico do Benfica, é que estamos perante alguém autêntico, que não
procura ser quem não é. Não por acaso, numa atitude tão pouco comum em
Portugal, Jesus não perde uma oportunidade de nos recordar as suas
origens e fá-lo com honra. Só lhe fica bem.
Que
Lopetegui não tenha percebido isso e tenha tomado por gozo o que está,
aliás, mais próximo da autoironia, é um sintoma da mesma atitude que o
levou a ficar convencido que teria uma tarefa fácil no Porto e a
desvalorizar o nosso campeonato, as competências tácticas dos
treinadores portugueses e a organização defensiva a que se agarram os
clubes pequenos. Os resultados da soberba estão à vista.
publicado hoje no Record
O sprint final
"É preciso que
alguma coisa mude para que tudo fique na mesma".
Mesmo que muito glosado, este velho adágio, que o escritor italiano Giuseppe
Tomasi di Lampedusa atribuiu a Don Fabrizio, príncipe de Salina, não perdeu
acuidade. Perante os ventos da mudança, a inteligência do “Leopardo”
permitia-lhe focar-se no essencial, preservando a sua forma de vida.
Talvez seja também esta a
melhor metáfora para o Benfica-Porto de ontem: foi necessário que alguma coisa
mudasse (mais uma jornada de campeonato, com o Benfica a manter uma distância
de segurança face ao Porto), para que tudo ficasse na mesma (o título será
decidido num sprint final, após uma longa maratona). Já o Benfica teve a
inteligência de focar-se no essencial – não perder pontos para o rival.
De resto, o jogo foi um
reflexo das debilidades e das forças das duas melhores equipas portuguesas.
Enquanto o Porto tem uma ótimo plantel, com muitas soluções, mas um jogo
coletivo com fragilidades e perturbado pelas alterações sistemáticas no onze
titular; o Benfica vive de uma ideia de jogo consolidada ao longo de 6
temporadas com Jorge Jesus, em que a organização coletiva, em particular nos
momentos defensivos, torna possível que até o “Manel” brilhe (por exemplo, foi notável
a exibição de Jardel, transformado num verdadeiro Garay).
Como acontece em muitos
jogos decisivos, o que a partida teve em intensidade, faltou-lhe em qualidade
nos momentos ofensivos. Nem Júlio César, nem Helton fizeram defesas dignas de
nota e quer Benfica, quer Porto estiveram bem melhor a defender do que a
atacar.
Numa altura em que o
campeonato se aproxima da reta da meta, o Benfica leva vantagem no confronto
direto, parece estar melhor fisicamente e reforçou a sua confiança anímica. Com
o embalo que leva, só um enorme percalço permitirá que o Benfica se deixe
ultrapassar no sprint final.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Veedon Fleece
no último par de anos, de cada vez que entrei numa discoteca procurei o Veedon Fleece do Van Morrison. já havia desesperado e suspeitava que, mais cedo ou mais tarde, acabaria por comprar uma cópia em segunda-mão (que ainda assim se conseguem encontrar online, a preços exorbitantes). o que se passa com o "fundo" de catálogo do Van Morrison é, aliás, inexplicável. depois de umas reedições relativamente cuidadas de Astral Weeks e Moondance, não nos foi oferecido mais nada (e nos serviços de streaming também pouco há - não há, claro está, o Veedon Fleece, que para ser escutado requer busca no youtube). Ora o Veedon Fleece disputa, com inteira justiça, o título de melhor disco do irlandês com o Astral Weeks. o álbum, editado em 1974 e gravado nos Estados Unidos, tem aquela combinação singular de R'n'B com um registo pastoral, a devolver-nos à Irlanda que Van Morrison havia abandonado, mas à qual regressaria em breve e, acima de tudo, um conjunto de canções de uma melancolia catártica, improváveis na voz singular de um jovem que ainda não tinha 30 anos.
tudo isto porque este fim-de-semana o Veedon Fleece veio ter comigo, oferecido com uma generosidade que sei reconhecer, mas não saberei retribuir, por um amigo que tinha uma cópia.
agora que escuto o álbum em loop (que é a única forma correta de se escutarem os discos), sei que, entre milhares de discos que acumulo, este ocupa, por mérito próprio, um lugar de destaque, mas guarda também a memória da generosidade do João.
e aqui uma versão ao vivo de Bulbs, de 1974, mas com arranjos bem distantes dos do álbum
quarta-feira, 22 de abril de 2015
Uma vergonha
Não passa uma semana sem que se ouçam queixas sobre o
ambiente desolador no qual se disputa a maior parte das partidas da 1.ª
Liga. Estádios às moscas, com assistências que ajudam a nivelar por
baixo o campeonato. Pois então experimentem ir a um jogo, fora de um
estádio dos três grandes, e talvez se perceba melhor a razão deste
cenário deprimente. Não e não falo da falta de qualidade de muitos
jogos.
Este fim-de-semana, fiz parte da maré
vermelha que invadiu a superior norte do Restelo e posso testemunhar a
vergonha que foram as condições de acesso e no interior do estádio.
Há
uma semana que era previsível uma enchente de benfiquistas, em
particular naquela zona do estádio. Pouco importa: a entrada foi
preparada em termos completamente desadequados. Duas horas antes do
início da partida, já se formava uma longa fila de acesso, que ninguém
cuidou de organizar. O acesso decorria a passo de caracol, por uma única
porta. Com o aproximar da hora do jogo, tudo se tornou mais caótico,
para culminar num enorme aperto na estreita porta. A crer no ritmo de
entrada de adeptos após o apito do árbitro, a entrada deve ter sido
flexibilizada. Que 25 anos depois de Hillsborough coisas destas se
passem num estádio europeu, é difícil de compreender. Esqueçam a ideia
que o futebol deve também ser um espetáculo para a família, levar
crianças para ali, nem pensar. Lá dentro, as casas de banho não
funcionavam e as cadeiras, ressequidas ao sol, partiam-se ao primeiro
encosto.
Não sei de quem é a culpa, mas minha
e dos outros milhares de adeptos que pagaram bilhete não é certamente. É
preciso ter muita vontade de acompanhar um jogo do clube do coração
para pagar para assistir a um espetáculo naquelas condições. No fim,
fica-se com a sensação de que se está à espera que uma tragédia ocorra
para que depois se gere um movimento de comoção nacional, seguido de
apuramento de responsabilidades.
publicado no Record de ontem
P.S.
o João Gonçalves escreve sobre o mesmo tema aqui.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Caos Criativo
O saxofonista Ornette Coleman disse um dia que o
"jazz é a única música em que a mesma nota pode ser tocada noite após
noite, mas de forma diferente de cada vez". Lembrei-me do criador do
free-jazz quando este fim-de-semana assistia, pela enésima vez, ao
carrossel atacante do Benfica. E a questão é mesmo a repetição do
"carrossel atacante".
Há quatro anos que se
usa a expressão para caracterizar a forma como o Benfica ataca,
envolvendo um grande número de jogadores em movimentações imprevisíveis.
Ora parece-me bem que estamos perante um problema de denominação: se as
movimentações são imprevisíveis não podemos falar de um carrossel – por
natureza uma formação em movimento circular e sem variação.
Quando,
depois de 20 minutos de jogo, a Académica em asfixia implorava por uma
pausa para respirar, ficou, para mim, claro que a gramática à qual
obedece o Benfica não é a de um carrossel, aproxima-se mais do caos
criativo, próprio do jazz. Reparem, há um equilíbrio colectivo, mas que
está ao serviço dos desequilíbrios individuais dos solistas e que radica
num método muito trabalhado, mas quase invisível.
A
agressividade com que o Glorioso encara os jogos não se aproxima do
movimento repetitivo do carrossel. Pelo contrário, o objectivo é sempre
alterar as convenções táticas: como sugeria Coleman, tocar a mesma nota,
mas fazê-lo sempre de forma diferente. Umas vezes, com Lima a cair nas
alas, outras com Gaitán a fletir para o meio, outras com Sálvio na zona
de finalização e, claro está, com Jonas a fazer tudo bem em todo o lado.
Tal
como no jazz, mesmo nas suas variações mais radicais, esta criatividade
pressupõe uma organização que é tão mais complexa e eficaz, quanto mais
invisível e trabalhada. Afinal, nada é tão exigente como uma boa
improvisação.
Resta agora superar um desafio: exibir este caos criativo em todos os palcos e não apenas na Luz.
publicado no Record de terça-feira
quarta-feira, 15 de abril de 2015
Dylanesca
há 8 anos, com 17 anos, a Laura Marling estreava-se no Jools Holland. Notava-se a idade (ou talvez não).
Ontem, do esplendor dos seus 25 anos, foi lá fazer esta exibição de maturidade.
tenho a certeza que o Bob Dylan, onde quer que esteja, deve gostar disto.
Ontem, do esplendor dos seus 25 anos, foi lá fazer esta exibição de maturidade.
tenho a certeza que o Bob Dylan, onde quer que esteja, deve gostar disto.
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