"I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight"

John Darnielle

padaoesilva@gmail.com

terça-feira, 24 de março de 2015

o terror que há sempre no fundo informulado de uma vida

"(...)

E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
(...)"

o resto, que é quasetudo, está aqui


quarta-feira, 18 de março de 2015

O David Luiz


 
 
Deixem-me recuar uma semana, pois no futebol há imagens que perduram e renovam a paixão. Quando, num volte-face, o David Luiz marcou o golo que dava uma vida adicional a um PSG que tinha tudo para estar derrotado pelo Chelsea, tive a certeza de estar perante um desses momentos de reencontro do futebol consigo mesmo.
 
Mas não há momento sem contexto e o de Londres era linear. De um lado, um jogar administrativo, que amarra jogadores talentosos a um modelo que tem tanto de eficaz como de desinteressante – é este o futebol do Chelsea de Mourinho; de outro, uma equipa em inferioridade numérica e que, muitas vezes, não ultrapassa a sua condição de repositório de craques com contratos milionários.
 
Provavelmente, sem um acrescento de drama, o PSG teria sido o amontoado de talento que teima em ficar aquém das suas capacidades. Ora o drama eram as circunstâncias pessoais de David Luiz – o defesa que Mourinho viu partir com um alívio que não se cansou de verbalizar, que participou num cataclismo futebolístico no último Mundial, regressava a Londres.

 
Vi, vezes sem conta, as arrancadas irresponsáveis de David Luiz pelo meio-campo acima, de bola controlada e com o abismo atrás de si, e sei que se trata de um jogador que tem o condão de desequilibrar, num só movimento, a sua equipa e o adversário. É essa atração pelo risco que faz do brasileiro um jogador singular, que oferece improviso a um futebol que se deixou burocratizar.
 
Quando eu e o meu filho gritámos o primeiro golo do PSG como se fosse do Benfica, o Vicente, com o olhar ingénuo que tentamos não perder quando vemos um jogo de futebol, repetiu, perante as celebrações do David Luiz, "Pai, ele está a dizer Benfica". É muito provável que estivesse. Afinal, o David Luiz, na sua imprudência tática, ajuda-nos a preservar um olhar infantil sobre o futebol. É essa a matéria de que são feitos os craques que não esquecemos.
 
publicado no Record de ontem

quinta-feira, 12 de março de 2015

Com uma pequena ajuda dos The Roots



o Tobias Jesso Jr. (que belo disco é este Goon)

Vencer com raça


Durante 45 minutos, em Arouca, num mini-Estádio da Luz, esteve presente um mini-Benfica. Uma equipa amorfa, sem intensidade e que pareceu ter ficado tolhida por um duplo erro defensivo de Eliseu (mais um) na mesma jogada.

Depois, ao intervalo, e com o espectro da Mata Real a pairar, tudo mudou. E, desta feita, mesmo com a entrada de Talisca, a diferença não foi de natureza tática. O que fez diferença foi a atitude. Repare-se, os dois golos decisivos, que viraram o jogo, resultaram de jogadas de insistência, onde, primeiro, Lima e, depois, Gaitán, não desistiram, forçaram o erro adversário, e revelaram o suplemento competitivo que constrói equipas campeãs. 

A vitória em Arouca está aí para demonstrar que não basta o talento individual, nem sequer a organização coletiva ou uma eficácia superior nas bolas paradas (onde o Benfica, ao contrário do habitual, esteve bastante mal) para se vencer campeonatos. É também necessária uma disponibilidade competitiva capaz de ocultar insuficiências estruturais (um sector que funciona menos bem) ou azares circunstanciais (um falhanço individual). 


A este propósito, é sintomático que nos últimos três jogos fora (Alvalade, Moreira de Cónegos e Arouca), o Benfica tenha sido capaz de reagir a resultados negativos, invertendo a tendência do marcador. A dez jornadas do fim, a capacidade de uma equipa vencer na raça é tão importante como os atributos coletivos e/ou individuais. Além de três pontos, o Benfica trouxe de Arouca uma atitude competitiva que importa continuar a alimentar. 

PS - O discurso do colinho, como seria de esperar, já está a dar os seus frutos. Agora, com tantas queixinhas, antes de apitarem a favor do Benfica, os árbitros pensam duas vezes. Em Arouca ficaram por assinalar duas grandes penalidades.

publicado no Record de terça-feira

terça-feira, 10 de março de 2015

O John Lennon teria gostado muito disto


segunda-feira, 9 de março de 2015

Nós, o povo



fazer a diferença

quarta-feira, 4 de março de 2015

Uma corrida a dois


Este fim-de-semana confirmou-se o que era uma inevitabilidade desde o início da temporada: o campeonato é uma corrida a dois. Benfica e Porto são superiores a todas as outras equipas a vários níveis – qualidade individual, organização coletiva e intensidade competitiva. Podem ter dificuldades numa ou outra partida, mas há uma distância significativa entre os dois primeiros classificados e restantes equipas.

O que nos deixa uma certeza: teremos um campeonato disputado e que se decidirá em torno de quatro dimensões – arbitragens; liderança em campo; forma física; e desgaste da Champions.

Muito se tem falado de um Benfica “levado ao colinho”. É uma evidência que semana sim, semana sim, o campeonato é brindado com arbitragens medíocres, mas, quando se fizer a contabilidade final, veremos que no “deve e haver” dos beneficiados teremos um quadro de equilíbrio. O que mudou é que o Porto deixou de beneficiar dos campos inclinados a que se habitou. A forma como as próprias arbitragens vão ser capazes de ficar imunes à pressão do discurso do “colinho” fará diferença.

Durante muito tempo, uma das vantagens do Porto face ao Benfica foi ter uma voz de comando em campo, capaz de funcionar como treinador durante os jogos. Desde a saída de Lucho, o Porto não mais teve um líder dentro do relvado. O Benfica tem Luisão.


Ao contrário do que se quer fazer crer, não há grandes diferenças entre os 11 titulares. Onde o quadro é menos equilibrado é quando falamos de segundas linhas. O Porto leva vantagem na qualidade individual do seu banco. As lesões e a forma física serão, por isso, decisivas. A este propósito, é uma incógnita o impacto da Champions no Porto. O desgaste pode fragilizar a equipa, mas bons resultados podem ser um suplemento de alma adicional.

No fim, a melhor equipa será campeã, pelo que de pouco serve andar, desde já, a ensaiar choradinhos.

publicado no Record ontem

terça-feira, 3 de março de 2015

"but i've given up all attempts at perfection"


queria só dizer-vos que se ouviram o shadows in the night do Bob Dylan e não gostaram (ou, pior, são da opinião que ele não tem voz), o problema é vosso

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Acreditar



a extraordinária Natalie Prass em toda a sua pujança orgânico/sonora

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O futuro



Com menos recursos financeiros e com as saídas sistemáticas dos jogadores de maior nomeada, poderíamos ter boas razões para temer pelo futuro imediato do futebol do Benfica. Não vejo motivos para isso. É evidente que enquanto vamos perdendo jogadores de classe mundial (este ano saíram Enzo, Rodrigo e Garay) e mais saídas se anunciam para o verão (Gaitán e Sálvio?), o espectro da diminuição da qualidade é uma ameaça. Mas é também uma oportunidade.

Uma coisa é certa, não regressará o tempo em que, no futebol português, se podia ir buscar valores seguros a outros campeonatos, com vinte e poucos anos, valorizá-los e transferi-los para Espanha e Inglaterra. O Benfica, como aliás o Porto, terão de optar por outro modelo de especialização: trabalhar jovens talentos, nacionais ou importados pouco importa, e esperar que revelem maturidade para darem o salto para o futebol de alta-competição. O risco é maior, mas pode dar certo.

O problema hoje não é de qualidade potencial dos jovens jogadores. O desafio coloca-se, no essencial, às estruturas e ao treinador. Saberão reconverter-se e enfrentar o novo desafio? Será Jorge Jesus capaz de formar uma equipa competitiva com outro tipo de recursos?

A este propósito, basta atentar no Benfica B. O plantel foi alvo de uma autêntica razia na reabertura do mercado (com o empréstimo de muitos titulares) e, em lugar de a equipa ficar mais fragilizada, apareceu uma nova fornada de jogadores talentosos. Basta ver um jogo dos Bês para se perceber que há ali matéria-prima de primeira apanha. A equipa, é claro, alterna exibições conseguidas com derrotas clamorosas – é o que se espera de quem tem a audácia e a ingenuidade próprias da juventude. Mas, ao contrário do que aconteceu nos últimos anos, o futuro terá de passar pelos jovens. Pelo João Teixeira, pelo Nuno Santos, pelo Hélder Costa, pelo Cristante, pelo Gonçalo Guedes e pelo Jonathan.

publicado no Record de hoje

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A luz que começa a morrer

o título do meu artigo do Expresso de ontem é roubado ao Dylan Thomas, cuja descoberta devo, quando tinha uns 15 anos (o que fez diferença), ao John Cale (no fabuloso Words for the Dying) e ao Bob Dylan (no fabuloso Robert Zimmerman).






Não entres docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.

No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.

Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis ações ter dançado na baia verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E os loucos que colheram e cantaram o vôo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.

Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia a luz que começa a morrer.

Dylan Thomas

Tradução: Fernando Guimarães




quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Meio-morto


No domingo, na Luz, ainda a segunda parte ia a meio, já o Vitória, a perder por 3-0, defendia o resultado, com duas linhas de jogadores em frente à área. Enquanto isso, o árbitro fazia o que os árbitros teimam em fazer entre nós. Sem cometer erros decisivos, dava todos os contributos possíveis para estragar ainda mais o jogo, apitando por tudo e por nada (32 faltas) e começando a distribuir amarelos a ritmo apreciável (seis amarelos, cinco dos quais nos últimos 20 minutos). No fundo, é o futebol português em todo o seu esplendor. Jorge Jesus disse na conferência de imprensa que, a partir de certa altura, o Vitória estava meio-morto. Temo bem que não seja assim. É o campeonato português que está a ficar meio-morto.

Passam as jornadas e parece que a tendência se consolida. Um campeonato de jogos desinteressantes e futebol paupérrimo. Entretanto, o fosso entre três ou quatro clubes e os restantes acentua-se, com uma agravante: contra adversários de qualidade duvidosa, o futebol dos grandes tenderá a degradar-se também. É penoso assistir a 90 por cento dos jogos da 1.ª Liga e há demasiados sinais de que é uma tendência que veio para ficar. Devemos agradecer a todos aqueles que se bateram pelo alargamento da 1.ª Liga e que agora defendem o fim dos fundos e a aposta no jogador português. Por este caminho, bastarão dois ou três anos para o nosso campeonato estar ao nível do escocês, holandês e belga.


Se nada for feito para parar esta deriva, o cenário será mais ou menos este: Portugal deixará de ser porta de entrada para jovens talentos que querem singrar na Europa e que não podem entrar diretamente nos clubes espanhóis e ingleses de topo; os jovens jogadores portugueses de qualidade deixarão o país antes de se afirmarem nos equipas principais dos três grandes; e o campeonato português será nivelado (ainda mais) por baixo. Façam bom proveito.














publicado no Record de terça-feira

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Até o Neil Hannon já tem barba



concerto, de dia 11 de Fevereiro, em Paris
(a versão do Booklovers, aí por volta do minuto 28, é qualquer coisa)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Que Presidente queremos?


Se bem que ainda distantes e passíveis de contaminação pelo resultado das legislativas, as presidenciais têm estado no centro da especulação. Perante isto, os partidos sugerem que o tema é prematuro e sublinham que a prioridade é a escolha do próximo Governo. Faz sentido taticamente, mas não estrategicamente. Por força da proximidade entre eleições e tendo em conta as exigências de governabilidade e cooperação institucional que se vão colocar, eleger Governo e Presidente são opções interligadas.
Se assim é, não é prematuro identificar os requisitos de um bom candidato presidencial, assim como definir um perfil relevante para o país no próximo ciclo político.
Como é frequentemente dito, um candidato presidencial competitivo tem de ser capaz de crescer eleitoralmente para lá do seu espaço político. A ideia de que alguém alinhado com uma direção partidária e promovido como candidato oficial de um partido tem vantagem é, aliás, um equívoco. Não menos importante, 40 anos passados do 25 de Abril, o regime só teria a ganhar se tivesse uma mulher na Presidência. Seria, por si só, um indicador de institucionalização democrática.
Naturalmente que as escolhas presidenciais não podem ser politicamente neutras. Há, a este propósito, dois critérios importantes: saber como é que os candidatos se posicionaram perante as questões mais marcantes dos últimos anos e de que forma podem contribuir para os compromissos de que o país vai necessitar.
 Num período de incerteza como o que vivemos, há temas que se sobrepõem a todos os outros: a estratégia de consolidação orçamental; a gestão da dívida e a sustentabilidade do Estado social. Um bom candidato presidencial tem de ser alguém que, desde o início da crise, não tenha hesitado, nem assumido posições dúbias, em relação a estes três temas: criticando a austeridade, colocando-se do lado de uma solução europeia para a dívida e não hesitando na defesa do papel do Estado e das responsabilidades públicas na proteção social, na educação e na saúde.
            Já em relação ao próximo ciclo político há um grande consenso: a capacidade do país ultrapassar o bloqueio em que se encontra e de desenvolver uma estratégia reformista gradual, assente num horizonte de médio prazo, depende de um compromisso político. Nesse sentido, e tendo em conta que todos os indicadores anunciam uma vitória do PS, um Governo liderado por António Costa pode ganhar com um Presidente que alargue o seu espaço de influência, mais do que ter em Belém quem reproduza a base social de São Bento.
Por tudo isto, vejo boas razões para se ponderar uma candidatura de Manuela Ferreira Leite. Aliás, com uma outra vantagem: estamos a falar de alguém que já perdeu eleições nacionais e as derrotas políticas são um momento de aprendizagem.

publicado no Expresso de Sábado.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015



O legado emocional

É possível um jogo de futebol ser intenso, mesmo sem grandes oportunidades de golo ou jogadas com nota artística elevada? O dérbi de ontem está aí para demonstrar que sim.

A marca do Sporting-Benfica foi a forma como, com grande rigor tático e intensidade na disputa do jogo, as equipas foram capazes de bloquear os pontos fortes do adversário. O Benfica do carrossel ofensivo, balanceado para o ataque, não existiu; da mesma forma que o Sporting com um meio-campo dinâmico esteve ausente. Em particular nas faixas laterais, as duas equipas estiveram ausentes ofensivamente. Prova disso é que Salvio e Nani – muito provavelmente os jogadores mais fortes na construção de jogo atacante que as duas equipas tinham em campo – não se viram em jogo.
Desde logo porque o Benfica levou longe de mais uma atitude resultadista, aliás pouco habitual em Jorge Jesus.

Com uma equipa montada com grande competência, em primeiro lugar, para impedir que o Sporting jogasse, o Benfica tentou sempre gerir o resultado e acabou por ter a sorte do jogo – da mesma forma que, minutos antes, também tinha tido azar, sofrendo um golo, num jogo que nessa altura estava controlado. Para o que resta deste campeonato, sobrará o legado emocional. E aí, o Benfica sai com clara vantagem. Não apenas porque mantém uma margem pontual de confiança, mas, acima de tudo, porque um empate com o jogo já a morrer acaba por ser um suplemento de alma para as próximas jornadas.

publicado no Record segunda-feira


O Anti-Jesus

Numa conferência de imprensa mítica, já há uns tempos, Jorge Jesus, como sempre a dizer “coisas certas com as palavras erradas”, perguntava “o que é isso de experiência?”, para logo responder, num jeito inimitável, “experiência é conhecimento”. Talvez essa seja a melhor forma de olhar para o dérbi deste domingo. Um Benfica com mais experiência acumulada, logo com mais conhecimento, que foi capaz de ocultar com organização coletiva a perda de qualidade das individualidades que formam a equipa hoje, por comparação aos anos anteriores.

Houve, por isso, um efeito surpresa. O Benfica de Jesus, que construiu a sua identidade em torno de um futebol de ataque, com transições rápidas, não compareceu em Alvalade. Não estiveram presentes as acelerações no limite da razoabilidade de Salvio pela direita, nem as diagonais da esquerda para o meio, nem sequer o jogo interior rendilhado, a oferecer muitas possibilidades aos avançados. Em parte também por respeito ao Sporting, que é hoje uma equipa mais forte e competente do que no passado recente, o Benfica entrou em campo em modo resultadista.


Ora aí reside uma inovação. Nas últimas épocas, e em importante medida porque tinha jogadores que assim o permitiam, o Benfica nunca teve uma atitude resultadista. Agora, com um plantel sem as mesmas doses de talento, o treinador prefere contrariar a própria identidade que construiu e ser um anti-Jesus, secundarizando a qualidade do jogo ofensivo, em nome de um realismo avisado.

A filosofia parece clara. Se for possível acrescentar nota artística aos resultados, tanto melhor. Se não for, cá estarão os resultados. Esta atitude pragmática era possível no Jesus do passado? Parece-me que não. Mas, afinal, o que é o conhecimento se não experiência acumulada.

publicado no Record de terça-feira

“Why me, Lord?”

"My songs they were on the fringes then, and I think they're on the fringes now."



o resto da angústia da influência por Bob Dylan pode ser lido aqui.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Don't be fooled



"All these songs are connected, don't be fooled, I was just opening up a different door in a different kind of way"
"In Johnny Cash’s world of hardcore Southern drama, that kind of thing didn’t exist. Nobody told anybody what to sing or what not to sing."
"Critics say I can’t sing, I sound like a frog. Why don’t critics say that about Tom Waits? Critics say my voice is shot. Why don’t they say that about Leonard Cohen? What have I done to get this special attention?"

Dylan on Dylan, ontem a explicar tudo.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

"Remember me, but ah! forget my fate"



o resto podem ler aqui.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Uma curiosidade


Por uma combinação de preservação da sanidade mental e da paixão pelo futebol, faço os possíveis por dedicar muito pouca atenção a questões de arbitragem e, menos ainda, a disputas de dirigentes. O futebol tem apenas três protagonistas - jogadores, técnicos e adeptos. Todos os outros ficam, na melhor das hipóteses, a meio-caminho entre figurantes e atores secundários. Bem sei que dirigentes e árbitros fazem, demasiadas vezes, os possíveis por se tornarem figuras centrais. Com isso, só prejudicam o futebol. Por isso mesmo, é dever dos adeptos devolvê-los ao seu papel secundário.

Mas, esta semana, houve uma notícia breve que veio ter comigo e que achei curiosa. Na edição de quinta-feira do Record, uma fotografia com um caloroso abraço entre Inácio e Manuel Mota ilustrava um texto sobre as pazes feitas entre Sporting e o árbitro de Braga. Manuel Mota, que havia sido excomungado pelo Sporting em Dezembro de 2013, após um empate caseiro com o Nacional, ao ponto de nunca mais ter arbitrado um jogo dos leões, era agora, mais de um ano passado, recebido de braços abertos em Alvalade, quando regressava para um Sporting-Setúbal da Taça da Liga. Comovente.


O curioso é que Manuel Mota tinha, dois dias antes, praticado um ato verdadeiramente inovador como 4º árbitro. A crer na primeira página do Record de terça-feira, o penálti marcado na Mata Real contra o Benfica não foi assinalado nem pelo inefável Bruno Paixão (lá está, um dos que não perde uma oportunidade para ganhar protagonismo), nem pelo assistente do lado da jogada, mas, sim, imagine-se, pelo 4.º árbitro. Colocado exatamente do outro lado do campo, Mota teve a lucidez de vislumbrar a grande penalidade que os seus colegas não avistaram. Talvez tenha sido este novo papel para os 4.ºs árbitros que os dirigentes do Sporting tenham querido saudar. Nunca se sabe.














publicado no Record

Songs from a room


Convivo com desconforto com a ideia de que a Grécia é um lugar a partir do qual se ambiciona mudar o Mundo.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Clássico instantâneo



Tudo o que possam ter lido sobre a Natalie Prass é mais do que justo.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Pouca Pedalada


No lançamento da partida de ontem, e a propósito das contratações do mercado de inverno, Jorge Jesus deixou, com razão, um aviso aos novos jogadores: para entrar na equipa era preciso ter "muita pedalada". Imagino que o treinador estivesse a pensar na organização coletiva e na intensidade com que o Benfica joga. Ora o Benfica de ontem foi uma equipa com muito pouca pedalada.

Desde logo, o nervo com que o Benfica se tem apresentado em todos os jogos faltou. Estranhamente, a derrota do FC Porto na véspera, que deveria ter dado uma confiança extra, acabou por se revelar contraproducente. Em particular na segunda parte, viu-se um Benfica enervado com a responsabilidade. Exatamente o contrário do que tem sido hábito esta temporada, em que, sob pressão, o Benfica não falha e, em muitos momentos, supera mesmo as suas insuficiências (uma delas, aliás, sobejamente conhecida - a forma como defende do lado esquerdo).


Mas não foi apenas uma estranha nervoseira que marcou a partida de ontem. O que tem sido uma das mais-valias do Benfica, e que torna a equipa particularmente poderosa face a adversários muito fechados, é a força do seu jogo interior, que permite em situações de ataque organizado colocar vários jogadores em posição privilegiada entre o meio-campo e a defesa adversários. Ontem, isso aconteceu pouco: seja porque Talisca andou perdido, seja porque a saída de Samaris expôs a equipa, seja porque Lima não mais se encontrou após desperdiçar o penálti.

No fim, sobram as palavras motivadoras de Luisão: "Continuamos com o nosso trabalho". É que os campeões fazem-se de talento, mas, também, de muito trabalho.

P.S.: A propósito da grande penalidade favorável ao Benfica, cabe dizer uma coisa: no futebol de hoje, fazer tiro ao braço dentro da área arrisca tornar-se a mais eficaz das jogadas. Um absurdo, a menos que os árbitros defendam a amputação dos braços dos defensores.

publicado no Record de ontem

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Regressar aos clássicos


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Bernardo: jogador adepto


Terá sido Tony Adams, mítico capitão do Arsenal, que disse que "se jogares pelo nome inscrito na frente da camisola, os adeptos recordarão o nome inscrito nas costas". A frase fixa uma visão romântica do futebol, de um jogo que já não existe, onde a figura do jogador-adepto era uma possibilidade realista.

Os tempos "desportivos" já não estão para isso. Nós, benfiquistas, não mais devemos esperar exemplos como os daqueles que resistiram às propostas materialmente tentadoras de clubes mais (novos) ricos, no momento da fundação - mantendo o espírito popular, definido pelo grande Cosme Damião na Farmácia Franco.

Vivemos por isso uma tensão permanente: queremos perpetuar uma visão romântica do futebol, própria do adepto, mas a realidade chama-nos de forma sistemática.

O Bernardo era uma raridade e um resquício de um passado que teima em nos abandonar. Jogador adepto como nós, mas com o talento com que todos sonhamos. Uma predisposição natural para jogar futebol (que, como é sabido, é daquelas coisas que não se aprende, nem se ensina, mas que se vislumbra logo no primeiro toque na bola) e, a pairar sobre isso, um amor filial ao Glorioso.
Há mais de um ano, escrevi no Record que "de quando em quando surge um jogador adepto como nós, mas com o talento que ambicionámos ter. Um sofredor que tem a sorte de poder sofrer no relvado, de camisola ao peito. Há jogadores profissionais que honram a camisola; mas uma coisa é jogar com afinco, outra é jogar com afinco com a camisola do clube do coração. Momentos há em que, numa espécie de epifania, ao adepto se junta o empenho e o talento. É desta conjugação que nascem os jogadores que nos fazem sonhar".

O texto era sobre o Bernardo. O mesmo Bernardo que, num desfecho anunciado, mas que nos procuraram esconder de forma tosca, deixa agora o Benfica, onde na verdade nunca chegou a jogar.
Bem sei que, nos tempos modernos, o que nos prende a um clube são as camisolas, a ideia de equipa e os jogadores que (muito) transitoriamente as vestem com profissionalismo. Sei também que um clube português não tem condições financeiras para rejeitar ofertas de 15 milhões por projetos de jogador (por muito que gostemos do Bernardo, é ainda o que ele é). Mas, o adepto que há em mim vive com frustração os choques com a realidade.

No prolongamento da infância e fuga ao real, que são as formas como vivo o futebol, o Bernardo seria o nosso capitão, marcaria golos atrás de golos e o seu pé-esquerdo resgataria a memória infantil que guardo do Chalana. Sei bem que nada será como eu sonhei, mas sei também que teremos cá o Maxi e o Luisão para mostrarem como o amor à camisola também se aprende; o Talisca para alimentar fantasias; o Gaitán para nos fazer crer que podemos ambicionar toda a grandeza e o Gonçalo Guedes para fazer de Bernardo. De resto, podemos sempre manter a esperança de que, um dia, o Bernardo se cansará do sucesso desportivo e material e, como o nosso Rui Costa, nos concederá (e conceder-se-á) a Glória de regressar à Luz.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O Capitão




Quando não há Gaitán, ganha-se com Salvio, quando não mesmo com Ola John. Foi assim no Caldeirão e a máxima pode aplicar-se a qualquer jogo do Benfica deste ano. À primeira vista, a explicação para a facilidade com que se substitui um jogador por outro está num plantel com mais talentos do que parecia, que aguardam a oportunidade para se afirmarem.

Mas, como é sabido, talento não chega. A grande vantagem do Benfica reside na organização coletiva – em princípios de jogo de tal forma trabalhados que, jogue quem jogar, já sabe o que deve fazer. Regressamos ao mesmo: não joga Gaitán, joga Salvio; não joga Salvio, joga Ola John e se o Ola John não puder jogar, joga o “Manel”.

No fundo, a equação vitoriosa resumir-se-ia a uma soma de talento com organização coletiva. É em parte verdade, mas está longe de ser toda a verdade. Não basta talento e organização para vencer, é preciso também liderança.

Na Madeira, o Benfica foi, por força do talento dos jogadores e da organização trabalhada pelo treinador, avassaladoramente dominante, mas vale a pena recordar a liderança decisiva do capitão Luisão.


Os números são de outro tempo: 11 temporadas de águia ao peito, 440 jogos, que fazem dele o 9º jogador que mais jogou pelo Benfica, igualando Eusébio. São poucos os que, no futebol de hoje, jogam tanto tempo pelo mesmo clube. Mas é mais do que isso que está em causa.

Ao longo de 11 anos, Luisão viveu o suficiente no Benfica para poder liderar. Perdeu, venceu, mudou de treinador. Acumulou experiência. O que lhe dá uma voz de comando única. Mas nada disto seria possível sem a inteligência prática que resumiu bem, numa já longínqua entrevista ao “Expresso”, definindo o que compete a um central: “não está ali para fazer salada, mas sim arroz com feijão”. Jogar simples é uma forma de inteligência prática. Luisão lidera pela experiência e pela sabedoria que coloca em campo.

publicado no Record de ontem.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O mundo não é a preto e branco



há muita verdade nas tonalidades de cinzento
(quadro roubado ao Pedro Chorão)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A diferença que faz




É tentador pensar que um grande guarda-redes se avalia pelo número de defesas extraordinárias que faz. Julgo tratar-se de um equívoco. Um grande guarda-redes vale não tanto pelo que defende, mas pelo que não chega sequer a precisar de defender e o que oferece taticamente à equipa. É precisamente isto que faz de Júlio César, aos 35 anos, um extraordinário guarda-redes, à medida de um clube grande.

Talvez valha a pena recuar à temporada transacta ou ao início desta para se perceber o que está em causa.

O ano passado, por esta altura, depois de um jogo em sofrimento em Olhão, uma lesão providencial de Artur afastou o brasileiro da baliza e deu, finalmente, a titularidade a Oblak. O Benfica, com a mesma defesa, baixou drasticamente o número de golos sofridos, ao mesmo tempo que o esloveno não fazia mais do que um par de defesas por jogo. Com Artur, a equipa tremia que nem varas verdes, recuava no terreno e os defesas só em último recurso atrasavam a bola ao guardião. Oblak acabaria por se revelar decisivo ao tranquilizar a equipa. Este verão, a saga regressou, ao ponto do Benfica ter dado literalmente dois pontos em casa ao Sporting, apenas porque a equipa não podia confiar no guarda-redes.

Tudo isto se tornou, de novo, mais claro com a titularidade de Júlio César. Com a chegada do internacional brasileiro, a defesa tranquilizou-se, pôde avançar no terreno vários metros e, acima de tudo, o guarda-redes ofereceu um controlo da profundidade notável. Já no ocaso da carreira, talvez Júlio César não seja um guardião tão espetacular a defender como Oblak, mas com ele o Benfica ganha um jogador de campo extra que confere grande qualidade na primeira fase de construção. Com a bola nos pés, Júlio César distingue-se pouco dos defesas centrais.

A diferença que faz num clube grande um guarda-redes taticamente maduro, tranquilo e que sabe jogar com os pés.

publicado no Record de terça-feira

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

"boring though, in a joan baez sorta way"




este foi um dos discos que mais ouvi em 2014. Nos comentários a esta sessão no Tiny Desk da NPR, aparece a descrição mais precisa da música que os Luluc fazem: "boring though, in a joan baez sorta way". Julgo tratar-se de um elogio.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Nunca esquecer



             "o sono da razão produz monstros"

                       Francisco de Goya

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A hora de Gaitán


O futebol é fantástico. De onde quer que o observemos, revela-nos sempre um ângulo interessante. O futebol baseado numa vertigem atacante fascina, mas podemos bem desfrutar com igual entusiasmo do ataque organizado em toada lenta – da mesma forma que não devemos menosprezar uma organização defensiva monotonamente compacta. Quem só aprecia um estilo de futebol e se convence que a virtude está, apenas, em ataques estonteantes, ainda não entrou na maturidade da relação com o desporto rei.

Todas as vitórias têm um encanto particular. Sim, deixei-me levar pelo título ganho pelo carrossel alucinante montado por Jesus no primeiro ano; mas guardo igual memória de campeonatos conquistados por equipas burocráticas que exibiam um modo administrativo de jogar: uma tarefa para cumprir (vencer jogos), alcançada com o máximo de eficiência. Foi assim em 86/87, aquando da segunda passagem de Mortimore; em 04/05 com Trappatoni e, sejamos, realistas, é este o caminho possível para o título este ano.

Bem sei que as vitórias trazem confiança e uma margem pontual confortável é o tónico perfeito para boas exibições. Tudo isso é verdade, mas o Benfica de 14/15, em reconstrução permanente, só será ganhador se for uma equipa em modo administrativo.

Há, contudo, mais paralelismos entre esta temporada e as de 86/87 e 04/05. Agora como então, a organização burocrática da equipa exigiu de um só jogador um esforço adicional. Diamantino e Simão tiveram de ser jogadores desequilibradores, capazes de dar o suplemento de criatividade que as equipas não tinham. Hoje, o Benfica dependerá de Gaitán para a mesma função. O que exige mais do argentino. Não lhe bastará ser o extremo talentoso que conhecemos. Nesta segunda metade do campeonato, Gaitán terá de ter maior versatilidade tática e a responsabilidade acrescida de ligar sectores. Com a saída de Enzo e com um plantel menos forte, é a hora de Gaitán.

publicado hoje no Record

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A vida que sonhei



No meio de arrumações, encontrei um recorte de jornal de 1985 com uma longa entrevista ao Diamantino, ilustrada por uma fotografia de um jovem adepto a pedir-lhe um autógrafo. Tenho boas razões para guardar com cuidado religioso aquelas páginas amareladas. O Diamantino é responsável por alguns dos meus primeiros momentos de felicidade absoluta.

Se, em algum momento, tenho uma ligeira hesitação em relação ao meu benfiquismo ou, o que acaba por ser a mesma coisa, suspendo, por instantes, a paixão pelo futebol, logo recorro à memória bem definida de um par de jogadas formativas. Em muitas delas, surge um jogador de técnica destilada e com a arrogância só acessível àqueles que têm uma classe superlativa. Quando fecho os olhos, sou capaz de recordar a memória vivida de um Benfica-Porto em que o Diamantino, de tanto fintar o pobre do Laureta, o deixou sentado no chão.

Há uns tempos, um bom amigo comum, o Manolo Bello, apresentou-me o Diamantino, e eu, reduzido à condição de adepto, não queria acreditar que o meu ídolo de infância sabia quem eu era e que a altivez que exibia em campo coexistia com um homem simples.

Mas não se iludam. Não é por ser, hoje, amigo do Diamantino que o vejo à minha imagem. Pelo contrário, o Diamante Vermelho continua a ser a medida de todas as coisas. Posso bem comentar os superiores assuntos da política, dar aulas na universidade ou fazer outras coisas às quais se atribui, por erro de avaliação, alguma grandeza. Aconteça o que acontecer, eu serei apenas um tipo que falhou no essencial, enquanto ele será sempre o Diamantino, que esbanjou classe no Benfica e marcou golos sem fim com a camisola do Glorioso. Na verdade, o Diamantino é a corporização da vida com a qual sonhei quando era criança. Tudo o resto que eu faça, é apenas porque não pude ser jogador de futebol no meu Benfica. Essa grandeza que me está vedada é a matéria de que é feita a vida do Diamantino.

Já agora, o miúdo fotografado a pedir um autógrafo ao seu ídolo, à porta de um treino, no velho Estádio da Luz, nessa velha página de jornal, é o autor destas linhas. 

(uma versão editada deste texto foi publicada no Record de ontem)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

O Pós-Enzo



Após um "tiro no porta-aviões" dado pelo Braga e uma vitória com uma exibição sofrível face a um adversário medíocre, talvez valha a pena refletir sobre o que será o Benfica pós-Enzo. Até ver, as alternativas ao argentino para a posição 8 têm sido, para ser generoso, remediadas.

Talvez a questão se prenda mesmo com a posição 8. No modelo de Jesus, estamos a falar de um lugar muito exigente, onde participação nos momentos de organização ofensiva tem de estar articulada com grande intensidade nas transições defensivas. O número 8 do Benfica de Jesus é um autêntico pêndulo: está sempre presente a atacar e também a defender. Quer táctica, quer técnica, quer fisicamente, jogar naquele lugar está ao alcance de poucos. Na verdade, nos anos de Jesus, só Enzo e Witsel o fizeram com mestria (no primeiro ano, as circunstâncias eram diferentes, pois Ramires oferecia um grande equilíbrio à equipa desde as alas).

O que fazer agora? Se bem se percebe, o próprio Jesus parece hesitar. Quando parecia que Pizzi seria a alternativa ao argentino, recuperou a solução Talisca. A questão é que nenhum dos dois é, nem poderá ser, um clone de Enzo e todas as alternativas obrigarão o Benfica a mudar o seu sistema.


É mesmo caso para afirmar, parafraseando Jesus sobre Matic, que "para render Enzo, só nascendo dez vezes". Com uma agravante, Enzo é um jogador mais influente e determinante do que era Matic (o que não quer dizer que seja melhor jogador do que o sérvio).

Na impossibilidade de contratar um jogador de classe e maturidade, talvez seja preferível encontrar um modelo mais flexível, onde a equipa se adapte também ao perfil dos jogadores do plantel, em lugar de se forçar jogadores a serem o que não são. No fim, sobra uma certeza: uma vez mais, o caminho para o título dependerá da competência do treinador para ultrapassar dificuldades.


publicado no Record de ontem.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Antes e Depois


Há um antes e um depois do clássico de Domingo. Basta que se recupere um pouco do que se dizia até ao jogo e o que se pode hoje afirmar. No lançamento da partida, era voz corrente que, superada a inexplicável rotatividade dos titulares e a fase de adaptação de jogadores e treinador ao futebol português, o FC Porto estava num crescendo de forma e que a pressão estaria toda do lado do Benfica.

Afinal, apesar de liderar, o Glorioso soçobraria no Dragão face a um FC Porto com mais talentos individuais. Mais: era-nos dito que a equipa de Jesus, não podendo pôr em prática o carrossel atacante que está na base do seu modelo de jogo, tinha invariavelmente dificuldades em gerir as partidas contra equipas mais fortes, como ficara visível nos jogos da Champions. No fundo, o Benfica sairia derrotado do Dragão e a liderança do campeonato era sol de pouca dura. Viu-se.  Contra todas as expectativas, o Benfica venceu e, mais importante, fê-lo com uma exibição incomum. 

Quase tão importante como ter vencido, foi tê-lo feito contrariando a asserção que parecia mais sólida em relação ao modelo de jogo de Jesus: o Benfica é incapaz de controlar um jogo, ocupando espaços sem posse de bola. Ora o que se viu no Dragão foi uma equipa muito competente, a fazer pressão alta, com uma defesa subida (uma manobra de risco face ao talento individual dos portistas) e com uma organização coletiva notável nos (muitos) momentos em que não teve bola.


É evidente que nada disto seria possível sem talento individual, mas foi claramente mais importante a forma como cada jogador (mesmo um artista como Gaitán) soube participar nas tarefas da equipa. E é também nisso que reside a grande diferença entre Benfica e FC Porto. Enquanto o Benfica tem um modelo e uma organização de jogo que condicionam o lugar de cada jogador; o FC Porto que tem talentos de sobra para formar uma superequipa, continua a não funcionar enquanto tal. Como é sabido, são as equipas que ganham campeonatos. 
















publicado no Record de terça-feira

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Os 10 melhores discos de 2014

A minha escolha dos 10 melhores discos de 2014 pode ser vista aqui e escutada aqui.