"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Bombear Bolas


Pode uma equipa grande, que ambiciona um tricampeonato, passar a meia-hora final de uma partida a fazer jogo direto para um amontoado de avançados? Pode, mas não deve. Ora foi isso que o Benfica fez no domingo, a jogar, de facto, em casa, contra o Arouca.

Depois de mais uma péssima entrada no jogo, o Benfica recompôs-se e apresentou o melhor futebol desta temporada. Com Pizzi mais apoiado por Samaris, a equipa cresceu, voltou a ter jogo interior consequente e regressou o caudal ofensivo. Foram 25 minutos à Benfica que pré-anunciavam a recuperação do resultado.

A vitória não estava, contudo, garantida. O futebol é imprevisível: uma equipa pode estar a jogar bem, a controlar a partida e, no fim, o resultado pode não ser satisfatório. Mas no futebol, também é sabido, compensa manter a fidelidade a uma determinada ideia de jogo. O que não compensa é suspender essa ideia e, em seu lugar, escolher o recurso dos que não têm mais recursos - o jogo direto e as bolas bombeadas para a área. 


Pois foi isso que o Benfica fez na meia-hora final, deitando fora o que estava a fazer bem até aí. A partir de certa altura, com dois postes dentro da área mais uma mão-cheia de alas e avançados, o jogo resumiu-se a cruzamentos longos, condenados ao fracasso, devidamente combinados com dezenas de remates sem critério de meia-distância. Posso estar enganado, mas não conheço na última década uma única equipa que tenha sido ganhadora a jogar assim. Contra o Arouca, pior que a derrota foi o sinal tático dado naquele último terço da partida. Espero não voltar a ver. 












publicado no Record

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

20 minutos (à Benfica)


"Nem tudo está mal quando se perde, nem tudo está bem quando se ganha". As palavras de Rui Vitória no rescaldo do jogo encerram uma das verdades mais esquecidas do futebol: uma equipa pode perder um jogo e deixar boa impressão, da mesma forma que é possível ganhar de forma fortuita.

É de elementar justiça que Rui Vitória tenha aproveitado a vitória folgada e a exibição morna para arrefecer os ânimos, em lugar de enveredar pela bazófia que é timbre de outros treinadores. Só lhe fica bem. Vale a pena, por isso, olhar para o que ainda correu mal no Benfica e para o que de bom aconteceu.

Uma vez mais, a equipa pareceu pobre de ideias de jogo ofensivo. O meio-campo surgiu vazio, com Fejsa a fechar muito perto dos centrais e a deixar Pizzi a grande distância. A organização atacante ressentiu-se e não se vislumbraram movimentações coletivas - Mitroglou, pesado, parecia um corpo estranho, incapaz de ligar o seu jogo ao de Jonas e, a defender, a equipa esteve muitas vezes mal posicionada, com Nélson Semedo a mostrar insuficiências.


Claro está, tudo ficou esquecido com os 20 minutos finais à Benfica. E aí emergiu o suplemento de classe de Gaitán, Jonas e Júlio César, a irreverência consequente de Victor Andrade e de Nélson Semedo e, acima de tudo, uma equipa que, solta das amarras (psicológicas?) que pareciam tolher os seus movimentos, se desinibiu. Pela primeira vez esta época, viu-se um caudal ofensivo vertical, capaz de aproximar o Benfica da baliza adversária. Agora, com um calendário favorável, o desafio é consolidar esta libertação emocional.












publicado no Record de terça-feira

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Em terra de ninguém



O problema do Benfica na Supertaça não foi tanto o resultado, mas os sinais dados pela exibição - as estatísticas, aliás, não enganam (38 ataques para o Sporting e apenas 18 para o Benfica). A equipa revelou que estava numa terra de ninguém: já não se exibiu com as ideias de Jorge Jesus e não foi capaz de apresentar um sistema alternativo ou, pelo menos, complementar. O Benfica já não é o de Jesus, mas está bem longe de ser o que Rui Vitória idealizou.

E aqui reside a questão central. Vitória já verbalizou o que pretende para a equipa, mas não se têm vislumbrado esses princípios de jogo na forma como o Benfica se tem apresentado em campo. Não se tem visto uma equipa capaz de controlar o jogo com bola (a principal lacuna da era Jesus), nem uma equipa com uma organização ofensiva mais pausada, ajudando com isso as transições defensivas. O Benfica perdeu o que de bom tinha com Jesus e, até ver, não ganhou o que Rui Vitória anunciou.

Há, contudo, uma frase a ecoar por cima de tudo isto. Na apresentação do novo treinador, Luís Filipe Vieira garantiu, "Rui Vitória vai ter as mesmas condições que outros tiveram". Ora isto implica ter jogadores de qualidade e jogadores que façam sentido para o novo sistema de jogo. Até ver, ainda não é claro qual é o sistema, mas continuam a faltar, pelo menos, dois jogadores para entrar no onze titular (um ala e um lateral esquerdo). Mas, como espero ver no domingo, bastará acrescentar a dinâmica e a intensidade que estiveram ausentes no Algarve para tudo começar a mudar.

publicado no Record de terça-feira

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Começar de Novo



Uma das fatalidades da idade adulta é perdermos a sensação de que podemos começar de novo. "Não temos mais princípios", definiu com acuidade George Steiner, dando corpo a um sentimento de perda de esperança e de declínio da criatividade nas nossas sociedades. Talvez no contraponto a esta impressão de declínio se encontre a resposta para o deslumbre e a paixão gerados pelo futebol.

No futebol temos sempre mais princípios e as novas épocas iniciam-se em rutura com as anteriores. De pouco serve a glória de vitórias passadas ou as taças erguidas há um par de meses. Agora, nada disso existe. Penso, claro está, no "nosso Benfica", mas a verdade é válida para todos os clubes. Este novo princípio tem consequências desportivas e exige dos jogadores uma atitude competitiva permanente, mas vale em igual medida para os adeptos.


Pier Paolo Pasolini, que escreveu extraordinários textos sobre o desporto-rei, afirmou que "o futebol é uma doença juvenil que se prolonga pela vida fora", para sublinhar que, tal como na infância, estamos sempre, em todas as jogadas, por mais estudadas ou treinadas, perante uma invenção, uma subversão dos códigos, algo de irreversível e irrepetível. Acrescentou mesmo que "o futebol é a última representação sagrada do nosso tempo". Uma combinação de ritual com evasão, que persiste, enquanto todos os outros ritos se encontram em declínio.

A ansiedade que chega com cada início de temporada, o entusiasmo com que vislumbramos indícios de um craque numa nova contratação ou a forma como contamos os dias até nos sentarmos de novo numa bancada são últimos redutos de uma vitalidade infantil que, em todos os outros lugares, se vai perdendo. O futebol regressa no domingo e voltaremos a ser crianças "selvagens e sentimentais". Saibam os jogadores estar à altura dessa responsabilidade.

publicado no Record de terça-feira

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Surf's Up



quinta-feira, 2 de julho de 2015

A autonomia de Vitória


Já ficou claro que esta época marcará uma ruptura face ao Benfica dos anos anteriores. Há um par de dimensões em que os sinais de mudança são, aliás, visíveis: na forma como o treinador se vai integrar na organização e no aproveitamento da formação feita no Seixal. Mas se é preciso que alguma coisa mude para que se mantenha a dinâmica vencedora, é fundamental que se preserve parte importante do legado.

Desde logo manter uma ideia de jogo assertiva. Se olharmos retrospectivamente, a marca deixada por Jesus é a nota artística, mas a diferença mais duradoura é inequivocamente uma alteração na atitude com que o Glorioso passou a enfrentar os jogos. Com consequências: hoje, quem joga com o Benfica joga para não perder. Na Luz, mas, também, nos jogos fora. Para que o Benfica continue a ser uma equipa temida, é preciso preservar uma ideia de jogo ofensiva.


Tão importante como ter um modelo coerente com a natureza ganhadora do Benfica, é Rui Vitória, à imagem do que aconteceu com Jesus, preservar uma autonomia total para impor o seu sistema. A questão não é de somenos. Depois de Jesus ter concentrado muito poder e de ter tido uma margem de manobra significativa para decidir (quase) tudo (o que teve, aliás, também custos – vide o não aproveitamento do Bernardo), é tentador para o novo treinador procurar auscultar as várias sensibilidades da estrutura antes de decidir. Seria um erro tremendo. Se, por força das circunstâncias, as decisões de Rui Vitória passarem a ser uma espécie de federação de opiniões, o Benfica está condenado a falhar.

Quando se fala da necessidade de Rui Vitória ter as mesmas condições de Jesus, é bom que se tenha presente que não basta ter jogadores com igual qualidade. Tem também de lhe ser garantida a autonomia e a capacidade de decidir a seu belo prazer de que Jesus gozou.

publicado no Record de terça-feira (a Luz Intensa regressa daqui a 4 semanas, já em Agosto)

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O que é que Obama deu à América?

para além da sua própria eleição, o Obamacare, uma resposta diferente à crise financeira, a morte de Bin Laden, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e, acima de tudo, pôs uma rapariga texana, de muitos talentos, a cantar assim, num "crazy day (legally)".


O apogeu do segundo melhor Vicente do mundo



Muito obrigado.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Que fazer?




Estranha-se esta sensação de estar em celebração interior e ser atacado pela perda de peças que foram “chave” no bicampeonato e, pior, perceber que tenho de me preparar para mais baixas. Por mais apelos à razão, não é fácil. Podem dizer-me que no futebol moderno a fidelidade clubística é território exclusivo dos adeptos. Sei de tudo isso, mas custa saber que o jogador que vi fazer juras de amor eterno à camisola do Glorioso será o primeiro a trocar essa paixão por um compreensível conforto material.

Não se trata apenas do desejo sempre adiado de um defeso tranquilo, sem vendas, trocas ou empréstimos. É mais do que isso. É também a necessidade de resistir a uma captura do futebol pelas forças da razão.

Chegará um novo ponta-de-lança entusiasmante para substituir o ídolo de hoje e a admiração pelo centro campista de toque subtil que nos abandonou revelar-se-á efémera assim que o jovem talento tiver espaço para se afirmar. Pouco importa: se deixarmos que se transforme num território onde a irracionalidade e as paixões absolutas perdem todo o espaço para a gestão rigorosa e a sustentabilidade financeira, para que é que servirá exatamente o futebol?


Que fazer, então? Encontrar um equilíbrio entre racionalidade e paixão na forma como se gere um clube, até porque no Benfica os principais dividendos a distribuir são as vitórias.

Basta ver o futebol poético do Bernardo no Europeu sub-21 para se ter a certeza que nenhuma análise custo-benefício é capaz de calcular o valor patrimonial da paixão benfiquista daquele miúdo. Nunca, em circunstância alguma, podia ter sido vendido.

Já Maxi, depois de todas as exigências e das ameaças de sair para um rival, delapidou o capital que tinha e perdeu a mística de outros tempos. Faço minhas as palavras do grande Toni: “Por mim, já tinha marchado”.

publicado no Record de terça-feira.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O anti-Jesus?


O maior erro que Rui Vitória podia cometer na sua afirmação como treinador do Benfica seria surgir como o anti-Jesus, alguém que se pretendia afirmar renegando o modelo que foi consolidado nos últimos anos. Por muito que um treinador tenha uma ideia de jogo que deseja imprimir, esta não se pode traduzir numa rutura radical. Principalmente quando pega numa equipa que vem de campanhas vitoriosas.

Num dos poucos momentos em que foi convidado a falar sobre futebol ontem, Rui Vitória disse isso mesmo. Entre perguntas sobre contratações, confiança, renovações e aposta em jovens, o novo treinador do Benfica lá conseguiu dizer alguma coisa sobre o que pretende fazer futebolisticamente. Na entrevista à Benfica TV sublinhou que não ia "cortar com o passado", nem "estragar nada", mas acrescentou uma ideia diferenciadora: "vamos trabalhar para ter solução para as diversas competições" e desenvolver "alternativas táticas", que tornem o Benfica "mais versátil".


Para bom entendedor, estas palavras bastam. Jorge Jesus tem muitas qualidades como treinador, mas o Benfica dos últimos anos tinha também uma debilidade, arriscaria dizer, estrutural. Era uma equipa com um sistema de jogo quase único, com pouca versatilidade tática: ou apresentava um carrossel atacante estonteante ou sofria a bom sofrer para controlar as partidas. Não por acaso, contra equipas do seu nível, o Benfica ficou aquém das suas possibilidades (na Champions, mas, também, nos jogos com os principais rivais).

Se Vitória conseguir manter-se fiel a um modelo de jogo de clube grande, atacante e de posse, mas for capaz de acrescentar uma versatilidade tática que Jesus, de facto, nunca imprimiu, concretizará o que prometeu. Continuará o trabalho feito até aqui, mas juntará uma dimensão que faltou nos últimos anos. Versatilidade é a palavra-chave para continuar o percurso ganhador já iniciado.

publicado no Record de terça-feira

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Virar a página?


Jesus é um óptimo treinador e foi um funcionário que prestou grandes serviços ao Benfica. Com ele, o Glorioso voltou a ser um clube ganhador com uma ideia de jogo coerente com os desafios do campeonato. Na minha visão do Benfica, no momento em que Jesus terminou o seu vínculo, seria esta a mensagem que deveria ter sido repetida. Independentemente do clube pelo qual assinou.

E aqui começam os equívocos da situação em que o Benfica se encontra.

Se a direção pensava que era altura de virar a página e traçar um novo rumo, devia ter tomado as decisões planeadas e contratar Rui Vitória. Ora parece que o que está a influenciar a escolha do treinador não é uma indefinição estratégica, mas o facto de Jesus ter saído para o Sporting. Um clube como o Benfica não se deixa condicionar pelas opções dos outros clubes. É um erro que, aliás, nos pode fazer recuar a um período em que estávamos mais preocupados com o que os nossos rivais faziam do que em organizar autonomamente uma estrutura vencedora.


Depois a sempiterna aposta na formação. Há, a este propósito, um outro equívoco. Nos últimos anos, o Benfica formou uma mão-cheia de jogadores (David Luiz, Di María, Matic, Markovic, André Gomes) que chegaram com pouco cartel e saíram valorizados. Será que, com a exceção de Bernardo Silva, houve algum jovem talento subaproveitado?

A questão não é saber se se vai apostar na formação, mas, sim, que ideia de jogo um novo treinador pode trazer. Virar de página implica continuarmos a ser capazes de exibir o carrossel atacante nos jogos em casa e, ao mesmo tempo, termos um sistema alternativo que permita controlar um jogo em posse organizada (a principal insuficiência de Jesus).

Contratar um novo treinador devia depender mais de uma opção em torno do modelo de jogo desejável e menos do que fazem os nossos rivais ou do papel que os jovens talentos devem ter.

publicado no Record de terça-feira.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Maxi, renova


Tem sido sublinhado que o sucesso do Benfica se deve à combinação da liderança de Luís Filipe Vieira com a competência de Jorge Jesus. A afirmação é verdadeira, mas esquece o papel crucial dos capitães de equipa. Sem o Luisão e o Maxi, o Benfica não seria o clube vencedor que é de novo.

O Luisão e o Maxi são grandes jogadores, mas o que os distingue não é a mais-valia técnica. A importância dos capitães mede-se pela capacidade de liderança, dentro e fora do campo, e por um passado de vitórias e de derrotas que lhes confere uma experiência acumulada que se faz sentir nos momentos decisivos. Não por acaso, o Benfica voltou a ganhar quando passou a ter referências no balneário, que se foram mantendo de ano para ano, enquanto o Porto perdeu esses mesmos exemplos.

Verdade seja dita, se fosse feita uma avaliação puramente individual, não faria muito sentido manter Luisão e Maxi no plantel. São jogadores acima dos 30, com salários elevados e que terão prestações piores nos próximos anos. Mais, jogando ambos do lado direito da defesa, a sua coexistência pode antecipar problemas. Afinal, nenhum será capaz de compensar a perda de velocidade do outro.

Acontece que o futebol é um jogo de equipa, onde talento e disponibilidade física individuais são apenas uma das várias variáveis relevantes. O que o Luisão e o Maxi não têm hoje compensam com atributos de valor incalculável.


Num momento em que o Benfica vai apostar na formação, a renovação de Maxi é ainda mais imperiosa. O sucesso do Gonçalo Guedes, do Renato Sanches, do Nuno Santos ou do Jonathan vai depender de terem quem compense a sua inexperiência e impetuosidade juvenil. Ora, no futuro próximo, o Maxi pode ser um digno sucessor do Luisão. E, como sabemos da experiência com o Luisão, considerando o que nosso capitão oferece ao Benfica, dentro e fora de campo, o seu salário até é baixo.
publicado no Record de terça-feira

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Jesus, fica


"Com ele passei a ter uma visão geral do futebol. Com os outros, treinávamos o ataque, a defesa, mas não havia essa ideia de conjunto. Todos os jogadores deviam ter a oportunidade de treinar com um treinador assim." Cito de cor, mas julgo estar a ser fiel às palavras de Jonas a propósito de Jorge Jesus, aos microfones da TSF, no final do Benfica-Marítimo. Jonas, esse mesmo, que, quando parecia ter chegado ao ocaso da sua carreira, redescobriu o prazer pelo futebol e ajudou a decidir o título.

Notem bem, foi Jonas que o disse, mas poderia ter sido qualquer outro jogador - e nem precisava de ter nome de profeta. Há, aliás, uma estranha unanimidade: tenham jogado muito, pouco ou até quase nada, pouco importa, todos os jogadores que passaram pelas mãos de Jesus elogiam a sua visão singular sobre o futebol.

Podia, é um facto, não passar de um treinador com capacidade de inovação, mas Jesus traduz a sua ideia de jogo em resultados e, não menos importante, em espetacularidade. Tem, é claro, defeitos (à cabeça a teimosia e a dificuldade em montar uma equipa também capaz de controlar o jogo com bola), contudo, no Benfica dos últimos tempos, há um antes e depois de Jesus.

A equipa hoje tem uma ideia de jogo, uma organização coletiva com poucos paralelos e uma identidade de tal forma robusta que vão mudando os jogadores e, com auxílio de dois pares de líderes no balneário, a diferença quase não se sente, mesmo quando joga o "Manel". Nos últimos seis anos, o Benfica só se encontrou em duas situações: vencer títulos ou disputá-los até ao fim.


Com Jesus como treinador, o Benfica arrisca-se a continuar a ganhar. Sabemos nós, benfiquistas, e sabem-no também adeptos e dirigentes dos nossos rivais. Para que Porto e Sporting vençam o Benfica, já não basta terem jogadores talentosos, precisam, também, de apresentar uma enorme solidez coletiva. O suplemento que Jesus oferece ao Benfica.













publicado no Record de terça-feira

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Desorientados


Recuemos ao início da temporada. O Benfica era uma equipa em desagregação: o plantel que havia vencido o triplete com nota artística parecia ferido de morte e as alternativas tardavam a aparecer. Já não havia Oblak, Rodrigo, Garay e Siqueira e ainda não havia nem Júlio César, nem Samaris, para não falar de Jonas. Enquanto se anunciava a saída iminente de Enzo Pérez, os jogos de preparação, disputados por uma mão-cheia de novas contratações entre o sofrível e o medíocre, tornavam o bicampeonato uma miragem distante.
No Dragão, a história era outra. Depois de uma temporada para esquecer, apostava-se forte e não vencer era uma impossibilidade. Um treinador novo, com um voto de confiança inusitado por aquelas bandas (3 anos de vínculo), contratações em catadupa, empréstimos a peso de ouro e qualidade em todos os sectores – a contrastar com o leque de jogadores que Paulo Fonseca tinha tido ao dispor.
O Benfica iniciou a temporada derrotado e o Porto tinha tudo para vencer o campeonato. Mas não foi assim.
Jesus compensou fraquezas com a força da organização colectiva e fez do “Manel” um jogador ao serviço de uma ideia de jogo consolidada. Depois, claro está, Júlio César ofereceu a segurança defensiva que a equipa não havia tido nos últimos anos e Jonas foi um autêntico joker – importante pelos golos que marcou, fundamental pela forma como participou no jogo atacante.
O Porto, pelo contrário, viu a temporada pautada pela desorientação. A abrir, Lopetegui entregou-se ao experimentalismo, mudando a equipa jogo sim, jogo sim, até à 16ª jornada. As coisas começam a correr mal e não surge o campo inclinado a que os portistas se habituaram. Resultado, a “estrutura” não compreende as razões do falhanço e coloca o treinador a dar o corpo às balas.
Tudo somado, a grande novidade desta temporada foi a desorientação revelada pelo Porto.

publicado no Record de terça-feira 

A vitória anunciada que afinal não o foi


Agosto de 2014, pelas bandas do Estádio da Luz assiste-se a uma debandada. A equipa que conquistou o triplete com nota artística está a sofrer uma sangria com poucos paralelos. Depois de perdidos Rodrigo, André Gomes e Garay, em poucos dias partem Siqueira, Oblak, Markovic, Cardozo e, percebe-se, Enzo acabará por sair. Entre saídas, a equipa faz uma pré-temporada medíocre, na qual maus resultados se combinam com a apresentação de uma meia-dúzia de jogadores sofríveis. O campeonato inicia-se sem uma solução para a baliza, sem um avançado para compensar a saída de Rodrigo e Cardozo, sem opções para o lugar 6 (posição chave no esquema de Jorge Jesus) e com uma defesa que parece uma manta de retalhos. Como se não bastasse, Rúben Amorim lesiona-se gravemente na 2ª jornada e junta-se a Fejsa. Repetir 2013-14 era uma miragem distante e o campeonato parecia entregue à partida. Desta feita, tudo dependia mesmo da capacidade de Jesus formar uma equipa e jogar com muitos “manéis”.
No Dragão a história era toda outra. Depois de uma época para esquecer, a equipa mantinha os jogadores de maior qualidade (Jackson, Danilo e Alex Sandro) e contrata meia-dúzia de talentos indiscutíveis. Dinheiro parece não faltar: para empréstimos luxuosos (Casemiro e Óliver) e para contratações proibitivas para o nosso campeonato (Adrián Lopez). Um treinador desconhecido não se limita a ter um voto de confiança incomum naquelas paragens (um contrato de 3 anos), como tem um plantel bem distante dos Licás, Carlos Eduardos e Josués que Paulo Fonseca havia tido ao seu dispor.
Em teoria, o campeonato iniciava-se com o terreno inclinado a favor do Porto, que não podia perder, enquanto o Benfica tinha tudo para entregar o ‘caneco’ nas jornadas iniciais. Como sabemos hoje, não foi assim que as coisas se passaram. O Benfica assumiu a liderança à 5ª jornada para, contra todas as probabilidades, nunca mais largar o comando. Já o Porto, habituado a gerir a sua posição hegemónica com todo o tipo de ajudas fora de campo, não compreende o que se está a passar, começa a ficar desorientado, e saca do discurso do “colinho”.
Na política costuma dizer-se que as eleições não se ganham, perdem-se. Talvez, na realidade, não seja bem assim e os resultados sejam sempre uma combinação particular de derrota com vitória. No futebol é um pouco o mesmo que acontece. O Benfica ganhou porque foi mais forte coletivamente e porque revelou estatura de campeão, resistindo psicologicamente. Mas o Porto também foi responsável pelo 34º campeonato do Benfica, na medida em que perdeu, quando tinha tudo para ganhar. Essa é, aliás, a grande novidade deste campeonato, quando comparado com os das últimas duas décadas.

Publicado no Expresso no Domingo às 20 horas.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

A importância do 34


Tem sido dito que a conquista do 34.º título do Benfica será muito importante pois desde 1982-84, sob o comando de Eriksson, que o Benfica não ganha um bicampeonato. A vencer este ano, o clube inverte a tendência de hegemonia do Porto, que se fez sentir, em particular, desde a década de noventa. 

Na verdade, há um outro aspeto tão ou mais importante do que ganhar dois títulos seguidos. Nos últimos campeonatos que o Benfica venceu, o adversário direto nunca foi o Porto. De facto, quando os campeonatos foram disputados até ao fim entre Benfica e Porto, os dragões acabaram por se sagrar campeões. Tendo em conta o legado psicológico de 2012-13 e 2013-14, a vitória deste ano pode anunciar uma mudança importante. 


Senão vejamos: o último campeonato que o Benfica venceu, depois de uma competição ombro a ombro com o Porto, foi em 1990-91, já lá vão 24 anos. Na época passada, o 2.º classificado foi o Sporting e em 2009-10, o Braga. É um facto que quer em 1993-94, quer em 2004-05, o Benfica foi campeão com o Porto a sagrar-se vice-campeão. No entanto, ambos os campeonatos foram disputados entre Benfica e Sporting, com o clube de Alvalade a capitular na reta final (num caso, com a derrota por 6-3; noutro com o golo de Luisão quase ao cair do pano na luz). 

Este ano, o Benfica não só parece ter o título à mão de semear, como resistiu na liderança desde a 5.ª jornada, com o Porto à ilharga, nunca claudicando. É também por isso que estamos perante uma conquista que, a concretizar-se, é tão importante. Tanto mais que o Porto investiu muito, com empréstimos a preços impraticáveis (Casemiro), contratações de valores proibitivos para o campeonato português (Adrián López) e uma aposta de médio-prazo num treinador desconhecido. Convém recordar que este era o ano em que o Porto não podia falhar e em que o Benfica iniciou a época quase derrotado.

publicado no Record de ontem.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Bloqueio Psicológico


Com o aproximar da reta da meta, é natural que qualidade técnica, consistência defensiva e criatividade ofensiva continuem a contar, mas o que faz mesmo a diferença é a capacidade psicológica. Saber lidar com a tremideira que vem com o momento em que o título se começa a vislumbrar de forma nítida no horizonte é, agora, decisivo.

Em Barcelos, para além de uma exibição vistosa, com o futebol massacrante a que o Benfica nos habituou nos jogos em casa, viu-se uma equipa desbloqueada psicologicamente, a transbordar confiança. A atitude intimida os adversários, mas serve também para enviar sinais para o competidor direto. 

A sensação com que se fica é que, depois de ultrapassado o teste decisivo do confronto direto com o Porto, a equipa libertou-se de um peso psicológico que, por vezes, e na ausência do colinho oferecido pelos adeptos no Estádio da Luz, parecia retirar confiança e tolhia os movimentos atacantes dos comandados por Jorge Jesus.


E, como se verá no final da temporada, num campeonato disputado até ao fim, a dimensão psicológica acabará por se revelar decisiva. E, até ver, também aí o Benfica leva vantagem. Nos momentos decisivos, o Benfica falhou em Paços de Ferreira, quando devia ter acabado com o campeonato, mas o Porto falhou na Madeira, contra o Nacional, quando podia ter aproveitado o deslize do Benfica em Vila do Conde, e revelou-se incapaz de ultrapassar a teia tática montada por Jesus na Luz - o que aliás explica o descontrolo emocional que Lopetegui tem revelado desde então. 

Nas próximas três jornadas, ao Benfica cabe, por isso, continuar a gerir a vantagem pontual, mas, claro está, fá-lo-á alavancado por uma vantagem psicológica que dá um suplemento de confiança e coloca o "caneco" a uma distância cada vez mais curta.

publicado no Record de terça-feira

We are ugly but we have the music


quarta-feira, 6 de maio de 2015

Para os sobreviventes

“No matter how dark the storm gets overhead/They say someone’s watching from the calm at the edge".

O Jason Molina morreu há dois anos e não deixou grande legado que se visse (isto é, não há por aí quase nada para ver com qualidade decente). O mesmo não é verdade quanto ao legado para ouvir. À boleia das reedições que, lentamente, a secretly canadian tem promovido é possível recuperar o tempo perdido sem o escutar. Tudo isto porque encontrei 20 minutos online que podem ser vistos e ouvidos.



o resto está aqui.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Um nome: soberba


"O que há num simples nome?", questionava-se Julieta, no drama de Shakespeare. A pergunta é-nos devolvida todos os dias e regressou em força na ressaca do Benfica-Porto. Custa a crer, mas, de acordo com os relatos, é mesmo verdade: a altercação entre Jesus e, vamos lá ter cuidado a grafar, Lo-pe-te-gui não se deveu ao calor da luta, mas ao basco ter ficado enxofrado com as constantes trocas do seu apelido pelo treinador do Benfica.

A coisa parece ter contornos de drama shakespeariano, e pode bem ter. Diria que estamos perante o derradeiro sinal da soberba com que o técnico do Porto encarou a sua passagem por Portugal, e que o faz acumular falhanços atrás de falhanços, aproximando-o da queda.

Podia encher esta coluna com "variações Jesus" de nomes e apelidos. A tarefa era fácil. Das últimas semanas, e fazendo um exercício de memória, recordo-me do "Wiliams", do "Ola Jonas", do Jonathan rebatizado de "Xavier" e, claro está, do magnífico "Lotopegui" (a coisa é de tal forma, que hoje tenho dificuldade em acertar com o nome do basco).

Jorge Jesus pode ter muitos defeitos, mas qualquer pessoa com um módico de sensatez percebe que as trocas de nomes, se nos dizem alguma coisa sobre o técnico do Benfica, é que estamos perante alguém autêntico, que não procura ser quem não é. Não por acaso, numa atitude tão pouco comum em Portugal, Jesus não perde uma oportunidade de nos recordar as suas origens e fá-lo com honra. Só lhe fica bem.

Que Lopetegui não tenha percebido isso e tenha tomado por gozo o que está, aliás, mais próximo da autoironia, é um sintoma da mesma atitude que o levou a ficar convencido que teria uma tarefa fácil no Porto e a desvalorizar o nosso campeonato, as competências tácticas dos treinadores portugueses e a organização defensiva a que se agarram os clubes pequenos. Os resultados da soberba estão à vista.

publicado hoje no Record