"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Anatomia de uma catástrofe


Não vale a pena tratar o assunto com paninhos quentes. Contra o Sporting, o Benfica não jogou mal, foi, sim, inexistente e o desfecho corresponde ao que se passou em campo. Nestes momentos, é tentador explicar o resultado com base em erros individuais, azar ou incompetência da arbitragem.

São tudo justificações marginais. Há razões estruturais que ajudam a compreender a derrota de domingo, assim como as várias derrotas sofridas esta época pelo Benfica em jogos oficiais (5 em 12 partidas!).


A formação do plantel continua a gerar perplexidades. É verdade que, ao contrário do que aconteceu no consulado de Jesus, desta feita Vieira desinvestiu. Ainda assim, é incompreensível que uma equipa com um sistema tático assente em dois centro-campistas tenha um plantel de 30 elementos, acumule jogadores para uma posição inexistente – número 10 (Talisca, Djuricic e Taarabt) – e, ao mesmo tempo, não disponha de um 8 de qualidade. Talvez a aposta em Renato Sanches, à falta de alternativa, seja a solução para esta lacuna.

Os desequilíbrios do plantel são, contudo, reforçados por uma persistente falta de identidade da equipa, quer a defender quer a atacar. Novamente, o problema não começou neste jogo. Anulados Gaitán e Jonas, o Benfica arrasta-se em campo, perdido de ideias, e depende da capacidade de os seus melhores dois jogadores esticarem o jogo, isolados.  Com um plantel desequilibrado e uma equipa pouco personalizada, torna-se mais fácil ter azar e perder jogos. É que, ao contrário do que é repetido, o futebol não se decide nos pequenos pormenores, muitos deles fortuitos.

publicado no Record de ontem

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Um lateral-esquerdo

 
Talvez seja a posição onde a oferta de jogadores de qualidade é mais escassa. Falo de laterais-esquerdos: rareiam os jogadores que juntem competências defensivas com capacidade de oferecer profundidade ao jogo atacante e que combinem esses atributos com as características morfológicas exigidas, hoje, a um defesa (nomeadamente a altura) e, claro está, que sejam canhotos. É isso que explica que o valor de mercado dos laterais-esquerdos seja comparativamente elevado.

Não por acaso, muitos dos grandes laterais-esquerdos são jogadores adaptados: alguns nem sequer são canhotos e muitos fizeram a formação noutras posições. O Benfica tem sido particularmente afetado por esta crise crónica de laterais-esquerdos. Tirando o já distante Léo, as duas épocas com Coentrão e a passagem efémera de Siqueira, a posição de lateral-esquerdo tem sido o ponto fraco do Benfica.


Lembrei-me disto poque, contra o Vianense, causou alguma surpresa que, a certa altura, Rui Vitória tivesse recuado o extremo-esquerdo Nuno Santos para a posição de lateral-esquerdo. À primeira vista, a equipa não ganhou nada com a alteração. Talvez não seja assim.

Nuno Santos é um jogador com um talento notável, de drible simples e com uma velocidade única que lhe permite verticalizar o jogo com muita facilidade. Não engana: vai dar craque. Fez, é certo, toda a sua formação como atacante. Mas a ideia de Nuno Santos como lateral-esquerdo pode bem ter pernas (e altura) para andar. Tem muitíssimo para aprender em termos de posicionamento defensivo, mas o seu futebol de profundidade e velocidade só pode ganhar se partir de posições mais recuadas.

publicado no Record de terça-feira

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Cantemos


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Lançar Tochas


Estive entre os milhares de benfiquistas que celebraram a vitória do Glorioso no Vicente Calderón. Sei bem que aquela alegria imensa só foi interrompida pelo ato bárbaro de meia dúzia de delinquentes que lançaram tochas em direcção aos adeptos do Atlético Madrid. Foi por isso, com satisfação que assisti à reacção imediata da direcção do Benfica, pedindo desculpas e repudiando o comportamento 'vergonhoso' de alguns adeptos.

O futebol assenta numa cultura adversativa e por vezes parece a continuação da guerra por outros meios. Mas a chave é mesmo os 'outros meios'. É possível conciliar celebração pelo clube que seguimos e aversão aos rivais, sem que isso se traduza numa violência intolerável. Há, a este propósito, um muro que precisa de ser erguido e defendido entre quem faz do futebol uma paixão animada a rivalidades e aqueles que aproveitam para transformar os estádios em espaços de delinquência.

Deixem-me recuar ainda uma semana ao lastimável programa da TVI24, em que participou o presidente do Sporting, Bruno de Carvalho. É triste que um presidente de um clube se preste a um papel daqueles. Degrada a imagem da instituição que dirige. Contudo, como não sou sportinguista, deixo essa questão para os adeptos do clube de Alvalade.

Mas, como benfiquista, posso assegurar-vos que a maioria dos adeptos do Glorioso não se revê no estilo truculento e de insulto permanente de Pedro Guerra. O que me leva a questionar: pode um clube repudiar a acção de adeptos que lançam tochas nos estádios e tolerar quem 'lança tochas' em permanência na comunicação social, ajudando a incendiar o clima nos estádios de futebol?

publicado no Record de terça-feira.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Storico


compromesso.

Playing those mind games forever

John Lennon faria hoje 75 anos. O tempo voa ou talvez não tanto, se pensarmos que as canções continuam por aí, por vezes melhor do que soavam quando foram escritas.
Tenho para mim que uma das perguntas ao mesmo tempo mais importantes e mais reveladoras é saber quem é o nosso Beatle preferido. Trata-se de um bom teste de personalidade (quando aplicado aos outros) e reflexivo (quando nós próprios lidamos com ela). Felizmente não tenho o assunto totalmente encerrado - a resposta tem dias e, entre os três que contam, há uma coligação maioritária formada pela dupla John/George. Apesar de tudo, no fim, o John ganha sempre.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Sobre Gaitán (e sobre Camus)


Escritor notável, Nobel da Literatura, referência ética de uma Europa a colapsar e guarda-redes de futebol no Racing de Argel. Albert Camus foi tudo isto e, certamente por isso, disse um dia que “depois de muitos anos, nos quais vi muitas coisas, o que sei de mais seguro sobre moralidade e os deveres do homem, devo-o ao desporto e aprendi-o no Racing de Argel”. A citação surge amiúde e vive de forma autónoma, contudo só recentemente apreendi o seu verdadeiro sentido.

Recorro a Eduardo Galeano, que cita ainda Camus sobre futebol, que nos revela por sua vez os ensinamentos dos anos de guarda-redes: “aprendi que a bola nunca vem ter connosco por onde esperamos que venha. Isso ajudou-me muito na vida, sobretudo nas grandes cidades, onde as pessoas não são, como se usa dizer, retas”.

Moralidades à parte, o que Camus também identificou com precisão foi a magia singular do jogo de futebol. Uma coreografia assente em regras, disciplina tática, movimentos previsíveis, mas que acaba por ruir porque, por mais que procuremos antecipar o que vai acontecer, “a bola nunca vem ter connosco por onde esperamos que venha”.

Hoje o futebol pode parecer uma exibição de organizações quase espartanas, com pouco espaço para a afirmação individual. Nada de mais errado. O futebol persiste grandioso apenas porque no meio da organização burocrática, do modelo de jogo ensaiado, há sempre uma nesga de criatividade que leva a bola por caminhos inesperados. Sem o rasgo taticamente irresponsável de um par de mágicos que vão resistindo às amarras, o futebol poderia existir, mas não teria nada para nos ensinar sobre moralidade.

publicado no Record de terça-feira.

domingo, 4 de outubro de 2015

O Jonas


Há sensivelmente um ano, após Jonas se ter estreado, marcando quatro golos nos primeiros 135 minutos com a camisola do Benfica, escrevi aqui que era um erro ver nisso um sinal de que estávamos perante um goleador, até porque o que o brasileiro ia oferecer ao futebol do Benfica não eram tanto os golos, mas acima de tudo muita qualidade na participação no jogo ofensivo. Tendo em conta a avalanche goleadora com que Jonas nos tem brindado, começa a ser difícil defender o meu argumento de há um ano. Ou talvez não.

Por muitos golos que Jonas marque, a sua principal mais-valia continua a ser aquilo que oferece ao futebol do Benfica. Individualmente, Jonas impressiona por ser uma combinação incomum de capacidade individual em espaços curtos, à imagem do que acontece no futebol de salão, com profundidade e verticalidade assim que se liberta do primeiro adversário. Tanto é assim que se torna difícil recordar uma má decisão do brasileiro ao longo de um jogo. A Jonas assenta a definição de grande jogador como alguém que joga bem e coloca os colegas a jogar melhor.

Espanta por isso que, de quando em quando, ainda surjam alusões a que Jonas pode ser um empecilho no sistema tático do Benfica. Diz-se que com Jonas é impossível jogar em 4*3*3, pois não tem caraterísticas para jogar como único avançado. Talvez a questão seja outra, a qualidade de Jonas é tal que condiciona de forma positiva todo o sistema do Benfica, na medida em que a dinâmica ofensiva da equipa tem mesmo de ser construída em torno do avançado brasileiro.

publicado no Record de terça-feira

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Duas Faces


O Benfica entrou com uma identidade vincada no Dragão, na primeira parte colocou o Porto em sentido, com posse e boa circulação de bola, agressividade defensiva e a equipa subida. Desta feita, não se viu um Benfica com o autocarro estacionado à frente da área (estratégia que deu a vitória o ano passado), nem uma equipa incapaz de controlar o jogo a meio-campo.

Nos últimos anos, não me recordo de ver um Benfica tão destemido e personalizado a jogar contra o Porto fora. E a comparação não é de somenos: este é, afinal, o onze titular menos forte das últimas temporadas e, convém não esquecer, a equipa entrou em campo com uma ala direita que o ano passado fazia o tirocínio na equipa B. Esta foi uma das faces do Benfica este fim-de-semana. Uma face bem positiva e que augura um futuro auspicioso.

Infelizmente houve outra face. A da equipa que perdeu os três jogos oficiais disputados fora da Luz (com Sporting, Arouca e Porto). Como a próxima deslocação é a Madrid, para defrontar o Atlético, o Benfica arrisca-se a fazer quatro jogos fora e a acumular quatro derrotas. Esta é a face mais negativa.

Que fazer agora? Consolidar uma ideia de jogo distinta da do passado (da qual se têm visto sinais nas últimas partidas), estabilizar o onze titular e não escorregar de novo. O Benfica pode mudar de política, apostando em jovens vindos da formação, mas tem de combinar essa aposta com a capacidade ganhadora do passado recente. Caso contrário, não há estratégia de aposta na formação que resista.


publicado no Record de terça-feira

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Os parafusos e os apertos


Ninguém antecipou melhor o benefício da pausa para as seleções do que Jardel quando disse que tinha sido "importantíssima para apertar os parafusos". Como se viu na exibição magistral contra o Belenenses, a questão não era apenas apertar os parafusos e recuperar algum tempo perdido na pré-temporada, a solução passava também por estabilizar os parafusos, isto é, a base da equipa titular.

Com Jardel, o Benfica ganha capacidade na organização defensiva, enquanto o brasileiro compensa as quebras de velocidade dos seus parceiros defensivos; Talisca, mesmo que a posição 8 não seja o seu lugar natural, acrescenta verticalidade ao jogo e, de todas as jovens soluções testadas à direita, Gonçalo Guedes é aquele que já passou a fase de projeto de jogador e se aproxima mais de um jogador de corpo inteiro.


Já os apertos tiveram outro efeito. Ao contrário dos jogos anteriores, desta feita viu-se uma ideia de jogo clara, com muita circulação de bola, uma equipa mais de posse do que no passado e um jogo interior muito dinâmico. Acima de tudo, o Benfica revelou uma agressividade defensiva que não se havia visto até agora. Mesmo a vencer desde os primeiros minutos, a equipa cometeu 23 faltas, das quais 16 na primeira parte, enquanto o Belenenses, derrotado copiosamente, cometeu apenas 18. Uma equipa cujo jogo assenta em trocas de bola constantes tem de ser também agressiva na recuperação. Só isso permite que os solistas exibam toda a sua genialidade: o que, aliás, explica as exibições superlativas de Gaitán e Jonas.













publicado no Record de terça-feira

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Cuidar do Futuro



mais informações e atualizações na página de facebook do livro.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

As mesmas condições


"Quando a esmola é grande, o pobre desconfia", costuma dizer-se e é bem capaz de ser verdade. Aqui a "esmola" são as notícias de propostas tentadoras por jogadores do Benfica, prontamente rejeitadas, e o "pobre" é o plantel do Glorioso que precisava de ter sido reforçado e não foi.

Logo após o fecho do mercado foi noticiada uma proposta de 10 milhões do Chelsea por Luisão, outra de 16 milhões do Nápoles por Cristante, ainda uma de 20 milhões de origem desconhecida por Gonçalo Guedes e foi ainda aventado que o Liverpool teria oferecido 25 milhões por Gaitán. O mercado fechou, o Benfica não se cansou de recusar propostas (claro está, devidamente almofadado pelos vários jogadores da equipa B vendidos pelo número redondo de 15 milhões) e, no fim, ficou com um plantel paradoxalmente grande e desequilibrado.


Com quase 30 jogadores, o Benfica consegue a proeza de ter, pelo menos, três jogadores (Talisca, Djuricic e Taarabt) para a posição 10, que raramente utilizará, enquanto a posição 8, fulcral no 4x4x2, depende apenas de uma solução de recurso (Pizzi), que continua a gerar ceticismo.

É por isso que, ao longo desta época, continuarão a ecoar as palavras de Luís Filipe Vieira na apresentação de Rui Vitória: "há uma garantia que quero deixar – vais ter as mesmas condições que outros tiveram". Rui Vitória pode ser capaz de dar a volta ao texto e formar titulares num ápice a partir de jogadores da formação, mas não parte com as mesmas condições de Jorge Jesus. Já Vieira "gostava de ter dado mais um ou dois jogadores" ao treinador, a verdade é que não deu.

publicado no Record de terça-feira

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Bendita Pausa


Uma vitória merecida, uma exibição pobre e a persistência de sinais preocupantes. Esta pode bem ser uma descrição do Benfica-Moreirense.  À imagem dos jogos anteriores, o Benfica entrou em campo amorfo, sem intensidade, mas, desta feita, a equipa foi capaz de dar a volta ao resultado porque mostrou garra e Rui Vitória arriscou e fez substituições em tempo útil. Será este um bom rumo?

Sim e não. Claro que a capacidade de inverter resultados desfavoráveis e a atitude revelada são indicadores muito positivos. Da mesma forma que ter um treinador com sentido de risco, que não atrasa as substituições até aos minutos finais é um bom sinal. Há, contudo, um grande 'mas' em tudo isto.


Uma equipa que ambiciona conquistar títulos pode recorrer de quando em quando a uma solução de risco, empurrando o adversário para dentro da área, através de jogo direto para os avançados, mas esta opção não pode ser usada por sistema. Se este é o plano B que anda a ser treinado, é preocupante; se é utilizado nos jogos sem que antes seja testado, é ainda mais preocupante. Assim como assim, já lá vão duas partidas em que, em desvantagem, o Benfica coloca três avançados e ainda põe o ala esquerdo a fazer todo o corredor. Desta feita resultou, a probabilidade de voltar a resultar é baixa.

Bendita, por isso, esta pausa para as seleções. O Benfica vai ter duas semanas bem necessárias para desenvolver as suas ideias de jogo ofensivo; para equilibrar as transições defensivas e para estabilizar emocionalmente a equipa. São tarefas hercúleas, mas ou os problemas se resolvem agora ou pode ser tarde.


publicado no Record de terça-feira

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Bombear Bolas


Pode uma equipa grande, que ambiciona um tricampeonato, passar a meia-hora final de uma partida a fazer jogo direto para um amontoado de avançados? Pode, mas não deve. Ora foi isso que o Benfica fez no domingo, a jogar, de facto, em casa, contra o Arouca.

Depois de mais uma péssima entrada no jogo, o Benfica recompôs-se e apresentou o melhor futebol desta temporada. Com Pizzi mais apoiado por Samaris, a equipa cresceu, voltou a ter jogo interior consequente e regressou o caudal ofensivo. Foram 25 minutos à Benfica que pré-anunciavam a recuperação do resultado.

A vitória não estava, contudo, garantida. O futebol é imprevisível: uma equipa pode estar a jogar bem, a controlar a partida e, no fim, o resultado pode não ser satisfatório. Mas no futebol, também é sabido, compensa manter a fidelidade a uma determinada ideia de jogo. O que não compensa é suspender essa ideia e, em seu lugar, escolher o recurso dos que não têm mais recursos - o jogo direto e as bolas bombeadas para a área. 


Pois foi isso que o Benfica fez na meia-hora final, deitando fora o que estava a fazer bem até aí. A partir de certa altura, com dois postes dentro da área mais uma mão-cheia de alas e avançados, o jogo resumiu-se a cruzamentos longos, condenados ao fracasso, devidamente combinados com dezenas de remates sem critério de meia-distância. Posso estar enganado, mas não conheço na última década uma única equipa que tenha sido ganhadora a jogar assim. Contra o Arouca, pior que a derrota foi o sinal tático dado naquele último terço da partida. Espero não voltar a ver. 












publicado no Record

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

20 minutos (à Benfica)


"Nem tudo está mal quando se perde, nem tudo está bem quando se ganha". As palavras de Rui Vitória no rescaldo do jogo encerram uma das verdades mais esquecidas do futebol: uma equipa pode perder um jogo e deixar boa impressão, da mesma forma que é possível ganhar de forma fortuita.

É de elementar justiça que Rui Vitória tenha aproveitado a vitória folgada e a exibição morna para arrefecer os ânimos, em lugar de enveredar pela bazófia que é timbre de outros treinadores. Só lhe fica bem. Vale a pena, por isso, olhar para o que ainda correu mal no Benfica e para o que de bom aconteceu.

Uma vez mais, a equipa pareceu pobre de ideias de jogo ofensivo. O meio-campo surgiu vazio, com Fejsa a fechar muito perto dos centrais e a deixar Pizzi a grande distância. A organização atacante ressentiu-se e não se vislumbraram movimentações coletivas - Mitroglou, pesado, parecia um corpo estranho, incapaz de ligar o seu jogo ao de Jonas e, a defender, a equipa esteve muitas vezes mal posicionada, com Nélson Semedo a mostrar insuficiências.


Claro está, tudo ficou esquecido com os 20 minutos finais à Benfica. E aí emergiu o suplemento de classe de Gaitán, Jonas e Júlio César, a irreverência consequente de Victor Andrade e de Nélson Semedo e, acima de tudo, uma equipa que, solta das amarras (psicológicas?) que pareciam tolher os seus movimentos, se desinibiu. Pela primeira vez esta época, viu-se um caudal ofensivo vertical, capaz de aproximar o Benfica da baliza adversária. Agora, com um calendário favorável, o desafio é consolidar esta libertação emocional.












publicado no Record de terça-feira

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Em terra de ninguém



O problema do Benfica na Supertaça não foi tanto o resultado, mas os sinais dados pela exibição - as estatísticas, aliás, não enganam (38 ataques para o Sporting e apenas 18 para o Benfica). A equipa revelou que estava numa terra de ninguém: já não se exibiu com as ideias de Jorge Jesus e não foi capaz de apresentar um sistema alternativo ou, pelo menos, complementar. O Benfica já não é o de Jesus, mas está bem longe de ser o que Rui Vitória idealizou.

E aqui reside a questão central. Vitória já verbalizou o que pretende para a equipa, mas não se têm vislumbrado esses princípios de jogo na forma como o Benfica se tem apresentado em campo. Não se tem visto uma equipa capaz de controlar o jogo com bola (a principal lacuna da era Jesus), nem uma equipa com uma organização ofensiva mais pausada, ajudando com isso as transições defensivas. O Benfica perdeu o que de bom tinha com Jesus e, até ver, não ganhou o que Rui Vitória anunciou.

Há, contudo, uma frase a ecoar por cima de tudo isto. Na apresentação do novo treinador, Luís Filipe Vieira garantiu, "Rui Vitória vai ter as mesmas condições que outros tiveram". Ora isto implica ter jogadores de qualidade e jogadores que façam sentido para o novo sistema de jogo. Até ver, ainda não é claro qual é o sistema, mas continuam a faltar, pelo menos, dois jogadores para entrar no onze titular (um ala e um lateral esquerdo). Mas, como espero ver no domingo, bastará acrescentar a dinâmica e a intensidade que estiveram ausentes no Algarve para tudo começar a mudar.

publicado no Record de terça-feira

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Começar de Novo



Uma das fatalidades da idade adulta é perdermos a sensação de que podemos começar de novo. "Não temos mais princípios", definiu com acuidade George Steiner, dando corpo a um sentimento de perda de esperança e de declínio da criatividade nas nossas sociedades. Talvez no contraponto a esta impressão de declínio se encontre a resposta para o deslumbre e a paixão gerados pelo futebol.

No futebol temos sempre mais princípios e as novas épocas iniciam-se em rutura com as anteriores. De pouco serve a glória de vitórias passadas ou as taças erguidas há um par de meses. Agora, nada disso existe. Penso, claro está, no "nosso Benfica", mas a verdade é válida para todos os clubes. Este novo princípio tem consequências desportivas e exige dos jogadores uma atitude competitiva permanente, mas vale em igual medida para os adeptos.


Pier Paolo Pasolini, que escreveu extraordinários textos sobre o desporto-rei, afirmou que "o futebol é uma doença juvenil que se prolonga pela vida fora", para sublinhar que, tal como na infância, estamos sempre, em todas as jogadas, por mais estudadas ou treinadas, perante uma invenção, uma subversão dos códigos, algo de irreversível e irrepetível. Acrescentou mesmo que "o futebol é a última representação sagrada do nosso tempo". Uma combinação de ritual com evasão, que persiste, enquanto todos os outros ritos se encontram em declínio.

A ansiedade que chega com cada início de temporada, o entusiasmo com que vislumbramos indícios de um craque numa nova contratação ou a forma como contamos os dias até nos sentarmos de novo numa bancada são últimos redutos de uma vitalidade infantil que, em todos os outros lugares, se vai perdendo. O futebol regressa no domingo e voltaremos a ser crianças "selvagens e sentimentais". Saibam os jogadores estar à altura dessa responsabilidade.

publicado no Record de terça-feira

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Surf's Up



quinta-feira, 2 de julho de 2015

A autonomia de Vitória


Já ficou claro que esta época marcará uma ruptura face ao Benfica dos anos anteriores. Há um par de dimensões em que os sinais de mudança são, aliás, visíveis: na forma como o treinador se vai integrar na organização e no aproveitamento da formação feita no Seixal. Mas se é preciso que alguma coisa mude para que se mantenha a dinâmica vencedora, é fundamental que se preserve parte importante do legado.

Desde logo manter uma ideia de jogo assertiva. Se olharmos retrospectivamente, a marca deixada por Jesus é a nota artística, mas a diferença mais duradoura é inequivocamente uma alteração na atitude com que o Glorioso passou a enfrentar os jogos. Com consequências: hoje, quem joga com o Benfica joga para não perder. Na Luz, mas, também, nos jogos fora. Para que o Benfica continue a ser uma equipa temida, é preciso preservar uma ideia de jogo ofensiva.


Tão importante como ter um modelo coerente com a natureza ganhadora do Benfica, é Rui Vitória, à imagem do que aconteceu com Jesus, preservar uma autonomia total para impor o seu sistema. A questão não é de somenos. Depois de Jesus ter concentrado muito poder e de ter tido uma margem de manobra significativa para decidir (quase) tudo (o que teve, aliás, também custos – vide o não aproveitamento do Bernardo), é tentador para o novo treinador procurar auscultar as várias sensibilidades da estrutura antes de decidir. Seria um erro tremendo. Se, por força das circunstâncias, as decisões de Rui Vitória passarem a ser uma espécie de federação de opiniões, o Benfica está condenado a falhar.

Quando se fala da necessidade de Rui Vitória ter as mesmas condições de Jesus, é bom que se tenha presente que não basta ter jogadores com igual qualidade. Tem também de lhe ser garantida a autonomia e a capacidade de decidir a seu belo prazer de que Jesus gozou.

publicado no Record de terça-feira (a Luz Intensa regressa daqui a 4 semanas, já em Agosto)

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O que é que Obama deu à América?

para além da sua própria eleição, o Obamacare, uma resposta diferente à crise financeira, a morte de Bin Laden, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e, acima de tudo, pôs uma rapariga texana, de muitos talentos, a cantar assim, num "crazy day (legally)".