sexta-feira, 29 de abril de 2016
quinta-feira, 28 de abril de 2016
Faltam Três
A vitória contra o Rio Ave – em teoria o adversário mais difícil
nestas últimas jornadas – não alterou tanto como se pode pensar a
difícil caminhada do Benfica rumo ao título. Engana-se, por isso, quem
pensava que este era o jogo decisivo. A deslocação a Vila do Conde era
determinante apenas na medida em que em lugar de faltarem quatro
vitórias, o Benfica passou a estar a três vitórias do 35.
Percebe-se a euforia dos adeptos e as celebrações dos jogadores, mas convém ter presente as tristes lições do passado. Há três anos, após uma vitória difícil na Madeira, frente ao Marítimo, o campeonato parecia reservado e tudo foi perdido num jogo em teoria fácil com o Estoril na Luz. Este ano o campeonato será disputado até à última jornada e não vale a pena alimentar ilusões. O Benfica dependerá apenas das suas vitórias para ser campeão, da mesma forma que o Sporting vencerá todos os confrontos que tem por disputar. Quando se aproximam as partidas decisivas, faz toda a diferença estar ainda em jogo alguma coisa importante. O Sporting tem tudo a perder no Dragão e o Porto nada a ganhar (a não ser uma vaga noção de honra). No sábado, Sporting e Porto estarão a disputar campeonatos diferentes. Essa pressão adicional favorece o Sporting. Pelo que o Benfica não deve ficar à espera de ajudas de terceiros.
A partir de agora, tão difícil como a preparação física e tática para os jogos que se seguem, é evitar alguma descompressão e contrariar a ideia de que o campeonato está garantido. O Benfica depende de si: para já, tem de ganhar ao Guimarães e não deve contar com um auxílio improvável do Porto.
publicado no Record
Percebe-se a euforia dos adeptos e as celebrações dos jogadores, mas convém ter presente as tristes lições do passado. Há três anos, após uma vitória difícil na Madeira, frente ao Marítimo, o campeonato parecia reservado e tudo foi perdido num jogo em teoria fácil com o Estoril na Luz. Este ano o campeonato será disputado até à última jornada e não vale a pena alimentar ilusões. O Benfica dependerá apenas das suas vitórias para ser campeão, da mesma forma que o Sporting vencerá todos os confrontos que tem por disputar. Quando se aproximam as partidas decisivas, faz toda a diferença estar ainda em jogo alguma coisa importante. O Sporting tem tudo a perder no Dragão e o Porto nada a ganhar (a não ser uma vaga noção de honra). No sábado, Sporting e Porto estarão a disputar campeonatos diferentes. Essa pressão adicional favorece o Sporting. Pelo que o Benfica não deve ficar à espera de ajudas de terceiros.
A partir de agora, tão difícil como a preparação física e tática para os jogos que se seguem, é evitar alguma descompressão e contrariar a ideia de que o campeonato está garantido. O Benfica depende de si: para já, tem de ganhar ao Guimarães e não deve contar com um auxílio improvável do Porto.
publicado no Record
quinta-feira, 21 de abril de 2016
Ser Benfiquista
Encostado ao muro, de perna fletida e sem bigode, o meu tio-avô, sobre o qual escrevi aqui. Este texto surpreendente (scroll down até 'construtor de catedrais') conta a história quase toda.
É só sorte?
A sorte é
um fator claramente sobrevalorizado no caminho para o sucesso e, contas feitas, no fim, nem
sequer protege os audazes. O Benfica, ontem, teve uma vitória sofrida
frente ao Vitória e, se pensarmos na defesa final de Ederson, podemos
mesmo dizer que foi bafejado pela sorte. Mas a verdade é que a sorte
procura-se e, esta temporada, o Benfica não tem feito outra coisa.
É mais um daqueles casos em que os números não enganam e um bom indicador para avaliar o papel da sorte no futebol são os jogos que são decididos pela margem mínima. Nestes casos, sim, uma bola da equipa adversária que não entrou mas poderia ter entrado é capaz de ter feito a diferença.
Em trinta jornadas, o Benfica venceu sete jogos pela margem mínima; já o Sporting – o clube que, de acordo com Jorge Jesus, "tem ganho de forma convincente, enquanto os adversários têm ganho com sorte" – leva onze vitórias por um golo de diferença. Se acrescentarmos que muitos destes resultados foram alcançados no último minuto ou já nos descontos, estamos falados quanto a sorte.
Da mesma forma que é justo reconhecer que, aquando do início da temporada, o Benfica perdeu vários jogos e não foi por azar, também se deve reconhecer que a notável recuperação iniciada com a vitória fora em Braga (lá está, por 2-0) é fruto do trabalho que permitiu formar uma equipa coesa e com sentido coletivo. E, já agora, uma equipa que é espelho de um treinador que demonstra elevação e respeito pelo trabalho dos adversários.
publicado no Record na terça-feira
É mais um daqueles casos em que os números não enganam e um bom indicador para avaliar o papel da sorte no futebol são os jogos que são decididos pela margem mínima. Nestes casos, sim, uma bola da equipa adversária que não entrou mas poderia ter entrado é capaz de ter feito a diferença.
Em trinta jornadas, o Benfica venceu sete jogos pela margem mínima; já o Sporting – o clube que, de acordo com Jorge Jesus, "tem ganho de forma convincente, enquanto os adversários têm ganho com sorte" – leva onze vitórias por um golo de diferença. Se acrescentarmos que muitos destes resultados foram alcançados no último minuto ou já nos descontos, estamos falados quanto a sorte.
Da mesma forma que é justo reconhecer que, aquando do início da temporada, o Benfica perdeu vários jogos e não foi por azar, também se deve reconhecer que a notável recuperação iniciada com a vitória fora em Braga (lá está, por 2-0) é fruto do trabalho que permitiu formar uma equipa coesa e com sentido coletivo. E, já agora, uma equipa que é espelho de um treinador que demonstra elevação e respeito pelo trabalho dos adversários.
publicado no Record na terça-feira
sexta-feira, 15 de abril de 2016
Cinco Jogos
O rol
de resultados do Porto nas várias modalidades, nas duas últimas semanas, não
deve ter paralelos nas últimas décadas. Três derrotas consecutivas com o
Benfica no andebol (modalidade em que o Glorioso não conquistava um título há
quatro anos); eliminação das competições europeias pela Oliveirense no hóquei;
derrota com o Galitos e depois com a Ovarense no basquetebol; culminando com a
dupla jornada negra no futebol, frente ao Tondela e Paços de Ferreira.
Uma
sequência de resultados assim não pode ser fortuita ou fruto do azar – uma bola
que não entrou e podia ter entrado –, nem sequer atribuída a erros de
arbitragem. Quando os exemplos são demasiados e contrastam com a senda
vitoriosa do passado, as explicações têm de ser outras e só podem ter causas
estruturais. De igual forma que a dinâmica de vitória do Benfica, que vai
acumulando resultados positivos e conquista títulos em todas as modalidades,
parafraseando Luís Filipe Vieira depois do jogo de Munique, "não pode ter
nascido por acaso".
Não se
pense, contudo, que verto lágrimas de crocodilo pelo Porto de Pinto da Costa.
Penso mesmo que o que se está a passar é um caso de justiça poética (ou até
dourada!). A questão é outra.
Há,
neste momento, uma grande expectativa entre os benfiquistas: o Sporting perderá
pontos no dragão e o título ficará à nossa mercê. Temo que não seja assim. O
mais provável, hoje, é que o Porto perca tudo o que tem a perder. Com
consequências. Para alcançar o 35, o Benfica depende apenas de si e tem cinco
jogos para vencer.
publicado no Record
quinta-feira, 7 de abril de 2016
quarta-feira, 6 de abril de 2016
Regressar a casa
Jonas assiste com as costas e Pizzi marca. Peço desculpa, mas não me recordo de muitas assistências com as costas que tenham resultado em golo. Ainda assim, o momento do jogo não foi esse, mas o que se seguiu. Bola no fundo das redes, Jonas e Renato correm desenfreadamente a celebrar em direção à linha de fundo, para só depois se juntarem no lado oposto, em nova corrida, aos restantes colegas. A equipa festeja efusivamente, num movimento infantil, descoordenado, desprovido de rumo, como é próprio da felicidade absoluta. Sabem que mais? É aí que se encontra o segredo da senda vitoriosa do Benfica.
A inteligência subtil de Jonas é determinante, o pé-quente de Mitroglou ajuda, a titularidade de Renato deu metros verticais no centro do terreno e, num aspeto menos notado, Fejsa oferece o equilíbrio tático que faltava. Mas a génese do Benfica vitorioso tem as suas raízes noutro factor. Vislumbra-se em campo uma alegria selvagem (lá está, o efeito Renato) e um espírito de grupo como não se via no passado. O Benfica celebra os golos com uma satisfação incontida, enquanto a equipa se celebra a si própria.
No lançamento do jogo contra o Braga, Rui Vitória, comentando as longas digressões aéreas a que uma parte importante do plantel se tinha dedicado, dizia que lhe tinha agradado "ver a cara de bem estar dos jogadores ao regressar, como um regresso a casa. É sinal de que gostam de estar aqui". É nesta casa comum, onde jogadores e adeptos se reencontram, que o Benfica de hoje constrói uma maré vermelha que empurra a equipa para as vitórias.
publicado no Record de terça-feira
segunda-feira, 4 de abril de 2016
quarta-feira, 30 de março de 2016
Aquele Abraço
O que há num abraço?, podemos questionar-nos, após o movimento destemido do jovem que galgou a segurança para ir ter com Renato Sanches ter ficado como a marca do Portugal-Bulgária. Num jogo que tenderia a ficar na memória por um falhanço improvável de Ronaldo, um abraço tão caloroso como infantil tornou-se protagonista central. Faz sentido: aquele abraço teve um simbolismo que supera o ato em si.
Como tem sido dito, o Renato é um enorme talento, mas um projeto de craque, com muito para aprender. Podemos nele vislumbrar sinais de um futuro promissor. Mas não é isso que o diferencia de outros futebolistas. Pelo contrário, Renato Sanches entusiasma por ser um jogador do passado. Uma memória viva do futebol romantizado, jogado em peladinhas desorganizadas no meio da rua, entre carros estacionados e com bolas perdidas para a estrada. A euforia em torno do Renato não é direcionada ao futuro, nem ao que oferece hoje ao Benfica. É um festejo do futebol de ontem.
Depois, não vale a pena fingir que não é assim: o compromisso primordial dos adeptos é com os clubes. A Seleção é o que nos oferecem quando o futebol fica suspenso. A justa paixão dos benfiquistas pelo Renato prolonga-se para lá do Estádio da Luz. A seleção é mais uma oportunidade para celebrá-la.
Poucos têm a sorte de ter 13 anos e vestir uma camisola do Benfica com o mesmo número 24 do Renato. Mas muitos invejaram o Diogo Caleiro quando irrompeu pelo campo adentro para de forma destemperada abraçar o Renato. É que o que chamamos abraço, dado a outro que não ao Renato, não seria tão encantador.
publicado no Record de ontem
quinta-feira, 24 de março de 2016
Venceu o Manel
Todos se recordam quando Jorge Jesus, face à situação de necessidade
após a saída de Matic, disse que jogaria o Manel. A afirmação fazia todo
o sentido. Uma equipa vencedora depende do talento individual e da
existência de um onze base, mas também da capacidade de, na adversidade,
a organização coletiva ser capaz de superar as ausências.
Jorge Jesus tinha razão: numa equipa com dinâmica vencedora e com processos enraizados, pode jogar o Manel.
No Bessa, o Benfica enfrentava um teste muito exigente. Com um onze titular com demasiadas baixas, a equipa jogou com vários 'Manéis'. Jogadores que hoje são titulares e dão boa conta do recado eram, no início da temporada, terceiras e quartas escolhas. Aliás, se, em agosto, alguém dissesse que o Benfica estaria a liderar o campeonato por esta altura, com Ederson, Renato Sanches, Lindelöf, André Almeida e Nélson Semedo como titulares e Samaris adaptado a central, ninguém acreditaria.
A vitória sofrida contra o Boavista tem, por isso, vários significados. Por um lado, serve para demonstrar a estrelinha de campeão - sempre necessária nas fases avançadas das temporadas, mas que reflete também determinação e vontade de vencer; por outro, prova que o Benfica, hoje, não depende apenas da qualidade individual de um par de jogadores. Sem Gaitán, é verdade que, uma vez mais, foi Jonas a decidir, mas o que o jogo do Bessa revela é que estamos perante um coletivo personalizado, que vale como um todo. Ora é desta massa que se fazem os campeões.
publicado no Record de terça-feira
Jorge Jesus tinha razão: numa equipa com dinâmica vencedora e com processos enraizados, pode jogar o Manel.
No Bessa, o Benfica enfrentava um teste muito exigente. Com um onze titular com demasiadas baixas, a equipa jogou com vários 'Manéis'. Jogadores que hoje são titulares e dão boa conta do recado eram, no início da temporada, terceiras e quartas escolhas. Aliás, se, em agosto, alguém dissesse que o Benfica estaria a liderar o campeonato por esta altura, com Ederson, Renato Sanches, Lindelöf, André Almeida e Nélson Semedo como titulares e Samaris adaptado a central, ninguém acreditaria.
A vitória sofrida contra o Boavista tem, por isso, vários significados. Por um lado, serve para demonstrar a estrelinha de campeão - sempre necessária nas fases avançadas das temporadas, mas que reflete também determinação e vontade de vencer; por outro, prova que o Benfica, hoje, não depende apenas da qualidade individual de um par de jogadores. Sem Gaitán, é verdade que, uma vez mais, foi Jonas a decidir, mas o que o jogo do Bessa revela é que estamos perante um coletivo personalizado, que vale como um todo. Ora é desta massa que se fazem os campeões.
publicado no Record de terça-feira
quarta-feira, 16 de março de 2016
Perder Cansa
Um amigo
meu, que foi desportista de alta competição numa modalidade individual,
repete sempre que o que o levou a abandonar o circuito mundial foi já
não aguentar perder. Isso mesmo, um cansaço mental que derrotava
qualquer esperança. A questão não era física ou técnica. Era de outra
natureza.
Lembro-me sempre desta lição quando ouço uma ideia peregrina que tem feito o seu caminho nos últimos tempos: um clube pode ter vantagens caso seja eliminado prematuramente das competições europeias. Perder é benéfico porque, assim como assim, em algum momento é-se eliminado, logo quanto mais cedo melhor. Os defensores desta tese foram ao ponto de sugerir que uma vitória do Benfica contra o Zenit seria vantajosa para Sporting e Porto, pois os encarnados ficariam desgastados fisicamente e sofreriam nos jogos domésticos.
Ontem, na Luz, contra o Tondela, ficou de novo demonstrado o absurdo da teoria. Ganhar é sempre um suplemento de alma que compensa qualquer cansaço. E em fases avançadas de uma competição europeia a asserção é ainda mais verdadeira. Perder é que cansa.
Estar em várias competições ao mesmo tempo tem, contudo, um efeito: complica a vida aos treinadores. Não tanto pelo desgaste provocado nos atletas - para quem as vitórias são um fator de motivação -, mas porque para um técnico é bem mais exigente ter microciclos de treino, em lugar do conforto dos ciclos semanais. Mas essa é também uma diferença entre um clube grande e um pequeno. Nos grandes joga-se sempre para ganhar e as opções competitivas não são condicionadas pelas idiossincrasias dos treinadores.
publicado no Record de terça-feira
Lembro-me sempre desta lição quando ouço uma ideia peregrina que tem feito o seu caminho nos últimos tempos: um clube pode ter vantagens caso seja eliminado prematuramente das competições europeias. Perder é benéfico porque, assim como assim, em algum momento é-se eliminado, logo quanto mais cedo melhor. Os defensores desta tese foram ao ponto de sugerir que uma vitória do Benfica contra o Zenit seria vantajosa para Sporting e Porto, pois os encarnados ficariam desgastados fisicamente e sofreriam nos jogos domésticos.
Ontem, na Luz, contra o Tondela, ficou de novo demonstrado o absurdo da teoria. Ganhar é sempre um suplemento de alma que compensa qualquer cansaço. E em fases avançadas de uma competição europeia a asserção é ainda mais verdadeira. Perder é que cansa.
Estar em várias competições ao mesmo tempo tem, contudo, um efeito: complica a vida aos treinadores. Não tanto pelo desgaste provocado nos atletas - para quem as vitórias são um fator de motivação -, mas porque para um técnico é bem mais exigente ter microciclos de treino, em lugar do conforto dos ciclos semanais. Mas essa é também uma diferença entre um clube grande e um pequeno. Nos grandes joga-se sempre para ganhar e as opções competitivas não são condicionadas pelas idiossincrasias dos treinadores.
publicado no Record de terça-feira
sexta-feira, 11 de março de 2016
As roupas do George Martin
um video curto, que ouve as pessoas certas, e que bem podia evoluir para um documentário, vá, de 10 horas. não menos importante, fica a sugestão: o V& A podia fazer uma exposição com as roupas do George Martin à imagem da que foi feita com o Bowie.
quarta-feira, 9 de março de 2016
Zero Bazófia
No início do Sporting-Benfica, a claque leonina exibiu uma tarja
exemplar: num desenho tosco, Bruno Carvalho e Jorge Jesus, vestidos como
guerreiros medievais, de espada desembainhada e escudos ao alto, a
deitar por terra Luís Filipe Vieira. Por cima, podia ler-se – "isto é o
Sporting". Tal e qual.
O simbolismo da tarja é todo um programa. Não falo sequer do mau gosto do exercício ou a cobardia em que assenta uma contenda de dois guerreiros armados contra um peão indefeso. Quando o tema é deslealdade, não alimento ilusões. Por natureza, independentemente dos clubes, as claques são dadas a exercícios grotescos. A questão é outra.
Há, é um facto, um lado irónico na resposta dada em campo aos rugidos de campeão precoces, mas o fundamental nem sequer é isso. O que é revelador são as personagens escolhidas para serem exibidas pelas claques: presidente e treinador. A opção esquece quem são os verdadeiros protagonistas do futebol e promove um culto do presidente que é invariavelmente contraproducente. Num clube, o que conta somos nós, adeptos, e os jogadores. Tudo o resto é secundário. Não por acaso, na Luz, canta-se a glória de Cosme Damião, Eusébio e Coluna, mas a ninguém ocorreria celebrar presidentes.Esta atitude serve, agora, para recordar o essencial. Como bem disse Rui Vitória no final do jogo, "uma das coisas que caracteriza a nação benfiquista é a humildade. E sabermos que ainda há muito campeonato pela frente".
Lembram-se do "bailando"? Uma vez mais, ao Benfica compete fazer diferente do que o Sporting tem feito. Humildade e zero bazófia. Combinado?
publicado no Record de terça-feira
O simbolismo da tarja é todo um programa. Não falo sequer do mau gosto do exercício ou a cobardia em que assenta uma contenda de dois guerreiros armados contra um peão indefeso. Quando o tema é deslealdade, não alimento ilusões. Por natureza, independentemente dos clubes, as claques são dadas a exercícios grotescos. A questão é outra.
Há, é um facto, um lado irónico na resposta dada em campo aos rugidos de campeão precoces, mas o fundamental nem sequer é isso. O que é revelador são as personagens escolhidas para serem exibidas pelas claques: presidente e treinador. A opção esquece quem são os verdadeiros protagonistas do futebol e promove um culto do presidente que é invariavelmente contraproducente. Num clube, o que conta somos nós, adeptos, e os jogadores. Tudo o resto é secundário. Não por acaso, na Luz, canta-se a glória de Cosme Damião, Eusébio e Coluna, mas a ninguém ocorreria celebrar presidentes.Esta atitude serve, agora, para recordar o essencial. Como bem disse Rui Vitória no final do jogo, "uma das coisas que caracteriza a nação benfiquista é a humildade. E sabermos que ainda há muito campeonato pela frente".
Lembram-se do "bailando"? Uma vez mais, ao Benfica compete fazer diferente do que o Sporting tem feito. Humildade e zero bazófia. Combinado?
publicado no Record de terça-feira
quarta-feira, 2 de março de 2016
e os adeptos?
Por motivos meteorológicos, esta crónica não é sobre o Benfica-União.
A razão é simples: à hora para a qual o jogo foi remarcado, o autor
destas linhas estava a dar aulas. Mas não podendo escrever sobre o
Benfica, ganhei um bom pretexto para me dedicar ao calendário da Liga e à
incapacidade de se proceder à marcação dos jogos com um mínimo de
antecedência.
Nesta altura, sabemos a que horas são os jogos da próxima jornada, mas nada é conhecido sobre a seguinte (disputada a 13 de março). É mais um daqueles absurdos em que o futebol português é vezeiro e um desrespeito pelos (poucos) adeptos que escolhem ir ao estádio, em lugar de verem futebol televisionado.
Pense-se num adepto dos três grandes, que gostava mesmo de poder assistir a todos os jogos do seu clube. Se tem esse objetivo, resta-lhe trancar todos os fins de semana e rezar para que ninguém se lembre de marcar aquele almoço de família a que não pode mesmo faltar. É que nunca se sabe se o jogo vai ser à sexta, sábado, domingo ou até segunda-feira. Muito menos a hora certa. É uma lotaria.
Não há nada de específico no futebol português que impeça alguma planificação, que permita aos adeptos organizarem-se para irem aos estádios. Compare-se com o bem mais complexo calendário da NBA (mais equipas, distâncias maiores, mais intempéries e mais canais a transmitirem partidas). Neste caso, é possível saber dia e hora exata de todas as partidas até ao fim da fase regular.
Talvez fizesse sentido criar um provedor do adepto para defender quem gosta de futebol. Esperem, o cargo já existe e, como seria de esperar, ninguém dá pela sua existência.
publicado no Record de terça-feira
Nesta altura, sabemos a que horas são os jogos da próxima jornada, mas nada é conhecido sobre a seguinte (disputada a 13 de março). É mais um daqueles absurdos em que o futebol português é vezeiro e um desrespeito pelos (poucos) adeptos que escolhem ir ao estádio, em lugar de verem futebol televisionado.
Pense-se num adepto dos três grandes, que gostava mesmo de poder assistir a todos os jogos do seu clube. Se tem esse objetivo, resta-lhe trancar todos os fins de semana e rezar para que ninguém se lembre de marcar aquele almoço de família a que não pode mesmo faltar. É que nunca se sabe se o jogo vai ser à sexta, sábado, domingo ou até segunda-feira. Muito menos a hora certa. É uma lotaria.
Não há nada de específico no futebol português que impeça alguma planificação, que permita aos adeptos organizarem-se para irem aos estádios. Compare-se com o bem mais complexo calendário da NBA (mais equipas, distâncias maiores, mais intempéries e mais canais a transmitirem partidas). Neste caso, é possível saber dia e hora exata de todas as partidas até ao fim da fase regular.
Talvez fizesse sentido criar um provedor do adepto para defender quem gosta de futebol. Esperem, o cargo já existe e, como seria de esperar, ninguém dá pela sua existência.
publicado no Record de terça-feira
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
Bolas de Papel
Se tiver de escolher a maior injustiça do Benfica dos últimos anos,
não hesito: Aimar não teve uma despedida condigna. Pode soar estranho.
Afinal o argentino aproximava-se do fim da carreira e saiu a bem do
clube. Mais, se olharmos para as estatísticas, o mago argentino acabou
por não ter uma passagem muito frutuosa: cinco temporadas atormentadas
por lesões, 178 jogos e uns parcos 17 golos.
Escrito assim, o pecúlio parece magro. Mas o futebol não é lugar para análises custo-benefício e eu já vi o suficiente na Luz para saber que, no meio de burocratas da bola, Aimar garantia a ruptura com o futebol administrativo que, hoje, nos oferecem em excesso. Na ideia que tenho do Benfica, as vitórias são feitas de golos e avalanches atacantes, mas também de últimos passes líricos. Ora, entre organização coletiva, processos de jogo e outros exercícios técnico-táticos, Aimar esteve sempre lá para mostrar que outro mundo futebolístico continua a ser possível.
Recordei-me disto ao ver uma fotografia de promoção ao livro 'Pelota de Papel'. Um conjunto de contos, escritos por futebolistas, para recuperar a memória infantil de imaginar jogos de futebol disputados com folhas de papel amarrotadas pelo estudo. Na foto, El Payaso, autor de um dos contos, veste uma t-shirt dos New Order e empunha uma bola de papel na mão. Era a ligação que me faltava. Aimar é a memória do porquê nos enamorámos pelo futebol: com ele em campo, voltámos a ser crianças que sonham com bolas de papel. É altura de o convidarmos para a volta de honra que não teve na Luz.
publicado no Record de terça-feira
Escrito assim, o pecúlio parece magro. Mas o futebol não é lugar para análises custo-benefício e eu já vi o suficiente na Luz para saber que, no meio de burocratas da bola, Aimar garantia a ruptura com o futebol administrativo que, hoje, nos oferecem em excesso. Na ideia que tenho do Benfica, as vitórias são feitas de golos e avalanches atacantes, mas também de últimos passes líricos. Ora, entre organização coletiva, processos de jogo e outros exercícios técnico-táticos, Aimar esteve sempre lá para mostrar que outro mundo futebolístico continua a ser possível.
Recordei-me disto ao ver uma fotografia de promoção ao livro 'Pelota de Papel'. Um conjunto de contos, escritos por futebolistas, para recuperar a memória infantil de imaginar jogos de futebol disputados com folhas de papel amarrotadas pelo estudo. Na foto, El Payaso, autor de um dos contos, veste uma t-shirt dos New Order e empunha uma bola de papel na mão. Era a ligação que me faltava. Aimar é a memória do porquê nos enamorámos pelo futebol: com ele em campo, voltámos a ser crianças que sonham com bolas de papel. É altura de o convidarmos para a volta de honra que não teve na Luz.
publicado no Record de terça-feira
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Mea Culpa
Assim que termina um clássico, logo se inicia um jogo de identificação
de culpados pelo resultado: o treinador que leu mal a partida; o central
que claudicou no momento-chave; as substituições feitas a destempo.
Pouco importa: quando se perde há sempre uma responsabilidade
individual.
Chegados a terça-feira, as responsabilidades na derrota do Benfica já foram escalpelizadas, mas, desculpem-me o egocentrismo, houve uma que ainda não vi mencionada. A culpa foi minha. Isso mesmo, o Benfica perdeu por minha causa. A razão é simples – não estive no estádio a apoiar a equipa.
Tenho justificações.Numa daquelas excentricidades do futebol português, o jogo foi marcado em cima da hora para uma obtusa sexta-feira à noite. Com bilhetes na mão para um concerto do jovem talento do saxofone Ricardo Toscano, fui impelido a trocar o meu Red Pass pelo jazz. Os resultados são os conhecidos. Enquanto me deixava levar pelo fraseado de pendor clássico de Toscano, o Benfica perdia.
Se me responsabilizo pela derrota, não quero que vejam nisto nenhum misticismo ou superstição. A explicação é outra. Sendo o futebol uma coreografia de solos, ainda que assente no coletivo (lá está, o paralelismo com o jazz), o bom desempenho da equipa depende da audiência. O Benfica existe enquanto prolongamento dos adeptos na bancada e se um de nós falha, é como se toda a organização ruísse. Desta vez, foram a minha voz e o meu sofrimento a faltarem no estádio – o que estou convencido fez toda a diferença. Mas não se apoquentem, hoje estarei na Luz a empurrar a equipa para a frente.
publicado no Record de hoje
Chegados a terça-feira, as responsabilidades na derrota do Benfica já foram escalpelizadas, mas, desculpem-me o egocentrismo, houve uma que ainda não vi mencionada. A culpa foi minha. Isso mesmo, o Benfica perdeu por minha causa. A razão é simples – não estive no estádio a apoiar a equipa.
Tenho justificações.Numa daquelas excentricidades do futebol português, o jogo foi marcado em cima da hora para uma obtusa sexta-feira à noite. Com bilhetes na mão para um concerto do jovem talento do saxofone Ricardo Toscano, fui impelido a trocar o meu Red Pass pelo jazz. Os resultados são os conhecidos. Enquanto me deixava levar pelo fraseado de pendor clássico de Toscano, o Benfica perdia.
Se me responsabilizo pela derrota, não quero que vejam nisto nenhum misticismo ou superstição. A explicação é outra. Sendo o futebol uma coreografia de solos, ainda que assente no coletivo (lá está, o paralelismo com o jazz), o bom desempenho da equipa depende da audiência. O Benfica existe enquanto prolongamento dos adeptos na bancada e se um de nós falha, é como se toda a organização ruísse. Desta vez, foram a minha voz e o meu sofrimento a faltarem no estádio – o que estou convencido fez toda a diferença. Mas não se apoquentem, hoje estarei na Luz a empurrar a equipa para a frente.
publicado no Record de hoje
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
A Geringonça
E não é que, contra as expectativas dos mais céticos (entre eles o autor
destas linhas), a geringonça não só está a funcionar, como revela uma
atitude vencedora, dá espetáculo e põe os adversários sob pressão. Quem
diria que o que nasceu errático e a oferecer uma vantagem aos
adversários que parecia irrecuperável é, agora, candidato à revalidação
do título?
Poucos, certamente. Mas seja por força do efeito Renato – que, com uma vitalidade juvenil, joga por dois ou três e empurra a equipa para a frente; seja pela estabilização do onze titular ou porque o trabalho de Rui Vitória começou a frutificar, a verdade é que se o Benfica vencer o Porto na Luz passará a ser o principal candidato ao título.
A razão é simples: no terço final do campeonato, o que conta não é apenas a qualidade do futebol ou a disponibilidade física dos jogadores (duas dimensões em que, agora, o Benfica leva vantagem), é, também, a capacidade para gerir emocionalmente a equipa. Quanto a isso, o excesso de confiança (e a fanfarronice) do Sporting serão adversários temíveis do próprio Sporting. Já o Benfica, que começou como uma equipa frágil e desequilibrada, derrotada sucessivamente pelos de Alvalade, tem, por contraste, a seu favor as baixas expectativas com que iniciou o campeonato, a cultura de vitória dos jogadores, a estabilidade emocional da direção e a sensatez do treinador.
Pode bem dar-se o caso de, no futebol como na política, o que nasceu como uma geringonça, afinal, revelar pernas para andar e durar mais tempo e ter mais qualidade do que o inicialmente aventado.
publicado no Record de terça-feira
Poucos, certamente. Mas seja por força do efeito Renato – que, com uma vitalidade juvenil, joga por dois ou três e empurra a equipa para a frente; seja pela estabilização do onze titular ou porque o trabalho de Rui Vitória começou a frutificar, a verdade é que se o Benfica vencer o Porto na Luz passará a ser o principal candidato ao título.
A razão é simples: no terço final do campeonato, o que conta não é apenas a qualidade do futebol ou a disponibilidade física dos jogadores (duas dimensões em que, agora, o Benfica leva vantagem), é, também, a capacidade para gerir emocionalmente a equipa. Quanto a isso, o excesso de confiança (e a fanfarronice) do Sporting serão adversários temíveis do próprio Sporting. Já o Benfica, que começou como uma equipa frágil e desequilibrada, derrotada sucessivamente pelos de Alvalade, tem, por contraste, a seu favor as baixas expectativas com que iniciou o campeonato, a cultura de vitória dos jogadores, a estabilidade emocional da direção e a sensatez do treinador.
Pode bem dar-se o caso de, no futebol como na política, o que nasceu como uma geringonça, afinal, revelar pernas para andar e durar mais tempo e ter mais qualidade do que o inicialmente aventado.
publicado no Record de terça-feira
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
Expectativas
-->
publicado no Record de terça-feira
As
expectativas jogam a favor do Benfica. Começou a época com uma gestão errática
da saída do treinador carismático, a jogar um futebol titubeante e com
resultados que deitavam tudo a perder. O campeonato parecia entregue a uma
disputa a dois, entre Sporting e Porto.
O
Benfica só podia melhorar e melhorou para além do que parecia possível. O
Benfica de 2016 joga um futebol enleante e que chega à baliza com uma
facilidade ímpar. De tal forma que, hoje, a história é outra: o Benfica só
depende de si próprio, é candidato ao tri e tem do seu lado o facto de estar em
crescendo, enquanto Sporting e Porto, de modos diferentes, parecem enfrentar
bloqueios exibicionais e de resultados, muito por força de uma instabilidade
que começa nas direções e se prolonga dentro do campo.
Por
ter começado mal, o Benfica tem as expectativas do seu lado. Mas, também, é
verdade que, agora, Rui Vitória tem para gerir um daqueles problemas que nenhum
treinador desdenha: as expectativas dos jogadores que eram segundas escolhas e
aproveitaram a oportunidade para agarrar a titularidade.
Se
no início da temporada, a equipa jogava pouco e parecia ter um plantel com
poucas soluções, na hora atual, começa a ser necessário gerir as justas
expectativas de Carcela que fez bem o lugar de Gaitán, de Lisandro que fez
esquecer a ausência de Luisão e até de André Almeida que substituiu Nélson
Semedo. Se juntarmos a ambição de Talisca, Guedes e Jiménez, com o regresso dos
titulares naturais, Vitória fica com um outro problema de gestão de
expectativas. Mas igualmente positivo.
publicado no Record de terça-feira
Subscrever:
Mensagens (Atom)




